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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

13
Nov18

au bonheur des dames 464

d'oliveira

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It’s a long way to Tipperary

(tu est seul le matin va venir Appollinaire, “Zone” in “Alcools”)

Até Tipperary foi muito o caminho como se sabe. Quatro anos pejados de mortos, de mortos inúteis sacrificados por generais incompetentes e por tácticas militares há muito controversas.

Verdun ou o Chemin des Dames, para não falar de Passchendaele (julho –Novembro de 1917) onde só morreram cerca de 300.000 soldados, são exemplos da cegueira homicida de irresponsáveis militares que, mesmo contra toda a evidência, continuavam a tentar romper uma frente perigosíssima mandando para um infame matadouro dezenas de milhares de homens. Estes sabiam que só um milagre os salvaria das metralhadoras inimigas e mesmo assim avançavam. E avançavam porque na retaguarda havia quem os obrigasse a tal e quem à mínima falha os levasse a tribunal de guerra e ao fuzilamento.

Ao lado destas tremendas batalhas, La Lys, o nossos desastre (400 ou 1400 mortos os números variam. Certo, ou quase, é o número de prisioneiros: 6000), passa despercebido mesmo se os seus efeitos no debilitado Corpo Expedicionário Português (CEP) fossem medonhos.

Em Portugal, ainda é quase proibido (ou impossível) falar da Guerra e da nossa participação nela. Os “guerristas” (e nunca esquecer João Chagas que logo no início se fez ardoroso defensor da participação portuguesa na hecatombe- vale a pena ler “É a guerra” de Aquilino Ribeiro que foi testemunha do confronto desde o primeiro dia visto estar em Paris) entrincheirados no Partido Democrático mas com cumplicidades nos dois restantes grupos republicanos, viram na participação portuguesa uma porta aberta ao reconhecimento do regime por uma Europa bem arredia.

Pouco lhes importou verificar que se algo havia que defender não era na Flandres mas no sul de Angola e no Norte de Moçambique onde se temiam os efeitos de uma combinata anglo-alemã que, ela própria, está sepultada em tantas e tão contraditórias versões que custa destrinçar quais eram exactamente os termos desse acordo feito à custa de um Portugal colonial que ainda não ocupara com efectividade e segurança todos estes territórios.

Mas, e mais grave, era a situação militar interna. Vejamos: o corpo de oficiais do Quadro Permanente era maioritariamente desafecto à República. Para contrariar essa situação, a República contava com os sargentos e com a influência da Maçonaria e congéneres nas praças. A isto juntava-se a sempre prestimosa colaboração de grupos civis que, quando convocados, tentavam invadir os quartéis ou impedir a tropa de “sair” graças à famosa “artilharia civil” (assim se chamavam os bombistas).

A situação nos quartéis era, para usar um termo brando, uma calamidade onde a indisciplina se aliava às péssimas condições de instrução, aquartelamento, alimentação e fardamento.

Não existia Marinha digna desse nome, pese embora a fanfarronada de uma votação no Congresso (1911) em que se votou a compra de uma formidável frota que incluía couraçados e cruzadores em profusão. Foi a anedota da década. Portugal não tinha sequer meios para sustentar um couraçado quanto mais para o comprar.

E quem diz navios puramente de guerra diz igualmente uma marinha mercante eficaz. Pura e simplesmente não havia um único navio de transporte de tropas. Os cinquenta e tal mil homens mandados para França foram embarcados em navios ingleses. Por isso mesmo também (falta de transportes disponíveis) nunca houve rotação de praças e sargentos mesmo se tal estava garantido pelo Governo. Apenas os oficiais, e quase sempre, à sua custa, puderam vir a Portugal nos seus períodos de licença.

Para as colónias, sobretudo para Moçambique, seguiram algumas dezenas de milhares de homens, igualmente impreparados. Uma vez chegados, deparavam-se com a quase impossibilidade de se deslocarem por falta de mapas, de guias, de caminhos para já não falar do transporte da “impedimenta” essencial para quem vai ocupar longas extensões de fronteira a muitos e muitos quilómetros do local de desembarque. Mesmo aí, e nos locais de concentração de tropas, faltava tudo a começar por hospitais de campanha.

A campanha moçambicana foi toda ela um desastre inenarrável a que acresceu o facto de o país estar a defrontar o melhor general de toda a guerra: Paul Emil von Lettow-Vorbeck

(que nunca teve às suas ordens mais de 3000 brancos e 10/12.000 ascáris) cujas memórias foram editadas em numerosas línguas incluindo o português. Von Lettow derrotou quase duas dezenas de generais e, pelo menos, um marechal sem nunca ter sido vencido. Entrou em Moçambique, por onde se passeou quase até Quelimane, mais para se abastecer de víveres do que para bater o inerme Exército Português mesmo quando este era coadjuvado por ingleses e sul africanos. A campanha de Moçambique foi um fiasco e um desastre medonhos que se saldaram em quase 10.000 baixas (num total de cerca de 20.000 expedicionários “metropolitanos” e dez vezes mais “indígenas” entre soldados, carregadores e civis muitas vezes vítimas do exército português. As famosas vitórias (Kionga onde só havia um cão para defender a praça e Nevala tomada desprovida de tropas e rapidamente reocupada pelos alemães) são ensombradas pela terrível derrota de Ngomano, um desastre de inépcia que forneceu aos alemães toneladas de mantimentos, munições, roupa e armamento. Pior, muito pior do que o “desastre” de Naulila no Sul de Angola onde as coisas, apesar de tudo, correndo mal, correram melhor para as forças portuguesas.

Sobre tudo isto, sobre esta apagada e vil tristeza da 1ª guerra em África continua tudo como no tempo da outra senhora: ou seja num opaco silêncio que evita a verdade incómoda e cruel de um país incapaz de defender os seus territórios e que desviou para a Flandres mais de cinquenta mil soldados ligeiramente menos impreparados que os das colónias e que se mostraram inúteis na frente de batalha onde estiveram sempre desacompanhados.

É bom lembrar que os Aliados não queriam, não pediram, sequer sugeriram uma intervenção portuguesa. Bem pelo contrário. A Inglaterra apenas sugeriu o confisco dos barcos alemães mas a ânsia de reconhecimento da “República” fez criar um Corpo Expedicionário que foi transportado para a Flandres em navios ingleses, que lá chegado foi de novo treinado, fardado, alimentado, armado e enquadrado por exércitos ingleses.

Vale a pena ler os diferentes testemunhos de militares portugueses, escritos directamente das trincheiras ou em posteriores memórias. Em relação a estes “cidadãos” treinados em Tancos (o famoso “milagre de Tancos”, uma mentirola para uso caseiro) o Estado Português tem uma dívida tremenda pela incapacidade em amparar, aliviar e tratar decentemente os homens que fez sair de Portugal. Por junto, seé que isso foi benefício, a República aceitou (foi obrigada a engolir) capelães militares para auxílio espiritual das tropas profundamente religiosas.

Não vale a pena falar das consequências políticas e, sobretudo, sociais, da guerra em Portugal. Mesmo tendo em linha de conta, a curta duração do estado de guerra em Portugal (1917-1918), o país assistiu a uma forte crise (o Sidonismo), ao aumento brutal do custo de vida, à crise dos abastecimentos vitais, e à da habitação. Acrescente-se o esfacelamento dos partidos republicanos, o crescimento da oposição e o definitivo divórcio dos sindicatos. Quanto a governos entre 1918 e 1926 houve pelo menos 30 uma média que superou a da primeira parte (1911-1917).

Há ainda uma outra herança da guerra que não tem sido trabalhada. Boa parte da oficialidade regressada aderiu à oposição ao regime e fortaleceu e participou no golpe do 28 de Maio (entre todos, só para exemplo Gomes da Costa).

As comemorações do centenário do fim da guerra (entre as quais a “maior parada militar post 25 de Abril”) não deixaram espaço para, ao menos, se fazer um balanço deste desastre. Se não erro, o Sr. Presidente da República terá mesmo falado em “100 anos de paz”! se efectivamente o disse, Sª Ex.ª sofre de desmemória. Mesmo depois do fim da guerra, continuaram as “campanhas de pacificação” coloniais, em Angola, Moçambique e Guiné. Deixando de lado as inúmeras intentonas antes e depois do 28 de Maio, temos que, durante a 2ª guerra mundial, em que Portugal se declarou neutral, houve, a partir de 1943, a necessidade de mobilizar mais de 20.000 homens para “defender” os Açores. Aliás, e no mesmo período Timor, colónia portuguesa, foi ocupado pelo exército japonês registando-se ásperos combates entre os poucos portugueses ali residentes (ajudados por deportados políticos) e os invasores. Não há um número exacto de vítimas portuguesas (e aí incluem-se milhares de nativos). Chegou a constituir-se um corpo expedicionário a Timor que, se lá chegou, só entrou na colónia após o fim das hostilidades. Em finais de 50 a União Indiana ocupou o Estado Português da Índia tendo havido baixas portuguesas e muitos prisioneiros. Desde 61 até 74 travou-se uma (ou três) guerra colonial com avultado número de baixas para não falar nas do campo adversário e mais ainda as registadas na população residente (branca e negra). Portanto, quanto a paz estamos falados...

(escrito por mcr cujo avô Manuel da Graça Patrício Curado, oficial do “Exército Colonial”, participou na 1ª Guerra e em muitas as campanhas anteriores e posteriores em Angola, cujo pai Marcelo Heinzelmann Corrêa Ribeiro foi expedicionário nos Açores (S Miguel) na qualidade de alferes médico no Batalhão de Metralhadoras nº 2, cujo tio José da Cruz Curado foi expedicionário para Timor na mesma época. Esta é uma singela homenagem ao esforço, ao sacrifício e ao patriotismo destes homens cuja simpatia pelo Estado Novo era, se existiu, extremamente reduzida ou praticamente nula).

* o título relembra a mais famosa canção adoptada pelas tropas britânicas. A citação de Guillaume Appollinaire (morto na consequência de grave ferimento sofrido nas trincheiras) é do poema “Zone” (de 1912) e publicado em “Alcools”, um dos grandes livros da 1ª metade do século XX (e de sempre, aliás).

16
Out18

au bonheur des dames 462

d'oliveira

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Evidências...

mcr 16.10.18 

O Sr. Professor Azeredo Lopes já era. Aqui, muito à puridade, há meses, desde o fatídico dia do roubo de Tancos, que o senhor deveria ter feito a trouxa e regressado a penates.

Todavia, S.ª Ex.ª nunca percebeu, apesar da fama de inteligência de que goza, o que é costume chamar-se “responsabilidade política”. Pior, mesmo inteligentíssimo, andou dias, semanas, meses, a bolsar tolices sobre o caso, a fugir com o dito cujo à seringa, tornando-se uma figura anedótica no Governo. Parece que nunca o percebeu e que o Sr. Primeiro Ministro também não. Bizarrias!...

Quem parece também não ter percebido nada disto foi o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros: o Sr. Professor Santos Silva acha que esta demissão, quando já tudo estava perdido, “enobrece” o seu amigo e colega. Das duas uma: ou o Sr. Ministro Silva não sabe o que significa a palavra nobre e o verbo dela derivado “enobrecer” ou anda a “chuchar com a maralha”. Será que pensa que somos uma caterva de idiotas, só úteis no momento do voto, ou julgará, do alto de uma incomensurável e deslocada prosápia, que nos atira areia para os olhos?

A esfarrapada desculpa do doutor Azeredo Lopes ( a defesa da dignidade das forças armadas) roça o insultuoso. Ainda por cima foram elementos das FA que traficaram a verdade, que esconderam a verdade (as altas chefias do Estado Maior, cujo actual vice-chefe foi chefe de gabinete, recebeu um memorando e o guardou até há dias quando foi obrigado a entrega-lo!...; os dirigentes da PJM que, mesmo sob a alçada do Ministro, não deixam de ser oficiais superiores, um coronel e um major...) Tudo isto é patético, pateta, supinamente estúpido. Basta este leque de ramalhudas personalidades para deitar abaixo qualquer prestígio que existisse. Vão ser precisos anos para se extinguir o riso (e a vergonha) que um caso ridículo como este suscita. Leiam, senhores leitores, o que a imprensa internacional relatou. Leiam e meditem. Não peço aos senhores generais, aos senhores que foram condecorados, aos senhores que esconderam este lixo debaixo do tapete, que leiam eles também. É que ponho em dúvida que saibam ler, ou sabendo-o, que saibam perceber a enormidade deste episódio de faca e alguidar.

A demissão nada teve de nobre, sequer de convincente, tratou-se de um naufrágio numa banheira de água doce sem qualquer laivo de história trágico-marítima. E veio com um atraso maior do que os actuais comboios da CP (isto quando circulam o que quase só é a excepção e não a regra).

 

O mundo cultural entrou em polvorosa com o “estranho caso de Serralves” (título que respigo hoje do jornal). Ninguém percebe como é que o sr. Ribas, curador da exposição Maplethorpe se demite. Eu ouvi o presidente da sociedade Maplethorpe, um cavalheiro inglês ou americano, dizer impavidamente que tudo se passara sem atritos nem censuras. Que haver uma sala “reservada” era já um hábito, que o programa de Ribas fora totalmente executado, que a Administração de Serralves agira correctamente sem impor o que quer que fosse. Ouvi os senhores representantes do Estado na Administração dizerem o mesmo. E note-se que os representantes do Estado são independentes do poder financeiro local que vai dando a os lugares a quem entende. Ainda não ouvi o sr. Ribas que mantém o seu surpreendente silêncio já lá vão quase duas semanas.

Isto não pode ser uma novela de Agatha Christie, sequer de Ross Pynn (que afinal era o portuguesíssimo Roussado Pinto, cavalheiro inteligente que percebera que só com nome anglo-saxónico – ainda não estavam na moda os autores do Norte europeu- é que os leitores compravam os livros). A sr.ª dr.ª Ana Pinho, que não conheço de lado nenhum, que porventura jamais conhecerei, já disse que em nada pressionara o sr. Ribas. Porém, alguns alegados “amigos da verdade” insistem em tornar pública a sua incredulidade e, indirectamente, em defender o sr. Ribas do qual, infelizmente, não temos novas nem mandados.

No rescaldo desta novela luso-portuense ficou a saber-se que Serralves recebeu dos cofres públicos no último ano, mais de quatro milhões de euros! E que isso é o normal!! O normal todos os anos!!!

Se nos lembrarmos que Serralves foi comprado pelo Estado, que as obras foram pagas pelo Estado, que grande parte da colecção residente pertence(u) ao Estado, Mirós incluídos, percebe-se porque é que o Estado nomeia dois administradores e, aliás, conviria perguntar qual é a percentagem das entregas do Estado nas receitas globais da Fundação. Eu tenho o maior dos apreços pelo esquema do mecenato privado, conheço inúmeros casos mormente americanos, ingleses e franceses, contribuo regularmente nas campanhas lançadas por museus estrangeiros e nacionais para a compra de peças importante e caras para as quais não há recursos públicos. Já tentei, até agora sem êxito, oferecer a minha biblioteca (mais de vinte mil livros, centenas de primeiras edições, algumas raridades, mais de mil títulos sobre “expansão portuguesa”) a uma Biblioteca. Nem sequer pedia que citassem o meu pobre nome, era o que faltava!, ou que não vendessem os títulos mais comuns e sobrantes para com isso fazer face às despesas de instalação dos restantes. Propus-me mesmo legar, do mesmo modo, cerca de 10.000 discos (LP e CD), uma dúzia de esculturas, quase um cento de pinturas, gravuras e múltiplos, para já não falar de uma colecção de máscaras africanas (e não há assim tantas no domínio público português). Nada! Muito entusiasmo mas nada. Não há espaço. As bibliotecas públicas estão atulhadas, tem pequeníssimos depósitos e, pelos vistos, cada vez menos leitores. De resto conheço várias, que tendo recebido belíssimas colecções as mantem nos caixotes originais sem sequer as classificarem. Bem me dizem os meus amigos alfarrabistas que o melhor será os meus herdeiros dispersarem uma biblioteca amorosamente reunida durante mais de cinquenta anos em leilão. O mesmo me diz o sr. .Keita, um cavalheiro do Mali, dono de uma galeria de arte africana e que está o organizar as colecções dos seus clientes num site e, posteriormente, caso estes queiram, colocá-las em mercados americanos e/ou mundiais. De resto, os americanos compram mensalmente dezenas de livros editados em Portugal desde que toquem expansão africana, colónias, mapas e atlas portugueses e por aí fora. O indigenato local e quem o representa não vê este êxodo de boas publicações só se lembra de obras de arte que muitas vezes nem na segunda divisão mundial alinham. Aí é um alarido de críticos, curadores, conservadores e outros falsos tenores que apontam os dedinhos acusadores ao Governo.

 

Em boa verdade, O Governo é , como sempre, quem tem todas as culpas. Ainda há uma semana umas centenas de artistas (ou de criaturas que se apresentam como tal...) apresentou ao sr. Primeiro Ministro um abaixo-assinado denunciando o facto nefando de o Estado, os Museus, as autarquias e o resto das entidades públicas, dependentes dos dinheiros públicos (que todos nós pagamos convém lembrar), não comprar ou não adquirir, na quantidade suficiente, os fulgurantes frutos do seu trabalho.

Note-se que nem sequer se dignaram passar pelo “Ministério” da Cultura onde pontificava até domingo um senhor embaixador e poeta (ou vice-versa) que – como a sua produção literária – obrava com a máxima discrição.

Eu não sei se o sr. ministro em causa se demitiu ou se o demitiram. Por mim, bastaria essa desatenção das massas supostamente artísticas e o seu recebimento por qualquer criatura da presidência do Conselho de Ministros para imediatamente fazer as malas e, sem olhar para traz, rumar aos antípodas. S.ª Excelência, porventura movido por um exagerado sentido de Estado calou, consentiu e esperou patrioticamente que o corressem do palácio da Ajuda. E jura que foi “muito feliz", naquele ministério ninho de víboras, desencontros, conspiratas e clãs inimigos que se degladiam.

Espero, sem especial fé, que não tenha sido a desfeita levada a cabo pelos vociferantes artistas pedinchões, que fizeram cair o ministro. Que ele não tinha vocação para tal cargo é um facto indesmentível mas isso notou-se logo no primeiro dia. Se culpado há, não é ele mas quem o escolheu. Bem sei que era para substituir um valentão de feira que queria esbofetear meio mundo (é certo de que da ameaça aos factos iria sempre um passo que era difícil de dar. Daí a incredulidade tranquila dos ameaçados e a inveja de muita gente que gostaria de dourar -mesmo vagamente- os seus pergaminhos com uma tão tonitruante como incongruente declaração de guerra).

Voltando à multidão de solicitantes do favor público (que pretenderiam juntar-se a outros ajuntamentos mormente os dos teatro e do cinema) seria bom recordar que a sorte ou o êxito dos artistas plásticos depende essencialmente do público privado, das galerias que os expõem e dos prémios com que brindam os melhores. Estou à vontade para o afirmar pois sempre (ou até me fartar) fui “habitué” de galerias e exposições e, durante anos, comprei arte nesses mesmos sítios. As paredes foram-se enchendo e os preços subiram graças a uma desenfreada especulação alimentada pelos anos de vacas gordas e pela gentinha que à falta de gosto queria comprar para depois vender. Muitas e importantes galerias dedicaram-se a solicitar essa fauna e o resultado viu-se: subiu artificialmente cotação de vários artistas (sem que estes protestassem ou sequer se dessem por achados) e quando a crise –ainda nos anos 90 – chegou tinham desaparecido os pequenos colecionadores enquanto os especuladores iam em busca de outros espólios. Disso ficou um rasto de galerias fechadas, de criadores desamparados, de cotações artísticas esvaziadas. E amargura, muita amargura.

Conviria dizer aos actuais protestários que quem deve ser convencido da sua excelência, do seu génio, da sua implacável novidade, somos nós, o público que durante séculos, aliás sempre, foi quem comprou pintura, fotografia, pequena escultura, livros, foi ao teatro, ópera ao bailado e ao cinema. Por muito que isto possa parecer filisteu...

O Estado e boa parte das instituições estabelecidas jamais apostam na aventura, na novidade, na iconoclastia. Bem pelo contrário: dão a primazia ao académico e ao consagrado. E por vezes ao mau gosto ou, na melhor hipótese, ao gosto requentado. Bater à porta dessa instituição é um exercício fútil. Ou uma íntima convicção de que a nossa obra (a deles...) é cediça. A menos que se pense que, em pré-época eleitoral, o partido no poder compre arte em troca de votos. Cruel engano: os governos querem grandes massas e não umas escassas centenas de “artistas”. Querem nomes consagrados e não génios em botão. Querem artilharia e não tiros de pólvora mais ou menos seca.

 

A semana que passou e que terminou ontem com uma tomada de posse foi, do ponto de vista político, isto. Com um furacão à mistura e a passagem do primeiro aniversário dos fogos de Outubro de 17. Ao que ouvi, não houve ainda uma verdadeira limpeza dos matos e, muito menos, dos rebentos infestantes de eucalipto. Irá haver enquanto é fácil e se vai a tempo? Quanto às empresas arruinadas está ainda muito por fazer ou refazer. E isso significa muitos postos de trabalho no interior. Também os criadores de gado, os donos de colmeias esperam por ajuda. Infelizmente são poucos milhares divididos por cinco distritos com poucos deputados, ou seja que não valem uma aposta. E não se juntam às portas de S Bento nem são notícia nos jornais.

* na gravura: máscara kanaga (povo dogon. Mali)

 

12
Out18

Au bonheur des dames 461

d'oliveira

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No Chiado, pelo fim da manhã

(indignado...)

mcr 8-10-18

 

Venho da rua do Alecrim, melhor dizendo da livraria Trindade. A livreira gentil que me atendeu estava desolada. Acabara de receber uma notificação do senhorio: tem um ano (oh generosidade, e isto não é ironia, normalmente dão umas semanas, dois ou três meses para arrumar a trouxa e desandar) para procurar outro canto para viver.

Estava na casa que inda é dela há muitos anos. E pagava uma renda actualizada recentemente. Todavia, a pressão turística, a miragem de lucros “à- Robles” (esse mesmo, o defensor do direito à habitação, o cavalheiro que na ânsia de servir melhor os interesses dos munícipes comprara um prédio velho e o dividira em onze apartamentos T/0 para poder seguramente beneficiar onze famílias. Como não terão aparecido decidiu vender o imóvel por uns milhõezitos de euros, coisa pouca, para quem arriscara quase 300.000 euros...).

É verdade que o senhor Robles já não é vereador, eventualmente já não tem cargos dirigentes no grupo justiceiro de onde surdira, quiçá nem militante já é... , entretanto, o mesmíssimo grupo que assobiara para o lado durante as aventuras de compra e venda e restauro do imóvel, apareceu de novo com mais um projecto de taxar senhorios, vendedores e compradores (ou vice versa) para salvar a cidade do capitalismo turístico e invasor. Nisto de taxas, o BE não é peco. Digamos que leva a sério a herança do slogan “os ricos que paguem a crise”, o que só lhe fica bem: os bons filhos aos pais se assemelham.

 

No entanto, não posso deixar de me indignar com as tropelias que alguns (muitos, talvez, mas sempre uma minoria) senhorios actualmente cometem. E com a aparente bonomia de responsáveis, de autoridades que vêm o centro das cidades desertificar-se, perder as suas pequenas lojas tradicionais (exactamente na zona do Chiado já fecharam cinco livrarias, há mais três ameaçadas, isto sem contar com outros modestos negócios que davam carácter e verdade à zona.

Sei perfeitamente (também sou senhorio) que durante décadas, mais de meio século, os arrendamentos urbanos estiveram submetidos a regras rígidas que em boa verdade desgraçaram muitos proprietários e nem sempre ajudaram inquilinos necessitados. Nos anos setenta, era comum ver rendas inferiores ao que o inquilino gastava em telefone. Isso conduziu a distorções dramáticas que, em muitos casos tiveram um resultado péssimo. Uma vez desocupado o andar ou prédio, o senhorio não o voltava a alugar ou então pedia preços inacreditáveis. Paralelamente, o parque urbano habitacional degradou-se anormalmente e ainda hoje se verificam tais efeitos.

Com a rarefacção do mercado de arrendamento, verificou-se, em Portugal, uma corrida à compra de 1ª habitação e ao extraordinário endividamento das famílias (que ainda continua). Os inquilinos remanescentes perante o novo e alvoroçado afluxo de turistas e de alugueres de curta duração, estão sem defesa (ou com escassa defesa) contra os atropelos de proprietários.

Mesmo as regras que protegem inquilinoss idosos (mas que não protegem imuitos com vinte, trinta anos de aluguer caso não tenham 65 ou mais anos) atiram para os senhorios e não para o Estado (através de subsidiação das rendas aos cidadãos de baixos recursos) o ónus gravoso da propriedade sem (ou com escasso) rendimento.

Os “robles” & assimilados se na verdade quisessem proteger os cidadãos mais frágeis e o direito à habitação proporiam uma medida que de facto os protegesse e (pela concorrência) atenuasse a cupidez de senhorios. Os altos preços só são pedidos por o mercado do arrendamento estar rarefeito. Compete ao Estado criar habitação a preços controlados ou, na sua eventual falta, subsídios de habitação.

Tentar transferir para todos os senhorios (ricos ou pobres, individuais ou fundos de investimento) a responsabilidade social é um atropelo e nunca resolverá os problemas de quem é pobre e ignora os seus mais elementares direitos ou é frágil e não consegue defender-se das mil e uma formas de o desalojar.

Os auto-proclamados salvadores do povo não propõem soluções mas remendos. E estes, como é sabido, cedem pelas costuras...

 

Milhares de estudantes nas (provavelmente em todas) maiores cidades universitárias não conseguem alojamento digno, sequer sofrível, a preços justos ou, pelo menos não demasiado caros. Faltam residências universitárias e as promessas que vão sendo feitas atiram para daqui a três ou mais anos uma oferta de todos os modos escassa.

As Associações de Estudantes protestam, os senhores Reitores queixam-se, as famílias pagam e muitos estudantes desistem.

É evidente que a Universidade tem outros problemas igualmente importantes mas este atinge, como de costume, o elo mais fraco da cadeia de ensino.

Custa, pois, ver que numa gritante e estúpida maioria, se veja ruidosos cortejos de “estudantes” mascarados de capa e batina mal enjorcada, a passearem grupos de caloiros confusos, assustados, envergonhados ou desprotegidos que mais parecem rebanhos conduzidos por pastores brutos e imbecis (e brutos e imbecis são palavras meigas para aplicar aos cretinos e cretinas que por estarem na universidade há mais anos se arrogam o direito de dar este triste espectáculo).

A pontos de se poder dizer, quase sem receio de nos enganarmos, que qualquer estudante, macho ou fêmea de capa e batina, a ladrar ordens estúpidas ou insultos grosseiros a miúdos que acabam de chegar à universidade, que estamos perante uma demonstração de alarvidades, de canalhice e de proto-fascismo. Proto-fascismo, disse e repito. Mas isso incomoda pouco ou apenas ao de leve os profissionais da indignação que olham para o lado ou condenam com um leve sorriso. Ninguém quer pôr-se contra “ a Academia” nem ouvir as vaias de um grupo de raparigotas e rapazolas mal educados, mal formados mas perigosos.

Já não bastavam os tristíssimos cortejos das “queimas das fitas” que mal começam já trazem todos os festejantes bêbados como cachos, como se a regra de entrada na sociedade dos licenciados fosse a bebedeira, o alarido, o vómito avinhado e a graçola anormal.

O mais extraordinário é que tudo isto tenta imitar Coimbra sem sequer perceber que essa Coimbra, anulou em 1969, por “decretum” do Conselho de Veteranos todas as praxes de rua mormente as violentas (rapanço, unhas, etc...). Depois, e depois do 25 A, sublinhe-se, voltou a aparecer o imoderado uso da praxe mesmo se grande parte da violência física tenha definitivamente (e bem, muito bem) morrido. A igualdade de sexos trouxe as raparigas à praxe o que diz muito e mal da igualdade a custo conseguida. Agora “doutoras” e “caloiras” entram na roda da imbecilidade e do vexame sem perceberem o que isso tem de degradante.

Vi, há dias, nesse Chiado que evoco no título deste folhetim, uma matilha de estudantes “capa-abatinados” a conduzir um pobre grupo de caloiros e caloiras que cantavam uma qualquer burrice perante turistas espantados e portugueses eventualmente envergonhados.

Ora, em Lisboa e as restantes velhas e novas universidades, a capa e batina não se usava ou era motivo de espanto. Mesmo em Coimbra, a partir dos anos sessenta o uso do traje estudantil foi estiolando e só reaparecia com algum vigor durante a época da Queima ou das “latadas”. A própria batina (uma espécie de sobre-casaca) já era uma adaptação do antigo traje académico muito mais talar. O barrete caira em completo desuso e em toda a minha vida de estudante terei visto um, máxime dois. Quando me formei já era minoritário o costume de ir para o último exame de capa e batina. O “rasganço” era quase só uma vaga recordação. Mesmo na Faculdade de Direito bastião conservador e ninho de estudantes conservadores.

Agora, a capa e batina, o tal antigo “trajo democrático” que elidia as eventuais diferenças de berço e de fortuna do pequeno grupo que frequentava a Universidade (ideia ridícula pois todos vinham da elite...) é algo de caro enquanto os jeans e uma camisa ou camisola são, por excelência, elementos unificadores e muito mais baratos.

Ao alojamento caro, junta-se essa despesa quase sumptuária da capa e batina que, hoje só diferencia quem vai à Universidade de quem não vai (a elite, sempre ela...). E que, só se usa no início do ano escolar para chatear os caloiros e nas festas da queima. Como respeito pela inexistente tradição da esmagadora maioria das universidades é tão risível como a garraiada que pouco a pouco vai desaparecendo do programa da Queima.

Foi no Chiado, num dia de sol e calor, de turistas que nem sabem que contribuem para a rarefacção da habitação numa cidade barata para eles mas cara para estudantes e habitantes.

 

 * na gravura: estudante de Coimbra (sec XIX)

27
Set18

Au bonheur des dames 460

d'oliveira

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Um circo! E de qualidade duvidosa!

mcr 27.09.18 

 

(não conheço a dr.ª Joana Marques Vidal e tão pouco a sua sucessora. Também não conhecia os anteriores titulares do cargo senão pelo que conseguiram, que não fizeram ou e isso também sucedeu...- que permitiram...)

Quando a drª Vidal ocupou o cargo, as espectativas da maioria das pessoas e, particularmente, de quem pertence ou pertenceu ao mundo jurídico eram baixas, muito baixas. O espectáculo oferecido pelo anterior titular fora, no mínimo, confrangedor ou, na minha pobre opinião, uma espécie de Alcácer Quibir da justiça em Portugal.

Devo dizer que se a minha espectativa não era era especialmente forte, ao longo destes seis anos, fui surpreendido e muito bem surpreendido. A senhora, que não conheço senão das suas brevíssimas e discretas aparições nos noticiários, mostrou (ao contrário de um outro personagem que também andou pela alta roda da Justiça) que “mulher pequenina pode não ser velhaca nem dançarina mas, felizmente, competente, tranquila e prudente.E corajosa!

Quando, em Janeiro passado,com uma total inabilidade (se é que foi só isso) a Srª Ministra da Justiça veio argumentar (mal e sem qualquer apoio na lei constitucional que, pelos vistos conheceria parcamentel) que o mandato do PGR era único e irrepetível, desatou-se uma (saudável) discussão pública.

Primeiro existia o argumento legal saído de um acordo entre PS e PSD onde apenas se manteve a obrigatoriedade do mandato único dos juízes do Tribunal Constitucional, deixando opções abertas para o Tribunal de Contas e o PGR. À solene assinatura desse acordo, assistiu sem se mostrar agastado um Secretário de Estado de nome Costa. Nunca, nestes quase vinte anos passados se lhe ouviu qualquer argumento jurídico que agora escorasse com tanta pertinácia a sua recente evolução teórica. Mesmo depois da “desastrada” declaração da Srª Van Dunen, não me recordo de ter ouvido o dr. Costa dizer fosse o que fosse sobre o assunto.

O PS mandou alguns peões de brega, e entre eles, o sempre animado (mas poucas vezes inspirado...) dr. Carlos César fazer a figuração necessária de apoio à Ministra.

Parece que, ao ouvir esta, a “Direita” espetou os ouvidos e desconfiou. Razões não lhe faltavam, convenhamos, a começar (e depois estrondosamente confirmado pelo próprio) pelo processo Sócrates que é, queiram ou não os actuais governantes, um espinho no pé do PS. Um espinho “irritante”, muito mais do que a história do cavalheiro angolano (outro súbito milionário) que teria lavado uns milhões de euros (adquiridos sabe-se lá como) e comprado para o efeito um procurador da República.

Como se sabe, neste caso, a PGR foi tão irredutível quanto pode: queria que o Sr Vicente, por muito importante que fosse ou tivesse sido em Angola, sentasse o “dito cujo” num tribunal português onde os juízes não o olhassem como súbditos desvelados so clã Santos e de quantos o apoiavam.

Os cavalheiros angolanos amigos do sr Vicente usaram a artilharia pesada (diplomática, económica e negocial) para levarem o processo para Angola. E conseguiram-no. Desconhece-se qual o paradeiro do processo e se alguma vez verá a luz do pretório. E se, no improvável caso de lá chegar, se haverá juiz corajoso para julgar sem receio e apenas com o amparo da lei e das provas.

(a latere: o julgamento do procurador acusado de fazer fretes ao sr Vicente foi desastroso para a acusação visto que no caso subjacente era imperioso ouvir e saber se Vicente o comprara ou não. Com Vicente ausente aquilo não passou de uma missa de corpo presente (o da Justiça). 

Agora, subitamente tudo são facilidades e cumprimentos. Costa vai a Angola, o Presidente de lá vem cá, a imprensa contra Portugal meteu a viola no saco, tudo são rosas e das que não tem espinhos.

Logo na altura, falou-se de uma derrota pessoal da srª Vidal e do quão ela podia ser incómoda.

E foi neste clima de duche escocês que viveu a PGR desde Janeiro. Alguma “Esquerda” (real ou fictícia...) achou que a “Direita” queria Vidal por assanhadas razões políticas. A “Direita” bramiu mesmo se boa parte dos defensores da continuação de Vidal não pudessem sem mais ser assimilados a ela.

Todavia, a grande questão manteve-se: de um lado os que defendiam que existia um “principio” proto-constitucional contra um novo mandato (e isso mesmo ontem foi visível num comentador televisivo)e os que garantiam que a Constituição, neste capítulo, admitia. “a contrario” a continuação no cargo. E com a forte da razão disso estar claríssimo na última revisão constitucional sobre a matéria e no acordo entre os dois partidos de governo de Portugal.

No último mês o circo continuou exuberantemente. O Sr. Presidente da República sempre tão comunicativo remeteu-se, neste capítulo, a um inusitado mutismo recorrendo auma espécie de “no comment”. O Sr Primeiro Ministro seguia-lhe as pisadas .A Srª Ministra da Justiça aplicava-se a receber os partidos para ouvir (e ter em consideração?) as suas opiniões.

Finalmente, veio a saber-se que a decisão de indicar outra PGR estava tomada há mais de quinze dias. Mais, os entusiastas da dupla Costa/Marcelo gabaram com animada efusão a capacidade destes em guardarem tão bem o segredo. E houve mesmo quem dissesse que para o êxito da coisa tivesse havido recados do “inner circle” em sentido contrário. Os destinatários seriam o Expresso e o Público que, como jocosamente apontaram alguns analfabetos, caíram na esparrela. Haverá alguém que acredite que estes dois jornais (sobretudo estes) se tivessem precipitado tão puerilmente?

E agora, a cereja no bolo: afirmou-se, mesmo se isso possa (e pode) prejudicar a futura PGR, que a sua escolha tivera em linha de conta “a continuidade da actuação” da drª Vidal. Aliás, chamou-se a atenção dos mais distraídos, ou dos mais desconfiados, ou ainda dos mais renitentes, para as ligações conhecidas entre as duas magistradas, a isenção de ambas, a falta de ligações políticas, enfim, Joana sai mas volta travestida de Lucília.

O Sr. Presidente foi mais longe: afirmou que a drª Vidal foi a melhor PGR depois do 25 de Abril. Deve ser por isso que concordou com a sua saída.

Outra reacção, aliás esperada, foi a do sr Sócrates. Bastou-lhe um par de horas para se regozijar e clamar de novo a sua inocência a para da consabida má fé do Ministério Público.

A saída de Joana Marques Vidal, mesmo se nada tiver a ver com o processo dele, é por ele considerada uma vitória e uma alegria. E, quiçá, uma esperança...

(tendo começado por Joana, termino com Lucília, que em absoluto desconheço. Que tenha sorte, para começar. A ela não serão perdoados o mínimo erro, a mínima hesitação.

E que desminta com discrição, prudência e firmeza a alegria dos que se apressaram a deitar foguetes. Quanto a estes, espero que as canas lhes caiam na cabeça. Com força, se possível.)

07
Set18

au bonheur des dames 459

d'oliveira

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Cheira a eleições que tresanda!

mcr 7.9.18

Durante quatro penosos meses estive impedido de conduzir. Culpa minha, claro. Ia demasiado depressa numa auto-estrada demasiado vazia (A-17 e A-8, ou seja entre Aveiro e as Caldas da Rainha, um projecto mirabolante dos desvairados governos que tivemos de suportar: muito betão para quase nenhuma circulação). Paguei uma multa choruda, inibido de conduzir durante quatro meses e fiquei em “probation” durante cinco anos que provavelmente ainda não se concluíram.

Como vou todos os meses a Oeiras visitar a minha mãe e como a pena apanhou o mês de Agosto isso significou não só viagens de comboio Porto/Lisboa e Cais do Sodré/Oeiras. Nos dias de estadia lá fazia duas viagens Oeiras/ Lisboa e usava o metro lisboeta com bastante frequência.

Nesse tempo, as viagens entre o Porto e Lisboa no Alfa pendular ainda tinham ar condicionado, coisa que, pelos vistos, agora é ocasional. Também a linha de Cascais ainda tinha um número razoável de comboios, coisa que, entretanto se reduziu muito significativamente.

Nada disto continua hoje. Há menos e piores comboios quer nas linhas nacionais quer nas de proximidade. O conforto que nunca foi especialmente interessante nas segundas diminuiu drasticamente. Menos comboios suburbanos, significa mais comboios atulhados o que em percursos médios ou longos é penoso.

Números cada vez mais aterradores surgem diariamente: o Estado tem imperativamente de aplicar 1300 milhões de euros nos próximos dois ou três anos não só para pagar parte da dívida mas também para manutenção da frota ferroviária existente, para melhoramento de algumas linhas (a do Oeste está num estado comatoso, a do Sul e Sueste não parece especialmente melhor e o resto não parece gozar de grande saúde). Os leitores talvez não conheçam a linha do Oeste (Figueira - Leiria- Marinha Grande- Caldas da Rainha- Lisboa) mas a simples descrição do seu percurso mostra quão vital ela é. É ou era porque em certos troços raramente circulam comboios, a electrificção é mais que parcial, a via está num estado descoroçoante como se aquilo fosse interior profundo e desabitado. No Algarve, no Alentejo, no Douro, no Minho o retrato só peca por ser semelhante.

É neste cenário de vil tristeza que se ouve uma criatura da Administração da CP (algum afilhado?) dizer que as coisas não são assim tão más; que as cativações são de pouca monta ou insignificantes, que agora é que vai ser. Ao mesmo tempo anuncia o aluguer de comboios (provavelmente velhos e a necessitar de grandes reparações antes de serem usados nesta selva obscura e bananeira) e por aí fora. O espectáculo da sua audição no Parlamento foi tão penoso quanto o martírio de uma viagem Figueira Lisboa (se alguém a conseguir fazer em menos de cinco ou seis horas!...).

Ao mesmo tempo, o sr. presidente da C. M. Lisboa disparou um tiro de pólvora seca que, jura ele, não é eleitoralista: baixa generalizada dos preços dos passes na região. E também no Porto, já agora para ver se o dr. Rui Moreira não refilava. O sr. presidente da C. M. de Gaia veio pressuroso afirmar que o embaratecimento dos passes tinha inclusivamente vantagens ecológicas e que tal benefício superava financeiramente, e em muito, o custo acrescido para o Orçamento! Isto assim, a secas, sem um estudo, um calculozinho, mesmo mental, sobre a verdade de tal economia.

Em tempos, longínquos, li um romance romeno (falha-me de momento o autor) onde jovens pioneiros ouvem um responsável político falar-lhes de um futuro ridente de prodigioso sucesso ecológico, económico, humano ético de uma qualquer medida de um qualquer plano eventualmente quinquenal. Em Portugal, país notoriamente mais modesto mas igualmente propenso a ver futuros risonhos no meio de um espesso nevoeiro de onde emergirá D Sebastião, passa-se o mesmo.

Agora é que é/

ó louro dá cá o pé...

Arraial, arraial/

tudo por Portugal...

Obviamente o resto do país, mesmo abananado, uivou de indignação. Então nós, os Braga, de Viseu, de Coimbra, de Évora ou de Faro vamos pagar as passeatas dos de Lisboa e Porto?

Em poucas horas, quiçá um dia, um senhor ministro, mais avisado e prudente, veio deitar água na fervura: calma, malta, aguentem os cavalos! A medida sobre os passes já está a ser estudada e há muito (e nós que não sabíamos nada!!!) pelo carinhoso Governo que vos apascenta e a haver baixa de preços é para todos, mesmo para o povo de Barrancos. Claro que, agora já não são 65 milhões mas quase o dobro.

É bem verdade que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são as que registam maior deslocação de (e para ) o emprego. Mas também é verdade que é aqui que está a maior fatia de riqueza nacional, local e individual, a maior fatia de oportunidades, os melhores cuidados de saúde e os melhores estabelecimentos educativos. Razões mais que sobradas para não esquecer o resto da maralha, os pacóvios, os provincianos, o povinho...

Ocorre-me, porém, uma pergunta impertinente: será que mais transportes, e mais baratos, diminuirão significativamente o acesso de automóveis ao centro? Será que essas dezenas de milhares de viaturas normalmente com um único ocupante serão deixadas na garagem (onde a há...) e preteridas pelos transportes públicos?

Em Portugal, país notoriamente menos rico do que congéneres na Europa, há carros para quase toda a gente. Bons, medíocres, maus, usados, muito ou pouco, mas a verdade é que o parque automóvel é gigantesco. Passe-se por qualquer bairro social para se perceber que há, pelo menos, um carro por habitação. Como país pobre (repete-se) o carro é ainda uma marca de prestígio a que ninguém fica indiferente, mesmo se isso significa despesa incomportável ou, pelo menos, dispensável face a outras necessidades. Será que o autarca de Gaia ainda não percebeu esta realidade?

Sou favorável a uma melhoria no sistema de transportes públicos sejam eles a ferrovia, o metro ou os autocarros urbanos e intermunicipais. Há é que definir claramente prioridades e, em terra em que escasseia pão, talvez seja melhor atacar não o mais fácil mas exactamente o mais difícil, a ferrovia sobretudo se nos lembrarmos que o transporte de mercadorias é estratégico. E nisso há também que pensar na bitola de molde a não nos isolarmos ainda mais da Europa. Até a Espanha já o percebeu e agiu em conformidade. Todas as suas grandes linhas estão já com bitola europeia. E as restantes estão electrificadas. Por isso podem dar-se ao luxo (e apreciável ganho...) de nos alugar comboios que provavelmente já estavam a caminho da reforma...

Eu nada tenho contra o dr.. Medina, egrégio autarca de Lisboa e presumível candidato a um destino nacional. Ele pode pedir o que quiser depois a bola é dos outros (aliás dos pagantes, isto é nossa). Agora o cavalheiro de Gaia (uma galinha pedrês que sonha ser águia...) é que um caso de maior dificuldade interpretativa. Quererá passar a ponte, logo que o dr. Moreira deixe de poder candidatar-se? Não seria a primeira vez que se via um autarca da outra margem ser tentado pelo poleiro da “Invicta”.

De todo o modo, a procissão de promessas e propostas ainda vai no adro. Há que dar tempo ao tempo. E à fantasia mesmo se absolutamente tresloucada.

 

 

(em tempo: ainda estas linhas não tinham metaforicamente cegado e mais um ministro veio anunciar 168 milhões para a compra de 20 (?) comboios à Espanha. Comboios em 2ª mão, claro e não eléctricos. Parece que demorarão 5 anos a estarem operacionais! Forte consolo! Todavia, o anúncio serve para a época eleitoral. Está bem tudo o que acaba bem, afinal. E ponto final.)

 

 

30
Ago18

Au bonheur des dames 458

d'oliveira

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Em Belém o nacionalismo parolo dos livros

mcr (espantado!) 30.08.18

 

(nota preliminar: não votei no Doutor Rebelo de Sousa mas acho que está a cumprir bem o seu cargo. Fora os beijinhos e as selfies tem sido solidário, tenta dar o exemplo –férias no interior, viagem em carro próprio, convívio descomplexado com quem se aproxima – e não cria dificuldades ao Governo ou à Oposição. Tem iniciativas interessantes e uma feira do livro nos jardins de Belém poderia ser interessante)

 

Vai para o seu segundo ano a feira do livro nos jardins do palácio de Belém. Em algum sítio julguei ver uma referencia ao Jardim (Botânico) Tropical mas posso estar enganado. E se estou é pena: os portugueses e os lisboetas desconhecem quase esmagadoramente este espaço belíssimo que em tempos terá sido do Instituto de Investigação Científica e Tropical instalado no palácio dos condes da Calheta. Este palácio poderia ser mais visitado se, por exemplo tivesse um restaurante ou pelo menos uma cafetaria decente que permitisse a vista do jardim mas as vicissitudes porque tem passado o IICT , o desmembramento das suas instituições mostra bem como isto tudo é feito: atabalhoadamente e em puro desperdício. Um desastre!

Voltando, porém, à “feira do livro”. Parece que só terá autores portugueses! Participarão cento e tal editoras mas só com livros de autores nacionais! Viva Portugal! Viva a Pátria! Heróis do mar, força companheiros!

Não indo mais longe do que a ficção, tenho por quase seguro que a nacional representará entre 10 a 20% dos catálogos reunidos. O resto, nem sempre bom, muitas vezes médio ou sofrível, para não falar nos medíocres, é de origem estrangeira.

No capítulo do ensaísmo a coisa piora. Provavelmente só no caso das obras de História se poderá encontrar um equilíbrio entre a origem nacional e a estrangeira.

Não vou referir nem a literatura dita infantil, nem os manuais escolares (suponho mesmo que estes não estarão lá). Receio bem que a presença da poesia seja como de costume conspícua e que no lote não se consigam encontrar muitos autores que publicam a expensas próprias ou em edições quase clandestinas.

Agora a ideia fatal da literatura nacional e só essa tresanda a Viktor Orban ou pior. Estabelecer fronteiras entre o senhor Elias Canetti (ainda agora editado e logo em duas obras fundamentais...) e aquela senhora muito distinta que dá por Margarida Rebelo Pinto, preferindo a patriótica prosa desta ao desvario cosmopolita de Canetti é extraordinário. E surpreendente! Ao que sei, o senhor Doutor Rebelo de Sousa é um leitor voraz. A que título vem ele, que patrocina o evento, dar a seu aval a esta burríssima distinçãoo que nem sequer serve a cultura nacional. Achará S.ª Ex.ª que a pátria dos egrégios avós passa bem sem Shakespeare visto ter por cá o não editado poeta Chiado? Brecht não valerá meio Jacinto Lucas Pires? Os poetas Manuel Bandeira, José Craveiinha (prémio Camões!) ou Drummond de Andrade mesmo escrevendo em português valem menos que um ignorado inventor do soneto com mais um terceto de quem já aqui terei falado?

A glória de Camões esmorecerá se lhe juntarmos “A divina Comédia” (traduzida por Graça Moura) ou os grandes poemas homéricos tão carinhosamente tratados por Frederico Lourenço?

Somos tão europeus! Somos todos europeus! Mas alguns são ainda mais ou menos europeus do que os outros para citar enviesadamente um tal George Orwell que, mesmo britânico foi dar o corpo ao manifesto em Espanha e ousou desafiar e denunciar os perseguidores assanhados do POUM ...

Mas vamos um pouco mais longe, e mais ao fundo: vender-se-ão na feira patrioteira antologias da poesia trovadoresca galaico-portuguesa, sabendo-se como se sabe que boa parte dos antologiados eram galegos e súbditos dos reis de Leão e Castela?

Suponhamos que o Sr Macron, imitava o seu colega português e descartava as traduções de Pessoa ou de Eça (esse afrancesado!...) dos balcões da eventual feira no Eliseu. O que aqui não se gritaria!...

Senhor Presidente da República, acolha em Belém, nos seus jardins e no Tropical –já agora- os grandes autores estrangeiros como (foi V.ª Ex.ª que o disse e por várias vezes) por cá se acolhem emigrados ucranianos, sírios, africanos de várias nações, nepaleses ou brasileiros. Aí está uma maneira de mostrarmos aos outros que sendo portugueses somos de todo o mundo, desse mundo para que sempre emigrámos e nos recebeu com solidariedade e gentileza. Se não for este ano, que seja para o próximo! Mas que se anuncie já! A literatura não usa passaporte nem visto de entada. Não nos empobrece antes nos engrandece e torna mais felizes e mais sábios ou, apenas, mais sonhadores.

De V.ª Ex.ª , muito respeitosamente

Seu homónimo mcr

17
Ago18

Au bonheur des dames 457

d'oliveira

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Agora é ainda uma lenda maior

mcr 17 agosto 2018

 

Num campo de golf, eventualmente em Lourenço Marques, anos 50, terei lido uma legenda que –se bem me lembro – dizia: “os velhos jogadores de golf não morrem. Simplesmente foram à procura de uma bola perdida.”

Aretha Franklin, essa mulher extraordinária, também não morreu. Mudou-se apenas para o coro de uma igreja maior onde o pai e o dr Luther King já estavam. Também já la estavam Mahalia a grande, Bssie, the Empress, ou Otis o criador de “Respect”. E muitos outros, tantos, tantos que é impossível enumerar. Mas que continuamos a ouvir maravilhados, graças aos LP ao CD às pen e a outros meios de reproduzir/ouvir música, a imortal música negra americana, honra e glória de um país que nem cem Trumps conseguem destruir.

Tenho ideia, remota é certo, mas muito precisa, de uma conversa em que, além da então minha namorada, Maria João, participava um querido amigo, José Quitério. A João cantava bem mas aldrabava as letras. De todo o modo, nós pedíamos-lhe sempre o “Amazing Grace” e ela risonha, generosa (e lindíssima!... ) lá desencantava a primeira estrofe antes de acabar rindo-se por não saber a continuação. Foi num desses dias (estaríamos em 65, 66 ou 67, sei lá...) ao falar-se de cantores que nos diziam qualquer coisa o Zé, na altura dirigente da secção de Jazz da AAC, nos largou: “Grande, extraordinária, é Aretha!” Esta Aretha ainda era por cá quase uma desconhecida mas o Zé já a tinha sintonizado, fina orelha que ele era. Eu calei-me por pura ignorância mas a João fez um quase esgar de desdém, ela era muito Pete Seeger, Joan Baez ou Nina Simone. Mas o Zé não se impressionou e decretou com o seu conhecido vozeirão e a sua cabeçuda convicção que era mesmo assim. Aretha era a rainha.

Resolvi começar a prestar-lhe atenção e agora, tantos anos passados, só de a lembrar, comovo-me. E comovo-me quando a oiço, trago-a numa pen no carro, aliás em várias pen. Em gostando de algo, encho as pen com isso, seja Mozart, Bach, Elligton, Dizzie, um par de franceses, outro tanto de espanhóis e por aí fora. Meto-me no carro, arranco e aí vai disto, a pen de serviço mais cedo ou mais tarde há de reproduzir um disco da Franklin.

Dizem, hoje, os jornais que ela faleceu. Morreu nada... Aquela voz, aquela maneira de cantar, aquelas canções não morrem nunca. É como o frére Jacques ou o “Barbeiro de Sevilha”: aquilo vive, respira e está cá para sempre. Como Bach ou Mozart.

A música é um pouco como a pintura: não conhece fronteiras, basta termos olhos ou ouvidos. Hokusai ou Fra Angelico, Vermeer ou Goya passam as fronteiras a salto nada os detém.

Nada deteve Aretha, mulher, negra, música, chama soul. Nada! Parece que Obama terá dito que quando ela canta a história americana jorra. Engano, ligeiro engano, querido Presidente: quando aretha canta é a história do mundo que jorra.

 

 

 

20
Jul18

Au bonheur des dames 456

d'oliveira

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Ninguém liga ao coronel

mcr 19.07.18

 

 

Como sabem os leitores (e mais anda as leitoras) este título é uma meia paráfrase do de uma novela de Garcia Marquez (el colonel no tiene quien le escriba, que em português terá dado, julgo, ninguém escreve ao coronel).

Não venho porém falar do mundo de GGM, menos ainda das suas histórias extraordinárias, mas tão só de um senhor coronel , portuguesinho da costa, que prestou alguns bons erviços ao país mas que nos últimos dez/quinze anos passeia a sua robusta rotundidade pelos corredores de acesso ao poder e não consegue deixar de opinar sobre tudo o que lhe vem a alcance de tiro.

Normalmente, o senhor coronel dá tiros de pólvora seca ou, então, não acerta no alvo por razões que não descortino. Desta feita, multiplicou-se: ontem uma referência e hoje, tem direito a uma página do Público. Comecemos, muito de raspão, pela de hoje onde a sua laboriosa e pouco inspirada pluma deixa uns considerandos sobre uma eventual promoção do senhor tenente coronel Marcelino da Mata a coronel.

Este cavalheiro tem no seu currículo 5 Cruzes de Guerra (três de 1ª classe, 1 de 2ª classe e outra de 3ª classe) e, facto quase único, a “Torre e Espada” a mais alta e a mais rara condecoração portuguesa.

Ferido várias vezes, participou em operações de grande risco (incluindo a invasão de Conakri) e a sua biografia menciona uma operação em que se distinguiu especialmente e que resultou na libertação de mais de cem militares portugueses na Guiné).

Resta dizer que MM é negro  e cidadão português desde sempre.

Do senhor coronel Vasco Lourenço não consegui saber as condecorações militares, mas a existirem são seguramente inferiores à do cavalheiro “preto”. Estas coisas doem...

E doem tanto que numa enxundiosa e desgarrada redacção, VL alinha umas banalidades e ataca a promoção possível do seu camarada de armas. E do alto da sua condição de pai da pátria avisa as autoridades militares e, já agora, amotina o escasso público que faz o sacrifício de o ler para este medonho acto.

Pessoalmente, estou-me nas tintas para qualquer destes cavalheiros. Sou civil e paisano até ao sabugo e penei em sítios muito desagradáveis a minha desconformidade com o Estado Novo. Nada devo a qualquer deles pois o meu 25 de Abril começou aos trancos e solavancos ainda em 1959 durante a campanha de Humberto Delgado. Levo ao profissional das armas VL 15 anos de avanço na oposição à ditadura. Ou seja toda a minha vida de adulto (como aliás a dele que é da minha idade).

O que me admira é que nunca vi o senhor coronel Vasco Lourenço, levantar a voz façanhuda contra o senhor tenente coronel Marcelino da Mata desde que este, segundo, VL, começou a fazer tropelias na Guiné.

Bizarrias...

Deixemos este patriótico e maçónico queixume de Vasco Lourenço e passemos ao segundo tema onde, de novo, e impudentemente, ele se manifesta. Desta feita, a propósito da tristíssima vergonha do caso das armas desaparecidas em Tancos, o senhor coronel, sempre segundo o Público resolveu afirmar que o assalto aos paióis de Tancos não passou de uma farsa para acentuar os ataques ao Governo devido aos fogos do passado ano. Numa surpreendente declaração VL afirma que quem montou a farsa “são alguns dos mesmos que agora mais gritam contra a falta de resultados nas investigações”. E pede “sejam honestos!” pois se “o ataque ao Governo é  normal, admissível e legítimo” não pode valer tudo”.

O senhor coronel , segundo o jornal que reproduz estas declarações, sublinha que não tem como provar a sua teoria que contudo ainda ninguém provou que está errada (sublinhado meu). Ninguém pede a um coronel na reserva que saiba Direito mas já parece ser-lhe exigível além de bom senso alguma lógica. S.ª Ex.ª tem uma teoria que confessa não poder provar. Porém a bondade da teoria reside no facto de ninguém ter até ao momento provado que está errada!

S.ª Ex.ª é um monumento à Educação Nacional, ou pelo menos, à que era fornecida na Academia Militar. Então uma teoria (sem que qualquer facto a prove) está certa apenas porque ninguém se deu ao inútil trabalho de a rebater? E ninguém a rebate porque a teoria assim descalça e despida não tem ponta por onde se lhe peque e nem o mais espesso manto de fantasia a pode tornar sequer crível.

Suponhamos que eu jurava que o senhor coronel era um extra-terrestre saído de um Ovni poisado no claustro dos Jerónimos (ou na mata de Mafra, sitio eminentemente militar pelo menos para os milicianos que eram os que mais morriam nas selvas africnas). Suponhamos que o senhor coronel se irritava com esta xenófoba e planetária afirmação. E que pedia provas do que eu dizia. E eu, pimpão e parolo, retorquia-lhe: Tem Vossa Redundância provas que não é assim? Portanto regresse ai ignoto planeta que o viu nascer ou vá jogar o voltarete com um par de Irmãos que o aturem. E, já agora, deixe a política para gente com mais tino e os paióis na sua negregada solidão de sentinelas e de explicações.

E não misture os fogos (de que agora aprecem dezoito arguidos, tudo pessoal menor, nenhum responsável político, claro) que deixaram um rasto de mortos e dezenas de milhares de prejudicados com a até agora mais que comprovada (por declarações, por suspensões de militares que até vão a generais, e pelo patético gaguejar de um ministro incapaz e incompetente, por um monte de armas e munições miraculosamente encontradas) com esta anedota miserável que envergonha qualquer um e indigna ou faz rir meio Portugal e alguma Europa, pelo menos a que sabe desta novela que se arrasta.

 

29
Jun18

au bonheur des dames 455

d'oliveira

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Morreu a Fernanda

mcr 28.06.18

 

Maria Fernanda Vieira da Bernarda, anos 60. Alta e desembaraçada, uma “moçoila que respira saúde”, na expressão do meu primo Mário Leão, num dia em que foi a Coimbra manifestar a sua solidariedade à malta já em greve.

Conhecia-a uns anos antes da “crise”, da nossa crise, como me lembraram vários amigos que me foram telefonando e enviando mensagens desde a manhã de quarta feira, vinha eu para Lisboa fazer a minha visita mensal à velha, velhíssima Mãe e aos restantes cada vez menos familiares.

Noutros tempos teria reagido com mais emoção à notícia mas sabia, com vergonha o confesso, que a “Bernarda” (era assim que a Isabel Pinto, eu e mais alguns a chamávamos) estava mal, muito mal. Uma esclerose múltipla contra a qual combateu com serenidade, coragem e teimosia, tinha-a atirado para uma cama há vários (dez?) anos já. Eu ainda a vi, já em cadeira de rodas mas toda sorriso e alegria pelo reencontro com velhos amigos. Terá sido na última vez em que participei nas comemorações do 17 de Abril. Depois, o peso dos entretanto mortos começou a minar-me a alegria do reencontro e decidi não mais participar no que se ia transformando num velório de gente prometida à morte.

Todavia, a Bernarda era outra história. Não só fomos colegas (ter-nos-emos formado no mesmo ano, julgo) na faculdade mas, durante muito tempo, convivemos fora da “Alta” especialmente nos cafés conspirativos da praça da República (a “praça vermelha” como dizia um comum amigo que depois chamava ao café Mandarim, o “kremlin”). Pois foi nesse “kremlin” que muitas vezes nos juntámos, um alegre grupo que ia preparando a reconquista da Associação Académica ocupada por uma infame “comissão administrativa”, durante três longos anos.

Não vou fazer a história desses dias de vinho e rosas, de chumbo e desgosto, que isso está feito e detesto as memórias de antigo combatente.

Logo nos inícios de 70 estávamos, muitos dessa fornada, no Porto e, juntamente com o António Lopes Dias, a Isabel Pinto, o José Afonso e a “Bernarda”, formámos uma espécie de sociedade de advogados partilhando um escritório de cujo aluguer me encarregaram. (Em boa hora o decidimos que a senhoria ao saber o meu nome me perguntou por um tio avô e perante a minha resposta positiva logo nos fez um desconto de 500$00 mensais. O velho tio Alfredo Corrêa Ribeiro morrera entretanto e deixara ao pai da senhora uma espingarda. Agradecida, fazia-nos aquele enorme desconto...)

No Porto, o grupo vindo de Coimbra, ou melhor, o grupo que já era de amigos em Coimbra prosseguiu uma louca continuação da “crise” de 69, com o apoio de mais outra gente que ficara em Coimbra. Reuníamo-nos gravemente, várias vezes na casa que eu e a Maria João partilhávamos, outras na casa da Bernarda e do Zé Ferraz e tentávamos pôr de pé uma teoria conspirativa e revolucionária fora dos esquemas do PC e do recém nascido PS. Éramos todos sócios da “Centelha”, editora nascida em Coimbra e divulgadora de todos os heterodoxos marxistas bem como de muita e da melhor poesia portuguesa do momento. Quando um dos nossos, o Zé Afonso, então na tropa, nos avisou da iminência do 25 de Abril, foi o delírio. Distribuiram-se tarefas de apoio à intentona que nem foram necessárias pois, como se sabe, tudo correu bem. A mais louca ideia, proposta pelo Zé Ferraz ou pela Bernarda, consistia, caso fosse necessário, em fornecer uma cela para o general comandante da região militar em casa deles pois uma das casas de banho era interior e tinha tudo o que fosse necessário a um preso!

Éramos aliás vizinhos, no bairro onde ainda hoje vivo e lembro-me que quando me instalei no meu primeiro apartamento, logo a Bernarda apareceu com prendas várias desde uns copos e chávenas desemparelhados até um cobertor (eu entretanto divorciara-me). Não tive coragem para lhe dizer que tinha um enxoval completo... No nosso comum escritório prosseguíamos a nossa actividade de advogados de sindicatos e do que mais viesse à rede pois estávamos todos no começo. O pouco dinheiro que ganhávamos era rigorosamente dividido por todos fosse qual fosse o apport de cada um. Ao mesmo tempo íamos dividindo uma peculiar espécie de clientes gratuitos: a estudantada em revolta e o resto da oposicrática que ia aparecendo à procura de um advogado para o caso da polícia se interessar pelas actividades de alguém.

Com o 25 de Abril, demorámos algum tempo a decidirmo-nos onde cair partidariamente mas praticamente todos acabámos no MES e quase todos saímos de lá ao fim de um ano. Mais tarde, muitos, reencontraram-se no PS mesmo se nem todos tenham ficado por lá. Entretanto a Centelha faleceu de morte macaca afogada pelas dívidas de distribuidores que faliam com singular rapidez. Alguns, mas já menos, ainda criámos um livraria no Porto, a “Erva Daninha” que não obstante o nome durou apenas um par de estações. Nada disso, porém, quebrou a boa disposição ou afectou a amizade. Vínhamos de tempos duros, não queríamos (pelo menos a maioria de nós) galões de evolucionário nem prebendas do novo regime. Se nos aguentámos à tona e, de certo modo, prosperámos foi à custa de muito trabalho. Hoje está tudo na reforma ou quase porque há ainda alguns que acham melhor entreter-se a trabalhar do que calçar as pantufas. A Bernarda, essa, cedo teve de as calçar que a esclerose múltipla não é para graças nem dá tréguas. Houve casamentos e divórcios, claro mas singularmente todos os ex-cônjuges de que consigo lembra-me mantem as boas relações e a cumplicidade de antanho.

Dizem-me que no facebook, instituição que não frequento se vão multiplicando notícias e quiçá comentários. Todavia, faltaria a uma amizade de quase sessenta anos se não a recordasse aqui, neste pequeno canto tanto mais que alguns dos meus sacrificados leitores vem desses tempos bárbaros. Como alguém dizia, hoje, no velório, já nos podemos considerar relíquias senão sobreviventes. Ao encontrar esse quarteirão de amigos e conhecidos dezenas de outros me vieram à memória. Não estavam lá, nem poderiam estar. Subsiste a memória terna e frágil deles, caras e sorrisos de rapazes e raparigas que num momento único e irrepetível, num país naufragado e silencioso gritaram sem raiva mas com alegria e desafio a sua vontade de estar vivos e de viver.

E foi disso que falámos hoje na sala ao lado daquela onde jazia o cadáver da Fernanda, digo da Bernarda, digo da nossa boa, especial e querida amiga.

E nessa sala soturna pareceu-me ver, se é que não vi mesmo, o Osvaldo (Vává) Sarmento e Castro, o António Mendes de Abreu , o Zé Salvador, os dois Alfredos (Soveral Martins e Fernandes Martins, o João Bilhau. E outros, muitos outros, nomes delidos pelo tempo, pela minha incúria ou, mais provavelmente pela memória que já me vai traindo. Riam-se dos vivos envelhecidos que, de todo o modo, pareciam estar contentes por se reverem ao fim de tantos anos, tanta oportunidade perdida, tanto mar, tanto mar...

Vai esta dedicada ao João da Bernarda, com um forte abraço. Ele, mais velho e sem ligação ao meio académico, esteve connosco sempre, valente e bem humorado. A ajudar em tudo o que fosse preciso. Vinha da mesma cepa, é o que é. 

* a gravura: esta imagem está mais que vista mas onde estou não tenho acesso a nenhuma fotografia e na internet esta imagem era a única que podia usar-se. O resto era de gente que não conheço. Para quem, por milagre não saiba, esta é a fotografia das escadas monumentais tirada logo a seguir à inauguração do edificio das Matemáticas e ao "sacrilégio" dos insultos ao "venerando" Presidente da República. O que nós nos divertimos. 

13
Jun18

Au bonheur des dames 454

d'oliveira

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Lá se foi Bourdain...

mcr, 13, 6, 2018

A inesperada morte de Anthony Bourdain (aliás suicídio) causou uma certa comoçãoo por todo o lado. Estrela televisiva, enquanto crítico gastronómico, AB conseguia trazer para a ribalta do pequeno ecrã, as gentes simples, de todo o lado juntamente com grandes estrelas do Michein e análogas distinções.

Ao contrário de outros (e recordo uma série de franceses, sempre eles, que continuamente

Viajavam pela França em busca de uma receita, de um “chef” original, de agricultores conhecidos pelos seus produtos de excelência) AB privilegiava os encontros de acaso, aquilo que, agora (ai a moda...) se resolveu chamar “street food”, expressão que oculta realidades muito distintas desde a “petisqueira” até às habituais refeições rápidas que alimentam centenas de milhares de pessoas que por quase todo o lado trabalham arduamente sem tempo para ir a um restaurante, sequer a uma cantina.

A primeira vez que me deparei com esse tipo de alimentação foi (há quantos séculos?...) em Berlin (na altura Berlin Ocidental, com cheiro a revolução jovem, ecos de Rudy Dutschke e a sombra anunciada e paralela da imprensa “Springer” e da “Rote Armee Fraktion” (ou grupo Baader-Meinhof que mesmo sem qualquer verdadeiro entrosamento social, deixaram na Alemanha Federal um rasto sinistro): havia por todo o lado umas pequenas carrinhas que serviam uma salsicha com molho de caril (curry wurst) e batatas fritas. O nome dquelas pequenas geringonças era “schnell Imbiss”, na prática “comida rápida”. Mais tarde, deparei-me com coisas idênticas na Holanda onde o forte era o peixe ou na Itália onde , esquina sim, esquina não, se compravam fatias às vezes generosas de pizza.

No domínio da petisqueira, era a Espanha a campeã. Vezes sem conta em Madrid mas sobretudo em Salamanca (entre a plaza mayor e a do mercado) jantei ou almocei “tapas” variadas e maravilhosas por preço módico a que acrescia um copo de vinho ou uma cerveja bem tirada.

Claro que, em havendo tempo (e mais dinheiro) a minha preferência recaía num restaurante (como no?) coisa que nas terras espanholas há em abundância e a a todos os preços.

Talvez por isso, sempre fui bom espectador de programas culinários fosse em que língua fosse desde que eu, mesmo vagamente, a entendesse. A maior parte dos cozinheiros, curiosos, gastrónomos, que aparecia, conseguia criar empatia com os espectadores, ou então era eu que, comilão e guloso (bons tempos...) me satisfazia com pouco.

Todavia, e voltamos à “vaca fria”, o meu primeiro encontro com Bourdain não foi pela comida. De facto, o diabo do homem, tinha outros talentos escondidos, o menor dos quais não seria uma escrita desenvolta e imaginativa.

Realmente, ainda andarão por aí exemplares de dois romances policiais, curiosos, bem escritos e inteligentes, da autoria de AB. São eles “U osso na garganta” e “sarilhos nas Caraíbas” ambos de uma editora quase desaparecida, a “Ambar”. No primeiro ainda há um jovem cozinheiro, quase o herói da trama. Já no segundo, mesmo se o mesmo jovem ainda apareça, não é ele a principal personagem.

Bourdain escreveu também “memórias” e livros de cozinha, fruto da sua experiência como “chef” em alguns restaurantes de nomeada de Nova Iorque. Porém, quando tive a sorte de lá passar por essa fabulosa cidade, ainda não sabia dele. E, provavelmente, não teria dinheiro (e provavelmente oportunidade, dado o sistema de marcações complicado nos restaurantes de luxo ou simplesmente na moda) para provar algum dos seus cozinhados. De todo o modo, deixa um vazio, amargo e pouco explicado.

Não sei exactamente porquê, mas o acompanhamento dos seus programas permitiu-me conhecer um pouco melhor povos e culturas, cidades que nunca percorri. O homem tinha humor, elegância, saber, cultura e praguejava que nem um carroceiro. Mas até isso, nele, era simpático, pelo menos para um “pobre homem” de Buarcos, terra de pescadores, mar e bom peixe.

RIP

* na gravura "caldeirada à pescador" versão da Figueira da Foz