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Incursões

Instância de Retemperação.

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O que fazer com a extrema-direita?

José Carlos Pereira, 04.09.20

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A extrema-direita em Portugal não nasceu com André Ventura e com o Chega. Muitas das suas bandeiras eram há muito esgrimidas em alguns sectores da sociedade portuguesa. O preconceito perante os imigrantes e os refugiados, a discriminação face aos ciganos, o racismo ou a defesa da pena de morte andavam na boca de muita gente. E as redes sociais acabaram por catapultar esses desabafos de café para a esfera pública.

Se a isto se juntar a situação económica difícil de milhares de pessoas, a desconfiança latente em relação aos poderes públicos e o sentimento de injustiça (ou inveja, vá...) perante a situação privilegiada de algumas classes sociais e profissionais, está encontrado o caldo que levou  André Ventura para a Assembleia da República (AR) e lhe proporcionará um resultado significativo nas próximas eleições presidenciais.

Aqui chegados, os partidos do sistema e os analistas políticos interrogam-se sobre a melhor forma de lidar com o populismo de Ventura. Deixá-lo a falar sozinho, desvalorizando-o? Ou combater a sério as suas propostas, não lhe facilitando o caminho? Dúvidas que já se colocaram em muitos países por essa Europa fora.

André Ventura é um oportunista, que diz tudo e o seu contrário para alcançar a notoriedade que pretende. Já vimos as enormes diferenças de valores e princípios entre o que defendia nos seus papers académicos e o que agora preconiza no Chega. Em 2017, era candidato a presidente de uma importante autarquia da área metropolitana de Lisboa por um partido com os valores do PSD, mas dois anos depois estava a ser eleito para a AR com bandeiras xenófobas e racistas. Emergiu como comentador futebolístico, mas nunca interveio para denunciar as práticas criminosas sob investigação no seu clube, logo ele que está sempre de mira apontada a tudo e a todos.

Até agora, o Chega tem-se praticamente esgotado em André Ventura e espera-se que novos dirigentes dêem a cara para que se conheça bem o que os motiva e a massa de que são feitos. Tal como os empresários que têm apoiado financeiramente e incentivado André Ventura.

O que fazer com a extrema-direita e com o Chega em particular? Não transigir, denunciar, apontar, desmascarar sempre! Um partido com os valores do Chega não se pode sentar à mesa para negociar com gente decente. André Ventura pode conversar com os grupos violentos de extrema-direita que já têm histórico de crimes e até de mortes, mas nunca poderá ser visto como um parceiro confiável por partidos estruturantes da nossa democracia como o PSD ou o CDS. Se há linhas vermelhas em política, esta é uma delas. Convém lembrar Rui Rio disso mesmo, pois não há moderação que salve o Chega.

À direita, há quem defenda que, se o PS pode negociar com PCP e Bloco, também os partidos de direita podem conversar com o Chega. Ora, uma coisa nada tem a ver com a outra. Ainda que, neste ou naquele dirigente, possa haver uma simpatia mal disfarçada por regimes ditatoriais e anacrónicos como Cuba ou Venezuela, isso deve ser levado à conta de...comunhão histórica. Na prática do dia-a-dia, nos valores enunciados e nas políticas defendidas, nunca vimos nos partidos de esquerda o desprezo pelos valores dos direitos humanos. Pelo contrário, estamos habituados a vê-los pugnar sempre pelos direitos dos mais desprotegidos, por melhores salários e condições de vida, por mais investimento público na saúde ou na educação. Por mais igualdade e oportunidades.

Por último, constata-se que o crescimento do Chega veio dar força e coragem a alguns movimentos racistas e xenófobos, que saíram do armário e se sentem legitimados para manifestações como a que recentemente evocou o hediondo "KKK". Uma realidade lastimável para o Portugal do séc. XXI e que nos obriga a estar permanentemente atentos e vigilantes. Sem qualquer moderação.