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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dame s97

d'oliveira, 11.11.25

Vai ser um fartote (1º capitulo)

mcr, 11-11-25

 

Em dia de S Martinho, vai à adega e prova o vinho, dizia-se. Apesar de vir de uma família ligada ao vinho do Porto, não faço a míenima ideia se o rifão ainda tem cabimento. Agora o vinho faz-se de maneira muito mais sofisticada e é provável qu o di se destine (e bem!, muito bem) a magustos (se ainda os há...) ou a comer castanhas assadas.

Cá por casa, mandaram-me ao supermercado e rouxe um punhado de castanhas que parecias fracatíveis. Por pequenas eporque, à hora que fui, já havia poucas, provavelmente muito escolhidas. 

Sairam-se magníficas as castanhas depois de um estágio no forno. Queimei os edos várias vezes  pois perco-me por castanhas (ai que saudades das “piladas” que parece que só emcontram em lojas caríssimas e longe...) 

A CG, natural de Trancoso, enche a boc com as castanhas sa sua terra que, não chegam cá porque, alega, vai tudo para exportaçãoo. E prefere-as cozidas. Feitios”...

Parece  que este Verão arderam milhars de castanheiros, mais outra riqueza que se foi em fumo e desleixo, quando não crime. 

Tentei ver se os senhores candidatos presidenciais  falavam deste tema tão nosso, tão ppular, das castanhas e dos fogos mas, pelos vistos, estão noutra.

Não é açtura de ir meticulosamente apontando o que as exelentíssimas criaturas dizem mas em dia de festa ou de saudade convém referir  uma bizantinice polémica entre o sr Pinto, proposto pelo Livre  o sr Seguro que é suposto ser apoiado pelo PS  mesmo se as deserções já veificadas, as previstas e as que se escondem sejam mais que muitas.

O sr Pinto (e provavelmente a sr Martins...) entendeu entrar num jogo para gente mais crescida e duvida-se que consiga sequer uns minutos de atenção. Aquilo, as presidenciais, é entre o sr almirante e três paisanos,a saber, Seguro, Marques Mndes e Ventura (este último é candidato a tudo (deputao, primeiro ministro, autocrata, ditaor e inventor de inimigos internos e externos, entre eles a escassa minoria cigana que nunca terá sonhado em ser alvo de cartazes aviltantes, infames, e imbecis). O sr António Filipe  repesenta as cores do PCP mas também não integra o pelotão da frente. Verifiquei, hoje, sem especial inveja, que lhe levo mais 2 anos de idade. Confesso que o julgav mais velho mas afinal é apenas um sexagenário  qu, como de costume, vem fazer o brilharete final da sua carreir a como candidato. Paafraseando Celaya “no se esperada nada de pessoalmente exaltante” da sua campanha e, convenhamos que não é mais do que uma das cristuras fungíveis do CC do PC.

Voltemos, porém, aos senhores Pinto e Seguro. O primeiro  que provavelmente nõ tem qualquer ineresse em andar estes meses a fazer de candidato invisível, promeeu desistir em favor do segundo se este, assumisse claramente que é de Esquerda. 

Seguro, já antes teria recusado ser assim tão peremptório  pois nõ gosta de “ser metido em gavetas” (sic). Está, no entanto enganado. Ninguém o pretende engavetar  (expressão  que também pode significar ser preso)  pode estar descansado mas a alguém que foi secretário geral, deputado cá e na Europa, membro do Governo e ex lider da jota, não se pede que engula um sapo. Aliád, Seguro terá percebido que neteu a pata na poça ou numa gaveta funda e já veio dizer que as pessoas “o conhecem”. Pinto, pelos vistos, não sabe nada da biografia de Seguro e quer que as coisas sejam claras, tudo preto no branco, Vá lá que nõ lhe exigiu que cantasse a internacional ou lhe recitasse partes da “critica do programa de Gotha” ou que prometa marchar no dia da greve geral .

Pinto pede pouco, melhor dizendo promete sair pela esquerda baixa no caso de uma declaração formal de Seguro. Este teme que um par de eleitores  exteriores ao PS, se horrorize se ele se afirmr de Esquerda (à semelhança de soares ou de Sampaio paa não ir mais longe...)

Pareeria que Seguro quer ver Pinto a apresentar um programa e a jurar fidelidade à República e às suas instituições mais sagradas. 

Bemsei que os eventuais e escassos votantes de Pinto  não transformam a eleiçãoo de Seguro em algo de certo e sólido as esta gerrilha do alecrim e da manjerona está aí parar durar. Eáo contrário dos incêndios que devastaram os castanhais, do fogaeiro que assa generosamente as castanhas na rua, apenas um fogo e palha breve e passageiro. Como o dia de Sa Mainho que celebra um bispo de Tours ue terá dividido a sua capa com um pobre. 

Nós portugueses temos outro S Martinho o de Dume mesmo se este, que foi bispo de Braga, tenha vivido bem antes da origem de Portugal. Ficou famoso por ter criado os nomes dos dias da seman fugindo ao modelo pagão. Somos, com a Galiza, os ´unicos latinos e porventura europeus (?) que usam os termos feira para os dias úteis. O bispo era um duro adversário dos restos de paganismo que ainda sobreviviam pelo menos na linguagem de todos os dias. Ora aqui está um tema para regozijo do sr Ventura. Todavia, cumpre esclarecer a criatura, que Martinho de Dume era bispo entre suevos e portanto ainda longe do Portugal mimoso e puro 1ue ele venera

au bonheur des dames 595

d'oliveira, 11.10.25

melão maior do que uma abobora do enroncamento

mcr, 11-10-25 sábado dia de forçada abstinência política doméstica

 

Há muitos anos o Enroncamento era famoso pelo número inusitado de fenómenos que por ali ocorriam. 

As opiniões dividiam-se quanto à origem dos casos estraagantes, surpreendentes, berrantes que por  lá se sucediam. Havia quem sustentasse qu tudo se devia aos efeitos colaterais do transito ferroviário. Outros garantiam que era a câmara municipal que criava factos para chamar a atenção de eventuais turistas ou simplemente de curiosos.

Durante um breve período, mas já depois do Abril de74, havia gente qu crismava a um jpvrm criador de fctos político o entroncamentido.  De certo modo, a criatura fez carreira  como é sabido.

Todaia, não me quero meter em política em dia tão austero como o de hoje declarado momento de reflexão proibidas que estão as baiivérnias eleitorais que poderiam desviar cidaãos impolutos do seu natural sentido de voto. 

O caso é outro e prende-se com a política internacional e com o afocinanhço tremendo do homem da Casa Branca que andou por aí a reclamar o prémio Nobel da Paz como se o pequeno vomité norueguês fosse presionável. 

 

 

 

 

Pelos vistos não é. A escolha recaiu numa senhora corajosa e determinada que desde há´muito desafia uma ditadura de opereta mas sangrenta que transformou o mais rico país da América do Sul num desastre incomensurável.

O auto-oncorrente Trump ficou pelo caminho mesmo depois de. com recurso a ameaças, chantagemr aliciamentos vários,  ter pbrigado o seu subserviente homem de palha  em  Israel  a aceitar um princípio de acordo para uma paragem no massacre delibertação de reféns e de prisioneiros. 

É bom lembrar que Israel nos últimos meses dependeu absolutamente do fornecimento de armas dos EUA  e de acçõe armadas do mesmo (caso do bombardeamento das instalações nucleares do Irão). Por outro lado, na ONU, os EUA conseguram rebentar com todos os protestos e condenações que atingiam o Estdo istaelita e as suas principais autoridades. 

De todo o modo, com a proximidade da atribuição do Nobel, Trump usou a sua poderosa táctica de persuação parra acabar com a devastação de Gaza, com o morticínio diário de civis  para cair nas boas graças do comité Nobel, 

´Em boa verdade, o homenzinho gabava-se de terminr guerras à pazada, A União Indiana riu-se quando ele a meteu no rol. Parece mesmo, li hoje no Pacheco Pereira, que trump teria terminado uma guerra entre 

 

 

 

o Cambofja e a Arménia (!!!)  que me tinham passado despercebida e que me atormenta a mioleira, como é que estes dois contenores se combateram tão longe que estão um do outro? Mistério! Ou fenómeno do Entroncamento onde uma vez apareceu uma abóra com mais de cem quilos e dimensões gigantescas. Provavelmente menores do que as do actual melao de Trump  expurgado que foi do nobel 025. 

Ele que não desista e faça a paz na Ucrânia sem retalhar esta,  Se se apressar de certeza que os cavalheiros e damas do Nobel norueguês poderão pensar nele. Mas tem de ser rápido que em Janeiro do próximo ano já as csndidaturas estrão fechadas. 

Se levar Putin a um acordo estarei pronto a conceder-lhe o fim das guerras entre o Peru e o Quirguistão  ou outra ainda mais difícil entre o Nepal e andora. Os amantes de geografia que me perdoem mas para uma criatura que rebaptizou o golfo do México em golfo da América, tudo é possível e a geografia tem grandes possibilidades de flexibilidade.

 

(fica o agradecimento a um anónimo cavalheiro da minha idade que joje, na esplanada do costume disse a uma roda de fmiliares  “esse Trump deve estar com um melão que nem vos digo nem vos conto”. Recuei com ele vinte ou trinta anos para recordar esssa expressão que  significa que alguém viu as suas espectaytivas irem pelo buraco sem perceber como nem porquê. 

E viva Maria Corina Machado, "mujer de armas tomar"

   

 

 

 

au bonheur des dames 594

d'oliveira, 05.10.25

A efeméride

Notas de um republicano não praticante

mcr, 5-10-10

 

Recordo sem demasiada nostalgia os tempos em que comemorávamos a implantação da República

Parafraseando o magistrado supremo “eramos ignorantes mas não o sabíamos”. 

De facto nesses longínquoas anos 60, antes de se publicar a “história de Portugal”  de A H Oliviira Marques (que é de 1972...) a informação sobre os eventos do 5 Outubro era pouca , praticamente desaparecida (quando não proibida ) e o pouco que se sabia jazia em pobres livros de propagandistas republicanos que também não se distinguiam pela probidade histórica. 

Digamos: era o “reviralho” ou o que restava dele que se mobilizava  cansadamente e organizava umas jantaradas, algum comício disfarçado, uma romagem aos cemitérios (o mesmo  acontecia com a celebração do “31 de Janeiro” sobre o qual João Chagas disse tudo se é que ainda andam por aí em venda – sempre nos alfarrabistas – alguma das obras deste notável escritor melhor como tal do que com político...).

Em Coimbra, a juventude universitária la se juntava como podia  mas sempre num clima de vigilância policial que assustava muitos e deixava os poucos celebrantes sob o olhar suspeitoso de polícias e de donos de cafés ou restaurantes qu, de resto, em pouco número, lá aceitavam umajantarada comemorativa.

Recordo duas ocasiões: a primeira, passase no café Mandarim onde um esforçao estudante de Letras entendeu berrar um “Viva a República” e ouvir rapidamente voz de prisão.De todo o modo a detenção foi de poucas horas  na sede da PSP pelo que aglória alcançada foi moderada. 

Da segunda vez, e em 1968, lá se terá conseguido uma participação maior (seríamos mais de vinte) mas a PIDE (aliás DGS) apaeceu e assustou muito a jovem estudante que tinha tratado do jantar. A pobre rapariga, verde nestes afazeres conspirativos,  substituía   o namorado que a atirara para a frente. Ao ver-se perante um agente da pide-dgs rompeu em lágrimas mais de nervosismo que de susto ou pelo menos foi isso que depois correu. 

Ignoro se, nessa época, a Câmara de Lisboa, celebrava a efeméride. Se sim a coisa devia ser mais postiça  do que uma cabeleira de teatro barata. 

Nesse dia, todos nós, que poucos éramos, valha a verdade, comprávamos o jornal  “Repúblca” e pavoneava-mos com ele pela rua e pelos cafés que frequentávamos.  Era pouco mas mesmo assim havia muito boa gente que nos olhava como se fossemos enviados do Anticristo. E a polícia, claro, lá apontava os nomes e o número de “republicanos reviralhistas em flor  e presumíveis comunistas"  (que para as autoridades tudo o que saísse do ram-rram quitidiano trazia o selo de Moscovo).

Agora o 5 de Outubro pode não ter direito a parangonas no jornal (hoje não vi qualquer menção no jornal que diariamente compro e que, sem qualquer sombra de dúvida é o que está mais à esquerda na imprensa diária) . Mais para a tarde a Camara de Lisbos assinalará a data com a presença de um sortido naco de luminárias políticas mas, parece que não haverá discursos  mas tão só o içar da bandeira .

Neste ponto, permitam-me os meus escassos leitores  (abençoados sejam)  que recorde um outro içar de bandeira, desta feita em Caxias, dentro da cadeia propriamente dita onde tive a duvidosa honra de estagiar por mais tempo do que devia. Na derradeira vez em que por aí veraneei tive a sorte de ocupar uma cela con+m vista para o rio e para a estrada. Também podia assistir à chegada dos familiares dos presos porquanto as famílias tentavam fazer o percurso do pátio exterior o mais afastadas dos muros que podiam para o que a malta encafuada nas celas pudesse ver quem vinha e eventualmente saber quem estava noutras celas. 

Todavia, o momento alto ocorria ao  domingo, dia sem visitas. Um pequeno destacamento de guardas republicanos (ou prisionais...) perfilava-se junto ao mastro da bandeira que, por feliz acaso, era justamente em frente ao meu “quartinho” (cito o carcereiro). O sargento ou algo semelhante que comandava aquela tropa fandanga resmungava “vamos lá ver s esta merda sai hoje bem..”. Ordem era dada ao corneteiro para cornetear enquanto o pessoal apresentava armas e a bandeira subia. Havia um cão que a partir do primeiro aorde começaa a uivar, e sempre , mas mesmo sempre, ou a corneta se calava antes da bandeira estar completamente erguida ou esta já flutuava ao triste vento da manhã dominical enquanto o dom desafinava sem brilho ou o cão deixava o seu lamento a destempo. Eu do meu janelo também uivava de riso porque aquilo, aquela mostra de patrotismo  bandeirante e armas apresentadas era o retrato perfeito de um regime miserável  que governava um país  sem futuro e com um passado mais que falsificafo pela “História oficial”

Depoos de um isolamento de meses, nos dois últimos dias em que permaneci em Caxias tive plea primeira vez um companheiro de cela, o Toy Ribeiro da Cinha, mais novo e irmão de outros amigos de sempre, entre eles o Octávio e o Fernando. O Toy ao içar da bandeira exterior içava a capa vermelha e reluzente de um chocolate que o pai, o médico Sizenando Ribeiro da Cinha,  oposicionista dos quatro costado fornecia em doses generosas (mas sempre vermelhas) ao abencerragem prisioneiro. Este velho senhor organizava na sua pequena aldeia (S João de Loure) uma festa do 5 de Outubro  muito concorrida sem que as autoridades se atrevessm a incomodá-lo. Há tempos li que tal festividade ainda era organizada pelo filho Fernando, também médico e sempre recordado com profunda amizade. Bem me poderia convidar que a essa festa eu não falataria.Não  por republicanismo agudo mas por simples e velhíssima amizade.

***

Quando acima disse que naquela época ignorávamos tudo ou quase da revoluçãoo republicana referia-me ao facto de desconhecermos não só os acontecimentos do dai, ou seja o equivoco que se gerou e levou à confraternozação de tropas leais à monarquia e tropas da Rotunda e que surpreendentemente tornou o dia bem menos sangrento do que se presumia. Também não se sabia que Machado Santos forçrara a direcção política republicana  a apoiar a sua acção, que alguns líderes republicanos entretanto se escafederam assustados, que o almirante Reis se suicidara pensanfo que tudo fracassara enquanto Miguel Bombrda era assassinado por um doente mental  seu paciente. 

Também não sabíamos que a ª Republica duraria 16 penosos anos, daria origem a 51 governos (um dos quais durou apemas um dia) fota alvo de contínuas intentonas, revoltas, golpes de Estado  e pequenos intervalos quase ditatoriais. As mortes da noite sangrenta (entre a as quias as de Machado Santos e Carlos da Maia, artífices e principais actores do 5 de Outibro  e de António Granjo, um ex-presidente do Conselho de Minisros apanhados e abatidos como cães vadios por assassinos tripulando  uma camioneta fantasma cuja  chefia terá pertencia a um tal  “Dente de outo” que aterrorizou a noite fatal)  A Repúblca, aquela república, não foi um momento alto da história pátria, nem da Democracia. Basta recordar o célebe episódio da retirada solene do voto depositado  por Baetriz Anfelo que por ser viúva tinha conseguido ultrapassar a proibição do voto feminino. Também vale a pena referir que o universo eleitoral foi reduzido a metade por se temer que a Monarquia  (uma monarquia “republicana” sem vigor e mais do que dividida entre clãs que se odiavam ainda mais do qu aos seus adversários republicanos) conseguisse volltar ao poder se todos os seus eventuais mas duvidosos apoantes conseguissem votar. A implantação da república foi fundamentalmente lisboeta, um pouco portuense e o resto fez-se pelo telegrafo. Aliás a monarquia dessangrada  também não mobilizava  (tirando Pava Conceiro) ninguém. 

Ignorávamos finalmente que até houve um prsdiente monárquico mas militar que aceitou o cargo pelo que ele interpretou como patriotismo. 

Convenhamos quando o regime caiu e foi substituído pelo conservadorismo mais serodio, rural, catolicão e afascistado, a Republica estava exangue. Terá sido isso que permitiu a um lente manhoso de Combra, governar tantos e tão demorafos anos Foi ao poder apoiado por militares e o seu sucesspr caiu às mãos de outros militares. Como diriam os franceses “a boucle est bouclée”

 

(nota em Porttugal não se põe a questão de regime, A ideia monárquica não reúne praticamente ninguém e o movimento que a sustenta não consgue qualquer expressão eleitoral . Ou seja, não suscita qualquer espécie de militância que o combata. Portanto não vale a pena encher a boca com a defesa  da Republica.)

A menos que alguém se lembre de acabar com o feriado...

Au bonheur des dames 625

mcr, 09.09.25

casa lena lucas.jpg

 Guida

(Maria Margarida Cabral Lucas de Almeida. RIP)

mcr, 9-9-25

 

Foi há 65 anos mas parece que foi ontem...

A Guida Lucas era um azougue, uma mulher inteligente, uma militante associativa destemida e uma excelente actriz. Do TEUC e do CITAC que ela não fazia destrinça entre os dois grupos. Acho que a primeira vez que a vi em palco foi interpretando "A sapateira prodigiosa". Se bem recordo, foi o Fernando Assis Pacheco neto de galegos, poeta de mão mais que cheia, quem de certo modo a ensaiou para que ela dissesse quaisquer coisas em espanhol  com "salero e espampanante. 

Em 1962 a Guida estava na direcção da Associação Académica e, ,corajosa como sempre, fez parte do grupo que em Maio reocupou a sede da AAC. Foi presa, claro e mandada para Caxias. Éramos ao todo quarenta e quatro os escolhidos  para a visita de estudo que a PIDE nos ofereceu em tal miserável prisão (40 rapazes e 4 raparigas, Com ela estava a Irene Namorado que também, e há muito tempo,  já por cá não anda, Dos rapazes também há já uma longa lista de desaparecidos (aliás não tenho a certeza de saber de todos mas o último que recordo foi o Rui Namorado, primo da Irene, acima referida). Na fotografia que ilustra este tristíssimo post estão  também  outros  desaparecidos, o Zé Barros Moura (que foi marido da Guida) o João Amaral e a Laura Barros Moura (irmã do Zé e primeira mulher do João) e o doutor Orlando de Carvalho.

A Guida fez também parte do numeroso grupo de estudantes de Coimbra castigado e expulsos da universidade por períodos que iam de 1 a 2 anos. Contra ela militava a acusação de ter sido dirigente, da AAC. Mal eu sabia que, anos  depoi,s e também eleito para a Direcção Geral da mesma AAC também teria direito a voltar a Caxias  para mais um perído de descanso e reflexão sempre proporcionado pela PIDE, aliás DGS  Foi a minha terceira detenção  que durou alguns meses que acabaram com as minhas escassas veleidades de fazer o 6ª ano de Direito mas que me proporcionaram a leitura do Proust e sobretudo do Joyce (Ulisses). 

Durante anos, a Guida foi uma presença habitual na minha mesa de café  (ou eu na dela juntamente com a irmã Lena  (2`fila da fotografia) r com a abençoada Maria  L Assis  de que já não tenho notícias há mais de um ano. 

A vida política da Guida culminou como já disse com a sua expulsão de todas as universidades por um período de 2 anos, mais uma das infâmias do Estado Novo  nesses temíveis, iniciais  e violentos anos 60

Todavia, ela voltou a Coimbra, aos mesmos amigos, aos mesmos amores pelo teatro e formou-se em Direito. Pelo caminho conheceu o Zé e com ele se casou. 

Voltámo-nos a encontrar muitos anos depois na sessão solene e final dos Estados Gerais do PS que antecederam o Governo de Guterres. E nunca mais nos vimos mesmo se, de longe em longe, eu tivesse notícias dela. 

Talvez por isso, a recorde fresca, alegre, menina e moça  sem o peso das rugas, da velhice dos desgostos e das ilusões perdidas.

De todo o modo, esta morte é mais um dos muitos sinais do desaparecimento acelerado da nossa geração. Na fotografia ninguém (ou só o Paulo Santiago...) estará, se vivo, abaixo dos oitenta anos.

Parafraseando um excelente amigo aqui já ninguém "outonece". Já estamos todos a invernar.

 

(na fotografia 

de pé da esqª p/ dirª)  Guida Lucas, João Amaral, Paulo Santiago, antónio Avelãs Nunes, Lena Lucas, Orlando de Carvalho, Zé Barros Moura e António Lopes Dias

em baixo mcr, Mª João Delgado, Joaquim Pais de Brito e Helena Lopes Dias)

au bonheur des dames 624

mcr, 07.05.25

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Demasiadamente transparente

ou

 tanto que nem se percebe

mcr, 7-5-25

 

Durante as jornadas "Porto capital da cultura" lá pelos inícios do século soprou na cidade alegadamente invicta,  um par de brisas de loucura de que vinte anos depois ainda se está a pagar a factura.

Longe de mim vir tantos anos depois atacar os festejos, as realizações ou sequer as intenções. Todavia, a comissão responsável pela jornada andou às bolandas, houve substituições de equipa e, eventualmente, intromissão dos poderes políticos, leia-se Governo.

Na altura causou algum espanto a ideia de contratar um famoso arquitecto espanhol, provavelmente catalão, para projectar um edifício.

quando alguém mais ingénuo (eu por exemplo) se atreveu a perguntar qual o destino a dar à construcção, a resposta irritada e presunçosa  foi mais ou menos esta: Faz-se o edificio e depois vê-se..

E a coisa fez-se como uma espécie de prolongamento do parque da cidade, mesmo que entre este o edificado exista uma rua intensamente movimentada que une o litoral do Porto e o de Matosinhos, beirando a praia.

Até hoje,  insisto nos vinte anos passados,  ainda ninguém sabe para que serve a obra que terá custado um balúrdio. Aquilo está vagamente ocupado por um par de lojas e outros tantos restaurantes tudo concessionado por tuta e meia, tristonho, pouco frequentado.

ainda por cima há um qualquer plano ambiental da orla costeira que parece condenar o edifício à demolição, juntamente com mais dois ou três , um deles já no Porto (e também aqui tudo começou por um grandioso projecto, uma imperiosa necessidade que, entretanto, á apenas um vulgaríssimo restaurante de pizzas).

Agora, segundo o "Público" mais uma vez se discute o edifício dito transparente, a sua utilidade, a sua estridente (falta de ) necessidade pois a concessão acaba brevemente e ninguém sabe se a coisa vai abaixo ou não.

Em tempos com um par de amigos criámos uma associação para derrubar o imóvel à martelada, devendo cada preopinante que quisesse colaborar nessa higiénica empreitada pagar uma soma pequena mas ajustada à raiva cidadã de ver o escasso dinheiro público mal gasto

Há neste país, nesta cidade, a ideia de que nada como "deixar o nome na pedra" para se ganhar prestígio. Eu não sei se os responsáveis pelo "Porto 2001" tenham querido ganhar alguma espécie de imortalidade (de esto sempre temporária..., mas isso eles, coitados, ignoram).

A Câmara do Porto aguarda com pouca  evangélica (im)paciência que uma denominada Agência Portuguesa do Ambiente se pronuncie sobre as consultas há muito tempo feitas sobre o destino do prédio.

Já agora, conviria perguntar aos cidadãos se eles sabem para que é que aquilo serve  e como se justifica o dinheiro gasto e mais que perdido sem qualquer transparência.

 

 

 

 

au bonheur des dames 592

d'oliveira, 17.04.25

56 anos depois....

Coimbra, !7 de Abril de 1969

Mcr, 17-4-25

 

Os mais novos andarão pelos 74 anos (73, no caso de alguém ter entrado na universidade  aos 17...).

Os mais velhos, e eu serei um deles, tem mais um largo par de anos, Caso estejam vivos, entenda-se. 

Ainda há pouco choramos o Rui Namorado, poeta, professor, cooperativista, meu amigo desde 60/61, companheiro de cela na minha primeira prisão. O Rui escreveu sobre aquilo que aconteceu (“Movimento estudantil e política Educacional, Centelha ed,1972) O mesmo fizeram outros e são  muitas as publicações que celebram esse dia e a crise que se seguiu, a única crise estudantil durante o Estado  Novo  em que os estudantes venceram . Ministro, reitor da universidade caíram ao fim de um ano tremendo, todos os processos levantados aos dirigentes estudantis foram arquivados, a chamada extemporânea de umas dezenas de  activistas  associativos para Mafra foi anulada. De todo o modo, a direcção da AAC do ano seguinte (onde eu estava incluído) não foi homologada  e obviamente nada apaga as prisões efectuadas (onde, mais uma vez fui incluído tendo mesmo o recorde de tempo de prisão  sofrido. Má sina, mala pata, azar dos Távoras , chamem-lhe o que quiserem...)

Durante uma boa dúzia de anos o Rui mandava aos companheiros do “cong” (ou seja “congeminação”, reunião informal dos dirigentes formais e informais da crise( um poema alusivo ao dia. No ano passado ja o não fez. Temi o pior e soube que estava já mal. Morreu pouco depois como aqui escrevi. 

A crise de Coimbra deixou uma funda marca e, de certo modo, houve muita gente que, em Lisboa ou no Porto, tentou tomar uma tardia boleia, jurando que nessas duas academias a crise também ocorrera. Não ocorreu, mesmo se se tivessem notado manifestações de simpatia. 1969 foi Coimbra e nada mais. 

A fotografia que serve de vinheta é ultra conhecida mas, de certo modo, diz muito do que então se passava, Convém dizer  que os soldados estariam sem munições nas espingardas (coisa que aliás desconhecíamos mas que naquele momento não só não nos assustou como de certo modo nos enraiveceu)

Entre um futuro como soldado em África e um ensino académico medíocre e ultrapassado, num pais cinzento e altamente policiado, o futuro aparecia carregado de sombras. Cinco anos depois, as coisas mudaram e, basta ir a uma hemeroteca, compulsar jornais e depressa darão com muita malta de Coimbra 69  entre os jovens milicianos presentes no golpe militar. (apenas recordo dois: o João Anjos e o  Carlos Marvão  que se recusaram a intervir contra uma greve de trabalhadores dos CTT. Claro que não escaparam a uma punição do novo poder democrático Foram presos e deram origem a uma campanha:  -“Anjos Marvão- Libertação”)

Neste blog participaram durante algum tempo mais dois dessa Coimbra rebelde: Manuel Simas Santos,  juiz conselheiro jubilado e autor demais de 80 livros de Direito  e António Manuel Lopes Dias, poeta e advogado.

Vai esta para muitos de que destaco apenas quatro Fernanda da Bernarda, Osvaldo (Vává) de Castro, António Mendes de Abreu e João Bilhau

 

 

 

au bonheur des dames 623

mcr, 08.03.25

entre marido e mulher 

mete a colher

 

mcr. 8-3-25

 

As leitoras e os leitores (se é que mereço tais plurais) sabem que o provérbio  de que socorro não é exactamente assim. 

Bem pelo contrário a segunda parte rezava "não metas a colher". Todavia, hoje, como aliás, sempre, foi meu entendimento que havia de meter não uma, sequer duas colheres mas um faqueiro inteiro, se possível o de 24 peças...

Não que eu seja feminista mas tão só porque, desde cedo tive um belo lote de amigas e isso sempre me preparou para  considerar que tratar mal uma mulher, considerá-la inferior, era mais do que uma cobardia uma falta ao que nos torna a nós homens mais humanos. Ou simplesmente humanos.

Tive a sorte de frequentar quase sempre liceus mistos mesmo se pelo menos nos intervalos houvesse recreios separados que o Estado Novo "protegia" as virtudes  com maior afinco do que a Igreja, ou as Igrejas para ser mais exacto.

Ainda hoje me gabo de ter amigas desde os tempos da escola primária ou do liceu até às da universidade e posteriormente da vida profissional.

E quando digo amigas, distingo-as das namoradas que, Deus seja louvado, também fizeram o favor de me aturar.

De quando em quando, lá me aparece uma "velha à conversa" amiga com quem me sento à mesa da esplanada falando de tudo um pouco  e sempre com largo proveito meu. De certo modo, acho que as mulheres olham para o mundo e para as suas bizarrias de um modo ligeiramente diferente do meu e que isso me abe perspectivas interessantes e estimulantes para o tentar entender.   

Por isso, p dia 8 de Março pouco ou nada me diz. Ou, mrelhor, irrita-me e infigna-me a simples ideia de haver um dia da mulher como se se excluíssem os restantes 364 dias do ano, esses sim devotados ao homem ou ao que resta de certas tradições patriarcais  que ainda relembram o dito "ao homem a praça, à mulher a casa". 

Isto para não citar o dito alemão (e eu ainda o ouvi um par de vezes nas terras teutónicas) que reservava às mulheres o clássico trio  "Kirche, Kuche,  Kinfer", o mesmo é dizer igreja, cozinha e crianças. 

Portanto, se antipatizo com a celebação não deixo de, à luz crua da realidade, verificar que a longa batalha das mulheres pela igualdade de direitos e deveres ainda vi  ter muito que andar.

São os salários que em condições iguais são sempre mais baixos, são a sobrecarfa de deveres no casal a cair sempre em cima da mulher, é a violência de género que por cada vítima masculina aponta vinte vítimas feminínas,

São os tribunais (e mesmo certas juízas mulheres) que decidem muitas vezes contra a mulher ou desculpam as malfeitorias masculinas  com uma espécie de conformismo com o sarro infame da tradição, enfim são  e há que dizê-lo sem receio, muitas mulheres que  aceitam passivamente um lugar mais que secundário na relação homem mulher. 

Tenho sobre a ideia de quotas por género muitas dúvidas quanto mais não seja porque a simples ideia de quota pode significar um favor, um entorse à igualdade, à competência e à inteligência.

E , convenhamos, basta reparar em certos pormenores para verificar que mesmo sem quotas, as universidades cada vez tem mais mulheres que homens. que certas profissões dantes consideradas exclusivo de homens são maioritáriamente exercidas por mulheres (médicos, magistrados, professores, investigadores científicos  -notem que, nesta lista, só empreguei, et pour cause, o masculino-).

Finalmente, costumo afirmar que não dou para o peditório "progressista"  que garante as virtudes endógenas da Esquerda como suporte único da igualdade homem mulher. Basta olhar para os setenta anos de socialismo real da URSS para verificar não só a falsidade do conceito como sobretudo perceber que durante esse período a causa das mulheres e a sua independência não passaram de uma caricatura.

E não é a actual China, a Coreia do Norte, Cuba ou a Venezuela que  poderão ilustrar tese contrária. Pelo contrário!

 

(seriam muitas as destinatárias  deste texto mas justamente por isso, entendi dedicá-lo à memória de duas amigas recentemente desaparecidas Teresa Alegre Portugal e Fernanda Dias Taborda, dois magníficos exemplos que, uma vez mais, quero recordas com fraterna ternura e indisfarçável carinho.

E junto-lhes a prima Maria Manuel  Viana e a amiga de infância Teresa Estrela Esteves. )

O título do folhetim remete para mais um apelo à solidariedade cidadã com as vítimas de violência de género. Que ninguém assobie para o lado ou passe fingindo não ver. Recusem qualquer solidariedade com o agrssor cobarde!

au bonheur des dames 622

mcr, 20.01.25

kiki no papel

18 anos de felicidade

"kiki de Montparnasse" , 

gata medrosa mas aventureira

mcr, 20-1-25

 

Encontrei-a na veterinária, escondida atás de um balde. Porventura achava-se protegida de um mundo a que recentemente dhegara.Vinha, ao que parece, da lota de Matosinhos, local perigoso para bichanos recém-naecidos. 

Foi amor (inteiramente correspondido ) à primeira vista. Instalou-se cá em cása logo seguida da Ingrid Bergman que  dias depois chegou, também recém nascida. As duas "pintaram a manta" numa casa suficientemente grande  para se escpnderem constantemente da CG que, inquieta, as procurava em vão. Quando os queixumes da aflita dona aumentavam e pareciam quase acusações contra o culpado do  costume (eu) respondia que elas tinham ido tomar um café na esplanada mas que voltariam em breve. 

17, 18 anos para gatas é mais do que oitenta e muitos para um humano. A Natureza tem leis quase tão implacáveis como as famosas de bronze duma economia antiga e que também já deu o que tinha dar. 

Estas duas gatas escorriam meiguice por todos os poros, seguisam a C G para todo o lado, cheguei a suspeitar se elas não se imaginariam cães de guarda,  Mas eram apenas gatas amáveis e amigáveis. 

Commo diz o meu neto Nuno Maria, estas gatas eram da família. Agora, sempre segundo ele, já só são estrelinhas no céu. Seguramente a velar por nós pobres pecadores, agora desamparados, 

Recentemente, do também recentemente falecido Eugénio Lisboa  saiu um belíssimo livro (Manual prático de gatos para uso diário e intensivo, ed Guerra e paz, 2024)  que vai hoje ser oferecido à CG Sei que não irá apagar a dor da perda mas que posso eu fazer? 

Talvez ela perceba que choro tanto quanto ela esta(s)  perda(s) sucessivas, esta casa mais vazia...

 

(Kiki de Montparnasse foi uma das grandes figuras estelares do movimento surrealista. Pintada e fotografada pelos melhores, escreveu um livro de memórias interessantíssimo que Hemingway prefacou  (e ele apenas prefaciou dois livros!... Isto diz tudo sobre a mulher e sobre a sua escrita..)

au bonheur des dames 621

mcr, 18.11.24

Um pranto por Maria Parda

(adeus Fernanda Dias)

mcr, 18-10-24

 

 

Ainda há poucos dias, o meu irmão

afirmava  que tínhamos tido uma sorte imensa ao chegar a Coimbra e à universidade em Outubro  de 1960. E isto não se devia a pena a termos vivido uma década de oiro e testemunhado algumas da mais importantes mudanças  que omundo (mesmo este ainda...) conheceu. Desde a eleição de Kennedy, às guerras da Argélia ee do Vietnam . à revolução cubana, ao desastre da "grande revolução cultural (mesmo se nada teve de cultural...) ou aos primeiros tempos da descolonização. A n´vel caseiro, foram os anos da mudança académica em Coimbra, do fortlecimento da oposição estudantil, da guerra colonial e de todos os seus efeitos. Junte-se-lhe o súbito aumento do turismo estrangeiro, a entrada maciça  das mulheres no mercado do trabalho  e paralelamente a primeira e incipiente "democratização" da universidade. Em 1960,  coimbra tinha 5000 estudantes, nove anos depois já ultrapassavam os 8000. E nesse número a entrada de mulheres na universidade tivera um aumento exponencial.  

É e aqui que chgamos à Maria Fernanda Dias (de Almeida Taborda pelo casamento com o António Taborda, seu companheiro de uma vida inteira. também ele dirigente académico, também ele expulso da universidade, advogado de todas as boas causas, amigo indefectível .)

No ano de 1960, a Associação Académica mudou de dirigentes. A mais de dez anos de direcções afectas ao regime salazarista , muitas vezes quase se confundindo com funcionários do governo, eis que uma nova geração irrompeu e graças a um mobilização extraordinária dos estudantes, venceu as eleições para a maior (e mais antiga) Associação de Estudantes do país. Foi a direcção Candal (assim se chamava o presidente eleito, mais tarde prestigiado advogado, importante lider da Oposição e depois, deputado socialista). Candal era apenas o "primus inter pares" dessa lista prestigiosa e prestigiada de estudantes . Apenas referirei que entre os restantes seis havia uma mulher (apenas uma!...) de seu nome Fernanda Dias, estudante de Direito. corajosa como poucos, inteligente como ainda menos, democrata e excelente actriz no TEUC (Teatro Universitário dos Estudantes de Coimbra). 

Em Coimbra, além da AAC, existiam diversos agrupamentos culturais estudantis que mobilizavam muitas  centenas de estudantes e que aliadas a estruturas informais mas tradicionais  na Academia, constituíram sempre o núcleo cultural e político da mudança profunda na massa estudantil.

E é bom lembrar, quase setenta anos depois, que essa geração, mesmo privilegiada pelo nascimento, pela educação e pela fortuna, comeu o pão que o diabo amassou, sofreu perseguições, ameaças de toda a espécie, viu muitos dos seus serem presos obrigados ao exílio durante anos, proibidos de aceder a um sem fim de cargos administrativos ou até à função pública. 

Esta geração, pelo menos os homens, apanhou com a guerra colonial , com as primeiras e duríssimas batalhas de Angola e deixou por lá um rasto de mortos  de que apenas quero referir o João Cabral de Andrade, méd.ico que já não voltou a Portugal , morto numa trivial estrada do norte de Angola. 

A História passa por cima de dramas individuais, de pessoas isoladas, de histórias de heroísmo, coragem, e dedicação para apenas fixar os grandes momentos.

De quando em quando, tento, sem grande talento e menor habilidade fazer o retrato de muitos amigos, companheiros, camaradas que involuntariamente (ou não) me fizeram quem hoje (ainda) sou. Sinto-me, cada vez mais, e mais dolorosamente, um sobrevivente que tem a estricta obrigação de testemunhar. E isso, e quase só isso, a razão desta minha teimosa permanência neste pequeno espaço onde vou escrevendo para eventuais e desconhecidos leitores, muitos ou poucos, pouco se me dá,  e, em boa verdade, uma que outra vez, chega-me desse lado  aí, um eco, um abraço uma pequena voz  que me obriga a continuar.

E hoje, melhor dizendo desde há dias, é a imagem da Fernanda nesse ano longínquo de 60 (ou 61. sei lá) no palco do Avenida a dizer o extraordinário "Pranto da Maria Parda" de Gil Vicente. 

A Fernanda era grande, voz possante, talento para dar e vender e "fazia" uma Maria Parda  extraordinária, vicentina, popular, inteligente. A comédia e a tragédia desse texto vicentino que apenas e, primeira leitura parece cómico, foi um dos grandes momentos do teatro que eu vi(vi) e notem que vi muito, do bom, do maus r do melhor por essa eurpa fora, às vezes em línguas que desconhecia  (e recordo o Piraikon Theatron, grego com duas sublimes tragédias ou uma récita sueca em que apenas descortinei a plavra "Pricessa", assim mesmo,  pelo menos ,assim a registei.  

Depois da actriz, conheci a rapariga, a colega mais velha, a profissional competente, a cidadã exemplar, a amiga. Com o andar dos anos, vamo-nos perdendo de vista e tenho ideia que a última vez que nos encontrámos foi no enterro do António seu marido  e meu amigo. Em envelhecendo vamo-nos isolando, perdendo por icúria ou preguça contactos , caras e amigos. subitamente a morte vm, e com ela um turbilhão de remorsos, recordações, gargalhadas antigas  ou a memória, também dela de momentos de aflição de que os nossos tempos de juventude não foram avaros. 

Agora a Fernanda  já não está. Resta um sorriso, uma palavra gentil o pranto inesquecível da Parda (que em Gil Vicente queria significar negra, que nessa época pré (des)Ventura já por cá mourejavam (e notem esta palavra. mourejar, sinal da mistura de raças e gentes)  pretos trazidos por alguma nau de torna viagem. 

Permitam, pois, este pranto agora meu, por alguém a quem devo uma alegria teatral, outras muitas amigáveis

E se aqui chegou alguém que leio uma vez mais o texto vicentino que em homenagando o Mestre, também há espaço para cumprimentar o actor que o ressuscita cada noite nas tábuas de um teato ode quer que seja.

au bonheur des dames 620

mcr, 08.11.24

Teresa Alegre Portugal

mcr, 8-11-24

 

Provavelmente, o nome dirá pouco a muita gente Haverá quem a tenha conhecido como Teresa Alegre, irmã do poeta ou Teresa Portugal mulher do António, enorme músico de Coimbra, auto entre tantas, da música da "trova do vento que passa", verdadeiro e belíssimo hino da minha geração.

Todavia a Teresa era muito mais do que irmã de um ou mulher do outro. 

A Teresa, como as estrelas, tinha luz própria e nunca pairou na órbita de outros mesmo grandes.

Conheci-a pouco depois de chegar a Coimbra já o marido e o irmão eram figuras conhecidas na Academia mas logo que pela primeira vez, falei com ela percebi que aquela jovem mulher (era dois anos mais velha  do que eu) sabia bem o que queria, como queria, tinha opiniões próprias, ousadas, mesmo que uma aparente sensatez e um tom pausado na conversa , a fizessem parecer modesta.

A Teresa, deixem-me dizê-lo já, era forte, cabeçuda, lutadora , bonita  e parecia ter jeito para tudo, sobretudo para o teatro, sempre o CITAC onde deixou uma bela marca como actriz.

Convenhamos que não era fácil ser mulher de um guitarrista do tamanho do António Portugal, excelente amigo e companheiro de tantas lutas ou irmã do Manel amigo também ele, poeta que se tornava notado, orador brilhante nas assembleias magnas e claramente um dos líderes da Esquerda estudantil coimbrã. 

(deixemos aqui uma pequena recordação de sua mãe, outra senhora notável que o Assis celebra num belo poema que alguma vez recitei em público numa das celebrações deste outro grande nome da poesia portuguesa e que também me honrou com a sua amizade ao ponto de me dedicar um dos seus livros.)

O acaso,  vida, a sua indisponibilidade para os jogos políticos fizeram com que ela tivesse uma carreira política cheia mas muito local. Foi deputada pelo PS mas fundamentalmente esteve ligada com vereadora à Câmara de Coimbra. Ignoro a razão porque nunca quis disputar a presidência daquela Câmara mas suspeito que não estava para compromissos  que uma presidência de Câmara implica.

A Teresa era de uma independência quase feroz, mesmo se a expressava com um sorriso amável, discreto e uma voz pausada (uma bonita voz, diga-se de passagem que nisso ela era muito parecida com o irmão...)

Conheci  um belo quarteirão de mulheres que me deixaram sempre a impressão que me ensinavam qualquer coia, que me melhoravam e que provavam com a sua vida e atitude aquela máxima atribuída a Mao Tse Tung (ou Zedong se preferirem) : as mulheres são metade do céu. Muitas ainda estão vivas mas aproveito o momento para citar a Helena Aguiar, a Fernanda da Bernarda ou a maria Manuel Viana , minha prima que praticamente vi nascer, crescer, escrever e morrer de um estúpido cancro depois da morte do filho Manuel num acidente ainda mais estúpido e cruel. Nesta minha longa travessia conheci outras na Alemanha, França  Itália, Espanha ou Holanda por onde felizmente andei o tempo suficiente para ganhar algum mundo e perceber melhor Portugal. Sou, de certeza, o pior feminista que conheço ou, pelo menos o que viu mais mulheres fora do comum, resignarem-se  de certo modo a uma quase clandestinidade que as impediu malgrado as suas qualificações, talento e inteligência,  malbaratando as suas capacidades  em gerir muito mais do que poderiam ter gerido. 

Incluo nesse grupo outra grande Senhora que conheci na mesma época coimbrã e que se chamava Maria( de Jesus) Barroso. E se a cito  com carinho e respeito é porque também foi através do teatro que tive oportunidade de a conhecer e falar com ela. Haveria de encontrar mais tarde e em circunstâncias mais agradáveis quando Mário Soares se candidatou  à Presidência da República. Maria Barroso que além de resistente, professora, deputada teve um forte papel como primeira dama  e mais tarde noutra funções Sobre s minhas amigas já citades tinha uma vantagem: vivia em Lisboa e isso pesa . Estava n o lugar certo e à hora certa  E tinha uma enorme coragem. 

quem me lê já conhece estas digressões um pouco fora o texto  mas julgo que apenas ilustram um par de pontos de vista e permitem pelos exemplos colocar no seu devido lugar tudo o que quereria dizer. 

Sou um leitor (e comprador, já agora) de jornais e revistas. Por isso espanta-me (ou talvez não...) o pouco relevo dado à morte da Teresa. Também essa escassez de notícias diz muito das razões da cris crise que afecta a imprensa escrita. ..

Morreu a Teresa há dois dias e só hoje soube disso. É tarde para o enterro mas nem por isso quero deixar bem claro que, para mim, seu amigo  antigo e infiel, foi uma honra, um privilégio, uma alegria  e uma imensa sorte tê-la conhecido

Um abraço aos familiares outro bem sentido ao Manel  e também a todos os que comigo tiveram a dita de conhecer e privar com a Teresa Alegre Portugal, uma grande Senhora.

 

(e já que se falou da Coimbra dos lavados ares permitam que recorde Judite Mendes de Abreu outra mulher que deu a Coimbra e à sua Câmara o melhor do seu talento e capacidades)