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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Set19

Au bonheur des dames 411

d'oliveira

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As palavras também valem politicamente

mcr  19.09.19

 

Ando nisto há demasiados anos, e se o faço agora com passos mais curtos, paragens mais frequentes e percursos menos longos, nem por isso olho para o mundo com menor curiosidade e, ai de mim!, com menor indignação. Comovo-me e zango-me com a mesma antiga frequência mesmo se os motivos para tal se tenham alargado à medida que fui tendo mais mundo.

Ao mesmo tempo, outro sinal de afastamento da juventude, foi diminuindo o meu entusiasmo e arrefecendo a minha atracção pela novidade. Nem tudo o que reluz ao sol do meio dia tem luz própria e o oiro da surpresa é muitas vezes mera purpurina.

Vem tudo isto a propósito das próximas eleições legislativas e da desenfreada conversata de jornais e candidatos (qual deles o mais prolixo) sobre os benefícios do voto nas suas listas.

Pelos vistos estamos num combate onde vale tudo. Nalguns casos a coisa começou há mais de um ano. Quem não se lembra daquele ministro patusco que anunciou num espaço de escassas semanas uma catarata de investimentos do Estado em tudo o que mexia, com especial incidência para a ferrovia que está num estado catatónico? A criatura foi mandada para a Europa para eventualmente ocupar um lugarzinho de comissário. Não contavam os seus patrões que, apesar de tudo, na Comissão Europeia ainda há critérios e, finalmente, foi Elisa Ferreira a escolhida. (por acaso, ou talvez não, logo apareceram vozes alvissareiras a uivar que com Elisa no poder ia ser um regabofe para o país pedinchão. Esqueciam-se as criaturas que, justamente por lhe caber um pelouro de que Portugal é grande beneficiário, todos os cuidados serão poucos. Elisa terá de ponderar criteriosamente cada solicitação nacional. Os comissários não são embaixadores dos seus países mas membros de uma estrutura que representa todos).

Deixemos, porém, aquele político de via reduzida e passemos a algumas afirmações da campanha. O primeiro prémio vai sem dificuldade para Catarina Martins que afirmou, com a sua habitual candura, que o Bloco era social-democrata! Assim, a secas...

Eu não sei se a distinta senhora terá alguma vez manifestado qualquer espécie de curiosidade sobre a história pregressa do socialismo. Não sei sequer se, alguma vez, sobrecarregou a sua cabecinha com os chamados textos fundadores e diferenciadores dos socialismos que por aí vicejam, permanecem, murcham ou vegetam. Nem sequer a vou importunar com as querelas que atravessaram as duas primeiras Internacionais em que se agigantam os primeiros grandes revolucionários, depois elididos por Marx que os combateu asperamente, com o crescimento da social-democracia alemã (e aqui Bernstein e Kautsky, “o renegado” são imprescindíveis) com o corte brutal da 3ª Internacional, a de Lenin e amigos, que cindiu definitivamente o “movimento operário” e se cindiu a si própria dezenas de vezes quando não eliminou fisicamente e em atroz quantidade milhões de pessoas e dezenas de milhares dos seus mais devotados apóstolos e aqui mereceriam destaque os membros dos comités centrais do PCb (bolchevique) e posteriormente do PCUS bem como a esmagadora maioria dos elementos do Komintern, dos revolucionários profissionais despachados de Moscovo para a restante Europa e Ásia, que acabaram praticamente todos diante de pelotões de fuzilamento ou no gulag. A história do pai ou do avô do Bloco seja em que variante fundadora for (trotskista, maoísta ou dissidente do pcp) é a crónica de uma permanente, visceral, animosidade contra a social democracia.

É verdade que, nestas coisas, que à falta de melhor, chamaremos “os restos do marxismo-leninismo” todas as cambalhotas foram dadas, todas as palavras subvertidas e todos os princípios reinterpretados segundo as conveniências do momento.

O BE nasceu de uma aliança de pequenas formações que tiveram a clarividência de perceber que (excepção feita da UDP) sozinhas nunca sairiam da cepa torta e que o juntar-se numa proto-geringonça surpreendente por muito que isso fosse aberrante havia uma forte possibilidade de chegar ao Parlamento. O que aconteceu: a sua massa eleitoral, urbana, educada e órfã de partido poderá não ter importância sindical, não tocar senão ao de leve as estruturas autárquicas, não arrastar massas proletárias, mas, nos grandes meios urbanos, dá-lhe a força suficiente para eleger um grupo parlamentar. Para tal bastou acenar com causas fracturantes o que é sempre rentável e envolver o resto num discurso radical apelando à perdida unidade do campo revolucionário. A mítica unidade que nunca existiu (basta lembrar os ataques de Marx a Proudhon, a Bakunin e mais uns tantos na 1ª Internacional) e que foi esmagada com as famosas 21 condições de adesão à 3ª Internacional (Komintern). E os partidos comunistas também nunca foram exemplos de unidade ou, pelo menos, as exclusões, a condenação e a liquidação maciça de dirigentes e militantes (na URSS mas também em Espanha durante a guerra civil ou ainda na URSS entre as comunidades comunistas estrangeiras aí refugiadas e posteriormente nos países de leste satelizados por Moscovo) mostram à evidência que a luta ideológica (que também escondia luta pelo poder) ia “purificando” o partido libertando-o de inimigos verdadeiros ou imaginários e convertendo-o numa organização de funcionários cada vez menos criativos e, sobretudo menos eficientes na governação e direcção dos respectivos países. Os dramáticos anos 80 que viram o desaparecimento da URSS, de todas as “democracias populares” europeias, as mais das vezes de forma pacífica (excluem-se a Albânia e a Roménia curiosamente arredadas da esfera próxima do Kremlin bem como a posterior implosão da Jugoslávia, uma criação de Tito que não resistiu ao desaparecimento dele. E não se consideram o Afeganistão, uma aberração ou o Cambodja onde a revolução comunista se traduziu no genocídio.) mostraram como um sistema cai de podre perante a indiferença dos cidadãos ou o seu activo repúdio (DDR e Polónia).

Todavia, o sentimento de orfandade de alguma esquerda, sobretudo da que embarcara na “doença infantil”, foi suficientemente mobilizador para fazer nascer o BE. Ali estava, pensou-se, algo de novo, de diferente do PC enquistado no Alentejo e nas zonas industriais de Setúbal e Lisboa, afastado do poder pelo cordão sanitário dos partidos do arco da governação. E, além do mais, envelhecido e dogmático...

O BE ao apresentar-se à sociedade, trazia um ar de juventude e de ousadia e garantia a potenciais votantes que aquilo nunca seria como o PC. E não era, e não foi. Não penetrou nas tradicionais zonas de influencia comunista e não conseguiu criar raízes sindicais ou autárquicas. A geringonça foi uma bênção que lhe caiu no regaço mesmo se a ideia e a proposta tenham vindo do PC. O BE naquele pacto só trazia os seus deputados, necessários para formara maioria parlamentar e votar o Orçamento. Em boa verdade, cumpriram a parte deles e, pela primeira vez cheiraram o doce perfume do poder. E verificaram, porventura surpreendidos, que o PS, que deles dependeu durante estes quatro anos, pretende uma maioria absoluta que o liberte de parceiros que pouco ou nada tem a ver consigo. É este o sentido último da proclamação de amor pela social democracia. Só lhes falta revelar uma súbita paixão pelo euro e defenderem intransigentemente a pertença de Portugal na União Europeia. Esperei alguns dias por um eventual sobressalto nas hostes do Bloco onde, volta e meia, aparecem uns militantes desalinhados a acusar a direcção de abastardamento dos princípios. Surpresa: nada! Será que a ânsia de duas Secretarias de Estado levaram tudo de vencida? Ou, contra as sondagens (aliás sempre falíveis) o BE confia na alegada desconfiança do eleitorado que, juram alguns comentadores, detesta as maiorias absolutas. Em boa verdade já houve três e nada faz pensar que não possa haver mais...

Já gastei demasiada cera com tão ruim defunto. É hora de olhar para o último prodígio parlamentar, o PAN. Em boa verdade ainda não havia um partido ecologista no areópago. “Andam por lá, ao colo do PC, umas criaturas que se são verdes por fora, são vermelhinhas por dentro e votam sempre ao lado do padrinho que lhes abriu a porta de S Bento. Terá sido por isso que m punhado de animosas criaturas entendeu fundar o “Pessoas, Animais e Natureza”. Demasiada areia para uma só camioneta mas como dizia o Vadinho “impossíveis não há!”. Não sei se foi o efeito novidade ou se, de facto anda por aí uma multidão ansiosa por mudar o mundo (e eventualmente a vida, como em tempos presunçosos mas juvenilmente sinceros, alguns sonhámos). A verdade é que o partido chegou ao parlamento, à Europa e caracola nas sondagens . Há, todavia, um pequeno problema. O seu cabeça de cartaz em saindo do estreito campo da ecologia não acerta uma para a caixa. Além de impreparação, de per si grave, anda por ali muita ignorância. Política e não só. A economia, a cultura, a sociedade parecem ser (para não parecer indelicado) conhecidos vagos e de fresca data. E tirando os animais até as pessoas parecem uns vagos fantasmas. Chega-se a pensar que o tema pessoas incomoda como aliás do mesmo parece padecer a Natureza. Eu não sei onde está a base eleitoral deste jovem partido mas de tudo o que ouvi julguei entrever que a natureza por eles pintada é mais cenário do que realidade. Há anos que acompanho as peripécias dos verdes europeus, mormente franceses e alemães e depois do qu observei pemso que é urgente uma visita prolongada dessa malta ao nosso pequeno canto. Ou pelo menos mandem um treinador ao PAN e que seja mais feliz do que o senhor Keiser ao Sporting. Doutro modo, até a senhora Apolónia parece o prémio Nobel comparada com o esforçado senhor Silva. Mal comparado, o PAN é uma caricatura primitiva da conferencia de S Vicente de Paula da ecologia...convenhamos que por mais generosas que sejam as vontades, aquilo é pouco, muito pouco. Ganha votos porque é uma espécie de menor denominador comum da política. E não ofende ninguém, sequer os amigos das touradas ou os caçadores.. Estes, como os pássaros, já perceberam que o PAN é apenas um espantalho desengonçado no meio da seara.

(para ser “justo” eu deveria debruçar-me sobre alguns surpreendentes e novos partidos da Direita, a Aliança ou o Chega, por exemplo. Em boa verdade, do partido do dr. Santana Lopes basta lembrar este fantasmático cavalheiro que “anda sempre por aí” para logo se desvanecerem quaisquer dúvidas. Ninguém percebeu os motivos do abandono do PSD mesmo se toda a gente já estivesse habituada aos seus malabarismos circenses. Quanto ao outro ajuntamento, fora uns slogans radicais e racistas, nada indica que venha a fazer mossa nos resultados eleitorais. O mesmo, aliás, se augura para o grupo do dr. Marinho e Pinto. Aquilo, ideologicamente, é nada, faz nada, e não merece sequer mais que quatro palavras: estrelinha que o guie!...).

 

29
Ago19

Au bonheur des dames 409

d'oliveira

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Coincidências, demasiadas coincidências....

mcr 29.Ago.19

 

O Ministério Público terá anunciado que iria requerer a dissolução do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas por, na sua Assembleia Constituinte, ter participado uma pessoa que “não é trabalhador por conta de outrem”.

Vale a pena relembrar que o Sindicato está prestes a fazer um ano, que os seus Estatutos foram aprovados por todas as entidades competentes e que, até hoje, tem funcionado sem que a sua legitimidade tenha sido minimamente posta em causa.

Duas greves depois, várias violações governamentais e patronais da lei da greve depois, muito barulho, pouca razão e a brutal constatação de que de facto o salário real (o que conta para efeitos de subsídio de doença e de reforma) é uma vergonha e uma afronta, eis que agora, frente à ameaça de uma nova greve (desta feita ao trabalho extraordinário) marcada para daqui a um par de semanas, é tirada da cartola anti-sindical mais outra repolhuda lebre: o sindicato é ilegal, não está conforme às leis em vigor e padece de vício absoluto pelo que só a sua dissolução pode trazer ao país, ao patronato e ao Governo a tranquilidade necessária e a paz social.

(vá lá que ainda não foi desta que se cercaram os grevistas e se ameaçou liquidar essaescumalha a tiro de canhão ou se prendeu toda essa multidão indisciplinada e se conduziu o bando para os porões dos navios de guerra estacionados no Tejo como em tempos d saudosa e democrática 1ª República ocorreu. O dr Salazar e a sua gente levavam a coisa com mais cuidado: iam prendendo pela madrugada, à hora do leiteiro, os mal pensantes, arreavam-lhes forte e feio, extorquiam as normais condfissões de pertencerem ao partido bolchevista e punham-nos a bom recato numa cadeia por uns anos. Outros tempos, pelos vistos saudosos...)

Desconheço quantas pessoas estariam na Assembleia Constituinte do Sindicato mas, pelos relatos e pelos documentos fotográficos existentes, havia ali gente que chegasse para criar um, dois talvez mesmo três sindicatos. Estar lá ou não alguém exterior ao universo de trabalhadores por conta de outrem só tiraria sentido à reunião se esse ET ou  o seu voto, ou a sua assinatura. fossem essenciais para o acto constitutivo.

Questão mais complexa será a de saber se na Direcção do sindicato cabem membros que não pertençam à profissão protegida. Que isto não é líquido basta o facto de ninguém (Ministério Público incluído – que, aliás, já se tinha pronunciado sobre outras questões legais mormente as relacionadas com a absurda requisição civil preventiva) ter questionado durante todo este empo a presença subversiva e perturbante de um agente do anti sindicalismo e da Constituição da República Portuguesa. Todavia, a presença tão tardiamente constatada dessa alma penada saída do 9º círculo do Inferno de Dante adquire agora o estatuto de ameaça que se atribuía – em vida – ao senhor Bin Laden.

(nota à margem: o mesmo Ministério Público ou o seu Conselho Consultivo demorou um dia para decidir da bondade da aplicação da requisição civil preventiva e já leva um larguíssimo par de semanas para saber se os os negócios de familiares de ministros com o Estado estão ou não dentro da lei... Por este caminho se parecer houver ele só aparecerá depois das eleições. E, mesmo nesse caso, das duas uma: ou é homologado e produz algum efeito ou nem isso. A homologação depende do 1º Ministro de um Governo que, pela voz de vários dos ministros e apoiantes tem qualificado a lei de absurda...)

Sobre a momentosa questão de saber se na Direcção de um sindicato, ou de qualquer outra estrutura sindical, regional ou nacional, pode estar alguém que na prática esteja por completo desligado da actividade, lembraria que são às dúzias, aos quarteirões, os sindicatos representados por sindicalistas cujo único emprego conhecido nos últimos, cinco, dez, vinte anos é o de dirigente sindical. A burocracia sindical das duas grandes confederações existentes está cheia deles e nunca vi alguém questionar estes, de facto, ex-trabalhadores que algumas vezes tem mais anos de actividade sindical do que de trabalho por conta de outrem.

Mas este é um território minado. Quero com isto dizer que, nos tristes tempos que correm, há operários bons e sindicatos bons e operários perversos e sindicatos malignos que só querem o mal de Portugal e dos Portugueses. As organizações patronais acarinham os primeiros, celebram acordos com eles (magros acordos, está bem de ver, mas acordos) e arrepelam-se à simples ideia de se sentarem à mesa com os díscolos, sejam eles enfermeiros, estivadores ou camionistas que transportam matérias perigosas.

Claro que isto não ocorre só no “torrãozinho de açúcar” pastoreado por Costa. Em França a história sindical está pejada de “sindicats-maison” e, muito recentemente nos Estados Unidos, uma empresa de capitais chineses que reergueu das ruínas uma fábrica de componentes auto numa das antigas capitais do automóvel já avisou os seus trabalhadores americanos que não permitirá a “entrada do sindicato”. O senhor Trump, tão defensor da America great again e tão crítico da Chin, está, neste capítulo, mais calado que uma ostra melancólica...

Não me vou atrever a afirmar que no cerne disto tudo está a figura baça do dr. Pardal Henriques que se tornou o espantalho de toda a boa consciência nacional. A criatura não me suscita qualquer espécie de simpatia mas incomoda-me pouco. Todavia, para certos tenores pífios da comunicação social e do “Comentariado” político, o homem é o diabo reencarnado em advogado gordo e óculos. Até o dr. Marques Mendes o elegeu como o “pior da semana” num dos seus melífluos sermões dominicais. Eu bem sei que a opinião de Marques Mendes vale o que vale e influencia quem influencia e pesa o que pesa. (Não é “professor Marcelo” quem quer mas apenas quem pode e Mendes pode muito pouco. Nunca se deve comparar um açor com uma galinha pedrês com vontade de voar).

Eu, quando vejo tantos assanharem-se contra um simples mortal, mesmo gordinho, mesmo de óculos grossos, mesmo atrevidote, desconfio. Quando a sanha parece atingir as instituições que nos deviam proteger e defender, relembro a celebre frase “qui custodiet ipsos custodies?”, que, no caso, se poderia traduzir “quem nos guarda dos nossos guardas?” Estou à vontade neste capítulo porquanto, quando tudo e todos se atiravam ao Ministério Público, eu, por aqui, várias vezes, tomei a sua defesa. Lamento muito, mas agora, a coisa parece-me demasiado política, demasiado inquisitorial para aceitar sem mais este aviso de acção contra um sindicato. Como se isso pretendesse dizer que é na praça pública que estas questões se julgam e que deste princípio de acção já saiu, pelo menos para a opinião pública, a condenação de perverso sindicato e do seu advogado. Convenhamos que para calar 1800 motoristas num universo que engloba mais de 30.000 anda por aqui muito fogo à peça, muito obus, muita metralhadora e muita, mas muita, raiva...

Arre!

*a ilustração: o Inferno de Dante

26
Ago19

au bonheur des dames 408

d'oliveira

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Ai Zeca o que te querem fazer!

( ou: nem depois de morto os vampiros te largam!)

mcr 26.08.19

 

Conheci o Zeca Afonso logo que cheguei à faculdade, ou seja há quase sessenta anos. Na altura ele ainda andava no fado de Coimbra mesmo se já fosse fazendo incursões na balada. Recordo o meu pai, “coimbrinha” assanhado, antigo elemento da “república” Penúria Constante, ex-orfeonista ex-jogador de andebol na AAC, fadista ocasional e poeta oficial do seu curso, maravilhado com a Balada do Outono. Por altura de umas férias de Verão passadas em Moçambique, houve uma reunião dos “antigos estudantes de Coimbra” associação a que o meu pai, a par do bridge, devotava o seu tempo livre e o seu carinho, e eis que ele garganteou, com a sua bela voz de tenor do orfeão académico de Coimbra, a balada. Nesse momento, percebi que a geração mais antiga acolhia o Zeca entre os seus.

Todavia, a primeira vez em que falei a sério com o Zeca foi quando ele mostrou, muito em segredo, a um comum amigo, Jaime Magalhães Lima, e a mim as letras de “Os Vampiros” e (se não erro) “Menino do Bairro Negro”. Quando se é jovem, as amizades surdem com facilidade sobretudo se a admiração as sustenta. A partir dessa altura (1962) passei a encontra-lo com frequência e, depois do regresso dele de Moçambique, fui um dos privilegiados (com António Mendes de Abreu e João Nazaré) a quem ele entregava cópias de canções com receio de as perder ou de não se lembrar das letras quando cantava em Coimbra. (Uma das vezes em que isso sucedeu foi justamente nos jardins da AAC em plena crise de 69 em que ele com a generosidade infinita que o caracterizava apareceu para animar a malta. O António e o João cantaram-lhe o “coro da primavera” e eu murmurava as palavras pois desafino a qualquer velocidade, mesmo entre o dó e o ré. E o Zeca, entusiasmado ia-se recordando e dizia –juro – “ó pá isto não é nada mau!” ) Os seus discos eram por mim (e por muitos mais) comprados logo no dia em que chegavam à Casa Neves (em Coimbra) mercê de um acordo feito com um dos empregados da loja. Havia sempre o risco de serem proibidos e apreendidos. O último encontro importante que tivemos foi quando, em nome da delegação da SEC no Porto, o recebi no Auditório Nacional Carlos Alberto. Foi a primeira vez que um cantor de intervenção actuou num palco nacional (Logo se seguiram outros, obviamente). E lembro como se fosse hoje, uma ácida pergunta de um “progressista” da mesma Secretaria de Estado: “E além de comunistas quem é que vocês convidam mais?”. Na época, mesmo entre os socialistas, havia gente, intelectuais incluídos, que não iam à bola com o Zeca. Não só era um cantor de esquerda, mas, sobretudo, era “popular”.

Agora, que está morto e enterrado, chovem os ditirambos e as ameaças de homenagens. A primeira e mais ridícula é a ideia peregrina de o amortalhar em Santa Engrácia, no Panteão. A família, no caso boa intérprete do pensamento do Zeca, recusa. Quem o conheceu bem, adivinha facilmente primeiro a gargalhada, depois a indignação perante tão insólito sepulcro.

A segunda questão prende-se com o seu fabuloso legado musical e poético. Parece que os “masters” das canções andam perdidos no meio do naufrágio da Movieplay, agora falida mas proprietária deles. O antigo Secretário de Estado Barreto Xavier sustenta, muito acertadamente, que não é preciso encontrar o objecto físico para classificar como património imaterial nacional esse riquíssimo acervo, testemunho exemplar de um tempo obscuro (pela parte que me toca, considero a obra pré-abril 74 muito mais interessante, muito mais inventiva e mais significativa do cancioneiro afonsino. É uma mera opinião, claro.

Portanto, enquanto não aparecerem os negregados masters há que classificar preventivamente a obra. Depois, logo se vê. Quanto à edição, uma nova edição dos seus discos (e ainda há por aí muitos exemplares das anteriores edições), há que precaver o pagamento de direitos e, sobretudo, não dar oportunidade aos vampiros e aos urubus que só querem lucro fácil mesmo que seja “á pala” de um ícone de que não poucos se aproveitaram.

A ver vamos se os burocratas da Ajuda percebem estas coisas tão simples...

E se os embalsamadores profissionais de glórias defuntas largam a ideia de depositarem os humanos restos mortais do cidadão Zeca Afonso naquela mastaba sinistra de Stª Engrácia e os deixam honradamente converter-se em pó no cemitério humilde onde agora está.

 

(nota à margem: surgiu recentemente um disco –livro com duas gravações inéditas de J A . Fiz parte dos que desde o primeiro momento o subscreveram, não pela valia artística da coisa que é (e sou bondoso) medíocre mas porque faço parte dos seus amigos e dos que guardam uma memória fresca e alegre dele. A recolha é fraquinha, não traz nenhuma novidade e o texto que a acompanha também nõ descobre a pólvora. Longo, chato e sem novidade. Felizmente a edição parece ser limitada o que significa que não irá afectar demasiados ouvintes. Sempre é uma triste consolação...)

(2ª nota ainda mais à margem: correu por aí a ideia de medalharem postumamente José Afonso! Credo! Jesus, Maria José! )

 

*a ilustração: capa do disco que contém a "Balada do Outono" que, a meu ver, marca, pelo menos do ponto de vista musical,  o novo rumo da canção de José Afonso. 

 

 

 

14
Ago19

Au bonheur des dames 407

d'oliveira

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A silly season lá vai ao tropeções

mcr 14.Ago.19

 

E a greve, idem. Agora, S.ª Ex.ª o Ministro do Ambiente, resolveu fazer doutrina laboral e sindical, a criatura tem, pelos vistos, um largo cabedal de conhecimentos. E disse que, em certos casos, provavelmente neste, os camionistas não podem ater-se ao horário normal de oito horas mas levá-lo até às onze, ou seja fazer 60 horas semanais! Vê-se que S:ª Ex.ª sabe o que é sentar-se ao volante de um camião pesado. Porventura porque senta ela própria o dito cujo nos cadeirões do ministério...

Nisto, parece estar de acordo com o homenzinho da ANTRAM que é mais papista do que o Papa e censura o Governo por não ser ainda mais autoritário. O indivíduo ataca o dr. Pardal Henriques sem perceber que aquele é o seu exacto retrato no espelho. Com a diferença, pequena mas importante de que um é, até prova em contrário, representante de trabalhadores e outro de patrões. Por mais que as coisas estejam diluídas, a luta de classes ainda mexe. E com patrões que impõem a famosa cláusula das duas horas extra diárias (que são sempre mais ao fim de contas) logo se vê quem explora e quem é explorado.

Até o PC que só acha que os únicos grevistas que não são instrumentalizados são os dos “seus” sindicatos (o resto é lumpen enganado por falsos profetas, basta ler o comunicado ou o dr. Domingos Lopes) entende que as coisas foram longe demais. E faz bem, o PC que para a próxima greve da sua gente bem pode recear outra requisição civil agora que o dr. Costa se habiruou e que a sua gente perdeu a vergonha.

Quanto à Direita bem se pode perguntar se alguém a viu ou se anda perdida nas brumas de Agosto, escondida nas areias algarvias, férias são férias, que diabo e no Twiter o pobre RR bem que tenta gracejar. Mas Rio nunca teve piada, o humor não é com ele e a gramática (ou o estilo literário) não o ajuda.

Mudemos de agulha. Agora uma dúzia de senhoras cantoras de ópera, todas mais relativamente desconhecidas umas que as outras, vem queixar-se de Plácido Domingo, cavalheiro com setenta e oito anos feitos e perfeitos. Pelos vistos há quarenta anos, mais dia menos dia, o tenor negociava o seu apoio a troco de uns favores sexuais que elas teráo rejeitado o que teve como consequência a falta de contratos e carreiras no limbo. Demoraram algum tempo a pôr a boca no trombone, mesmo se alguma queixa ainda vá até 2001...

Dantes, contava-se que muitas aspirantes a estrela tentavam um caminho menos duro e mais horizontal, oferecendo-se para ir para a cama de alguém influente a troco de um momento de glória ou de um contrato vantajoso. E citavam-se nomes, muitos nomes. Agora, é a vez das que sem atingirem a fama, atiram as culpas não para alguma eventual falta de talento mas para o apetite insaciável de ogres como Domingo. Porquê agora e não há dez, vinte, trinta anos quando o homem tinha real poder e poderia ser atacado. Nesta altura do campeonato o espanhol já quase não risca, está com os pés para a cova, o nome dele já nada diz às novas gerações.

O “me too” assume muitas vezes um certo toque de requentado e não precisa de provas. Basta uma declaração de uma “vítima” e eis que a “bem-pensância”, os politicamente correctos, os influentes do pret-a-penser na moda, todos juntos num místico casamento entre a hipocrisia e a virtude, saltem para a rua. Eu desconfio, desconfiei sempre, destes ajustes de contas tardios, sobretudo quando as notícias vm de meios onde a promiscuidade é generalizada.

Entretanto, uma notícia consoladora, ainda não foi desta que aquele fulaninho grosseiro e parlapatão que dá por Salvini, levou a água ao seu moinho. O homem é apenas uma caricatura deslavada de Benito Mussolini. Espero que acabe como ele já que não se lhe pode augurar a poética justiça de o ver desaparecer no mar cor de vinho. Arre que este mundo está horrendo. Entre os Putin, os Kim, os Trump, os Maduro, os Boris Johnson, o cavalheiro chinês, os Assad, os Erdogan e mais um largo par de personagens (nas Filipinas, no Brasil na Nicarágua ou na Guiné Equatorial), o planeta bem que está em risco. E em risco bem maior do que a invasão do plástico, o carbono triunfante, e o clima que perdeu a cabeça. Ao pé disto que vale uma greve de 2000 motoristas (800 de um sindicato e 1200 do outro)? Ou a mobilização de 12.000 agentes da autoridade (seis polícias para cada grevista (no caso de todos fazerem greve!) É obra!

* na estampa: rio poluído nas Filipinas

08
Ago19

Au bonheur des dames 406

d'oliveira

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A falsa alternativa & outras observações

mcr 9.08.19

 

Pelos vistos, o Governo indicou a dr.ª Elisa Ferreira e o dr. Pedro Marques para o cargo de comissário na UE.

Eu confesso que ainda não percebi como é que uma criatura como Marques chegou onde chegou, mesmo descontando a fidelidade ao líder supremo. Vi e ouvi, vezes sem conta, demasiadas, aliás, o homenzinho a anunciar maravilhas e autênticos milagres. Tudo redutível à conhecida e contumaz expressão “uita parra e pouca uva”. Quando se tratou de discussão política a coisa ainda foi mais confrangedora. Marques, coitado, não marcava um mero golo. Mais: permitia “frangos” espantosos aos contraditores. Um desastre.

Mesmo assim foi alcandorado ao primeiro lugar nas listas europeias do PS. Para mim, só havia uma conclusão: costa queria livrar-se a todo o custo daquele fiel entre os fieis. Garantir que o via pelas costas durante um par de anos.

Todavia, esta suposição (amigável em relação a Costa) sofre um abalão quando este envia o nome de Marques à sr.ª Von der Leyen. É verdade que ia acompanhado do de Elisa Ferreira o que poderia indiciar que Costa poderia mandar uma mensagem tipo “queres um bombom ou umas gotas de cicuta?

Também, apesar de tudo, não deixa de ser estranho o Governo não avançar com o nome da dr.ª Maria Manuel Leitão Marques. Dir-se-á que não o avançou por ela estas no grupo parlamentar do PE para onde foi eleita imediatamente atrás de Marques. E para não embaraçar a Presidente da Comissão que teria de escolher entre o nº1 e a nº2, coisa sempre ingrata.

Daí o recurso à dr.ª Elisa Ferreira, obviamente uma pessoa infinitamente mais capaz do que Marques. E isto é dito por quem não aprecia demasiadamente a candidata depois da sua prestaçãoo como candidata à Câmara Municipal do Porto. De todo o modo, a doutora (por extenso) Elisa Ferreira tem um currículo impressionante, batendo em todas as áreas possíveis o candidato Marques e isso me chega.

E espero que também chegue para a Presidente da Comissão. A bem da mesma e, sobretudo, do bom nome de Portugal.

 

A propósito de Leonardo Padura e da sua devota leitora Mariana.

Pelos vistos a doutora Mortágua vai de férias carregada de livros. Não posso pronunciar-me sobre dois mas sempre lembrarei que a biografia de Trotsky por Deutscher apesar de ser um clássico está bastante ultrapassada. Trata-se um texto apaixonado, inteligente mas escrito há mais de cinquenta anos. E muita água já passou pelas pontes de Leningrado...

Quanto à outra escolha, “A transparência do Tempo” de Leonardo Padura, recentemente editado, é óbvio, pelo menos para um habitual leitor deste autor cubano, que é seguramente uma boa escolha e, nesta lista de quatro, o mais recente e o mais adequado ao tempo de veraneio. Padura tem uma obra muito interessante, mormente tudo quanto se relaciona com o detective Mario Conde, ou seja com cerca de 90% dos livros deste autor.

Se bem que vivendo em Cuba, Padura, com quem privei durante uns dias há um par de anos, não é exactamente um fiel daquele regime. E aproveitou (muito bem) a ficção policial para nos trazer um retrato pouco favorável daquilo em que se transformou a revolução cubana: uma caricatura amarga e funesta de tudo o que era prometido também há cerca de sessenta anos.

Convenhamos: eu não pediria à doutora Mortágua que lesse (caso já tivesse ouvido falar) Cabrera Infante, Herberto Padilla ou Reinaldo Arenas. Também não esperaria que lesse “cem garrafas numa parede “ da excelente Ena Lucia Portela (um monte de prémios e traduções em vinte líguas). E Ena Lucia também vive em Havana como Padura. E, como ele, retrata a Cuba actual desde dentro. Só que o romance acima referido cobre o período mais negro e cruel da história recente cubana. E vista do ponto de vista de uma mulher, uma dúzia de anos mais velha que Mariana, é verdade, mas uma mulher que vive por escolha própria lá, no meio da tristeza.

(passo de largo pelos enormes, magníficos escritores cubanos desde Lezama Lima a alejo Carpentier. Ninguém é obrigado a ler os melhores, mesmo se cubanos).

Aliás, o que me surpreendeu foi as breves frases de Mortágua sobre este livro. Das duas uma ou já o leu (e o livro é recentíssimo) ou limitou-se a transcrever uma qualquer notícia publicitária sobre a obra. Note-se, finalmente, que ao dispor-se a ler um dos três volumes da biografia escrita por Deutscher, a deputada terá esquecido ou não conhecerá um magnifico livro de Padura exactamente sobre Trotsky “O homem que gostava de cães” cuja publicação em Portugal nos trouxe Padura e a propósito do qual - mão só – tivemos duas longas conversas.

De todo o modo, repetindo, aliás, uma proposta já antiga aqui mesmo feita, vale a pena recomentar todos os livros de Padura. Estão traduzidos em português mesmo se a sua leitura no original espanhol de Cuba valesse (e muito) a pena.

O livro de Ena Lucia foi publicado, em Portugal, pela Ambar (2004) e mais tarde, novamente em português, com a mesma tradução, em Maputo (Moçambique) pela Kutsemba cartão (2010).

* na estampa: Ena Lucia Portela uma autora brilhante que (como Jesus del Campo, "as últimas vontades do cavaleiro Hawkins", Ambar, 2004)   me deu imenso gozo traduzir.  Aí vão dois apertados abraços para dois escritores cheios de imaginação 

17
Jul19

Au bonheur des dames 490

d'oliveira

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Notas à margem

mcr 17.07.2019

 

Emídio, Raio, Edgar, Jesus Correia e Correia dos Santos!

Eu não sei se alguma das leitoras (e leitores) reconhece estes nomes. Provavelmente não! E, porém, eles foram celebres nos finais de 40 e nos 50 do século passado. Fizeram a grande equipa de hóquei em patins de Portugal durante anos e anos. Ganhavam tudo ou quase. Oe relatos radiofónicos eram seguidos por multidões em casa, nos cafés, por todo o lado. Nós miúdos, na escola e depois no liceu, durante quinze bons dias abandonávamos o futebol e disputávamos animadissímas partidas de hóquei (sem patins). Aliás sem nenhum artefacto da modalidade. Não havia, ou se acaso havia algum stick este era caro para uma grande maioria. Que os tempos eram outros, pobres, muito pobres, hoje ninguém se lembra ou, pior, ninguém sabe. Nem sequer a Escola o lembra. Portugal no post-guerra era pobre e maltrapilho. Os ricos escasseavam e muitos deles cuidavam de levar uma vida recatada e sem esbanjamentos. Deixavam isso para os “novos ricos”, para os arrivistas, para os que tinham feito fortunas, nas negociatas da guerra, sobretudo nas conservas e no volfrâmio, no contrabando de café para Espanha (que estava ainda pior do que nós). Uma jornalista chamou ao pais o “paraíso triste” e nunca um nome foi tão bem aplicado. No meio disto tudo, de uma quase geral resignação, o hóquei foi um bálsamo, um foguete luminoso, um arco íris. E os cinco acima citados, foram bafejados pela glória e pela admiração e carinho populares. De todo o modo não enriqueceram nem foram recebidos (que me lembre) pelo Presidente da República. Terão voltado para os seus mesteres habituais e porá lá continuaram. A grande excepção era Jesus Correia que além de exímio no hóquei foi um grande jogador de futebol, do Sporting, onde fez parte dos “cinco violinos”. Terá marcado cerca de mil golos (!!!) e ganhou pelo menos seis ou sete campeonatos. Tantos quantos os de hóquei.

Vale a pena lembrarmo-nos dessa equipa agora que voltámos, depois de um longo jejum, a ser campeões mundiais.

2 Tão pública que ela é (para o anedotário nacional) a CGD, o famigerado banco público, devotado ao alto interesse da pátria e à protecção dos cidadãos, entendeu, depois de outras tropelias tais como fechar balcões a esmo, deixar de pagar juros inferiores a um euro.

Parece uma ninharia mas na verdade, para além de ser um confisco (ou uma ladroeira, escolham o termo) aqueles muitos milhares de importâncias abaixo do euro ainda faziam jeito a muito boa gente. Vá lá que, desta vez, o Banco de Portugal rosnou. E a CGD recuou, pelo menos para já.

Do passado nem falemos: a CGD, o tal banco nosso, público, já nos custou muitos, muitíssimos milhões. E ainda não se sabe o que mais se irá encontrar. Por enquanto só há um ex-gestor na cadeia e não por via da CGD mas por um pequeno e merdoso delito. Por aí, à solta, vagueiam, felizes e contentes, vários cavalheiros. Inocentes, inocentíssimos, claro. E virtuosos... muito virtuosos.

 

3 mamarrachos

(ou eu hei de ir a Viana...)

 

O que se passa em Viana com o prédio Coutinho não é sequer um dramalhão de faca e alguidar. É apenas uma vergonha. E conviria deixar de chamar nomes aos moradores que ainda lá sobrevivem, melhor dizendo subvivem que mesmo que a razão estivesse toda do lado camarário (e não está) ou dessa caríssima vianapolis que já vai em duas décadas de pouco serviço.

Relembremos: o prédio foi construído com todas as licenças necessárias. Não houve atropelos à legalidade que se saiba e de nada serve arguir que a coisa começou ainda no antigo regime. Começou mas continuou pacificamente no actual. E se é verdade que o prédio não prima pela beleza, também não é menos verdade que, dentro de Viana com casas baixas há muito pior. Isto sem falar no mostrengo ao alto de Santa Luzia, imitação horrenda do horrendo Sacré Coeur monumento construído em pagamento de uma promessa : se a França se salvasse na guerra franco prussiana (que aliás perdeu sem apelo nem agravo) ergueriam “aquilo”.

Eu percebo que, em Viana, alguém desejoso de passar à imortalidade local começasse uma campanha contra o prédio. De todo o modo, os critérios estéticos são de per si sempre contestáveis, mesmo se numa cidade baixa um edifício com 13 andares parecesse (e fosse) excessivo.

Seria bom e útil, saber quanto custou até agora futura demolição e o realojamento dos quase trezentos habitantes. Mais os honorários da rapaziada da vianapolis, os custos com advogados e tudo o resto. A ideia é que a coisa deve dar uma maquia gorda, obesa, elefântica!

Do ponto de vista moral, simplesmente moral, a guerra desencadeada contra os habitantes, a pressão exercida durante estes vinte anos deve ter sido tremenda. Sobretudo numa pequena cidade como Viana. E foi tal a pressão que muitos, quase todos (mais de 90%) foram desistindo, foram-se rendendo, acossados pela tal sociedade, pela Câmara, pelos media, pelos poderes públicos e pelas boas consciências da cidade. E os habitantes que saíram foram ou realojados ou receberam as indemnizações mais ou menos impostas.

 

Nestas últimas semanas o zelo medonho dos anti-Coutinho atingiu o auge. Cortaram a água, a luz, o gás, proibiram a entrada de familiares e, preparavam-se para proibir o regresso a casa dos imprudentes que saíssem. Foi vergonhoso e digno do 4º mundo ver os desgraçados velhos que resistem a içar a comida e a água por cordas. É inacreditável que se corte a luz a quem a paga. Por muitas sentenças que se tenham na mão. Aliás não chegam como se viu com este último recurso dos moradores com a providência cautelar.

Agora uma pomposa criatura vagamente amparada pela Administração pública ameaça os moradores resistentes com acções de perdas e danos. Essa pessoa de maus fígados e pior moral deveria, por um breve momento, pensar na angústia de quem vive numa casa a que chama sua, que é sua, que foi legitimamente comprada e vivida durante dezenas de anos.

Isto a que se assiste é o Estado, ou este triste estado de coisas, a usar da sua força contra fracos. Melhor andariam os arautos da estética se começassem a olhar para as inumeráveis criaturas que defraudaram e continuam a defraudar o Estado, o Tesouro público e a rir-se dos cidadãos portugueses. A única diferença é que estes bandoleiros que fazem do país um imenso pinhal da Azambuja, tem poder e tem força.

Claro que isto vai acabar mal para as nove pessoas (todas idosas) que ainda aguentam todo este desacato. Mas a vitória dos vianapolistas é, será sempre, uma triste vitória.

(ainda mais à margem: tudo isto se passa enquanto no parlamento se vota uma lei da habitaçãoo!...

 

4

o sr. Carlos César abandona o parlamento. Boa viajem e que uma estrelinha o guie. Segundo ele, é “um incorrigível açoriano” e por isso vai à vida. Para os Açores?

As más línguas, que as há sempre, relacionam esta saída com o facto de se ter gorado a ideia de o alcandorar à presidência da Assembleia da República! César jura que não, que nunca pensou nessa possibilidade. Que jamais correria Ferro Rodrigues do lugar. Credo! Logo eles tão amigos! Eu não sei o que é ser incorrigivelmente açoriano. Será que um açoriano pode deixar de ser açoriano? Ou sê-lo temporada sim, temporada não? Que diabo, uma pessoa é da terra onde nasceu. Pode evidentemente, mudar de terra, ser expulso dela, adoptar outra por vários motivos, incluindo o facto de encontrar trabalho e futuro noutro lugar que não o natal. Mas nada lhe tira a naturalidade.

No caso do sr. César (Carlos, de seu nome) o facto de ser deputado pelos Açores já justificava a sua incorrigibilidade. Estava no Parlamento para lembrar ao mundo, a Portugal ou aos restantes companheiros de tribuna, que, no meio do Atlântico Norte, há um arquipélago mais ou menos vulcânico que merece atenção. Nada disto implica com o ser-se incorrigivelmente indígena da Terceira ou da Graciosa ou de qualquer outra ilha açoriana incluindo o ilhéu dos Capelinhos.

Claro que o sr César pode estar farto do parlamento. Até seria uma prova de bom gosto. Mas não. A criatura garante que continuará (para mal dos nossos pecados que, pelos vistos hão de ser muitos e medonhos) a fazer política. A, como outro fantasma, a “andar por aí”.

A menos que, à falta da presidência do parlamento, volte a pensar na da região dos Açores mas isso é com os eleitores de lá...

 

5 anda por aí muito machismo disfarçado Reza a lenda que Santa Úrsula prometida a um pagão foi morta por Átila (outro pagão) por se recusar a casar com ele. As suas onze (ou onze mil)companheiras todas virgens como ela foram igualmente mortas pelos hunos ou por outros bárbaros do mesmo género e espécie. Tanta mortandade faz pensar que naqueles ásperos tempos não era bom ser mulher. E nos de hoje?

A senhora Úrsula von der Leyen teve contra ela vários cavalheiros que insistiam em acusações antigas que se verificaram infundadas ou em apreciações pouco lisonjeiras sobre o seu último e difícil cargo ministerial (Ministra da Defesa! na Alemanha!!!) mesmo que geralmente se lhe reconheçam excelentes serviços nas anteriores pastas com especial destaque para o Trabalho,

Dentre os críticos, assume especial relevo, o SPD, partido social democrata alemão em acelerada queda junto dos eleitores. Melhor dizendo, e digo-o com profundo desgosto, está a caminho de se tornar uma insignificância na Alemanha. Um pouco como o que se passa em França onde o PS está nos cuidados intensivos. Ou na Grécia onde o PASOK já só é uma triste memória.

Nada tenho contra o anterior candidato, o sr Timmermans, mesmo se também o não achasse nenhum Hércules político. Aliás, a regra não escrita do PE é eleger para este cargo um representante do partido mais votado. E esse partido é, goste-se ou não, o PPE. Claro que das últimas eleições o PPE saiu menos robusto. Mas essa falta de força não se traduziu em ganho para os socialistas antes permitiu a entrada de mais pequenos grupos políticos no PE e algum crescimento dos ecologistas. Isto para não falar dos anti-europeístas que, ontem pela gritaria dos adeptos do sr Farage se mostraram tão educados quanto as antigas claques futebolísticas britânicas

Tenho por mim que a eleição agora assegurada de Von der Leyen tem para já uma imensa virtude: Finalmente uma mulher à frente da Europa. Já não era sem tempo. Do que fui lendo sobre ela e sobre as suas propostas não vi motivo de escândalo. Cumpre os mínimos à vontade e parece-me, por exemplo, bem mais interessante do que Durão Barroso. Aliás, o facto de ter uma sólida formação académica, ser médica e doutorada, aliada ao quase inacreditável facto de, numa Europa que envelhece sem natalidade que se veja, ter sete filhos, é um bom sinal. E ter sido ministra de áreas sensíveis (Trabalho, Segurança Social e Defesa) dá-lhe um bom background. E o discurso foi bom, francamente bom.

Mas, há sempre um mas, von der Leyen é mulher. Mulher num mundo de homens de barba rija. E, pelos vistos, não cedeu nem precisou de certos votos dúbios. Aliás, dúbia foi a inesperada aliança dos anti-europeístas, com a tropa inglesa e alguns ilustres deputados sans peur et sans reproche que votaram baseados unicamente no preconceito ideológico que disfarçava também, e talvez principalmente, muito marialvismo. Parece que, contra a srª Von der Leyen há a acusação de não ter sido eleita deputada ao PE.

Finalmente, aqui, muito entre nós, o cabeça de lista do PS local foi eleito não pelo seu mérito próprio que é inexistente mas porque sim. E à frente de uma mulher competente, Mª Manuel Leitão Marques, que provavelmente faria (fará?) boa figura na lista que a nova Presidente da Comissão vai apresentar numa composição enfim paritária.

02
Jul19

au bonheur des dames 489

d'oliveira

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Ai aguenta, aguenta...

(a culpa é sempre do povo ingrato)

Mcr (Junho, 2019)

Uma secretariante estadual criatura entendeu vir anunciar a um grupo parlamentar que as filas de cidadãos à porta das repartições que tratam do cartão de cidadão eram culpa única desses mesmos cidadãos, perdão súbditos.

De facto, sempre segundo a surpreendente senhora, são os cidadãos que, ao juntarem-se em magote à porta do serviço com horas de antecedência em relação ao horário de funcionamento, fazem com que o serviço entupa.

Parece que, quando se começam a distribuir as senhas para atendimento, estas se esgotam num ápice e fazem com que cidadãos mais retardatários que entendem só dever procurar a repartição quando esta oficialmente abre ao público batam com o nariz na porta.

Ou seja, os cidadãos que, por imperiosas razões julguem ser seu dever renovar o documento de identificação, são os responsáveis pelo naufrágio. Eu não posso estar mais de acordo com a governante personagem. Os cidadãos são uma chatice medonha para quem carrega aos ombros a pesada cruz do Estado. Se não houvesse estas criaturas madrugadoras e sofredoras tudo se passaria no melhor dos mundos. E sem bichas!

Provavelmente também não haveria necessidade de passar o cartãozinho. Aliás, países há, não dos menores, que não impõem qualquer cartão aos seus indígenas. Todavia, neste jardim ocidental, neste “torrãozinho de açúcar” o malfadado papelucho é preciso por tudo e por nada. E não há documento que o substitua, mesmo se vier munido da fotografia do resinado íncola interpelado por uma qualquer (e são múltiplas...) autoridade civil religiosa militar ou outra, por exemplo o marçano da loja onde se vai por dois quilos de batatas e um litro de azeite.

Há neste país prodigioso ( e não será um prodígio o facto de enquanto meia europa sufoca encalorada, por cá sopre uma doce brisa primaveril que nos permite passear de cabeça descoberta e sem recear uma insolação?) um extraordinário hábito e que é este: a culpa é sempre dos outros, nunca nossa Ou então é o destino cruel, o fado antigo, algum malefício ou praga encomendados contra nós.

A ideia de que a passagem das quarenta para trinta e cinco horas de trabalho (uma justa medida há muito reclamada pelo povo trabalhador), o facto de haver uma crónica falta de pessoal em muitas repartições públicas, a insuficiência de meios técnicos adequados, as famosas cativações que nos irão posicionar num lugar cimeiro do deficit público – os melhores entre os melhores - é coisa que não perpassa pela ment iluminada da senhora SecretáriaBem pelo contrário: é a populaça ignar e vil que no seu descontrolado afã de obter um documento se amontoa num caos sem precedentes à porta dos Serviços exigindo em medonho murmúrio o documento de que, com descaramento inaudito, diz ter necessidade.

Isto, essa mole plebeia e mal educada que se levanta noite fechada para, ameaçadora, vir perturbar a paz pública, tem um único fito: perturbar a excelente governação da pátria que a pariu e levar a cabo uma campanha canalha contra o partido no poder, os seus amigos (ou amigalhaços? Ou ex-amigos?) com vista a fazer a nação valent e imortal voltar atrás, aos tempos da troika malvada, do dr Passos Coelho, agente do conservadorismo e relutante saudoso de tempos ainda mais antigos.

Não se percebe, porém, como é que uma outra Secretária de Estado, entendeu desmentir a primeira (caridosamente afirmando que as palavras desta tinham sido mal entendidas, fora do contexto, como de costume.

Em que é que ficamos?

 

Nem de propósito

Tina acabado a crónica acima quando a minha Mãe me pediu para ir levantar algum dinheiro a banco. A excelente senhora que está a muito poucos passos do 1º centenário não usa cartão e, de resto, por dificuldade de locomoção, prefere mandar os filhos levantar-lhe o dinheiro que precisa para pagar as empregadas e fazer as compras da casa.

Desta feita, quando cheguei à agência havia uma bicha de cinco ou seis pessoas diante da caixa. A pessoa que lá estava despachou um cliente e zarpou para outro local para entregar dinheiro a uns homens fardados de algum transporte blindado. E chegaram, entretanto, mais pessoas que resignadamente se dispuseram a esperar. Dez ou quinze minutos depois os seguranças lá partiram ajoujados, penso eu, ao peso das notas acondicionadas numas maletas de aspecto robusto. E a bicha começou a mover-se. Quando fui atendido e antes sequer de perguntar o que se passava, o caixa entendeu explicar-me que havia dois colegas de férias, que, de qualquer modo, a equipa da agência era reduzida, que o banco tencionava encerrar cem balcões (!!!) e que nós, os usuários e depositantes, tínhamos de “compreender”. Retorqui-lhe que o banco não é o Registo civil, nem nós os solicitantes de cartão de cidadão. Que se havia pouca gente que arranjassem mais. E que, à falta de podermos trocar duas amabilidades com o Presidente do banco ou sequer com o gerente que está sempre em lugar incógnito, era aos funcionários que exprimíamos a nossa indignação. E que se ele se achava inocente que informasse quem de direito, nem que fosse apenas o sindicato.

Tudo visto, despois do descaso dos poderes públicos, as instituições privadas , ou algumas, também acham que os utentes são os culpados do mau funcionamento e, sobretudo, uns chatos que só sabem resmungar e não apreciam como deviam o facto do banco generosamente lhes guardar o dinheiro que aí depositam.

* O título refere uma frase de um senhor banqueiro que interrogado sobre as dificuldades do povo e da sua (in)capacidade para as aguentar respondeu lapidarmente. E tinha razão...

12
Jun19

Au bonheur des dames 488

d'oliveira

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Remember Ruben

mcr 12.06.19 

Aproveito o título de um belíssimo livro de Mongo Beti (escritor cameronês, desparecido no princípio do século) para me despedir do Ruben de Carvalho que conheci logo nos inícios de 60 nas lutas associativas estudantis. Acho que, da primeira vez, ele ainda seria liceal e membro da pequeníssima pro-associação dos liceus de Lisboa, aliás a única que existia. Não sei porquê mas associo-o a umas aventuras (modestas) com malta das RIP (reuniões inter propaganda) por altura da crise e que terminavam sempre, se a memória me não trai (coisa que começa a ser frequente...) na Portugália, à volta de umas imperiais. Durante alguns, poucos, anos ainda nos encontrávamos sempre por via de questões estudantis e/ou políticas. Todavia eram encontros breves, quase fortuitos, tanto mais que eu era de Coimbra e o Ruben lisboeta assumido.

A partir dos anos 70 só fui sabendo dele pelos jornais e por alguma esporádica aparição na televisão. Conservo, porém, uma boa recordação dele e, mesmo sem nunca ter partilhado as suas opções ideológicas e partidárias, estimava-lhe a maleabilidade, a cultura e a boa disposição. Agora, sei, de ciência certa, o que sempre suspeitei. Era a ele que se devia o programa diversificado da Festa do Avante, pelo menos no que toca à música. Até nisso se podia perceber o grau de liberdade (de heterodoxia?) de que o Ruben gozava. E gozava-o porque era respeitado e porque se sabia fazer respeitar.

Amigos ou conhecidos comuns que navegavam nas mesmas ou próximas águas do Rúben isso mesmo me confirmavam. Gabavam-lhe a inteligência, a cultura, a amabilidade, o humor e...a firmeza.

Morre agora, com 74 anos, uma vida cheia e, suponho, uma maleita sacrista e pertinaz. A morte colhe as vítimas cegamente e não tem quaisquer escrúpulos na hora de escolher. Fica-nos uma memória, no meu caso bastante ténue mas abençoada pela alegria daqueles anos tumultuosos em que qualquer escolha encerrava perigos e a aventura estava proibida. Éramos poucos, muito poucos, “we jfew, we happy few we the band of brothers”, que, paulatinamente, o peso dos anos vai inexoravelmente reduzindo. E o Ruben era um dos mais novos...

* na gravura : Mnemosine a deusa da memória e as musas

09
Jun19

Au bonheur des dames 487

d'oliveira

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Fazer dos outros parvos

mcr 9-06-2019

 

1) Eu não queria falar do dr Victor Constâncio. E não queria por uma velha velhíssima razão. Há muitos, sei lá quantos, anos, um velho amigo meu ao saber que eu não estava inscrito num partido, entendeu insistir durante semanas para que entrasse no PS. Na altura o PS andava na mó de baixo, o meu amigo dava-me cabo do pouco juízo que tinha de modo que lá me inscrevi. Descobri, estupefacto, que tendo saído de um agrupamento em que fervilhava a discussãoo ideológica, o PS era um remansoso local onde ninguém se dava a tais práticas. Na secção que me foi destinada, o mais político que ouvi da boca de uma senhora que fazia de responsável foi que os militantes machos fumavam que nem carvoeiros e que ela tinha de varrer a sala das cinzas e até de uma que outra beata deixada cair por algum camarada menos cuidadoso. Não vou contar a minha vida partidária mas sempre acrescento que subi de vento em popa e um mês depois de entrar já era delegado a um congresso federativo, candidato sem o saber a um lugar no respectivo secretariado e mais não sei o quê.

tudo isto porque na campanha que opunha Constâncio a Jaime Gama, escolhi como de costume o lado errado e defendi Constâncio um par de vezes ( “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”). Constâncio ganhou e na direcção do PS cometeu o erro trágico de se deixar seduzir por uma iniciativa do PRD (Partido Renovador Democrático, criado à sombra quarteleira do senhor general Eanes e organização estrafalária e populista até dizer chega que fundamentalmente se apresentava como redentora.

Na altura o Senhor professor Cavaco Silva era primeiro ministro e estava à frente de um Governo minoritário . O PRD (18% ds votos) entendeu propor uma moção de desconfiança e o PS (21 ou 22%) apoiou a ideia. Cavaco caiu. Convém lembrar que até o dr Mário Soares mandava recados ao partido advertindo que em caso de vitória da moção haveria eleições e que as perspectivas não eram as melhores para o PS.

O PS e Constâncio não acreditaram pois pensavam que no último momento seriam chamados a formar Governo. Não foram. A partirdaí Cavaco ganhou com maioria absoluta dois mandatos sucessivose o PS andou pelos corredores esconsos de S Bento a falar sozinho. Entretanto o PRD, essa fantasia pretensiosa, desapareceu sem deixar rasto nem saudades. Vitor Constâncio lá se resignou a abandonar o lugar no PS e o cargo de deputado. Pode dizer-se que nesta fase sombria não se distinguiu nem pelo génio político, nem pelo talento oratório.

Entretanto, este cronista, depois de ter tentado por todos os meios convencer os seus camaradas da loucura de votar com o PRD, desandou do PS, explicando numa cartinha tudo o que pensava daquela aventura. Todavia, poupava Constâncio que “teria sido mal aconselhado”! Ingenuidade minha, claro.

Mesmo assim, custa ver alguém por quem demos a cara a fazer-se de sonso, de desmemoriado, de ignorante, de inocente útil e parvo. Constâncio, pelo que afirmou na Comissão da AR, não se lembrava, não tinha de saber, não sabia enfim, o Governador do Banco de Portugal que ele era andava por lá como na política: às cegas, aos baldões, aos tropeções a apanhar calduços ou cachaços dos malandrins que gozavam o gordinho que passava.

Uma tristeza!

 

2 A digna sucessora dos senhores João Soares, o “esbofeteador” e de Castro Mendes o “fantasma desconhecido”, Doutora Graça Fonseca, a propósito da lista de obras desaparecidas do acervo do Ministério, afirmou, sem tentar ser irónica, que tais obras apenas estavam por localizar. Patético! Ou ridículo, se preferirem...

Conviria lembrar à distinta senhora que qualquer desaparecido está por localizar, É assim nos comunicados de guerra ou sobre desastres: "há mortos, feridos e desaparecidos." Infelizmente, muitos destes últimos nunca parecem ou aparecem já cadáveres. Os americanos até tem uma sigla:MIA (missing in action”).

Portanto as obras “por localizar” estão desaparecidas. É aliás provável que continuem “inlocalizaveis” perdoe-se a palavrinha inventada e abstrusa. São quase 200 as vítimas deste inexplicável nevoeiro. Ou melhor: quem conhece os labirínticos corredores dessa coisa pomposa chamada Ministério da Cultura, desconfia mesmo da veracidade da lista. Estará completa?

Em tempos que lá vão, aquilo era uma balbúrdia. As peças circulavam livremente por todo o lado, não havia um registo seguro do comprado, do recebido como oferta, sequer do eventualmente deteriorado.

Ainda recordo, uma excursão feita à garagem do Ministério, estava este ainda na Avenida da República. Em vez de carros, havia pilhas enormes de livros. Tratava-se de obras editadas com o apoio do Instituto do Livro e que numa certa percentagem eram entregues ao MC. Ali chegavam e ali estadeavam sem préstimo nem destino. Semanas, meses, anos. Recordo igualmente, uma gigantesca partida de livros  adquiridos a uma(s)editora(s) em risco que o ME, na sua versão Secretaria de Estado tentava impingir às instituições que os quisessem.  E foram raras as que, depois de prevenidas, acorreram a levantar os livros...

Recordo também, um livro sobre Camilo Castelo Branco, publicado a expensas do Ministério pela comissão das comemorações do centenário de CCB em 1991, chamado “Imagens Camilianas” Tratava-se de um belíssimo álbum, com caixa própria que reproduzia em mais de 60 páginas, imagens do escritor. Uma vez publicado, foi enviado para a Delegação Regional do MC no Porto e mais uma vez os montes de livros ficaram por lá sem serventia. Que se saiba nunca foram distribuídos sequer vendidos. Uma pequena pesquiza revela alguns exemplares à venda no OLX, e em dois alfarrabistas do Porto. Recordo que no local onde estavam depositados houve uma inundação que destruiu alguns exemplares. Os restantes bem como uma série de obras de pintura transitaram para Vila Real, destino escolhido pelo dr Santana Lopes (outra luminária cultural feita Secretário de Estado!) para a DRN . Nesse lote ia o original de “A liberdade está na rua” (Vieira da Silva) e um belíssimo desenho de Fernando Lanhas. Ao todo seriam duas ou três dúzias de peças, incluindo algumas esculturas. Nem quero pensar no que lhes terá sucedido. Pela parte que me toca (bem como aos dois anteriores Delegados Regionais) tive o cuidado de ao deixar o cargo, pedir quitação e inventário do que passava para a criatura que me substituiu(dinheiros e obras de arte. Cautelas e caldos de galinha nunca são de mais, tanto mais que eu saía daquela casa depois de me demitir  do cargo e em claro enfrentamento com o inglório fundador desse partido largamente derrotado nas últimas eleições ).

Voltando à doutora Fonseca, especialista gorada em eufemismos e desastrada responsável da Cultura nacional, a sua reacção à notícia do Expresso diz muito do estado a que chegou cultura democrática e a ideia de responsabilidade que deveria presidir aos actos e às palavras de quem momentaneamente (e mal, pelo que se vê) governa a pobre pátria. Ainda por cima, o desaparecimento ou, pelo menos, notícias dele, tem anos. De facto há muito tempo telefonou-me alguém que já na altura andaria na peugada das peças. E já havia várias (pelo menos das que estavam na DRN) que estariam em Alcácer Quibir prontas a regressar com o rei D Sebastião numa eventual manhã de nevoeiro.

Na origem deste mistério “doloroso” ou “gozoso” (é só escolher) está o estranho facto de as peças artísticas andarem sempre a mudar de poiso e de não haver um registo claro dessa deambulação ou sequer haver uma ficha decente da peça (com fotografia, preço, data de aquisição. medidas, e demais dados pertinentes. Recordo que na DRN (mais uma vez!) isso foi feito com enorme rigor por Manuel Matos Fernandes, um grande funcionário entretanto falecido. E que tal inventário foi, devidamente enviado, para “conhecimento” ao Ministério. Não me lembro entretanto se alguém de lá se deu ao trabalho de acusar a recepção. E uso o “não me lembro” apenas porque me custaria dizer que pura e simplesmente se estiveram nas tintas. Como já nesses anos do fim do século, ocorria com frequência, displicência e falta de consciência...

na gravura: “A poesia está na rua” (Vieira da Silva)  

31
Mai19

Au bonheur des dames 485

d'oliveira

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Onde votar?

mcr 30 de Maio 2019

A pergunta mais lógica, sobretudo em se tratando de votação para o Parlamento europeu, seria, “votar porquê?”.

Não sou um federalista europeu, muito menos um fanático da pátria, sequer da língua materna, mas algo muito fundo em mim, atira-me para o desconsolo deste meu sofrido país, desta gente rude e pobre, deste mar sempre ameaçador, desta terra sáfara que “eppure si muove”

Sou, já o disse um par largo de vezes, “um pobre homem” de Buarcos, como o meu querido Eça o era da Póvoa de Varzim (isto quando não se considerava um “peixe da ria de Aveiro” onde provavelmente passou os melhores tempos da sua infância desamparada).

Sei que dito desta maneira, a coisa soa a artificial. Nunca nos devemos socorrer de uma citação literária seja ela de Eça, de Homero de Dante de Cervantes ou de Rabelais, só para citar paixões imensas e antigas. Todavia, para onde quer que me vire, é Buarcos, a escola (oficial) dos professores Mourinha e Cachulo (que Deus os tenha em santa glória), a praia, os botes, as lanchas, as bateiras (e algum buque...), varadas na areia, as redes a secar, os meninos de tamancos, as mães com os seus aventais domingueiros, os pais em passos estugado a caminho da doca das traineiras com o foquim no braço, a ronca dos dias de nevoeiro, a espera ansiosa dos barcos de regresso que tentavam passar a barra fintando as ondas e a morte, o dia da chegada dos grandes lugres bacalhoeiros (Jesus, que alegria, aquilo era o fim de meses e meses nas águas frias de Saint John, homens metidos em dóris minúsculos a apanhar o peixe à linha, dentro de um espesso nevoeiro e um mar generoso mas frio. E era uma paga melhor, não digo a abundância, que isso não era para os de Buarcos mas apenas um pouco mais de dinheiro e um pouco menos de pobreza. Era a época em que iam lá casa pagar ao meu pai, as consultas, as visitas domiciliárias e a atenção, sobretudo a atenção que o médico lhes reservava. “Toma lá estas amostras, leva um mata borrão para o teu filho...”

Eu era o filho do senhor doutor, o que usava sapatos, aliás um valente par de botas de atanado que resistiam a tudo e durante algum tempo me foram úteis para me defender dos maiores que eu era o mais novo e “o inimigo de classe” mesmo se naquela terra mágica entre mar e serra não houvesse nenhum discípulo do senhor Marx. De barbas só os santos, especialmente o S Pedro, padroeiro de pescadores e mesmo esse menos importante que a Senhora da Boa Viagem a quem se encomendavam todos logo que punham pé num barco.

E não é de menos insistir na santa porque nas terras do litoral, em que os homens estão as mais das vezes ausentes, são as mulheres que governam, pagam as contas educam os filhos e vendem o peixe.

Mas não era disto que eu queria falar, ou então era, que isto de votar, de escolher, vem desse tempo em que se não votava, não se escolhia. Vem daí a recusa daquela vida dos outros, muito “safanão a tempo” apanhei logo que cheguei à idade da razão, alguma hospedagem gratuita em Caxias e afins, alguns medos, alguma cólera, uma pouca de esperança e amigos e companheiros até hoje. Votar significava muito, e essa aventura começou naquele dia de Outubro de 69 em que finalmente a “Oposição” foi às urnas. Não que esperássemos ganhar ( e não ganhámos, claro) mas apenas para nos contarmos mesmo se, por toda a ordem de razões, muitos não estivessem nos cadernos eleitorais. Fui fiscal na mesa eleitoral onde votei e isso, também isso, ficou registado pela polícia e, em seu tempo, constou de mais um processo (e foram 14 se não estou em erro) da pide/dgs contra este vosso envelhecido cronista.

Por isso nunca perco a ocasião de votar mesmo se, nos últimos tempos, as opções são o que se sabe. Voto, voto furioso, voto em branco se for o caso (e foi) mas a abstenção, os tais quase 70% não me contam no seu número.

Vim de Lisboa onde fui ver a família e sobretudo a minha Mãe, numa carreira para chegar antes do almoço à mesa de voto na escola para onde há trinta anos me empandeiraram. Como fui dos primeiros a registar-se como eleitor andei já por vários sítios todos longe do local onde moro. Desta feita, porém, quando me apresentei na “escola Maria Lamas” e na secção entre o fim dos Manuéis e o principio das Marias, dei com o nariz na porta. A senhora que me viu os cadernos eleitorais, surpreendida com a minha irritação e com a ameaça de não votar, atirou-me com as filas que em África, à torreira do sol, esperam horas e horas. Tive que lhe dizer que votava há mais anos dos que ela tinha de idade e que me irritava mais esta modificação (a 5ª ou a 6ª!!!) do meu local de voto. Lá me explicaram que agora vigorava o “critério da proximidade”, local de morada/ local de voto. Aí zanguei-me a sério pois que vizinhos meus recentes (de há 10, 15, 20 anos) já votavam aqui ao lado enquanto eu, graças a ser mais velho e mais pressuroso na inscrição como votante tinha que ir para cascos de rolha. Parece, no entanto, que desta feita, é para valer: irei votar a duzentos metros da minha casa, da casa onde vivo desde 1976! A CNE ou lá quem distribui o eleitores lá se lembrou deste critério muito mais justo e ajustado do que o do número do falecido cartão de eleitor, uma inutilidade (mesmo como precaução) que só chateava o seu portador.

E lá votei, em menos tempo do que demora esta crónica, mesmo se os meus projectos de vida e as minhas esperanças quanto às actividades do Parlamento Europeu sejam muito, mas muito, moderados.

Parece que, por cá, anda muito boa gente entusiasmada por não haver “populistas”, nacionalistas, direita extrema e não sei que mais. Sempre direi que de facto não aparecem mas também não aparecem sete em cada dez eleitores. Desinteresse? Não se sentem representados? Estão por tudo? Mais cedo ou mais tarde é daí que sairão os populistas, os nacionalistas , os que não conseguem sentir-se representados.

A noite eleitoral foi o que se sabe e o que se esperava. Uns cantam vitória, outros negam a derrota. Nos primeiros, aparece um cataplasma chamado Pedro Marques que andou todo o tempo ao colo do dr Costa. Nos perdedores bom teria sido que no PPD alguém se lembrasse da deputadagem que votou aquela borrada (e aquela burrice) sobre os professores. Até esse momento PPD e PS iam juntos e colados. Daí até hoje vão dez pontos de distância...

Depois há o PC. Esses nunca perdem. Aquilo de ontem foi uma pequena contrariedade dialéctica no caminho para a construção do socialismo e da sociedade sem classes sob a égide do proletariado. Ou o “proletariado” morreu ou foi todo para a praia ou é todo, ou quase, “lumpen” ou o imperialismo monopolista e capitalista estabeleceu uma ditadura férrea sobre os trabalhadores e as classes populares e as impediu de justamente mostrarem a luminosa via dos “amanhãs que cantam”. A culpa é seguramente dos outros, da Direita (qual? A do PS, a do PAN ou a do BE?) jamais da “análise concreta da situação concreta” como pretendia o camarada Ulianov que no século foi conhecido por Lenin.

Por uma vez sem exemplo o camarada Jerónimo não pode acusar a dr.ª Cristas ou o dr. Rio pois esses perderam redondamente, vítimas da sua parva ingenuidade e dos seus obtusos parlamentares que cegos pela desrazão entenderam juntar os seus preciosos votos aos da Esquerda radical mesmo quando esta e o PS (convém não esquecer a votação deste quanto às medidas de salvaguarda propostas pelos primeiros) derrotaram as suas condições. Ainda hoje estou por saber se o PS tinha perfeita consciência do seu voto e sobretudo dos efeitos dele. De todo modo, a minha convicção é que o PS agitou um trapo vermelho e o CDS e o PSD carregaram que nem touros alucinados. Em boa verdade, não eram touros mas apenas uns tristes patos marrecos).

Entretanto, acabado o futebol e ainda longe das férias, terá começado a campanha eleitoral. Costa faz contas e os seus cabos eleitorais já pedem uma maioria absoluta. O PPD tenta limitar os estragos enquanto que do CDS que se julgou maior do que a sombra nada transparece. Talvez esperem ter mais votos que o PAN ou o PC (eu nunca digo CDU porque os verdes daquela banda são fundamentalmente vermelhos por dentro. E úteis: votam sempre, sempre, ao lado do povo, ou daquilo que o PC entende por povo). O BE espera melhorar a sua representação parlamentar e, provavelmente, alguma razão lhe assiste: é mais atraente do que o PC, tem uma base de apoio jovem e educada e anda num extraordinário número de malabarismo circense tentando convencer o PS a chamá-lo a um acordo.  

Aqui para nós, como se ninguém nos ouvisse, este tipo de textos sobre a política imediata desenvolvida na pátria dos heróis do mar, nobre povo, nação valente (narizes de cera que serviram para protestar contra o Ultimato britânico e aliciar gente para o nascente partido republicano) deixa-me deprimido e com a desagradável sensação de parecer ainda mais velho do que na realidade sou, e já não sou, ahimé, nenhuma novidade. Todavia, persisto, contrariando o meu lado de velho do Restelo, a afirmar como no quadro maravilhoso de Rouault “demain sera beau disait le naufragé”.

*na estampa: “demain sera beau disait le naufragé”, gravura 11ª de Miserere (série de cerca de 50 gravuras publicada nos anos 20) (Georges Rouault , 1851-1958)