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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Jul18

Au bonheur des dames 456

d'oliveira

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Ninguém liga ao coronel

mcr 19.07.18

 

 

Como sabem os leitores (e mais anda as leitoras) este título é uma meia paráfrase do de uma novela de Garcia Marquez (el colonel no tiene quien le escriba, que em português terá dado, julgo, ninguém escreve ao coronel).

Não venho porém falar do mundo de GGM, menos ainda das suas histórias extraordinárias, mas tão só de um senhor coronel , portuguesinho da costa, que prestou alguns bons erviços ao país mas que nos últimos dez/quinze anos passeia a sua robusta rotundidade pelos corredores de acesso ao poder e não consegue deixar de opinar sobre tudo o que lhe vem a alcance de tiro.

Normalmente, o senhor coronel dá tiros de pólvora seca ou, então, não acerta no alvo por razões que não descortino. Desta feita, multiplicou-se: ontem uma referência e hoje, tem direito a uma página do Público. Comecemos, muito de raspão, pela de hoje onde a sua laboriosa e pouco inspirada pluma deixa uns considerandos sobre uma eventual promoção do senhor tenente coronel Marcelino da Mata a coronel.

Este cavalheiro tem no seu currículo 5 Cruzes de Guerra (três de 1ª classe, 1 de 2ª classe e outra de 3ª classe) e, facto quase único, a “Torre e Espada” a mais alta e a mais rara condecoração portuguesa.

Ferido várias vezes, participou em operações de grande risco (incluindo a invasão de Conakri) e a sua biografia menciona uma operação em que se distinguiu especialmente e que resultou na libertação de mais de cem militares portugueses na Guiné).

Resta dizer que MM é negro  e cidadão português desde sempre.

Do senhor coronel Vasco Lourenço não consegui saber as condecorações militares, mas a existirem são seguramente inferiores à do cavalheiro “preto”. Estas coisas doem...

E doem tanto que numa enxundiosa e desgarrada redacção, VL alinha umas banalidades e ataca a promoção possível do seu camarada de armas. E do alto da sua condição de pai da pátria avisa as autoridades militares e, já agora, amotina o escasso público que faz o sacrifício de o ler para este medonho acto.

Pessoalmente, estou-me nas tintas para qualquer destes cavalheiros. Sou civil e paisano até ao sabugo e penei em sítios muito desagradáveis a minha desconformidade com o Estado Novo. Nada devo a qualquer deles pois o meu 25 de Abril começou aos trancos e solavancos ainda em 1959 durante a campanha de Humberto Delgado. Levo ao profissional das armas VL 15 anos de avanço na oposição à ditadura. Ou seja toda a minha vida de adulto (como aliás a dele que é da minha idade).

O que me admira é que nunca vi o senhor coronel Vasco Lourenço, levantar a voz façanhuda contra o senhor tenente coronel Marcelino da Mata desde que este, segundo, VL, começou a fazer tropelias na Guiné.

Bizarrias...

Deixemos este patriótico e maçónico queixume de Vasco Lourenço e passemos ao segundo tema onde, de novo, e impudentemente, ele se manifesta. Desta feita, a propósito da tristíssima vergonha do caso das armas desaparecidas em Tancos, o senhor coronel, sempre segundo o Público resolveu afirmar que o assalto aos paióis de Tancos não passou de uma farsa para acentuar os ataques ao Governo devido aos fogos do passado ano. Numa surpreendente declaração VL afirma que quem montou a farsa “são alguns dos mesmos que agora mais gritam contra a falta de resultados nas investigações”. E pede “sejam honestos!” pois se “o ataque ao Governo é  normal, admissível e legítimo” não pode valer tudo”.

O senhor coronel , segundo o jornal que reproduz estas declarações, sublinha que não tem como provar a sua teoria que contudo ainda ninguém provou que está errada (sublinhado meu). Ninguém pede a um coronel na reserva que saiba Direito mas já parece ser-lhe exigível além de bom senso alguma lógica. S.ª Ex.ª tem uma teoria que confessa não poder provar. Porém a bondade da teoria reside no facto de ninguém ter até ao momento provado que está errada!

S.ª Ex.ª é um monumento à Educação Nacional, ou pelo menos, à que era fornecida na Academia Militar. Então uma teoria (sem que qualquer facto a prove) está certa apenas porque ninguém se deu ao inútil trabalho de a rebater? E ninguém a rebate porque a teoria assim descalça e despida não tem ponta por onde se lhe peque e nem o mais espesso manto de fantasia a pode tornar sequer crível.

Suponhamos que eu jurava que o senhor coronel era um extra-terrestre saído de um Ovni poisado no claustro dos Jerónimos (ou na mata de Mafra, sitio eminentemente militar pelo menos para os milicianos que eram os que mais morriam nas selvas africnas). Suponhamos que o senhor coronel se irritava com esta xenófoba e planetária afirmação. E que pedia provas do que eu dizia. E eu, pimpão e parolo, retorquia-lhe: Tem Vossa Redundância provas que não é assim? Portanto regresse ai ignoto planeta que o viu nascer ou vá jogar o voltarete com um par de Irmãos que o aturem. E, já agora, deixe a política para gente com mais tino e os paióis na sua negregada solidão de sentinelas e de explicações.

E não misture os fogos (de que agora aprecem dezoito arguidos, tudo pessoal menor, nenhum responsável político, claro) que deixaram um rasto de mortos e dezenas de milhares de prejudicados com a até agora mais que comprovada (por declarações, por suspensões de militares que até vão a generais, e pelo patético gaguejar de um ministro incapaz e incompetente, por um monte de armas e munições miraculosamente encontradas) com esta anedota miserável que envergonha qualquer um e indigna ou faz rir meio Portugal e alguma Europa, pelo menos a que sabe desta novela que se arrasta.

 

29
Jun18

au bonheur des dames 455

d'oliveira

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Morreu a Fernanda

mcr 28.06.18

 

Maria Fernanda Vieira da Bernarda, anos 60. Alta e desembaraçada, uma “moçoila que respira saúde”, na expressão do meu primo Mário Leão, num dia em que foi a Coimbra manifestar a sua solidariedade à malta já em greve.

Conhecia-a uns anos antes da “crise”, da nossa crise, como me lembraram vários amigos que me foram telefonando e enviando mensagens desde a manhã de quarta feira, vinha eu para Lisboa fazer a minha visita mensal à velha, velhíssima Mãe e aos restantes cada vez menos familiares.

Noutros tempos teria reagido com mais emoção à notícia mas sabia, com vergonha o confesso, que a “Bernarda” (era assim que a Isabel Pinto, eu e mais alguns a chamávamos) estava mal, muito mal. Uma esclerose múltipla contra a qual combateu com serenidade, coragem e teimosia, tinha-a atirado para uma cama há vários (dez?) anos já. Eu ainda a vi, já em cadeira de rodas mas toda sorriso e alegria pelo reencontro com velhos amigos. Terá sido na última vez em que participei nas comemorações do 17 de Abril. Depois, o peso dos entretanto mortos começou a minar-me a alegria do reencontro e decidi não mais participar no que se ia transformando num velório de gente prometida à morte.

Todavia, a Bernarda era outra história. Não só fomos colegas (ter-nos-emos formado no mesmo ano, julgo) na faculdade mas, durante muito tempo, convivemos fora da “Alta” especialmente nos cafés conspirativos da praça da República (a “praça vermelha” como dizia um comum amigo que depois chamava ao café Mandarim, o “kremlin”). Pois foi nesse “kremlin” que muitas vezes nos juntámos, um alegre grupo que ia preparando a reconquista da Associação Académica ocupada por uma infame “comissão administrativa”, durante três longos anos.

Não vou fazer a história desses dias de vinho e rosas, de chumbo e desgosto, que isso está feito e detesto as memórias de antigo combatente.

Logo nos inícios de 70 estávamos, muitos dessa fornada, no Porto e, juntamente com o António Lopes Dias, a Isabel Pinto, o José Afonso e a “Bernarda”, formámos uma espécie de sociedade de advogados partilhando um escritório de cujo aluguer me encarregaram. (Em boa hora o decidimos que a senhoria ao saber o meu nome me perguntou por um tio avô e perante a minha resposta positiva logo nos fez um desconto de 500$00 mensais. O velho tio Alfredo Corrêa Ribeiro morrera entretanto e deixara ao pai da senhora uma espingarda. Agradecida, fazia-nos aquele enorme desconto...)

No Porto, o grupo vindo de Coimbra, ou melhor, o grupo que já era de amigos em Coimbra prosseguiu uma louca continuação da “crise” de 69, com o apoio de mais outra gente que ficara em Coimbra. Reuníamo-nos gravemente, várias vezes na casa que eu e a Maria João partilhávamos, outras na casa da Bernarda e do Zé Ferraz e tentávamos pôr de pé uma teoria conspirativa e revolucionária fora dos esquemas do PC e do recém nascido PS. Éramos todos sócios da “Centelha”, editora nascida em Coimbra e divulgadora de todos os heterodoxos marxistas bem como de muita e da melhor poesia portuguesa do momento. Quando um dos nossos, o Zé Afonso, então na tropa, nos avisou da iminência do 25 de Abril, foi o delírio. Distribuiram-se tarefas de apoio à intentona que nem foram necessárias pois, como se sabe, tudo correu bem. A mais louca ideia, proposta pelo Zé Ferraz ou pela Bernarda, consistia, caso fosse necessário, em fornecer uma cela para o general comandante da região militar em casa deles pois uma das casas de banho era interior e tinha tudo o que fosse necessário a um preso!

Éramos aliás vizinhos, no bairro onde ainda hoje vivo e lembro-me que quando me instalei no meu primeiro apartamento, logo a Bernarda apareceu com prendas várias desde uns copos e chávenas desemparelhados até um cobertor (eu entretanto divorciara-me). Não tive coragem para lhe dizer que tinha um enxoval completo... No nosso comum escritório prosseguíamos a nossa actividade de advogados de sindicatos e do que mais viesse à rede pois estávamos todos no começo. O pouco dinheiro que ganhávamos era rigorosamente dividido por todos fosse qual fosse o apport de cada um. Ao mesmo tempo íamos dividindo uma peculiar espécie de clientes gratuitos: a estudantada em revolta e o resto da oposicrática que ia aparecendo à procura de um advogado para o caso da polícia se interessar pelas actividades de alguém.

Com o 25 de Abril, demorámos algum tempo a decidirmo-nos onde cair partidariamente mas praticamente todos acabámos no MES e quase todos saímos de lá ao fim de um ano. Mais tarde, muitos, reencontraram-se no PS mesmo se nem todos tenham ficado por lá. Entretanto a Centelha faleceu de morte macaca afogada pelas dívidas de distribuidores que faliam com singular rapidez. Alguns, mas já menos, ainda criámos um livraria no Porto, a “Erva Daninha” que não obstante o nome durou apenas um par de estações. Nada disso, porém, quebrou a boa disposição ou afectou a amizade. Vínhamos de tempos duros, não queríamos (pelo menos a maioria de nós) galões de evolucionário nem prebendas do novo regime. Se nos aguentámos à tona e, de certo modo, prosperámos foi à custa de muito trabalho. Hoje está tudo na reforma ou quase porque há ainda alguns que acham melhor entreter-se a trabalhar do que calçar as pantufas. A Bernarda, essa, cedo teve de as calçar que a esclerose múltipla não é para graças nem dá tréguas. Houve casamentos e divórcios, claro mas singularmente todos os ex-cônjuges de que consigo lembra-me mantem as boas relações e a cumplicidade de antanho.

Dizem-me que no facebook, instituição que não frequento se vão multiplicando notícias e quiçá comentários. Todavia, faltaria a uma amizade de quase sessenta anos se não a recordasse aqui, neste pequeno canto tanto mais que alguns dos meus sacrificados leitores vem desses tempos bárbaros. Como alguém dizia, hoje, no velório, já nos podemos considerar relíquias senão sobreviventes. Ao encontrar esse quarteirão de amigos e conhecidos dezenas de outros me vieram à memória. Não estavam lá, nem poderiam estar. Subsiste a memória terna e frágil deles, caras e sorrisos de rapazes e raparigas que num momento único e irrepetível, num país naufragado e silencioso gritaram sem raiva mas com alegria e desafio a sua vontade de estar vivos e de viver.

E foi disso que falámos hoje na sala ao lado daquela onde jazia o cadáver da Fernanda, digo da Bernarda, digo da nossa boa, especial e querida amiga.

E nessa sala soturna pareceu-me ver, se é que não vi mesmo, o Osvaldo (Vává) Sarmento e Castro, o António Mendes de Abreu , o Zé Salvador, os dois Alfredos (Soveral Martins e Fernandes Martins, o João Bilhau. E outros, muitos outros, nomes delidos pelo tempo, pela minha incúria ou, mais provavelmente pela memória que já me vai traindo. Riam-se dos vivos envelhecidos que, de todo o modo, pareciam estar contentes por se reverem ao fim de tantos anos, tanta oportunidade perdida, tanto mar, tanto mar...

Vai esta dedicada ao João da Bernarda, com um forte abraço. Ele, mais velho e sem ligação ao meio académico, esteve connosco sempre, valente e bem humorado. A ajudar em tudo o que fosse preciso. Vinha da mesma cepa, é o que é. 

* a gravura: esta imagem está mais que vista mas onde estou não tenho acesso a nenhuma fotografia e na internet esta imagem era a única que podia usar-se. O resto era de gente que não conheço. Para quem, por milagre não saiba, esta é a fotografia das escadas monumentais tirada logo a seguir à inauguração do edificio das Matemáticas e ao "sacrilégio" dos insultos ao "venerando" Presidente da República. O que nós nos divertimos. 

13
Jun18

Au bonheur des dames 454

d'oliveira

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Lá se foi Bourdain...

mcr, 13, 6, 2018

A inesperada morte de Anthony Bourdain (aliás suicídio) causou uma certa comoçãoo por todo o lado. Estrela televisiva, enquanto crítico gastronómico, AB conseguia trazer para a ribalta do pequeno ecrã, as gentes simples, de todo o lado juntamente com grandes estrelas do Michein e análogas distinções.

Ao contrário de outros (e recordo uma série de franceses, sempre eles, que continuamente

Viajavam pela França em busca de uma receita, de um “chef” original, de agricultores conhecidos pelos seus produtos de excelência) AB privilegiava os encontros de acaso, aquilo que, agora (ai a moda...) se resolveu chamar “street food”, expressão que oculta realidades muito distintas desde a “petisqueira” até às habituais refeições rápidas que alimentam centenas de milhares de pessoas que por quase todo o lado trabalham arduamente sem tempo para ir a um restaurante, sequer a uma cantina.

A primeira vez que me deparei com esse tipo de alimentação foi (há quantos séculos?...) em Berlin (na altura Berlin Ocidental, com cheiro a revolução jovem, ecos de Rudy Dutschke e a sombra anunciada e paralela da imprensa “Springer” e da “Rote Armee Fraktion” (ou grupo Baader-Meinhof que mesmo sem qualquer verdadeiro entrosamento social, deixaram na Alemanha Federal um rasto sinistro): havia por todo o lado umas pequenas carrinhas que serviam uma salsicha com molho de caril (curry wurst) e batatas fritas. O nome dquelas pequenas geringonças era “schnell Imbiss”, na prática “comida rápida”. Mais tarde, deparei-me com coisas idênticas na Holanda onde o forte era o peixe ou na Itália onde , esquina sim, esquina não, se compravam fatias às vezes generosas de pizza.

No domínio da petisqueira, era a Espanha a campeã. Vezes sem conta em Madrid mas sobretudo em Salamanca (entre a plaza mayor e a do mercado) jantei ou almocei “tapas” variadas e maravilhosas por preço módico a que acrescia um copo de vinho ou uma cerveja bem tirada.

Claro que, em havendo tempo (e mais dinheiro) a minha preferência recaía num restaurante (como no?) coisa que nas terras espanholas há em abundância e a a todos os preços.

Talvez por isso, sempre fui bom espectador de programas culinários fosse em que língua fosse desde que eu, mesmo vagamente, a entendesse. A maior parte dos cozinheiros, curiosos, gastrónomos, que aparecia, conseguia criar empatia com os espectadores, ou então era eu que, comilão e guloso (bons tempos...) me satisfazia com pouco.

Todavia, e voltamos à “vaca fria”, o meu primeiro encontro com Bourdain não foi pela comida. De facto, o diabo do homem, tinha outros talentos escondidos, o menor dos quais não seria uma escrita desenvolta e imaginativa.

Realmente, ainda andarão por aí exemplares de dois romances policiais, curiosos, bem escritos e inteligentes, da autoria de AB. São eles “U osso na garganta” e “sarilhos nas Caraíbas” ambos de uma editora quase desaparecida, a “Ambar”. No primeiro ainda há um jovem cozinheiro, quase o herói da trama. Já no segundo, mesmo se o mesmo jovem ainda apareça, não é ele a principal personagem.

Bourdain escreveu também “memórias” e livros de cozinha, fruto da sua experiência como “chef” em alguns restaurantes de nomeada de Nova Iorque. Porém, quando tive a sorte de lá passar por essa fabulosa cidade, ainda não sabia dele. E, provavelmente, não teria dinheiro (e provavelmente oportunidade, dado o sistema de marcações complicado nos restaurantes de luxo ou simplesmente na moda) para provar algum dos seus cozinhados. De todo o modo, deixa um vazio, amargo e pouco explicado.

Não sei exactamente porquê, mas o acompanhamento dos seus programas permitiu-me conhecer um pouco melhor povos e culturas, cidades que nunca percorri. O homem tinha humor, elegância, saber, cultura e praguejava que nem um carroceiro. Mas até isso, nele, era simpático, pelo menos para um “pobre homem” de Buarcos, terra de pescadores, mar e bom peixe.

RIP

* na gravura "caldeirada à pescador" versão da Figueira da Foz

23
Mai18

au bonheur des dames 453

d'oliveira

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Todos os dias alguém morre.

Todavia, há mortos e mortos.

mcr, 23.05.2018

 

Júlio Pomar, 92 anos, muito (e bem) vividos, é já uma imensa saudade. Eu, admirador confesso seu, passei anos, décadas, à espera de uma oportunidade para comprar uma peça que me agradasse e que estivesse ao alcance da minha minguada bolsa. Mesmo fazendo sacrifícios, claro, que foi o que fiz para quase todos os objectos de arte que me enchem a casa.

Porém, nunca lhe cheguei. Se fosse um desses colecionadores do costume, desses que só querem ter o artista lá em casa sem cuidarem do seu gosto pessoal mas apenas da perversa fama de amadores de pintura, poderia eventualmente ter comprado alguma peça, quanto mais não fosse um múltiplo. Mas nem isso. Devo ter gostos caros, pelo menos caros para os meus rendimentos. Vi muitos, óptimos quadros de Pomar mas, logo que os lobrigava, a dúvida instalava-se: será desta? Não era. Nunca foi.

Talvez por atávico horror a comprar a crédito, a prestações, nunca tive qualquer hipótese!

Certa vez, num regresso de Paris, tive como companheiro de viajem um “marchand” vagamente conhecido. A criatura trazia na mão um rolo enorme. Sabendo que eu, na época, trabalhava para o Secretaria de Estado da Cultura, confidenciou-me que vinha ali, cautelosamente enrolado um magote de “Pomares”. “E o preço?”, perguntei-lhe, prometendo com tal pergunta calar-me perante a alfândega que nos aguardava. “Ai vai ter de ser compatível com o risco que corro... mas a si, por consideração posso fazer um desconto...”

Não sei porquê, ou aliás sei, a coisa não me cheirou bem e nunca fui pelo negócio. Ou pela negociata. Trinta anos depois, não me arrependo. Ou arrependo-me durante cinco minutos e deixo de me arrepender por mais uma longa temporada. Trabalhar na SEC tinha, para mim, algumas limitações. Por exemplo, nunca comprei pintura no “atelier” do artista mas só na galeria que o expunha. Isso significava um acréscimo de preço na ordem dos 30% (Hoje é o dobro!!!). Custa muito manter a fama de honradez. Ou de estupidez, como várias vezes me disseram. Que querem? Burro velho não aprende línguas nem enriquece.

Com a morte, anunciada aliás, de Júlio Pomar fecha-se o último ciclo de alguma pintura aparentada, mesmo que só por um escasso período de tempo, com o neo-realismo. Pomar nunca se deixou aprisionar por escolas e menos ainda por ideologias. Reinventou-se constantemente mesmo se, com o tempo e com paciência, possamos descortinar um caminho claro na sua pintura. E uma enorme alegria, um amor pela vida e um conhecimento profundo pela história da pintura. Nunca envelheceu. Ou melhor: envelheceu como os bons vinhos.

 

* Na gravura: Pomar no "metro" de Lisboa. Ou a grande arte pública para todo o público. 

02
Mai18

Au bonheur des dames 452

d'oliveira

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Simplex à moda do Porto

ou

Vocês que aqui entram deixem na rua toda a esperança

 

mcr 2.05.18

 

Suponha o/a leitor/a que vive numa zona em que todas as ruas circundantes têm o estacionamento condicionado. E que, por ser morador/a, pode requerer uma avença de estacionamento desde que a pague bem como o selo que a indica.

Para o efeito, informa a Câmara municipal, é necessário ter o domicílio fiscal na rua, fornecer os dados relativos à qualidade de morador bem como os elementos necessários à identificação da viatura.

Suponha, ainda (Arre, que V só levanta problemas! ) que acaba de adquirir um automóvel e que está à espera do famoso livrete, documento que, no meu pobre caso, já demora há quase três meses...

( convém esclarecer que o carro está integralmente pago e que boa parte desse dinheiro reverte para os cofres do Estado em IVA, imposto automóvel e demais alcavalas)

Dirige-se, pois, o requerente esperançoso à câmara, pede uma senha e aguarda pacientemente que o seu nº seja chamado.

Uma vez perante o funcionário, explica ao que vem, fornece a documentaçãoo que traz enquanto alega que não pode fornecer o “livrete” por este ainda não lhe ter sido remetido. Em troca, apresenta um documento de venda autenticado pelo vendedor, os documentos que asseguram que a viatura está segura contra todos os riscos. Em ambos os documentos está patente a direcção do requerente e o número e identificação fiscal que garante a veracidade do direito a poder requerer e pagar uma avença de estacionamento.

A primeira questão que o zeloso funcionário camarário levanta é que nada prova a existência do automóvel ou a titularidade da sua propriedade. Como se um vendedor fosse oferecer a alguém um documento de venda, factura e recibo incluídos, apenas por desfastio ou para ludibriar a autoridade municipal...

O requerente contrapõe que não se pode substituir ao Estado que é quem deveria num prazo normal, duas ou três semanas no máximo, proceder ao envio do “livrete”. E acrescenta que, mesmo tendo toda a simpatia pela Sr.ª Ministra Maria Manuel Leitão Marques, alegada mãe do Simplex, não a pode forçar a ordenar à repartição competente o dever simples de enviar atempadamente a documentação relativa a uma viatura comprada e paga ainda em Janeiro.

O requerente sabe, com um saber todo de experiência feita, das “dificuldades que tem um reyno velho em emendar-se”. Em Portugal não há “simplex” que dobre a Administração Pública, nacional, regional ou local como, aliás, não o há que dome o mole entusiasmo das empresas particulares e semi-públicas que copiam do Estado todos os defeitos e em troca, não o brindam com as suas escassas virtudes.

Também sabe, que os funcionários públicos, seja a que nível for, estão formatados no supersticioso respeito pela forma e não enxergam um palmo acima disso. Explicar a um deles que o livrete apenas confirma o título de propriedade de um veículo esmiuçando-lhe as características fundamentais e que na sua falta por atraso na elaboração do mesmo, alguma coisa há de o substituir mesmo defeituosamente é tarefa que requer nervos de aço e infinita paciência. Mesmo se, como é o caso, apenas se tratar de uma simples avença (paga) para estacionamento.

Neste capítulo, vencida a primeira objecção, ocorreu ao funcionário zeloso outra ideia peregrina: que a Câmara é livre de decidir se concede ou não a avença. Mesmo quando, em documento informativo tal possibilidade vem escarrapachada e cuidadosamente anunciado o seu preço (25 euros ano mais 15 para documento comprovativo).

Também, e sempre nesta indecisa linha de proteger os superiores interesses da Câmara ou dos seus “eficientes” funcionários, não se informa o “requerente” sobre o prazo de “deferimento” do requerimento. A ideia deve ser idêntica à do envio obrigatório do “livrete”: a avença virá quando tiver de vir, amanhã ou nas calendas gregas.

O país moderno de que se ufana o Governo, a Câmara modernaça que parece ser o orgulho de quem actualmente a detém (alguém que vem do “privado” e que, diz-se, não sofre dos males ancestrais da burocracia..), tropeça à primeira nesta miserável pedrinha que, segundo Drumond, “está no meio do caminho”.

Há cerca de quarenta anos, mais precisamente no final do anos setenta do século passado, estando eu em Paris aboletado em casa de um velho e bom amigo, fui por este informado que no dia seguinte teríamos de ir à mairie tratar de mudar alguns dados do livrete de um carro que, embora usado por ele, pertencia ao sogro. Tratava-se, “apenas” de transferir a propriedade do veículo. Depois, anunciava triunfante o Luís, iriamos comer uma choucroute medonha na Lipp.

Maravilhei-me com a ingenuidade do meu amigo expatriado. Então ele pensava que, por viver em França, resolvia tão intricada questão num par de horas? Propus-lhe comprarmos umas baguettes, recheá-las generosamente de foie gras, deitar num cesto duas ou três latas de cerveja e rezar para que antes da noitinha, se conseguisse o pretendido.

O malévolo e cosmopolita Luís mandou-me às malvas e insistiu na sua. A`s dez na mairie e depois rumo a Saint Germain para flanar por um par de livrarias e, finalmente ajoujados ao peso da livralhada, abancarmos na famosa brasserie.

Seja, pensei, pelos meus pecados. Cedo falei: em três exactos quartos de hora estávamos de saída com os documentos em ordem e tempo excessivo para compras e respectivo almoço.

Tão comovido fiquei com a eficácia gaulesa que me prontifiquei a pagar o almoço. Foi caro, claro que o regámos com um belíssimo vinho, farta conversa sobre os males da pátria madrasta e sobre os prodígios de uma Europa a que ainda não tínhamos, enquanto portugas, chegado.

Quarenta e tal anos depois, enfiados na Europa até ao tutano, nem uma merda de uma avença de estacionamento se resolve em tempo decente. E nem se fala do “livrete” que provavelmente virá com D Sebastião dos nevoeiros agoirentos de Alcácer-Quibir!...

 

25
Abr18

Au bonheur des dames 451

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Tão novos que nós éramos...

 

 

mcr 25.4.18

Bem, novos, novos ,nem tanto. Eu já ia nos 33 mesmo se, em tempos de negrume e angustia, de solidão e prisões, a idade adulta tardasse (de certo modo) a chegar. O Estado Novo mantinha-nos a todos, portugueses, numa espécie de adolescência política retardada.

Por muito democratas que nos sentíssemos a falta real de democracia, ou mais simples e fortemente, de liberdade, não nos permitia senão uma nebulosa antevisão do que era a vida para lá dos Pirenéus ( e, já agora, para cá dos Urais que, no “paraíso” das “soberanias limitadas”, ser livre soava a sarcasmo da História).

Viver em liberdade, em democracia, exige também algum treino, alguma percepçãoo dos limites próprios, uma ideia clara de compromisso, pesar continuamente os avanços e recuos da nossa intervenção na vida da cidade e do país. E, em certos casos, como já sucedia na CEE, uma aproximação mais lata e mais integradora ao que se queria como destino comum.

De todo o modo, a sede de liberdade não passa nem com uma catarata inteira do Niagara, mas apenas com um simples fio de água livremente nascida, livremente bebida.

O 25 A é o corolário de uma série de acções que nos anos sessenta se foram sucedendo, acumulando, nem sempre no mesmo sentido . Não deixa de ser irónico que a mesma tropa que trouxera o 28 de Maio, uma passeata tranquila e festiva entre Braga e Lisboa (a que não eram estranhos os ecos de uma desastrosa guerra e de uma não menos desvairada 1ª República, dezasseis anos de permanente ruído e furor, viesse, na consequência de uma outra guerra de desgaste, a desaguar no Lrgo do Carmo. A “ordem” que os de Maio de 26 consideravam essencial não era exactamente a “desordem” que precipitadamente alguns pensaram depois de Abril.

Todavia, alguns paralelismos há na evolução dos regimes nascidos à sombra das armas. O Estado Novo só estabilizou verdadeiramente depois de 1933 e o regime democrático levou tantos ou mais anos a converter o país em algo de “normal” e vivível.

Andam por aí criaturas a bramir contra o que chamam de “esquecimento” das conquistas de Abril” enquanto outras, com menor acesso aos meios de comunicação social, relembram os “bons velhos tempos” de antes, a tranquilidade, a aparente falta de crimes públicos e de corrupção, a patriarcal mão do Poder a defender os incautos súbditos dos males de pensar pela própria cabeça.

Todavia, entre o “antes” e o “depois” uma pequena e vitl diferença existe. Agora, pense-se o que se pensar nada nos está proibido, ninguém nos persegue por discordar.

Só isso, na aparência tão insignificante, chega (e sobra) para festejarmos.

E para, no meu caso, lembrar com comoção e ternura, três testemunhas e companheiros da jornada 24/25 de Abril: Alcinda e Jorge Delgado e Rui Feijó. Eles acreditaram antes, arriscaram antes e viveram intensamente o dia para que, também, tinham, afinal, contribuído.

Esta é uma pequeníssima prova de que a Democracia e a Liberdade se fazem sobretudo do esforço de muitos, muitíssimos, anónimos.

 

20
Abr18

Au bonheur des dames 450

d'oliveira

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Abril de alegrias mil

 

mcr 19 e 20 de Abril

Há dois dias, passou mais um aniversário da Crise Académica de1969 em Coimbra. Não foram muitas as notícias da efeméride. Afinal passaram já 49 anos e o tempo como se sabe passa, faz esquecer, destrói.

Duas das referencias ao acontecimento referiam a Crise académica de1969. Pelos vistos, ou por aqueles vistos, a coisa fora geral. Não foi, bem pelo contrário.

A crise ocorreu em Coimbra, persistiu em Coimbra e arrastou-se longamente naquela cidade e naquela Academia.

É verdade que, em Lisboa um pouco e no Porto muito vagamente, houve algumas (não demasiadas e não multitudinárias) manifestações de apoio. Razões para esta aparente (aliás real) solidão coimbrã não faltam. Em primeiro lugar as Associações de Estudantes eram em Lisboa débeis e no Porto inexistentes. Em Lisboa, o “movimento associativo” estudantil registara nos anos anteriores duríssimas derrotas. As escassas elites académicas tinham sido dizimadas pelas prisões, pelo chamada às fileiras e pelo exílio. A oposição ao Estado Novo fragmentara-se e, na Universidade isso era particularmente visível. Não era só a pequena acção da ASP que desde 64 vinha recrutando jovens socialistas pretendendo quebrar a hegemonia do PC. Havia, sobretudo, a irrupção de grupos de extrema esquerda que começaram com o aparecimento da FAP e continuaram desordenada e autonomamente a crescer e dividir-se nos anos seguintes. Não eram muitos os seus militantes mas eram extremamente activos e o Maio de 68 dera-lhes visibilidade. Visibilidade importada mas visibilidade. Maoístas, trotskistas, anarquistas ou simples críticos independentes acotovelavam-se nas assembleias gerais e a sua irreverência garantia-lhes audiência. O PC bem que os crismava de “esquerdelhos” (referência abusiva ao texto de Lenin “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”) mas, para a generalidade dos estudantes politicamente empenhados, isso ou não dizia nada ou era até um elogio.

No caso especificamente coimbrão, o movimento que se impusera na luta (e consequente vitória) contra as Comissões Administrativas que durante três anos (des) governaram sem brilho, sem apoio estudantil e penosamente a Associação Académica de Coimbra, partia de diferentes sectores mas unificava-se em torno do Conselho das Repúblicas uma estrutura não oficial que, com o Conselho de Veteranos (idem), era independente e compósita dada a própria especificidade e diversidade das estruturas que se reuniam.

Com esta estrutura aliavam-se os “Organismos Autónomos” (CITAC, TEUC ((teatros) Tuna Académica e três grupos corais o Orfeão, o Coral de Letras e o Coro Misto) que também se posicionavam diferentemente no xadrez político coimbrão os teatros mais à esquerda e o Orfeão mais à direita.

Compreende-se, assim, que para alcançar uma posição comum em defesa da autonomia estudantil houvesse que encontrar um denominador comum que, atentas as realidades e a origem dos estudantes seus participantes, não podia situar-se muito mais longe do que um moderado centro esquerda. De resto, a “Direita” coimbrã, ou o que dela restava tinha registadodesde 1960 uma longa e ininterrupta série de derrotas eleitorais apenas mitigada por um decreto lei absurdo que dava à minoria vencida lugares na Direcção Geral da AAC. Tal minoria acabava por ser claramente boicotada e, na realidade, as suas opiniões pesavam pouco ou nada na tomada de decisão. O facto de a Direita ter sustentado as “comissões administrativas”, agindo claramente às ordens do Governo, do Reitor e do Ministro da Educação, também não a tornou atraente à grande massa dos eleitores estudantis. Por muito fraca que fosse a politização destes a simples ideia de que a direcção da AAC não passava de uma correia de transmissão das autoridades era mais do que suficiente para a tornar mal vista e até malquista numa juventude que bebia muito na tradição (e no folclore) académico, nos seus hábitos de desafio e de rebeldia, porventura pueris mas profundamente sentidas sobretudo, e curiosamente, nos meios mais conservadores. Aliás, a Direita mais politizada esta reduzida a um pequeno grupo órfão do movimento Jovem Portugal e de outras formações epigonais. A guerra colonial que já ia no seu nono ano também não ajudava. Morrer em África não era algo sentido mesmo entre os jovens mais tradicionalistas. A guerra, para estes, poderia não ser um crime, mas era, de certeza, uma inutilidade perigosa e indesejada. Se o resto do mundo abandonara as colónias e não perecera porque diabo de razão se ia para os sertões sofrer sem necessidade?

Coimbra, por excelência, um meio académico fechado de faculdades muito próximas, unificado há séculos, isolado da sociedade citadina (os “futricas”) dava espessura e identidade à “Academia”.

Foi isto que fez a força do “movimento”. Foi a ofensa a isto que gerou uma contestaçãoo genericamente sentida por todos e exacerbada pelas tolas declarações de um inepto Ministro da Educação que se formara noutro mio e nada percebia da idiossincrasia estudantil coimbrã. As “autoridades académicas” (Reitor, Senado, Directores de Faculdade), escolhidas a dedo, dependendo sempre do Poder não exerciam sequer uma autoridade moral que as predispusesse a ser ouvidas, quanto mais acatadas.

Não estou a afirmar que nas outras cidades universitárias não pudessem surgir circunstâncias semelhantes mas, e desde logo, a “unidade estudantil” era prejudicada pela dispersão das faculdades, pelo tamanho da cidade e plo facto de haver maior número de estudantes a morar com a respectiva família. Também o habitat estudantil era diferente. Em Coimbra concentrava-se nas repúblicas em casas com muitos estudantes hóspedes, situadas quase todas paredes meias com a Universidade ou, de todo o modo, dada a dimensão da cidade, próximas umas das outras. Além do forte convívio intra-faculdade era notório outro. Não havia estudante que não se relacionasse proximamente com elementos de outras faculdades (e, mesmo se anedótico, as faculdades de Direito e de Letras estavam lado a lado possibilitando ao universo quase exclusivamente masculino da primeira um encontro intenso com outro maioritariamente feminino...).

Finalmente, a crise de Coimbra foi despoletada pela luta contra as comissões administrativas, pela restauração da autonomia da AAC, entidade prestigiada e nunca posta em causa fosse por quem fosse. Atacar isto, menosprezar isto, era atacar a “Academia” que poderia não ser uma força ofensiva muito grande mas que o era seguramente enquanto elemento reactivo.

Vê-se, quero crer que naquele ano de 69 estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para, à mínima chispa, deflagrar um conflito.

Tenho por seguro que, nada teria acontecido, pelo menos naquele ano, se um Presidente da República autoritário, velho e mal aconselhado, tivesse dado ao Presidente da Associação Académica ocasião para falar. Não deu. As autoridades debandaram da sala onde se procedia à inauguração do edifício das Matemáticas, sem aviso nem explicação. A estudantada apupou-os dentro e fora da sala. Enquanto a comitiva oficial se escafedia, a “malta”, a “Academia” ria-se, divertia-se e celebrava aquela manifestação propiciada pela impudência, pela imprudência e pela estupidez.

Tudo poderia, ainda, ter ficado por aí, não fora a Polícia ter pela calada da noite, prendido o Presidente da AAC e num que noutro local sovado alguns escassos estudantes. Não foi preciso mais para uma assembleia (“Magna”) ser convocada. Para que a Academia se sentisse e declarasse ofendida. O que poderia ter sido uma manifestação sem grandes consequências tornou-se um turbilhão. O inábil, mas presunçoso, Ministro da Educação entendeu na hora nobre da televisão vir ameaçar os estudantes, comina-los ao regresso ao estudo, ao sossego e às aulas. E ameaçar os mais renitentes. O homem era um incendiário que se desconhecia!

A partir daqui, foi tudo a descer... Ninguém, nenhum de nós, ousara. Alguma vez pensar, que iríamos ser actores daquela tragicomédia. E muito menos vir a fazer a única greve académica vitoriosa. O que começara como um “venticello” acabou em três meses por ser um “colpo di canonne, un tremuoto... un tumulto generale”.

Acho, 49 anos depois, que ainda temos boas razões para comemorar a nossa “juventude divino tesoro”, os nossos amigos, os nossos (e já são muitos, demasiados) mortos.

Com os anos que levo e que me pesam, não me sinto particularmente vitorioso mesmo se nunca voltei a cara a um combate (e perdi tantos...). todavia, ao contrário do herói de John Osborne, não “olho para trás angustiadamente”.

 

Citando de memória (eventualmente traidora) uma frase de um personagem

do Falstaff (no genial filme de Orson Welles, Badaladas da meia noite):”Jesus, Jesus as coisas a que assistimos!”

* Vai este folhetim para os rapazes e raparigas do meu tempo, estejam onde estiverem, pensem o que pensarem. O que se fez em conjunto está feito e nada, agora, o pode modificar.

18
Abr18

au bonheur des dames 449

d'oliveira

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Outra vez a Câmara Municipal do Porto e a zona residencial do “Foco”

2ª carta ao Senhor Presidente da Câmara

por mcr munícipe com os impostos em dia aos 18 de Abril de 2018

Ex.º Senhor

Vivo na rª Eugénio de Castro ou seja na rua onde se implantam 7 grandes prédios da zona acima descrita. 90% destes prédios são de habitação e por alto albergarão trezentos e cinquenta agregados familiares em apartamentos de tipologias diversas mas todos destinados ao que se costuma chamar classe média alta. Todos estes prédios estão dotados de garagens colectivas que poderão albergar 500 ou 600 viaturas. Todavia, os cerca de vinte estabelecimentos comerciais e outros tantos escritórios inseridos nesta rua e o facto das famílias residentes dispor quase sempre de dois ou mais automóveis torna as condições o estacionamento mais complicado mesmo se na zona poente do bairro haja estacionamento para mais umas dezenas de veículos.

Na rua já citada mais propriamente na parte onde estão inseridas três torres uma de 18, e duas de 10 andares, foi desde sempre proibido estacionar. È verdade que moradores e, sobretudo, frequentadores da zona, desrespeitavam alegremente as placas de proibição a todas as horas do dia e mesmo de noite, dado que sempre houve dois ou mais bares muito concorridos.

Desde empre mas principalmente nos últimos tempos, coincidentes com os mandatos de V.ª Ex.ª a polícia municipal fazia estrondosas incursões no local, multava com fartura e rebocava todos os carros que podia. Até a minha mulher que por uma vez teve preguiça de meter o carro na garagem foi obrigada a ir busca-lo ao depósito municipal. Desembolsando uma quantia respeitável como se sabe.

Porém, de há um par de semanas a esta parte, tudo mudou. A rua Eugénio de Castro e as vizinhas foram declaradas ruas com estacionamento condicionado. Se é verdade que nas restantes sempre se estacionou sem provocar confusões no trânsito, na nossa rua mudou completamente o paradigma. Não era permitido estacionar por a municipalidade e a Junta de Freguesia entenderem que isso afectava a circulação. No entanto, pagando, deixa esta de ser afectada!

Eu não consigo distinguir qual a ideia que preside a bondade do estacionamento pago numa rua onde ele proibido. Entendeu a Câmara que ganharia mais cobrando cada hora ou cada minuto entre as oito e as vinte do que mandando a enérgica polícia municipal em expedições punitivas cada três ou quatro dias?

Será que o acto de pagar para estacionar diminui os inconvenientes do estacionamento, porventura os transforma em conveniências generosas para todos os que aqui vivem ou por aqui tem de passar?

Estarão os cofres municipais de tal modo dessangrados e exaustos que a receita que aqui se gerará os salvará da catástrofe iminente que se avizinha?

Note, V.ª Ex.ª que esta pergunta não representa nenhum interesse escondido meu. Tenho garagem para os carros que usamos e até me preparo para, comprar uma avença de morador para, no caso de ter visitas, albergar estas a salvo dos homenzinhos que decerto começarão a rondar a zona, de talão em punho.

Este nosso país tem no seu ADN a mania das taxas, das multas, dos impostos escondidos ao mesmo tempo que, do lado de quem recebe, não se vislumbram medidas compensatórias, melhor serviço público ou esforços de qualquer ordem para aliviar a vida dos cidadãos. Ainda sou do tempo da licença de isqueiro que nunca percebi se servia para proteger a industria fosforeira, atacar o feio vício de fumar, ou simplesmente aqueloutra missão especial do Estado que consiste em ordenhar a carteira dos cidadãos e “chatear o indígena”.

Inclino-me para esta dupla e derradeira missão. A gentinha que se governa não merece da parte de quem manda senão mão forte e disciplinadora se possível acompanhada de tributação a esmo.

Será este o caso?

De V.ª Ex.ª votante e obrigado

mcr

13
Abr18

Au bonheur des dames 448

d'oliveira

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Tentar perceber

 

mcr 13 Abril 2018

Os portugueses, ou alguns portugueses, nunca deixaram de sentir o Brasil como algo seu.

E não por este ter sido, durante mais de dois séculos, o destino natural e quase obrigatório da emigração portuguesa. Não há português que não conte com parentela brasileira pelo menos em segunda ou terceira geração. Não é só o facto de usarmos a mesma língua (ou algo parecido com isso: ao falar do português do Brasil recordo sempre a frase do inglês que ao referir-se aos Estados Unidos afirmava que tudo era quase igual excepto a língua).

Eu, mesmo, tenho um pai nascido no Rio de Janeiro e descobri através deste blog uma série de primos distantes pelo lado de um trisavô alemão, médico emigrado no século XIX para o Rio Grande do Sul. Até me lembro da primeira frase da mensagem do primo Sérgio Heinzelmann: “Ué que é que você é a Vôvô? - Trineto caro Sérgio enquanto V é apenas bisneto!...” E durante anos trocámos correspondência vária até ele ter (suponho) morrido.

O meu pai filho de uma Heinzelmann nunca esqueceu os seus primeiros anos na “fazenda” da bisavó Ubalda que ele visitava indo de Portugal até ao Rio e daí até Petrópolis, onde a acaudalada e poderosa família materna se estabelecia durante o Verão. Quando, muito pequeno, ficou órfão da avó Dora, houve um acordo entre o meu avô e a sogra: o menino iria de longe em longe ao Brasil visitar, avó, tias e primos e primas. Depois da morte da avó, o ciclo interrompeu-se e só lá voltou cinquenta anos depois. Entretanto, as primas vieram a Portugal várias vezes e a relação familiar só acabou quando foram morrendo.

Nasceram, também no Brasil, um trisavô materno e outro paterno. Como se, desde o século XVIII, os meus familiares se tivessem entretido a cruzar o Atlântico para estudar em Coimbra, para casar, para se estabelecerem noutra terra que não a natal.

Percebo, portanto, esta quase mística da grande família luso brasileira. Por meu lado, sempre me interessei pelo Brasil via literatura (e o cinema) e durante os breves anos que vivi em Moçambique não só lia revistas de “quadrinhos” brasileiras (Gibi, Guri) mas também consumia uma revista mais adulta, “O Cruzeiro”, que me forneceu as primeiras pistas para a política brasileira. Lembro-me perfeitamente (e lá voltaremos) do fim do governo de Getúlio Vargas e do seu suicídio, dos temíveis artigos de David Nasser e Carlos Lacerda. E de Vão Gogo, irresistível humorista de que tenho dois ou três livros notabilíssimos.

Nos meus anos de Universidade segui apaixonadamente todas as peripécias da política brasileira desde o consulado de Café Filho até à aventura de Jânio Quadros e de João Goulart. Depois vieram os generais e foi o que se viu. Curiosamente, um dos livros mais divertidos que li e conservo é da autoria de um irmão do general João Figueiredo, de seu nome Guilherme. O livro em causa é “Tratado Geral dos Chatos” e ainda hoje se lê com um sorriso.

Estou, pois, à vontade para analisar este último e triste episódio da vida política brasileira. Como muitos da minha geração, assisti interessado e comovido aos primórdios de Luís Inácio da Silva, mais tarde Lula. Em boa verdade, simpatizei mais com Fernando Henrique Cardoso, de longe o melhor presidente que o Brasil teve nos últimos cinquenta anos. É Cardoso quem inicia a política económica que iria tentar fazer o Brasil sair do subdesenvolvimento. Foi dele a ideia do real e assumpção de uma série de medidas de política social e ambiental. Internacionalmente, foi (e é) considerado um líder de primeira linha e partilhou com Jimmy Carter, Desmond Tutu ou Nelson Mandela.

Tenho assistido a este encalorado debate sobre Lula e, espanto dos espantos, verifico que quanto mais cultos deveriam ser os intervenientes menos parecem saber (ou explicar cá para “fora”) as reais condições do processo, melhor dizendo dos processos que envolvem o ex-presidente do Brasil.

Comecemos pelas questões processuais. A legislação brasileira, como, aliás muitas outras, integra a delação premiada. Com isso pretende-se tornar o processo mais expedito, acelerar a investigação criminal e dividir os réus. Há, até, num cada vez maior número de países, a tentação de criar mecanismos idênticos ou semelhantes sobretudo para combater a crescente e cada vez mais sofisticada corrupção. Há mesmo exemplos encapotados do recurso a este expediente para a identificação de contas ocultas em paraísos fiscais. Só não o vê quem não quer ou quem acha isso inconveniente para os seus negócios privados.

A segunda questão prende-se com o começo do cumprimento da pena de prisão decretada pela 1ª ou 2ª Instância. Nos Estados Unidos, a pena começa a ser cumprida imediatamente mesmo se há recurso dela para um tribunal superior. No Brasil, o Supremo Tribunal criou, há já algum tempo, jurisprudência no sentido de acelerar o cumprimento da pena no caso de a 1ª e a 2ª Instâncias o terem determinado.

Fico estarrecido com um senhor professor (catedrático afirma ele e não serei eu quem o contradiga mesmo se isso me espanta e me dê a entender como a universidade se degradou) que veio a público dizer exactamente o contrário. Não vou perder tempo com um conhecido comentador coimbrão que no seu profundo amor a Lula vem falar de conspiração e de perseguição política. Como se a operação Lava Jacto não tivesse no rol de acusados, processados e detidos, um número bem mais elevado de personagens conotadas com o poder financeiro e com a Direita política e/ou social.

A terceira questão é ainda mais curiosa: ao que parece ninguém quer recordar o “Mensalão”. Num pais em que o Presidente da República detém poderes extensíssimos, aquela aventura apenas caiu em cima de José Dirceu, fiel entre os fieis de Lula. Este no unânime dizer dos analistas, “passou entre os pingos de chuva”, mesmo se esta fosse torrencial. Começou aí a desgraça do ex-presidente que nunca conseguiu explicar satisfatoriamente como é que o seu ex-braço direito organizara a captação de fundos gigantescos para o PT, para comprar deputados de outras formações, para todos os seus próximos apoiantes.

A quarta questão tem a ver com o facto de, no Brasil, o juiz de instrução (ao contrário do que se passa entre nós) poder vir a ser o juiz do processo. Podemos discordar (eu discordo) mas no Brasil a lei é exactamente essa e, até à data, ninguém por cá se tinha lembrado de a criticar...

A quinta questão radica nas acusações ao juiz Sérgio Moro. Durante anos, enquanto ele ia prendendo capitalistas e financeiros, ligados ao anterior establishment, Moro foi um herói. Lá e cá. Junto dos militantes do PT e de muita gente portuguesa. Moro era a versão brasileira dos juízes italianos das “mãos limpas”, ou dos émulos espanhóis de Garzón.

Agora é a bruxa má, a madrasta de Lula Branca de Neve. Ziguezagues da História com tempero ideológico em excesso...

Todavia, foi Moro quem exculpou o senhor Vaccari, tesoureiro do PT justamente no processo Lava Jacto. Ou seja, Moro desempenha nesta tragicomédia brasileira, neste samba de enredo, dois papéis: o de dr Jekyll e o de mr. Hide. Em que ficamos? Mau nos dias pares, bom nos ímpares e descanso ao domingo?

 

Deixemos, porém estes enfadonhos pormenores e vejamos a situação tal qual parece passar-se Brasil. É, ou foi, o PT uma organização revolucionária? Teve ou não uma governação popular e de conquista de direitos para as massas mais desfavorecidas da população?

À 1ª questão responderia Não e à 2ª Sim, absolutamente. No início da sua carreira de governante, Lula foi claramente um dirigente democrata e “moderado”, sobretudo se o compararmos com alguns outros líderes sul americanos. Foi populista? De certo modo mas isso não pode, sem mais, ser apontado como pecado mortal numa época em que em todas as geografias o populismo está de moda, seja com o sr Orban, com o inenarrável Nicolás Maduro (outro herói de alguma, escassa “Esquerda” caviar lusitana que amando sofregamente o povo recruta, porém, os seus militantes e os seus votos nas classes urbanas educadas. Até o Sr. Presidente da República passeia pelo país babado a sua bondosa figura, o seu resplandecente afecto e é imortalizado diariamente em centenas (que digo? Em milhares!) de selfies.

Costuma dizer-se que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. A coisa é visível por todo o lado desde a Venezuela à Europa dita oriental (nem sequer referindo a Rússia do novo Czar Putin, acrisolado defensor da russificação de várias partes dos países vizinhos e “soberanos” (Putin nunca esqueceu a famosa teoria da “soberania limitada”, cara ao poder soviético e aos seus epígonos portugueses).

O PT começou muito informalmente mas cedo se integrou no mundo surpreendente da política brasileira. Dotou-se de um aparelho e os seus dirigentes depressa desenvolveram os mesmos apetites dos congéneres dos partidos tradicionais. Recordo, apenas e em contraponto, a solitária mas corajosa figura de Marina Silva que depressa se desiludiu e tentou fazer carreira aparte. Bom seria que os eleitores se lembrassem dela, agora.

(descendente de negros por um dos lados, MS é um dos raros exemplos de um Brasil plurirracial que, entretanto, expulsa os não brancos para o ghetto invisível mas real das dos subúrbios favelados, habitat das classes baixas e domínio dos grandes traficantes e dos “bicheiros”. Num país com uma população maioritariamente não branca, são os brancos quem leva “a voz cantante” como dizem os nossos vizinhos. Procurem, fora da música e do desporto, os negros e mulatos relevantes. Ainda há pouco, foi notícia a chegada do primeiro juiz negro ao Supremo Tribunal. Vejam, se quiserem, o plantel dirigente do PT para não ir sequer aos outros partidos que, provavelmente, ainda são mais brancos).

Um ignorante comentador facebookiano teve mesmo a audácia de comparar Lula com Obama, criatura que ele, num vero delírio racista, considera um espantalho. Ou seja o Brasil dos negros invisíveis (cfr Ralph Ellison) é , moral e eticamente, muito superior ao país que já elegeu e reelegeu um presidente negro, que mantem um sólido grupo de senadores e congressistas negros, que tem um grande número de políticos estaduais e municipais negros e “latinos” que ostenta uma miríade de grandes intelectuais negros que não se confinam à música e ao desporto. Com amigos destes, Lula não precisa de inimigos...

 

Pessoalmente, dói-me a queda de um mito e de alguém que vi começar na luta desproporcional contra a ditadura dos generais. Desejaria que se provasse a sua inocência. Por razões várias, pessoais, abomino a prisão seja de quem for. Sei, de modo intensamente vivido e sofrido, o que isso representa na vida de alguém. Todavia, a simpatia não pode altera aquilo a que Danton chamou “a áspera realidade”.

E, por cá, não há, que se veja, quem se preocupe com esse ligeiro pormenor. Lula merece mais, muito mais, que estes seus defensores que o confundem com Maduro ou, mais simpaticamente, com o Chico Chicão da velha telenovela.

E já agora: não mitifiquem seja quem for, e Lula muito menos mesmo se ele vos convida para tal (“já não sou um homem mas uma ideia”!) No cortejo de horrores que nos deixou o século passado, o que viu nascer Lula, abundaram os mitos e soçobrou a ideia simples e honrada de humanidade.

* por razões que se prendem com a sua paisagem, com a fauna e com a flora, o Brasil foi alvo predilecto de grandes ilustradores, a começar pelos portugueses que lá fizeram grandes expedições e nos deixram obras sumptuosas e de grande rigor científico (por todos o dr Alexandre rodrigues Ferreira).todavia a ilustração de hoje é obra do francês Debrée que retratou o Brasil já no século XIX. A sua extensa obra é hoje pertença de grandes galerias e/ou colecções particulares. Quem porfiar talvez encontre em alfarrabistas antologias dele. 

 

05
Abr18

Au bonheur des dames 447

d'oliveira

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Pagar mas receber

(carta ao Sr. Presidente da Câmara do Porto)

 

por mcr 4/5 de Abril de 2018

 

Ex.º Sr.

Entendeu a Câmara, a que V.E. preside, criar “zonas de estacionamento de duração limitada” no “FOCO” (ou Parque Residencial da Boavista seu verdadeiro nome mesmo se caído em desuso).

Para esclarecer algum leitor que não viva no Porto, trata-se de um conhecido bairro da cidade, situado a meio da Avenida da Boavista e constituído por cerca de doze edifícios onde existirão entre 600 a 800 apartamentos de dimensão grande e média. Há uma Igreja, uma galeria comercial com duas dúzias de estabelecimentos, três pastelarias, um pequeno supermercado, uma agência bancária e dezenas de escritórios. Existe também um hotel ,neste momento desactivado devido à inépcia e ao desvario do antigo BES, uma piscina, um “clube residencial”, um supermercado (todos encerrados) e um bonito jardim no centro. Este conjunto, edificado nos anos 70 está em vias de ser classificado e andou nas bocas do mundo por via de um tresloucado projecto de implantar numa empena do prédio de entrada da rª de Azevedo Coutinho uma criação do “artista de rua” Vihls. Quem aqui vive só costuma sair em caixão pois não há na cidade construção tão boa e, sobretudo, com dimensões tão generosas. Foi obra de reputados arquitectos e ainda hoje é motivo de estudo e visita para alunos de Arquitectura. É um bairro de classe média/alta e provavelmente por isso a CMP (seja qual for o partido que a ocupa maioritariamente) “esquece-se” frequentemente de tratar este conjunto habitacional como trata muitos outros. Basta verificar o estado de pavimentação dos arruamentos e a lepra que invadiu vários passeios, esburacados com pedras de calçada em falta prometendo aos menos atentos valentes quedas. Eu mesmo já me estendi ao comprido num dia invernoso em que, desprevenido e friorento, avançava rapidamente e de mãos nos bolsos. Pimba, zás trás! Beijei a calçada em falha como se fosse o Papa em viajem a um país ignoto.

Volta e meia, a solícita e operosa Polícia Municipal faz uma razia na zona e multa ou reboca viaturas estacionadas mormente nas ruas Eugénio de Castro e Afonso Lopes Vieira. Razões obscuras (ou talvez não...) evitam tropelias policiais idênticas aos estacionamentos absolutamente caóticos da rua onde está situada uma coisa qualquer relacionada com “desporto” e “futebol” onde a regra é a dupla fila. Também nunca se vê um cavalheiro da polícia camarária nas horas em que pais solícitos e mães amoráveis vêm buscar as crias à saída das duas escolas secundarias existentes na rª Primeiro de Janeiro. É um sinal de carinho e respeito pela educação ou simplesmente uma cautela para não ofender progenitores eventualmente famosos ou/e poderosos.

Pessoalmente, disponho de dois espaços na garagem colectiva do meu prédio pelo que estou relativamente descansado. A coisa muda de figura quando tenho visitas ou (como é o caso) algum vizinho com família mais numerosa excede a capacidade de estacionamento da sua fracção. Nessas eventualidades, corre-se o risco de ver a zelosa polícia municipal a operar.

(convém acentuar que estas surtidas ocorrem apenas de dia e com bom tempo. Compreende-se que os senhores guardas se queiram defender da chuva ou de umclima particularmente agreste. É sabido que o crime ou a mera contravenção só acontecem em dias suaves e primaveris.)

Como já se disse acima, há neste conjunto de prédios lojas e escritórios, igreja, um banco (e já houve um cinema e um supermercado bem como uma piscina) que obviamente atraem visitantes, compradores, devotos, para não falar do caso de funerais casamentos e baptizados que, como é presumíve,l atraem pequenas (ou grandes) multidões. Em, zona “rica” há sempre mais freguesia para este género de eventos.

Recordo, sem saudade, o imortal slogan “os ricos que paguem a crise” que encheu paredes de boa parte do país apelando à luta de classes mesmo se os seus propagandistas não tivessem especial noção do que aquilo quereria dizer. Marx é de leitura dificultosa e qualquer “sebenta” progressista, a começar pela da senhora Marta Heineker substitui vantajosamente as elucubrações do velho Karl.

A digna Vereação a que V.ª Ex.ª preside deve ser herdeira desse momento heroico da nossa vida democrática ou, pelo menos, do que se entende como tal.

Assim, nunca a CMP se preocupou em deitar umas pazadas de alcatrão nos arruamentos que estão como foram concebidos pela empresa construtora do “Foco”. Muito duraram eles, sinal de boa e sólida construção!

Agora o piso está gasto, rapado, com fracturas e falhas. Nele, de novo e moderno, só os risquinhos amarelos que proíbem o estacionamento. Pouco antes da Páscoa, na sexta feira, provavelmente para melhor celebrar a Paixão, apareceu grandioso e ameaçador um buraco com um diâmetro de mais de meio metro mesmo em frente da saída da garagem do meu prédio. A meio da rua para ser mais preciso e, sobretudo, mais estético. Alguém adornou a cavidade com uns ferros e um fita de plástico branca e vermelha, como se quisessem alertar os motoristas que descem a rua. Com sorte e algum espírito de gincana consegue-se evitar a cova que ontem, quarta feira, já tinha mais de trinta centímetros de profundidade. Deve ser uma preparação para o rallye de Portugal ou para o finado circuito automobilístico da Boavista...

Exº Sr. dr. Rui Moreira

Eu compreendo que a CMP não nade em dinheiro. E que seja contra a desordem do estacionamento selvagem. Vejo continuamente – e sobretudo na Avenida da Boavista – dezenas de automóveis estacionados em via dupla sem que a briosa e operosa Polícia Municipal dê um ar de sua graça. Provavelmente estará ocupada em esquadrinhar os ricaços que abusam dos arruamentos da minha zona...

Sou, depois de um longo rosário de multas, uma pessoa que só estaciona em parques de estacionamento, pagando o óbolo exagerado que me pedem. Percebo a vontade de tornar a cidade, alegadamente Invicta, mais civilizada e mais europeia. Todavia, veja, V.ª Ex.ª, rentabilizar os arruamentos (e para já só estes) arruinados do “Foco” sem sequer os restaurar parece-me (mas pode ser defeito meu, mesmo sendo seu votante, como fui, e das duas vezes) uma falcatrua, e uma pequena indignidade. Mesmo “ricos” temos, os habitantes do “Foco”, os mesmos direitos constitucionais e camarários, de quaisquer outros concidadãos.

Não quero pagar ou fazer pagar os meus amigos e familiares que me visitam sem que se veja que esse dinheiro tem a sua utilidade e razão de ser. O Município, que, normalmente, só se lembra de nós para pedir o IMI e outras alcavalas, tem o dever de cuidar da cidade de a arranjar, defender, embelezar e tornar mais atractiva para turistas ou empreendedores.

Queira, em consequência, mandar tapar o buraco antes que a rua fique intransitável e, de caminho, melhorar os pisos que irão, estou certo, render bom dinheiro aos cofres camarários

Sem outro assunto de momento, sou

De V.ª Ex.ª admirador atento e obrigado

* nas gravuras:aspectos do "Foco" ou, melhor dizendo, Parque Residencial da Boavista.