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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 447

d'oliveira, 03.12.21

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Anda nem dobrámos o Natal

 

mcr, 4/12/21

 

Os jornais, mas não só, já navegam a pleno vapor no eventual aquário do Bloco central. Não sei se é vontade de esquecer a geringonça (mas os seus efeitos irão sentir-se durante bastante tempo...) ou se é para esconjurar o perigo  de ver o dr. Rio  a meter o bedelho na governação.

Aqui para nós, e muito à puridade, o exercício parece fútil.

A menos que se faça tábua rasa do efeito Rio no actual PSD/PPD,  da vitória sobre certas zonas do aparelho, da estratégia dos actuais vencidos (que se não limitam a Rangel)e do programa eleitoral bem como da constituição das listas  onde, seguramente, haverá fortes alterações .

Por outro lado, da banda do PS também provavelmente haverá novidades . O simples facto da geringonça ter soçobrado no mar revolto do Orçamento implica não só reflexão mas seguramente uma recomposição da relação de força interna.

Todavia, nada disto, parece afectar a ideia (que vai fazendo o seu caminho) de que estamos fatalmente virados para um bloco central.

Não faço parte do grupo estrídulo que, à simples menção do facto, desata em alta grita. E, se me ativesse ao que considero ser imperioso no que toca a correcções do rumo, a adaptação aos novos tempos, à diminuição da dívida,  então quase o consideraria imperioso.

A vida política portuguesa, ou aquilo que passa por tal, não pode estar sujeita à boa vontade de grupos marginais, de reduzido peso eleitoral (de resto concentrado em pequeníssimas zonas urbanas) . A prova dos nove, se porventura é verdade que, por exemplo, o BE vai apresentar um programa fortemente centrado nas propostas que não foram aceites pelo PS, será tirada em finais de Janeiro.

Não sou futurólogo mas tenho por certo que o BE vai obter menos votos e menos deputados o que provará o meu ponto de vista.

O PC terá também uma tarefa difícil: trata-se de “aguentar” o território ca vez mais pequeno que tem, de perder o menor número devotos possível- Todavia, o peso deste parido, está mais nas forças sindicais que controla do que numa perdida aldeia alentejana que viu partir os novos e vê morrer os velhos.

Quanto à Direita, se parece possível à IL aumentar o seu quinhão (de todo o modo nunca será demasiado) já o Chega pode ter chegado a um impasse. Primeiro o voto útil no PSD, depois, a conduta errática do líder supremo, uma espécie de “conducator” solitário e messiânico  que subitamente vê aparecer (mesmo que exíguo) um grupo que o contesta. Aliás, a rebeldia do deputado açoriano revela que o gosto pelo poder e as fidelidades regionais mandam mais do que ordens d cúpula que não só não tinham razão deser mas que provavelmente conduziriam a um desastre caso houvesse eleições regionais por via da derrota da proposta orçamental.

No meio disto tudo, só o CDS parece imprevisível. Não por ser dirigido por um rapazola que ainda não percebeu que o partido não é jotinha onde se educara politicamente, mas apenas porque não se vê qual o peso da desmobilização interna, da fuga de militantes de peso, da crítica de antigos dirigentes. A proximidade da IL e mesmo do Chega poderão ter efeitos perigosos para uma formação que vê a sua continuidade mais do que hipotecada a uma coligação com o PSD.

No entanto tudo isto  é visto a longa distância e, mesmo que não se prevejam grandes alterações, estamos a sois longos e invernosos meses das eleições. E com pandemia pelo meio, sem se perceber bem como serão os próximos dias e semanas.

Na vinheta: o pai natal traz prendas? para quem? Ou o sao vem apenas cheio de promessas, como as da ferrovia?

 

 

 

au bonheur des dames 446

d'oliveira, 02.12.21

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Enquanto é possível

mcr, 3 -12-21

 

eu não percebo nada, rigorosamente nada, de saúde, muito menos dessa bicheza horrenda que no anda a desassossegar.  Todavia, a idade, alguma experiência e outro tanto de desconfiança nos poderes públicos, fazem-me antecipar a visita natalícia à Mãe centenária mas arguta.

Pelo sim pelo não é já este fim de semana que avanço até às paragens eventualmente mais clementes (meteorologicamente falando) de Oeiras.

Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e eu bem me lembro do natal passado e não estou para arriscar.

 

De longada até Lisboa, visita breve à feira dos alfarrabistas,  beijinhos e abraços à família e até Janeiro, esperando que tudo corra pelo melhor até lá.

O leitor JMM com quem havia uma vaga combinação de encontro, vai estar atento ao correio da próxima semana porquanto o livrinho que eu lhe levaria em mão seguirá aos inseguros cuidados dos CTT.

Eu nessa gente não me fio. Perdeu-se uma encomenda vinda de França (livros, claro...) e apesar das minhas reclamações, nada. Inventaram primeiro uma entrega a uma “elisabete” (sic) depois a outra com menos letras e com a pandemia a coisa desapareceu do radar. Portanto, o livro com todas as estampas da Enciclopédia ira registado. À cautela, e à boleia do blog, recomendo que me envie de novo a direcção pois comigo nunca é garantido que eu tenha a direcção à mão. Costumo guardar tão bem as coisas que depois só por abençoado acaso as encontro! 

E já que abusei da paciência dos leitores ao enviar correspondência privada por este meio, aproveito a deixa para tentar saber se um segundo leitor, interessado em bibliografia de temática moçambicana ronda por aí. É que tenho um forte lote de boletins da Sociedade de Estudos de Moçambique para lhe dar em troca de um mirífico 1º volume da História dos Caminhos de Ferro de Moçambique (para o que me havia de dar!...) . Também, neste caso, terei perdido o mail desse leitor

Na gigantesca e quase impossível tarefa de reorganizar a minha biblioteca, dar destino a livros repetidos, arranjar espaço para outros recentes u agora mais interessantes, tenho descoberto títulos de que, de todo, não me lembrava ou que considerava desaparecidos. Neste último caso, suspeito que alguma empregada no afã descabido de arrumar, limpar ou tornar mais agradável a vista das estantes,os terá colocado noutro sítio. Numa biblioteca organizada por tipo de literatura, ou autor e ordem alfabética basta mudar um livro de sítio para se passarem anos sem o encontrar. De outros igualmente desaparecidos  sem dar cavaco nem vale a pena falar: empréstimos a criaturas distraídas ou, pior, amigas do alheio, e eis que uma obra deixa de estar presente.

Também é verdade, neste ultimo caso que, um grande e desaparecido amigo tinha por hábito levar ( e restituir) montes de livros. Era, porém, alguém de seu natural desarrumado e a mulher ou a empregada passavam a vida a arrumar-lhe os pertences espalhados ao Deus dará. Alguns dos meus livrinhos andaram assim clandestinos nas estantes desse querido  companheiro de bridge desde Coimbra. Depois de morto, e durante alguns anos, a viúva aparecia com ar contristado com mais um livro encontrado. Ao todo ter-me-á entregue dez ou onze. Era o regresso do filho pródigo e permitia-nos a mim e à viúva conversar largas horas, chorar um pouco aquele alucinado leitor morto num ano  (o pior de que me lembro)em que perdi mais dois outros íntimos amigos.

À medida em que se envelhece tornam-se naturais estes desaparecimentos. Às tantas, olhando-nos ao espelho apercebemo-nos que somos meros sobreviventes, passeantes solitários num mundo que começa a tornar-se estranho e menos amável.

E a verificar a terrível verdade dos enterros: “agora só nos encontramos nestas ocasiões”,

costuma-se dizer. E, raios me partam, é verdade.

Entretanto, amigos a quem prometi entregar livros, estejam descansados que estes a que me referi tenho a firme intenção de cumprir a minha promessa

*a vinheta: imagem enviada pela Maria A, amiga de quem sou eternamente devedor.

au bonheur des dames 445

d'oliveira, 01.12.21

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sofreguidão legiferante

mcr, 1-12-21

 

o Presidente da República vetou a lei da eutanásia. Entre outros argumentos, avançou a ideia de que a pressa em arrumar tal questão, levada a cabo por uma assembleia em agonia, não era boa conselheira.

Não serei eu, a meu pesar, quem o irá contradizer. Tudo indica que a maioria pro eutanásia, depois de se recusar a ouvir o Conselho de Ética e mais algumas vozes, alegadamente autorizadas, temendo que as próximas eleições introduzam alterações profundas naquele escasso corpus legislativo, desatou a correr para impor a nova lei.

O PR poderia pois estar à espera de uma outra maioria, desta feita hostil à lei. Do doutor Rebelo de Sousa pode esperar-se tudo pelo que o argumento não é despiciendo.

Pessoalmente, sempre fui de opinião que esta questão, fracturante por um lado e pouco mobilizadora por outro, deveria ser resolvida por referendo. Sei que há dificuldades na formulação da questão a apresentar ao povo mas isso não reforça a ideia de que duas ou três centenas de preopinantes, eleitos à molhada  (o que significa que nem sequer se podem lealmente arrogar da presunção de representarem os respectivos círculos eleitorais -pelo menos o s maiores  -e os mais decisivos porque urbanos e eventualmente mais progressistas-) tenham mais visão e possibilidades de escolha do que um par de milhões de portugueses.

Dito isto , insisto também que, num país onde é irrisório o número de pessoas que aderiram ao testamento vital, entendo a discussão apressada e feita às três pancadas. Algumas luminárias insistem que esta é uma vexata quaestio com vinte e seis anos de existência.

Não é bem assim. De facto a coisa foi apresentada há duas décadas e meia mas nunca houve uma discussão constante, continuada nem nada que a isso se pareça. De quando em quando havia um afloramento da discussão, apareciam os do costume mas nunca houve, como – num assunto tão grave e importante – uma mobilização sequer modesta da opinião pública.

E mesmo agora, a coisa só superficialmente agitou as águas paradas da política nacional.

Dir-se-á que a política é feita por quem se interessa, o que é uma verdade como um punho. Mas persisto em considerar que tudo isto foi abafado , et pour cause, por outras e mais importantes pela actualidade imediata, questões. 

Enfim, esperemos que das próximas eleições saia a luz, que haja uma epifania que desperte não digo multidões mas um número significativo de interessados que dêm à questão a sua verdadeira e esquecida característica: algo puramente sanitário e só moderadamente ideológico.

Sei que persigo o inimaginável mas nasci assim e agora só o caixão me servirá de última razão.

 

-um aparte, necessário: não reli o meu texto sobre Rui Rio mas, antes mesmo de o fazer, devo dizer que nunca previ a sua vitória. Mesmo se, conhecendo a criatura, soubesse que o homem é “resiliente” e ganha batalhas impossíveis. Não vou agourar e augurar uma surpresa para o final de Janeiro mas não cairei para o lado fulminado pelo espanto se ele ganhar a Costa. Seria, de certo modo, divertido mesmo se nestas coisas a diversão seja de mau tom.

Outro: celebra-se hoje o dia da Restauração. Durante uns tempos houve quem o devolvesse ao limbo mas o bom senso imperou: As datas nada significam mas, as pessoas gostam delas nem que seja pela hipótese de haver um feriado. 1 de Dezembro não vale menos que 10 de Outubro e mesmo que 25 de Abril. São momentos apenas simbólicos mas que seria de nós se os não tivéssemos?

Não tenho saudades dos festejos a que, em rapaz,  fui obrigado a associar-me  e disso já aqui dei conta. Também não sou fã da Padroeira mas percebo que para muita gente o dia 8 próximo seja um dia de especial festa. Eu, aliás, sempre o associei ao Dia da Mãe, outra data que tem andado aos baldões. E ainda hoje, é o dia em que telefono à mater augusta a dizer-lhe duas banalidades carinhosas. Ela gosta...

au bonheur des dames 444

d'oliveira, 29.11.21

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Mulher. Negra. Artista de variedades. Resistente. Heroína.

No Pantheon !

 

Eu creio que alguma vez aqui terei escrito sobre Josephine Baker, uma grande senhora do music hall francês, cidadã de duas pátrias, resistente quando isso implicava perigo de morte, mãe adoptiva de uma boa dúzia de crianças de várias cores, raças e credos, em suma um símbolo de tudo o que conforta a alma do cronista e, supõe-se, de muitos leitores.

Resumindo, JB foi uma talentosa dançarina de burlesque, negra e americana que cedo percebeu que na sua pátria não era mais do que uma “nigger”. Desandou , como aliás muitos dos melhores nomes do jazz americano para as mais clementes paisagens europeias, fundamentalmente para França onde em pouco tempo se tornou a coqueluche  do tout Paris de entre guerras. Vibrante, inteligente, sensual e talentosa ousou tudo e tudo lhe correu de feição. Multidões aguardavam-na nas digressões por capitais europeias, Viena e Berlin incluídas. É verdade que com ela vinha um perfume de escândalo, de nudez, de “bal négre”. Mas tudo isso revestido do seu extraordinário talento, da sua voz (cantava muito bem) e do seu imenso humor.

Por duas ou três vezes tentou regressar aos Estados Unidos de onde o racismo dominante a expulsava.

Quando a guerra chegou, estava no auge da fama e disso bem se aproveitou para, militando na Resistência (foi uma gaulista da primeira hora, a hora dos bravos, dos mortos e dos heróis), e nas suas deslocações artísticas servia de correio importantíssimo da França Livre.

Quando estava em casa, um castelo, diga-se de passagem, acolhia judeus fugidos e aviadores aliados derrubados e em fuga. A todos protegeu desvelada  e corajosamente. No final da guerra, ei-la alvo  das melhores condecorações  francesas, (tornara-se entretanto cidadã francesa)  E foi assim, fardada como tinha direito que, compareceu ao lado de Martin Luther King na memorável jornada de Washington. Compareceu e foi a única mulher a discursar!

Não vou fazer aqui a biografia desta extraordinária artista de variedades  que hoje é nome de rua, de estação de metro, sei lá do que mais.

Entra, agora, no Pantheon  por pleno direito. E acarinhada pelo reconhecimento unânime dos franceses e lembrança do Presidente Macron. Os grandes cabarets de Paris estão em festa, como se esta entrada na imortalidade oficial uma vez mais celebrasse Paris, a alegria de viver a par da honra, da dignidade, da coragem.

 

 

 

 

 

au bonheur des dames 443

d'oliveira, 25.11.21

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Isto é gozar com o pagode!

mcr, 25-11-21

 

O sr. Rendeiro e o seu ainda advogado devem ter uma curiosa e diferente percepção do português que falamos. Vejamos:

O prófugo (andava há anos com esta palavra engatilhada; finalmente vou usá-la!) banqueiro acha-se vítima de uma monstruosa conspiração, jura que vai pôr o Estado em tribunal e avisa que só regressará à ditosa pátria bem amada se o Presidente da República o indultar. Queixa, ameaça e condição!

A peregrina ideia de, depois de condenado e com mais uns processos às costas, pôr o Estado em Tribunal só pode ser paranoia pura, loucura mansa, estupidez crassa /ele que escolha...)

Propor um indulto para si próprio eis outra aberrante ideia apropriada provavelmente a um estado temporário ou definitivo de doidice ou apenas fruto de um fraco conhecimento desse expediente.

A criatura deve julgar que a pátria e, sobretudo, os que ele vigarizou, está fervorosamente à espera do seu regresso não num dia de nevoeiro mas de sol resplandecente. Tirando os juízes que o condenaram e os beleguins que o poderiam gostosamente conduzir a uma enxovia, não se vê mais nenhum interessado na sua presença. Nem sequer os vizinhos da quinta Patiño ou as três “cadelinhas, três amores” da esposa amantíssima que não conseguia separar-se dos bichinhos...

E o distinto advogado que “não sabe em que país está o cliente mesmo que confirme ter com ele conferenciado várias vezes recentemente?

O surpreendente causídico indignou-se por o cliente ter afirmado que foi industriado pelo advogado quanto à fuga, processos de a realizar e países a que se acolher.

O eminente membro do foro acha naturalíssimo ensinar as legislações mais ou menos simpáticas de países igualmente acolhedores onde um condenado a pena de prisão se possa acolher. Nõ lhe passou pela cabecinha sonhadora que essas informações servissem para o seu atento ouvinte escolher local seguro onde se esconder e espacpar da mão justiceira que o tinha na mira.

A ingenuidade deste jurista prova bem que o estado de catatónica inocência existe e é estimado e preservado mesmo no obscuro e difícil mundo da advocacia.

De todo o modo, o advogado já anunciou que irá deixar de representar o sr Rendeiro por este o difamado afirmando que foi ele, advogado, a tratar de todos os pormenores da fuga.

A ver vamos quando o fará. Porventura só depois de receber os devidos honorários pelos seus inestimáveis serviços jurídicos mesmo se a indicação de países benevolamente tolerantes com criminosos condenados pareça exceder o âmbito das competências da defesa...

“já vi tudo!”, gritava o ceguinho depois de lhe atirarem com um penico devidamente cheio do que  é usual meter em tal continente.

Rendeiro, por um lado e o agora seu ex-advogado também. E nós na plateia espantados com tudo isto que nos é oferecido pela novíssima CNN em português.

Em boa verdade vos digo, vivemos num tempo espantoso.   

(ao pé disto, as aventuras rocambolescas do  futebol, do seu opaco mundo, os dinheiros que por lá andam aos baldões, é mera crónica para revistas cor de rosa. DE todo o modo, ainda vamos ver que também ali, é tudo boa gente, pessoal sacrificado, ao serviço do bem e do desporto nacional. E condecorado, claro está por quem condecora a torto e a direito...)

au bonheur des dames 442

d'oliveira, 24.11.21

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404 !!!

mcr, 24-11-21

 

 

Calma, leitores mais supersticiosos! 404 ainda não é o 666 número diabólico por excelência, como a sapientíssima igreja grega firma.

404 é um mau número mas meramente nacional. É, ou era há poucos dias, o número total de médicos que abandonaram o SNS desde Maio deste ano.

E abandonaram aquele utilíssimo instrumento por várias razões que vão desde a falta contínua de meios, ao grotesco número de horas extraordinárias que lhes cai em cima, às remunerações, ao estatuto medíocre da profissão, ao custo de vida em certa cidades e zonas (Lisboa e Algarve), ao comportamento errático do Ministério, enfim a quase tudo.

Interrogado o MS sobre esta debandada tremenda, disse nada. Ou disse duas parvoejadas piores ainda do que silêncio envergonhado com que deveria encarar este naufrágio.

E, notem bem, os “desaparecidos em combate” não atiram as culpas à pandemia onde se portaram com incalculável coragem e dedicação. Simplesmente estão fartos.

Cá fora ganham mais, tem mais meios, melhor material, melhores horários, mais tempo para a família e, o que não é despiciendo, melhores remunerações.

Algo está podre no reino da Dinamarca, digo Portugal. A situação rebenta por todas as costuras. Ainda ontem se noticiava que Leiria, uma pequena capital distrital, vi ter um hospital CUF. Isto no mesmo momento m que uma cabazada de directores de serviços pede a demissão no hospital público!

O tema saúde diz-me bastante. Venho de uma família de médicos. Desde o trisavô Ernst Richard, ao bisavô Oskar (esse farmacêutico e inventor de medicamentos), ao meu pai, um João Semana dos que já não se fabricavam, um romântico incurável, sempre com o juramento de Hipócrates nos lábios, ao meu irmão também médico (no SNS até à reforma) à minha cunhada enfermeira e professora na respectiva faculdade. E na geração mais nova há notícia de mais uma estudante de enfermagem.

Pela minha parte limitei-me a ter de estudar, pouco e mal, Medicina Legal e a assistir a um par de autópsias. Mas sou amigo de longa data, desde os tempos de faculdade, de muitos e muitos médicos porque em Coimbra as faculdades estavam todas no mesmo sítio e era fácil, quase obrigatório conhecermos malta de outras faculdades.     

 E a queixa é geral, absoluta, ultrapassando as barreiras partidárias: isto está um caos!

E, já que estou com a mão na massa, vou arriscar uma constatação: a vitória da vacinação deveu-se não só ao inexcedível zelo, generosidade, patriotismo e empenhamento dos profissionais de saúde (todos desde médicos a enfermeiros e restantes agentes) mas ao facto de as Forças Armadas terem emprestado umas dezenas de profissionais para assegurar a logística. Ou seja, enquanto o MS começou por designar uma incompetência tonitruante que andou sempre nos píncaros obscuros da governação sustentada por boys, o descalabro foi tal, as ordens tão confusas, que goi mister recorrer a militares que num prazo de poucos dias puseram a casa em ordem e tudo em pratos limpos.

Por isso convém não misturar a água do banho com o menino acabado de lavar. Foram os da “frente de combate” e a máquina da task force os que nos tornaram, como país, um exemplo.

E não foram poucas as vezes em que a task force teve de se impor à pequena multidão político-sanitária que tentava furar as regras e salvar o coiro, à custa de outras e inermes vítimas do vírus.

E mesmo agora, é o coronel que ainda comanda a pequena força que, felizmente, ficou que se tem esforçado por ultrapassar a confusão de decisões, a falta de comunicação, a errática política ministerial ou dependente (o que vem a ser o mesmo) da DGS.

Eu sou utente (e pago forte e feio!) da ADSE. No auge da pandemia (Fevereiro deste ano), vi-me obrigado a recorrer com urgência absoluta ao serviço de oftalmologia da CUF (e afora, graças às burrices supinas da ADSE do Hospital dos Lusíadas). Em dois dias estava a ser marcada o primeiro par de injecções intra-oculares de que necessitava desesperadamente. Sempre fui atendido a horas, quase ao minuto, sempre recebi antecipadamente, aviso do dia e hora marcados. Ainda ontem lá me telefonaram a relembrar a consulta de amanhã...

Mesmo com a comparticipação da ADSE, sai-me do bolso, claro, mas a verdade é que os meus pobres mas traiçoeiros olhos não pioraram e posso encarar o futuro com alguma relativa tranquilidade. Ainda consigo ler o jornal o que já não é mau. E tudo na horinha certa! Não me marcaram uma consulta para daqui a seis meses, um ano, dois, ou para o dia de S Nunca. Ou para quando estivesse definitivamente cego!...

Pago religiosamente todos os meus impostos. E não são poucos mesmo se pouco é o meu património. Em Portugal a classe média paga à bruta como é sabido. Quero continuar, que remédio!, a pagar o que devo como membro solidário de uma sociedade que em muitos casos se apresenta como insolidária.

Não quero que acabe o SNS, bem pelo contrário. O que, porém, não aceito é que aquilo seja o palco de pequenas vaidades, de criminosas vaidades, de inoperância e desleixo. Não quero que aquilo seja mais um exemplo da triste funçanata pública que é o pasto onde se alimentam partidos que só a engrossam mas nunca por nunca a melhoram ou impõem regras de bom funcionamento. 

Vi, li, fui estudar, os relatórios das PPP no campo da saúde. Como é sabido, graças à independência do Tribunal de Contas – que ainda não foi integralmente domesticado pela máquina partidária- os hospitais públicos que tiveram tais instrumentos provaram que com a gestão meticulosa dos privados, fizeram mais, bastante mais, por menos, bastante menos dinheiro. O saldo final dos últimos três ou quatro hospitais com PPP foi, se bem recordo de 100 milhões de euros mais coisa menos coisa.

A gritaria do BE, do PC e de algumas alucinadas criaturas do PS. Ao pôe em causa tais acordos, deu origem à debandada das privados que se fartaram de ser insultados e acusados. Será bom ir veras contas recentes desses hospitais que entretanto recobraram ao a sua “liberdade” de hospitais públicos. Vai uma aposta, singelo contra dobrado, que as contas já estão outra vez fora de controle?

 

404,agora! Quantos serão amanhã, no fim do mês ou no fim do ano? Alguém se atreve a responder?

 

(ontem as televisões davam conta de várias anomalias mormente nas urgências pediátricas algarvias. Alguém se queixava que os pais assustados logo que a criança espirrava corriam para o hospital. Entupiam o hospital. É verdade mas alguém ja pensou no que é que estes pais aflitos pensam dos restantes serviços (saúde 24; centros de saúde, sei lá o que mais)? E porquê?

É que convinha saber se, no caso das urgências nocturnas – e era disso que se tratava – havia alternativas! E consta que não há!

E convinha saber quais os tempos de espera no Centro de Saúde mesmo de dia. E mais não digo... porque não vale a pena. Entendidos ou preciso de fazer um desenho?)

na vinheta: Amadeo de Sousa Cardozo (não tem que ver com o texto mas é uma bela obra, olá se é!

au bonheur des dames 441

d'oliveira, 23.11.21

“ele” anda por aí

mcr,  22-11-21

 

 

 

O título inspira-se muito no dr. Santana Lopes, um dos cadáveres mais bem conservados da Democracia portuguesa. De facto, o referido cavalheiro mesmo quando derrotado acaba por reaparecer. E numa dessas marés de pouca sorte, depois de um forte castigo dos eleitores, ele comunicou a quem o quis ouvir  que “ia andar por aí”. 

Tanto rondou que voltou à minha martirizada cidade  que assiste desolada às contínuas aventuras e desventuras do PS local. Da primeira vez aquilo cindiu-se em dois e Santana entrou impante. Agora, depois de ter perdido um muito razoável presidente de Câmara, chamado para uma qualquer Secretaria de Estado onde não se notou e onde morreu, eis que Santana numa das suas costumeiras reviravoltas, regressa ao “sítio onde foi feliz” (sic) . E ganhou. Bastaram-lhe as vitórias em duas das catorze freguesias do concelho para voltar a poder sentar o dito cujo no gabinete presidencial. 

Parece que, desta feita, quer pôr a Figueira da Foz no mapa. A ver vamos, como dizia o cego que nele audaciosamente votou.

Porém, o folhetim de hoje não é sobre esse flagelo que assola a pátria há quarenta anos, mais coisa, menos coisa. 

É sobre o  covid que também, pudera não!, ronda e sobre o Ministério da Saúde que por vezes parece ter perdido duas letras (precisamente da segunda sílaba) e estar a tentar transformar-se no “mistério” das indecisões.

Já ontem, o dr. Marques Mendes referiu que ´é difícil perceber a linha de rumo daquela agremiação. Hoje diz uma coisa, amanhã outra, depois dá um saltinho para o lado, boceja qualquer coisa e por aí fora. Desta vez, e como de costume, bolsou mais duas coisas, aumentou o número de pessoas que deveriam ser vacinadas rapidamente (pelo expediente de encurtar o prazo da terceira dose por um lado e por uma qualquer prestidigitação que mete a vacina da Jansen e a rapaziada mais nova.

Entretanto, já tinham fechado um par de centros de vacinação que, parece, deverão reabrir. Uma trapalhada! Marques Mendes piedosamente fala em “erros de comunicação”

Eu acrescentaria, problemas de miopia. Há semanas que por toda essa europa o vírus volta a atacar. E forte e feio! Pelos vistos, e como é triste hábito, ninguém reparou. 

Agora, que o Natal está a um mês de distancia, que os hospitais vão tendo mais internados, eis que a DGS e quem nela manda e superintende, gritam “aqui d9el rei!”

Vá lá que ainda não começaram a acusar a task force residual que todos os dias se vê perante mais problemas. Os militares, como é sabido, não são especialmente queixinhas mas o coronel que comanda aquela missão já foi obrigado a avisar que há que dar meios, tempo e ão atrapalhar o que já. De per si, é complicado. 

As notícias filtradas pela mesmíssima DGS fizeram já afluir aos centros pequenas multidões que, entretanto, se defrontaram com a “falta de regulamentação das medidas anunciadas”. 

Tudo isto, e muito mais que nem vale a pena referir, causa confusão no público, na informação dos mass-media, irrita quem é escorraçado porque, afinal, ainda não é a sua vez.

Dava jeit, seria até simpático, uma palavrinha de conforto às pessoas e um tímido pedido de desculpas pela confusão provocada. Alguém viu isso?

Eu também não!

au bonheur des dames 440

d'oliveira, 20.11.21

Falsa informação

mcr, 20/11/21

 

O sr. Presidente da República é, muitas vezes, mais rápido do que a sua sombra. Uma espécie de Lucky Luke do comentário político!

Há uns dias afirmou sem deixar margem a dúvidas de que, na atitude de reserva do Ministro da Defesa, havia pareceres jurídicos que o impediriam de tornar conhecido dos seus superiores um extravagante situação de tráfico de diamantes levada a cabo por soldados do contingente destacado na República Centro-Africana.

Agora, o mesmíssimo Presidente vem dizer que errou, que não havia pareceres nenhuns, que o Ministro até tinha tido uma visão juridicamente fiável do que deveria ou não deveria comunicar. 

Com base na informação presidencial produzi dois textos onde exprobava a atitude do Ministro. Não só não seria a primeira “argolada” mas sobretudo parecia ser algo de inconcebível.

Afinal não há pareceres, o ministro apenas tinha sabido de dois casos de polícia que só depois cresceram até ao que hoje se sabe.

O Sr. Presidente, sempre generoso e justo (!!!), entendeu justificar o Ministro e dar o caso por encerrado e bem encerrado.  

Ora, não é bem assim. Com base no que Sª Exª o “Comandante Supremo das Forças Armadas” afirmou peremptoriamente eu pari duas crónicas a zupar no magro costado do Ministro. De resto, nem fui só eu, aliás. 

Todavia, na parte que me toca, fui enganado por Sª Exª. 

Toca-me agora, vir a terreiro dizer isso mesmo e penitenciar-me por, uma vez sem exemplo, ter acreditado no antigo inventor de factos políticos. 

É oque faço sem problemas de qualquer espécie. Não embarquei em boatos ou suposições. Muito menos em antipatias pessoais ou políticas mas apenas no que parecia ser uma pungente evidência. 

Vou ter mais cautela, para o futuro e passar cada declaração presidencial, tonitruante ou melíflua por um decanter, quiçá mesmo dois. Todas as cautelas são poucas sobretudo se a fonte das notícias é de bica aberta se prolixa.

E, já agora: a rede faraónica descoberta é mesmo como a descrevem ou afinal aquilo é apenas um grupo de pequena bandidagem? 

 

 

au bonheur des dames 439

d'oliveira, 19.11.21

Baixas no parlamento e não só

mcr, 19/11/21

 

 

Uma série de (alegadas) personalidades já anunciou a sua saída da Assembleia da República. Entre os absolutamente previsíveis figuram deputados do CDS e, neste cao, os mais relevantes e que mais se impuseram na tribuna e junto da opinião pública. O Xiaozinho fica sem gente que fará muita falta ao partido e cuja ausência não beneficiará o medíocre líder actual, 

Eu, sobre o CDS actual, partido que nunca frequentei de perto ou de longe, lembro-me sempre d uma frase: “de vitória em vitória até à derrota final!”

Há, naquela formação pelo menos na sua versão actual uma vaga ideia de que aquilo é uma pequena coluna de lemmings a correr desesperadamente para o precipício. 

As sondagens, valendo o que valem, indicam isso. As urnas dirão se estou ou não certo. 

No PS anunciam-se, hoje, duas baixas. Ferro Rodrigues abandona os trabalhos parlamentares e não se recanditará e a actual Ministra da Justiça também já afirmou que não voltará ao Governo.

Esta senhora, cuja carreira no MJ ficará marcada (generosamente) pela absoluta discrição, terá dito que aquilo (o mester ministerial, não é a sua profissão. Tem toda a razão, não é nem nunca foi. Estes quatro anos foram pontuados por um par de “casos”, basta lembrar o caso da procuradora ultrapassada na “secretaria”  por alguém que teria argumentos que à dita senhora faltavam, a saber, as simpatias de quem mandava.

Quanto a Ferro, é de aplaudir a sua decisão: não foi, nos últimos tempos, um Presidente acima de toda a crítica, desde os apelos futebolísticos em plena pandemia, até ao seu desastrado comportamento face à criatura pestífera do Chega. De cada vez que Ferro o interpelava, o homem ganhava votos e simpatias...

A procissão ainda vai no adro e é provável que à AR faltem ainda mais deputados presentemente em exercício. Quando digo deputados, falo dos que fazem a diferença e nunca dos “levanta e baixa o cu da cadeira à voz de quem manda”. Esses tentarão sofregamente manter o lugar que o “aparelho” lhes outorgou em troca de uma fidelidade canina. 

Ns Ministérios, agora que se anuncia uma forte redução de cargos, era bom que se desse uma varredela valente. Desde o senhor Cabrita, um verdadeiro caso de patologia política, até mais alguns/algumas colegas que fizeram nestes quatro anos mera figura de presença. 

Eu , se a memória me não falha, ouvi/li alguns/algumas a dizer que tinham saudades da sua vida de todos os dias. Se assim é, força, desandem! 

É verdade que ser Ministro não é tarefa de todo o repouso mas também não convém que seja um sacrifício de Tântalo, que diabo. Estar ali a fazer das tripas coração faz mal às vísceras e, sobretudo ao corpo da pátria  que, coitada, assiste ente envergonhada e irritada aos fracos esforços daquela gente. 

Esta crise, que aliás, verifiquei agora, eu previa desde há vários meses, é a oportunidade única de uma boa barrela que deite fora a água do banho sem empandeirar, também, a criança. 

Valeria a pena recomendar aos que vierem duas ou três pequenas coisas. Viajar menos dentro do país. Não vale a pena andar a duzentos à hora para inaugurar uma grua num porto; fazer menos declarações fantasiosas e ambiciosas e prometer apenas o que, na realidade, pode ser  prometido e é factível; assumir responsabilidades sem atirar continuamente as culpas para os anteriores Governos, para os adversários políticos, para a pandemia, ou para o uso imoderado de coca cola. E ouvir com orelhinha atenta o murmúrio manso do povo. É que a mansidão tende a esgotar-se nem que seja a longo prazo.

E ficamos por aqui. 

au bonheur des dames 438

d'oliveira, 18.11.21

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Lá vai o comboio

mcr, 18-11-21

 

Lá vai o comboio
lá vai a'apitar
Lá vai o comboio
p'ra beira do mar

p'ra beira do mar
p'ra beira do rio
e os passageiros
cheiinhos de frio

cheiinhos de frio
cheios de calor
e os passageiros
a tocar
tambor

 

Eu já andava desconfiado com tanta fartura ferroviária e tanta fanfarra pedro-nunista. Pobre, quando a esmola é grande, desconfia e eu, que sonho com viagens cómodas, esperava que das promessas, das garantias, das juras algo saíssede maravilhoso, vá lá, de interessante, enfim de razoável sobre os carris do nosso descontentamento. A montanha pariu um rato se é que não sairá aborto espontâneo.

Os jornais lá confirmam que as coisas estão de novo adiadas para as calendas gregas mesmo se, uma voz trémula avise que será só dois ou três aninhos.

A culpa que, pelos vistos, e por vergonha, já não é de Passos Coelho, vai ser da Europa, da pandemia, do Orçamento,  do ministro das Finanças, da bitola larga (ou da estreita, tanto faz...) da Direita que não governa, enfim de alguém desde que não se aponte ao mais óbvio.

No primeiro governo gringoncista havia um pobre diabo que tinha o cargo de ministro de qualquer coisa ligada aos comboios que andou quatro anos a prometer uma espécie melhorada de “Expresso do Oriente” aos portugueses, gente mais habituada ao vagão jota e, agora, nem a isso.

A criatura foi promovida a deputado europeu e desapareceu do radar nacional. . Poderiam ter-lhe oferecido um comboio elétrico, um relógio de bolso com a imagem dos comboios (estão à venda na internet por +/ -  € 200) mas não. Mandaram-no representar a pátria dos egrégios avós em Bruxelas. Chama-se a isto dar um pontapé no dito cujo mas para cima. Bizarrias!...

E depois veio o actual, o castigador de perninhas de banqueiros teutónicos!

E a populaça, embevecida, perante esta espécie nova de rapazinho pioneiro do Komsomol dos bons velhos tempos, mas prudentemente socialista, arfou de entusiasmo. “É desta que a coisa vai!...”

Lamento muito: não foi. Fica para a próxima legislatura, para a próxima geração, para o dia  de S. Nunca. Aguentem que é serviço.

 

Há nestas histórias sempre algo que intriga: a capacidade de prometer mundos e fundos é, como se vê, grande, gigantesca. A execução é o que é, melhor diria o que não é. Os comboios em Portugal foram há muito votados ao abandono. O mesmo se passa com a infra-estrutura ferroviárias, cai aos pedaços por tudo o que é sítio.

Eu sou do tempo em que na escola (pouco risonha e menos franca ainda) se aprendiam as linhas todas, a do Norte, a do Sul e Sueste, a do Oeste, a da Beira Alta , a do Douro, a do Minho. E tudo com as estações, se calhar até tínhamos de recitar os apeadeiros. Era chato mas a miudagem tem uma memória prodigiosa e aquilo ia de par com os rios e afluentes, todos, claro e o sistema orográfico. Também por inteiro, claro.  Mal, aquilo não me fez. Bem também não garanto mas o ensino era o que era e nunca um menino confundiu o douro com o Guadiana ou o pôs o rio Mira no Minho. É por isso que, quando se fala na linha do Douro, os meninos sobrevivos do meu tempo sabem do que se trata. E sabem que à contínua queda de população no Alto Douro também corresponde o fim das linhas férreas. Ou seja ainda se tornou o interior mais interior por falta de transporte. Agora quem quer (e pode) chama um táxi e paga três ou quatro vezes mais pelo serviço.

Há uns escassos esses, reinaugurou-se um troço de via entre a Covilhã e qualquer sítio não demasiado distante. Durante três dias foi um alvoroço. E era, raios me partam, era a possibilidade de tranquilamente e depressa se ir por pouco dinheiro de um sítio para o  outro. A avetura, porém, parou ali.

Também foi alvo de dezenas de entrevistas e reportagens a reabertura das oficinas da CP. Com operários antigos e despedidos pela mesma CP. Recuperaram comboios inteiros que agora circulam. Não foi um milagre mas tão só a recuperação de um projecto que andou pelos gabinetes ministeriais camuflado e clandestino. E deu para uns quanto se pavonearem sem se dar conta que tinham sido os seus antecessores e camaradas a dar cabo de estruturas que afinal são úteis...

Desta feita coisas que se deveriam ter iniciado em 2020 vão, na melhor e mais duvidosa das hipóteses, arrancar três/quatro anos depoi. O que assusta qualquer um é a naturalidade com que isto é anunciado. E ninguém é chamado à pedra, censurado, processado, demitido. Ninguém!

Fala-se de ligações a Espanha e à Europa que rola sobre carris. Qual a bitola que se vai usar? E quando?

Mistério insondável! Num mundo em que as viagens de avião até distancias de 600 ou 800 km irão acabar não há ninguém por cá que sequer atenda o telefone.

Lá vai o comboio... lá vai ele a apitar... Vai?