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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 423

d'oliveira, 17.10.20

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Com o devido respeito

(recado a S.ª Ex.ª, o Sr. Primeiro Ministro)

mcr 17 de Outubro

 

V.ª Ex.ª, patrioticamente preocupado com a saúde e salvação dos Seus súbditos, entendeu por bem anunciar que, a partir de uma data muito próxima, todos os portugueses munidos de telemóvel deverão ter descarregado a aplicação contra o covid. Os contraventores serão multados, pesadamente multados, pelo polícia de giro mais próximo que verificar o incumprimento aleivoso da orientação ministerial (quem diz polícia diz guarda republicano, polícia municipal ou marítima. Excluem-se os cavalheiros do serviço de estrangeiros e fronteiras por se saber que têm a mão demasiado pesada que o diga o desgraçado ucraniano apanhado no aeroporto de Lisboa. E parece que a ASAE também não faz parte das forças telefónico-repressoras ora em causa).

Devo antes de mais, dizer que tenho cumprido na generalidade e sem discussão, as medidas normais e gerais anti-pandémicas. Lavo as mãos, uso máscara nos recintos públicos fechados, guardo a distancia dita “social” e mesma na rua se houver muita gente tenho o cuidado de defender as pessoas usando a máscara. Saio pouco (compra de alimentos, farmácia, jornal e um café na esplanada semi-deserta) e nos elevadores do prédio lá ponho a mordaça mesmo se viajar sozinho.

Uma vez por dia, à noite, aguento o noticiário e a consabida conferencia inútil de imprensa que, por junto, gira à volta de lugares comuns, narizes de cera e números que fora do contexto pouco ou nada esclarecem. Ouvi mesmo os pouco sofisticados devaneios da srª Ministra sobre a desnecessidade de recorrer aos privados, mesmo sabendo-se como se sabe que o SNS mobilizado contra o vírus, deixou de realizar milhões de tarefas e, eventualmente permitiu que cinco a sete mil cidadãos morressem a mais do que no ano passado. (E isto só até Julho e sem falar nos morto dos lares...)

Dir-se-á que o progresso atropela necessariamente algumas vítimas mas que, para além dessa comezinha consequência, o risonho futuro justifica tudo.

Eu, pobre de mim, professo a antiga ideia de que os fins nunca justificam os meios pelo que de há muito que não comungo das certezas ministeriais que, tem uma carga ideologia que, no limite lembram, salvo as devidas distâncias, a argumentação do falecido Pol Pot que também expurgou os males reais ou imaginários do Cambodja mandando ad patres um terço dos seus concidadãos.

A ideia de uma aplicação telefónica que conseguisse opor uma barreira clara e total ao avanço das infecções, em teoria até nem parece má. O problema está num ponto simples. Ainda não se verificou em nenhum país europeu um sucesso mesmo só de estima na utilização deste meio. Bem sei que na Europa, selvagem e pouco civilizada, a aplicação é voluntária e depende dos humores de cada um dos portadores de telemóvel.

Cá, pelos vistos, e daí a gritaria, será obrigatória. Daí estarem os cidadãos munidos de telemóvel à mercê de um cabo de esquadra que, por fas ou por nefas o mande parar e lhe inspecione o objecto. Bem me parece que a coisa é inconstitucional mas até que o TC o declare, muito boa gente será investigada e, no caso de não terem a aplicação, punida com multa e um eventual “safanão dado a tempo” (como bem dizia o dr. Salazar).

Eu que fui “safanado” em muitos e vários tempos, recuso-me a mais pauladas nos velhos e magros lombos. Daí entendi que lá terei de me divorciar do telemóvel que, aliás, uso pouco. Fora a CG que entende dar-me as suas ordens quando ando fora do redil, raras vezes a coisa toca e menos ainda a uso. É provável que alguma vez me fará falta, que eventualmente ficarei prejudicado por o não trazer mas entre isso e a obrigatoriedade da aplicação ao alcance de qualquer agente da ordem, não me resta grande escolha.

É provável que, se tal obrigação não se tornasse absoluta eu, com ajuda de alguém, fosse capaz de meter o diabo da aplicação. Mas obrigado, vou ali e já volto.

Apetecia-me dizer às excelentíssimas e reverendíssimas autoridades civis, militares religiosa e outras que podem meter o meu telemóvel onde muito bem lhes der gozo mas temo ser mal interpretado e como não estou para me defender dizendo que os meus opositores “descontextualizaram” as minhas palavras, nem sequer isso digo.

Passe V.ª S.ia muito bem e que o covid não lhe bata à porta pois, pelos vistos, agora começou a rondar os governantes. E se é verdade que os trumps e os bolsonaros saíram daquilo sem beliscadela evidente o mesmo pode não acontecer a outros. Bem anda o Sr. Presidente que dia sim, dia não, faz o testezinho. Se isso o consola, porque não?

 

Nota: num post recente referi que a expressão "torrãozinho de acúcar" constava da "Campanha Alegre" Nada disso, vem no volume "Notas contemporâneas" como, muito bem e educadamente, um leitor me lembrou. Já lhe respondi mas volto a agradecer-lhe o reparo e o bom gosto: ler Eça faz o covid parecer quase suportável. Se esse amabilíssimo leitor me der a direcção terei o maior gosto em lhe enviar um livrinho que, espero o fará sorrir.

au bonheur des dames 422

d'oliveira, 15.10.20

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“Ai Portugal é um torrãozinho de açúcar!” *

mcr, 15 de outubro

 

Coitados dos políticos que surfam temerariamente as ondas do nosso descontentamento. Eles, gloriosamente, de pé no mar bravio, enfim na rebentação, e eis que uma pobre palavra os atira de focinho para o poceirão (era assim que numa cada vez mais longínqua e difusa infância chamávamos cova que as ondas faziam e onde se perdia o pé. Fui pela palavra ao Houaiss mas nada. Às tantas era um termo muito próprio de Buarcos )

E agora quem foi o náufrago do português língua traiçoeira por excelência?

Pois o senhor Ministro Siza Vieira, homem cauteloso que raras vezes dá azo a zurzidela.

Numa qualquer sessão da Assembleia da República, questionado pelo rumor constante crescente da “corrupção”, S.ª Ex.ª terá dito, e cito, “colocar a corrupçãoo acima de alguns poderes estruturais é um sinal externo muito negativo”

Ou seja, o Ministro, apelou obliquamente para o patriotismo dos deputados avisando a Assembleia dos perigos do uso e abuso dos alarmes contra a corrupção. O estrangeiro, sempre atento, a tudo o que se passa no jardim à beira mar plantado, poderia recuar nas suas intenções de investimento...

Todavia, numa investigação do “Expresso” (Revista, pp 7 e 8) da passada semana lá aparecia, um quadro internacional onde a disseminação da corrupção atingi o valor espantoso de de 94% contra, por exemplo, 22% na finlandia. Ou seja, os cidadãos portugueses estão convictos que o país é um imenso pinhal da Azambuja. No mesmo artigo, referia-se, entre outros o caso da deputada Hortense Martins que se tinha abarbatado com duzentos e tal mil euros de fundos comunitários e que, oh surpresa divina!, continua sentadinha no areópago sem que ninguém lhe vá à mão e lhe peça delicadamente para ir dar uma volta ao bilhar grande.

O Ministro decerto não ignora que os tribunais estão cheios ou correm esse risco de processos contra políticos, magistrados, banqueiros do regime, de todos os regimes, aliás, enfim de que fora deste caldeirão de Pero Botelho aparent rari nantes in gurgite vasto para citar Virgílio, o poeta latino de que apareceu uma brilhante tradução. Por outras palavras, e traduzindo o latinório, no outro mar vasto– o da virtude, são raros os marinheiros que se deixam ver. O resto é como nas esquadras que vinham do Oriente: afundam-se nomes e reputações ao peso da muita canela obtida por meios pouco claros.

Eu só soube destas declarações ministeriais porque a CG se engasgava de riso ao ler um suelto no facebook . Como não frequento essa (e outras) rede tive de a ouvir. As declarações do ministro tinham suscitado uma onda de indignações e um comentário brejeiro mas esclarecedor. Alguém, dizia que “se os corruptos tivessem uma luz no cu, Portugal inteiro pareceria mais feérico que Las Vegas”.

Tirando o pequeno ponto escatológico, a criatura tinha montes de razão. O panorama é estarrecedor e ao cheiro dos fundos que hão de vir da UE as suspeitas avolumam-se quanto à ladroagem que se põe em guarda.

Ainda por cima, ninguém esquece que um presidente do Tribunal de Contas mal concluído o mandato foi irremediavelmente substituído por outro cavalheiro. Ora sucede que há uma longuíssima tradiçãoo, praticamente ininterrupta de renovar os mandatos neste Tribunal, sobretudo se, como se depreende das palvras do Presidente da República, do Primeiro Ministro e do alegado líder da Oposição, o substituído é digno de todos os louvores. Esclareça-se que o ex-presidente do TdC tinha durante vários mandatos ocupado um mais que honroso cargo numa instituição comunitária de cariz semelhante de onde saiu cumulado de honrarias.

A tese novíssima e sem apoio na constituição de que este mandato deverá ser único foi repentinamente mencionada pelos dois primeiros quando já todas as sirenes tocavam a rebate. O Sr Presidente disse mesmo que ele, constitucionalista, sempre fora pelo mandato único. Contudo, foi quando presidia (sem chama nem fulgor, nem herança visível) ao PPD que a constituição foi revista e nem uma palavra a favor dessa tese foi seguida. Mais: nessa mesma revisão a teoria ora em curso foi chumbada! Quanto ao líder da oposição a coisa parece clara. Depois de o informarem que o Presidente do TdC ia ser substituído, perguntaram-lhe se concordava com o futuro nomeado e ele aceitou. Todavia, em entrevista acrescentou que “por ele se manteria o antigo”... Portanto, até na chamada do seu nome, houve um pequeno entorse à verdade plena. Ninguém, pelos vistos, lhe deu a escolher o nome mas apenas o consultaram sobre o que já estava nomeado.

Voltemos, porém, ao Ministro Siza Vieira. Nada tenho contra ele, bem pelo contrário. da minha preguiça, perdi de vista. Portanto, repito, é com alguma perplexidade que em vez de ouvir uma dura condenação da corrupção e um claríssimo anúncio de que os seus dias estariam contados (pelo menos no que respeita ao Ministério da Economia e enquanto ele conseguisse continuar a ser monistro...) eis que o governante se dá ao luxo de prevenir as raras vozes que no deserto parlamentar clamam sobre os males de tal escarcéu! “Não façam ondas que os estrangeiros assim não investem”. E é mau para a reputação do país!... O dr. Siza Vieira que certamente lamenta a corrupção endémica que grassa no seu país, aflige-se com a reacção dos investidores, provavelmente os cavalheiros chineses, que poderão ficar desmotivados...

Em segundo lugar, o dr. Siza Vieira parece ignorar que esta calamidade pública é pública e notória e dela se fazem constantemente eco relatórios internacionais. Ou seja, poucos ignoram que, em Portugal, há sempre uma multidão de mãos ávidas que esperam comprador mesmo barato para exercerem as suas influências no descaminho das despesas públicas.

Será o dr. Siza Vieira assim tão ingénuo ou pretenderá apenas calar as vozes dissonantes que contrariam a tese da melhoria da ética pública?

Recomendaria a leitura sempre excelente de Eça de que ele decerto ouviu ofalar nos seus anos de escola secundária. Bem sei que as leituras obrigatórias suscitam um profundo e duradouro horror à grande maioria das vítimas inocentes e jovens do eduquês que cá se pratica com alto grau de malignidade mas convido-o a esse “patriótico” esforço para perceber que o patrioteirismo do seu apelo é malsão e, sobretudo, ridículo.  

* o título é retirado de "Uma campanha alegre"

 

 

 

 

au bonheur des dames 421

d'oliveira, 08.10.20

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A metade do céu?

Talvez mais...

mcr, 8 de Outubro 2020

 

 

Mao Ze Dong que, no meu tempo de descuidosa juventude, ainda se chamava Mao Tse Tung terá dito alguma vez que “as mulheres são metade do céu”. Se o disse ou não é irrelevante, tanto mais que ele nunca se mostrou particularmente favorável à gens feminina, o que, aliás, está dentro da tradição comunista (basta ver o lugar reservado às mulheres no que toca à acção política ou ao desempenho de cargos. Das soviéticas Clara Zetkin ou Inessa Armand escasseiam provas que tivessem – como prometiam – sido decisivas. A alemã Rosa Luxemburgo morreu cedo ainda que deixando uma obra teórica de fôlego mas repudiada pela “inteligentsia” oficial do Komintern. Restaria Dolores Ibarruri, “la Pasionaria”, emblema da revolução espanhola e stalinista convicta. Dela não há memória teórica que valha apesar de algumas fórmulas que fizeram fortuna mesmo que não tenham tido êxito: no pasarán!; mas vale morir de pié que vivir de rodillas...).

Todavia, a História (com H grande) é atravessada subterraneamente por vultos femininos imorredouros, de escritoras e artistas, de intelectuais de enorme influência e mesmo de políticas que marcaram o seu século, desde Maria Teresa a Catarina a Grande ou as primeiras Isabel, a inglesa e a Católica.

A História é feita, porém, por quem a escreve e houve que chegar ao século XX para, independentemente de feminismos mais barulhentos que eficazes, se começar a desenhar com vivacidade uma outra cartografia da “metade do céu”.

Aproveito, portanto, a boleia da última capa da “revista” do Expresso que destaca Elvira Fortunato (já aqui citada pro mais de uma vez!) para festejar, desde já, dois Nobel a Química, um a Física e duas mulheres que, além de alemãs e europeias (cela va de soi) são duas extraordinárias impulsoras das melhores e mais abertas políticas que nos dizem respeito. Refiro-me obviamente, a Angela Merkel (várias vezes aqui citada) e a Ursula von der Leyen, ctual Presidente da Comissão.

De Merkel já referi, mesmo quando isso era politicamente incorrecto, algumas decisões que não só dignificaram a Alemanha mas sobretudo a Europa, pelo exemplo e pela oportunidade. Bastaria lembrar o acolhimento de um milhão de refugiados para perceber a diferença que faz desta Chanceler, uma estadista numa época em que isso é mais raro do que nunca.

De Ursula von der Leyer que foi recebida com frieza e desconfiança também já não é preciso falar. Em menos de um ano, esta aristocrata e médica, mãe de sete filhos (e ainda por cima uma bonita mulher!) calou todas as críticas, aliás injustas e todas as desconfianças imerecidas. Se o seu program se cumprir a 50% já teremos dado um salto quantitativo e qualitativo digno de menção em todos os manuais de História.Há minutos, recebi via mail uma comunicação da “wook” que me informa da atribuiçãoo do Novel de Literatura à americana Louise Gluck. É a 16ª mulher a receber esta distinção, o que mostra à evidência quão forte é presença de homens neste campo.

Não a conheço, sequer de nome, sei que há um poema dela traduzido (rapinei-o e vai no fundo desta página) e que tem 77 anos. Quase a minha idade! Borges, esse gigantesco autor que a Academia sueca preteriu sempre por razões incompreensíveis, absurdas ou meramente ideológicas, disse uma vez quando o prémio recaiu sobre um autor mais novo um ou dois anos do que ele: ainda bem que se lembraram da juventude!”.

Parafraseando-o, com diversa intenção, direi que ainda bem que se lembraram de uma velha senhora nova-iorquina, ou seja vinda de uma elite cultural americana obnubilada pela sombra infamante do trumpismo e dos seus sequazes analfabetos.

Deixo-vos com o poema Circe de Louise Gluck. A tarde tornou-se gloriosa e o ar outonal mais transparente

 

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.

 

a vinheta: o "casal primordial" dogon, versão sentado (bronze). De todo o modo sempre são 71 centómetros. O povo dogon não é o único a recorrer a esta associação homem mulher em igualdade de circunstâncias, posição e dignidade. Todavia, é o de maior nomeada.

 

Au bonheur des dames 420

d'oliveira, 01.10.20

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Patriótica graça 

mcr, 1 de Outubro

A sr.ª dr.ª Graça Freitas começa, aliás já tinha começado (e há muito tempo) a perder a graça.

Ignoro se ela é, ou era, uma pessoa competente. Mesmo sendo a nº 2 do anterior director geral poderia não passar de um pau mandado. De todo o modo, quando o lugar ficou vacante, a sr.ª dr.ª Freitas subiu naturalmente e é nessa qualidade que todos os dias, todos os santos dias, ela aparece na televisão sem que, nas mais das vezes, acrescente algo de útil.

Eu já aqui disse que os responsáveis políticos deveriam ser poupados ao massacre da banalização. A Directora Geral, o Secretário de Estado, a Ministra deveriam vir a público quando tal se impusesse e não todos os dias como se fossem uns (medíocres) pivots televisivos.

Infelizmente, alguém, ou eles próprios, decidiu que a presença destas três criaturas era vital para o esmagamento do covid. Como os espantalhos nas searas...

 

A permanente presença destas criaturas de verbo gago e palavroso acaba por ter um efeito péssimo: já ninguém liga ao que dizem. Depois dos números de mortos, restabelecidos, hospitalizados as pessoas mesmo mantendo-se na mesma emissão de televisão, desligam. Esperam docilmente a próxima notícia ou, pior, a novela inevitável.

Mesmo os números são profundamente enganadores. Só interessa saber quantos novos infectados há se soubermos quantos testes se fizeram. É que é muito diferente haver 500 ou 600 novos casos se o universo testado tiver cinco, dez ou vinte mil testados. Depois, as percentagens também de pouco servem. Dizer que de ontem para hoje houve um aumento de 5% tem pouco significado. 5% de 10000 não é exactamente a mesma coisa de 50.000. De certo modo, o número bruto de novas infecções traduz melhor a realidade sombria em que se vive. Sombria para nós mas excelente se compararmos os “nossos” novos casos com Espanha, Reino Unido ou França. Mesmo sabendo que estes países tem 5, 6 , 7 ou mais vezes a nossa população. Madrid sozinha tem mais infecções que Portugal inteiro!

Deixemos, porém, esta abordagem e concentremo-nos na tristíssima figura que a dr..ª Freitas foi fazer na Assembleia. Disse a pobre criatura que “não é patriótico pôr sempre o nosso país nas bocas do mundo quando se sugere que a informação não é boa

Eu não sei se a dr.ª Graça sabe o que é um dicionário mas se acaso sabe, e porventura tem um lá em casa, convir-lhe-ia ir procurar a palavra e perceber (se for capaz) o que patriotismo quer significar.

Já Eça referia os patrioteiros e, eventualmente – não recordo – os patriotaços a propósito de uma discussão com Pinheiro Chagas.

Nos tempos em que a dr.ª Graça frequentava os bancos do liceu, o antigo regime insistia no patriotismo e condenava inabalavelmente os anti patriotas.

Fico com a fortíssima convicção que a excelente senhora pertencia aos patriotas puros e duros. Basta-me para tal ver como ela responde à justa indagação parlamentar

E digo isto porque, infelizmente, basta que alguém, em qualquer parte do vasto orbe diga uma amabilidade sobre Portugal para cá se fazer ouvir um coro de clarins e tambores a rufar.

Aliás, se os números fornecidos pela DGS estão certos, somos, sem dúvida, a inveja de muitos países que, coitados, estão em circunstâncias bem mais penosas do que nós.

Por isso a frase da sr.ª Directora Geral é calamitosa e um autêntico atentado à inteligência (dela, dos deputados e nossa, que diabo).

A mim, mais do que a absurda tolice do apelo ao patrioteirismo imbecil, o que me espanta é não ter hvido um deputado que lhe dissesse duas verdades e lhe explicasse a toleima da sua afirmação.

Retiro o que acima disse se, acaso, houve alguém com bom senso e um mínimo de conhecimento da língua que lhe tenha explicado o sentido de patriotismo.

Costuma dizer-se a propósito das empregadas domésticas que o que interessa é que elas limpem a preceito, cozinhem decentemente passem a ferro com cuidado. A inteligência, dizem tais criaturas que cito, não é essencial. Cá, por casa, a empregada cumpre bem as suas tarefas é alegre, amável e inteligente e isso é um ganho inestimável pois, de quando em quando, ela sugere, actuações sensatas que se traduzem em benefício da casa, nosso e das gatas que ela estima ternamente. A inteligência é sempre um bónus seja para empregadas domésticas como para directoras gerais. Provavelmente até é patriótica porquanto ninguém com dois dedinhos de testa consideraria uma pergunta mesmo dura um acto contra a pátria.

Alguém explique isto à dr.ª Graça. Se, eventualmente, não tem um dicionário terei todo o prazer de lhe oferecer um, seja o do Buarque ou o do Houaiss dois brasileiros que amam a língua. Ou procurarei mesmo o José Pedro Machado ou o Morais caso a portuguesíssima Freitas abomine os estrangeiros

Despeço-me patrioticamente

Viva a Pátria

Viva Portugal, um torrãozinho de açúcar

Viva, viva, viva. Pum!

Na vinheta: um útil mapa da prosápia lusitana que provava à evidência que Portugal não era pequeno.

 

 

Au bonheur des dames 419

d'oliveira, 26.09.20

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Pot-pourri de Outono

mcr 26 de Setembro 2020

 

O dia a dia proporciona a qualquer pessoa um conjunto de observações que só reunidas merecem , se é que merecem, referência. A pátria assoberbada com os escândalos, os processos, o covid manhoso, deixa passar o dia a dia mesmo quando este se revela ridículo ou, pura e simplesmente, detestável.

Comecemos por uma patetice que também é uma grosseria e, sobretudo, uma arrogante falta de juízo político, social e ético.

A srª Inês de Medeiros é presidente da Câmara de Almada, autarquia arrebatada ao PCP não tanto por virtude dela mas sobretudo por cansaço da população e manifesta perda de velocidade do partido comunista. De facto, nada a recomendava especialmente para a carreira autárquica mesmo se, como se sabe, fora deputada pelo PS. Desse período, fora um par de vulgaridades a propósito de cultura, só resta o escandalozinho de, enquanto deputada ter usado da estranha prerrogativa de viagens semanais Lisboa Paris (em classe executiva)à conta do Parlamento. Tal facto levantou um sururu de primeira e a deputada acabou por custear por si as suas idas a casa.

Eleita surpreendentemente presidente de uma Câmara do cordão vermelho pouco se ouviu falar da sua obra, excepção feita a uma persistente campanha dos vencidos que não lhe perdoaram a ousadia. Em breve saberemos mais, quando ( e se) disputar um novo mandato. Manda a verdade dizer que também se não ouviu grandes críticas o que não deixa de ser um sinal animador. Pas nouvelles, bonnes nouvelles!

Todavia, no melhor pano cai a mancha. Eis que a propósito dos degradados bairros sociais de Almada, a boa senhora entendeu aprofundar a discussão exaltando as “maravilhosas vistas” desses locais abandonados de Deus e dos homens ou tão só das atenções municipais. Da intervenção em causa que a televisão maliciosamente passou na totalidade há dias verifica-se que tudo o que depois se disse da infelicidade, da parvoíce e da insensibilidade da autarca é pouco e tristemente verdadeiro.

A srª Medeiros, logo que o rumor começou veio, como de costume, afirmar que os seus destemperados dizeres tinham sido “descontextualizados”. Não foi original e, sobretudo, usou mal as palavras. A sua infância austríaca e a longa permanência no estrangeiro tê-la-ão afastado da subtil semântica indígena. Nada no seu discurso, passado, como já se disse, de novo na televisão, permite falar em contexto ou na falta dele. Naquela aziaga intervenção a autarca até se diz disposta a ir viver para o “bairro amarelo” cujas vistas fazem a inveja da margem norte (sic).

Não se percebe porque razão não optou por dizer que aquilo foi uma distracção, uma fogachada tola disparada durante o calor de uma discussão e pedir desculpa pela asneira. Nada disso. A srª Medeiros arrogantemente tentou enfrentar a comunicação social acusando-a de mentirosa ou de estúpida. Foram os interlocutores que não perceberam a bondade das suas palavras, o arreigado respeito pelos seus munícipes mais desfavorecidos e, já agora, a defesa tous azimuts da sua cidade, bela entre as belas.

Pobres cidadãos de Almada.

 

As aulas vão começar nas universidades e a grande questão do momento é, imagine-se!, a praxe. Parece que, com o covid tem de se amaciar um par de aspectos da repelente instituição que sobrevive graças à imbecilidade manifesta de uma multidão de “praxistas” disseminada pelo inteiro universo universitário nacional a partir de desastrado exemplo coimbrão.

Não vale a pena tentar explicar o quão ofensiva pode ser esta prática herdada de muita selvajaria tradicional e inexplicavelmente replicada nas universidades (e são muitas) portuguesas.

Eu estudei em Coimbra, aliás até fui “bicho” e, por isso mesmo, eventual vítima das “trupes” embuçadas que corriam ruas, travessas e becos à procura de um desgraçado para rapar e/ou sovar. As autoridades fechavam os olhis a estas “rapazices”, a Universidade via com complacência estas práticas que, in illo tempore, só abrangiam os varões. Com o exponencial acesso das mulheres ao ensino dito superior, eis que a praxe começou a aplicar-se às meninas. Em boa verdade já não há “rapanço”, “unhas” e, muito menos “canelão”. Neste último caso, a prática morreu desde que o recinto universitário extravasou da “Porta Férrea”, local ideal para os “doutores” em alcateia ferrarem caneladas nos pobres caloiros que só tinham aquele caminho para irem às aulas.

Porém, além das capas e batinas (hoje um vestuário caro e incómodo) das fitas e grelos, da “Queima” que se tornou num cortejo alcoólico e sujo, subsiste, mesmo que profundamente desvirtuado, o “gozo” dos caloiros. Em tempos, mesmo nos meus, a coisa, de todo o modo humilhante e desprezível, durava um par de semanas e em casos contados poderia revelar alguma ironia, uma pouca de graça. Em caso contados, raros, raríssimos. Na generalidade, aquilo reunia uma multidão de sevandijas, outro tanto de imbecis espectadores e um ou vários rapazinhos imberbes recém chegados que se deixavam “gozar” para evitar “julgamentos” e rapanços que sempre se lhes seguiam.

Tive a sorte, a infinita sorte, de ser caloiro já com uma Associação Académica de pé, com uma direcção geral democrata que conseguia vagarosamente eximir os caloiros de quando em quando. As actividades associativas desportivas ou culturais permitiam aos caloiros fazer o seu caminho casa-associação- casa sem cair nas patas dos trupistas.

Quando fui veterano (1969) fui um dos subscritores do decretus que abolia todas as formas infamantes de praxe, “gozo” e “mobilizações” incluídos. Fui, aliás eu que redigi o documento que lá vem, se se conserva com a minha assinatura “marcellus fluviulus” se bem recordo. Devo dizer que fui sempre anti-praxista mas não deixei de aproveitar a minha promoção a veterano para melhor combater aquela burrice manifesta. Aliás, os veteranos são apenas e só os alunos que tem mais matrículas do que normalmente o curso comporta. Ou seja, os veteranos ou são cábulas ou estúpidos, basta escolher. Eu fui provavelmente as duas coisas mesmo se em meu abono possa fazer uso das vicissitudes da vida académico-política que levei a cabo entusiasticamente. De todo o modo, no quarto ano, percebi, tardiamente, que podia fazer tudo e estudar um mínimo e num ápice terminei o curso sem mais chumbos e, pasme-se, com boas notas.

Nesse decretus que refiro, não se beliscavam os trajes académicos, as insígnias, as festas estudantis (queima, latadas, tomada da bastilha) nem sequer a nomenclatura dos diferentes graus que levavam um caloiro a doutor. Só se eliminavam a violência e a humilhação.

Durou pouco este estado de coisas. Em Coimbra (onde apesar de tudo acabaram trupes, rapanços unhas) e espantosamente nas outra universidades (Lisboa e Porto, primeiro e agora no resto do país) que não só copiaram (macaquearam) servilmente o mau hábito coimbrão mas até o expandiram desmesuradamente.

Tudo isto nas barbas de Reitores, Senados Académicos, Conselhos de Faculdade e associações de Estudantes. Toda esta boa gente copiou o modelo coimbrão (fora uma que outa novidade sempre cretina no traje professoral ou estudantil) sem perceber que tirando o fado e a balada que se podem cantar em todo o lado nada poderia sequer assemelhar-se à velha cidade, aos velhos edifícios, a um clima intelectual e tradicional construído ao longo de séculos. Coimbra, que pouco mais tem do que estudantes que a fazem viver e cuja mitologia pluri-centenária foi absorvida pela cidade “futrica”, não é replicável por qualquer outra cidade por muitos estudantes que a sua universidade tenha.

Agora, algumas “autoridades académicas” parecem querer travar algumas manifestações não por serem estúpidas e estupidificantes mas por mera precaução anti pandemia! Não vi nenhum comunicado de associações de estudantes mas tão só referências a “conselhos de veteranos” que pouco adiantam. Isto não é negar o século XXI. É negar, desde logo, o XX.

 

As presidenciais começam a bater-nos à porta. Desta feita, o PC apresentou o seu candidato, escolhido como não podia deixar de ser, por unanimidade, no Comité Central.

Vá lá que, depois do fiasco das ultimas eleições com aquela criatura da Madeira, resolveram fazer avançar um dos seus “jovens” (42 anos, o que no pc é juventude pura e dura): João Ferreira, biólogo e deputado europeu. Antes deste cargo terá sido deputado na AR. Pesquizando na internet nada mais se sabe. Se além da política, trabalhou em algum sector. Também não é necessário porquanto, na mitologia partidária basta ser quadro do partido para ser não só um intrépido defensor do proletariado, do povo e dos bons portugueses mas um verdadeiro trabalhador.

Resta que o público em geral, um pouco mais abundante do que o estricto quadro da militância comunista ou mesmo do círculo de simpatizantes, desconhece completamente a criatura. Nõ pretendo com isto dizer que Ferreira é um verbo de encher mas apenas que tem pela frente um árduo trabalho que é fazer-se conhecer mesmo se já tnha disparado a primeira salva afirmando que se dosse Presidente da República daria o seu aval à eutanásia. É pouco e é muito, dado que essa discussão ainda vai no adro. De todo o modo já garantiu o voto da sr.ª dr.ª Isabel Moreira, deputada do PS que prefere o comunista a Ana Gomes, sua alegada correligionária ou a Marisa, uma repetente nesta guerra.

Obviamente, mesmo se o PC recusa tal tese, João Ferreira tem apenas uma missão: fixar eleitorado próprio que ultimamente se tem mostrado demasiado volátil (ou então tem morrido velozmente) e contrariar as duas senhoras já referidas. O dr. Rebelo de Sousa vê assim o seu caminho mais facilitado e com mais dois ou três eventuais candidatos (o sr Tino de Rans e uma senhora socialista que anda afanosamente a recolher assinaturas) aquilo, a eleição, nem história vai ter.

 

Finalmente, e a propósito do sr. Presidente da República seria bom recordar que a sua decidida campanha contra o chumbo do Orçamento tem algumas fragilidades. Primeiro terá de convencer PC e BE a alinhar de novo com o PS. Claro que as resmungadelas destes dois partidos pouco significam. Trata-se marralhar antes de concluir o negócio orçamental. Não vá o PS obrigar a novas eleições, coisa por que estava mortinho, na espectativa de obter uma maioria absoluta. Agora, com a perda de velocidade de Costa, bastarão umas concessões aqui e ali para todos gritarem vitória. O PPD que não tem ilusões já se pôs de lado ou melhor já não acredita na hipótese de ser boia de salvação deste Governo. E isso facilita a vida a Rui Rio que poderá votar como lhe der na real gana sem com isso perturbar a economia. Estranho, muito estranho, seria que o PPD desse boleia ao PS sem fortes garantias e claros ganhos políticos. Rio aposta no cansaço, no anunciado “fim de ciclo” de que toda a gente fala.

De qualquer maneira, a velada ameaça de Marcello é uma falta democrática. E de nada lhe vale tentar relembrar o seu medíocre desempenho à frente do PPD e os alegados favores feitos a Guterres. Não foram favores porque nada podia fazer. Estava apenas a tentar salvar a pele mesmo se isso tinha como consequência um enfrentamento com alguns barões do seu partido. Foi escovado sem honra nem glória e do seu tempo de líder não resta nada. Absolutamente nada. Até Santana deixou mais vestígios. Mesmo se esses fossem sobretudo cacos.

De facto, começo a pensar que estamos em fim de ciclo, queira isso dizer o que quer que seja.

 

*na vinheta: le quartier jaune, perdão bairro amarelo, onde Madame Medeiros apreciaria viver. Eu, egoísta e malvado, detestaria... Feitios...

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au bonheur des dames 418

d'oliveira, 19.09.20

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Estrangeirado mas informado

mcr,  19 de Setembro

 

Tenho um amigo francês, dezoito anos mais velho, que chegou a Portugal e à Figueira pouco antes do fim da guerra. Vinha acossado por várias polícias, desde logo as alemã e francesas (Paris e Vichy) e mais tarde pelo franquista. Pai preso por resistente, resistente também ele, encarregado de guiar fugitivos até à fronteira espanhola, descobriu que lhe andavam no encalço e, com dezanove anos acabados de fazer, desandou sem olhar para trás. Atravessou meia Espanha à pata, entrou sem especiais dificuldades por Vilar Formoso (passaporte espanhol mais falso do que Judas). Arribou à Figueira, apenas para descansar umas semanas e seguir para Inglaterra para continuar o combate. Adoeceu com alguma gravidade e ficou-se por Buarcos a recuperar. Entretanto a guerra na Europa acabou, encantou-se com uma rapariga local e, graças a vários figueirenses de origem francesa (gente que se fixara por alturas da construção da linha de caminho de ferro da Beira Alta, normalmente técnicos que terão sentido o apelo de uma terra à beira mar e se integraram na comunidade local. Conheci e privei com muitos, os Jacques, os Bracourt os Reynaud...), deixou-se ficar. Nada o prendia ao país natal, pais desaparecidos, família dispersa, país libertado e devastado.

Contra o costume, aprendeu rapidamente português, mantendo um ligeiro sotaque que lhe denunciava a Saboia natal e uma especial predileção por boa e sólida comida. Agora, rodeado de filhos, netos e bisnetos, aparece de vez em quando, ainda robusto, proibido de tomar café que ele substitui por chá de cidreira que acompanha com “um cheirinho”. O médico que apenas lhe permite um copo de vinho a cada refeição, esqueceu-se de lhe interditar os cognacs, armagnacs e  destilados similares. Francês astuto, temperado por muitos anos de Buarcos, também não perguntou e a verdade é que aos 96 está rijo, um pouco surdo, ágil tanto quanto se permite a um quase centenário. E depois de almoço e do jantar a eterna infusão acompanhada de um cálice de “fine Napoleon “ ou de uma reserva velha e excelente de “Carvalho, Ribeiro & Ferreira”.

Conhecemo-nos desde sempre e ele, agora, aprece duas três vezes por ano pois tem por cá um bisneto que não dispensa a companhia do antepassado. Partilhou com o Fernando Assis Pacheco e o tio Marcos Viana, as últimas garrafas de um brandy que o avô Alcino fazia com carinhos de pai. E só para oferta! “Ai o brandy do teu avô”, suspira. O tio Marcos jurava que nunca tinha bebido nada melhor e o Fernando homenageou a criação do velho Corrêa Ribeiro no seu excelente romance “Trabalhos e paixões de Benito Prada” (cfr pag 194, in fine, onde o meu querido amigo põe um agente da “prestimosa” a emborcar um cálice da nossa produção). Agora, quando aparece, leva uma das últimas e raras garrafas de porto que me caíram em herança desafia-me para um restaurante francês para matarmos saudades "du pays".

É dele a frase “evacué comme un malpropre” que eu tinha escolhido para um texto desaparecido em combate neste computador que, de quando em quando, me prega partidas infames. No caso por duas vezes que escrevi um post que misteriosamente desandava para o infinito quando o tentava publicar. Só à terceira é que se salvou. À terceira versão, diga-se, diferente da segunda que já nada se assemelhava à primeira excepção feita do assunto. O que se perdeu de literatura “boa, abundante e bem confeccionada” como se dizia na tropa a propósito do rancho que se servia aos pobres taratas que, em boa verdade. Raramente tinham comido melhor e em tal quantidade,

Desta feita, porém, lembrei-me dele – e já lhe enviei cópia, ao cuidado de uma bisneta- por via de um artigo no “Le Monde” datado de 18, sobre a pandemia na Suécia.

Os leitores lembrar-se-ão da estratégia sueca, fortemente atacada, de apenas esboçar uma espécie de resistência passiva ao vírus filho da puta. É verdade que morreu gente (cerca de 6000 pessoas) numa população de 10 milhões de habitantes mas o país nunca parou.

Neste momento, a Suécia averba cerca de 200 novos casos dia (!) tem 130 doentes no hospital (!!) e 13 nos cuidados intensivos (!!!)

Estes números, comparados aos de cá, deixam-me extasiado, tanto mais que as aulas já lá começaram há duas semanas. Costa, cuidadoso, teme 1000 casos dia e os números de hospitalizações cá são três vezes maiores sem falar na percentagem de casos em cuidados intensivos.

Os suecos não deitam foguetes, não se armam ao pingarelho, nem recomendam o seu sistema como exemplo. Mas que estão a aguentar, ai disso não resta a mínima dúvida.

Ora, a que se devem estes números, excepcionais em toda a Europa, e extraordinários quando comparados com os nossos, pais igualmente periférico mas dependente, pobre, com maus hábitos cívicos, menor educação ambiental e social?

Não sou sueco, nunca pretendi sê-lo, provavelmente não gostaria de viver longe do sol, sal e sul mas tenho por mim que convinha perceber melhor como é que esta gente, periférica como nós, insisto, se debate com o mesmo problema e consegue, aparentemente, melhores resultados.

Digo aparentemente porquanto, no que toca ao vírus filho da puta, pouco se sabe e tudo pode, subitamente, acontecer.

E lembrei-me da Suécia, porquê? Porque saiu mais uma reedição de uma obra de Stig Dagerman, um sueco escrevente e anarquista que descobri nos alvores de 60. Desta feita é “Um outono alemão”, reportagem sobre a Alemanha no fim da 2ª guerra, o mesmo é dizer o desastre total. E lembrei-me a este propósito do paralelo, fácil de fazer, com “Alemanha ensanguentada” de Aquilino Ribeiro, um outro olhar compadecido sobre os horrores suportados sempre pelos que menos têm, que menos decidem e mais aguentam. E mais morrem.

Há muito que não propunha uma leitura, redimo-me agora e espero poder vir a dizer qualquer coisa de “ressurreição” (em terras francesas) de Joseph Roth, o autor de “A marcha radetzky” um dos melhores livros do século XX (com tradução portuguesa). Descobriram-se inéditos do austríaco o que merece ser celebrado. A seu tempo, depois de ler, algo se dirá se valer a pena.

Até lá, bom fim de semana...

Na imagem: fotograma de “Mónica e o desejo” de Ingmar Bergman

 

 

 

au bonheur des dames 417

d'oliveira, 17.09.20

Desconfinar

mcr, 17 de Setembro

 

Não há bela sem senão, eis uma verdade demasiado usada mas sempre recorrente. Eu, que cada vez conheço menos gente ligada ao poder, ainda não tinha tirado a bissectriz à dr.ª Ana Mendes Godinho. Azares da velhice, claro. A minha geração vão desaparecendo a todo o vapor, mais pela lei de bronze da vida mas, actualmente, with a little help do covil. Note-se, a propósito, que se refiro o filho da puta do vírus, não estou de modo algum a associá-lo à senhora ministra. Pero que hay coincidências, las hay. De facto, a propósito do lar de Reguengos, a ilustre senhora perdeu-se num labirinto de declarações todas mais desastradas umas que as outras. Já nem falo do fatal esquecimento de leitura do texto da Ordem dos médicos que S.ª Ex.ª mandou analisar pelos “serviços competentes”!!! Relembro, antes, a cegada das declarações sobre inquéritos que afinal não o eram e que, claro, apontavam para para uma espécie de virgindade cognitiva do Ministério. Tudo correra bem excepção feita às quase duas dezenas de mortos. Ora a boa verdade é que tudo correra mal, a começar pela diluição de responsabilidades entre a Câmara a ARS e a direcção do lar. Não fora o facto da Ordem dos Médicos ter posto a boca no trombone e ainda hoje aqueles mortos não teriam morrido. Ou teriam morrido por acaso, pela idade, pelas maleitas próprias da velhice jamais pela incúria, pelo desleixo, pela impreparação de gente que acha que os velhos são descartáveis. E, de facto quase que o são: a ida para um lar é, muitas vezes, demasiadas vezes, uma entrada num “no man’s land”, numa espécie de pré-morte ou de não vida. As famílias (talvez apenas algumas ou muitas) empandeiram os trastes velhos para o lixo e os antepassados ainda vagamente vivos para os lares. E aguardam a misericórdia de uma morte que tarda. Fazem o luto ainda em vida dos indesejáveis. Pelos vistos o Estado segue este exemplo de amor familiar, finge que tutela os lares, envia esporadicamente umas inspecções que ao cabo de algum tempo, normalmente longo, elaboram um relatório que irá dormir o sono dos justos numa secretária burocrática. Não admira que o inoportuno inquérito levado a cabo pela Ordem dos Médicos tenha sido, além de uma “ilegalidade” (sic) um pontapé no vespeiro. E foi um ver se te avias, Ministros, Misericórdias, Câmara, ARS, todos em coro a enxotar os ainda há pouco heróis da primeira linha, a quem numa cerimónia burlesca é ridícula fora dedicada a final da “champions”. Todavia a dúzia e meia de mortos não se comoveu com estas mostras de virtude ultrajada. Mortos estavam, mortos estão, mas a indignação parece viva depois de estas semanas todas. Setembro está a ser um mês horribilís para Costa & comandita.Aumentam os números de infectados, os surtos em lares já vão em 33, começa a época das aulas e, pior, a da gripe. A economia e o seu principal apoio, o turismo, está como se vê, o Benfica, o tal clube de seis milhões de lusitanos naufraga na Grécia diante de uma “equipa de 2ª divisão” (sic) e diz adeus à Europa, melhor dizendo a umas dezenas de milhões de euros a que uma simples presença daria direito. O virtuoso presidente dessa egrégia e patriótica instituição é alvo de rumores, insinuações, acusações e em breve poderá ter de se sentar no banco dos réus. É neste contexto que surge uma lista com centenas de nomes associados numa patusca “comissão de honra”a favor da reeleição do actual presidente. Se isto não é a cereja em cima do bolo da asneira então não sei o que será. Não vou referir, deixo isso para ocasião mais substanciosa, a pré campanha eleitoral para a Presidência da República. Pelos vistos há claras suspeitas que se vai repetir a caminhada de Branca de Neve e os Sete Anões de há quatro anos. Todavia, vai um reboliço de apoios cada um deles mais surpreendente que o outro. A srª deputada Moreira (PS) jura um amor eterno ao candidato do PCP. Outra deputada do mesmo ajuntamento dá o nome por Marisa, a dr.ª Gomes recebe o voto caloroso e perigoso do fundador do LIVRE, o mesmo que fez incontáveis juras de amor a Joacine que lhe pagou como se sabe. E Marcelo calado. Está num cinema de Lisboa uma reposição de filmes do grande Kurosawa, o autor de “Ran”. Eu lembraria aos entusiasmados cabos eleitorais que vissem este filme e percebessem as razões que levam o grande daimio a não se mexer. Ou dito de outra maneira: a aranha na teia está imóvel à espera que a mosca lhe caia na rede. Depois comê-la-á tranquilamente Percebem ou querem que vos faça um desenho? Este texto, penosamente escrito num I Pad foi quase todo realizado na esplanada. Reato assim uma tradição que os idos de Março interromperam rudemente. Estou a terminá-lo em casa, ao som reconfortante da trovoada e sob a ameaça da chuva benfazeja.

Senhor é mais do que tempo

O verão foi demasiado intenso

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

e por sobre as pradarias desata os teus ventos

..............................................

Quem não tem casa não a irá mais construir

Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais

Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais

e correr as áleas num inquieto ir e vir

enquanto o vento carrega as folhas outonais

E com este fragmento de Rilke me despeço. Acompanha-me deste um dorido sétimo ano num colégio interno altura em que copiei, um a um, todos os poemas constantes de dois volumes organizados por Paulo Quintela com o título geral de “Rainer Maria Rilke Poemas”.

 

au bonheur des dames 416

d'oliveira, 10.09.20

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Antes que me acusem de sexismo

mcr, 10 de Setembro

 

Eu ia falar de três novidades culturais, a saber: as doações de Alberto Manguel e Paulo Mendes da Rocha e a notícia infausta e tristíssima da morte da Cotovia, uma editora pequena mas excelente que funcionava mos locais da velha livraria Opinião, outro monumento desaparecido (bem como, aliás, muitos dos seus frequentadores habituais). Fica para o próximo post porquanto duas candidatas à Presidência da República fizeram acto de presença.

Em boa verdade, não se trata de nada de novo. Sabia-se, de há muito, quais as disposições do BE e de Ana Gomes. Só isso bastaria para não dar à pequena notícia qualquer relevo. Porém, e antes que isto pareça sexismo, o melhor é ir pela alegada novidade e tentar uma que outra conclusão.

Comecemos pelo esforçado e gasto tema da novidade. Nenhuma destas mulheres pode arrogar-se de estar fora do sistema ou de ser uma refrescante surpresa. Ambas foram deputadas, inclusivamente no Parlamento europeu que é onde está Marisa Matias, esta já foi candidata ao mesmo mandato enquanto que a Ana Gomes é mais conhecida do que o doce da Teixeira.

Do ponto de vista programático também não se descortinam surpresas, aliás difícil seria dada a função a que se candidatam.

Eu bem sei que o actual inquilino de Belém sofre de uma espécie de doença de S Vito que o faz correr ceca e meca que, pelos vistos, faz feliz os media e o Zé Povinho que gosta, adora, uma selfie com o Presidente.

Mas mais que andar disparado pelas estradas, ruas, caminhos, atalhos ou veredas de Portugal e ilhas, o actual locatário de Belém, gosta de molhar a sopa e de ser um Presidente interventivo, porventura mais do que a função permite e o bom senso recomendaria.

Pessoalmente atribuo esse frenesim à tentativa de ficar na História. Duvido que o método seja eficaz porquanto a um estadista pedem-se coisas mais interessantes do que um par de alfinetadas (e algumas úteis..., aliás) e um corrupio constante.

Por muito que se queira, os políticos que vão ficando na História pregressa, foram mais discretos. Soares, cuja popularidade ainda é visível, tinha um projecto, uma ideia de Portugal, um longo percurso cimentado desde os seus verdes anos e deixou obra. Sá Carneiro, teve a ousadia de pensar pela cabeça própria e de enfrentar o meio de onde vinha e os políticos que o tinham convidado para deputado durante o “marcelismo”. Isso e a morte romântica e trágica ao lada de grande mulher que soube escolher (e ser escolhido) transportou-o para a lenda e a legenda. Cunhal teve uma vida empenhada, dura, combativa, notoriedade internacional e deixou um partido que tantos anos depois ainda se aguenta mesmo trémulo. (basta olhar para o destino dos partidos espanhol, francês ou italiano – o partido de Gramsci, Togliatti e Berlinguer!...- para perceber a diferença- O stalinismo e a naftalina conservam os partidos quase tão bem quanto os operosos funcionários que diariamente tomam conta da múmia de Lenine.

Mesmo o dr. Salazar mantem um prestígio que, graças às criticas menos ponderadas, preservam a sua imagem ascética.

Ora nada disto ocorre com o dr. Rebelo de Sousa, uma inteligência fria, um percurso político sinuoso e sem chama que ele soube compensar com os famosos factos políticos que ia inventando e, sobretudo, com uma presença contínua na televisão. Durante centenas de domingos, entrou pela casa dos portugueses, à hora do jantar e numa linguagem simples estudadamente simples criou a fama e o proveito de que se aproveitou. (isto, aliás só prova a inteligência da personagem mesmo se essa inteligência se tenha aplicado geralmente em exclusivo benefício próprio. Para isso soube trabalhar árdua e incessantemente, o que, servido por uma cultura e uma memória importantes o pôs na ribalta onde está e de onde, para já, não será desalojado.

Isto dito, permito-me pensar que da aparição há muito anunciada destas duas senhoras nada de grave há a temer para o Presidente. O cavalheiro Ventura vi a votos para contar as suas espingardas (no que não difere da senhora Matias), não tem de apresentar mais do que o estereotipado manifesto do “Chega” pelo que joga em casa. Eventualmente, poderá ter mais votos que qualquer delas, coisa que não prevejo difícil. Não tanto porque arrebanhe as simpatias de muita gente mas porque, se a apatia eleitoral se mantiver, ele pode alcançar os resultados que pretende.

Ainda se não conhecem os espontâneos e menos o/a candidato/a do PC. E digo “o/a” porque ao partidão pode sorrir a ideia de tirar um coelho da cartola, aliás, e sem ofensa, uma “coelha”.

Para já uma constatação: Marisa já avisou que não desiste a favor de Ana e parece improvável que esta não retribua o favor. A ideia que fica é que, como de costume, a famosa unidade da Esquerda continua tõ longínqua quanto foi sempre. Nem a tentativa de “geringonça 2” que Costa busca desesperadamente pode ser transposta para este palco eleitoral.

E é com esta observação que me despeço. Nada de novo na frente ocidental do torrãozinho de açúcar. Notícia, verdadeiramente notícia, é a eventual intenção do governo britânico sobre a manutenção de Portugal, digo o Algarve, na lista dos destinos permitidos sem quarentena.

Deixem-nos vir emborrachar-se para a nossa bira mar. Eventualmente também trarão algum covid , coisa mais do que natural num país onde o vírus se ceva. Mas as libras servem de vacina...

 

* na vinheta: “Ceifeiras” de Cipriano Dourado. Bem sei que alguém poderia pensar que eu iria usar a imagem da Barbie para troçar. De modo algum: vai mesmo esta obra de Dourado de que aliás tenho uma bela serigrafia tintada que me acompanha há mais de quarenta anos.

au bonheur des dames 415

d'oliveira, 04.09.20

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Dois pesos..

mcr, 5 de Setembro de 2020

 

Entre os apoiantes resolutos do actual Governo grassa uma crescente simpatia pelo pirata informático que irá brevemente a julgamento. Pelos vistos, esta bizarra espécie de justiceiro mesclada de chantagista (pelo menos alegadamente) é uma espécie de herói e eventual candidato a funcionário público. Ou, dito de outra maneira, a pátria agradecida converte um bufo num patriota...

Não tenho qualquer espécie de simpatia pelos que dedicam o seu tempo a tentar cheirar o cu alheio na esperança de sentir um peido aromático ou, pelo menos, economicamente vantajoso.

A mim, o que neste caso me espanta é o facto de aqui se pressupor um prémio. No outro prato da balança está o inenarrável ataque a uma auditoria da Ordem dos Médicos a um lar alentejano onde, pelos vistos tudo corria mal. E tão mal que em poucos dias, dezasseis indefesos velhos foram libertados das suas duras penas e estão agora no cemitério local a gozar de um merecido descanso eterno.

A questão levantada pelo dr. Costa tem a ver com a ilegitimidade da Ordem em levar a cabo inspecções deste género. Esmo se, como é flagrantemente o caso a auditoria tivesse apenas destapado um homicídio, aliás dezasseis, involuntário. A Ordem defende-se com uma cláusula dos seus Estatutos onde é clara a ideia de que tem o dever de intervir.

Conviria perguntar se alguma acção seria levada acabo não fora a Ordem ter posto a boca no trombone.

Dirão que, no caso do pirata também as coisas correriam para o habitual silêncio comatoso próprio do mundo glauco do futebol. Talvez. De há muito que é notório que esse submundo alimenta tudo incluindo largos sectores do mundo político que, à pala da futebolaça, do amiguismo das claques, do comentário ruidoso e permanente, se vai fazendo conhecer e reconhecer.

Por enquanto, trata-se apenas (este apenas é relativo) de corrupção. Ainda não morreu ninguém, por fas ou por nefas, por incúria ou abandono. Por falta continua dos elementares deveres de solidariedade com um punhado de velhos que só andam por aí a atrapalhar...

A Ordem deu um pontapé no vespeiro. Ai Jesus que isso é ilegal. A denúncia de dezasseis mortes é ilegal! A vida de dezasseis pobres velhos é ilegal e não merece explicação, comentário sequer prevenção para casos futuros. Entretanto, depois disto, já são uma dúzia os lares onde o covid se ceva impunemente...

A vozearia defensiva que se ouve de lés a lés sobre as mortes nos lares é revoltante, insultuosa e repelente. Sobretudo quando e compara o número de mortes (ou de infecções) de cá com os números de outros países. Como se a morte tivesse diferentes características em França, Espanha ou Portugal . Lá são morte, cá são simples desaparecimentos. Azares da vida, velhice a mais, abandono familiar, ganância das instituições.

Eu até ouvi o estarrecedor argumento de que determinadas situações de idosos internados custarem o dobro ou o triplo daquilo que o Estado dá! Não se percebe como é que as Misericórdias e outras instituições subsistem com tal sangria desatada e constante.

De repente, descobriu-se algo que existe desde sempre, a saber os lares ilegais. Extraordinária descoberta ainda mais surpreendente do que a da pólvora. Tais lares aparecem às claras, fazem publicidade, tem tabuleta à porta mas, pelos vistos, nem a Segurança Social nem os restantes poderes públicos davam pela coisa. Eu sei que a SS volta e meia encerra um desses depósitos de agonizantes num processo demorado que permite muitas fugas. Ninguém me explica, porém, como é que se não vá atrás das famílias que para lá atiram os familiares indesejáveis e imprestáveis...

O dr. Costa disse em off que os médicos eram uns marotos, provavelmente algo ainda pior ,e uma indiscrição trouxe a público a sua censura. Depois, o costume, ou nem isso: o primeiro ministro reuniu com o bastonário terá prometido (segundo este) uma explicaçãoo bastante) mas tal não foi visível. O bastonário transmitiu a todos os seus colegas (e são muitos, e são essenciais) o que se passou e a guerra está aberta.

Curiosamente, ou talvez não, o Governo tem em mãos um projecto de diploma que cerceia os poderes das Ordens. Estas já se reuniram, já foram anunciando o seu protesto e, de novo, os tambores da guerra.

A democracia vive de equilíbrios delicados e a existência de Ordens profissionais, longe de ser um mal é um precioso contributo para a existência de uma sociedade civil forte e autónoma.`

É conhecido o escasso entusiasmo das elites políticas quanto à existência de contrapesos que regulem, ou não permitam, um exponencial crescimento das suas prerrogativas. O PS não é excepção, antes costuma brandir a frase de Coelho “quem se mete com o PS leva”. Não é difícil de prever outra frente de batalha. Nas horas problemáticas a fuga para os conflitos imaginários é um seguro meio de criar um bunker (sempre ilusório, a la alongue) para alguém se manter na crista da onda.

As conclusões são óbvias. Alguém vai pagar as dificuldades que o futuro próximo nos vai trazer.

“L’autunno sera caldo!”, diziam, no meu tempo de jovem, outros jovens, desta feita italianos. E foi, como se sabe. Com as dramáticas consequências que se conhecem e que, neste ano miserável mostraram como a destruição de um Estado imperfeito não trouxe aos cidadãos nem felicidade, nem saúde nem esperança. “Apenas” umas dezenas de milhares de mortos ...

au bonheur des dames 414

d'oliveira, 27.08.20

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Adeus Nikias!

mcr, 27 de Agosto

 

Descobri-o cedo, já não sei bem onde e quando. Na “Brasileira” do Chiado, talvez, se ele já lá estava exposto no ano de 62. Ou noutro sítio qualquer mesmo se, para um estudante em Coimbra, não fosse fácil qualquer espécie de convívio com a pintura que se fazia em Portugal, ou seja em Lisboa e (muito menos) no Porto.

De todo o modo, logo que tive possibilidades,  elas só chegaram. embora escassas, já na vida prática, e comprei a serigrafia que serve de ilustração. Se bem me lembro, aquilo, mesmo um múltiplo, custou-me muito mais do que a minha advocacia permitia num mês. Nikias Skapinakis era já um nome consagrado, justamente consagrado, e os galeristas, sabiam-no bem.

Depois, tudo o que fui vendo dele estava fora do meu alcance e, aliás, passava-se em Lisboa, onde, mesmo indo com certa frequência, era difícil ver exposições que obviamente tinham um horário de funcionamento que coincidia com o meu horário de reuniões.

Por isso, mas também por preguiça, incúria ou outra desrazão qualquer, só muito tarde, e por um desses bambúrrios que às vezes nos caem em cima, é que consegui adquiri uma bela obra intitulada “5 Imagens para Nemésio”, uma edição, de cinco serigrafias, tiradas de outros tantos guaches originais (Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983, tiragem de 200 exemplares).

Sempre me fascinaram o seu jovial uso da cor, os retratos amáveis de conhecidos e desconhecidos, as paisagens re-inventadas, e certos temas (o circo por exemplo).

Morreu agora já com oitenta e muitos. O “Público” a que só hoje voltei, já farto de férias sem jornal, dedica-lhe uma página que irei ler mais logo. Não sei se outros jornais, ou a televisão se darão a idêntico trabalho, é provável que não, a “cultura” deles é outra...

Nunca me ouvirão dizer que a morte de um pintor quase aos noventa é uma terrível perda. Os artistas, deixam a obra e isso terá de bastar-nos e, de facto basta.

Mas não é sem comoção e um nostálgico sentido de falta que o lembro, modestamente, aqui.

A vinheta Nikias Skapinakis, serigrafia, 55x33, ex 20 numa série de 200.

A fotografia é miserável mas eu nunca tive jeito para fotografar fosse o que fosse.