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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Mar19

Au bonheur des dames 475

d'oliveira

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Instantâneo na cafetaria

mcr (nos idos de Março)

 

Odeio a apalavra “cafetaria”: trata-se de um espanholismo mais do que dispensável mas que se impôs devido ao desuso de “café”. Hoje, os estabelecimentos do género foram desaparecendo ou transformaram-se em pastelarias-padarias, com um vago serviço de refeições que, elas mesmas, não são exactamente almoços e, muito menos, jantares, mas apenas um desafogo da fome que nos dá por volta do meio-dia, uma hora.

Eu, que já não me posso considerar uma novidade (eis outra palavra decaída: dantes novidade era bem mais do que uma notícia acabada de chegar. Significava também alimentos frescos, da estação, entre muitas outras coisas. Novidade era frescura, algo que, no capítulo da alimentação também já vai carecendo de sentido) ainda recordo os grandes cafés de antigamente, aqueles a que se era fiel toda uma vida, onde se podia até receber o correio e recados variados.

Havia cafés que além dos salões de jogo e dos bilhares ainda ofereciam outros serviços. O “Montecarlo” em Lisboa até tinha barbeiro, vejam lá. Para já não falar dos engraxadores, oficiais de ofício humilde mas útil que nos davam um ar novo e resplendente ao sapato. Hoje, também, os sapatos de couro vão desaparecendo, melhor dizendo, vão-se reduzindo a uma clientela rica, a única que pode dar-se ao luxo de comprar sapatos portugueses de grande qualidade e preço compatível.

Mas os cafés lá vão acabando, tornando-se mais pequenos, mais cafetarias, já quase não há bilhares e os que há são de snooker, ou melhor de uma variante do snooker que é bem distinta e mais fácil do que aquela modalidade que o Eurosport oferece amiúde e me põe doente só de ver como aqueles jogadores dominam a arte. Eu tenho cá por casa uma mesa de bilhar, bilhar francês , versão normal, nada daquelas grandes mesas onde se jogavam partidas “às três tabelas”. Mesmo assim, já não tenho parceiros e contento-me em jogar sozinho contra mim próprio o que, convenhamos, é pouco interessante.

 

Mas, como escrevia, estou na “cafetaria”. Contra o costume é agradável, o serviço é eficiente, há algumas ofertas originais para petiscar e, no inverno, há uma lareira enquanto que, no verão há ar condicionado. E fica mesmo em frente da porta da garagem...

 

Ao meu lado, uma senhora escreve com a mão esquerda. Canhota, portanto. Que inveja lhe tenho. Sou canhoto, canhotíssimo faço tudo com a esquerda, menos escrever. Naquele tempo, a escola primária (que alguém dizia que era “risonha e franca”) não estava preparada para meninos canhotos. Fui obrigado a aprender a escrever com a mão direita. Nem sequer me passou pela cabeça queixar-me em casa. Quando, muito mais tarde, falei disso, o meu pai perguntou-me porque é que eu calara aquela horrenda violência. Tarde piei...

Durante anos a minha caligrafia era mais indecifrável que o linear b. Tive de aprender a desenhar a letra. E tão bem o fiz que toda a gente ma gabava. Só eu me queixava de tantos anos de tentativas e de não ter aprendido a escrever com a mão que faz tudo.

Nem imaginam quanto me custa ver outros a usar a esquerda para escrever. E parece que se multiplicam esses canhotos felizes, raios os levem.

É verdade que (com grande dificuldade, há que dizê-lo) consigo escrever com a esquerda mas o que sai é uma caligrafia miseravelmente infantil, sinal indelével de um tempo outro em que, sob outro nome, já havia um politicamente correcto provavelmente menos perigoso e imbecil que o actual.

Vivemos, como afirmava o poeta, tempos realmente extraordinários, em que tudo parece possível e, ao mesmo tempo, extremamente perturbantes: há por aí alguém que seja capaz de me explicar o que se passa com os ingleses, melhor dizendo, os britânicos? Que é que aquela gente quer? Se é verdade que irlandeses e escoceses (e boa parte das classes mais educadas e jovens) votaram contra o Brexit, se como tudo parece indicar, a vida tornar-se-á mais complicada ecara para todos, como é que houve tanta gente a preferir sair da Europa?

O caso mais extraordinário é o do País de Gales grande beneficiário dos fundos europeus e maioritariamente contra a mão que trazia uma cornucópia de euros. Também não deixa de parecer extravagante que seja um pequeno partido do Ulster p principal apoio da senhora May uma fraca cópia de Margareth Tatcher, a dama de ferro. Uma fronteira a sério nessa ilha poderá trazer (ou trará inexoravelmente) a guerra civil larvar que ausou milhares de mortos e consequente miséria mesmo à minoria protestante irlandesa. Sobretudo, quando se vê actualmente uma República da Irlanda próspera e liberta da férula católica que a asfixiava. A Grécia, há pouco tão incensada, por alguns radicais portugueses (que entretanto já não podem ver o senhor Tsipras, herói decaído das senhoras mais representativas do BE (será que o substituíram pelo grande burguês Varufakis ou mais tolamente ainda pelo venezuelano Maduro ou pelos resquícios autoritários do sandinismo que atormentam a Nicarágua?)

E já que se mencionou a Venezuela, então o famoso apagão da semana passada é obra dos americanos? Isto quando se sabe que a principal central eléctrica (Guri) esta sem manutenção há mais de dez anos e reduzida a um terço ds suas possibilidades, como desde há dez anos já se afirmava. Se não foi o traiçoeiro Trump foi o senhor Guaidó... espantalho conveniente num país one há anos falta tudo excetpo a fome, as prisões políticas e os mortos em manifestações pacíficas.

Eu, que já não sou uma novidade, ainda me lembro de um famoso apagão em Nova Iorque que teve consequências tremendas. Olha se os americanos se tivessem lembrado dos mais recentes inimigos vietnamitas (a guerra durou até 1975) ou do “inimigo interno” (estudantes protestatários, black panthers ou outros grupos negros de direitos civis) o que não se teria então dito. Pelos vistos, agora, a versão de Maduro obtém o assentimento beatífico de meia dúzia de cidadãos portugueses, alguns dos quais piedosamente calados durante o Estado Novo. Naquela época o silêncio destes agora buliçosos indignados e venezuelófilos (o neologismo é da minha responsabilidade) permitia conservar os empregos na função pública e escapar ao serviço militar nas colónias, nas frentes de guerra activas e perigosas.

Raios me partam, canhoto que sou, não percebi que estar calado poderia ter-me evitado tantos dissabores e, ao mesmo tempo, permitiria apresentar-me, hoje, de cara lavada e impecável (mas imaginativa) folha de serviços anti-fascistas, anti-imperialistas e anti mais qualquer outra coisa que me viesse à ideia ou estivesse na moda.

Dia seguinte:

Entretanto, mudei de poiso matinal. Na esplanada de sempre com vista desafogada para o jardim. O sol (primavera antecipada que iremos pagar com uma valente seca lá mais para o verão) entra pela vidraça do teto e acerta-me em cheio na cabecinha pensadora. O sr. Luís, dono do pequeno local jura que já encomendou uns panejamentos de lona para proteger a clientela mais sensível a estes excessos luminosos. Só que... ”o sr. dr. Já sabe. Neste país tudo é para se ir fazendo e nada para se fazer já. A encomenda foi feita no ano passado e já vamos em Março...”, lamenta-se.

É bem verdade. Vivemos de projectos, de promessas, de antecipar o futuro para melhor prolongar o passado pegajoso, lento e ineficaz que trazemos no ADN.

Veja-se, para não ir mais longe, o triunfo daquela triste criatura que comanda a lista do PS às europeias. No seu mandato, as promessas acumularam-se. No que toca à ferrovia foi o que se viu. A realidade, sempre essa miserável que só faz desfeitas aos políticos, é menos buliçosa: faltam comboios, falta pessoal de manutenção, as linhas do Oeste (Figueira da Foz –Lisboa), do Algarve e do Sueste funcionam ao pé coxinho, melhor dizendo com os dois pés coxinhos. Em todas as circulações eliminaram-se comboios e, mesmo assim, o atraso é a regra. As linhas de Sintra e de Cascais que carreiam para Lisboa, centenas de milhares de trabalhadores, tem horários rarefeitos tem menos composições, e as que ainda circulam já deveriam estar retiradas por terem ultrapassado há anos o prazo de validade. Um dia destes há uma desgraça e vai-se a ver nunca aparecerão responsáveis. Ou aparecem os do costume, uns desgraçados que não mandam nada, que ganham uma miséria e que são obrigados a conduzir aquilo, aquelas latas de sardinha sobrecarregadas sob pena de, se o não fizerem, se reclamarem, se denunciarem o previsível naufrágio, serem despedidos.

Os polícias manifestaram-se: parece que no que toca a aos de serviço perdidos ainda estão pior que os professores. Parece também que não há subsídio de risco, que não lhes é reconhecido o estatuto de profissão de desgaste rápido, que as esquadras (ou uma significativa parte delas continuam a ter deploráveis condições, para já não falar na falta de viaturas e de outros meios. Felizmente que os criminosos indígenas são mansos e, muito portuguesmente, pouco activos. A apregoada segurança dos cidadãos deve-se não à capacidade policial mas apenas à frouxidão endémica do crime local de baixa produtividade o que, aliás, está de acordo com as mais recentes estatísticas sobre o trabalho nacional. Há males que vem por bem!

* a ilustração: acidente de comboios em Alfarelos. 

 

08
Mar19

Au bonheur des dames 474

d'oliveira

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o oito de março devia ser todos os dias, há de ser todos os dias

mcr, 8.3.2019

 

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
Non sa come andare avanti
se la prende coi padroni, se la prende coi padroni e con i santi
E dio si arrabbia e non la vuole più.

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
Sta a guardare le signore
e si chiede che cos’hanno, e si chiede che cos’hanno di migliore.

Non ha tempo per i figli
Crescono in casa come conigli
Si lamenta del suo stato
Produrre, far l'amore e fa’ ‘l bucato.

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
ha perduto la pazienza, 
non le va di fare più, non le va di fare più la riverenza
E Dio si arrabbia e non la vuole più.

 

para Anna Maria O., florentina, ourives, a quem num momento de estravagante mas nunca lamentada loucura amororosa ofereci "Portogallo mio rimorso" de Alexandre O' Neil . Demorei mais de trinta anos a reencontrar o livrihoe outros tantos a não esquecer este amor de verão su la spiagia, stessa spiagia, stesso mare...

(leitoras - se as há, a letra da canção vai no original pois parece fácil de traduzil e  mais de entender)

*na gravura: "maternidade" etnia Bulu 

08
Fev19

Au bonheur des dames 472

d'oliveira

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Isto é como as cerejas

mcr 7/8 de Fevereiro 

O Sr. Presidente da República foi ao bairro Jamaica porque a) é o presidente de todos os portugueses; b) não pede o cadastro criminal a quem o abraça e se fotografa com ele.

Nada a opor. Nada é um modo de dizer. Corre nos meios próprios um processo sobre o que realmente se passou durante uma intervenção policial. Tudo indica que alguns moradores, mormente uma família jubilosamente fotografada com o mais alto magistrado da Nação, se envolveram num confronto duro com agentes policiais. Segundo uma testemunha do mesmo bairro foi “natural que um dos agressores civis tivesse atacado um ou vários policiais porquanto um (ou vários) destes estariam a agredir um familiar”. Isto passou vezes sem conta na televisão e as imagens não permitem verificar quem começou o confronto. Verdade se diga que essas imagens vem de um habitante local e não é garantido que não tenham sido manipuladas antes de serem dadas à publicidade por alguém.

O sindicato dos polícias terá reagido duramente afirmando que o presidente tomou partido por uma das partes ao mesmo tempo que se tem sistematicamente negado a verificar as condições a que os agentes estão submetidos (desde a miserável situação de muitas esquadras onde não há condições de qualquer espécie até à falta de meios. O sindicato acrescenta que a exígua força policial em causa foi chamada ao bairro para pôr fim a uma zaragata; que qualquer entrada em muitos bairros degradados se torna sempre problemática devido à hostilidade dos residentes; finalmente, que estas situações de embate e confronto resultam sempre em violência bilateral porquanto a polícia, na eminência de uma agressão, reage com violência igual ou superior à usada contra ela.

É perante este cenário complexo que a visita particular do Senhor Presidente não pode ser considerada especialmente oportuna e, muito menos, a fotografia festiva com a família envolvida nos acontecimentos. Provavelmente, houve mais selfies (o Senhor Presidente não é exactamente avaro desse tipo de manifestações conviviais a pontos de eu chegar a pensar que sou o último português a não estar no álbum de selfies presidenciais) com outros moradores mas a que chegou a todas as redacções foi esta. Dir-se-á que nada disto coloca o PR no pelourinho mas também não deixa de ser compreensível a indignação dos polícias. Claro que, mais dia, menos dia, S.ª Ex.ª visitará de surpresa uma esquadra degrada e aí haverá outro festival fotográfico provavelmente sem abraços que os agentes não são exactamente civis mas que poderá ser brandido como resposta a esta pequena querela que, de todo o modo, é significativa da onda populista que o Dr. Rebelo de Sousa, por fas ou por nefas, inaugurou.

Ninguém quer um “presidente ensimesmado em Belém” (sic, Amílcar Correia, Público de 6.2.19) mesmo se a frenética actividade de MRS pareça um tanto ou quanto desajustada da função presidencial, mormente a sua deslocação ao Panamá (oficial ou privada?) por ocasião das jornadas mundiais da juventude católica. O Senhor Presidente de jovem já não tem nada, excepto os netos, a República é laica mesmo se qualquer pessoa de bom senso reconheça que a Igreja Católica tem por cá bastante peso e, sem favor, se posa considerar um dos factores estruturantes de Portugal. Basta lembrar que D Afonso Henriques não descansou enquanto não obteve – a troco de grossa soma de morabitinos ou moeda semelhante – o reconhecimento papal do Reino.

Acho muito bem que MRS dê público testemunho da sua fé, que entre em procissões religiosas ou que comungue amiúde. A religião de cada um é um assunto de cada um e, enquanto isso não importunar a dos outros ou o ateísmo de alguns, parece bem que exista e cresça num clima de liberdade e sadia concorrência com todas as restantes fés religiosas e com a liberdade pessoal de todos e cada um em geral.

Todavia, e para terminar, conviria lembrar ao Senhor Presidente a frase latina (sempre útil e particularmente adequada ao momento) “est modus in rebus”.

 

2 (a cor do rosto)

Num debate pouco pacífico, sempre sobre o Jamaica (o bairro e não a ilha do Caribe onde músicos geniais e corredores de velocidade pura parecem pulular) o senhor Primeiro Ministro respondeu a uma reiterada pergunta da senhor deputada Assunção Cristas que ela ao questioná-lo sobre se condenava ou não as violências ocorridas no bairro, entendeu chamar à colação a cor da sua pele numa (pouco) subtil acusação de racismo da oponente. Cristas ficou espantada, a Assembleia pasmou e Ferro Rodrigues teve mesmo de chamar a atenção do beligerante Costa para a irremediável tolice proferida.

Fora um que outro motorista de táxi, nunca ouvi ninguém chamar a Costa “preto” ou “monhé”. Houve, é certo uma campanha eleitoral em que Costa aparecia rosadinho como um leitão antes de ir ao forno mas isso foi uma burrice do fotoshop partidário que terá entendido não dever mostrar alguém com ligeiros traços de mistura de raças. A cor da pele, em Portugal só é acusação quando o seu portador é pobre (ou cigano, claro mas mesmo aí a coisa não é generalizada). Chineses e indianos (ou nepaleses que agora são muitos) passam despercebidos nesta guerra de cores.

Que bizarra razão terá impelido Costa para vir a terreiro com a sua cor quando há na Assembleia, no governo e nas elites nacionais, várias pessoas “de cor”. Mais: o partido da senhora Cristas teve – e tem – vários cavalheiros de origem indiana, de nomes até indianos, de religião hindu para não falar de mestiços de origem africana. Provavelmente mais, em proporção ou mesmo absolutamente do que o PS (ou o PC ou o BE).

Alguns (míopes) adeptos de Costa juram que Cristas o provocou. Não sou dessa opinião mas, mesmo que isso tivesse ocorrido, um político frio como Costa poderia (e deveria) manter-se impassível e não abrir esta estúpida, inútil e perigosa guerra das cores.

O desnorte da sua resposta deixa-me (e deveria deixar-nos a todos) inquieto. Muito inquieto.

 

Sapateiro, não passes da sandália!

 

O sr. Ministro Matos Fernandes, além de usar barba, é uma pessoa simpática. E tinha, até à data, dado mostras de bom senso e ponderação, qualidades inestimáveis (e pouco frequentes) num político indígena.

Todavia, embalado pela razoável aceitação do pópulo lusitano, entendeu falar do que não sabe nem, aliás, necessita de saber. A saber (perdoem a duplicação): o fim dos motores a diesel.

Disse S.ª Senhoria em tom professoral que os compradores de veículos a diesel deveriam ter juízo e pensar que daqui a cinco anos o valor de troca dos seus veículos seria bem menos razoável do que o que esperariam. Ou seja, o senhor Ministro passou a certidão de óbito destes motores de explosão. “Vem aí o eléctrico”, terá acrescentado.

S.ª Ex.ª exagerou ligeiramente. Quer no futurar, quer na análise do presente. Vejamos:

Em Portugal o peso dos veículos eléctricos é de 1,8% e daqui a um lustro (ai que bela oportunidade para usar esta esquecida palavra!) andará, se o preço baixar muito (muitíssimo) e se a bolsa dos portugueses engordar significativamente, pelos 30/40%. Estes dois “SE” são , há que convir, bastante incertos sobretudo se os quisermos juntos. Digamos, para abreviar, que isso seria a cereja em cima do bolo (estão a ver a pouco subtil referencia ao título do presente folhetim?) mas que os tempos não são assim tão promissores para dar a coisa por favas contadas.

As grandes marcas internacionais não parecem tão seguras. Provavelmente, não tem as luzes proféticas do senhor ministro. Nem a sua presciência... O prazo para as coisas serem como o Ministro Matos Fernandes prediz é, segundo as marcas, mais do dobro.

Mas há mais: ao contrário do que alguns mal avisados seguidores do senhor Ministro afirmam, num arroubo beato de admiração, neste momento a venda de diesel é ainda superior à dos veículos a gasolina. Os “SUV” estarão na base desta escolha mesmo se, de facto, um carro a diesel só seja rentável a partir dos 30.000 km/ano. Porém, uma coisa é economia, outra o gosto pessoal. E a malta anda entusiasmada com os SUV. Não há volta a dar-lhe...

E volta a haver mais, muito mais: o preço (oh medonha palavra!) dos veículos eléctricos!

Mudei, recentemente, de carro. Tenho o péssimo hábito de pagar a pronto (Horroriza-me andar anos a dever dinheiro). E, contas feitas , saio a ganhar.

Ora o carro eléctrico (e não falo dos Tesla ou do Jaguar I Pace, é sempre acima dos € 50.000) como o “modesto” Nissan leaf que andará à volta dos 35.000. Ou seja: estes veículos custam uma pancada de euros. São caros para 98% dos portugueses. Ponto, parágrafo!

E outra vez mais, que isto não para. A autonomia. Os melhores modelos não ultrapassam os 500 km. Ou seja nem para uma ida e volta de Lisboa ao Algarve! Mas, diria o melífluo ministro, há postos de recarregamento!

Há, de facto umas escassas dezenas dessas coisas num par de auto-estradas (A 1 e A 2). Mesmo se estiverem todas em condições (o que não é de todo em todo seguro) há que contar com dois factores: haver um posto livre e aguentar o tempo de carga que é sempre superior a uma boa meia hora (e estou a ser generoso).

A segunda opção (ter um posto de carregamento rápido em casa) também não é exactamente barata, bem pelo contrário.

Ou seja, e resumindo, o automóvel eléctrico ainda tem muito que penar para ser uma alternativa credível.

Continuando: o sr Ministro parece esquecer alguns factos óbvios:

Há em Portugal e em circulação 700.000 (setecentos mil veículos com mais de vinte (20) anos. Para isso concorre a compra anual de usados que chega aos quarenta e muitos mil cada ano.

As novas disposições da UE referentes ao diesel (e aplicáveis já há dois anos) tornam esta opção bem mais limpa do que aquela a que S.ª Ex.ª se referia.

Os transportes públicos ainda não fizeram, cá, pelo menos, a mudança para fontes mais limpas. Pior: abandonaram-se ( no Porto e em Coimbra) os trolleys que nos anos 50, 60 e 70 já eram eléctricos... Os transportes de longo curso idem, aspas.

A alternativa ferroviária foi absolutamente desprezada mesmo se agora, num descarado esforço propagandístico, se anunciem milhões e milhões de compras de comboios que chegarão -se chegarem - daqui a 5, 10 ou mais, anos. Até umas miseráveis automotoras a diesel e alugadas à Espanha vão demorar meses e meses.

Um pai ou mãe de família com filhos em idade escolar não vão seguramente recorrer aos transportes públicos para levar as crianças às diferentes escolas.

Finalmente, e neste capítulo, o carro individual ainda é uma marca de ascensão social e isso demorará uns tempos largos a ultrapassar pese embora a ingénua e escoteira percepção da realidade do senhor Ministro. Digamos, piedosamente, que S.ª Ex.ª falou mais com a ideologia do que com uma ideia mais próxima da realidade.

Parece que há, neste país, uma central eléctrica a carvão. Saberá S.ª Ex.ª que essa central polui tanto como 45 milhões de automóveis?

Por mera cortesia não vou falar na frota automóvel do Estado que está velha e cuja substituição se pauta pela lentidão do caracol. O ministro que tanto filosofa sobre o diesel dos carros particulares (e dos outros de transporte de passageiros ou mercadorias...) não vê os telhados de vidro da sua própria casa. Devem estar sujos pela contínua emissão de partículas produzida pelas viaturas oficiais.

 

Merece parágrafo especial a afirmação do Secretário de Estado João Galamba quando revela que a substituição do diesel não está nos planos do Governo. Já se sabia que no Governo há filhos e afilhados mas não deixa de ser brutal um desmentido feito por um Secretário de Estado sobre as afirmações de um Ministro. Que este fica fragilizado não deixa dúvidas sequer a um menino do jardim escola a aprender as primeiras letras. No PS actual há os que mandam e os que lá vão fazendo aquilo que lhes deixam. Matos Fernandes que, intelectualmente, me parece bem melhor que Galamba, deu um tiro no mimoso pé.

 

Parece que o Ministro da Propaganda, vulgo do Planeamento, será quem encabeçará a lista socialista ao Parlamento Europeu. Merece essa reforma gozosa: andou estes anos todos a prometer obras e obras, investimentos de toda a espécie que só o futuro (problemático) mostrará se tem pés para andar. O indígena paciente já se contentaria se a ferrovia melhorasse como se previa há vinte anos, se a descentralização avançasse com pernas para andar, enfim se 10, 20 ou 30% dos projectos realmente vissem a luz. A europa que aguente mais esta extraordinária contribuição do génio lusitano que não parece deixar saudades por cá. Lembremos que a taxa de realização do anterior plani de investimentos públicos não ultrapassou –até ao momento- 0s 35%! Mesmo assim, já foi anunciado um outro plano ainda mais ambicioso que começará um pouco depois das eleições. Que conveniente!

 

 

PS: descobri, maravilhado, um disco duplo com inéditos do Zé Mário Branco, velho, velhíssimo amigo. Parte das canções ouvi-as, entusiasmado e comovido, num pequeno bar de Paris (onde o CITAC ia representar - no Théatre de l’ Odéon, se faz favor!!!- nos princípios de 68. Tão jovens que éramos. E tão esperançados.

Vai sair um disco com inéditos do Zeca Afonso, outro velho amigo da mesma época. Creio que parte desses inéditos consiste numa gravação de um espectáculo durante a Queima da Fitas de 1968 ( o mesmo ano, outra vez!). Se sim, eu estava lá e bati palmas até as mãos me deixarem de doer. Comigo, o antigo incursionista António Lopes Dias, poeta e amigo, que depois, durante horas discutiu o que então pareceu ser uma (boa, exaltante) inflexão na poesia do Zeca. Durante esse ano e no seguinte, JA veio várias vezes a Coimbra, solidário e generoso. Também ele, indirecta mas firmemente, fez a grande greve de 69 (deixemos nesta breve notícia uma lembrança terna para o António Mendes de Abreu, cedo desaparecido, e um abraço para o João Nazaré, onde quer que esteja. E que esteja bem! Muito bem! E que dê sinal de vida, porra!).

* Vai a crónica, também, para lembrar a Isabel Alves Costa, na altura casada com o Zé Mário. Militante cultural, a ela se deveu o Festival Internacional de Marionetas do Porto. Morreu cedo, demasiado cedo e alguns de nós recordam-na com uma lágrima e muita alegria.

 

 

18
Jan19

Au bonheur des dames 471

d'oliveira

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Cumprindo a tradição

mcr 18-1-18

Os incursionistas lá se juntaram uma vez mais sob a batuta gastronómica de JVC. Perito nas artes de bem comer e ex-fumador de enormes charutos cubanos (o juízo e a idade   - ah, a p.d.i.!!!-foram mais fortes do que a frenética procura do prazer...) que, desta feita propôs a “Casa Nanda” que mantem jus ao bom nome adquirido. Presentes os resistentes e já lá vão mais de treze anos desta incursão nos misteriosos domínios da cloud e de outras coisas que nunca percebi.

Ao todo éramos cinco, (“mocho atento, que jura que vai voltar a escrever, “o meu olhar”, idem, aspas, aspas e JCM. d’Oliveira fez-se representar por mim, para alguma coisa servem os compadres, presume-se que ele ande por aí (como o dr Santana Lopes, mas sem projecto político que se conheça) pelo que talvez possamos afirmar que o grupo era não de cinco mas de 5+1, sendo este último algo de evanescente um pouco como o fantasma de Canterville (saravah Oscar Wilde).

Para não fugir à regra estivemos de acordo que continuamos em desacordo mas que isso, como nas boas e antigas democracias não impede a convivência, a conversa franca e o companheirismo. Remamos todos na mesma galé e a barca lá avança entre ondas agitadas e ventos nem sempre propícios. Mas lá vamos que o caminho faz-se caminhando (olá, António Machado, velho senhor).

E lembrámos com saudade (muita) o “Carteiro” que se fosse vivo teria acabado de ser avô e todos os camaradas que andam noutra. Que tudo lhes seja propício e que, em querendo, deem aqui notícias dos seus afazeres e prazeres. A casa foi vossa, é vossa, a mesa está posta com mais alguns pratos e talheres.

Não nos esquecemos de muitos amigos e leitores que nos honraram e honram com a sua discreta e amiga companhia. Saravah, malta conhecida e desconhecida, saravah, bloggers conhecidos e desconhecidos, esta nossa campanha não é o facebook onde anda tudo a likes e amigos, muitos, uma multidão e fake news. Aqui a malta diz o que pensa, como quer e quando quer, não likamos envergonhadamente mas explicamos porquê, como e o quê.

Como também é tradição fomos os últimos a sair do restaurante para a noite fria (raios que estavam 5 graus, brrr, eu não me posso queixar que para estas noites luso-siberianas tenho um sólido capote alentejano, com uma imensa gola de raposa legítima, ai Jesus que aí vem o gajo do PAN, oh que medo!... em entrando a invernia, abafo-me, avinho-me (moderadamente) e abifo-me (no caso apeixo-me (como ontem com uma bela posta de rodovalho, peixe nobre que marchou com duas batatinhas, grelos excelentes e um molho que nem vos digo nem vos conto). Os líquidos acompanhantes tinham a chancela de JCP, gourmet e escanção amador de alto gabarito.

Lá para Maio, época de aniversário do blog lá nos veremos de novo, especialmente primaveris mesmo se em questão de Primavera nenhum de nós (exceptuando “o meu olhar”, claro) seja uma especial novidade. Eu mesmo só por boa vontade me intitulo outonal que setenta e sete anos feitos (e perfeitos) já cá cantam bem desafinados.

(nunca percebi como é que gostando tanto de música, ópera, clássica, jazz, soul, rock, etc..., sou tão duro de ouvido. Que ninguém me mande sequer cantar o “dó, ré, mi” que eu até nisso meto a pata. Arre!

Quando éramos novos, cantávamos. Ou melhor os outros cantavam e eu metia a a argolada do costume. Lembro-me duma canção do Pete Seeger em que só me era permitido iniciar o refrão “a wheema whe...( (the lion sleeps tonight que na realidade é uma bela música zulu com o titulo de “Mbube”)). Mas aos negros sul africanos tudo foi tirado até esta música...). Era o meu único e irrepetível momento de glória).

Isto, hoje vai mais em tom intimista mas que querem, eu até preferia este género de temas mas a realidade é dolorosamente outra e alguém tem de se indignar para provar a si próprio que ainda está vivo. Mas os amigos, a lembrança do Carteiro, o jantarinho e o frio de Janeiro puxaram-me para esta “furtiva lágrima” (Viva Donizetti e o seu belíssimo Elixir de Amor).

Uma nota final: a ilustração (uma belíssima gravura estilo “shunga” do grande Utamaro é uma homenagem ao casal Guilhermina e Joaquim que tem um filho no Japão)

 

 

17
Jan19

Au bonheur des dames 470

d'oliveira

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É Pessoa (Fernando) que assassinam

mcr 16-1-19

 

Em vida, Fernando Pessoa teve pouca sorte. Viu os seus muitos e melhores poemas serem ignorados, troçados ou vigorosamente criticados e sempre pelas más razões. Concorreu a um único prémio e a sua excelente “Mensagem” ficou atrás de um livrinho tosco, desinspirado mas “amigo” das entidades premiantes ou de quem elas dependiam. A sua vida privada foi, também ela, banal e nem a paixão pela bela Ofélia o salvou do celibato. E bebia demais mesmo se isso eventualmente afectasse menos o seu emprego do que o facto de fazer versos. A sua glória é toda póstuma e isso deve-se a muitos e desinteressados esforços desde Luís de Montalvor a João Gaspar Simões. A partir de finais de quarenta a sua estrela começou a agigantar-se e nos anos sessenta era consensual considerarem-no o maio poeta do século XX que, apesar de tudo, ainda tinha muitos anos que percorrer.

Depois caiu nas mãos de pessoanos apaixonados que, se vasculharam laboriosamente a sua mítica arca, também produziram muita prosa obnóxia nem sempre boa e poucas vezes excelente. O seu túmulo acabou nos Jerónimos (antes isso que o Panteão Nacional), o seu mais famoso retrato deixou os “Irmãos Unidos”, ali, no Rossio perto da “Suíça” (também desaparecida) e praticamente em frente do “Nicola”, poiso de Bocage e que ainda (por quanto tempo?) resiste. No Chiado, em plena esplanada de “A Brasileira” lá está a sua estátua, sentado a um mesa de botequim, o inevitável chapéu de aba larga, os óculos e uma densa mas discreta melancolia. Agora, aquilo é pascigo de turistas que, aos milhares, se fotografam a seu lado sem sequer saberem quem é que ali está e, muito menos, sem terem lido um único verso do poeta.

Há pouco tempo, os jornais exaltaram-se com a notícia de Lobo Antunes entrar para a gloriosa colecção “Pleiade” (uma (aliás, uma das 165) das razões da minha permanente impecuniosidade). Pessoa anda por lá há anos e não recordo que, na altura, tenha havido alarido semelhante. A “Pleiade” é os Jerónimos vivo e imortal de alguma da melhor literatura mundial. Ainda por cima, trata-se de uma colecção belíssima, cuidadosa, bem apresentada, melhor documentada. Os livros valem os preços pedidos (actualmente aquilo anda entre os 55 e os 65 euros por volume, mas na Internet, na Feira dos Alfarrabistas da Rª Anchieta, ou nos “bouquinistes” dos cais do Sena arranjam-se por preços bem mais módicos. Há mesmo algumas boas e antigas livrarias parisienses que vendem alguns volumes com preços mais baixos e, normalmente, em bom ou muito bom estado. Cito as Gibert (Bd St Michel ou na place St Michel – são diferentes- onde há farta escolha)

Tudo isto para fazer ressaltar a extraordinária notícia de uma edição escolar que apresenta a belíssima “Ode Triunfal” com três versos escondidos sobre um pouco –mas imbecil e canalha – manto de asteriscos.

Eis, a negrito, os versos lapidados pelos lusos talibans acoitados na Porto Editora:

...Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas

...(Ah a gente ordinária e suja que parece sempre a mesma,

que emprega palavrões palavrões como palavras usuais

cujos filhos roubam à porta das mercearias)

e cujas filhas aos oito anos –e eu acho isto belo e amo-o-

masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

 

As criaturas que organizaram a edição e a própria editora ou ignoram os mais elementares princípios de respeito por uma obra literária ou foge-lhes a mãozinha censória para o “antigamente” rural e sacripanta que, em defesa dos bons costumes, do decoro e da moral varriam para debaixo do tapete ou para trás das grades ( ou as duas coisas) tudo o que as incomodava (a elas ou à “ordem estabelecida”). No caso em apreço, a coisa agrava-se com as declarações imbecis com que defendem o indefensável (no caso a amputação a frio de três versos. À uma afirma-se que a mesma editora (a Porto editora) tem o mesmíssimo poema editado na totalidade; depois pretende-se que esta acção de trucidar um poema dá aos professores a possibilidade de repor a verdade dele, explicando aos alunos as partes em falta dentro do “devido contexto”!

Estamos todos a ver o angelical quadro do “sotor” ou a “sotora” a pontificar sobre pândegos e putas ou ainda melhor a condenar energicamente a referencia pedófila às meninas que masturbam cavalheiros (provavelmente pagantes ou meros familiares) nos vãos de escada. Estou mesmo a pensar no educador que previne os adolescentes de 17/18 anos sobre as maleitas do onanismo (que enfraquece; que conduz à surdez; que isto e que aquilo, não esquecendo que se trata de um feio acto, pouco higiénico e que, como as drogas ligeiras é o caminho certo para actos sexuais mais graves... E por aí fora.)

Ah, como a escola pode ser risonha e franca!

Nada disto é especialmente novo pois recordo o meu longínquo 3º ciclo dos liceus em que Gil Vicente, esse arruaceiro, usava injúrias deliciosas como “fideputa”. A pudica senhora doutora (naquele tempo havia respeitinho) não chegava à rase, antes a saltava e procedia do mesmo modo com partes do Canto Nono que, obviamente, era a única parte dos Lusíadas que líamos. E com a vantagem de ninguém nos mandar “dividir as orações” coisa que ocorria com todo o resto do imortal poema e que provocou em milhares de inocentes uma azia definitiva a Camões.

A notícia que li não traz –como devia – menção aos coordenadores da edição. Se são professores do ensino secundário –e é quase certo que o sejam – pergunta-se como é que esta gentinha obteve o diploma e quem é que lhes entregou a responsabilidade de citar ou propor Pessoa.

É verdade que algumas vozes se fizeram ouvir e, entre elas, as de representantes da Associação de Professores de Português. Estranhamente, o Sindicato está mudo e quedo. Se calhar, entende que isto não lhe diz respeito. Literalmente, não mas os professores e a sua famosa luta pelos nove anos quatro meses e não sei quantos dias só tem razão de ser se a classe docente, for tida como competente, culta e ao serviço da educação. O silêncio perante esta burrice supina não ajuda, bem pelo contrário.

Há neste jardim (ou “torrãozinho de açúcar”), além a Portuguesa de Escritores, uma associação que protege os direitos autorais. Pelos vistos essa protecção cessa ao fim de umas dezenas de anos. Cessa, de facto, quanto a dinheiros a receber mas deveria permanecer quanto à defesa d integridade da obra escrita, para não referir outras.Pessoa caiu no pântano do domínio público mas merecia ser respeitado e defendido. Publiquem-no, ganhem dinheiro com ele (o dinheiro que ele nunca ganhou) mas defendam a obra. Defendam aquela parcela de património imaterial da Humanidade e sobretudo de Portugal e da língua portuguesa!

(curiosamente o grande opinante nacional ainda não disse nada sobre o assunto. Também não é preciso e, já agora, saúda-se esse silêncio cada vez mais raro .Também são de saudar os respeitáveis silêncios de dois ministros, o da Educação e a a da Cultura. No 1º caso, S.ª Ex.ª teria de explicar ao pópulo a persistência anti económica – e pelos vistos –anti educativa – de, no mesmo exíguo país existirem tantos e tão (na aparência) diversos manuais escolares. Serão todos bons? Será apenas fruto da ganância de editores e de autores?

No caso seguinte, já não se espera da Sr.ª Ministra opinião fundamentada em algo mais do que o seu pessoalíssimo gosto sobre qualquer matéria.)

Na imagem: retrato de Pessoa (Almada) que esteve em anos saudosos nos "Irmãos Unidos". Muitas bicas bebi com o tio Quim à sombra amada e amável do poeta. Acho que, por minutos, nos sentíamos membros do grupo do Orfe, ou pelo menos seus leitores imediatos e contemporâneos.

27
Dez18

au bonheur des dames 468

d'oliveira

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Rui

mcr 27.12.2018

 

É a segunda vez que tenho o Natal ensombrado pela morte de alguém de quem gosto. Da primeira vez, foi a avó Aldina, a Velha Senhora, que os 97 morreu. Já esperávamos o desfecho mas não tão depressa e, sobretudo, nunca na véspera do Natal. A Velha Senhora, acamara um ano antes. De todo o modo, mantivera o sorriso e a boa disposiçãoo. Ela passara por tantas, em tantos remotos lugares, que estar de cama não a impressionava. Nem a ela nem à minha sobrinha Sara que ao ver a bisavó ali deitada à mercê de qualquer um, mesmo de uma catraia que lhe herdara o riso fácil e a alegria comunicativa, agarrou pela mão a Margarida, irmãzinha mais nova, e dirigindo-se à anciã disse-lhe mais ao menos isto: “Avó, antes que morras tens de contar à Margarida aquelas histórias que contaste a todos os netos e vários bisnetos...”

A Velha Senhora não se impressionou e apenas as mandou sentarem na borda da Cama e aí vai disto: duas ou três largas horas de histórias espantosas, contadas como só ela sabia contar. Morreu um ano depois, mergulhando-nos numa afliçãoo mesmo se sabíamos que ela estava por um fio. É que a Velha Senhora queria ainda conhecer uns trinetos nascidos longe e, se possível, vê-los crescer e vigiar naoros futuros, que ela também era muito casamenteira.

Desta feita, foi o Rui. O Rui Martiniano. Alfarrabista culto sempre com uma novidade escondida na banca que, jurava-me, estava guardada à minha espera! E apostrofava-me vigorosamente. “Você tem de ler este gajo que é dos melhores”. E, valha a verdade, quase sempre era. Mas eu resistia. Que o livro era grande e já não tinha pachorra, que cada vez – e é verdade – me interessava a ficção; que tinha um imensa pilha à espera de vez... E por aí fora. Só não repontava com o preço. Uma vez que o fiz, o Rui, truculento e generoso, disse-me: ofereço-lhe. E eu não tinha coragem para recusar e numa breve luta lá pagava o livro por um preço mais de saldo ainda.

Conheci o Rui Martiniano quando, graças ao meu tio Quim, companheiro de dezenas de anos de leituras e peregrinação por Lisboa, comecei a frequentar a feira dos alfarrabistas (todos os sábados, na rua Anchieta ali em pleno coração do Chiado). Na época, a feira ainda era no largo de S Carlos (suponho que é esse o nome) e, no Verão eu maldizia da calorina que ali se sofria. E lembrava o Eça, sempre ele, a afirmar diante do Fradique que o calor estava “de derreter os untos”.

Graças a Deus, a feira emigrou para o actual poiso, a poucos metros da Benard meu poiso para os cafés da manhã, e vagamente resguardado dos músicos de rua que exercem diante da Brasileira e, felizmente, longe da turistagem que se atravanca para a fotografia junto do Pessoa. Não que eles saibam quem é (como ainda menos saberão quem foi o Chiado ali recordado em estátua, ou sequer o Camões, também vizinho ou, ainda, o Eça um pouco mais abaixo na rua do Alecrim). Basta-lhes um cavalheiro sentado a uma mesa com uma cadeira disponível ao lado. E vá de se fotografarem impantes. Mais uma prova que passaram por ali onde, de resto, tiraram mais vinte ou trinta fotografias que, provavelmente nunca mais verão.

Mas eu falava do Rui. De um ex-editor que na “Hiena” (este nome só ele...) publicara umas dezenas de livros quase sempre imprescindíveis na biblioteca de quem gosta de ler e depois passara a vendedor de livros velhos. Foi, justamente, por reparar na pilha dos livrinhos da “Hiena” que chegamos à fala. A “Hiena” foi a editora de “A musa irregular”, do Fernando Assis Pacheco. Este livro, absolutamente essencial para quem queira saber da poesia portuguesa na segunda metade do século XX, deu azo a que nos descobríssemos editores ambos (eu através da Centelha) do FAP, que, por coincidência, também morreu de morte súbita vitimado por um aneurisma filho da puta. E também num Dezembro de má memória...

A partir desse dia, foi sempre a rolar. Nestes já largos anos em que por lá vou, sempre perto do fim do mês, a primeira visita era para Rui só para dizer bom dia. Depois, ia até ao princípio da fila das mesas e começava a explorar com cuidado, minúcia e alguma alegria as ofertas expostas. Em mais de uma centena de vezes, raramente saí da feira sem compras. Fiquei a estimar muitos daqueles alfarrabistas feirantes, sou mesmo amigo de alguns e, claro, amigo certo do Rui.

Conversávamos à rédea solta durante bastante tempo, ou seja até eu ter de arrancar para o almoço. Ajoujado de livros e com a carteira –sempre magra- bem mais leve. Partilhávamos um bom par de autores, lembro-me do Nicanor Parra que, agora descobri através da notícia necrológica de Luís Miguel Queirós (Público 23.12.18), ia directo ao coração de um misterioso Rui André Delídia, poeta com que nunca tropecei senão por via indirecta. Afinal era o pseudónimo do Rui. Irei procura-lo numa última homenagem ao amigo que, sexta passada, por volta do meio dia ainda me vendeu dois livros. Sábado, logo à chegada, um dos seus colegas, na primeira banca logo me deu a “triste notícia”. E a partir daí, todos os restantes colegas, de semblante carregado lamentavam aquele desaparecimento tão a destempo. Com eles, ficamos nós, os leitores e frequentadores da feira, mais sós, muito mais sós. Sessenta e quatro anos. Ao contrário da velha e belíssima canção dos Beatles, ninguém poderá contar com o Rui. O prazo dele esgotou-se.  

19
Dez18

Au bonheur des dames 467

d'oliveira

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O direito à greve não é para todos

(ou do direito ao bom uso de “fake news”)

mcr 19.12.18

O país assiste, com a resignação que o caracteriza, a um mês de Natal em que se cumprirão 47 greves se a matemática não me falha. É verdade que alguns dos pr´-avisos de greve dizem respeito à mesma classe profissional que vai cirurgicamente marcando dia sobe dias e greve sempre perto de feriados ou fins de semana para tornar mais atrativas as faltas ao trabalho e mais difícil a vida a quem usa transportes públicos, tem ir a uma consulta médica, fazer uma operação viajar enfim tratar de assuntos burocráticos numa repartição. Boa parte e mais dramática destas paragens de trabalho e de serviços diz respeito a funções tuteladas pelo Estado como é habitual. No comércio, na indústria, no ensino e saúde privados, nos serviços igualmente privados parece que não existe a famosa “consciência de classe”. Os trabalhadores destes sectores devem ser todos “lumpen Proletariat”, uma gentuça sem princípios, sem coragem, sem consciência da “brutal exploração” a que o “capitalismo monopolista” os sujeita. Não leram Marx (aliás. do lado dos revolucionários grevistas também não consta leituras do mesmo sujeito. Demasiadas barbas, demasiada prosa difícil, conceitos obscenamente abstractos e desnecessários. Felizmente existiram Politzer e Marta Harneker primeiro simplificadores. Depois, vieram os jornais partidários, hoje uma sombra do risível que já foram, que ainda simplificaram mais. E inventou-se uma coisa chamada “marxismo-leninismo” que já teve uma fase marxismo-leninismo-stalinismo e uma outra ainda mais vermelha a que se acrescentava o maoísmo e que até tinha um caderninho vermelho de bolso recheado de deliciosos pensamentos da autoria de um “grande timoneiro” (em Portugal, pais sempre de vanguarda, tivemos o pensamento imortal de um rapazola chamado Arnaldo de Matos que modestamente era apelidado “grande educador da classe operária”).

Durante o PREC apareceram mais alguns profetas do mesmo género, mas menores, e mesmo um militar que se pensou uma espécie e Fidel de Castro sem barbas nem carisma.

Nesses conturbados tempos, a União Soviética era o sol da terra (e talvez também o sal) segundo o dr. Álvaro Cunhal falecido em estado de santidade marxista leninista. E havia uns pândegos que em nome da “revolução”, da “luta final”, se entretiveram durante um par de anos a assaltar bancos (perdão, a recuperar meios de financiar a justa luta) ou a abater uns tristes, vítimas colaterais da luta contra o imperialismo.

É destes anos que datam as duas centrais sindicais, a “boa”, a “verdadeira” e a amarela. Esta demorou a afirmar-se, foi acusada de criar sindicatos paralelos, de servir os interesses estratégicos do patronato. Hoje, se não reina propriamente a harmonia já são raras as acusações mais virulentas. Também é verdade que apareceram ainda mais sindicatos ditos independentes mesmo se, globalmente, tenha baixado fortemente a taxa de sindicalização.

De todo o modo, há sectores onde o peso dos sindicatos é visível. O caso do Estado e das empresas públicas é o mais notório. Se uma greve de funcionários públicos da Administração central pouco ou nada prejudica o público em geral, já certos corpos especiais conseguem grande impacto público devido ao facto das suas greves afectarem a vida dos cidadãos. Os casos mais evidentes são os dos transportes. Autocarros, eléctricos, metro, ferrovia barcos da travessia do Tejo transtornam dramaticamente a vida de quem a eles tem de recorrer. E são sempre os mais pobres, os mais fracos, evidentemente.

E, assim, chegamos à grande controvérsia do momento: a greve cirúrgica dos enfermeiros.

A primeira questão que se põe, e foi a ministra quem primeiro tentou desqualificar a greve falando de crueldade, é a que decorre dos efeitos doa adiamentos de cirurgias, de tratamentos que obviamente terão efeitos prolongados. Uma operação que se adia demorará sempre algum tempo a efectuar-se. Durante esse período é fácil imaginar, a angústia do paciente, dos seus familiares e mesmo, o risco de consequências dificilmente imagináveis para a saúde do “adiado”, morte incluída.

Claro que conviria lembrar que a recente redução do horário de trabalho da função pública (de 40 para 35 horas) que entusiasticamente, e sem medir consequências imediatas ou mediatas, o partido da mesmíssima ministra levou a cabo sem sem que tivesse havido um aumento dos quadros nos hospitais (que, de esto, já pareciam insuficientes) tornou a assistência hospitalar pública (SNS) mais precária e problemática.

(à margem: mesmo sabendo isto, grupos políticos há que propõem um ataque em regra à medicina e aos hospitais privados. Mesmo que a pretendida eliminação da concorrência privada e social não seja a curto prazo, subsistirão dois graves problemas. Uma súbita enchente afogará o SNS e mais se afirmará a diferença entre uma assistência para ricos (privada e rápida) e outra para pobres que já é de uma lentidão escandalosa).

Todavia, o problema suscitado por esta greve é (também) outro. A começar pelas vozes que insistem em tentar negar aos enfermeiros um direito inscrito na constituição. Isto no exacto momento em que o Ministério Público e os Juízes insistem em recorrer a ele.

Depois, o “escândalo”: os sindicatos enfermeiros lançaram uma inédita e pública recolha de fundos para sustentar a greve. Vozes indignadas vieram a terreiro avisar gravemente que esse não é um bom processo. Parece que um grevista português deve sofrer sede e fome até obter ganho de causa. Ora, sempre houve meios de ajudar os grevistas a começar pelos fundos de greve, oficiais ou não, dos sindicatos.

Porém, o pior estava para vir: o fundo de greve dos enfermeiros por subscrição pública pode “eventualmente” ser pago, no todo ou em parte, pelas empresas de saúde privadas com o sinistro fim de prejudicar o SNS. Isto saiu da pena de várias criaturas escreventes nos principais jornais e foi badalado nas televisões e nos facebook e twiter.

Note-se que ninguém identifica os grupos privados que manhosamente auxiliam os enfermeiros. Basta sugerir essa possibilidade, tanto mais que o fundo se alimenta de entregas voluntárias e “não transparentes”.

Eis que os enfermeiros “cruéis”, segundo a nova ministra da Saúde, que, pouco a pouco mas seguramente ,disputa a taça da tolice à sua colega da Cultura, andam afinal a reboque dos hospitais privados. E do mais hediondo “capital”! Aliás, acrescenta-se outra tremenda prova: a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, é uma militante do PSD ou pelo menos uma colaboradora de antigos dirigentes desse partido. Ora, é sabido, que o PSD – e já agora o CDS – sendo um partido “burguês” (ou quase “fascista” e sempre, sempre, “reaccionário”) não tem direito algum a ter peso sindical. Isso estaria reservado aos verdadeiros representantes dos trabalhadores ou seja, prima facie, ao PCP e, vá lá ao BE. A la rigueur, talvez o PS ainda caiba nesse exclusivo clube, mesmo se, e cito uma boa porção de porta vozes comunistas e bloquistas, o PS tenha sempre um fatacaz pela Direita e pela política anti-popular e anti-operária.

Aqui chegados, como diria o inefável dr. Marques Mendes, temos que a greve da enfermagem enferma de graves pecados, todos capitais: é cruel, é, ou pode ser, paga pelos inimigos do povo e é impulsionada por partidos que não devem, não podem e não merecem defender greves mas apenas “lock-outs”.

(declaração de interesses: não conheço nenhum dirigente da Ordem ou de qualquer sindicato de enfermeiros, por junto sou sobrinho por afinidade de uma enfermeira aposentadíssima e cunhado de outra que apenas dá aulas a futuras enfermeiras. Desconheço, de resto, o que é que ambas pensam da greve, coisa que pouco me importa. Estou solidário com todo e qualquer paciente que tem de recorrer aos hospitais públicos e vê as suas legítimas espectativas de ser bem atendido goradas. Sei, porém, igualmente, as razões de uma luta que vem de há anos e que começa no menosprezo do Poder pelos que trabalham na enfermagem, que continua na falta de pessoal, na dureza das horas extra, no desdém pela qualificação profissional de toda uma classe que é, a par dos médicos, a base do SNS.)

 

12
Dez18

Au bonheur des dames 466

d'oliveira

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Não é com alegria que registo ter tido razão

 

Há um par de anos, escrevi aqui, que em Portugal havia a moda de erigir fundações sem dinheiro. Ou, de outra maneira: simplisticamente, uma fundação é um conjunto de bens auto-suficiente que se emprega ou que procura um fim (normalmente útil, moral, social ou economicamente).

Sem dinheiro, de preferência vivo e abundante não há fundação que resista.

Confiar na generosidade alheia, no mecenato de pessoas, instituições ou empresas para custear o funcionamento de uma fundação é mais do que uma imprudência, um erro que se revela trágico ao fim de algum tempo.

No campo da “cultura”, que venho frequentando há largas dezenas de anos, existe a ideia de que a simples vontade, algum talento, outro tanto de trabalho e muito entusiasmo, conseguem milagres. Falso!

Estou à vontade para o afirmar, tanto mais que participei numa boa dúzia de tentativas de criação de instituições culturais (revistas, livrarias, editoras, cine-clubes, etc.).

Em meu abono, apenas posso dizer que sempre puxei pela magra carteira e a abri mais do que podia e devia. Sempre prevenindo que aquilo que se estava a criar sofria de falha congénita (fundos suficientes e regulares). Numa determinada ocasião um amigo meu (Arnaldo Fleming, desaparecido demasiado cedo) solicitou-me para sócio de uma livraria “alternativa”: a “Erva Daninha”. E jurou-me que “aquilo” tinha pernas para andar. Respondi-lhe, aceitando o convite e desembolsando a soma devida, que não acreditava: “nem sequer ao pé coxinho lá vamos”.

Todavia, associei-me e fui um dos mais certos e maiores compradores de livros naquela pequena lojinha aninhada na rua da Conceição, Porto. “Estou nisto pela aventura, pelo risco, pelos nossos belos tempos de 68 mas isto vai dar raia”, expliquei ao sempre entusiástico Arnaldo.

Deu! Evidentemente! A Erva secou ao fim de um par de anos de vida vegetativa: faltavam clientes para o produto que se vendia, faltava dinheiro para aguentar a despesa corrente, para fornecer a livraria de livros que nem sempre se vendem à primeira. A “erva...” era um nicho perto da “Leitura” (paz à sua alma!) e da “Académica” uma grande livraria alfarrabista porventura a mais antiga do Porto.

No capítulo das revistas, a coisa foi ainda mais rápida: uma (Espaço) finou-se depois do número 1. Outra (uma nova versão de “o Tempo e o Modo”) nem chegou a aparecer. Para ambas tinha enviado textos que, também eles, nunca viram a pálida luz do dia. De resto, um deles morreu uma segunda vez num pequeno incêndio em minha casa.

Tudo isto para falar do eminente colapso da “Fundação Mário Soares”.

Ao que sei, além do enorme e importante arquivo do fundador, estavam lá depositados outros, igualmente interessantes e, em certos casos, de ímpar importância (basta referir o espólio de Amílcar Cabral que, suponho, vai muito além de Cabo Verde e Guiné Bissau. Cabral foi, é minha convicção, o mais importante político africano de expressão portuguesa, o mais bem preparado, o mais culto e o que maior influência teve em África.)

A FMS digitalizou milhões de documentos e pô-los à disposição de estudiosos e, eventualmente, do público em geral.

Li que também outorga prémios (com a inevitável contribuição mecenática de empresas) e está aberta a conferências, colóquios, sessões de toda a espécie.

Tudo isto exige uma intendência robusta, profissional e... cara. Isto tudo custa dinheiro. Dinheiro que ou não há ou só há dependendo da boa vontade de mecenas.

Enquanto Mário Soares foi vivo os apoios lá foram chegando e um dos mais importantes tinha a ver com o facto do ex-Presidente ter na sede da Fundação o seu gabinete, pago pelos cofres públicos o que (eventualmente) ajudaria a pagar parte das despesas de funcionamento daquela.

Todavia Soares morreu e, eventualmente (repito-me) os apoios financeiros diminuíram, ou simplesmente desapareceram. Porém a estrutura da fundação permaneceu dado que os objectivos fixados no seu estatuto continuavam a ser os mesmos.

Agora, anuncia-se a morte, ou quase, da fundação, a provável transferência de espólios para alguém que os consiga manter e tratar quando não a sua restituição aos legítimos proprietários que os tinham entregado em depósito.

Isto significará sempre uma perda. Perda relativa, avisa-se desde já, porquanto muitos dos que hoje choramingam este previsível desfecho nunca lá puseram o lépido pé, menos ainda contribuíram com um mero cêntimo para a prossecução das actividades da FMS.

Há nesta pátria antiga, que resmunga mas que não ajuda, o velho e pernicioso hábito de, boca afora, soltar trinados maviosos pela “cultura”. No entanto lê-se pouco, deserta-se o teatro, deixam-se as artes plásticas ao alvedrio de ricaços recentes que empregam alguns críticos e curadores como capatazes das suas colecções, exige-se em alta grita museus gratuitos e pejados de obras, permite-se a venda para o estrangeiro de bibliotecas inteiras coligidas com carinho e sacrifício por leitores entusiásticos mas que morrem.

Eu bem me lembro da gritaria pela colecção (de terceira ordem e sucessiva e rapidamente vendida várias vezes) dos Miró ou pelos uivos de pura e patriótica indignação por um quadro que por cá andou clandestino durante gerações e que o dono quis vender em Paris ou Londres. Não tenho a menor simpatia pelo vendedor português mas não duvido que nunca alguém, por cá, estivesse disposto a igualar a oferta de cinco milhões de euros de que se falava.

Também é verdade que poucos aborígenes do cantinho lusitano se oferecem para ajudar as compras do Museu Nacional de Arte Antiga. Vamos lá que nos dois casos que conheço (e para os quais contribuí) lá se arranjou o dinheiro para adquirir as peças que o Museu desejava. Todavia, seria de esperar uma muito maior afluência de donativos que pudessem constituir uma espécie de fundo para o museu poder continuar a tentar enriquecer as suas colecções.

Se, de facto, houvesse um sólido movimento de pessoas entristecidas com a desaparição da fundação Soares, poder-se-ia pensar numa grande subscrição nacional para socorre-la e, já agora, na criação de grupos de amigos que anualmente pagassem uma quota ligeira para suportar a instituição. Ou até, oh heresia capitalista e afrontosa, num sistema de quotas diferentes de, p.ex., cinco vinte, cem, mil cinco mil euros ou mais, atribuindo pequenas regalias claramente diferenciadas aos doadores. É o que faz o enorme “Metropolitan” de Nova Iorque (aliás julgo que todos os ricos museus americanos o fazem) e que começa timidamente a tentar fazer-se na Europa. A ideia tonta, e corrente entre nós, de que a democracia rasoira por baixo não faz sentido. Os museus americanos expõem pelo mesmíssimo e simbólico bilhete de entrada todo o seu espólio. A quem dá muito, as instituições garantem um simbólico reconhecimento que vai da pré-inauguração privada de uma exposição até uma placa numa sala com o nome do (muito, imensamente) generoso contribuinte.

Entretanto, a Torre do Tombo prontifica-se (pela voz de Silvestre Lacerda seu excelente director) a acolher os espólios que sairão da fundação caso sejam resolvidos os problemas jurídicos levantados pela propriedade dos mesmos. Creio, até, que aceitaria jubilosamente o espólio de Soares. Conheço o Arquivo Nacional desde que o frequentei para levantar cópia de catorze processos contra mim levantados pela PIDE e pela DGS. Verifiquei que naquela casa se trabalha com eficácia e que quem lá vai tem ao seu dispor salas confortáveis e um atendimento profissional. Há (ou havia) mesmo uma pequena livraria que vende a preços de saldo publicações da extinta comissão nacional para a comemoração dos descobrimentos.

O ANTT bem mereceria, como aliás a Biblioteca Nacional, que a lei ou um qualquer regulamento capaz, contemplasse a possibilidade de haver pequenos (e grandes, porque não?) mecenas regulares que, todos juntos, pudessem ajudar a salvar, comprar, restaurar documentos, arquivos, mapas e livros que actualmente necessitam de restauro e conservação.

Isto que daqui digo, aplica-se a outras instituições de enorme significado e interesse público desde o Instituto de Investigação Científica e Tropical, ao Jardim Colonial, ao Arquivo Histórico Ultramarino ou (declaração de interesses: sou o sócio 20692) a Sociedade de Geografia de Lisboa que, ao fim de mais de 140 anos, atravessa dificuldades várias. Ao menos visitem-na: é no Coliseu, tem, além do museu, uma biblioteca notabilíssima, um grande fundo de publicações de invulgar qualidade histórica e científica para venda e um restaurante/bar simpático. Quanto ao seu programa de actividades bastará dizer que mensalmente são numerosas as sessões e conferências abertas ao público em geral sobre os mais variados temas. Isto para não referir o “boletim” que é publicado desde 1875!

A “cultura” é, antes de tudo, uma questão de cidadania e quer-se absolutamente independente do “Poder” seja ele o do Estado ou o de empresas, grandes ou pequenas. As fundações culturais devem usar da mesma e útil prudência para não ter que alguma vez pagar muito por pequenas ajudas nem sempre desinteressadas. Ou de morrer quando os ajudadores não as consideram suficientemente gratas...

*Na gravura: a belíssima e riquíssima (culturalmente) Fundação Maeght em Saint Paul de Vence, cerca de Nice e de uma boa dúzia de bons museus que reunem muito do que é muito bom da arte moderna a partir dos anos 900. Aqui para nós, na região de Nice só as praias é que são fraquinhas. 

29
Nov18

Au bonheur des dames 465

d'oliveira

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Antes da revolução:

mcr 26 Nov 2018

1 Bertolucci, Bernardo Bertolucci

 

Vi grande parte dos filmes de Bertolucci com a enorme sorte de, por razões varias, os ter visto pouco depois de estrearem. Claro que isso ocorreu no estrangeiro. No “paraíso triste” a censura diligente impedia tudo e, em contrapartida, suscitava a nossa imensa curiosidade. Recordo, mesmo, que, em Paris, arrastei a minha excelente mãe a um cinema do Quartier Latin onde vimos o “ultimo tango...” A mãe não se mostrou especialmente agastada com as cenas “chocantes” da fita, antes comentou com sabedoria, intuição e inteligência aquela história de duas solidões. Tinha a seu favor décadas de assistência a filmes, muito livro lido, muita vida vivida, ela que nascera durante uma missão militar do meu avô no extremo sul de Angola (Dirico), no fim das “terras do fim do mundo” e que passara os primeiros doze anos da sua vida a correr de uma ponta à outra uma boa fatia do “Império”. Conseguimos, depois, ver uma reposição de “Antes da Revolução” que eu já conhecia. E de novo, declarou que se sentia na sua casa italiana do cinema e, a propósito recordou, num pequeno csalão de chá russo (rue de Buci?), uma série de filmes a começar por “Não há paz entre as oliveiras” e “Arroz Amargo”, dois notabilíssimos filmes e um excelente exemplo do famoso neo-realismo italiano. Ainda hoje, com 96 anos, recorda com precisão (e muitas queixas pela falta de visão e pela surdez) filmes dessas épocas.

Voltemos porém a Bertolucci, um cineasta dos verdadeiramente grandes que ontem morreu. Era da minha idade, colheita de 41 e deixa um rasto luminoso que, provavelmente as novas gerações de cinéfilos não perceberão por absoluta falta dos seus filmes. Um há (“A estratégia da Aranha”) de que só consegui uma cópia foleira via um editor americano Bati durante anos fnacs de vários países à procura de uma cópia decente e nada!

E, todavia, a “estratégia...” é um dos grandes filmes de BB e coloco-o a par de “antes da Revolução” ou de “1900” (“Novecento”). A minha gente, a malta da minha geração que traz as cicatrizes de muita “esperança desesperada”, de muitas lutas solitárias, de muitas desilusões, revia-se (revê-se?) muito naquele cinema alimentado por imperativos políticos e estéticos que se confundiam harmoniosamente e retratavam com ternura, alguma ironia e uma ansia de viver, os anos de brasa que nos foram dados aguentar.

2 Em Setúbal a greve da estiva alastra. E alastra porque cada vez mais parece insuportável (pelo menos para quem trabalha no porto) a infâmia de contratos precários de trabalho” em que mais de uma centena de trabalhadores vivem há anos e anos. Hoje chamam-nos, à tarde despedem-nos, amanhã logo se verá e assim sucessivamente. Os estivadores, infelizmente, não trabalham na funçanata pública nem são grande notícia. Pela primeira vez, nesta minha vida que vai longa, vi a polícia (o Estado) custodiar a preço de oiro, um autocarro cheio de amarelos fura-greves que fartamente pagos conseguiram em dois dias embarcar um quarto dos automóveis que os grevistas embarcariam num único dia. E pagos (os “furas”), diz-se, a peso de oiro! Em Setúbal, cidade icónica do PCP! Em Portugal com um governo dito à esquerda!

Sucedesse isto há quatro anos e Passos Coelho estaria crucificado durante meses..

3 Em Borba uma estrada municipal (desnacionalizada há um punhado de anos) ruiu. Morreram seguramente duas pessoas e não se sabe de mais três. A operação montada nas pedreiras já custou (em oito dias...) tanto ou mais do obras sérias de prevenção daquele estúpido acidente. O senhor dr Costa acha que, à partida, o Estado não tem ali responsabilidades. Aliás nem lá pôs o delicado pé. E as poucas e tardias referências ao acidente foram tragicamente secas. A criatura tem a sensibilidade de um rinoceronte velho.

4 E já que falamos de sensibilidade, a senhora ministra da Cultura andava por Guadalajara feliz e deslumbrada com a falta de jornais portugueses para ler. Resta saber, se acaso leu algum mexicano. Ou inglês, ou chinês ou da Transcaucásia... Ou, já agora, se lê. Livros, prospectos, revistas, porventura a revista “Maria”, porque não? A gente começa a ter saudades de Castro Mendes, e se isto, esta novela exótica, perdurar daqui a pouco está por aí meio mundo a gritar pelo regresso de João Soares o justiceiro dos bofetões.

A

Ah como a vida (e as pessoas) era interessante antes da revolução! (citação de memória do filme "prima della rivoluzione")

* a ilustração: este quadro serviu de ilustração ao filme 1900 e foi mesmo o seu cartaz

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Nov18

au bonheur des dames 464

d'oliveira

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It’s a long way to Tipperary

(tu est seul le matin va venir Appollinaire, “Zone” in “Alcools”)

Até Tipperary foi muito o caminho como se sabe. Quatro anos pejados de mortos, de mortos inúteis sacrificados por generais incompetentes e por tácticas militares há muito controversas.

Verdun ou o Chemin des Dames, para não falar de Passchendaele (julho –Novembro de 1917) onde só morreram cerca de 300.000 soldados, são exemplos da cegueira homicida de irresponsáveis militares que, mesmo contra toda a evidência, continuavam a tentar romper uma frente perigosíssima mandando para um infame matadouro dezenas de milhares de homens. Estes sabiam que só um milagre os salvaria das metralhadoras inimigas e mesmo assim avançavam. E avançavam porque na retaguarda havia quem os obrigasse a tal e quem à mínima falha os levasse a tribunal de guerra e ao fuzilamento.

Ao lado destas tremendas batalhas, La Lys, o nossos desastre (400 ou 1400 mortos os números variam. Certo, ou quase, é o número de prisioneiros: 6000), passa despercebido mesmo se os seus efeitos no debilitado Corpo Expedicionário Português (CEP) fossem medonhos.

Em Portugal, ainda é quase proibido (ou impossível) falar da Guerra e da nossa participação nela. Os “guerristas” (e nunca esquecer João Chagas que logo no início se fez ardoroso defensor da participação portuguesa na hecatombe- vale a pena ler “É a guerra” de Aquilino Ribeiro que foi testemunha do confronto desde o primeiro dia visto estar em Paris) entrincheirados no Partido Democrático mas com cumplicidades nos dois restantes grupos republicanos, viram na participação portuguesa uma porta aberta ao reconhecimento do regime por uma Europa bem arredia.

Pouco lhes importou verificar que se algo havia que defender não era na Flandres mas no sul de Angola e no Norte de Moçambique onde se temiam os efeitos de uma combinata anglo-alemã que, ela própria, está sepultada em tantas e tão contraditórias versões que custa destrinçar quais eram exactamente os termos desse acordo feito à custa de um Portugal colonial que ainda não ocupara com efectividade e segurança todos estes territórios.

Mas, e mais grave, era a situação militar interna. Vejamos: o corpo de oficiais do Quadro Permanente era maioritariamente desafecto à República. Para contrariar essa situação, a República contava com os sargentos e com a influência da Maçonaria e congéneres nas praças. A isto juntava-se a sempre prestimosa colaboração de grupos civis que, quando convocados, tentavam invadir os quartéis ou impedir a tropa de “sair” graças à famosa “artilharia civil” (assim se chamavam os bombistas).

A situação nos quartéis era, para usar um termo brando, uma calamidade onde a indisciplina se aliava às péssimas condições de instrução, aquartelamento, alimentação e fardamento.

Não existia Marinha digna desse nome, pese embora a fanfarronada de uma votação no Congresso (1911) em que se votou a compra de uma formidável frota que incluía couraçados e cruzadores em profusão. Foi a anedota da década. Portugal não tinha sequer meios para sustentar um couraçado quanto mais para o comprar.

E quem diz navios puramente de guerra diz igualmente uma marinha mercante eficaz. Pura e simplesmente não havia um único navio de transporte de tropas. Os cinquenta e tal mil homens mandados para França foram embarcados em navios ingleses. Por isso mesmo também (falta de transportes disponíveis) nunca houve rotação de praças e sargentos mesmo se tal estava garantido pelo Governo. Apenas os oficiais, e quase sempre, à sua custa, puderam vir a Portugal nos seus períodos de licença.

Para as colónias, sobretudo para Moçambique, seguiram algumas dezenas de milhares de homens, igualmente impreparados. Uma vez chegados, deparavam-se com a quase impossibilidade de se deslocarem por falta de mapas, de guias, de caminhos para já não falar do transporte da “impedimenta” essencial para quem vai ocupar longas extensões de fronteira a muitos e muitos quilómetros do local de desembarque. Mesmo aí, e nos locais de concentração de tropas, faltava tudo a começar por hospitais de campanha.

A campanha moçambicana foi toda ela um desastre inenarrável a que acresceu o facto de o país estar a defrontar o melhor general de toda a guerra: Paul Emil von Lettow-Vorbeck

(que nunca teve às suas ordens mais de 3000 brancos e 10/12.000 ascáris) cujas memórias foram editadas em numerosas línguas incluindo o português. Von Lettow derrotou quase duas dezenas de generais e, pelo menos, um marechal sem nunca ter sido vencido. Entrou em Moçambique, por onde se passeou quase até Quelimane, mais para se abastecer de víveres do que para bater o inerme Exército Português mesmo quando este era coadjuvado por ingleses e sul africanos. A campanha de Moçambique foi um fiasco e um desastre medonhos que se saldaram em quase 10.000 baixas (num total de cerca de 20.000 expedicionários “metropolitanos” e dez vezes mais “indígenas” entre soldados, carregadores e civis muitas vezes vítimas do exército português. As famosas vitórias (Kionga onde só havia um cão para defender a praça e Nevala tomada desprovida de tropas e rapidamente reocupada pelos alemães) são ensombradas pela terrível derrota de Ngomano, um desastre de inépcia que forneceu aos alemães toneladas de mantimentos, munições, roupa e armamento. Pior, muito pior do que o “desastre” de Naulila no Sul de Angola onde as coisas, apesar de tudo, correndo mal, correram melhor para as forças portuguesas.

Sobre tudo isto, sobre esta apagada e vil tristeza da 1ª guerra em África continua tudo como no tempo da outra senhora: ou seja num opaco silêncio que evita a verdade incómoda e cruel de um país incapaz de defender os seus territórios e que desviou para a Flandres mais de cinquenta mil soldados ligeiramente menos impreparados que os das colónias e que se mostraram inúteis na frente de batalha onde estiveram sempre desacompanhados.

É bom lembrar que os Aliados não queriam, não pediram, sequer sugeriram uma intervenção portuguesa. Bem pelo contrário. A Inglaterra apenas sugeriu o confisco dos barcos alemães mas a ânsia de reconhecimento da “República” fez criar um Corpo Expedicionário que foi transportado para a Flandres em navios ingleses, que lá chegado foi de novo treinado, fardado, alimentado, armado e enquadrado por exércitos ingleses.

Vale a pena ler os diferentes testemunhos de militares portugueses, escritos directamente das trincheiras ou em posteriores memórias. Em relação a estes “cidadãos” treinados em Tancos (o famoso “milagre de Tancos”, uma mentirola para uso caseiro) o Estado Português tem uma dívida tremenda pela incapacidade em amparar, aliviar e tratar decentemente os homens que fez sair de Portugal. Por junto, seé que isso foi benefício, a República aceitou (foi obrigada a engolir) capelães militares para auxílio espiritual das tropas profundamente religiosas.

Não vale a pena falar das consequências políticas e, sobretudo, sociais, da guerra em Portugal. Mesmo tendo em linha de conta, a curta duração do estado de guerra em Portugal (1917-1918), o país assistiu a uma forte crise (o Sidonismo), ao aumento brutal do custo de vida, à crise dos abastecimentos vitais, e à da habitação. Acrescente-se o esfacelamento dos partidos republicanos, o crescimento da oposição e o definitivo divórcio dos sindicatos. Quanto a governos entre 1918 e 1926 houve pelo menos 30 uma média que superou a da primeira parte (1911-1917).

Há ainda uma outra herança da guerra que não tem sido trabalhada. Boa parte da oficialidade regressada aderiu à oposição ao regime e fortaleceu e participou no golpe do 28 de Maio (entre todos, só para exemplo Gomes da Costa).

As comemorações do centenário do fim da guerra (entre as quais a “maior parada militar post 25 de Abril”) não deixaram espaço para, ao menos, se fazer um balanço deste desastre. Se não erro, o Sr. Presidente da República terá mesmo falado em “100 anos de paz”! se efectivamente o disse, Sª Ex.ª sofre de desmemória. Mesmo depois do fim da guerra, continuaram as “campanhas de pacificação” coloniais, em Angola, Moçambique e Guiné. Deixando de lado as inúmeras intentonas antes e depois do 28 de Maio, temos que, durante a 2ª guerra mundial, em que Portugal se declarou neutral, houve, a partir de 1943, a necessidade de mobilizar mais de 20.000 homens para “defender” os Açores. Aliás, e no mesmo período Timor, colónia portuguesa, foi ocupado pelo exército japonês registando-se ásperos combates entre os poucos portugueses ali residentes (ajudados por deportados políticos) e os invasores. Não há um número exacto de vítimas portuguesas (e aí incluem-se milhares de nativos). Chegou a constituir-se um corpo expedicionário a Timor que, se lá chegou, só entrou na colónia após o fim das hostilidades. Em finais de 50 a União Indiana ocupou o Estado Português da Índia tendo havido baixas portuguesas e muitos prisioneiros. Desde 61 até 74 travou-se uma (ou três) guerra colonial com avultado número de baixas para não falar nas do campo adversário e mais ainda as registadas na população residente (branca e negra). Portanto, quanto a paz estamos falados...

(escrito por mcr cujo avô Manuel da Graça Patrício Curado, oficial do “Exército Colonial”, participou na 1ª Guerra e em muitas as campanhas anteriores e posteriores em Angola, cujo pai Marcelo Heinzelmann Corrêa Ribeiro foi expedicionário nos Açores (S Miguel) na qualidade de alferes médico no Batalhão de Metralhadoras nº 2, cujo tio José da Cruz Curado foi expedicionário para Timor na mesma época. Esta é uma singela homenagem ao esforço, ao sacrifício e ao patriotismo destes homens cuja simpatia pelo Estado Novo era, se existiu, extremamente reduzida ou praticamente nula).

* o título relembra a mais famosa canção adoptada pelas tropas britânicas. A citação de Guillaume Appollinaire (morto na consequência de grave ferimento sofrido nas trincheiras) é do poema “Zone” (de 1912) e publicado em “Alcools”, um dos grandes livros da 1ª metade do século XX (e de sempre, aliás).