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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

07
Set18

au bonheur des dames 459

d'oliveira

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Cheira a eleições que tresanda!

mcr 7.9.18

Durante quatro penosos meses estive impedido de conduzir. Culpa minha, claro. Ia demasiado depressa numa auto-estrada demasiado vazia (A-17 e A-8, ou seja entre Aveiro e as Caldas da Rainha, um projecto mirabolante dos desvairados governos que tivemos de suportar: muito betão para quase nenhuma circulação). Paguei uma multa choruda, inibido de conduzir durante quatro meses e fiquei em “probation” durante cinco anos que provavelmente ainda não se concluíram.

Como vou todos os meses a Oeiras visitar a minha mãe e como a pena apanhou o mês de Agosto isso significou não só viagens de comboio Porto/Lisboa e Cais do Sodré/Oeiras. Nos dias de estadia lá fazia duas viagens Oeiras/ Lisboa e usava o metro lisboeta com bastante frequência.

Nesse tempo, as viagens entre o Porto e Lisboa no Alfa pendular ainda tinham ar condicionado, coisa que, pelos vistos, agora é ocasional. Também a linha de Cascais ainda tinha um número razoável de comboios, coisa que, entretanto se reduziu muito significativamente.

Nada disto continua hoje. Há menos e piores comboios quer nas linhas nacionais quer nas de proximidade. O conforto que nunca foi especialmente interessante nas segundas diminuiu drasticamente. Menos comboios suburbanos, significa mais comboios atulhados o que em percursos médios ou longos é penoso.

Números cada vez mais aterradores surgem diariamente: o Estado tem imperativamente de aplicar 1300 milhões de euros nos próximos dois ou três anos não só para pagar parte da dívida mas também para manutenção da frota ferroviária existente, para melhoramento de algumas linhas (a do Oeste está num estado comatoso, a do Sul e Sueste não parece especialmente melhor e o resto não parece gozar de grande saúde). Os leitores talvez não conheçam a linha do Oeste (Figueira - Leiria- Marinha Grande- Caldas da Rainha- Lisboa) mas a simples descrição do seu percurso mostra quão vital ela é. É ou era porque em certos troços raramente circulam comboios, a electrificção é mais que parcial, a via está num estado descoroçoante como se aquilo fosse interior profundo e desabitado. No Algarve, no Alentejo, no Douro, no Minho o retrato só peca por ser semelhante.

É neste cenário de vil tristeza que se ouve uma criatura da Administração da CP (algum afilhado?) dizer que as coisas não são assim tão más; que as cativações são de pouca monta ou insignificantes, que agora é que vai ser. Ao mesmo tempo anuncia o aluguer de comboios (provavelmente velhos e a necessitar de grandes reparações antes de serem usados nesta selva obscura e bananeira) e por aí fora. O espectáculo da sua audição no Parlamento foi tão penoso quanto o martírio de uma viagem Figueira Lisboa (se alguém a conseguir fazer em menos de cinco ou seis horas!...).

Ao mesmo tempo, o sr. presidente da C. M. Lisboa disparou um tiro de pólvora seca que, jura ele, não é eleitoralista: baixa generalizada dos preços dos passes na região. E também no Porto, já agora para ver se o dr. Rui Moreira não refilava. O sr. presidente da C. M. de Gaia veio pressuroso afirmar que o embaratecimento dos passes tinha inclusivamente vantagens ecológicas e que tal benefício superava financeiramente, e em muito, o custo acrescido para o Orçamento! Isto assim, a secas, sem um estudo, um calculozinho, mesmo mental, sobre a verdade de tal economia.

Em tempos, longínquos, li um romance romeno (falha-me de momento o autor) onde jovens pioneiros ouvem um responsável político falar-lhes de um futuro ridente de prodigioso sucesso ecológico, económico, humano ético de uma qualquer medida de um qualquer plano eventualmente quinquenal. Em Portugal, país notoriamente mais modesto mas igualmente propenso a ver futuros risonhos no meio de um espesso nevoeiro de onde emergirá D Sebastião, passa-se o mesmo.

Agora é que é/

ó louro dá cá o pé...

Arraial, arraial/

tudo por Portugal...

Obviamente o resto do país, mesmo abananado, uivou de indignação. Então nós, os Braga, de Viseu, de Coimbra, de Évora ou de Faro vamos pagar as passeatas dos de Lisboa e Porto?

Em poucas horas, quiçá um dia, um senhor ministro, mais avisado e prudente, veio deitar água na fervura: calma, malta, aguentem os cavalos! A medida sobre os passes já está a ser estudada e há muito (e nós que não sabíamos nada!!!) pelo carinhoso Governo que vos apascenta e a haver baixa de preços é para todos, mesmo para o povo de Barrancos. Claro que, agora já não são 65 milhões mas quase o dobro.

É bem verdade que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são as que registam maior deslocação de (e para ) o emprego. Mas também é verdade que é aqui que está a maior fatia de riqueza nacional, local e individual, a maior fatia de oportunidades, os melhores cuidados de saúde e os melhores estabelecimentos educativos. Razões mais que sobradas para não esquecer o resto da maralha, os pacóvios, os provincianos, o povinho...

Ocorre-me, porém, uma pergunta impertinente: será que mais transportes, e mais baratos, diminuirão significativamente o acesso de automóveis ao centro? Será que essas dezenas de milhares de viaturas normalmente com um único ocupante serão deixadas na garagem (onde a há...) e preteridas pelos transportes públicos?

Em Portugal, país notoriamente menos rico do que congéneres na Europa, há carros para quase toda a gente. Bons, medíocres, maus, usados, muito ou pouco, mas a verdade é que o parque automóvel é gigantesco. Passe-se por qualquer bairro social para se perceber que há, pelo menos, um carro por habitação. Como país pobre (repete-se) o carro é ainda uma marca de prestígio a que ninguém fica indiferente, mesmo se isso significa despesa incomportável ou, pelo menos, dispensável face a outras necessidades. Será que o autarca de Gaia ainda não percebeu esta realidade?

Sou favorável a uma melhoria no sistema de transportes públicos sejam eles a ferrovia, o metro ou os autocarros urbanos e intermunicipais. Há é que definir claramente prioridades e, em terra em que escasseia pão, talvez seja melhor atacar não o mais fácil mas exactamente o mais difícil, a ferrovia sobretudo se nos lembrarmos que o transporte de mercadorias é estratégico. E nisso há também que pensar na bitola de molde a não nos isolarmos ainda mais da Europa. Até a Espanha já o percebeu e agiu em conformidade. Todas as suas grandes linhas estão já com bitola europeia. E as restantes estão electrificadas. Por isso podem dar-se ao luxo (e apreciável ganho...) de nos alugar comboios que provavelmente já estavam a caminho da reforma...

Eu nada tenho contra o dr.. Medina, egrégio autarca de Lisboa e presumível candidato a um destino nacional. Ele pode pedir o que quiser depois a bola é dos outros (aliás dos pagantes, isto é nossa). Agora o cavalheiro de Gaia (uma galinha pedrês que sonha ser águia...) é que um caso de maior dificuldade interpretativa. Quererá passar a ponte, logo que o dr. Moreira deixe de poder candidatar-se? Não seria a primeira vez que se via um autarca da outra margem ser tentado pelo poleiro da “Invicta”.

De todo o modo, a procissão de promessas e propostas ainda vai no adro. Há que dar tempo ao tempo. E à fantasia mesmo se absolutamente tresloucada.

 

 

(em tempo: ainda estas linhas não tinham metaforicamente cegado e mais um ministro veio anunciar 168 milhões para a compra de 20 (?) comboios à Espanha. Comboios em 2ª mão, claro e não eléctricos. Parece que demorarão 5 anos a estarem operacionais! Forte consolo! Todavia, o anúncio serve para a época eleitoral. Está bem tudo o que acaba bem, afinal. E ponto final.)

 

 

30
Ago18

Au bonheur des dames 458

d'oliveira

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Em Belém o nacionalismo parolo dos livros

mcr (espantado!) 30.08.18

 

(nota preliminar: não votei no Doutor Rebelo de Sousa mas acho que está a cumprir bem o seu cargo. Fora os beijinhos e as selfies tem sido solidário, tenta dar o exemplo –férias no interior, viagem em carro próprio, convívio descomplexado com quem se aproxima – e não cria dificuldades ao Governo ou à Oposição. Tem iniciativas interessantes e uma feira do livro nos jardins de Belém poderia ser interessante)

 

Vai para o seu segundo ano a feira do livro nos jardins do palácio de Belém. Em algum sítio julguei ver uma referencia ao Jardim (Botânico) Tropical mas posso estar enganado. E se estou é pena: os portugueses e os lisboetas desconhecem quase esmagadoramente este espaço belíssimo que em tempos terá sido do Instituto de Investigação Científica e Tropical instalado no palácio dos condes da Calheta. Este palácio poderia ser mais visitado se, por exemplo tivesse um restaurante ou pelo menos uma cafetaria decente que permitisse a vista do jardim mas as vicissitudes porque tem passado o IICT , o desmembramento das suas instituições mostra bem como isto tudo é feito: atabalhoadamente e em puro desperdício. Um desastre!

Voltando, porém, à “feira do livro”. Parece que só terá autores portugueses! Participarão cento e tal editoras mas só com livros de autores nacionais! Viva Portugal! Viva a Pátria! Heróis do mar, força companheiros!

Não indo mais longe do que a ficção, tenho por quase seguro que a nacional representará entre 10 a 20% dos catálogos reunidos. O resto, nem sempre bom, muitas vezes médio ou sofrível, para não falar nos medíocres, é de origem estrangeira.

No capítulo do ensaísmo a coisa piora. Provavelmente só no caso das obras de História se poderá encontrar um equilíbrio entre a origem nacional e a estrangeira.

Não vou referir nem a literatura dita infantil, nem os manuais escolares (suponho mesmo que estes não estarão lá). Receio bem que a presença da poesia seja como de costume conspícua e que no lote não se consigam encontrar muitos autores que publicam a expensas próprias ou em edições quase clandestinas.

Agora a ideia fatal da literatura nacional e só essa tresanda a Viktor Orban ou pior. Estabelecer fronteiras entre o senhor Elias Canetti (ainda agora editado e logo em duas obras fundamentais...) e aquela senhora muito distinta que dá por Margarida Rebelo Pinto, preferindo a patriótica prosa desta ao desvario cosmopolita de Canetti é extraordinário. E surpreendente! Ao que sei, o senhor Doutor Rebelo de Sousa é um leitor voraz. A que título vem ele, que patrocina o evento, dar a seu aval a esta burríssima distinçãoo que nem sequer serve a cultura nacional. Achará S.ª Ex.ª que a pátria dos egrégios avós passa bem sem Shakespeare visto ter por cá o não editado poeta Chiado? Brecht não valerá meio Jacinto Lucas Pires? Os poetas Manuel Bandeira, José Craveiinha (prémio Camões!) ou Drummond de Andrade mesmo escrevendo em português valem menos que um ignorado inventor do soneto com mais um terceto de quem já aqui terei falado?

A glória de Camões esmorecerá se lhe juntarmos “A divina Comédia” (traduzida por Graça Moura) ou os grandes poemas homéricos tão carinhosamente tratados por Frederico Lourenço?

Somos tão europeus! Somos todos europeus! Mas alguns são ainda mais ou menos europeus do que os outros para citar enviesadamente um tal George Orwell que, mesmo britânico foi dar o corpo ao manifesto em Espanha e ousou desafiar e denunciar os perseguidores assanhados do POUM ...

Mas vamos um pouco mais longe, e mais ao fundo: vender-se-ão na feira patrioteira antologias da poesia trovadoresca galaico-portuguesa, sabendo-se como se sabe que boa parte dos antologiados eram galegos e súbditos dos reis de Leão e Castela?

Suponhamos que o Sr Macron, imitava o seu colega português e descartava as traduções de Pessoa ou de Eça (esse afrancesado!...) dos balcões da eventual feira no Eliseu. O que aqui não se gritaria!...

Senhor Presidente da República, acolha em Belém, nos seus jardins e no Tropical –já agora- os grandes autores estrangeiros como (foi V.ª Ex.ª que o disse e por várias vezes) por cá se acolhem emigrados ucranianos, sírios, africanos de várias nações, nepaleses ou brasileiros. Aí está uma maneira de mostrarmos aos outros que sendo portugueses somos de todo o mundo, desse mundo para que sempre emigrámos e nos recebeu com solidariedade e gentileza. Se não for este ano, que seja para o próximo! Mas que se anuncie já! A literatura não usa passaporte nem visto de entada. Não nos empobrece antes nos engrandece e torna mais felizes e mais sábios ou, apenas, mais sonhadores.

De V.ª Ex.ª , muito respeitosamente

Seu homónimo mcr

17
Ago18

Au bonheur des dames 457

d'oliveira

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Agora é ainda uma lenda maior

mcr 17 agosto 2018

 

Num campo de golf, eventualmente em Lourenço Marques, anos 50, terei lido uma legenda que –se bem me lembro – dizia: “os velhos jogadores de golf não morrem. Simplesmente foram à procura de uma bola perdida.”

Aretha Franklin, essa mulher extraordinária, também não morreu. Mudou-se apenas para o coro de uma igreja maior onde o pai e o dr Luther King já estavam. Também já la estavam Mahalia a grande, Bssie, the Empress, ou Otis o criador de “Respect”. E muitos outros, tantos, tantos que é impossível enumerar. Mas que continuamos a ouvir maravilhados, graças aos LP ao CD às pen e a outros meios de reproduzir/ouvir música, a imortal música negra americana, honra e glória de um país que nem cem Trumps conseguem destruir.

Tenho ideia, remota é certo, mas muito precisa, de uma conversa em que, além da então minha namorada, Maria João, participava um querido amigo, José Quitério. A João cantava bem mas aldrabava as letras. De todo o modo, nós pedíamos-lhe sempre o “Amazing Grace” e ela risonha, generosa (e lindíssima!... ) lá desencantava a primeira estrofe antes de acabar rindo-se por não saber a continuação. Foi num desses dias (estaríamos em 65, 66 ou 67, sei lá...) ao falar-se de cantores que nos diziam qualquer coisa o Zé, na altura dirigente da secção de Jazz da AAC, nos largou: “Grande, extraordinária, é Aretha!” Esta Aretha ainda era por cá quase uma desconhecida mas o Zé já a tinha sintonizado, fina orelha que ele era. Eu calei-me por pura ignorância mas a João fez um quase esgar de desdém, ela era muito Pete Seeger, Joan Baez ou Nina Simone. Mas o Zé não se impressionou e decretou com o seu conhecido vozeirão e a sua cabeçuda convicção que era mesmo assim. Aretha era a rainha.

Resolvi começar a prestar-lhe atenção e agora, tantos anos passados, só de a lembrar, comovo-me. E comovo-me quando a oiço, trago-a numa pen no carro, aliás em várias pen. Em gostando de algo, encho as pen com isso, seja Mozart, Bach, Elligton, Dizzie, um par de franceses, outro tanto de espanhóis e por aí fora. Meto-me no carro, arranco e aí vai disto, a pen de serviço mais cedo ou mais tarde há de reproduzir um disco da Franklin.

Dizem, hoje, os jornais que ela faleceu. Morreu nada... Aquela voz, aquela maneira de cantar, aquelas canções não morrem nunca. É como o frére Jacques ou o “Barbeiro de Sevilha”: aquilo vive, respira e está cá para sempre. Como Bach ou Mozart.

A música é um pouco como a pintura: não conhece fronteiras, basta termos olhos ou ouvidos. Hokusai ou Fra Angelico, Vermeer ou Goya passam as fronteiras a salto nada os detém.

Nada deteve Aretha, mulher, negra, música, chama soul. Nada! Parece que Obama terá dito que quando ela canta a história americana jorra. Engano, ligeiro engano, querido Presidente: quando aretha canta é a história do mundo que jorra.

 

 

 

20
Jul18

Au bonheur des dames 456

d'oliveira

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Ninguém liga ao coronel

mcr 19.07.18

 

 

Como sabem os leitores (e mais anda as leitoras) este título é uma meia paráfrase do de uma novela de Garcia Marquez (el colonel no tiene quien le escriba, que em português terá dado, julgo, ninguém escreve ao coronel).

Não venho porém falar do mundo de GGM, menos ainda das suas histórias extraordinárias, mas tão só de um senhor coronel , portuguesinho da costa, que prestou alguns bons erviços ao país mas que nos últimos dez/quinze anos passeia a sua robusta rotundidade pelos corredores de acesso ao poder e não consegue deixar de opinar sobre tudo o que lhe vem a alcance de tiro.

Normalmente, o senhor coronel dá tiros de pólvora seca ou, então, não acerta no alvo por razões que não descortino. Desta feita, multiplicou-se: ontem uma referência e hoje, tem direito a uma página do Público. Comecemos, muito de raspão, pela de hoje onde a sua laboriosa e pouco inspirada pluma deixa uns considerandos sobre uma eventual promoção do senhor tenente coronel Marcelino da Mata a coronel.

Este cavalheiro tem no seu currículo 5 Cruzes de Guerra (três de 1ª classe, 1 de 2ª classe e outra de 3ª classe) e, facto quase único, a “Torre e Espada” a mais alta e a mais rara condecoração portuguesa.

Ferido várias vezes, participou em operações de grande risco (incluindo a invasão de Conakri) e a sua biografia menciona uma operação em que se distinguiu especialmente e que resultou na libertação de mais de cem militares portugueses na Guiné).

Resta dizer que MM é negro  e cidadão português desde sempre.

Do senhor coronel Vasco Lourenço não consegui saber as condecorações militares, mas a existirem são seguramente inferiores à do cavalheiro “preto”. Estas coisas doem...

E doem tanto que numa enxundiosa e desgarrada redacção, VL alinha umas banalidades e ataca a promoção possível do seu camarada de armas. E do alto da sua condição de pai da pátria avisa as autoridades militares e, já agora, amotina o escasso público que faz o sacrifício de o ler para este medonho acto.

Pessoalmente, estou-me nas tintas para qualquer destes cavalheiros. Sou civil e paisano até ao sabugo e penei em sítios muito desagradáveis a minha desconformidade com o Estado Novo. Nada devo a qualquer deles pois o meu 25 de Abril começou aos trancos e solavancos ainda em 1959 durante a campanha de Humberto Delgado. Levo ao profissional das armas VL 15 anos de avanço na oposição à ditadura. Ou seja toda a minha vida de adulto (como aliás a dele que é da minha idade).

O que me admira é que nunca vi o senhor coronel Vasco Lourenço, levantar a voz façanhuda contra o senhor tenente coronel Marcelino da Mata desde que este, segundo, VL, começou a fazer tropelias na Guiné.

Bizarrias...

Deixemos este patriótico e maçónico queixume de Vasco Lourenço e passemos ao segundo tema onde, de novo, e impudentemente, ele se manifesta. Desta feita, a propósito da tristíssima vergonha do caso das armas desaparecidas em Tancos, o senhor coronel, sempre segundo o Público resolveu afirmar que o assalto aos paióis de Tancos não passou de uma farsa para acentuar os ataques ao Governo devido aos fogos do passado ano. Numa surpreendente declaração VL afirma que quem montou a farsa “são alguns dos mesmos que agora mais gritam contra a falta de resultados nas investigações”. E pede “sejam honestos!” pois se “o ataque ao Governo é  normal, admissível e legítimo” não pode valer tudo”.

O senhor coronel , segundo o jornal que reproduz estas declarações, sublinha que não tem como provar a sua teoria que contudo ainda ninguém provou que está errada (sublinhado meu). Ninguém pede a um coronel na reserva que saiba Direito mas já parece ser-lhe exigível além de bom senso alguma lógica. S.ª Ex.ª tem uma teoria que confessa não poder provar. Porém a bondade da teoria reside no facto de ninguém ter até ao momento provado que está errada!

S.ª Ex.ª é um monumento à Educação Nacional, ou pelo menos, à que era fornecida na Academia Militar. Então uma teoria (sem que qualquer facto a prove) está certa apenas porque ninguém se deu ao inútil trabalho de a rebater? E ninguém a rebate porque a teoria assim descalça e despida não tem ponta por onde se lhe peque e nem o mais espesso manto de fantasia a pode tornar sequer crível.

Suponhamos que eu jurava que o senhor coronel era um extra-terrestre saído de um Ovni poisado no claustro dos Jerónimos (ou na mata de Mafra, sitio eminentemente militar pelo menos para os milicianos que eram os que mais morriam nas selvas africnas). Suponhamos que o senhor coronel se irritava com esta xenófoba e planetária afirmação. E que pedia provas do que eu dizia. E eu, pimpão e parolo, retorquia-lhe: Tem Vossa Redundância provas que não é assim? Portanto regresse ai ignoto planeta que o viu nascer ou vá jogar o voltarete com um par de Irmãos que o aturem. E, já agora, deixe a política para gente com mais tino e os paióis na sua negregada solidão de sentinelas e de explicações.

E não misture os fogos (de que agora aprecem dezoito arguidos, tudo pessoal menor, nenhum responsável político, claro) que deixaram um rasto de mortos e dezenas de milhares de prejudicados com a até agora mais que comprovada (por declarações, por suspensões de militares que até vão a generais, e pelo patético gaguejar de um ministro incapaz e incompetente, por um monte de armas e munições miraculosamente encontradas) com esta anedota miserável que envergonha qualquer um e indigna ou faz rir meio Portugal e alguma Europa, pelo menos a que sabe desta novela que se arrasta.

 

29
Jun18

au bonheur des dames 455

d'oliveira

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Morreu a Fernanda

mcr 28.06.18

 

Maria Fernanda Vieira da Bernarda, anos 60. Alta e desembaraçada, uma “moçoila que respira saúde”, na expressão do meu primo Mário Leão, num dia em que foi a Coimbra manifestar a sua solidariedade à malta já em greve.

Conhecia-a uns anos antes da “crise”, da nossa crise, como me lembraram vários amigos que me foram telefonando e enviando mensagens desde a manhã de quarta feira, vinha eu para Lisboa fazer a minha visita mensal à velha, velhíssima Mãe e aos restantes cada vez menos familiares.

Noutros tempos teria reagido com mais emoção à notícia mas sabia, com vergonha o confesso, que a “Bernarda” (era assim que a Isabel Pinto, eu e mais alguns a chamávamos) estava mal, muito mal. Uma esclerose múltipla contra a qual combateu com serenidade, coragem e teimosia, tinha-a atirado para uma cama há vários (dez?) anos já. Eu ainda a vi, já em cadeira de rodas mas toda sorriso e alegria pelo reencontro com velhos amigos. Terá sido na última vez em que participei nas comemorações do 17 de Abril. Depois, o peso dos entretanto mortos começou a minar-me a alegria do reencontro e decidi não mais participar no que se ia transformando num velório de gente prometida à morte.

Todavia, a Bernarda era outra história. Não só fomos colegas (ter-nos-emos formado no mesmo ano, julgo) na faculdade mas, durante muito tempo, convivemos fora da “Alta” especialmente nos cafés conspirativos da praça da República (a “praça vermelha” como dizia um comum amigo que depois chamava ao café Mandarim, o “kremlin”). Pois foi nesse “kremlin” que muitas vezes nos juntámos, um alegre grupo que ia preparando a reconquista da Associação Académica ocupada por uma infame “comissão administrativa”, durante três longos anos.

Não vou fazer a história desses dias de vinho e rosas, de chumbo e desgosto, que isso está feito e detesto as memórias de antigo combatente.

Logo nos inícios de 70 estávamos, muitos dessa fornada, no Porto e, juntamente com o António Lopes Dias, a Isabel Pinto, o José Afonso e a “Bernarda”, formámos uma espécie de sociedade de advogados partilhando um escritório de cujo aluguer me encarregaram. (Em boa hora o decidimos que a senhoria ao saber o meu nome me perguntou por um tio avô e perante a minha resposta positiva logo nos fez um desconto de 500$00 mensais. O velho tio Alfredo Corrêa Ribeiro morrera entretanto e deixara ao pai da senhora uma espingarda. Agradecida, fazia-nos aquele enorme desconto...)

No Porto, o grupo vindo de Coimbra, ou melhor, o grupo que já era de amigos em Coimbra prosseguiu uma louca continuação da “crise” de 69, com o apoio de mais outra gente que ficara em Coimbra. Reuníamo-nos gravemente, várias vezes na casa que eu e a Maria João partilhávamos, outras na casa da Bernarda e do Zé Ferraz e tentávamos pôr de pé uma teoria conspirativa e revolucionária fora dos esquemas do PC e do recém nascido PS. Éramos todos sócios da “Centelha”, editora nascida em Coimbra e divulgadora de todos os heterodoxos marxistas bem como de muita e da melhor poesia portuguesa do momento. Quando um dos nossos, o Zé Afonso, então na tropa, nos avisou da iminência do 25 de Abril, foi o delírio. Distribuiram-se tarefas de apoio à intentona que nem foram necessárias pois, como se sabe, tudo correu bem. A mais louca ideia, proposta pelo Zé Ferraz ou pela Bernarda, consistia, caso fosse necessário, em fornecer uma cela para o general comandante da região militar em casa deles pois uma das casas de banho era interior e tinha tudo o que fosse necessário a um preso!

Éramos aliás vizinhos, no bairro onde ainda hoje vivo e lembro-me que quando me instalei no meu primeiro apartamento, logo a Bernarda apareceu com prendas várias desde uns copos e chávenas desemparelhados até um cobertor (eu entretanto divorciara-me). Não tive coragem para lhe dizer que tinha um enxoval completo... No nosso comum escritório prosseguíamos a nossa actividade de advogados de sindicatos e do que mais viesse à rede pois estávamos todos no começo. O pouco dinheiro que ganhávamos era rigorosamente dividido por todos fosse qual fosse o apport de cada um. Ao mesmo tempo íamos dividindo uma peculiar espécie de clientes gratuitos: a estudantada em revolta e o resto da oposicrática que ia aparecendo à procura de um advogado para o caso da polícia se interessar pelas actividades de alguém.

Com o 25 de Abril, demorámos algum tempo a decidirmo-nos onde cair partidariamente mas praticamente todos acabámos no MES e quase todos saímos de lá ao fim de um ano. Mais tarde, muitos, reencontraram-se no PS mesmo se nem todos tenham ficado por lá. Entretanto a Centelha faleceu de morte macaca afogada pelas dívidas de distribuidores que faliam com singular rapidez. Alguns, mas já menos, ainda criámos um livraria no Porto, a “Erva Daninha” que não obstante o nome durou apenas um par de estações. Nada disso, porém, quebrou a boa disposição ou afectou a amizade. Vínhamos de tempos duros, não queríamos (pelo menos a maioria de nós) galões de evolucionário nem prebendas do novo regime. Se nos aguentámos à tona e, de certo modo, prosperámos foi à custa de muito trabalho. Hoje está tudo na reforma ou quase porque há ainda alguns que acham melhor entreter-se a trabalhar do que calçar as pantufas. A Bernarda, essa, cedo teve de as calçar que a esclerose múltipla não é para graças nem dá tréguas. Houve casamentos e divórcios, claro mas singularmente todos os ex-cônjuges de que consigo lembra-me mantem as boas relações e a cumplicidade de antanho.

Dizem-me que no facebook, instituição que não frequento se vão multiplicando notícias e quiçá comentários. Todavia, faltaria a uma amizade de quase sessenta anos se não a recordasse aqui, neste pequeno canto tanto mais que alguns dos meus sacrificados leitores vem desses tempos bárbaros. Como alguém dizia, hoje, no velório, já nos podemos considerar relíquias senão sobreviventes. Ao encontrar esse quarteirão de amigos e conhecidos dezenas de outros me vieram à memória. Não estavam lá, nem poderiam estar. Subsiste a memória terna e frágil deles, caras e sorrisos de rapazes e raparigas que num momento único e irrepetível, num país naufragado e silencioso gritaram sem raiva mas com alegria e desafio a sua vontade de estar vivos e de viver.

E foi disso que falámos hoje na sala ao lado daquela onde jazia o cadáver da Fernanda, digo da Bernarda, digo da nossa boa, especial e querida amiga.

E nessa sala soturna pareceu-me ver, se é que não vi mesmo, o Osvaldo (Vává) Sarmento e Castro, o António Mendes de Abreu , o Zé Salvador, os dois Alfredos (Soveral Martins e Fernandes Martins, o João Bilhau. E outros, muitos outros, nomes delidos pelo tempo, pela minha incúria ou, mais provavelmente pela memória que já me vai traindo. Riam-se dos vivos envelhecidos que, de todo o modo, pareciam estar contentes por se reverem ao fim de tantos anos, tanta oportunidade perdida, tanto mar, tanto mar...

Vai esta dedicada ao João da Bernarda, com um forte abraço. Ele, mais velho e sem ligação ao meio académico, esteve connosco sempre, valente e bem humorado. A ajudar em tudo o que fosse preciso. Vinha da mesma cepa, é o que é. 

* a gravura: esta imagem está mais que vista mas onde estou não tenho acesso a nenhuma fotografia e na internet esta imagem era a única que podia usar-se. O resto era de gente que não conheço. Para quem, por milagre não saiba, esta é a fotografia das escadas monumentais tirada logo a seguir à inauguração do edificio das Matemáticas e ao "sacrilégio" dos insultos ao "venerando" Presidente da República. O que nós nos divertimos. 

13
Jun18

Au bonheur des dames 454

d'oliveira

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Lá se foi Bourdain...

mcr, 13, 6, 2018

A inesperada morte de Anthony Bourdain (aliás suicídio) causou uma certa comoçãoo por todo o lado. Estrela televisiva, enquanto crítico gastronómico, AB conseguia trazer para a ribalta do pequeno ecrã, as gentes simples, de todo o lado juntamente com grandes estrelas do Michein e análogas distinções.

Ao contrário de outros (e recordo uma série de franceses, sempre eles, que continuamente

Viajavam pela França em busca de uma receita, de um “chef” original, de agricultores conhecidos pelos seus produtos de excelência) AB privilegiava os encontros de acaso, aquilo que, agora (ai a moda...) se resolveu chamar “street food”, expressão que oculta realidades muito distintas desde a “petisqueira” até às habituais refeições rápidas que alimentam centenas de milhares de pessoas que por quase todo o lado trabalham arduamente sem tempo para ir a um restaurante, sequer a uma cantina.

A primeira vez que me deparei com esse tipo de alimentação foi (há quantos séculos?...) em Berlin (na altura Berlin Ocidental, com cheiro a revolução jovem, ecos de Rudy Dutschke e a sombra anunciada e paralela da imprensa “Springer” e da “Rote Armee Fraktion” (ou grupo Baader-Meinhof que mesmo sem qualquer verdadeiro entrosamento social, deixaram na Alemanha Federal um rasto sinistro): havia por todo o lado umas pequenas carrinhas que serviam uma salsicha com molho de caril (curry wurst) e batatas fritas. O nome dquelas pequenas geringonças era “schnell Imbiss”, na prática “comida rápida”. Mais tarde, deparei-me com coisas idênticas na Holanda onde o forte era o peixe ou na Itália onde , esquina sim, esquina não, se compravam fatias às vezes generosas de pizza.

No domínio da petisqueira, era a Espanha a campeã. Vezes sem conta em Madrid mas sobretudo em Salamanca (entre a plaza mayor e a do mercado) jantei ou almocei “tapas” variadas e maravilhosas por preço módico a que acrescia um copo de vinho ou uma cerveja bem tirada.

Claro que, em havendo tempo (e mais dinheiro) a minha preferência recaía num restaurante (como no?) coisa que nas terras espanholas há em abundância e a a todos os preços.

Talvez por isso, sempre fui bom espectador de programas culinários fosse em que língua fosse desde que eu, mesmo vagamente, a entendesse. A maior parte dos cozinheiros, curiosos, gastrónomos, que aparecia, conseguia criar empatia com os espectadores, ou então era eu que, comilão e guloso (bons tempos...) me satisfazia com pouco.

Todavia, e voltamos à “vaca fria”, o meu primeiro encontro com Bourdain não foi pela comida. De facto, o diabo do homem, tinha outros talentos escondidos, o menor dos quais não seria uma escrita desenvolta e imaginativa.

Realmente, ainda andarão por aí exemplares de dois romances policiais, curiosos, bem escritos e inteligentes, da autoria de AB. São eles “U osso na garganta” e “sarilhos nas Caraíbas” ambos de uma editora quase desaparecida, a “Ambar”. No primeiro ainda há um jovem cozinheiro, quase o herói da trama. Já no segundo, mesmo se o mesmo jovem ainda apareça, não é ele a principal personagem.

Bourdain escreveu também “memórias” e livros de cozinha, fruto da sua experiência como “chef” em alguns restaurantes de nomeada de Nova Iorque. Porém, quando tive a sorte de lá passar por essa fabulosa cidade, ainda não sabia dele. E, provavelmente, não teria dinheiro (e provavelmente oportunidade, dado o sistema de marcações complicado nos restaurantes de luxo ou simplesmente na moda) para provar algum dos seus cozinhados. De todo o modo, deixa um vazio, amargo e pouco explicado.

Não sei exactamente porquê, mas o acompanhamento dos seus programas permitiu-me conhecer um pouco melhor povos e culturas, cidades que nunca percorri. O homem tinha humor, elegância, saber, cultura e praguejava que nem um carroceiro. Mas até isso, nele, era simpático, pelo menos para um “pobre homem” de Buarcos, terra de pescadores, mar e bom peixe.

RIP

* na gravura "caldeirada à pescador" versão da Figueira da Foz

23
Mai18

au bonheur des dames 453

d'oliveira

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Todos os dias alguém morre.

Todavia, há mortos e mortos.

mcr, 23.05.2018

 

Júlio Pomar, 92 anos, muito (e bem) vividos, é já uma imensa saudade. Eu, admirador confesso seu, passei anos, décadas, à espera de uma oportunidade para comprar uma peça que me agradasse e que estivesse ao alcance da minha minguada bolsa. Mesmo fazendo sacrifícios, claro, que foi o que fiz para quase todos os objectos de arte que me enchem a casa.

Porém, nunca lhe cheguei. Se fosse um desses colecionadores do costume, desses que só querem ter o artista lá em casa sem cuidarem do seu gosto pessoal mas apenas da perversa fama de amadores de pintura, poderia eventualmente ter comprado alguma peça, quanto mais não fosse um múltiplo. Mas nem isso. Devo ter gostos caros, pelo menos caros para os meus rendimentos. Vi muitos, óptimos quadros de Pomar mas, logo que os lobrigava, a dúvida instalava-se: será desta? Não era. Nunca foi.

Talvez por atávico horror a comprar a crédito, a prestações, nunca tive qualquer hipótese!

Certa vez, num regresso de Paris, tive como companheiro de viajem um “marchand” vagamente conhecido. A criatura trazia na mão um rolo enorme. Sabendo que eu, na época, trabalhava para o Secretaria de Estado da Cultura, confidenciou-me que vinha ali, cautelosamente enrolado um magote de “Pomares”. “E o preço?”, perguntei-lhe, prometendo com tal pergunta calar-me perante a alfândega que nos aguardava. “Ai vai ter de ser compatível com o risco que corro... mas a si, por consideração posso fazer um desconto...”

Não sei porquê, ou aliás sei, a coisa não me cheirou bem e nunca fui pelo negócio. Ou pela negociata. Trinta anos depois, não me arrependo. Ou arrependo-me durante cinco minutos e deixo de me arrepender por mais uma longa temporada. Trabalhar na SEC tinha, para mim, algumas limitações. Por exemplo, nunca comprei pintura no “atelier” do artista mas só na galeria que o expunha. Isso significava um acréscimo de preço na ordem dos 30% (Hoje é o dobro!!!). Custa muito manter a fama de honradez. Ou de estupidez, como várias vezes me disseram. Que querem? Burro velho não aprende línguas nem enriquece.

Com a morte, anunciada aliás, de Júlio Pomar fecha-se o último ciclo de alguma pintura aparentada, mesmo que só por um escasso período de tempo, com o neo-realismo. Pomar nunca se deixou aprisionar por escolas e menos ainda por ideologias. Reinventou-se constantemente mesmo se, com o tempo e com paciência, possamos descortinar um caminho claro na sua pintura. E uma enorme alegria, um amor pela vida e um conhecimento profundo pela história da pintura. Nunca envelheceu. Ou melhor: envelheceu como os bons vinhos.

 

* Na gravura: Pomar no "metro" de Lisboa. Ou a grande arte pública para todo o público. 

02
Mai18

Au bonheur des dames 452

d'oliveira

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Simplex à moda do Porto

ou

Vocês que aqui entram deixem na rua toda a esperança

 

mcr 2.05.18

 

Suponha o/a leitor/a que vive numa zona em que todas as ruas circundantes têm o estacionamento condicionado. E que, por ser morador/a, pode requerer uma avença de estacionamento desde que a pague bem como o selo que a indica.

Para o efeito, informa a Câmara municipal, é necessário ter o domicílio fiscal na rua, fornecer os dados relativos à qualidade de morador bem como os elementos necessários à identificação da viatura.

Suponha, ainda (Arre, que V só levanta problemas! ) que acaba de adquirir um automóvel e que está à espera do famoso livrete, documento que, no meu pobre caso, já demora há quase três meses...

( convém esclarecer que o carro está integralmente pago e que boa parte desse dinheiro reverte para os cofres do Estado em IVA, imposto automóvel e demais alcavalas)

Dirige-se, pois, o requerente esperançoso à câmara, pede uma senha e aguarda pacientemente que o seu nº seja chamado.

Uma vez perante o funcionário, explica ao que vem, fornece a documentaçãoo que traz enquanto alega que não pode fornecer o “livrete” por este ainda não lhe ter sido remetido. Em troca, apresenta um documento de venda autenticado pelo vendedor, os documentos que asseguram que a viatura está segura contra todos os riscos. Em ambos os documentos está patente a direcção do requerente e o número e identificação fiscal que garante a veracidade do direito a poder requerer e pagar uma avença de estacionamento.

A primeira questão que o zeloso funcionário camarário levanta é que nada prova a existência do automóvel ou a titularidade da sua propriedade. Como se um vendedor fosse oferecer a alguém um documento de venda, factura e recibo incluídos, apenas por desfastio ou para ludibriar a autoridade municipal...

O requerente contrapõe que não se pode substituir ao Estado que é quem deveria num prazo normal, duas ou três semanas no máximo, proceder ao envio do “livrete”. E acrescenta que, mesmo tendo toda a simpatia pela Sr.ª Ministra Maria Manuel Leitão Marques, alegada mãe do Simplex, não a pode forçar a ordenar à repartição competente o dever simples de enviar atempadamente a documentação relativa a uma viatura comprada e paga ainda em Janeiro.

O requerente sabe, com um saber todo de experiência feita, das “dificuldades que tem um reyno velho em emendar-se”. Em Portugal não há “simplex” que dobre a Administração Pública, nacional, regional ou local como, aliás, não o há que dome o mole entusiasmo das empresas particulares e semi-públicas que copiam do Estado todos os defeitos e em troca, não o brindam com as suas escassas virtudes.

Também sabe, que os funcionários públicos, seja a que nível for, estão formatados no supersticioso respeito pela forma e não enxergam um palmo acima disso. Explicar a um deles que o livrete apenas confirma o título de propriedade de um veículo esmiuçando-lhe as características fundamentais e que na sua falta por atraso na elaboração do mesmo, alguma coisa há de o substituir mesmo defeituosamente é tarefa que requer nervos de aço e infinita paciência. Mesmo se, como é o caso, apenas se tratar de uma simples avença (paga) para estacionamento.

Neste capítulo, vencida a primeira objecção, ocorreu ao funcionário zeloso outra ideia peregrina: que a Câmara é livre de decidir se concede ou não a avença. Mesmo quando, em documento informativo tal possibilidade vem escarrapachada e cuidadosamente anunciado o seu preço (25 euros ano mais 15 para documento comprovativo).

Também, e sempre nesta indecisa linha de proteger os superiores interesses da Câmara ou dos seus “eficientes” funcionários, não se informa o “requerente” sobre o prazo de “deferimento” do requerimento. A ideia deve ser idêntica à do envio obrigatório do “livrete”: a avença virá quando tiver de vir, amanhã ou nas calendas gregas.

O país moderno de que se ufana o Governo, a Câmara modernaça que parece ser o orgulho de quem actualmente a detém (alguém que vem do “privado” e que, diz-se, não sofre dos males ancestrais da burocracia..), tropeça à primeira nesta miserável pedrinha que, segundo Drumond, “está no meio do caminho”.

Há cerca de quarenta anos, mais precisamente no final do anos setenta do século passado, estando eu em Paris aboletado em casa de um velho e bom amigo, fui por este informado que no dia seguinte teríamos de ir à mairie tratar de mudar alguns dados do livrete de um carro que, embora usado por ele, pertencia ao sogro. Tratava-se, “apenas” de transferir a propriedade do veículo. Depois, anunciava triunfante o Luís, iriamos comer uma choucroute medonha na Lipp.

Maravilhei-me com a ingenuidade do meu amigo expatriado. Então ele pensava que, por viver em França, resolvia tão intricada questão num par de horas? Propus-lhe comprarmos umas baguettes, recheá-las generosamente de foie gras, deitar num cesto duas ou três latas de cerveja e rezar para que antes da noitinha, se conseguisse o pretendido.

O malévolo e cosmopolita Luís mandou-me às malvas e insistiu na sua. A`s dez na mairie e depois rumo a Saint Germain para flanar por um par de livrarias e, finalmente ajoujados ao peso da livralhada, abancarmos na famosa brasserie.

Seja, pensei, pelos meus pecados. Cedo falei: em três exactos quartos de hora estávamos de saída com os documentos em ordem e tempo excessivo para compras e respectivo almoço.

Tão comovido fiquei com a eficácia gaulesa que me prontifiquei a pagar o almoço. Foi caro, claro que o regámos com um belíssimo vinho, farta conversa sobre os males da pátria madrasta e sobre os prodígios de uma Europa a que ainda não tínhamos, enquanto portugas, chegado.

Quarenta e tal anos depois, enfiados na Europa até ao tutano, nem uma merda de uma avença de estacionamento se resolve em tempo decente. E nem se fala do “livrete” que provavelmente virá com D Sebastião dos nevoeiros agoirentos de Alcácer-Quibir!...

 

25
Abr18

Au bonheur des dames 451

d'oliveira

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Tão novos que nós éramos...

 

 

mcr 25.4.18

Bem, novos, novos ,nem tanto. Eu já ia nos 33 mesmo se, em tempos de negrume e angustia, de solidão e prisões, a idade adulta tardasse (de certo modo) a chegar. O Estado Novo mantinha-nos a todos, portugueses, numa espécie de adolescência política retardada.

Por muito democratas que nos sentíssemos a falta real de democracia, ou mais simples e fortemente, de liberdade, não nos permitia senão uma nebulosa antevisão do que era a vida para lá dos Pirenéus ( e, já agora, para cá dos Urais que, no “paraíso” das “soberanias limitadas”, ser livre soava a sarcasmo da História).

Viver em liberdade, em democracia, exige também algum treino, alguma percepçãoo dos limites próprios, uma ideia clara de compromisso, pesar continuamente os avanços e recuos da nossa intervenção na vida da cidade e do país. E, em certos casos, como já sucedia na CEE, uma aproximação mais lata e mais integradora ao que se queria como destino comum.

De todo o modo, a sede de liberdade não passa nem com uma catarata inteira do Niagara, mas apenas com um simples fio de água livremente nascida, livremente bebida.

O 25 A é o corolário de uma série de acções que nos anos sessenta se foram sucedendo, acumulando, nem sempre no mesmo sentido . Não deixa de ser irónico que a mesma tropa que trouxera o 28 de Maio, uma passeata tranquila e festiva entre Braga e Lisboa (a que não eram estranhos os ecos de uma desastrosa guerra e de uma não menos desvairada 1ª República, dezasseis anos de permanente ruído e furor, viesse, na consequência de uma outra guerra de desgaste, a desaguar no Lrgo do Carmo. A “ordem” que os de Maio de 26 consideravam essencial não era exactamente a “desordem” que precipitadamente alguns pensaram depois de Abril.

Todavia, alguns paralelismos há na evolução dos regimes nascidos à sombra das armas. O Estado Novo só estabilizou verdadeiramente depois de 1933 e o regime democrático levou tantos ou mais anos a converter o país em algo de “normal” e vivível.

Andam por aí criaturas a bramir contra o que chamam de “esquecimento” das conquistas de Abril” enquanto outras, com menor acesso aos meios de comunicação social, relembram os “bons velhos tempos” de antes, a tranquilidade, a aparente falta de crimes públicos e de corrupção, a patriarcal mão do Poder a defender os incautos súbditos dos males de pensar pela própria cabeça.

Todavia, entre o “antes” e o “depois” uma pequena e vitl diferença existe. Agora, pense-se o que se pensar nada nos está proibido, ninguém nos persegue por discordar.

Só isso, na aparência tão insignificante, chega (e sobra) para festejarmos.

E para, no meu caso, lembrar com comoção e ternura, três testemunhas e companheiros da jornada 24/25 de Abril: Alcinda e Jorge Delgado e Rui Feijó. Eles acreditaram antes, arriscaram antes e viveram intensamente o dia para que, também, tinham, afinal, contribuído.

Esta é uma pequeníssima prova de que a Democracia e a Liberdade se fazem sobretudo do esforço de muitos, muitíssimos, anónimos.

 

20
Abr18

Au bonheur des dames 450

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Abril de alegrias mil

 

mcr 19 e 20 de Abril

Há dois dias, passou mais um aniversário da Crise Académica de1969 em Coimbra. Não foram muitas as notícias da efeméride. Afinal passaram já 49 anos e o tempo como se sabe passa, faz esquecer, destrói.

Duas das referencias ao acontecimento referiam a Crise académica de1969. Pelos vistos, ou por aqueles vistos, a coisa fora geral. Não foi, bem pelo contrário.

A crise ocorreu em Coimbra, persistiu em Coimbra e arrastou-se longamente naquela cidade e naquela Academia.

É verdade que, em Lisboa um pouco e no Porto muito vagamente, houve algumas (não demasiadas e não multitudinárias) manifestações de apoio. Razões para esta aparente (aliás real) solidão coimbrã não faltam. Em primeiro lugar as Associações de Estudantes eram em Lisboa débeis e no Porto inexistentes. Em Lisboa, o “movimento associativo” estudantil registara nos anos anteriores duríssimas derrotas. As escassas elites académicas tinham sido dizimadas pelas prisões, pelo chamada às fileiras e pelo exílio. A oposição ao Estado Novo fragmentara-se e, na Universidade isso era particularmente visível. Não era só a pequena acção da ASP que desde 64 vinha recrutando jovens socialistas pretendendo quebrar a hegemonia do PC. Havia, sobretudo, a irrupção de grupos de extrema esquerda que começaram com o aparecimento da FAP e continuaram desordenada e autonomamente a crescer e dividir-se nos anos seguintes. Não eram muitos os seus militantes mas eram extremamente activos e o Maio de 68 dera-lhes visibilidade. Visibilidade importada mas visibilidade. Maoístas, trotskistas, anarquistas ou simples críticos independentes acotovelavam-se nas assembleias gerais e a sua irreverência garantia-lhes audiência. O PC bem que os crismava de “esquerdelhos” (referência abusiva ao texto de Lenin “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”) mas, para a generalidade dos estudantes politicamente empenhados, isso ou não dizia nada ou era até um elogio.

No caso especificamente coimbrão, o movimento que se impusera na luta (e consequente vitória) contra as Comissões Administrativas que durante três anos (des) governaram sem brilho, sem apoio estudantil e penosamente a Associação Académica de Coimbra, partia de diferentes sectores mas unificava-se em torno do Conselho das Repúblicas uma estrutura não oficial que, com o Conselho de Veteranos (idem), era independente e compósita dada a própria especificidade e diversidade das estruturas que se reuniam.

Com esta estrutura aliavam-se os “Organismos Autónomos” (CITAC, TEUC ((teatros) Tuna Académica e três grupos corais o Orfeão, o Coral de Letras e o Coro Misto) que também se posicionavam diferentemente no xadrez político coimbrão os teatros mais à esquerda e o Orfeão mais à direita.

Compreende-se, assim, que para alcançar uma posição comum em defesa da autonomia estudantil houvesse que encontrar um denominador comum que, atentas as realidades e a origem dos estudantes seus participantes, não podia situar-se muito mais longe do que um moderado centro esquerda. De resto, a “Direita” coimbrã, ou o que dela restava tinha registadodesde 1960 uma longa e ininterrupta série de derrotas eleitorais apenas mitigada por um decreto lei absurdo que dava à minoria vencida lugares na Direcção Geral da AAC. Tal minoria acabava por ser claramente boicotada e, na realidade, as suas opiniões pesavam pouco ou nada na tomada de decisão. O facto de a Direita ter sustentado as “comissões administrativas”, agindo claramente às ordens do Governo, do Reitor e do Ministro da Educação, também não a tornou atraente à grande massa dos eleitores estudantis. Por muito fraca que fosse a politização destes a simples ideia de que a direcção da AAC não passava de uma correia de transmissão das autoridades era mais do que suficiente para a tornar mal vista e até malquista numa juventude que bebia muito na tradição (e no folclore) académico, nos seus hábitos de desafio e de rebeldia, porventura pueris mas profundamente sentidas sobretudo, e curiosamente, nos meios mais conservadores. Aliás, a Direita mais politizada esta reduzida a um pequeno grupo órfão do movimento Jovem Portugal e de outras formações epigonais. A guerra colonial que já ia no seu nono ano também não ajudava. Morrer em África não era algo sentido mesmo entre os jovens mais tradicionalistas. A guerra, para estes, poderia não ser um crime, mas era, de certeza, uma inutilidade perigosa e indesejada. Se o resto do mundo abandonara as colónias e não perecera porque diabo de razão se ia para os sertões sofrer sem necessidade?

Coimbra, por excelência, um meio académico fechado de faculdades muito próximas, unificado há séculos, isolado da sociedade citadina (os “futricas”) dava espessura e identidade à “Academia”.

Foi isto que fez a força do “movimento”. Foi a ofensa a isto que gerou uma contestaçãoo genericamente sentida por todos e exacerbada pelas tolas declarações de um inepto Ministro da Educação que se formara noutro mio e nada percebia da idiossincrasia estudantil coimbrã. As “autoridades académicas” (Reitor, Senado, Directores de Faculdade), escolhidas a dedo, dependendo sempre do Poder não exerciam sequer uma autoridade moral que as predispusesse a ser ouvidas, quanto mais acatadas.

Não estou a afirmar que nas outras cidades universitárias não pudessem surgir circunstâncias semelhantes mas, e desde logo, a “unidade estudantil” era prejudicada pela dispersão das faculdades, pelo tamanho da cidade e plo facto de haver maior número de estudantes a morar com a respectiva família. Também o habitat estudantil era diferente. Em Coimbra concentrava-se nas repúblicas em casas com muitos estudantes hóspedes, situadas quase todas paredes meias com a Universidade ou, de todo o modo, dada a dimensão da cidade, próximas umas das outras. Além do forte convívio intra-faculdade era notório outro. Não havia estudante que não se relacionasse proximamente com elementos de outras faculdades (e, mesmo se anedótico, as faculdades de Direito e de Letras estavam lado a lado possibilitando ao universo quase exclusivamente masculino da primeira um encontro intenso com outro maioritariamente feminino...).

Finalmente, a crise de Coimbra foi despoletada pela luta contra as comissões administrativas, pela restauração da autonomia da AAC, entidade prestigiada e nunca posta em causa fosse por quem fosse. Atacar isto, menosprezar isto, era atacar a “Academia” que poderia não ser uma força ofensiva muito grande mas que o era seguramente enquanto elemento reactivo.

Vê-se, quero crer que naquele ano de 69 estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para, à mínima chispa, deflagrar um conflito.

Tenho por seguro que, nada teria acontecido, pelo menos naquele ano, se um Presidente da República autoritário, velho e mal aconselhado, tivesse dado ao Presidente da Associação Académica ocasião para falar. Não deu. As autoridades debandaram da sala onde se procedia à inauguração do edifício das Matemáticas, sem aviso nem explicação. A estudantada apupou-os dentro e fora da sala. Enquanto a comitiva oficial se escafedia, a “malta”, a “Academia” ria-se, divertia-se e celebrava aquela manifestação propiciada pela impudência, pela imprudência e pela estupidez.

Tudo poderia, ainda, ter ficado por aí, não fora a Polícia ter pela calada da noite, prendido o Presidente da AAC e num que noutro local sovado alguns escassos estudantes. Não foi preciso mais para uma assembleia (“Magna”) ser convocada. Para que a Academia se sentisse e declarasse ofendida. O que poderia ter sido uma manifestação sem grandes consequências tornou-se um turbilhão. O inábil, mas presunçoso, Ministro da Educação entendeu na hora nobre da televisão vir ameaçar os estudantes, comina-los ao regresso ao estudo, ao sossego e às aulas. E ameaçar os mais renitentes. O homem era um incendiário que se desconhecia!

A partir daqui, foi tudo a descer... Ninguém, nenhum de nós, ousara. Alguma vez pensar, que iríamos ser actores daquela tragicomédia. E muito menos vir a fazer a única greve académica vitoriosa. O que começara como um “venticello” acabou em três meses por ser um “colpo di canonne, un tremuoto... un tumulto generale”.

Acho, 49 anos depois, que ainda temos boas razões para comemorar a nossa “juventude divino tesoro”, os nossos amigos, os nossos (e já são muitos, demasiados) mortos.

Com os anos que levo e que me pesam, não me sinto particularmente vitorioso mesmo se nunca voltei a cara a um combate (e perdi tantos...). todavia, ao contrário do herói de John Osborne, não “olho para trás angustiadamente”.

 

Citando de memória (eventualmente traidora) uma frase de um personagem

do Falstaff (no genial filme de Orson Welles, Badaladas da meia noite):”Jesus, Jesus as coisas a que assistimos!”

* Vai este folhetim para os rapazes e raparigas do meu tempo, estejam onde estiverem, pensem o que pensarem. O que se fez em conjunto está feito e nada, agora, o pode modificar.