Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 613

mcr, 12.02.24

 

 

Unknown.jpeg

breve apontamento carnavalesco

mcr, 12-2-24

a televisão, todas as televisões esfalfam-se para nos mostrar o caricato torrãozinho de açúcar a imitar o carnaval do Rio.

Convenhamos que é tarefa impossível: falta o calor, as escolas de samba, as mulatas, oo delírio e os mecenas que vem do sector mais clandestino da sociedade brasileira.

Também faltam os letristas e os compositores  e a tradição .

Por cá os desfiles são pífios, mesmo se atraem gente, a chuva e o frio chateiamo público e torturam os desfilantes. 

No meio daquela tristura ainda aparecem uns pobres diabos vestidos de mulher  vulgo matrafonas invenção que atinge as raias da pobreza de espírito catatónica. 

E no entanto...

E no entanto há algumas velhas, luzidas, coloridas tradições carnavalescas que se conservaram em Trás-Os-Montes e até mereceram distinção da UNESCO. E, pelos vistos atraem também curiosos que aproveitam para petisca o melhor fumeiro de Portugal e um vinho que pede meças aos melhores. 

Viva Podence, vivam os caretos, vivam os artesãos que fazem as máscaras e os fatos. 

(quando refiro Podence, quero falar de todas as restantes aldeias onde os caretos chocalham)

 

au bonheur des dames 612

mcr, 01.02.24

 

Os educadores do povo

(e dos automobilistas)

 

mcr, 31-1-24

 

No texto anterior ficou por dizer algo que parece evidente: há nos cavalheiros do metrobus e nas pessoas que os apoiam uma clara sanha ao uso do automóvel. Na falta de condiçoes de circulação decentes (e o estreitamento das faixas de rodagem das avenidas do Marechal Gomes da Costa e da Boavista, bem como as modificações já visíveis nos acessos a   esta última não garantem uma melhoria como seria previsível em obras desta dimensão e ambição)poderá pensar-se que há uma deliberada má vontade contra o automóvel.

 

Percebe-se que haja quem julgue o transporte individual o suprassumo do progresso ambiental. Seria bom recordar o transporte marítimo, os aviões, o fabrico de toda a espécie de produtos industriais e, sobretudo, valeria a pena lembrar que o mundo é um só e sem o acordo de mais de metade do mundo (refiro apenas a China, a Índia e toda a África, sem esquecer a Rússia e seu imenso território). Isto não significa que se advogue a inacção mas apenas que neste tipo de obras públicas o bom senso é essencial.

Em tempos que já lá vão o pais assistiu divertido e surpreendido ao aparecimento de um "grande educador do proletariado" indígena , numa das inúmeras capelinhas políticas da extrema Esquerda. Nem o MRPP nem o seu líder, Arnaldo de Matos  (o "educador em questão) perceberam o ridículo desta fantasiosa imitação do pior que a Revolução Cultural (aliás  "grande revolução cultural e proletária)chinesa produziu. 

Obviamente não quero misturar alhos com bugalhos nem sequer comparar os ideólogos das obras do metrobus com as aberrantes denominações políticas mencionadas. Por duas razões: o metrobus é dirigido por uma série de cavalheiros solidamente burgueses e de boys que aí tirocinam para mais altos voos. A segunra é evidente: Arnaldo de Natos que conheci razoavelmente era alguém inteligente mas devorado pela paixão política. Não queria eliminar os automóveis das ruas mas apenas levar os seus utentes aos cumes da revolução utópica que o fintou toda a vida. 

Os metrobuseiros devem acreditar piamente que ao tornar mais dificila circulação automóvel, tornam os portuenses mais felizes mesmo se esta experiência em curso vá sobretudo atingir duas zobs de classe alta e nuito alta. E, bo que toca a população, aqui a percentagem atingida é mínima pelo menso nos dois eixos principais onde se  desenrolará a aventura do novo meio de transporte.

Há neste género de tentativas uma odeia subjacente que é a de "educar" o indigenato local, a populaça. A coisa já foi visível com as leis do taco e da sua venda que, espantosamente, atingiam sobretudo as gentes do interior .Proibir a venda de cigarros nos cafés, ultimos redutos de povoações que viram fugir serviços públicos de toda a espécie, que não estão junto de tabacarias (uma miragem) nem de estações de serviço onde a venda de tabaco e  a de álcool são permitidas!!

Suponho que na mente evangélica da ministra que se lembrou de tal lei estava a imagem horrenda dos malefícios do tabaco (malefícios mesmo e não  da peça de Tchekov, personagem de que a senhora nunca terá ouvido falar) e a bondosa ideia de nos salvar dessas atrocidades. 

De quando em quando o Governo (os governos na generalidade) lembra-se da sua missão de pastorear a grei e toma lá disto. Mais uma lei para nos salvar do inferno. Os fumadores (de que, com infinita saudade, já não faço parte  vai para quase trinta anos) não tem sequer direito a uma salinha de chuto na aldeia perdida entre montes e vales. 

E só ainda andam de automóvel porque depois de uma lei imbecil e salvífica do do clima o Governo caiu e para não enfrentar um milhão de proprietários de carros velhos voltou atrás mandando os seus títeres parlamentares anular a medida. 

Dirão que sou um incrédulo mas aposto um contra dez em como os passeios alargados irão servir de estacionamento aos carros . De certo modo, será um progresso porquanto sempre que subo ou desço a Avenida estão muito carros estacionados em dupla fila, há camiões sempre a descarregar material diverso, os táxis param onde lhes dá na mona para deixar um passageiro e se alguém reclama berram que estão a trabalhar. E isso, essa má criação continuará a existir.

O grande educador da classe operária já morreu, o seu partido está em morte cerebral desde há muito, o proletariado continua a ouvir embevecido as sereias da "reacção" e a sonhar com um totoloto que o livre da sua triste condição  e noutros pequenos partidos exóticos continua a tentação de educar as massas que, indóceis e réprobas votam nos partidos tradicionais ou caem na abstenção. Nos sítios destinados à educação faltam meios, professores, instalações decentes  e as famílias desesperam. mas isso já não é novidade apenas o país que temos.

 

apêndice que nada (ou tudo?)em a ver: as contas públicas de 2023 fecharam com um saldo inesperado de 4.700 milhões de euros. 12% a mais do que o Orçamento previa. Pergunta-se se os autores do mais importante documento político anual são incompetentes, erram contas ou foram apenas traídos por quem devia executar o Orçamento. 12% não é uma surpresa maravilhosa. É uma brutalidade. Saia um educador ou um explicador de matemática para esta gente. Depressa!

 

au bonheur des dames 611

mcr, 31.01.24

 

 

 

 

Unknown.jpeg

ligar o complicador

mcr. 31-1-24

 

 

Um pacote de livros expedido fez na passada segunda feira três semanas chegou finalmente ao destinatário, Hoje, porque ontem o dedicado e diligente carteiro entendeu deixar um papelinho na caixa do correio cominando-me que o fosse levantar hoje numa papelaria. 

Note-se que o devotado trabalhador dos CTT  entrou no prédio e teve a trabalheira de ir colocar o aviso cominatório na minha caixa de correio. Poderia ter tocado para o meu apartamento ou mesmo, esforço tremendo ter tomado o elevador para me entregar os livros. 

Eu sei que usar o elevador (e no prédio são 4) é algo de ousado, de perigoso, de maçador mas, enfim, já que cá estava dentro... 

Vinte e dois dias  para cobrir a distância Lisboa Porto parece-me um feliz regresso ao sec XVIII no tempo do senhor Rei D João V  quando as estradas eram perigosas e as pessoas prudentes preferiam fazer a viagem de barco.

Devo dizer que, por incúria da vendedora, os livros (que eram razoavelmente valiosos ) não vinham com registo. Mesmo assim, mesmo que os CTT entendam que essa falta deve ser punida, vinte e dois dias, três semanas passante, parece punição exagerada sobretudo para o destinatário.

Todavia, os livros chegaram o que, dado alguns antecedentes, já foi uma proeza. Com efeito, uma encomenda de França, da Amazon também de livros e no valor de cerca de 250 euros nunca me chegou às mãos. Quando, avidado pelo vendedor, reclamei  os CTT jraram que tinham entregue o embrulho a uma tal Elisabete (sic). Na falta de Elisabete  na minha morada voltaram à carga com uma Elisa, Nem esse desconto de letras serviu porque aqui nunca viveu nenhuma Elisa. A pandemia meteu-se de permeio e já não disseram mais nada, Provavelmente ainda tentariam, sempre na mesma lógica de redução do nome, com alguma Eva.  Nada! 

Com este antecedente, foi uma vitória ter recebido os livros. Mesmo sem registo. Vivam os CTT, abnegados recoveiros do sec.XXI!

 

Na cidade do Porto, o Metro ou quem nele manda entrou numa euforia de obras que pôs o trânsito em pantanas. Bão contentes com obras numas linhas multicores , eis que descobriram a Avenida da Boavista. Melhor dizendo, redescobriram-na pois já há um par de anos tinham olhado embevecidos para uma artéria que liga o centro (ou quase...) ao mar. Vencidos na primeira investida por um movimento cidadão que explicou e provou que aquilo era um desparrame de dinheiro para um escasso número de futuros utentes, , roeram o freio mas entenderam voltar à carga. E agora com um "metrobus" que, a meio do caminho se divide em dois percursos de também duvidosa utilidade.

E vai de começar a obra. E de começarem os atrasos, claro está. A avenida está num estado caótico que só não é horrendo porque felizmente foi planeada com largura. 

Do que está feito verifica-se que se manterão os dois sentidos e no meio a passagem do metrobus.

Por razões que ninguém entende, os cavalheiros metrobusianos entenderam complicar, reduzindo  a sua largura os acessos laterais a outra ruas. Tmbém acharam que deviam sacrificar pequenas zonas reivadas e/ou  arborizadas. Iremos ter, em contrapartida passeios mais largos, faixas de rodagem mais estreitas e ainda é discutida a questão das paragens. Tudo isto com o tradicional atraso nacional e indígena. Porém, mesmo que os trabalgos se concluam em Julho, o metrobus não funcionará porque os veículos só chegaão (é o jornal que o afirma em duas inteiras páginas!) lá par o fim do ano!

Ou seja ,seis meses depois da alegada (e usada!) previsão do fim das obras. E provavelmente um ano ou ainda mais se os prazos iniciais se cumprissem.

No meio desta feira de vaidades, convém sublinhar que a partir do meio do percurso, o metrobus servira duas zonas de vivendas isoladas por jardins  seja em que sentido for. Imagino a alegria dos proprietários ricos dessas mansões  a babarem-se de gozo com a possibilidade de, uma que outra vez, deixarem os carros na garagem e misturarem-se com o povo que, no caso, também é sobretudo classe média alta! 

Vai ser um fartote! Mas vamos ficar parecidos com Nantes em França. Poderia pensar-se em Lyon, Marselha ou Bordéus, quiçá, mesmo, Toulouse, mas só nos cabe Nantes...

Au bonheur des dames 610

mcr, 26.01.24

 

 

images.jpeg

noutra esplanada, o mesmo sol de inverno e os anos 60 a insistirem 

mcr. 26-1-24

 

Faço parte da minoria que ainda lê jornais pelo que as culpas da crise da imprensa escrita não me atingem se bem que me preocupem e aflijam  mais do que as peripécias da vida política nacional que, justamente, vegeta por falta de leitores atentos e capazes de se indignar.

O "Público" de hoje (26 de Janeiro) ataca em várias frentes um caudal de recordações  que me remete para os anos da minha inquieta juventude, essa década que persiste  como se verá na  continuação deste arrazoado.

Comecemos, fugindo a qualquer cronologia, com a notícia da morte de Melanie, uma cantora que hoje estará, por cá, terra desmemoriada, esquecida mas que brilhou intensamente nesses sessentas e culminou no Woodstock de 69, num dia de chuva à luz de milhares de velas de resistentes ao tempo que fazia. Melanie cantava "Lay down" que mais tarde terá passado a "lay down, canfles in the air)" devido justamente a esse dia glorioso no festival dos festivais cuja música ainda hoje é ouvida em múltiplas rádios.

Longe de casa, é-me impossível verificar se os seus LP ainda constam da minha discoteca ou se,  por razões alheias à minha vontade, habitam outros imerecidos lares. 

E já que me dá vontade de saber por onde andam peças que, por vezes com sacrifício,  comprei deu-me para  ir por um grande livro de James Baldwin, cuja leitura devo à Maria João Delgado,  "The fire next time" ou, agora, em recentíssima tradução, "Da próxima vez o fogo"  (Alfaguuara). Não foi o primeiro livro sobre a questão negra americana que li  (lembro-me do grande enorme, Richard Wrigh, "Os filhos do pai Tomás", "Filho nativo;  de Ralph Ellison, "O homem invisível" e de Landgston Hughes de que li uma antologia de poemas e a versão francesa do "Simple" que é simplesmente admirável. E para terminar um autor branco: Erskine Caldwell e o poderoso "Motim em Julho". Tudo isto porque o livro de Baldwin é agora traduzido para português.

Outra tradução: "Dersu  Usala" de Vladimir Arseniev. Foi no Festival de Cinema da Figueira que tive a sorte de ver o filme de Kurosawa com o mesmo título. Neste festival que revelou grandes cineastas e deu oportunidade a muitos realizadores portugueses,  conheci um bom par de amigos de que destaco o Francisco  Belard, fino conhecedor da melhor literatura  e cinema do nosso comum tempo e que bem poderia publicar uma antologia dos seus mais significativos textos aparecidos no "Expresso"

Foi por essa altura, início de 70 que, neste festival. tive  oportunidade de conhecer o Zé Fonseca e Costa,  o Lauro António (que com o Eduardo Prado Coelho, outro excelente amigo) já por cá não estão. 

Vivos que eu saiba ainda por aí andam o Eduardo Geada e o Luís Filipe Rocha mas há muito que os não vejo. Como também não verei a Marguerite Duras que também esteve na Figueira e de quem guardo uma imagem estranha e fortemente alcoolizada.  Por isso tardei bastante tempo em me aproximar do seu universo literário que agora tenho em muito boa conta. 

Ainda no mesmo "Público" deparei-me com mais um belo texto de Ana Cristina Leonardo que refere dois outros autores que comecei a ler nesses sessentas: Borges e Mrguerite Yourcenar. Para não variar, agora apenas vivem pelos extraordinários livros que nos deixaram.

Porém, deixei para o fim deste desfiar de memórias de descobertas a razão que tudo isto une. Uma leitora que, pelos vistos se dedica à escavação arqueológica, escreve-me sobre um texto meu publicado em 2006 (e não em 2005 como ela refere) e que tem por base mesmo que o não refira o "When I'm sixty four" e que se chamou "carta a um amigo que entra  na 3ª idade, Diário Político  33, 30 de  novembro de 2006

 A dita entrada  como se sabe ocorria aos 65 e não aos 64 como os Beatles eventualmente anunciavam. Ora este fraco rosário de lembranças literárias, musicais e cinéfilas tem por base o , para mim, ano de todos os assombros, 1960 altura em que, carregado de ilusões e ingenuidade cheguei à Faculdade de Direito de Coimbra.

 Há exactamente 64 anos...

 

vai esta em memória da prima Maria Manuel Viana, e do filho,  Manuel Viana Abrunhosa., 

E com um abraço, ao felizmente vivo, Francisco Bélard, amigo há mais de cinquenta anos e que muita falta  faz ao jornalismo cultural e de opinião.

 

 

na vinheta: Langston Hugres, um grande escritor, um lutador pelos direitos civis e um grande americano. Para quando uma edição portuguesa do  "The best of Simple" ?   

au bonheur des dames 609

mcr, 06.12.23

 Arre que está frio

mcr, 6-12-23

 

Hoje na esplanada toda a gente dizia que o frio era de rachar. Em boa verdade, não se enganavam. Às primeiras horas da manhã, leia-se das dez para as onze,  os telemóveis andavam entre os 9 e os 10 graus.  Havia um aquecedor pequeno e a funcionar no nível mais baixo  ou seja, para aquecer  as 10/!2 mesas ainda era preciso esperar mais uma ou duas horas.

Eu, friorento, me confesso: estava bem artilhado de roupa ( o adjectivo foi-me fornecido por um cavalheiro militar, major reformado, que pela manhã faz as palavras cruzadas do jornal mesmo antes de o ler. No resto é uma excelente criatura e, cereja no bolo, um bom jogador de bridge... coisa que era comum entre os oficiais de antigamente).

Com a idade a resistência ao frio diminuiu. Felizmente posso dar-me ao luxo de comprar roupa quente e suficiente para enfrentar o "briol" que, ao que dizem vem da Sibéria. Bem se vê que dali nem bom vento nem bom casamento...mesmo que isso dantes se aplicava a Espanha.

De todo o modo, os restantes paroquianos das manhãs estavam todos bem agasalhados inclusive os mais novos e os empregados que nos iam deixando cafés e demais bebidas quentes. 

Isto, no dizer, de um artista plástico também já bem entrado em anos, era Portugal por uma pena. Verões abrasadores e agora quase sem se dar por isso frios invernos mesmo se para o inverno ainda faltem quinze dias.

Do resto do mundo chegam imagens tremendas: cheias nas Filipinas e no sul d Índia, nevões homéricos por essa Europa fora. Lembrei-me logo do primeiro nevão que passei em Berlin no longínquo ano de setenta. A João, minha mulher nessa época enlouqueceu e saiu para o pátio da residência estudantil com um casacão vermelho e até se rebolou na neve. Eu, mais fleumático e sem casaco de qualquer cor limitei-me a ver os flocos caírem enquanto fumava um par de cigarros. Depois, retirei-me pra sítio menos refrescante abandonando a legítima  à neve que caía ininterrupta

Ou snt les neiges d'antan?  

(e onde estará a muito casta Heloísa por causa da qual Pierre Esbaillart foi castrado?)

Como é que me fui lembrar de Villon, esse poeta três vezes maldito e mil outras glorificado por inteiras gerações de amadores da poesia e estúrdios rapazolas que devotaram parte da sua oisive jeunesse à gaudriole tão propícia a quem só tem pela frente o futuro e a aventura?

O que faz o inverno antecipado a quem já entrado no inverno da sua vida relembra alvoroçado  uma mocidade longínqua mesmo se balizada pelos tempos escuros 

(e aqui poderia citar-se Brecht que roga aos humanos que depois dele vierem alguma piedosa compreensão pela sua sacrificada geração)?

Aqui chegados (cite-se por uma e única vez o dr Marques Mendes) leitoras haverá que desconfiam (e com que razão!...) do cronista que se deixa levar por uma qualquer secreta volúpia invernal e desata a tentar perder-se nos poetas perdidos no frio dos tempos e na desatenção das gentes como é o caso de Augusto Gil, presença constante nos manuais de leitura de antigamente e que, hoje, só se encontra em raros alfarrabistas...

Aprendia-se de cor a balada da neve que é, digam lá o que disserem, um belo poema solidamente construído mesmo, se eventualmente, aquela oficina literária fosse, também ela "branca e leve, branca e fria"...

Já nem sei se a li e ouvi na escola de Buarcos  ou só depois no pequeno liceu da Figueira. O que tenho por vividamente certo e recordado é que ao irmos para a escola havia no inverno uma finíssima camada de gelo nas poças de água da chuva naqueles caminhos citadinos mas maltratados pela incúria municipal.

Leitoras e leitores o frio ataca-me os humores e as meninges. Há que fazer boa cara ao inverno que entra de rompante, seguir o antigo conselho "abifa-te, abafa-te e avinha-te" que os tempos estão difíceis como também outro poeta, desta vez o Ferré cantava. 

Vejo na televisão terras alemãs cobertas de neve, entre elas Berlin ou Munique onde passei tempos amáveis e recordo que na Baviera, ou pelo menos em Murnau, quando alguém desatava num discurso descosido como este, logo se comentava que o Fohn, um vento do sul, tinha feito mais uma vítima.

Pelos vistos, neste caso, bastou ver a cidade coberta de neve 

 

 

au bonheur des dames 608

mcr, 25.11.23

 

 

 

 

Unknown.jpeg

Mário Brochado Coelho

mcr, 25-11-23

 

Conheci o Mário num longínquo Outubro de 61, em Coimbra, no Teatro Avenida, por ocasião do único comício autorizado da Oposição por altura das eleições para a "Assembleia Nacional". 

Nessa altura, o jovem MBC, estudante de Direito, entendeu gritar por uma oposição católica e progressista. Foi a primeira vez que vi um "católico progressista" e mal eu sabia que das depois havíamos de nos cruzar no CITAC, um dos dois grupos de teatro universitário  onde, o seu nome proposto para a Direcção concitou uma pequena oposição justamente por ele ser assumidamente católico.

De todo o modo, mesmo tendo deixado a Igreja, entendi que era quase admirável haver católicos na oposição a Salazar. Data pois desse tempo tempestuoso uma amizade de mais de sessenta anos.

No ano seguinte, 1962, a crise académica volta a juntar-nos, ou melhor continua a juntar-nos na mesma barricada. Tive mais sorte do que ele pois enquanto fui preso (cm mais 43 companheiros) para Caxias por um mês, ele fez parte dos 32 estudantes expulsos da Universidade por períodos variáveis. A ele tocaram-lhe 30 meses.

Como tantos outros da mesma geração, MBC fez parte de todas as iniciativas cidadãs e democráticas que, desde a sua época de estudante até ao 25 de Abril, tentaram tornar menos cinzento, menos triste e menos violento este país. Relevo tão só a permanente disponibilidade para defender presos políticos e/ou oponentes ao Estado Novo como também, foi um dos mais activos membros da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (outra razão para lhe estar pessoal e directamente agradecido...). Tive oportunidade de o acompanhar na primeira destas iniciativas e bastante me ajudou nos primeiros processos em que intervim como defensor de estudantes e de oposicionistas nos tribunais miseráveis em que estes eram alegadamente julgados. Aliás, depois da minha quarta (e pior) detenção em Caxias resolvi passar uma procuração em seu nome para me defender caso voltasse a ser preso. Só lhe entreguei essa procuração muitos anos depois porque, passada em inícios de 73, nunca foi preciso acioná-la.

Logo que cheguei ao Porto e comecei a minha vida profissional reatei as relações interrompidas depois da sua saída de Coimbra. Melhor dizendo tornaram-se mais fortes e frequentes e, como não podia deixar de ser, tiveram os seus pequenos momentos conspirativos. Durante algum tempo, sempre qu ia a Paris trazia-lhe farta cópia de publicações políticas, a maior parte delas vindas da embaixada da China ou de livraria afectas ao chamado movimento marxista-leninista. quando resolvi traduzir e policopiar alguns desses documentos que eu mesmo financiava e distribuía, o Mário era quase sempre o primeiro a recebê-los. Não sei se, alguma vez, percebeu qual era proveniência desses textos e só mais tarde percebi que também ele tinha acesso à documentação distribuído por Pequim e que terá ajudado a moldar parte da sua posterior acção política que já não acompanhei por, entretanto, ter escolhido outros rumos, coisa que, de resto nunca nos incomodou. 

Depois da Revolução, fui convidado para presidir a uma Caixa de Previdência sob indicação dele (e de Mário Cal Brandão) facto que também só muito mais tarde descobri. Quando finalmente falámos sobre isso, o Mário disse-me que se tinha perdido um advogado mas eu garanti-lhe que não só se ganhara alguém para outras e mais gratificantes actividades mas também um jogador de bridge e que o Direito fora apenas a escolha menos desagradável que fizera já que a minha família desaconselhava fortemente o curso de História.

Durante estes anos todos até pouco antes da pandemia lá nos íamos encontrando numa esplanada frente ao mar e nas celebrações dos aniversários do nosso grupo de teatro coimbrão. Terá sido mesmo no último a que fui que o encontrei pela derradeira vez. Era o dia do seu aniversário mas o Mário estava murcho, cansado e tristonho mesmo se, com o encontro de velhos amigos do nosso tempo de teatro e aventuras conexas, lá tivesse arrebitado um pouco.  dir-se-ia que os anos lhe pesavam  ou que os rumos políticos do país o desanimavam. De todo o modo, a pandemia e as suas, dele, eventuais maleitas tivessem tido como resultado o fim desses encontros amigáveis a quem alguém chamou de "conversas de velhos combatentes".

Quando nos morre alguém querido lamentamos sempre os contactos que foram rareando mas isso é mesmo assim.

Dele tenho aqui dois livrinhos "Lágrimas de guerra" e "Cinco passos ao sol" bem como a soberba "Em defesa de Joaquim Pinto de Andrade" um texto jurídico que também é político que demonstra não só a sólida formação jurídica do autor como a sua generosa e abnegada campanha por Joaquim Pinto de Andrade, hoje um nome quase esquecido de um dos pais fundadores da liberdade de Angola.

 

Com Rui Polónio de Sampaio, António Taborda, Vasco Airão Marques ou José Luís Nunes, o Mário Brochado deixou uma marca forte no panorama jurídico do Porto e fez parte da geração que esteve em todas as lutas do combate pela democracia. Outros houve mas apenas cito estes porque, além do seu talento e mérito próprios, foram determinantes na Coimbra que me recebeu e com os quais tive a enorme honra de partilhar algumas tarefas como advogado nos tempos difíceis.

 (E foram todos do CITAC... e alguns também vítimas da repressão que se seguiu à crise de 62 em Coimbra) 

au bonheur des dames 607

mcr, 23.11.23

Ler ou tresler?

mcr, 23-11-23

 

O texto "teoria do copo de água" (au bonheur des dames 606 de 12 deste mês ) mereceu, ,mais de uma semana depois, comentários de três leitores  que ou não leram o que escrevi ou tendo lido não perceberam ou, pior ainda, tentam mover-me um processo de intenções que felizmente umasimples leitora do parágrafo (logo o primeiro!) desmonta e nega. De facto eu começava por recordar a minha "ida às sortes" no longínquo ano de 1961, mais precisamente nos primeiros dias de Janeiro, estava o país tranquilo, ronronando sem perceber que três meses depois a guerra irromperia em Angola.

E irrompeu, apanhando o Governo, os militares, a PIDE (que nas colónias servia de serviço de informação) de "calças na mão"

Mais. apanhou toda a oposição de surpresa, incluindo até as poucas dezenas de estudantes angolanos que frequentavam a universidade de Coimbra. Estou absolutamente certo disso pois, por essa época, era uma espécie de "cabide" da "República dos 1000-y-onarius" constituída apenas por estudantes vindos de Angola. 

É verdade que nas franjas mais radicais da 2oposicrática" juvenil já circulava a contestação ao sistema colonial, já se contavam histórias sinistras da repressão em certas zonas, nomeadamente da repressão aos camponeses negros que por várias vezes e em Angola como em Moçambique se revoltavam contra as administrações coloniais, sobretudo as locais. Porém, mesmo entre a velha oposição republicana a questão colonial ainda não se punha, bem pelo contrário como alguém mais curioso poderá verificar lendo o livrinho de Cunha Leal "O colonialismo dos anticolonialistas". Ou, querendo, desandar para uma biblioteca e pedindo para consultar os jornais da época, "República" incluído.

Quando o dr Salazar soltou o seu famoso grito de guerra "para Angola já e em força" pode afirmar-se sem receio que uma grande percentagem da população ouviu, consentiu ou até se mostrou entusiasmada. Mesmo nos círculos estudantis progressistas a questão teve ecos diversos sobretudo porque o levantamento da UPA no norte de Angola se revestiu de extrema violência não poupando mulheres, crianças brancas e negras ou mulatas  e servidores negros recrutados noutros pontos da colónia e, portanto, não ba-kongo.

Deita esta pequena síntese histórica voltemos à minha inspecção militar efectuada, repito, meses antes da eclosão da guerra ou até das histilidades que em Luanda a precederam mesmo se de origem partidária diferente. 

Como contei, fui inspeccionado  nas instalações degradadas de um dos famosos "colégios" universitários mandados .construir por D João III

A equipa inspectora era constituída por três oficiais  superiores idosos  sentados  lá ao fundo e por um jovem médico miliciano aspirante ou alferes e que eu vagamente conhecia justamente de meios relacionados com a República acima mencionada. 

É provável  que esse jovem "ultramarino" soubesse de algo e tivesse querido poupar o magricela desengonçado que eu era. Por isso me perguntou se eu fazia questão em fazer a tropa. Respondi-lhe sem grande esforço ou fervor que não que a coisa não era o meu ideal de vida. Foi por isso que, ele me subiu um par de centímetros à altura e me abateu outro tanto de quilos aos miseráveis 57 quilos que eu pesava. 

Três leitores que, pelos vistos, só leram parte do parágrafo (o primeiro em dezanove!!!) entenderam

a) que eu adoro cunhas (as que são a favor...) e me sinta embaraçado por o confessar (!!!)

b) que graças a uma cunha não parti para África pelo que outro foi em  meu lugar (e até pode ter morrido...)

c) que "sempre fui amigo de cuinhas" o que significa que "para beneficiar um outro fica para trás"

 

Nenhum se deu ao trabalho de assinar sequer de usar um pseudónimo. 

É com eles mas confesso que fico surpreendido com tanta  e solidária comunhão de sentimentos sobretudo quando em parte alguma do meu texto se vislumbra sequer um murmúrio de pedido ao jovem médico algo que, efectivamente  nunca me passaria pela cabeça solicitar tanto mais que estavam ao fundo os três idosos oficiais que poderiam ouvir ou desconfiar se me vissem dizer fosse o que fosse a minha concordância foi murmurada e rápida).

Em boa verdade, livrei-me da tropa mas não me livrei de catorze anos de oposição activa, de prisões várias, de interrogatórios bastante duros com incidência nas habituais práticas de "sono" e de "estatua". Durante esses anos leei a cabo várias passagens de fronteira conduzindo desertores e refractários para Espanha tendo inclusive, como também aqui relatei, sido uma vez detido por um par de horas pela "Guardia Civil" que me tomou por "passador " a troco de dinheiro.

Se, porventura, tivesse sido reinspeccionado teria saído imediatamente do país sem sequer esperar pela passagem por Mafra.

Como também já aqui escrevi, mesmo estando de acordo com a fuga à guerra por deserção ou mesmo como refractário, nunca condenei todos quantos ou não souberam ou não puderam evitar África e as frentes de combate. De resto um importante partido político português  entendia que os seus militantes deveriam na medida do possível ir para África e fazer aí "trabalho político" contra a guerra e pela libertação das colónias. Pessoalmente sempre discordei pois tais tarefas eram quase impossíveis e levavam (basta lembrar o Manuel Alegre) o seu autor rapidamente à prisão militar.

Tudo o que acima digo também por aqui foi sendo escrito ao longo destes quase dezoito anos de blogue. Há mesmo um par de textos em que tive o cuidado de defender e justificar combatentes que não tiveram outro remédio senão ir para África e para frentes de combate. Uns porque acreditavam no mito do império, no Portugal do Minho a Timor, outros porque não queriam emigrar ou abandonar familiares, a terra e os amigos.

Não faço parte dos recém conversos de 26 de Abril, dos Ferrabrazes  radicais que propsperaram durante o PREC ou até agora que, desconhecendo a História, o País e o Povo prometem tremendod amanhãs que cantam como se os que, in illo tempore, foram notícia e slogan não tivessem acabado em sangue, pobreza, prisão e medo.  

Não sei nem pretendo saber o que é que estes meus três comentadores (uma espécie de trindade laica redutível à unidade tantas são as convergências de opinião...) pensam disto tudo, qual a razão porque me imputam um exacerbado amor pela cunha, logo eu que nunca as meti  por mim e tão pouco aceitei no decusso da minha vida profissional. A menos que não saibam o que é uma "cunha", coisa sempre possível nestes tempos de português ultra básico.

Um dos comentadores (basta ir à caixa de documentários ainda acrescenta que eu não respondo a comentários o que é uma tolice pois aí está de novo a caixa dos comentários para o desmentir. Aqui só não se responde a despropósitos ou a opiniões que nada tem a ver com o que publico. Se alguém quiser dizer o que pensa do mundo, da vida, da política que faça o favor de se dirigir ao blogue (não a mim que nunca soube como isto funciona) e diga de sua justiça. Ou que crie um blogue coisa que provavelmente não será difícil. 

Finalmente, fico sem perceber como é que em 19 ou vinte parágrafos as atenções se fixem logo no primeiro. Será que depois desse tremendo esforço intelectual de leitura as pessoas se cansaram e deixaram o resto para as calendas gregas?  Também podem ter detestado os parágrafos remanescentes  e por isso terem apenas respondido ao primeiro. Com um problema: não responderam. Porque não o leram, ou então, tresleram. É com elas.  Conversa acabada. 

Au bonheur des dames 606

mcr, 12.11.23

Teoria do copo de água

mcr. 12-11-23

 

Nunca fiz tropa porque, graças a um amigo, médico, miliciano e angolano que, eventualmente, já saberia qualquer coisa  (estávamos os primeiros dias de 61) entendeu falsificar ligeiramente o meu índice de robustez na época chamado  “de  Pignet”. Eu que era muito magro mais magro me tornei graças à miopia amável desse médico que inspeccionava os “mancebos. Ao mesmo aumentou-me a altura e reduziu-me o diâmetro do peito. Tudo junto, saí dali livre como um passarinho. Meses depois rebentava a guerra no Norte de Angola. 

Todavia, conheci bem a vida militar na medida em que durante quase três anos vivi nesse meio. De facto o meu pai foi médico militar em Moçambique e nos não só vivíamos numa casa integrada num conjunto militar como almoçávamos e jantávamos no “clube militar” .

Por outras palavras tirando as horas em que dormia ou estava no liceu todo o meu tempo era passado entre oficiais do exército e respectivas famílias que, em Lourenço Marques viviam num trecho da rua de Nevala.

(nao deixa de ser irónico o nome da rua. Nevala éra (e será ainda?) uma povoação jdo antigo Tanganika, muito próxima da fronteira norte de Moçambique. Durante a primeira grande guerra as tropas portuguesas tiveram o enorme azar de terem pela frente um aguerrido, pequeno exército alemão comandado pelo general Emil von Letow, um oficial genial que derrotou sempre com forças claramente inferiores todos quantos enfrentou. 

Pelos vistos terá derrotado 17 generais e um marechal e no fim da guerra com a Alemanha a pedir um armistício lá se resignou a render-se tendo sido tratado com enorme respeito e civilidade pelos adversários ingleses. Mais tarde foi um dos poucos generais alemães que nunca aceitou Hitler que só não o perseguiu por ser muito velho e considerado como o melhor general da Alemanha.  Ora a tropa portuguesa averbou sucessivos e constantes desaires tendo aliás o exército alemão penetrado em território moçambicano até perto de quelimane. Nuama dessas razias alemãs, tropas portuguesas “tomaram” Nevala que, aliás estava deserta e sem guarnição. É ssa tremenda vitória que fez com que ruas por todos os lados fossem baptizadas “de Nevala”)

 

Portanto, conheci mais do que bem a organização militar e inúmeros oficias alguns dos quais depois terão chegado ao generalato.

Foi com eles e com o meu pai que aprendi o bridge e tenho de várias, uma boa dúzia, as melhores e mais gratas recordações. 

Tudo isto para deixar claro que, paisano até à medula, não sinta pela gente militar nenhum sentimento especial de antipatia mesmo se também nunca tivesse morrido de amores pelos soldados profissionais.

Entretanto, ontem, ao que sei um cavalheiro militar de alta patente deu-se ao luxo de criticar uma colega de debate em termos que, ao sentir-se insultada, levaram esta última a atirar-lhe com um copo de água.

Ouvi e vi várias vezes o militar em causa pronunciar-se em mesas redondas sobre a Ucrânia e não posso dizer que me tenham seduzido as suas elucubrações.

Não tanto por me parecer mais “russista” que muitos outros “russistas” que por aí andam  que, em sua defesa, podem apontar simpatias ideológicas e passados, ou presentes, políticosmas tão só porque oa criatura usa incessantemente o argumento de autoridade como se as guerras alguma vez fossem apenas uma questão militar. No caso, este general não deve, ao que me lembre, ter alguma vez estado em combate, pois levamos já quase cinquenta anos de paz.

Vi e ouvi a dita criatura “destratar” colegas da mesma mesa um par de vezes tendo até uma vez sido exemplarmente corrigido por um embaixador que reduziu a nada um par de afirmações cuja qualidade era mais corrosiva que verdadeira. 

Claro que uma mulher deve pensar duas ou mais vezes quando se atreve a enfrentar  uma criatura belicosa e de profissão bélica.  As pessoas, mesmo sendo pagas por uma cadeia televisiva, devem ter em conta se vale o u não falar com qualquer quiddam que lhes surja pela frente. 

E, sobretudo, não podem recorrer a armas traiçoeiras como um copo de água!

Primeiro porque induzem os restantes a pensar que pretendem, não lavar a honra própria mas, acara ou o corpo alheio. 

A um membro do Exército de terra não se atiram copos de água mesmo que se possa pensar em higiene ou confundir o atingido com um membro da Marinha que, por estar habituado a meios aquáticos sabe defender-se melhor do líquido agressor (H2O).

Na história militar há inúmeras descrições de armas mas que me recorde (e eu sou um fanático leitor de História) não consta a água, É verdade que durante a Idade Média, sobretudo, havia fortificações cercadas de fossos de água. Eram poucas, até porque o sítio em que se erigiam os castelos  era normalmente uma elevação tão alcantilada quanto possível. Depois, a água era um bm precioso para os defensores e ninguém queria “dar uma banhada” nos agressores. É verdade que, em termos líquidos, constam descrições de azeite a ferver mas só no caso de poder acertar em quem tentava escalar uma muralha. 

Água nunca! É verdade que a senhora Deu-laçdu Martins atirou com um par e pães de trigo aos atacantes mas não queria feri-los. Apenas tentava convencê-los que Monção  nadava em comida e que o cerco era inútil. O truque terá resultado mas agora anda por aí uma cambada de desmancha-prazeres a afirmar que a personagem é meramente lendária!...

Portanto em questões guerreiras nem pão nem água. Estes dois elementos decoram mais as histórias de prisão onde se deixava um desgraçado prisioneiro a pão e água. Como ex-preso devo dizer que no meu tempo (e mesmo nos anos da “outra senhora” sempre se tinha um passadio alimentar um pouco mais composto. Pelo menos em Caxias...

Este arremesso de água, provavelmente do Luso a um militar de alta patente lembra-me uma expressão que muito prezo e uso: “toma lá que já bebes1...”

Mas uma coisa são as expressões populares outra o o grau exigível de agressão a um general. 

Não vou afirmar que ao sentir-se atingido (molhado) a agredido tenha gritado como o imortal Quincas “água!” tanto mais que desconfio sempre das leituras de alguns militares (e de outros tantos civis, já agora). Lerão eles Jorge Amado? Ou apenas Clausewitz?

No tempo em que menino e moço deambulava pelo clube militar reparava que vários militares de diferentes patentes acompanhavam o seu whisky com soda, raramente com água. Ora aí estaria um excelente conteúdo para o arremesso ao militar de alta patente. Um whisky com duas pedrinhas de gelo e água do Castelo. Bem sei que a coisa soa a desperdício mas um general é um general. 

Já o meu antifo colega de liceu (exactamente em Lourenço Marques) Manuel Fernando Magalhães descreveu no seu romancinho de estreia (quiçá o único) uma cena em que o herói depois de apertar a mão a um conhecido recentíssimo, vem a saber que ele é militar. Aflito, recorre a uma garrafa de whisky e lava mão pecadora. A conta disso, e porque estava na tropa, foi duramente punido com prisão e tudo. O Magalhães morreu semanas depois de termos chegado á fala e combinado um encontro após quarenta anos sem nos vermos. Raio de sorte!

Hoje édomingo, as notícias, até este momento, são escassas pelo que entendi relatar este fait divers e deixar à drª  este recado: se precisar de mais água  mande dizer. E não esqueça de acrescentar qual:, limpa ou suja, das pedras ou da torneira. Terei todo o gosto em ajudar a sua higiénica missão. Boa pontaria!

* Jorge Amado, "Os velhos marinheiros" (a morte e a morte de Quincas Berro d'Agua)

Manuel Fernando Magalhães , "3x9= 21", Atantida editora, 1960 (ou 59?)

Convém explicar o título: o Magalhães foi o pior aluno de Matemática que alguma vez conheci. O nosso professor Armindo Brito entregav-lhe o ponto corrigido sempre de costas e, convenhamos, alguma razão tinha...

au bonheur des dames 603

mcr, 01.10.23

13926650288020.jpg

El destape en Portugal

mcr, 1-10-23

 

Leitor que aqui chegaste graças à vinheta velhaca, desilude-te. No presente folhetim não vamos tratar dessa enlouquecida época espanhola que surdiu logo que a censura  franquista esmoreceu. nos idos de 1975. Num brevíssimo espaço de tempo, os espanhóis deixaram de cruzar fronteiras para ver cinema dito "erótico" e, paralelamente, a industria  cinematográfica indígena atirou-se de pés e cabeça para a produção rápida, barata e atrevida de fitas em que as actrizes apareciam primeiro de seios à mostra, depois em "nu frontal" e por fim num total à vontade que era repercutido por revistas (entre todas a "Interviu" que subitamente quintuplicaram as  tiragens). Foi, no dizer de W., "um pagode!, um bodo aos pobres". Arre, Heinzie -sou eu...- de repente as nossas salas de cinema fronteiriças ficaram vazias pois do outro lado havia mais, mais variado e mais lampeiro"..."

Nada, raspas de nada! Aqui apenas vamos relembrar esse escândalo monumental que é  (já era, sempre foi, vai ser) a questão da TAP .

Quem estas linhas traça foi um constante usuário da TAP porque era o meio mais fácil, rápido e menos oneroso de ir passar férias a Moçambique, peregrinação gozosa que durou entre 1957 e 1965. 

Acresce que o avião se revelou ser o único meio de transporte em que eu não enjoava! 

Mais tarde ainda usei a companhia em viagens para a estranja, dessa feita a título de turismo... Porém, rapidamente me apercebi que havia concorrentes mais em conta, com serviço idêntico e muito maior escolha de horários. 

E isso, esta verificação foi partilhada com muitos outros portugueses, basta atentar na rápida instalação de companhias aéreas estrangeiras e, mais tarde, nas vantagens claríssimas do "low cost".

Uma vez chegados à nossa época tornou-se evidente que a TAP era já só um resquício caro anti-económico dos fausto do Império. Deixou de haver exclusividade nas ligações às ex-colónias que rapdamente criaram as suas próprias companhias e, simultaneamente no resto do mundo da diáspora portuguesa (sempre tão exaltada... e tão pouco respeitada...)os nossos patrícios expatriados foram percebendo que tinham mais e melhores alternativas para dar um saltinho à pátria madrasta. 

só na cabecinha de uns desvairados patrioteiros, se outros tantos radicais (que provavelmente quando voam se servem de companhias não portuguesas ) é que continuou a vigorar a ideia da "companhia de bandeira", da soberania nacional e do interesse estratégico. 

complementarmente, a TAP ajudou a tornar o naufrágio mais violento quando se meteu em negociatas no Brasil que acabaram por custar muitos milhões ao país e à própria empresa. 

No exacto momento em que uma forte mioria de países desistia das companhias de bandeira nacionais, permitia a privatização das mesmas eis que, no "torrãozinho de açúcar" regressou pela mão do PS a renacionalização da TAP e co ela a nacionalização dos prejuízos que, contas bem feitas, irão seguramente muito além dos 3,2 ou 3,6 mil milhões. 

A chamada protecção à indústria nacional que forneceria mil bens e serviços é bonita mas sem sombra de dúvida brutalmente inferior aos prejuízos que os portugueses foram ( e serão...) chamados a pagar.

em tempos de concorrência, nem sequer o apport do turismo vale. Os turistas virão (enquanto a moda for Portugal, e a insegurança reinar no Magrebe e na restante margem sul do Mediterrâneo...). 

E seria bom ter em linha de conta que, num futuro que se espera próximo, deixarão de se possíveis voos de curta duração devido à luta contra a poluição (onde o avião é rei...).

Ao fim de oito anos de Governo com e sem essa estravagância da "frente popular" (que , em boa verdade, serviu para minar duramente o PC e o BE  que ou não perceberam ou se iludiram nesse abraço com a jiboia socialista)  eis que a TAP está à venda "no todo ou em parte" e, seguramente, a preço de saldo e com a única desculpa de que se trata de limitar perdas actuais e futuras. A treta da protecção dos interesses nacionais, estratégicos e restante parafernália de atoardas pretensamente sérias, rigorosas e inadiáveis, vai ser visível nos próximos tempos. É só esperar para verificar. 

Em terras vizinhas o "destape" serviu para mostrar maminhas gentis e restantes corpinhos amáveis de uma série inesgotável de jovens aspirantes a actrizes, por cá serve para ostentar as misérias ridículas de uma política pensada sem rigor, sem sentido de realidade e sem respeito pelos contribuintes nacionais, os mais mal pagos da europa mas os mais molestados pelo peso da fiscalidade nacional. 

Um desastre e uma vergonha!   

 

au bonheur des dames 602

mcr, 22.09.23

Unknown.jpeg

sete já era! Agora é onze o que está a dar

(ou último dia do Verão...)

mcr, 22-9-23

 

Nem Jacob, nem Labaão nem Raquel, serrana bela. Nem os sete perdidos anos a que se somariam outros tantos para o pobre pastor, entretanto já com mais uns anos em cima, e pior ainda para Raquel alvo de desejo que terá passado de menina e moça para mulher já bem entrada em anos e carnes, quase uma velha para os cãnones daquela mais que longínqua época. 

A historieta abundantemente tonta da estátua de Camilo que, ao fim de onze anos (mais de quatro mil dias), foi finalmente descoberta por uma plaiade de "ilustres" cidadãos portuenses não mereceria tanto espaço neste blog não fora dae-se o caso de estarmos no fim do Verão com alguns chuviscos repentinos a recordar o belo poema de Rilka "Herr, es ist Zeit", e sobretudo a ideia de que não vale a pena olhar para a pobre actualidade nacional tentando extrair daí algum pequeno troço de carne para mordiscar.

É que entre as próximas eleições na Madeira que as sondagens apresentam como um passeio descontraído mas triunfal para o PSD local, até às promessas -sempre promessas - de um futuro risonho para os indigenas da Lusitânia que verão as pensões do próximo ano acrescidas de um "brutal aumento" ou as prestações da casa baixarem abismalmente graças a um truque contabilístico que será posteriormente pago no tempo das vaquinhas gordas... enfim nada de jeito, neste dcampo não se pesca uma alforreca!...

 

E é por isso, só por isso, que se regressa ao caminho de Damasco de duas dúzias de "ilustres" que ao fim de esforçados onze anos de caminhada gloriosa viram a luz edescobriram uma escultura horrorosa, plantada no centro da cidade, uma estátua "pornograficamente horrenda" (Rui Moreira dixit!), uma afronta à srª D Ana Plácido, ali supostamente repesentada nua sob traços não só lascivos mas sobretudo adolescentes, Jesus, Maria José, então há de aparecer um cavalheiro vestido e uma mulher nua? Onde é que já se viu isto, no excelso campo da arte? 

E logo no largo do amor de perdição que melhor estaria junto do antigo convento de onde Teresa pela última vez, vê o barco que, para sempre, leva simão...

Eu, apesar de tudo, percebo, que o dito conjunto escultórico tenha por dias, semanas, meses, um, dois anos passado despercebido aos baixo assinantes higienistas e defensores da cultura da cidade invicta (por onde todavia passaram exércitos invasores sem grande perda de tempo ou de esforço guerreiro...)

Mas onze anos, quatro mil dias? 

Onze anos a swapertar concuspicências várias de turistas perdidos , de maraus que aindasonham com as putas da rua dos Caldeireiros, com os autobilistas que demandam os parques de estacionamento das redondezas, com a juventude estudantil das escolas próxin+mas, com os eventuais mas minguados visitantes do centro portugu~es de fotografiaqueocupa o antigo Tribunal da Relação e a Cadeia onde Camilo penou e ana Pácido passava tardes a tocar piano na sua cela?

E ainda consta que o tempo actual é feito de corridas medonhas, de dias que atropelam os dias e as noites, Santo Senhor da Agoniaque tão tarde revelaste às almas puras o sacrilégio anti camiliano e anti placidiano daquela torpe escultura de que se requer por medida de higiene a remoção para uma cave municipal!

Em boa verdade se diz que o Verão é o tempo das questiúnculas orfãs de razão e de motivo, ao fim e ao cabo está toda a gente a banhos, no Algarve, nas Caraíbas, em Torremolinos ou numa prais fria da Foz, aberta aos ventos, mas onde, apesar de tudo, passam raparigas de biquini reduzido, tanga brasileira sem sequer saberem que a dois passos dali, Camilo frequentava um casino desaparecido onde, diz-se, perdeu fortes cabedais, coisa que aliás ocorreu noutras paragens desde o Bom Jesus até à Póvoa, isto sem falar em locais mais ou menos clandestinos em plena cidade do Porto onde a jogatana fervia... 

E, finalmente, vamos ao hediondo espectáculo da mulher nua e do homem vestido, esse ultrage às regras que "Le dejeuner sur l'herbe"de um tal Manet, indivíduo de maus costumes e desinspiradoe involuntário  inventor da palavra "impressionismo", criou com o único fito de ultrajar uma longínqua posteridade portuguesa e portuense que considera imoral juntar uma mulher nua a um homem vestido. 

E mais não se diz. O Verão finda, há pouco choveu, o outono anuncia-se. Ou, como diz Rilke, Senhor. é tempo, O verão foi muito longo...

(acrecento e esses prolongados calores exaltam as criaturas, fazem-nas perder o norte e o tino ...)