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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Abr18

au bonheur des dames 449

d'oliveira

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Outra vez a Câmara Municipal do Porto e a zona residencial do “Foco”

2ª carta ao Senhor Presidente da Câmara

por mcr munícipe com os impostos em dia aos 18 de Abril de 2018

Ex.º Senhor

Vivo na rª Eugénio de Castro ou seja na rua onde se implantam 7 grandes prédios da zona acima descrita. 90% destes prédios são de habitação e por alto albergarão trezentos e cinquenta agregados familiares em apartamentos de tipologias diversas mas todos destinados ao que se costuma chamar classe média alta. Todos estes prédios estão dotados de garagens colectivas que poderão albergar 500 ou 600 viaturas. Todavia, os cerca de vinte estabelecimentos comerciais e outros tantos escritórios inseridos nesta rua e o facto das famílias residentes dispor quase sempre de dois ou mais automóveis torna as condições o estacionamento mais complicado mesmo se na zona poente do bairro haja estacionamento para mais umas dezenas de veículos.

Na rua já citada mais propriamente na parte onde estão inseridas três torres uma de 18, e duas de 10 andares, foi desde sempre proibido estacionar. È verdade que moradores e, sobretudo, frequentadores da zona, desrespeitavam alegremente as placas de proibição a todas as horas do dia e mesmo de noite, dado que sempre houve dois ou mais bares muito concorridos.

Desde empre mas principalmente nos últimos tempos, coincidentes com os mandatos de V.ª Ex.ª a polícia municipal fazia estrondosas incursões no local, multava com fartura e rebocava todos os carros que podia. Até a minha mulher que por uma vez teve preguiça de meter o carro na garagem foi obrigada a ir busca-lo ao depósito municipal. Desembolsando uma quantia respeitável como se sabe.

Porém, de há um par de semanas a esta parte, tudo mudou. A rua Eugénio de Castro e as vizinhas foram declaradas ruas com estacionamento condicionado. Se é verdade que nas restantes sempre se estacionou sem provocar confusões no trânsito, na nossa rua mudou completamente o paradigma. Não era permitido estacionar por a municipalidade e a Junta de Freguesia entenderem que isso afectava a circulação. No entanto, pagando, deixa esta de ser afectada!

Eu não consigo distinguir qual a ideia que preside a bondade do estacionamento pago numa rua onde ele proibido. Entendeu a Câmara que ganharia mais cobrando cada hora ou cada minuto entre as oito e as vinte do que mandando a enérgica polícia municipal em expedições punitivas cada três ou quatro dias?

Será que o acto de pagar para estacionar diminui os inconvenientes do estacionamento, porventura os transforma em conveniências generosas para todos os que aqui vivem ou por aqui tem de passar?

Estarão os cofres municipais de tal modo dessangrados e exaustos que a receita que aqui se gerará os salvará da catástrofe iminente que se avizinha?

Note, V.ª Ex.ª que esta pergunta não representa nenhum interesse escondido meu. Tenho garagem para os carros que usamos e até me preparo para, comprar uma avença de morador para, no caso de ter visitas, albergar estas a salvo dos homenzinhos que decerto começarão a rondar a zona, de talão em punho.

Este nosso país tem no seu ADN a mania das taxas, das multas, dos impostos escondidos ao mesmo tempo que, do lado de quem recebe, não se vislumbram medidas compensatórias, melhor serviço público ou esforços de qualquer ordem para aliviar a vida dos cidadãos. Ainda sou do tempo da licença de isqueiro que nunca percebi se servia para proteger a industria fosforeira, atacar o feio vício de fumar, ou simplesmente aqueloutra missão especial do Estado que consiste em ordenhar a carteira dos cidadãos e “chatear o indígena”.

Inclino-me para esta dupla e derradeira missão. A gentinha que se governa não merece da parte de quem manda senão mão forte e disciplinadora se possível acompanhada de tributação a esmo.

Será este o caso?

De V.ª Ex.ª votante e obrigado

mcr

13
Abr18

Au bonheur des dames 448

d'oliveira

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Tentar perceber

 

mcr 13 Abril 2018

Os portugueses, ou alguns portugueses, nunca deixaram de sentir o Brasil como algo seu.

E não por este ter sido, durante mais de dois séculos, o destino natural e quase obrigatório da emigração portuguesa. Não há português que não conte com parentela brasileira pelo menos em segunda ou terceira geração. Não é só o facto de usarmos a mesma língua (ou algo parecido com isso: ao falar do português do Brasil recordo sempre a frase do inglês que ao referir-se aos Estados Unidos afirmava que tudo era quase igual excepto a língua).

Eu, mesmo, tenho um pai nascido no Rio de Janeiro e descobri através deste blog uma série de primos distantes pelo lado de um trisavô alemão, médico emigrado no século XIX para o Rio Grande do Sul. Até me lembro da primeira frase da mensagem do primo Sérgio Heinzelmann: “Ué que é que você é a Vôvô? - Trineto caro Sérgio enquanto V é apenas bisneto!...” E durante anos trocámos correspondência vária até ele ter (suponho) morrido.

O meu pai filho de uma Heinzelmann nunca esqueceu os seus primeiros anos na “fazenda” da bisavó Ubalda que ele visitava indo de Portugal até ao Rio e daí até Petrópolis, onde a acaudalada e poderosa família materna se estabelecia durante o Verão. Quando, muito pequeno, ficou órfão da avó Dora, houve um acordo entre o meu avô e a sogra: o menino iria de longe em longe ao Brasil visitar, avó, tias e primos e primas. Depois da morte da avó, o ciclo interrompeu-se e só lá voltou cinquenta anos depois. Entretanto, as primas vieram a Portugal várias vezes e a relação familiar só acabou quando foram morrendo.

Nasceram, também no Brasil, um trisavô materno e outro paterno. Como se, desde o século XVIII, os meus familiares se tivessem entretido a cruzar o Atlântico para estudar em Coimbra, para casar, para se estabelecerem noutra terra que não a natal.

Percebo, portanto, esta quase mística da grande família luso brasileira. Por meu lado, sempre me interessei pelo Brasil via literatura (e o cinema) e durante os breves anos que vivi em Moçambique não só lia revistas de “quadrinhos” brasileiras (Gibi, Guri) mas também consumia uma revista mais adulta, “O Cruzeiro”, que me forneceu as primeiras pistas para a política brasileira. Lembro-me perfeitamente (e lá voltaremos) do fim do governo de Getúlio Vargas e do seu suicídio, dos temíveis artigos de David Nasser e Carlos Lacerda. E de Vão Gogo, irresistível humorista de que tenho dois ou três livros notabilíssimos.

Nos meus anos de Universidade segui apaixonadamente todas as peripécias da política brasileira desde o consulado de Café Filho até à aventura de Jânio Quadros e de João Goulart. Depois vieram os generais e foi o que se viu. Curiosamente, um dos livros mais divertidos que li e conservo é da autoria de um irmão do general João Figueiredo, de seu nome Guilherme. O livro em causa é “Tratado Geral dos Chatos” e ainda hoje se lê com um sorriso.

Estou, pois, à vontade para analisar este último e triste episódio da vida política brasileira. Como muitos da minha geração, assisti interessado e comovido aos primórdios de Luís Inácio da Silva, mais tarde Lula. Em boa verdade, simpatizei mais com Fernando Henrique Cardoso, de longe o melhor presidente que o Brasil teve nos últimos cinquenta anos. É Cardoso quem inicia a política económica que iria tentar fazer o Brasil sair do subdesenvolvimento. Foi dele a ideia do real e assumpção de uma série de medidas de política social e ambiental. Internacionalmente, foi (e é) considerado um líder de primeira linha e partilhou com Jimmy Carter, Desmond Tutu ou Nelson Mandela.

Tenho assistido a este encalorado debate sobre Lula e, espanto dos espantos, verifico que quanto mais cultos deveriam ser os intervenientes menos parecem saber (ou explicar cá para “fora”) as reais condições do processo, melhor dizendo dos processos que envolvem o ex-presidente do Brasil.

Comecemos pelas questões processuais. A legislação brasileira, como, aliás muitas outras, integra a delação premiada. Com isso pretende-se tornar o processo mais expedito, acelerar a investigação criminal e dividir os réus. Há, até, num cada vez maior número de países, a tentação de criar mecanismos idênticos ou semelhantes sobretudo para combater a crescente e cada vez mais sofisticada corrupção. Há mesmo exemplos encapotados do recurso a este expediente para a identificação de contas ocultas em paraísos fiscais. Só não o vê quem não quer ou quem acha isso inconveniente para os seus negócios privados.

A segunda questão prende-se com o começo do cumprimento da pena de prisão decretada pela 1ª ou 2ª Instância. Nos Estados Unidos, a pena começa a ser cumprida imediatamente mesmo se há recurso dela para um tribunal superior. No Brasil, o Supremo Tribunal criou, há já algum tempo, jurisprudência no sentido de acelerar o cumprimento da pena no caso de a 1ª e a 2ª Instâncias o terem determinado.

Fico estarrecido com um senhor professor (catedrático afirma ele e não serei eu quem o contradiga mesmo se isso me espanta e me dê a entender como a universidade se degradou) que veio a público dizer exactamente o contrário. Não vou perder tempo com um conhecido comentador coimbrão que no seu profundo amor a Lula vem falar de conspiração e de perseguição política. Como se a operação Lava Jacto não tivesse no rol de acusados, processados e detidos, um número bem mais elevado de personagens conotadas com o poder financeiro e com a Direita política e/ou social.

A terceira questão é ainda mais curiosa: ao que parece ninguém quer recordar o “Mensalão”. Num pais em que o Presidente da República detém poderes extensíssimos, aquela aventura apenas caiu em cima de José Dirceu, fiel entre os fieis de Lula. Este no unânime dizer dos analistas, “passou entre os pingos de chuva”, mesmo se esta fosse torrencial. Começou aí a desgraça do ex-presidente que nunca conseguiu explicar satisfatoriamente como é que o seu ex-braço direito organizara a captação de fundos gigantescos para o PT, para comprar deputados de outras formações, para todos os seus próximos apoiantes.

A quarta questão tem a ver com o facto de, no Brasil, o juiz de instrução (ao contrário do que se passa entre nós) poder vir a ser o juiz do processo. Podemos discordar (eu discordo) mas no Brasil a lei é exactamente essa e, até à data, ninguém por cá se tinha lembrado de a criticar...

A quinta questão radica nas acusações ao juiz Sérgio Moro. Durante anos, enquanto ele ia prendendo capitalistas e financeiros, ligados ao anterior establishment, Moro foi um herói. Lá e cá. Junto dos militantes do PT e de muita gente portuguesa. Moro era a versão brasileira dos juízes italianos das “mãos limpas”, ou dos émulos espanhóis de Garzón.

Agora é a bruxa má, a madrasta de Lula Branca de Neve. Ziguezagues da História com tempero ideológico em excesso...

Todavia, foi Moro quem exculpou o senhor Vaccari, tesoureiro do PT justamente no processo Lava Jacto. Ou seja, Moro desempenha nesta tragicomédia brasileira, neste samba de enredo, dois papéis: o de dr Jekyll e o de mr. Hide. Em que ficamos? Mau nos dias pares, bom nos ímpares e descanso ao domingo?

 

Deixemos, porém estes enfadonhos pormenores e vejamos a situação tal qual parece passar-se Brasil. É, ou foi, o PT uma organização revolucionária? Teve ou não uma governação popular e de conquista de direitos para as massas mais desfavorecidas da população?

À 1ª questão responderia Não e à 2ª Sim, absolutamente. No início da sua carreira de governante, Lula foi claramente um dirigente democrata e “moderado”, sobretudo se o compararmos com alguns outros líderes sul americanos. Foi populista? De certo modo mas isso não pode, sem mais, ser apontado como pecado mortal numa época em que em todas as geografias o populismo está de moda, seja com o sr Orban, com o inenarrável Nicolás Maduro (outro herói de alguma, escassa “Esquerda” caviar lusitana que amando sofregamente o povo recruta, porém, os seus militantes e os seus votos nas classes urbanas educadas. Até o Sr. Presidente da República passeia pelo país babado a sua bondosa figura, o seu resplandecente afecto e é imortalizado diariamente em centenas (que digo? Em milhares!) de selfies.

Costuma dizer-se que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. A coisa é visível por todo o lado desde a Venezuela à Europa dita oriental (nem sequer referindo a Rússia do novo Czar Putin, acrisolado defensor da russificação de várias partes dos países vizinhos e “soberanos” (Putin nunca esqueceu a famosa teoria da “soberania limitada”, cara ao poder soviético e aos seus epígonos portugueses).

O PT começou muito informalmente mas cedo se integrou no mundo surpreendente da política brasileira. Dotou-se de um aparelho e os seus dirigentes depressa desenvolveram os mesmos apetites dos congéneres dos partidos tradicionais. Recordo, apenas e em contraponto, a solitária mas corajosa figura de Marina Silva que depressa se desiludiu e tentou fazer carreira aparte. Bom seria que os eleitores se lembrassem dela, agora.

(descendente de negros por um dos lados, MS é um dos raros exemplos de um Brasil plurirracial que, entretanto, expulsa os não brancos para o ghetto invisível mas real das dos subúrbios favelados, habitat das classes baixas e domínio dos grandes traficantes e dos “bicheiros”. Num país com uma população maioritariamente não branca, são os brancos quem leva “a voz cantante” como dizem os nossos vizinhos. Procurem, fora da música e do desporto, os negros e mulatos relevantes. Ainda há pouco, foi notícia a chegada do primeiro juiz negro ao Supremo Tribunal. Vejam, se quiserem, o plantel dirigente do PT para não ir sequer aos outros partidos que, provavelmente, ainda são mais brancos).

Um ignorante comentador facebookiano teve mesmo a audácia de comparar Lula com Obama, criatura que ele, num vero delírio racista, considera um espantalho. Ou seja o Brasil dos negros invisíveis (cfr Ralph Ellison) é , moral e eticamente, muito superior ao país que já elegeu e reelegeu um presidente negro, que mantem um sólido grupo de senadores e congressistas negros, que tem um grande número de políticos estaduais e municipais negros e “latinos” que ostenta uma miríade de grandes intelectuais negros que não se confinam à música e ao desporto. Com amigos destes, Lula não precisa de inimigos...

 

Pessoalmente, dói-me a queda de um mito e de alguém que vi começar na luta desproporcional contra a ditadura dos generais. Desejaria que se provasse a sua inocência. Por razões várias, pessoais, abomino a prisão seja de quem for. Sei, de modo intensamente vivido e sofrido, o que isso representa na vida de alguém. Todavia, a simpatia não pode altera aquilo a que Danton chamou “a áspera realidade”.

E, por cá, não há, que se veja, quem se preocupe com esse ligeiro pormenor. Lula merece mais, muito mais, que estes seus defensores que o confundem com Maduro ou, mais simpaticamente, com o Chico Chicão da velha telenovela.

E já agora: não mitifiquem seja quem for, e Lula muito menos mesmo se ele vos convida para tal (“já não sou um homem mas uma ideia”!) No cortejo de horrores que nos deixou o século passado, o que viu nascer Lula, abundaram os mitos e soçobrou a ideia simples e honrada de humanidade.

* por razões que se prendem com a sua paisagem, com a fauna e com a flora, o Brasil foi alvo predilecto de grandes ilustradores, a começar pelos portugueses que lá fizeram grandes expedições e nos deixram obras sumptuosas e de grande rigor científico (por todos o dr Alexandre rodrigues Ferreira).todavia a ilustração de hoje é obra do francês Debrée que retratou o Brasil já no século XIX. A sua extensa obra é hoje pertença de grandes galerias e/ou colecções particulares. Quem porfiar talvez encontre em alfarrabistas antologias dele. 

 

05
Abr18

Au bonheur des dames 447

d'oliveira

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Pagar mas receber

(carta ao Sr. Presidente da Câmara do Porto)

 

por mcr 4/5 de Abril de 2018

 

Ex.º Sr.

Entendeu a Câmara, a que V.E. preside, criar “zonas de estacionamento de duração limitada” no “FOCO” (ou Parque Residencial da Boavista seu verdadeiro nome mesmo se caído em desuso).

Para esclarecer algum leitor que não viva no Porto, trata-se de um conhecido bairro da cidade, situado a meio da Avenida da Boavista e constituído por cerca de doze edifícios onde existirão entre 600 a 800 apartamentos de dimensão grande e média. Há uma Igreja, uma galeria comercial com duas dúzias de estabelecimentos, três pastelarias, um pequeno supermercado, uma agência bancária e dezenas de escritórios. Existe também um hotel ,neste momento desactivado devido à inépcia e ao desvario do antigo BES, uma piscina, um “clube residencial”, um supermercado (todos encerrados) e um bonito jardim no centro. Este conjunto, edificado nos anos 70 está em vias de ser classificado e andou nas bocas do mundo por via de um tresloucado projecto de implantar numa empena do prédio de entrada da rª de Azevedo Coutinho uma criação do “artista de rua” Vihls. Quem aqui vive só costuma sair em caixão pois não há na cidade construção tão boa e, sobretudo, com dimensões tão generosas. Foi obra de reputados arquitectos e ainda hoje é motivo de estudo e visita para alunos de Arquitectura. É um bairro de classe média/alta e provavelmente por isso a CMP (seja qual for o partido que a ocupa maioritariamente) “esquece-se” frequentemente de tratar este conjunto habitacional como trata muitos outros. Basta verificar o estado de pavimentação dos arruamentos e a lepra que invadiu vários passeios, esburacados com pedras de calçada em falta prometendo aos menos atentos valentes quedas. Eu mesmo já me estendi ao comprido num dia invernoso em que, desprevenido e friorento, avançava rapidamente e de mãos nos bolsos. Pimba, zás trás! Beijei a calçada em falha como se fosse o Papa em viajem a um país ignoto.

Volta e meia, a solícita e operosa Polícia Municipal faz uma razia na zona e multa ou reboca viaturas estacionadas mormente nas ruas Eugénio de Castro e Afonso Lopes Vieira. Razões obscuras (ou talvez não...) evitam tropelias policiais idênticas aos estacionamentos absolutamente caóticos da rua onde está situada uma coisa qualquer relacionada com “desporto” e “futebol” onde a regra é a dupla fila. Também nunca se vê um cavalheiro da polícia camarária nas horas em que pais solícitos e mães amoráveis vêm buscar as crias à saída das duas escolas secundarias existentes na rª Primeiro de Janeiro. É um sinal de carinho e respeito pela educação ou simplesmente uma cautela para não ofender progenitores eventualmente famosos ou/e poderosos.

Pessoalmente, disponho de dois espaços na garagem colectiva do meu prédio pelo que estou relativamente descansado. A coisa muda de figura quando tenho visitas ou (como é o caso) algum vizinho com família mais numerosa excede a capacidade de estacionamento da sua fracção. Nessas eventualidades, corre-se o risco de ver a zelosa polícia municipal a operar.

(convém acentuar que estas surtidas ocorrem apenas de dia e com bom tempo. Compreende-se que os senhores guardas se queiram defender da chuva ou de umclima particularmente agreste. É sabido que o crime ou a mera contravenção só acontecem em dias suaves e primaveris.)

Como já se disse acima, há neste conjunto de prédios lojas e escritórios, igreja, um banco (e já houve um cinema e um supermercado bem como uma piscina) que obviamente atraem visitantes, compradores, devotos, para não falar do caso de funerais casamentos e baptizados que, como é presumíve,l atraem pequenas (ou grandes) multidões. Em, zona “rica” há sempre mais freguesia para este género de eventos.

Recordo, sem saudade, o imortal slogan “os ricos que paguem a crise” que encheu paredes de boa parte do país apelando à luta de classes mesmo se os seus propagandistas não tivessem especial noção do que aquilo quereria dizer. Marx é de leitura dificultosa e qualquer “sebenta” progressista, a começar pela da senhora Marta Heineker substitui vantajosamente as elucubrações do velho Karl.

A digna Vereação a que V.ª Ex.ª preside deve ser herdeira desse momento heroico da nossa vida democrática ou, pelo menos, do que se entende como tal.

Assim, nunca a CMP se preocupou em deitar umas pazadas de alcatrão nos arruamentos que estão como foram concebidos pela empresa construtora do “Foco”. Muito duraram eles, sinal de boa e sólida construção!

Agora o piso está gasto, rapado, com fracturas e falhas. Nele, de novo e moderno, só os risquinhos amarelos que proíbem o estacionamento. Pouco antes da Páscoa, na sexta feira, provavelmente para melhor celebrar a Paixão, apareceu grandioso e ameaçador um buraco com um diâmetro de mais de meio metro mesmo em frente da saída da garagem do meu prédio. A meio da rua para ser mais preciso e, sobretudo, mais estético. Alguém adornou a cavidade com uns ferros e um fita de plástico branca e vermelha, como se quisessem alertar os motoristas que descem a rua. Com sorte e algum espírito de gincana consegue-se evitar a cova que ontem, quarta feira, já tinha mais de trinta centímetros de profundidade. Deve ser uma preparação para o rallye de Portugal ou para o finado circuito automobilístico da Boavista...

Exº Sr. dr. Rui Moreira

Eu compreendo que a CMP não nade em dinheiro. E que seja contra a desordem do estacionamento selvagem. Vejo continuamente – e sobretudo na Avenida da Boavista – dezenas de automóveis estacionados em via dupla sem que a briosa e operosa Polícia Municipal dê um ar de sua graça. Provavelmente estará ocupada em esquadrinhar os ricaços que abusam dos arruamentos da minha zona...

Sou, depois de um longo rosário de multas, uma pessoa que só estaciona em parques de estacionamento, pagando o óbolo exagerado que me pedem. Percebo a vontade de tornar a cidade, alegadamente Invicta, mais civilizada e mais europeia. Todavia, veja, V.ª Ex.ª, rentabilizar os arruamentos (e para já só estes) arruinados do “Foco” sem sequer os restaurar parece-me (mas pode ser defeito meu, mesmo sendo seu votante, como fui, e das duas vezes) uma falcatrua, e uma pequena indignidade. Mesmo “ricos” temos, os habitantes do “Foco”, os mesmos direitos constitucionais e camarários, de quaisquer outros concidadãos.

Não quero pagar ou fazer pagar os meus amigos e familiares que me visitam sem que se veja que esse dinheiro tem a sua utilidade e razão de ser. O Município, que, normalmente, só se lembra de nós para pedir o IMI e outras alcavalas, tem o dever de cuidar da cidade de a arranjar, defender, embelezar e tornar mais atractiva para turistas ou empreendedores.

Queira, em consequência, mandar tapar o buraco antes que a rua fique intransitável e, de caminho, melhorar os pisos que irão, estou certo, render bom dinheiro aos cofres camarários

Sem outro assunto de momento, sou

De V.ª Ex.ª admirador atento e obrigado

* nas gravuras:aspectos do "Foco" ou, melhor dizendo, Parque Residencial da Boavista.

31
Mar18

Au bonheur des dames 436

d'oliveira

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Páscoa feliz

mcr 31-3-2018

 

No momento em que escrevi este título para a crónica de hoje, lembrei-me de ter ouvido uma história de dois irmãos em que o homem se chamava Natal Querido e a irmã Páscoa Feliz. Trop beau pour être vrai!... Todavia, não descri inteiramente do amigo que me falava destes singulares nomes porquanto o meu pai contava que no seu tempo de moço atrevido havia duas irmãs que se chamavam República e Liberdade (a mocidade local à falta de melhor entretenimento fazia mas incursões à rua onde as duas manas moravam e berravam vivas à Liberdade e à República esperando que a polícia desse tempo (eram os ominosos anos trinta do século passado) os interpelasse para poderem galhofeiramente referir que nesses gritos nada havia de subversivo  mas tão só de louvor às duas moçoilas.

Eu próprio conheci um Lenine de Jesus e adorava cumprimenta-lo com grandes salamaleques tratando-o de camarada Lenine de Jesus ou até só camarada Jesus. A criatura era, se a memória sempre traiçoeira não me falha, militante no mesmo carnaval político que frequentei entre 74 e 75...

Mas não era de nomes que vinha falar mas tão somente deste estranho costume de celebrar a Páscoa com idas maciças para o Algarve, consumir a “semana santa” entre a praia, grandes comezainas e noites brancas nos locais de uso.

A Páscoa é a grande, a mais emblemática data da Cristandade. É quase ou absolutamente o cerne desta fé. Sem Páscoa não há cristianismo.

E que vemos nós neste torrãozinho de açúcar à beira mar plantado? Pois uma emigração em massa para umas curtas férias balneares nacionais ou mesmo internacionais. É verdade que aqui e ali, e sobretudo em Braga (a idolátrica como referia Pacheco) há umas procissões soleníssimas cheias de criaturas com capuzes fora de moda (farricicos?), muitas cruzes num desfilar de piedade pouco convincente e vagamente andaluz. Mas a coisa é mais folclore e turística do que realmente religiosidade entranhada e sentida.

(a este propósito não resisto a recordar uma história passada nos primórdios de setenta. Com mais um par de amigos e amigas fomos de longada para a Catalunha onde nos reuniríamos com outros amigos então exilados na Suiça. Numa cidade (cória?) do caminho, já ao lusco fusco caímos no meio de uma dessas tremendas procissões penitenciais da semana santa. Logo que a rua ficou vazia corremos para um restaurante recomendado por uns locais onde se comeria bem e a bom preço. Já estávamos instalados na grande sala a petiscar presunto e à espera de umas carnes – nesse tempo a malta não religiosa fazia questão de só comer carne na quaresma e sobretudo na semana da Páscoa- quando vemos entrar a multidão dos processionários ainda fardados com as vestes de ocasião. em alta grita foram, também eles!..., encomendando acepipes vários e doses quilométricas de tapas onde não faltavam o chouriço, o presunto e outras especialidades cárnicas (roubo a palavra a José Quitério, gastrónomo e e crítico de grande gabaritoque escrevia algum do melhor português que se usava no Expresso. Saravah, velho amigo e irmão, um abraço deste teu velho companheiro de fuga ao estudo, de noites varadas em conversatas saborosas numa Coimbra, ainda sem atropelos urbanísticos e com uma “baixa” cheia de livrarias e cafés). Fiquei esclarecido. A espanholagem que nos acompanhava nesse restaurante devia considerar que a procissão de que fizera parte permitia uma fuga ao preceito do jejum pascoal. Beberam e comeram e cantaram. E nós com eles, claro.)

E o mais curioso desta migração pascal é que ela ocorre sem lhar para o calendário, sequer para a meteorologia. Caiam as festas em fins de Março ou em Abril bem avançado e ala que se faz tarde. Praia com eles. Chova ou faça sol. “Ei-los que partem” com uma fé eventualmente pagã no milagre das rosas algarvio. Substituem a água benta pela do mar, a missa matutina por uma soneca que a noite foi de discoteca e até às tantas.

Decididamente, o país alegadamente católico, apostólico e romano, aposta numa ligeira intermitência da fé e dos deveres do crente. Portugal, à medida que se vai europeizando, transforma-se em terra de missão.

Não é que a coisa me incomode. Sou (ainda...) um agnóstico da velha guarda que só não se declara ateu porque isso tem um ar de militância desagradável. Aliás, escrevi acima “ainda” porque nada me garante que mais entrado em anos (e eu já estou quase na quarta idade) não me suceda o mesmo que a Jean Barois herói de um grande livro de Roger Martin du Gard, prémio Nobel e autor do magnífico “Les Thibault”, obra admirável que provavelmente ninguém lê. Porventura nem sequer existem actualmente versões em português. Barois é católico em jovem, passa a ateu durante a vida adulta mas quando já está no ocaso da vida retoma a fé antiga, depois de, durante anos, ter provado a desrazão da crença. Não me sinto fadado para Barois, não andei a pregar a evidência da ciência e da razão versus a religião mas tudo pode suceder-me amanhã. O mais certo é morrer de cancro ou perdido no Alzheimer ou outra doença medonha. Todavia, a velhice e o seu cortejo de misérias físicas podem predispor uma pessoa a subitamente acreditar numa vida outra e eterna. O medo da morte é como o sono da razão: cria monstros. E aterroriza o mais corajoso.

De todo o modo, desejo-vos, caros leitores e leitoras, uma boa Páscoa. que o cabrito, as amêndoas e demais mimos da época vos caiam bem. Também vos desejaria bom tempo, mar chão e quente mas isso vai contra todos os prognóstico do Instituto do Mar e da Atmosfera. E ao ex-camarada Lenine de Jesus, Salut e forza nel canut como se diz na Catalunha. Com a idade que terás é um voto mais simpático do que saúde e fraternidade...

* na gravura procissão em Braga

16
Fev18

Au bonheur des dames 446

d'oliveira

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 Pagar dívidas antigas 

 

 mcr 16.2.18

Fui aluno do antigo Liceu D João III (Coimbra) por duas vezes mesmo se por pouco tempo: no 3º e no 6º anos.

Nesse tempo, tratava-se de um liceu “Normal”, isto é de um liceu onde os jovens professores, sob a orientação de exigentes professores “metodólogos”, faziam o “estágio”.

Uma vez aprovados poderiam ir ensinar em qualquer outro estabelecimento similar, integrados na função pública.

As aulas nem sempre eram pacíficas sobretudo se dadas por um metodólogo e respectivos estagiários: estilos de ensino diferentes podiam perturbar a rapaziada. Todavia, é justo realçar a alta qualidade do ensino e a exigência.

Naquele tempo, as instalações eram boas mesmo se, por exemplo, a piscina nunca funcionasse!...

Hoje, diz o jornal, aquele excelente edifício está num estado desolador. Esperam-se (e desespera-se) obras de enorme importância e correspondente custo. A desvairada gestão da ministra Rodrigues e a loucura gastadora da empresa Parque Escolar não deram para restituir a actual “escola José Falcão” (é o seu nome, hoje) à devida dignidade que uma escola, o seu corpo docente e os seus alunos merecem.

Todavia, não é do estado calamitoso do prédio que pretendo tratar.

É do seu nome actual. O “D João III” passou a José Falcão com os ventos de Abril. Ou as ventosidades como já se explicará.

José Falcão foi licenciado e depois doutorado em Matemática e lente da Universidade de Coimbra. Porém, a escassa fama que obteve em vida advém-lhe sobretudo, e apenas, do facto de ter sido propagandista e militante republicano, mesmo que de segunda linha. Aliás, morreu cedo pelo que não se podem, sem eventual injustiça, verificar-se os seus méritos políticos e propagandísticos. Escreveu uma “cartilha do Povo” que se não é uma inutilidade absoluta também não merece destaque na escrita política da época. Escassa novidade e estilo pobre.

D João III foi, provavelmente, o soberano português que mais fez pelo ensino e pela Universidade que dotou de meios e de professores de altíssima qualidade. A actual Rª da Sofia em Coimbra está pejada de “Colégios Universitários” mandados fazer por ele e pagos pela Coroa. Em qualquer país civilizado isto poria o último grande rei da dinastia de Avis na História. Se é verdade que outros soberanos e príncipes dotaram a Universidade (D Dinis, Infante D Henrique, Filipe II e D José a conselho do inteligente e maléfico Marquês) deve considerar-se a intervenção de D João III como a mais completa.

Da sua memória resta hoje uma feia estátua no pátio da Universidade e durante algumas décadas do sec. XX o nome do liceu (que começara por se denominar Liceu de Cimbra e Liceu Central de Coimbra até ao tempo da 1ª República que o crismou José Falcão).

Aliás, e para maior rigor o D João III nasceu da fusão dos liceus José Falcão e Júlio Henriques (licenciado em Direito e catedrático de Filosofia mais tarde consagrado como um dos grandes botânicos portugueses, ao lado de Brotero que ele muito admirava. Fundador do Instituto Botânico, dirigiu o Jardim Botânico durante décadas podendo dizer-se sem mentir que a sua obra à frente desta instituição é comparável à de Vandeli ou Luís Carriço).

Ignoro se há em Coimbra, além da Brotero e D Maria, mais escolas secundárias. Se sim, aí estaria para os saudosos da propaganda republicana uma hipótese de homenagear J Falcão.

Agora, que eventualmente se farão obras, seria de toda a justiça restituir à velha escola o nome do rei que mereceria mais, muito mais, da cidade.

A latere: os velhos colégios da Rª da Sofia estão em mau estado e sobretudo afectados a usos desinteressantes. Suponho que estarão incluídos no domínio do Património da Humanidade que contempla Coimbra. Valia a pena começar a pensar-se em restituí-los à sua primitiva e gloriosa função universitária (residências de estudantes, centros de estudos, etc). Para o efeito bastaria voltar a consultar o valioso número XXV da Revista Monumentos onde se pode perceber toda a importância arquitectónica, urbanística destes edifícios. Antes isso que andar a construir “barracos” feios, maus e caros como é timbre do Ministério da Educação.

 

Por mcr, nº 23/3º/A e nº 38/6º/ A  (anos 50)

06
Fev18

Au bonheur des dames 4445

d'oliveira

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Segundo texto para Maria Assis sobre os tempos que correm

Dois Secretários de Estado que gostam de ler.

 

Faço parte dessa ínfima minoria de criaturas que tem o hábito de ler. O solitário vício de ler. Livros, revistas, jornais, literatura inclusa e indigesta das embalagens dos medicamentos, folhetos, grafittis, seja o que for. Com uma única excepção: nunca (NUNCA) li a chamada imprensa cor de rosa. Defeito meu, certamente ou então será porque não consigo ter qualquer espécie de curiosidade pelas vidas do jet set ou dos que gostam de o ser. Melhor dizendo, leio as letras gordas das capas que se metem pelos olhos dentro de quem vai por um jornal ou uma revista no quiosque.

Assim sendo, só louvo a propensão leitora de dois políticos socialistas que, durante os seus mandatos governamentais, alimentavam a cabecinha pensadora lendo imprensa vária (num dos casos) e livros não especificados no outro. Desconheço se, nesses tempos de glória, eram, no Governo, os únicos a parar para ler ou se mais alguém da mesma banda os acompanhava nesse dever de saber como ia o mundo. Todavia, o MP vem agora acusar as duas criaturas de terem comprado tais publicações com um cartão de crédito atribuído a governantes. Mais tais publicações (que num dos casos, o mais grave, ascende a mais de 13.000 euros e tinha por alvo, revistas, romances e livros técnicos) não foram encontradas uma vez terminado os mandatos dos cavalheiros em questão. No caso menos importante, José Magalhães, a quantia em causa –pouco mais de 400 euros – refere apenas revistas. Para o tempo de mandato convenhamos que foi pouco. Provavelmente sabia tudo e só comprava, de longe em longe, informação de que necessitava. Ou então era apenas um fraco leitor.

No segundo caso, Conde Rodrigues parece ser um leitor omnívoro. Em cinco anos gastou mais de 2500 euros anualmente. É bem verdade que terá comprado “livros técnicos” (os livreiros, quando se lhes pede, passam uma factura com este termo sem que isso seja necessariamente verdade) e romances para além das publicações periódicas. De nenhum destes produtos resta traço nos gabinetes ministeriais. E é aí que as coisas se complicam. Por muito leitor que se seja, o dinheiro com que se comparam os livrinhos ou é nosso ou de outrem. No caso em apreço, do Estado (obliquamente nosso, dos contribuintes ou seja de um terço das criaturas que habitam este torrãozinho de açúcar e que passam por ricas ou remediadas).

Não consigo (por grave defeito meu) lembrar-me do senhor Conde Rodrigues mas rendo-lhe um pequeno preito de homenagem: num país de semi-analfabetos dá sinais de curiosidade intelectual e literária mesmo se, eventualmente, os “romances” em causa sejam de amor ou (perversidade que gostosamente partilho com ele) eróticos. Quem nunca leu Sade, Crebillon fils, Laclos, Montesquieu ou Diderot não sabe o que perde. Nisto de romances cabe tudo desde a senhora Corin Tellado o senhor Marcel Proust. Tivesse ele tido o cuidado de deixar os livrinhos na biblioteca do Ministério e não seria este arrebatado leitor quem lhe atiraria a primeira pedra. Mesmo se o seu gosto literário não coincidisse com o meu. Mas não deixou!...

Alguém menos dado a perdoar extravagâncias literárias poderia pensar que Sª Ex.ª se abarbatou com 729 publicações (é esse o número que o MP revela. Ai quanto gostaria eu de saber os títulos, os autores, pelo menos os géneros, da livralhada comprada...) pertencentes ao Erário Público.

O senhor José Magalhães foi, como se disse, modestíssimo. Contas feitas, só em jornais, gasto três vezes mais por ano. Bem vistas as coisas só o “Público” chega e sobra para atingir a escassa verba de Magalhães. E é isso que me espanta. Então o raio da criatura lia assim tão pouco? Ou foi apenas distraído? 400 euros são de facto uma soma mais que exígua para o que se espera da curiosidade intelectual da personagem. Magalhães, desde os seus tempos de Vichinsky lusitano e censor moral ao serviço da bancada do PCP, dava a ideia ler um pouco mais do que o “Avante” ou aquela “verdade a que temos direito” e que se intitulava “O Diário”, publicação que se finou mansamente alguns anos depois do PREC.

Isto parece quase tão ridículo quanto a historieta de mendigar um bilhete para ver a bola no camarote do senhor Vieira. É mais uma burrice, uma esperteza saloia, do que um crime.

Joaquim Namorado, um excelente amigo, tinha um projecto de Código Civil que continha apenas um artigo e um parágrafo único que passo a citar

Artº I É proibido ser estúpido

  • º único Fica revogada toda a legislação em contrário

Vê-se que Magalhães, apesar de ideologicamente próximo de Namorado não leu ou se o leu não percebeu. Que desperdício!

Voltando, contudo, à vaca fria: que diabo de revistas compraria a criatura? Teria alguma graça se fosse a tradução brasileira da “Playboy”, ou a relançada e francesa “Lui”. Todavia não o creio: O apostrofante Magalhães dos heroicos tempos do PREC não cabe na pele de um leitor de Hugh Heffner, eterno woomanizer de pijama de seda que vagueava pela “mansão” rodeado de coelhinhas pouco dadas aos extremos do #metoo.

Seria alguma revista de automóveis dessas com muito brilho e retratos de modelos que nunca estarão ao meu alcance ou, sequer, dos meus leitores?

Poderia, dado que já passaram anos, ainda ser a espanhola “Interviu”, iniciadora do “destape”, logo “progressista” em terras vizinhas e actualmente apenas uma saudade nocada vez mais rarefeito panorama das revistas europeias. Ou o “Nouvel Observateur” (agora só “obs” ou “nouvel obs” ou qualquer outa burrice a la mode e do mesmo desnatado género e teor. Oh que de labirintos intelectuais, de caminhos que se bifurcam incessantemente mas que acabam todos no mainstream das paradas águas de um vago socialismo à portuguesa, agora apimentado pelo fantasma recorrente do sr. José Sócrates e da geringonça.

Ai Portugal se ao menos fosses só sul sol e sal...

* na ilustração uma (exageradamente) famosa revista dos tempos áureos do “verdadeiro” socialismo tal qual se entendi nas franças e araganças de outros, apesar de tudo, saudosos tempos...

02
Fev18

Au bonheur des dames 444

d'oliveira

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tempos confusos, práticas estranhas

(para Maria Assis, uma testemunha de outro tempo de batalhas duvidosas a que não se fugia)

 

O senho Centeno é uma criatura singular. Apareceu nas vésperas da última eleição legislativa com uma proposta económico-financeira que o PS, sempre preguiçoso e pouco imaginativo, aceitou de braços abertos. Depois, mesmo depois desta perdida, o PS governou. Com Centeno ao leme das Finanças. Quando se esperava que aquele programa fosse aplicado, saiu outro completamente diferente. Com isso Centeno, evadido do limbo do Banco de Portugal, ganhou a simpatia de Herr Schauble que o crismou de Ronaldo. Schauble mesmo alemão e de cadeira de rodas gosta de ironizar...

A recuperação geral na Europa e na UE, o silêncio das ruas portuguesas sem marchas, sem indignados sem manifs, o turismo fugido de um Mediterrâneo perigoso, e o comportamento das exportações fizeram o resto. Foi aquilo e não especialmente Centeno que mudou, episódica e levemente, a pátria imortal dos nossos egrégios avós. O resto, a dívida pública – e a privada, ai a privada!...-, o novo “consumo” interno desenfreado (até o BP o quer limitar) pintaram a cara de um país que ficou negro no Verão.

Centeno marchou para o seu lugar europeu e pelos vistos gosta de estar na mesa dos adultos. Ainda bem, mesmo se lá, como cá, pouco ou nada poderá influir na Europa que se redesenha.

Entretanto, uma palermice ia entornando o caldo. Centeno, arguindo de uma qualquer ideia de segurança pediu, solicitou, implorou um lugarzinho no “camarote presidencial”. Tais lugares não têm preço (ou tendo-o esse é de tal modo elevado que o melhor é não comentar) e o desejo de Sª Ex.ª foi prontamente atendido. Ele e o abencerragem sentaram-se naquele olimpo de papelão e ouropel e provavelmente tiraram uma selfie comemorativa.

Caiu o Carmo e Trindade. Que o camarote tinha um custo a pagar agora ou nas calendas!

O ministro e os seus defensores aproveitaram a burrice da crítica para se defenderem. Os críticos, em vez de dizerem que um ministro não deve pedir este género de favores insignificantes pelo que isso tem de eticamente absurdo e tolo, vieram falar de corrupção. Que diabo, esta corrupção é tão visível que corre o risco de não passar de um tiro de pólvora seca.

Centeno ou foi ingénuo ou tonto. Ou ambas as coisas, ao mesmo tempo. Deveria saber, mesmo inexperiente politicamente, que o que pediu, segurança pessoal ou não como molho, é indefensável eticamente. Gosta de futebol? Basta vê-lo comodamente na televisão, se receia que um energúmeno na bancada lhe venha pedir contas. Os ministros são, ou deveriam ser como a mulher de César mesmo se a Centeno falte cultura clássica.

O Sr. Primeiro Ministro defendeu o seu Ministro arguindo que aquilo, o bilhetinho de borla eram trocos miúdos. De acordo, tem toda a razão. Até aqui!

Mas perde toda a razão, toda, repito, quando afirma, pomposo e desafiante, que nunca o demitirá, suceda o que suceder, seja arguido ou não. Isto é um desafio esparvoado e perigoso à Justiça e um convite a todos quantos cá por baixo andamos, a mandar a Justiça às malvas para não dizer à merda. Demitir Centeno por conta de uma bagatela que releva da sua patetice seria uma tolice em cima de outra. Dizer que, em caso algum (em caso algum!) tomaria providências é um exercício de arrogância presunçosa que nem sequer defende bem Centeno.

Nota à margem: o PE teve uma conversa preliminar sobre esta caso, o que prova que os eurodeputados andam com falta de trabalho. Os deputados portugueses (todos mesmo os “conservadores”) opuseram-se a qualquer inquérito. Se foi por o assunto ser de lana caprina, muito bem. Se foi por solidariedade patriótica, muito mal. Tudo isto cheira a Carnaval mas não é o de Veneza, o de New Orleans nem o do Rio. É um desses pobretes mas alegretes, típicos da nossa província mais provinciana de onde espiritualmente surdiram Centeno e Costa.

 

11
Jan18

Au bonheur des dames 443

d'oliveira

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#me too, o movimento e as francesas

 

mcr 11-1.18

 

este texto vai para  Irene MR, Mª José C e Maria de L A

 

(nota prévia: Quem, com santa e resignada paciência, me lê terá reparado que são mais de uma dúzia os textos em que me refiro à violência de género e à inominável cobardia (para já não falar no crime miserável) de muitos homens. Eles agridem, eles denunciam, eles maltratam, eles matam as ex-companheiras por dá cá aquela palha. Que os abandonaram, que se fartaram de apanhar pancada, de ouvir insultos, de serem menos do que as antigas criadas de servir, de serem violadas –sim também existe violação dentro do casamento- enfim por um ror de razões que seria fastidioso enumerar. Portanto, caras e caros leitores, recordem isso antes de me atirarem a primeira pedra (curiosamente o castigo para as adúlteras quer na Bíblia –A.T.- quer na medonha “charia” muçulmana)).

 

Apareceu nos EUA, mais propriamente em Hollywood, uma campanha (#me too) de denúncia de agravos feitos por homens ligados à indústria cinematográfica a mulheres, mormente actrizes. Nas queixas há de tudo: apalpões, convites para a cama, chantagem, palavrões, violação. Há também conversas ou palavras “impróprias”, que a América é o paraíso da correcção política!

Alguns (com a entusiástica ajuda dos media, fartos já de arrear – merecidamente, acrescente-se - em Trump) mostraram-se espantados, escandalizados, horrorizados(!), com estas revelações.

Este escriba persigna-se três vezes e pergunta-se se estas boas alminhas alguma vez pararam para pensar na história pregressa de Hollywood. É que, desde meados dos anos 50, que anda por aí um livro de Kenneth Anger (“Hollywood Babylone”, Jean Jacques Pauvert ed, Paris)que só apareceria nos EUA (em versão inglesa e original) em meados de 60. Rapidamente proibido lá, só voltou às livrarias dez anos depois.

Entretanto, dezenas de publicações (destaque-se a “Playboy”) foram ao longo de todos esses anos denunciando “Sodoma e Gomorra na Meca do cinema”. Recordo-me de ter visto na televisão (há quantos anos já!) um documentário sobre actrizes e modelos onde algumas delas confessavam, sem excessivas recriminações, que tinham passado voluntária ou obrigatoriamente pela cama de realizadores, produtores, fotógrafos, agentes, sei lá que mais.

O actual arruído foi desencadeado pelas acusações a um poderoso produtor, Harvey Weinstein, por um grupo de actrizes. Estupro, violação seriam o pão de cada dia na vida de um homem que chegou a ser homenageado pelo seu apoio à causa judaica e atacado por alguns filmes seus serem anti-cristãos e anti-americanos. Um “must”! Por acaso, também foi responsável por alguns (muitos) sucessos artísticos e comerciais. Uma autêntica “american live story”...

Abatido Weinstein, começou (Não há país como “a terra dos bravos e dos livres”, para estas coisas) a caça à macharia mal intencionada. Em pleno desenrolar dos “Globos de ouro”, um dos premiados foi acusado por uma actriz que afirmou que ele a fizera actuar nua depois de lhe ter imposto um contrato onde isso estaria previsto. Ou seja, o anjinho ofendido primeiro contratou, fez o filme, recebeu o cacauzinho e, depois, muito depois, lembrou-se de protestar. É obra!

Numa entrevista no “Late night show”, animado pelo prodigioso Stephen Colbert, um entrevistado confessou que ao abraçar uma mulher lhe “tocara nos seios”. E estava muito arrependido... Pergunto-me como é que ao abraçar se toca nas mamas da criatura abraçada.

A campanha corre, infrene e imparável, pela América. Todos os dias se noticiam casos de há dez, vinte, trinta anos. A diligente justiça americana renova a perseguição a Roman Polansky, ameaça Woody Allen e instala no meio libertino e sofisticado de Hollywood um clima de denúncia onde vale tudo. Pelos vistos qualquer “inapropriate behaviour” é tremendo crime. Um olhar mais demorado pode ter efeitos tão dramáticos quanto um apalpão que, por sua vez está ao nível do assédio puro e duro, quiçá da violação. Al Capone e a KKK espreitam, com Manson e os bombistas de Ocklahoma, as vestais do cinema americano, para o efeito vestidas de negro severo mas generoso em decotes.

Um grupo de cem artistas, académicas e escritoras francesas publicou em “Le Monde” uma carta aberta onde pedem moderação, bom senso e calma e, horribili dictu!, defendem que aos homens deve ser permitida uma suave intencionalidade sexual no que dizem, pensam ou fazem perante as mulheres. Jesus! Caiu o Carmo e a Trindade. Ou melhor, a torre Eiffel e o Arco do Triunfo. A primeira como vero símbolo fálico e o segundo como uma vagina desmesuradamente acessível à peonagem que o atravessa a pretexto de ver a chama do soldado desconhecido. Aliás, o Arco, tributo às campanhas napoleónicas é, desde há muito um símbolo a proscrever por nacionalista, imperialista, militarista etc.

No dia seguinte trinta senhoras da melhor sociedade feminista responderam às anteriores cem. Estão em minoria mas isso não espanta num país onde um antigo presidente da república (Felix Faure) morreu literalmente na boca de uma amante posteriormente conhecida como “pompe funébre”. Onde outro, Mitterand, era conhecido por ter “casa civil e casa militar”(na amável interpretação de Jorge Amado) ou outro ainda mais recente se disfarçava de motociclista para se escapar do Eliseu para se ir aconchegar nos braços de ma actriz que (Vergonha!) nunca se queixou de assédio. Há quem se lembre de uma (a única) Primeira Ministra da França, Edith Cresson que afirmou sem pestanejar que uns bons 25% dos ingleses eram homossexuais e por isso desprezavam as mulheres. A senhora Cresson, além de inteligente, culta e belle femme, foi, et pourquoi pas?, amante de Mitterrand mesmo se esse fait divers não deva ter influído na sua nomeação.

Não admira num país que viu nascer Sade, Laclos, Bussy-Rabutin, Crébillon fils, Brantôme (e não esqueçamos osenormes Montesquieu e Diderot que escreveram belos textos eróticos) ou já no nosso tempo, Roger Vailland, esta desatada fúria americana cause uma divertida perplexidade. Alguém, não consigo recordar agora, citou Mae West essa deliciosa e inteligentíssima desbocada. Que diria ela, perguntava-se esse desconhecido, se visse e ouvisse o que se passa?

Esta campanha acaba por abafar outras bem mais urgentes quais sejam pagamento igual por trabalho igual (e não só no cinema, que diabo, mas nas fábricas, nas grandes cadeias de distribuição, na Banca ou noutros domínios), a luta pelo ambiente, a eventual proibição do porte de arma ou a necessária limitação da intervenção de seitas e grupos religiosos na condução dos negócios públicos. Neste momento tudo isso está na sombra. O que está a dar, graças a uma centena de famosas, é o assédio sexual seja ele qual for, revista ele a modalidade mais inócua. Foram causas idênticas, ou um estado de espírito idêntico, que levaram à imbecilidade da lei seca, que mantiveram no índex as obras de Miller e um bom cento de argumentos ou de filmes “unamerican”

Às vezes, por muito jazz de que eu goste, por muito poeta e escritor americano que aprecie, por muito John Ford que veja e reveja, sinto que tive a sorte de nascer em Portugal. Arre, que isto até me faz parecer nacionalista! Credo, Deus me livre...  

 

* na imagem Kirk Douglas, 101 anos e mais de 80 de cinema, veio de preto, sabe-se lá por que razão. A acompanhante também.

**o título leva o #me too a negro. É uma mostra de solidariedade, juro.

10
Jan18

Au bonheur des dames 442

d'oliveira

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Não percebeu, não percebe e (provavelmente) nunca perceberá.

(mcr 10-1-18)

 

A Sr.ª Dr.ª Constança Urbano de Sousa, patética e inverosímil ex-Ministra da Administração Interna, entendeu dar por findo o período de nojo pela sua remoção de tão difícil cargo com uma entrevista ribombante mas paupérrima.

Como única nota de interesse, remeteu as críticas que a sua deslavada acção mereceu para o factor sexismo.

Tudo o que se lhe apontou de ineficácia, incoerência, inabilidade e autismo, deveu-se, segundo ela, ao facto de ser mulher.

Com uma excepção: reconhece, a contrapelo e a contragosto, que a sua disparata referência à falta de gozo de férias não terá sido uma expressão feliz. Ora aqui está um exercício de autocrítica digno dos melhores momentos do falecido Komintern (entidade que CUS não conhecerá bem mas isso não é seu exclusivo. Basta ler um artigo de opinião da também Dr.ª Mortágua, exalada bloquista, para se perceber que aquelas matérias, mesmo com o centenário da “Revolução de Outubro”, gozam de um conhecimento fugaz entre a nossa “inteligentsia” progressista).

De facto, a ex-ministra enfrentou (ou antes: assistiu) a uma situação de extremo dramatismo. Não foi apenas a terrível morte de mais de uma centena de cidadãos portugueses (dos mais indefesos, desprotegidos e pobres e isolados!) mas a perda de culturas, pomares, olivais, vinhedos, floresta, hortas, reses, abelhas, animais selvagens e de companhia, gado doméstico, empresas e casas, emprego e qualidade de vida. Foi muito e foi mais do que isso. Foi a verificação de um país paralisado, dividido, enfraquecido, esquecido pelas luzes do turismo de massas e pela pequena “sociedade afluente” que povoa parte do litoral. Deveria ser também o momento do fim da inocência de alguns (muito poucos) e a tomada de consciência de que assim corremos inexoravelmente para o fim de um Estado em que Nação e Povo e História pareciam confundir-se desde há séculos, dentro da mesma fronteira, da mesma língua, dos mesmos mitos fundadores.

E igualmente o do despertar de uma consciência nacional, social, ética e solidária, reclamada por muitos e defendida por poucos. A ver vamos, como dizia o cego...

A Dr.ª Constança andou durante o Verão e o Outono do passado ano como uma abelha enlouquecida e desnorteada. Do que dizia, do que fazia, do que pensava chegavam-nos ecos assustadores. A pobre senhora esbracejava como os moinhos de Consuegra contra os quais o “engenhoso fidalgo” esgrimia uma pobre espada.

Agora, porventura entusiasmada com a campanha #me too, eis que levanta um dedo acusador a todos quantos se indignaram com a sua actuação e o fizeram saber.

Alega a criatura que todos os dias recebe na rua, ou em qualquer outro local público, mostras de simpatia e conforto. Provavelmente até de agradecimento!

Eu não quereria desmentir a senhora mas, que diabo!, a coisa, assim dita, parece-me forte. Fortíssima! A rondar a paranoia... Que é que qualquer cidadã ou cidadão (escrevo as duas formas para me defender de machismo, assédio sexual ou qualquer outra maleita do século) lhe poderá agradecer? E louvar?

A paralisia? A falta de tacto (ou de férias...)? O discurso enrolado, a nomeação de gente da protecção civil manifestamente incapaz e alvo, agora, de acusação criminal?

A dita senhora escreveu numa carta patética e choramingas que por várias vezes pusera o cargo à disposição ou oferecera numa bandeja a demissão. Desculpar-me-ão pôr em dúvida tal afirmação.

Quem se quer demitir, demite-se. Se, do outro lado, há quem arraste os pés, eleva-se a voz, faz-se barulho, uiva-se se for o caso, mas não se permite que uma situação nos esmague, engula. Em síntese: tudo, menos o pântano! Vai nisso a honra das pessoas, o sentido ético, a salvaguarda política de uma missão nobre (e a governação é seguramente uma delas).

A ideia de que a opinião crítica apouca as mulheres é falsa, é estúpida e é deletéria. Poderei não concordar com a geringonça mas tenho de reconhecer a alta qualidade da dr.ª Mª Manuel Leitão Marques, a verticalidade da dr.ª Joana Marques Vidal, a combatividade de um largo punhado de deputadas desde Catarina Martins a Assunção Cristas sem esquecer a porta voz dos Verdes ou Ana Catarina Mendes. Ou a derrotada candidata do PSD à CML.

Tenho por certo que alguma da melhor literatura portuguesa do passado século se deve a um extraordinário punhado de mulheres de que só cito Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Fernanda Botelho, Agustina Bessa Luís, Sofia de Melo Breyner, Fiama HP Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Isabel da Nóbrega (e lamento deixar de lado outras tantas e sobretudo um punhado de revelações já deste século). Duvido que conseguisse citar, do mesmo modo e de jacto, tantos homens escritores que de facto tenham deixado uma marca profunda, tão profunda quanto a delas. Poderia identicamente falar de artistas plásticas, de intérpretes musicais ou de cientistas. A nossa história cultural está pejada delas, não existe (ou existe mal) sem elas.

Há uns tempos, escrevi aqui que Mário Soares nunca teria sido o que foi sem Maria Barroso. E, mais: que ela voluntariamente se apagou para que ele e a comum ideia política que partilhavam fosse mais evidente. Ou indo mais longe no tempo. Snu partilhou com Francisco Sá Carneiro tudo, inspirou-o, aconselhou-o e acompanhou-o (inclusivamente na morte).

Tudo isto faz com que leia, entre espantado e desdenhoso, as declarações da dr.ª Constança. Ela equivoca-se ou tenta equivocar-nos. Ou não percebe, como escrevo no título deste folhetim...      

 

26
Dez17

Au bonheur des dames 441

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Febeapá que assola Portugal 2

(em memória de Stanislaw Ponte Preta)

2º exemplo o Sr. Carlos, e a Autoeuropa

mcr (Dez 2017)

 

O Sr. Arménio Carlos mandante do sindicato que anda a pôr em risco novos empregos na Autoeuropa (se é que não põe em risco a permanência desta cá...) produziu um artigo no “Público” onde, para além das consabidas tomadas de posição sobre o conflito que opõe a empresa e os trabalhadores (ou a CT e os trabalhadores, ou alguns trabalhadores) e que se não referem por serem mais que conhecidas as razões que levam as correias de transmissão do PC a entrar em guerra com a herança de uma CT que foi durante anos um feudo do BE. (Ou seja, o PCP violentamente derrotado nas últimas autárquicas tenta a todo o vapor mostrar que ainda morde no campo sindical e, ao mesmo tempo “descolar” do Governo actual de que foi um dos mais esforçados obreiros depois da derrota do PS frente à Direita. Agora que paira a ameaça de uma eventual maioria absoluta, eis que as tropas de choque do PC saem para a rua entrincheiradas nos habituais bastiões).

DE tudo o que o Sr. Arménio Carlos diz, salva-se, pela originalidade, uma proposta feita mesmo no fim do texto e que é a seguinte, e cito: “é altura do Governo português assegurar as condições necessárias junto da multinacional para que a Autoeuropa seja parte integrante desta nova fase da estratégia produtiva da VW (“substituição de uma parte da produção dos carros com motor a combustão por viaturas com motor eléctrico”... sic).

Poder-se-ia questionar a oportunidade desta proposta conhecida que é a actual conflitualidade na empresa.

O Governo português anda atarantado com esta péssima guerra que estalou na pior altura dados os compromissos com o fabrico do T Roc. A empresa já avisou que o horário será o que indicou e tudo parece levar a crer que a Administração da Autoeuropa dificilmente mudará de opinião. Para já, está suspensa a contratação de 500 trabalhadores o que, aliás, prova que a CGTP apenas defende os trabalhadores empregados e não pensa nos que se amontoam à porta da empregabilidade, sejam desempregados sejam jovens à procura de primeiro emprego.

Não compete ao Governo andar a esmiuçar nesta questão da transição dos motores e, no caso em apreço, na política da VW. Para já, trata-se de salvar o que há e que está estupidamente ameaçado. O Sr. Carlos deveria passar pela Alemanha e falar com os seus colega alemães da VW e da poderosa central sindical a que pertencem. Claro que não o fará que aquela gente leva a sério os interesses da comunidade laboral no seu todo e, desde sempre renegou os princípios da IIIª Internacional, fonte de sofrimento e miséria para todos os trabalhadores e esteio da política “Klasse gegen Klasse” que protegeu o nazismo e, mais tarde, nos dois primeiros anos de guerra, levou a URSS (patética pátria dos trabalhadores) a ajudar fortemente o esforço de guerra de Hitler. Carlos e os seus amigos, sempre saudosos desses gloriosos tempos bem como dos que se lhes seguiram com o seu cortejo de gulags e privações, vem agora chutar para canto com uma proposta a destempo que, aliás, endossa para o Governo e não para os seus apaniguados na Autoeuropa. De facto, porque é que os sindicatos afectos a Carlos não fazem, eles próprios, essa proposta e a atiram para um governo que, actualmente, o PC (de Carlos e de outros) apoda de burguês, conservador e quase reaccionário?

 

* a expressão febeapá criada por Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto, significou, em tempos de violenta ditadura brasileira, “Festival de besteira que assola o país”. Esses textos imorredoiros estão publicados pela editora Civilização Brasileira e foram editados nos anos 60 e 70 no Brasil