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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

05
Mar20

Au bonheur des dames 411

d'oliveira

 

Ora explique-me lá, Sr.ª D. Ana Catarina

mcr, Março, 2020

O PS, de que a senhora citada na epígrafe é uma das mais repolhudas figuras, apresentou o nome do doutor Vitalino Canas para juiz do Tribunal Constitucional.

Percebe-se mal esta candidatura de alguém que exerceu sempre funções políticas mesmo se, como afirma, tenha andado quarenta anos a preparar-se para tão meritória magistratura que, curiosamente, só existe há trinta e oito.

Quarenta anos, provavelmente mais duros, foi o tempo que o povo eleito vagueou por um pequeno deserto entre o Egipto e a terra do leite e do mel. Percebe-se mal que, mesmo nesses tempos longínquos, andassem tanto tempo às voltas quando, e na mesma época, os exércitos egípcios e os caldeus se guerreavam várias vezes nessa zona e nas adjacências. Pelos vistos, o que era um passeio para estes povos ou para as suas tropas foi um labirinto para o povo judeu.

O Doutor Vitalino Canas tem um percurso variado mesmo se nos últimos 25 anos tenha andado sempre entre o Governo e a Assembleia da República. Além dessas tarefas pesadas foi advogado e sócio maioritário de uma sociedade de advogados, gestor de empresas e mais não sei quantas coisas. Ao ler-lhe um apressado currículo na internet fico desnorteado com tanta actividade q que se deve juntar a citada preparação para juiz. Mesmo dando de barato os dois anos em que o TC estava longe a vaguear no ventre infecundo da política nacional.

De todo o modo, o doutor Canas soube, e desde há algum tempo!, que o seu nome não era benquisto pelos eleitores na AR. O BE primeiro, por obscuras razões (não fora consultado!...) e outras formações depois foram anunciando a sua recusa. Do PPD veio a notícia de que o partido não se sentia “confortável” com a candidatura. Nem mesmo isso refreou o entusiasmo do candidato ou fez reflectir o partido apoiante. Autismo, cegueira, mero olho vesgo ou tolice rematada?

Em boa verdade, a prudência aconselhava que, perante essa evidência, o candidato se retirasse da lide para evitar a vergonha do chumbo. Não o fez. E, pelos vistos, a direcção do PS personificada na senhora Mendes, insistiu também ela na ousada proposta.

O resultado foi ainda mais deprimente do que se esperava. Atente-se só neste vago exercício: O PS tem 108 deputados e a lista por ele apresentada obteve 93! Em boas contas, isto significa que sem qualquer voto favorável de outra formação (o que não parece crível) 13 (feio número) deputados (mais de 10% da bancada) também não se entusiasmou com Vitalino. E aproveitando a boleia do voto secreto, pimba, deu-lhe no toutiço.

Conviria recordar que, para ser eleito, o candidato teria de somar 146 votos. Isto já nem é uma derrota. É Alcácer Quibir! É o terramoto de Lisboa! É uma tourada à antiga portuguesa...

Ainda não consegui saber a reacção do candidato mas já fui atropelado pela senhora Mendes.

Pelos vistos, a culpa é da oposição, melhor dizendo do PPD! Os 13 infiéis socialistas parece que se escapam entre as gotas da chuva, pobres inocentinhos.

A srª Mendes acusa urbi et orbe, tudo e todos. E de vários delitos todos maléficos. Os deputados (exceptuando o quadrado manco dos fiéis) são um bando de relapsos e não percebem nada da vida democrática. E só sabem “boicotar o normal funcionamento das instituições”! Se a Sr.ª Mendes fosse venezuelana e se chamasse Maduro não diria mais nem melhor. Mas, para desgraça nossa, a criaturinha é portuguesa, nacional, “nossa”. E disse estas enormidades sem ninguém, até ao momento, lhe emendar a mão ameaçadora e a língua atrevida.

E, já agora, haja alguém que lhe explique o que é a democracia e o que é um parlamento, mesmo este.

No meio desta confusão, uma pessoa de que sou amigo e que considero (António Correia de Campos) também foi chumbado para o Conselho Económico e Social. Este não é o seu primeiro desaire visto que há meses já lhe tinha sucedido idêntica desgraça. Desta feita, o resultado foi ainda pior.

Também, por mais voltas que dê à cabecinha pensadora, não entendo a teimosia dele em se apresentar. Ainda por cima, já não é nenhuma criança, andará pelos 77/78 anos, idade provecta que aconselharia tarefas menos trabalhosas. E, sobretudo, ACC é um respeitado “senador” da República, com um longo e louvável percurso que não mereceria esta “afronta” mesmo se ele já pudesse antever este resultado que, insiste-se, já não é uma novidade.

Voltando ao outro personagem deste drama de faca e alguidar, devo dizer que o doutor Canas me é completamente indiferente. Raras vezes dei por ele e nunca pelas melhores razões. A criatura não suscita sequer a vaga simpatia que, às vezes acompanha os derrotados. Pelo contrário, as suas declarações pareceram-me arrogantes e desafiadoras. Eu, para o peditório da empáfia, nunca dei e não vou dar. Mais, alguém que foi durante anos porta voz do sr. Sócrates não me parece a melhor alternativa para a magistratura constitucional. Pelos vistos nem Vitalino, nem Ana Catarina são desta opinião aliás sufragada por um forte maioria de deputados, incluindo, pelo menos, treze socialistas. O futuro dirá como é que acabará esta desastrada novela. De algo, estou certo: não vai acabar bem mas pode acabar menos mal. Mas para isso uma coisa é necessária: bom senso!

E bom senso é algo que parece estar nos antípodas das declarações da Sr.ª Mendes...

(1) este folhetim já tem barbas pois foi escrito no exacto dia da derrota do Sr. Canas. Entretanto fui dar uma volta ao bilhar grande e deixei-o em pousio. Neste entretempo António Correia de Campos fez o que devia: deixou de ser candidato. Mesmo que, à quarta vez, fosse eleito, a sua posição seria sempre frágil. E ACC, um veterano da crise de 62, um homem com um grande currículo   não merece andar como um navio desgovernado à mercê das simpatias ou antipatias dos parlamentares, muitos dos quais, a maioria, são meros anões e meras vozes do seu dono.

Enhorabuena, António, enhorabuena!

 

 

02
Jan20

Au bonheur des dates 408

d'oliveira

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De olhos no teto com a “nona” a entrar-nos na alma

 

mcr 2-01-20

 

Em que ano foi ? Seguramente quando os anos cinquenta já estavam perto do fim. Eu teria 16, 17 anos?

De todo o modo era um miúdo ignorante com um escasso horizonte musical, se é que posso falar de horizonte. O meu avô paterno, já entrado nos sessenta, exportador de vinho do Porto (como o pai e os irmãos), vivera na Alemanha um par de anos entre Hamburgo, Heidelberg e Wurzburg aprendendo enologia, química do vinho e sobretudo vida, muita vida (descobri nos seus papéis uma correspondência com três amigos que também tinham tido a sorte e os meios – avultados – para depois do liceu irem fazer o “grand tour” e algum curso – onde é referida insistentemente uma certa Fraulein Ilse a quem os amigos mandam cumprimentos respeitosos com algum comentário brejeiro pelo meio, o que me faz desconfiar que o velho senhor não fora sempre aquele pilar de virtudes que aparentava er e qu me moíam o juízo (escasso juízo e muita sede de aventura)).

Dessa estadia de alguns anos no estrangeiro o avô trouxe sólidos conhecimentos de alemão (e de holandês!) que se juntaram à sua extrema facilidade para línguas desde o latim e o grego até ao francês, espanhol e italiano, sem falar no inglês que ele utilizou muito nos anos em que viveu em Inglaterra. Depois das línguas, do conhecimento bíblico de Eva, no caso Ilse, adquiriru uma sólida cultura musical forjada em inúmeras salas de concerto e de ópera de que foi assíduo frequentador. Aliás foi na Ópera do Rio de Janeiro que conheceu a sua primeira mulher, a avó Dora Heinzelmann, leitora de Espronceda e dos clássicos espanhóis e ibero-americanos e amante da pintura em particular e das artes plásticas em geral. Nos curtos anos da sua breve vida em Portugal, a casa do “Torne” em Gaia era frequentada por Diogo de Macedo, Teixeira Lopes, os Carneiro, pai e filho e vários amigos destes. Desse grupo conservo um belíssimo guache que constava do álbum da avó.

Havia, pois, na casa deste esclarecido homem dos vinhos do Porto, um ambiente cultural muito habitual, aliás, noutras casas da alta burguesia portuense.

Não admira, portanto, que, quando começaram a aparecer gira-discos mais ou menos portáteis de qualidade, o velho senhor encomendasse um na Alemanha que apareceu na companhia de uma edição completa das Sinfonias de Beethoven (uma edição em 33 rotações recheada de nomes de maestros conhecidos.

O dia da chegada dessa encomenda volumosa foi uma festa. Desembrulhar aquela maravilhosas novidades, admirar as capas dos discos e escolher o local para colocar o gira-discos foi uma tarefa árdua que nos ocupou a manhã inteira. Depois do almoço, partimos, o avô e eu, para a sala e sob as instrucções dele deitei-me a seu lado no chão daquela bonita sala forrada a tapeçarias antigos com um belo teto trabalhado e um lustre que aliás herdei.

E começamos, não pela 1ª sinfonia mas pela 6ª. O meu avô explicava cada andamento enquanto ia mudar o disco (eu não tinha permissão para tal, coisa que muito me vexava), referia a época da estreia, os comentários e traduzia com uma facilidade que ainda hoje lhe invejo (mesmo sabendo algum alemão adquirido em duas incursões pelos Goethe Institut de Berlin e de Murnau). As notas que acompanhavam os discos e, sobretudo um longuíssimo artigo retirado do “der Spiegel” (suponho) que motivara aquela sumptuosa compra. Tudo isto, deitado a meu lado no chão protegidos apenas pela espessura do tapete que nos protegia do soalho. E todos os dias repetíamos o mesmo ritual, uma sinfonia por dia em ordem dispersa, acho que a 5ª foi a penúltima, até ao grande dia em que me foi apresentada, depois de traduzida a ode de Schiller de um velho e bonito livro com marcas de muita e constante leitura e pétalas secas sinal de que também a avó Dora o explorara.

Mais de sessenta anos depois, eu gostaria de vos descrever os sentimentos de um rapazola ignorante ao ouvir aquela peça que, continua a comover-me até às lágrimas cada vez (e são muitas pois além dos discos consta em todas as “pen” que trago no carro e que estão sempre em actividade.

A única coisa que recordo bem é que tomei a resolução de me inscrever na “Juventude Musical” e passar a assistir a todos os concertos que, nessa época, ocorriam no cinema Trindade pela tarde. E era da minha mesada que eu pagava a quota. Com os livros que começava a comprar sobrava-me o dinheiro certo para, aos domingos, ir ao cinema. Felizmente ainda não fumava nem tomava café...

Mas a que vem este relambório todo?

Pois ao facto de ter lido no Público de hoje que este vai ser o ano “Beethoven”, celebrando assim a data redonda dos 250 anos do seu nascimento. Devo ao eminente Carlos Fiolhais, um professor coimbrão, a notícia. Fiolhais é um desses cientistas que aliam um saber quase enciclopédico a uma impressionante folha de serviços na Universidade de Coimbra tendo mesmo sido director da prestigiosa Biblioteca da Universidade. Escreve com frequência nos jornais e fá-lo com inteligência, elegância e humor. Neste texto em apreço cita a tríade Haydn/Mozart/Beethoven, três monstros sagrados onde, a meus olhos –e ouvidos! – avulta o segundo de que sou fanático a ponto de ter duas edições completas da sua obra para já não falar dos cd, lp e dvd diversos que fui juntando e de que não consigo (oh egoísmo absurdo!) separar-me.

Ao contrário do avô materno Manuel, oficial do exército, o avô Alcino nunca foi uma pessoa fácil e não primava pela ternura para com os netos. Por isso conservo tão vívida a imagem de alguns momentos de intimidade à sombra de Beethoven. O velho génio surdo fazia milagres a começar pela música que já não ouvia. E esses dias a travar conhecimento com as sinfonias a que seguiriam depois, as sonatas, adoçam a imagem antiga e severa de m velho senhor que uma vez se deitou no chão para ouvir e explicar a um neto, que agora se recorda dele enternecido, o milagre absoluto da música imortal – duzentos e cinquenta anos depois e toda ela soa tão fresca e natural como no dia em que foi pensada.

Bom ano Beethoven para todos vocês!

26
Dez19

au bonheur des dates 407

d'oliveira

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mcr le fou

(na morte de Ana Karina, minha impossível namorada)

 

Tinha a minha idade, talvez um ano mais, mas continuo a vê-la (e desejá-la) muito, mas muito, mais nova. E, nesse impossível filme, também eu sou jovem, também eu deambulo pela vida sem saber exactamente o que queria embora tivesse certezas absolutas quanto ao que detestava e do que terrores nocturnos e diurnos fugia sem rumo.

Faço parte de uma geração que nasceu em pleno auge do cinema. No meu caso, mais precisamente, o saco das águas de minha mãe, então grávida de mim, rebentou em plena sessão de um filme parece que com o Gary Cooper.

Lá fomos ela e eu, à boleia e quentinho, no seu ventre generoso, numa corrida para Coimbra, para a maternidade. O meu pai, jovem médico cauteloso, entendeu –e bem, muito bem- que um prematuro de oito meses devia nascer num local adequado e com as máximas garantias de sucesso.

Desde cedo, demasiado cedo dirão alguns mais pernósticos e invejosos, acompanhei (com o meu irmão, mais novo catorze meses) a minha mãe às matinées do Cine Peninsular. Uma vez entrados na sala escura, os dois, mais outros compinchas tão pequenos e aventureiros como nós, íamos para os camarotes que prolongavam o balcão pelas laterais até ao ecrã. Aí, de pé, olhos perdidos na tela, víamos os filmes, os desenhos animados, os documentários enfim tudo. Em boa verdade, o primeiro filme que recordo foi “Não há paz entre as oliveiras”, um excelente clássico neo-realista de Giovanni de Santis, um autor, hoje (tolamente), esquecido.

Depois, ao longo dos anos, fui devorando quantidades absurdas de filmes que, graças ao cine clube de Coimbra, a umas escapadas a Paris, praticamente cobrem toda a produção interessante (e não só) dos anos 50 a 90.

Jazem em estante própria, cá em casa cerca de mil dvd, 90% dos quais de cinema até esses anos (se algum eventual leitor souber de um dvd com “Douro faina fluvial”, por favor avise-me que não dou por ele em parte alguma).

Durante esses longos e maravilhosos anos, foram muitas as actrizes que me encheram o olho e me provocaram uma respiração acelerada. Num país soturno, o cinema era uma porta aberta para a liberdade, às vezes para o futuro, para a aventura que nos era diariamente negada. Vivi até aos treze anos numa zona turística e balnear e o simples facto de o Verão transformar abissalmente as nossas vidas e experiências, tornava ainda mais urgente o mundo (mesmo se de fantasia) que o cinema abria. Era um época em que se viam fitas vindas de boa parte da Europa (da França, da Inglaterra, da Itália, da Alemanha e da Suécia) e a realidade, mesmo reinventada, dessas longínquas paragens aliada à pequena mas constante visita de turistas estrangeiros, tornava ainda mais difícil o nosso dia a dia mesquinho e obrigava-nos a tentar mudar a realidade política e social que nos castrava o pensamento. Não eram precisos os admiráveis Esenstein, os proibidos italianos ou o “Zero de conduite” para sonharmos dar um rumo diferente às nossas peregrinações pelo “país triste”. O cinema explicava-nos que havia outra realidade que por muito cor de rosa e adulterada que fosse, permitia pensar um mundo diferente.

Eu nem me atrevo a fazer aqui a lista das actrizes que me emocionaram mais do que era devido não só pela sua arte mas também, há que confessá-lo sem rebuços, pelo corpinho. Em minha defesa devo acrescentar que algumas mulheres que não primavam pela beleza ou fugiam do cânone também mereceram a minha devota atenção. Basta-me citar duas italianas de primeiro plano: Ana Magnani e Giulietta Masina, mulheres de corpo inteiro que contribuíram enormemente para o sucesso de alguns dos grandes realizadores italianos (no caso de Masina, Federico Fellini, a Magnani filmou mais e com muitos e não há dela um único filme piroso).

Porém a Karina - e também um pouco Eleanora Rossi Drago ( “Verão Violento” de Zurlini), Claudia Cardinali (“A rapariga com a mala” ,Zurlini outra vez!) e Jeanne Moreau (“Eva” de Losey) – acertaram em cheio nesta tosca e tímida criatura nessa década dourada mas violenta dos anos sessenta. A esse grupo junta-se a trágica figura de Jean Seberg (“O Acossado”, Godard) de que sempre lembrarei, e por mais de uma razão (como alguma vez contarei), a rapariga que vendia o New York Herald Tribune. Também ela foi musa, e de que maneira, de Romain Gary um notável escritor que cometeu a proeza de ganhar por duas vezes o Gongourt.

Todavia, a Karina tocou-me mais fundo. Provavelmente a época agitada e exaltante que se vivia contribuiu muito para isso. E a presença do grande Samuel Fuller no elenco, prova provada de quanto o cinema americano influenciou a nouvelle vague em geral e Godard em particular. Ana Karina surge já o filme leva um largo par de minutos mas a sua força, ou a sua simplicidade transforma o ambiente fílmico e dá um sentido absolutamente novo quase iconoclasta à aventura do herói (Jean Paul Belmondo, numa actuação densa quase à beira do cabotinismo) cuja vida cinzenta se transforma numa rota imprevista rumo à liberdade). Num único filme a jovem actriz entra na divisão maior das actrizes francesas, clube exigente e pouco numeroso.

Eu não sei se basta um filme para marcar um intérprete e tornar lendária uma personagem. Porém, verdade ou não, pouco me importa, isso ocorreu com Ana Karina que na altura andaria pelos vinte cinco, vinte seis anos.

Citei acima algumas actrizes e respectivos filmes onde tiveram uma preponderância marcante. Para, algumas, e basta citar Claudia Cardinale, esse momento de entrada na alta roda do cinema dá-se com “La ragazza con la valigia” teria ela também pouco mais de vinte anos mesmo se já trabalhara com Bolognini ou Visconti sem falar numa breve mas fulgurante aparição em “I soliti ignoti”. O processo foi semelhante com Jeanne Moreau mesmo se até ao “Eva” ela já tivesse filmado com Louis Malle, Vadim, Truffaut ou Molinaro sempre com presenças interessantes mas não ainda com o toque de génio que, nesse filme, também ele hoje esquecido, demonstra.

MS Fonseca, um genial cronista sobre cinema (no Expresso) titulava a sua coluna “o cinema dá o que a vida leva” (creio que era este o nome mas onde estou não tenho possibilidade de o confirmar). É uma verdade imensa que, porém, se âncora num equívoco igualmente grande. Porque o cinema, quer se queira quer não, molda costumes, hábitos e modos de ver. Torpedeia a diferença e constrói uma realidade que não é mais do que uma aproximaçãoo à imitaçãoo da vida.

Provavelmente, temos todos necessidade disso. De sobre a crua vida lhe vestirmos o manto diáfano da fantasia como Eça, sempre esse homem fatal, escreveu.

Ana Karina (e tantas outras) ajudaram-me a viver onde a vida era triste e desesperada. Só isso faz dela uma namorada ideal. E presente, sempre presente.

 

(este texto começou a ser escrito no dia seguinte à morte da actriz. Razões várias, viagens, Natal (ai o Natal! Ai a distribuição das prendas! Ai algumas prendas!...), preguiça (sempre presente, Deus seja louvado), amigos que aparecem inopinadamente à mesa da esplanada onde logo pela manhã me sento a tomar os primeiros cafés do dia, a ler o jornal e a escrevinhar estes folhetins, tudo se conjugou para só hoje, um dia depois das festas acabá-lo e acabar o luto por essa belíssima mulher.)

E já agora para vos desejar a todos um bom ano de 2020, bissexto e tudo. E deseja-lo a sério mesmo se como um verdadeiro “pobre homem de Buarcos” eu desconfie da avalancha de promessas que as ilustres e excelentíssimas autoridades que nos governam prometem. Que não seja pior do que o que passou...

13
Dez19

au bonheur des dames 425

mcr

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Pido la paz y la palabra

 

mcr 13 Dezembro 2019

 

 

O título do folhetim de hoje é de Blas de Otero, poeta grande entre os grandes e resistente entre os resistentes, ao franquismo primeiro e a tudo na realidade.

E se uso Otero nesta croniqueta é porque talvez (um talvez esperançado mas não muito) o seu nome seja conhecido por Eduardo Ferro Rodrigues,  pelo menos devido ao facto do poema com este título ter dado origem a uma bela canção de Paco Ibañez que se ouvia muito nos anos duros a cujo estertor final EFR assistiu e, aliás, para o qual colaborou, honra lhe seja.

Gostaria de começar com um “meu caro Féfé” mas não o faço. Foi na qualidade de Presidente da Assembleia da República que ele tropeçou e a uma autoridade destas há que, mesmo para a criticar, usar um tom que sem ser subserviente não caia no desrespeitoso ou no demasiado familiar.

De facto, ontem o sr. Presidente da AR perdeu a cabeça e a contenção exigida pelo alto cargo que exerce. E, pior, cometeu uma injustiça ao tratar diferentemente dois deputados que usaram a mesma palavra “vergonha”. A um tratou-o rudemente, para não dizer mal, para não dizer que abusou da sua posição naquele areópago. Ao censurar o termo “vergonha” e, sobretudo ao extrapolar do seu uso para um insulto aos restantes deputados, o sr. Presidente demonstrou (mesmo que, como espero, contra vontade e para além do que devia) uma impaciência (e estou a ser demasiado suave) e um forte desconhecimento da língua portuguesa.

“Vergonha” mesmo no plural (“vergonhas” por partes pudendas masculinas ou femininas) não é insulto.

Mais: é usado aqui e em muitos outros lugares, parlamentos incluídos e quase não há sessão no britânico em que alguém não brade em discurso ou em aparte, “shame on you!”

Eu, como o dr Ferro Rodrigues (presumivelmente) não tenho qualquer simpatia pelo doutor André Ventura. Em boa verdade tenho mais sorte que o meu ex-camarada de MES porquanto nem sequer conheço a criatura e muito menos sou obrigado a ouvi-la.

Porém, o Presidente do parlamento está lá para ouvir sem emoção os desabafos, desde que civilizados, dos deputados. E mesmo os outros pois a AR já foi palco de muita discursata ofensiva.

Não cabe nas funções de Presidente da AR deidir qual o português que se usa e, muito menos, interpretar semanticamente o que se diz. No caso, nem sequer é uma interpretação. É uma distorção absoluta ou, em língua corrente e,  com o respeito devido, uma asneira de todo o tamanho.

Há porém mais, como argutamente o notava o caricaturista Luís na última página do Público de hoje. O dr Ferro Rodrigues deu, de mão beijada, ao representante (por enquanto único) do Chega uma oportunidade extraordinária de mostrar urbi et orbe, que é perseguido por quem deveria velar pela ordem , pela paz e pelo bom uso legítimo das palavras na AR

A coisa torna-se ainda mais caricata, o dr Ferro Rodrigues que me desculpe, quando na mesma sessão uma deputada do BE usou a mesma palavra sem ser admoestada.

Claro que poderemos sempre pensar que o dr Ferro Rodrigues quis ser um “galantuomo” e tratar uma senhora com requintes de amabilidade e compreensão. Mas também aí erra e não pouco. De facto o BE é um potencial aliado do PS, partido a que o dr Ferro Rodrigues pertence. Fez parte da “geringonça” e os seus votos são fundamentais para a aprovação do Orçamento.

Não ouvir a “vergonha” do BE quando ao som da outra do Chega se perde a calma e a razão e o sentido da língua é um erro dramático e um péssimo sinal para a defesa da democracia. Pode parecer parcialidade!

E em política, dr Ferro Rodrigues, o que parece É    

 

(a parte: como amigo do visado a quem reconheço humor e inteligência devo dizer que fiquei arrepiado com a sua intervenção, com o tom que usou que me pareceu prepotente. Numa palavra: estou envergonhado)

 

04
Dez19

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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O que é demais é demais!

mcr 5-XII-2019

 

Escrevi pouco sobre Tancos. Aquilo, aquele roubo de meia dúzia de armas mostrou apenas algumas evidências de que o “manto diáfano da fantasia” esconde. A “trágica nudez da realidade” é, de facto, esta: o país de sucesso é quanto muito um destino barato para turistas apressados à procura de sol, sal e sul. E de segurança nas ruas, interlocutores nacionais simpáticos (quando não quase servis) a arranhar as línguas da estranja que não faz o mínimo esforço para perceber uma velha nação e um povo sofrido e provinciano que agradece a esmolinha de uma visita apressada a baixo preço.

Sob o manto inconsútil referido está um país adiado, sem ferrovia que se aguente, com uma produtividade das mais baixas da Europa, sempre à espreita de uns dinheirinhos da União Europeia e da ajuda sem desfalecimentos do Banco Central Europeu. Um país que, se os cálculos eleitorais se confirmarem, continuará a aguardar as reformas imprescindíveis, escondendo-se atrás de uma mais que ilusória proto-regionalização (que aliás já foi duramente derrotada mas que insiste em regressar à superfície sob o aplauso de uma pequena elite regional que já se vê sentada à mesa do orçamento das regiões prometidas.

Tancos, melhor dizendo a tropa está como o SNS ou a Educação. Em estado quase comatoso, vivendo um dia a dia incerto, remendando hoje, cortando amanhã, prometendo sempre.

As forças armadas tem menos efectivos do que deveriam, muito menos dinheiro do que precisam, uma estrutura antiga de que os paióis são a vera imagem. Fechaduras obsoletas, alarmes antigos e desactivados, patrulhas incertas e vedações podres.

No meio deste cenário de catástrofe apenas surpreende o facto de haver uma criatura com o título de “Ministro da Defesa (Nacional)”. Para quê? Fora o facto incontestável que isso serve para gastar dinheiro e dar um tacho a um boy, para nada mais tem serventia que se veja. O que aliás se comprova quando nos lembramos que o cargo recaiu no sr. doutor. Azeredo Lopes ex comissário político para a imprensa e afins onde tão bons serviços prestou a Sócrates & Cia.

Esta estranha personagem poderá ser um professor razoável mas olhando para o seu percurso tem-se a extravagante sensação que sofre de “cataventismo”. Pouco antes de ter lugar à mesa do Orçamento e do Conselho de Ministros, a criatura, corrijam-se se estiver errado, estava de alma e coração com o sr. Presidente da Câmara do Porto como Chefe de Gabinete.

 

 

Diria que se trata de uma pessoa para todas as estações não fosse isto dizer precisamente o contrário do que o título do filme do grande Zinemann tem por objecto. Que me conste o dr. Rui Moreira encabeçou vitoriosamente um movimento de cidadãos liberal-conservadores de bom tom que nada tem a ver com a alegada “esquerda” representada pelo PS. Enfim, feitios!

E feitios que estão a acabar num processo torpe de armas roubadas e miraculosamente encontradas pela pj militar. Do que se lê nos jornais ou se ouve na televisão, o Ministro sabia de tudo, cobriu tudo e, por isso terá mentido com todos os dentes. O processo o dirá quando (oh quando?...) tiver lugar.

É óbvio que nada disto retira responsabilidades a essa coisa chamada Estado Maior e ao punhado de criaturas fardadas e carregadas de condecorações e títulos pomposos. Também nada disso retira o tom afrontoso que presidiu à suspensão de três oficiais superiores encarreirados para o tirocínio ao generalato e que tinham a difícil missão de comandar as unidades estacionadas em Tancos. É verdade que as suspensões foram levantadas mas a vergonha, essa, permanece. E a ver vamos se isso, este percalço na carreira não vai afectar a vida futura e a promoção desses oficiais...

Todavia, para além do que se vai sabendo, cresce, incontidamente, a desconfiança sobre o modo de agir dentro da tropa. Num sistema fortemente hierarquizado concebe-se mal que alguém, mesmo um major ou um coronel aja sem conhecimento dos seus superiores.

Há, a latere, uma história de recusa de um juiz a um pedido de intercepção telefónica de presumíveis criminosos mas isso é para outro post dedicado apenas aos senhores magistrados que, actualmente, servem para tudo desde homem de futebol até secretário de Estado. A gente vê, ouve (e pasma) juízes a opinarem sobre tudo com um à vontade que ultrapassa as suas claras funções e permite duvidar do bem fundado de opiniões e, pior!, decisões.

Perguntará alguma leitora (ou algum leitor) por que raios estou eu a escrever sobre um tema que o ruído do futuro orçamento, dos novos mini-partidos, da senhora Katar, do cavalheiro de saia plissada ou da chegada da jovem sueca atiram para o limbo noticioso. Pois é precisamente por isso. Para que não se diga que as pessoas atordoadas pelo dia a dia frenético, pela black friday pelo Natal à porta ou pela história mal contada do lítio e subsequente fuga rápida de um secretário de Estado incapaz de enfrentar os cidadãos que protestavam, se calaram.

Não, não se calaram nem se calam.

29
Nov19

au bonheur des dames 418

d'oliveira

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Aventuras da Desrazão

 

mcr 29-XI-19

 

Depois da surpreendente teoria do salário mínimo nacional dever ser definido à base do amor (e amor caro, amor a 900 euros mensais...) eis que a deputada Joacine Katar Moreira “contrariando uma das marcas genéticas do LIVRE” se absteve num voto sobre Israel. Notem que a criatura até estava de acordo em condenar. Mas não o fez por ter havido um problema “de comunicação” entre ela e o famigerado grupo de contacto (parece ser este o nome da direcção do partido). Ou seja, além da gaguez física há estoutra gaguez intelectual. Vejamos: se o LIVRE dá (como afirma Rui Tavares) uma grande liberdade aos seus eleitos, se os eleitos são a favor da condenação de Israel (e neste caso da ocupação de territórios árabes exteriores às fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente) por que bulas a conhecida senhora se abstém?

Eu, desde o primeiro dia, entendi que JKM funcionava em roda livre e que se considerava uma diva e pensava ser (mal, mas já lá iremos) a única responsável pelo seu lugar no Parlamento. E da cenografia que marca cada passo que dá nos “passos perdidos”, incluindo os de polícia ao lado para afastar os maldosos jornalistas. Nos meus tempos de menino e moço, falava-se muito da “sociedade do espectáculo” numa adaptação demasiado livre das teses “situacionistas”. “Mal comparado” eis-nos na dita situaçãoo! Credo!

Conviria lembrar à Sr.ª Moreira que ela só senta o dito cujo na AR porque um partido chamado LIVRE a candidatou. Sem ele, ela continuaria feliz e desconhecida do povo português. Passo por alto o curioso sistema interno que alavancou a sua ida para deputada mas, tendo em conta a pequena e divertida história do LIVRE, tudo ali parece possível incluindo até o fazer política.

Também recordaria, se é que a coisa tem alguma importância que, ao contrário do que Joacine afirma, a sua eleição teve os seus pontos mais fortes nos bairros ricos de Lisboa (Belém, por exemplo) e não naqueles onde as minorias “perseguidas” pelo racismo existem e, eventualmente, votam. Os bairros “pobres e problemáticos” deram o lugar ao Sr. Ventura, esse representante (segundo o falecido camarada Dimitrov) da “ditadura terrorista do capital”. (os leitores mais avessos à história do comunismo em geral e do Komintern em particular perdoarão esta minha mania de referir uma história que até o PCP - et pour cause - já esqueceu convenientemente).

Perguntarão as leitoras e leitores (se posso usar imodestamente este plural) que interesse terão a média e alta burguesias lisboetas em catapultar uma “esquerdista” em vez de darem o seu aval às tradicionais forças que as representam (PS, PPD ou CDS). Em poucas palavras diria que para uns o PS se esquerdizou demasiadamente graças à “geringonça”, que o PPD já não sabe a quantas anda com um dirigente vinda da província nortenha e com sotaque tripeiro (oh que horrorrrr!!!) e que o CDS se perdeu num optimismo “crístico” depois de ter obtido um bom resultado nas autárquicas. Num palavra, o CDS parece querer imitar o sapo que inchou demasiadamente sem perceber que lá dentro só havia ar e vento. O LIVRE era pois uma escapatória simpática depois desse lugar já ter sido ocupado pelo BE que, também ele, vai buscar os seus votos à “gente educada” e bem posicionada na vida, na Academia, nas artes e nos costumes.

Tenho por mim, que ninguém esperava uma eleição do LIVRE que, na realidade é mais um epifenómeno a juntar a outros. Dir-me-ão que poderiam ter optado pelos liberais (e também isso ocorreu, aliás). É até provável que para a próxima vez estes aumentem o seu score (como inevitavelmente ocorrerá com a gentinha de Ventura). Basta apenas que mantenham uma posição clara, de bom senso na AR. São os eleitores que pagam os impostos (e que impostos!) que aderirão com mais facilidade às teses da Iniciativa Liberal, como serão os eleitores de menos posses que se sentem ameaçados por comunidades imigrantes e ciganas que aumentarão o espólio do CHEGA. A Direita Extrema (não vou ainda usar a fácil terminologia de “fascista”) existe, sempre existiu mas só agora, como em várias outras geografias europeias, sente um desejo de segurança e um medo, muitas vezes, irracional. O “mainstream” político europeu (social democrata e conservador) não tem sabido ou podido responder às angústias, inquietações ou medos de uma parte da população que começa a descrer da “Europa” e muito mais do multiculturalismo emergente que põe em causa uma herança cultural que não se resume à “igualdade, fraternidade e liberdade” herdadas da Revolução Francesa. O século XX, com o seu tremendo e trágico cortejo de regimes fascistas e comunistas, com o abrandamento económico actual com a decrescente natalidade, com a difícil reintegração das sociedades de leste, parece propício a este fenómeno de abandono de uma certa democracia ocidental, de algum liberalismo temperado por políticas sociais avançadas desenvolvidas pela social democracia (e por alguma democracia cristã com fortes preocupações sociais).

Com a queda da União Soviética minada pelo desastre económico e financeiro, pela escassez de bens de consumo, pelo descrédito em que a sua “nomenclatura” tinha caído, o comunismo deixou de ser uma força actuante na Europa Ocidental (particularmente na França e na Itália onde os pc locais tinham uma fortíssima posição no parlamento, nos sindicatos e nas elites intelectuais ).

Os últimos anos 60 e toda a década seguinte marcaram claramente o fim da influência de Moscovo mesmo se isso tivesse sido mascarado pela irrupção do Maio de 68, pela guerrilha ideológica “pró-chinesa” ou pelos movimentos “anti-autoritários”. A URSS foi substituída no imaginário intelectual de alguma juventude mais aguerrida por Cuba, pela China e pelo Vietnam. Infelizmente nenhum destes modelos durou mais do que um suspiro. Cuba ruiu depois de andar ao colo dos russos durante duas décadas, a China foi sepultada pelos milhões de vítimas da revolução cultural (que acresceu aos desastres das “cem flores” e do “grande salto em frente” e o Vietnam mostrou depois da vitória a sua face menos agradável na relação com o resto dos países da Indochina mas também pela tragédia inominável dos “boat people”.

É deste desabar ideológico que se foi agravando até ao fim do século XX que começam a despontar as variadas novas formulas esquerdistas que, aliás, foram paralelamente acompanhadas pelo renascer mesmo se diferenciado das direitas derrotadas durante a 2ª Grande Guerra.

Portugal não escapou (como escaparia?) a esta nova desordem política. Houve sempre um núcleo de Esquerda radical (inclusive no Parlamento não só com a UDP mas também com pequenas correntes dentro do PS que foram sendo pouco a pouco varridas para o exterior (os sequazes de Manuel Serra ou o POUS) e para a inoperância. A isso, conviria acrescentar as depurações dentro do PC (de onde saíram para o PS e para o BE grupos mais ou menos organizados que no caso do último foram mesmo fundamentais para o crescimento e êxito eleitorais registados nas últimas décadas. O PS devorou mais de meio MES, arregimentou toda uma série de ex-comunistas notórios deixando para o PPD e para o BE a pesca à linha de ex-maoístas, ex- trotskistas e antigos militantes católicos” em ruptura.

Não deixa, aliás, de ser curioso, e sobretudo irónico, que Joacine, imite (ou esteja perto de imitar), talvez sem querer, Rui Tavares que, eleito pelo BE, cedo se desprendeu mas manteve o seu lugar no Parlamento Europeu. Isto ao arrepio daquele mínimo ético que mandaria o eleito em ruptura a abandonar o grupo que o elegeu e o cargo que a ele deve.

Não admira pois que num artigo confuso (no Público) Tavares se embrulhe ao tentar explicar o que se passa entre a estrela que ele ajudou a criar e o partido em que ambos eventualmente militam. Todas as restantes e notórias notícias que vem do pequeno partido são espadeiradas na água e entram ousadamente no ridículo e na crónica bem humorada do “fait divers” Quando não é assim e recorrem a um agente da autoridade para proteger o sacro descanso político e a vacuidade ideológica da deputada fazem prever uns “amanhãs que cantam” demasiado sinistros. Enquanto o deputado Ventura fala aos polícias a senhora deputada já os vai usando para repelir jornalistas curiosos...

Les beaux esprits se rencontrent.

* na estampa:colonato invasor da terra palestiniana cercado por um muro que lembra outros não tão recentes.

 

 

19
Nov19

au bonheur des dames 424

d'oliveira

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Zé Mário

mcr, 19.XI.2019

(52 anos, quase dia por dia, de um concerto entre amigos em Paris. Ai, amigos meus, tão livres que nós éramos...) 

 

Chega-se a uma idade em que as más notícias são a regra e as mortes se acumulam até perderem sentido. Agora, foi o Zé Mário Branco, uma amizade de quase 60 anos, forjada durante a sua curta estadia em Coimbra. Em determinada altura, hospedou-se no meu quarto, já não sei por que motivos. Provavelmente entendia que o seu dinheiro seria mais bem aplicado do que num aluguer. A D Laura, minha (e de muitos outros) generosa hospedeira facilitou um colchãozinho e ele foi meu “cabide” durante umas semanas.

Depois desapareceu, melhor dizendo, fugiu à tropa e à guerra. Sabíamos que a Isabel (Alves Costa) mãe de dois dos seus filhos fora ter com ele a Paris. Em Novembro de 1967, o CITAC, um grupo de teatro estudantil de Coimbra, no qual eu estava integrado, rumou a Paris para,  no âmbito da 5ª Bienal de Paris, apresentar” o “Grande Teatro do Mundo” encenado por Victor Garcia. Foi nessa semana fantástica, a poucos meses do “11 de Março”, que reencontrei o Zé Mário que principiava uma auspiciosa carreira de cantor e músico. Num pequeno bar da margem esquerda ouvimos, em primeira mão, canções como “ronda do soldadinho”. Mais tarde um disco, com o mesmo nome, contrabandeado chegar-nos-ia a Coimbra.  Quando o Zé regressou, logo depois do 25 de Abril, voltámos a encontrar-nos em espectáculos ou simplesmente em Lisboa.

Quando comecei a trabalhar na Delegação Regional de Cultura, no Porto, idealizou-se uma série de concertos de música popular que começaria, nem podia ser de outra maneira, com o Zeca Afonso, outro velho amigo de Coimbra. E com ele, depois dele, vieram o Zé, o Vitorino, o Sérgio e viria, se não morresse abruptamente, o Adriano. Fiz parte da pequeníssima equipa (onde destaco a acção extraordinária e perfeita de Luísa Feijó) que trabalhou arduamente para apresentar estes espectáculos no “Auditório Nacional de Carlos Alberto”. Escusado será dizer que registámos enchente sobre enchente. Foi a DRN quem, primeiro que quaisquer outros, deu uma sala  do Estado à música de intervenção e a uma série impar de cantores de mpp que ainda hoje são escutados e aplaudidos.

Depois, o resto é história, uma que outra vez lá nos encontrávamos e retomávamos uma antiga e quase ininterrupta conversa começada nos anos sessenta em Coimbra à luz fraterna do associativismo estudantil e das lutas que íamos travando com maior ou menos sucesso.

Com a Isabel a relação foi mais continuada pois além dela se instalar no Porto, foi na DRN, e com a DRN, que lançou o Festival Internacional de Marionetas do Porto que dirigiu até, subitamente, morrer. Desses anos de trabalho também já foram, entre outros, o Rui Feijó (primeiro e insubstituível Delegado Regional do Norte) e o Manuel Matos Fernandes, um animador cultural  cultíssimo e com uma invulgar capacidade de trabalho.

Da qualidade musical do Zé, para além do seu enorme talento poético, outros falarão. Da sua generosidade e do seu intenso labor em aproximar músicos, estilos e gerações diferentes haverá seguramente melhores e mais avisados testemunhos. Mas do amigo que trocava sonhos naqueles dias sombrios de Coimbra em que fintávamos a adversidade, a polícia, e o embiocamento provincial e provinciano do país, posso falar sem rebuço. Como uma das suas criações, o Zé era um “Ser Solidário”. E isso vai fazer falta, muita falta.

(Nota à parte: foi noticiado que se estava a preparar uma edição completa e, espero, “raisonée”, da sua obra musical. Esperemos que isso se torne realidade tão depressa quanto possível. E, já agora, por favor não o queiram emparedar no Panteão como vai sendo moda... Isso seria uma segunda morte para ele. E para mortes basta uma e a definitiva

12
Nov19

au bonheur des dames 416

d'oliveira

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À Lagardere

 

mcr 11.11.19

 

Duvido bem que a maioria dos meus leitores tenha algum vez lido Paul Féval, um cavalheiro francês (sec XIX) que, com Ponson du Terrail (outro da mesma nacionalidade e da mesma matriz literária), escreveu romances de capa e espada na senda de Alexandre Dumas. Féval tinha um herói, o jovem Lagardere, espadachim emérito que aliava a coragem, a virtude ee o encanto a um bote secreto com que vencia duelos tremendos.

Depois, sei lá porque razões começou a usar-se a expressão “à Lagardere” para referir ousadia (num primeiro tempo) e excesso de qualquer qualidade, finalmente.

Ora, eu, ainda que sem especial vontade, vou voltar a referir-me uma vez mais à sr.ª dr.ª Joacine Moreira deputada do Livre (ou será o Livre que é o grupo de Moreira?) que tem ocupado excessivamente as páginas dos jornais. E não pelos melhores motivos, convenhamos. A polémica instalou-se pelas más razões, desde a gaguez da personagem até à cor de pele brandida como arma de arremesso pelos seus partidários (a começar pelo sr. dr. Rui Tavares) que carregou nessa tecla juntamente com a da condição de mulher como se isso fosse uma panaceia para o parlamento. Não é o facto de ser mulher, mesmo negra (como ele insistiu e ela se conformou com inegável à vontade ), que faz um bom deputado/a. E nem sequer como símbolo isso parece valioso num país que, com todos os seus defeitos (e são muitos) já elegeu gente de “cor” (pudica expressão para dizer preto que, pelos vistos é muito pior do que negro) e até tem no seu Governo uma mulher negra (ou preta) e um 1º Ministro com sangue indiano.

Portugal mesmo sem recorrermos ao estafado luso-tropicalismo, encheu-se de negros (escravos) desde o século XVI, de mulatos e governou colónias onde estes foram, em quase todos os casos, os executantes subalternos da política colonial e imperial. No Alto Alentejo subsistiram durante centenas de anos grupos fortemente mestiçados para ali levados para os trabalhos agrícolas e se, agora, são menos visíveis foi porque abandonaram a zona e se cruzaram com “brancos” nas zonas de imigração interna para onde se deslocaram.

E onde é que entra a sr.ª deputada Joacine? Entra, precisamente, com uma versão modificada da espadeirada à Lagardere. Ou seja, ganhará sempre todas as discussões recorrendo ao argumento “atacam-me porque sou negra, mulher e gaga”. Perguntam-lhe alhos e ela responde que é negra. Perguntam-lhe bugalhos e retorque que é gaga (“de fala mas não de cabeça”, sic). À questão dos negalhos dirá que só lhe falam disso porque é mulher. E assim, sucessivamente.

Todavia, as questões que se puseram em relação a esta senhora não são assim tão inconvenientes. A gaguez é mesmo um senão, uma barreira à discussão no parlamento. Darem-lhe mais tempo, benefício que não discuto e a que, muito menos, me oponho, pode ser uma prova desagradável de condescendência e não o reconhecimento de um direito. De todo o modo, sozinha como está e com a limitação de direitos que também recai nos outros dois deputados igualmente sós, temos que mais minuto menos minuto em pouco modificará a discussão na AR.

E, já agora, o problema da gaguez não perpassou sequer ao de leve, pelas cabecinhas iluminadas dos dirigentes do Livre? Não acharam (e muito menos entenderam) que, mesmo sem assessor espampanante de saia de pregas e meia verde bandeira, era complicada a sua acção no parlamento?

É que, para um espectador distraído, poderá surgir a tentação de pensar que a cor d pele é apenas um truque para mostrar a “diferença” mesmo se isso não tem cobertura política e/ou ideológica! E se for assim, e bem que o pode ser, impõe-se uma grave conclusão: a cidadã Joacine chega ao parlamento não por ela própria mas pelo sexo, pela cor de pele e, eventualmente, pelo seu problema de locução. Um truque, um expediente uma vigarice (para usar uma expressão posta em moda politicamente pelo sr. deputado Rui Rio).  

Não sei se nisto tudo ela é actriz ou meramente vítima. Seja como for, ha aqui algo que cheira a expediente eleitoral e a uso e abuso de diferenças de sexo, e de cor.

E é pena porquanto uma voz (mais uma) feminina pode sempre tornar o parlamento mais abrangente, mais curioso mais interventivo.

 

 

10
Nov19

au bonheur des dames 415

d'oliveira

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“Lonely Woman”

mcr, 10.11.19

 

Permito-me recordar um belíssimo tema do grande grupo Modern Jazz Quartet (John Lewis, Connie Kay, Percy Heath e Milt Jackson –piano, bateria, contrabaixo e vibrafone). A música, porem deve-se a Ornette Colleman, um saxofonista rebelde mas genial. E tanto ou tão pouco que o álbum do MJQ que contem esta composição intitula-se justamente “lonely woman” e tem uma capa lindíssima que adorna a gravura deste folhetim.

De todo o modo, não é do MJQ que pretendo escrever mas, roubar o título ,para apenas falar da jovem mulher de 22 anos, cabo-verdiana e imigrante, provavelmente pouco alfabetizada que vivia nas ruas de Lisboa como sem abrigo. Junte-se a isso uma gravidez provavelmente indesejada e o abandono do alegado pai da criança.

Não pretendo dizer que a tentativa de homicídio tenha justificação, sou infelizmente um vago jurista não praticante, imbuído todavia dos preceitos inculcados pela Faculdade e pela ética que bebi desde menino.

De todo o modo, se a mulher jovem e ignorante tivesse ido a uma abortadeira (que ainda as há) ou, caso mais difícil, tivesse abortado legalmente num hospital (pressupondo que encontraria um médico que não levantasse a famosa objecção de consciência) onde estava o crime?

Alguém, aí desse lado das leitoras e leitores que, com infinita paciência, me aturam poderá explicar-me?

Eu sei que andam por aí subtis distinções entre feto e recém nascido (que reconheço do alto da minha idade, meio social, classe, cultura e educação mas que não funcionam da mesma maneira para uma jovem, pobre, miserável mesmo, só e abandonada numa terra estrangeira e não tão afável como a propaganda tenta fazer-nos acreditar) mas que quer isso dizer perante o caso concreto?

Temendo irritar-me mais do que me apetece, não li, não ouvi os comentadores jornalísticos e televisivos que, pelos vistos não largam a notícia. Sei, tão só que a rapariga está preventivamente presa o que, dado o seu passado próximo, até pode ser um alívio. Tem um teto e três refeições quente por dia o que, para um sem abrigo em fins de Outono numa Lisboa onde chove que Deus a dá, pode ser um “upgrade” (estamos em época boquiaberta por uma coisa chamada web summit que pelos vistos nos vai pôr no cume do progresso tecnológico e na vanguarda da ciência) de certa importância.

Todavia, apesar da minha pouca atenção aos oráculos que pululam pela tv e um pouco pelos jornais, não tive eco de um pouco de dó, de compreensão, de caridade no caso em apreço. Pelos vistos, todos acham que a pobre criatura é uma homicida fria e desapiedada.

Entretanto, um recém nascido, mesmo mulato parece despertar o interesse de demasiada gente, incluindo (e é melhor aspecto) adoptantes. Um bebé de dias é um must mesmo se andam por aí, e mal, centenas de crianças que hão de crescer em instituições frias longe dos focos da comoção pública. Fosse eu mais novo, mais experiente da coisa jurídica e vivesse em Lisboa, já me teria oferecido para defender essa mulher só, terrivelmente só.

(em tempo: estou obviamente disposto a contribuir com algum dinheiro para ajudar a acusada. Assim eu saiba como e a quem o entregar.

 

 

06
Nov19

au bonheur des dames 414

d'oliveira

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Em Berlin, espantado

mcr 5.11.19

 

Foi em 1970, entre Outubro e Dezembro. A minha mulher, estudante de Germânicas, entendeu (e bem!) que uma estadia na Alemanha ajudaria em muito o seu alemão. Nada como a imersão total numa língua para a aprender (e apreender). Os meus mais que generosos sogros propuseram-me que também fosse e que, igualmente, frequentasse o Goethe Institut, se bem que num grau inferior ao da    Maria João. Claro que aceitei sem qualquer hesitação. Acabara o curso de Direito e o 6º ano (curso complementar de ciências jurídicas) podia esperar. De facto, boa parte dos benefícios dessa formação extra nunca me tocariam. Destinava-me à advocacia, não por vocação mas apenas porque com uma informação política altamente desfavorável nunca entraria nos quadros da magistratura ou da diplomacia. Numa palavra, o funcionalismo público estava-me vedado. Só me inscrevi por mero desafio a um passado académico aos altos e baixos e tentando provar a mim mesmo que era capaz. E, em boa verdade, logo em Fevereiro desse ano, voltei a ser preso e estagiei mais uma temporada em Caxias num quartinho com vista para a estrada e para o rio (ao menos isso, pensei quando me vi naquele cubículo minúsculo espartanamente mobilado. De todo o modo, não perdi totalmente o meu tempo, pois foi aí que li, em traduções publicadas pela “Livros do Brasil” , o Proust e o Joyce. Nem me dei conta, no caso do segundo, das famosas dificuldades daquela leitura. Na cadeia, julgo eu com um saber todo feito de experiências várias, até a literatura inclusa nas embalagens de remédios serve. De todo o modo, fiquei com imenso respeito pelo Ulisses e com um a recordação agridoce do meu homónimo Marcel.

Deixemos esta (costumeira e viciosa) deriva e voltemos a Berlin. A Berlin e ao omnipresente muro. Em Wedding, onde era a nossa residência universitária (eine Gefängniss, segundo os nossos novos amigos alemães, ébrios de liberdade por contraposição aos do “outro lado) víamos o muro de cada vez que rumávamos ao centro. Aliás, depressa o começámos a atravessar não só porque havia uma imensidade de extraordinários museu a visitar em Mitte, o velho centro da cidade, mas porque com o cambio contrabandista dos marcos ocidentais por orientais (1 por 4) comia-se barato num restaurante chamado Linden Corso.

A passagem do muro era algo de épico. Não só o carro teria de ir livre de tudo e mais alguma coisa, incluindo imprensa (um dia houve em que “Le Monde” trazia uma reportagem mais do que generosa sobre a DDR apelidando-a de “Dinamarca dos países socialistas” (!!!), exagero estrondoso sobre um país artificial onde faltava quase tudo e sobre uma cidade que em comparação com o sector ocidental parecia mais atrasada do que a Figueira dos anos quarenta. Pois nem esse exemplar laudatório mereceu um salvo conduto e tivemos de o ir de guardar na sentinela americana que nos achou tolamente ingénuos) mas nós teríamos de suportar uma forte inspecção além de sermos obrigados a cambiar cinco marcos ocidentais por igual quantia oriental. Felizmente, nunca nos apanharam o dinheiro leste-alemão trocado nos esconsos da estação de Zoo Garten.

A cidade, do outro lado, era desoladora. A única vantagem era o trânsito ralo e, em boa parte, alimentado por automóveis de turistas como nós. No resto, incluindo a entrada no complexo de restaurante onde íamos, havia um permanente cheiro a couve fermentada ou algo do mesmo género. A arquitectura era deprimente, mesmo na Leninplatze ou na Karl Marx Allee. Na primeira, num bar que deveria querer parecer sofisticado, vimos prostitutas. Um turco, meu colega e admirador de Nazim Hikmet (e isto já diz tudo) nem queria acreditar e suspirava desalentado “Demokratie, Demokratie...” A francesa Martine, vinda do peuple de gauche foi definitiva: “isto é que é o social fascismo”, e, mesmo que historicamente não tivesse razão, de facto, aquilo não era mais do que isso. Uma ditadura protegida por meio milhão de soldados russos, um muro homicida, uma Stasi omnipresente e duzentos mil bufos regulares. No outro lado, poderia estar, e estava, o capitalismo mais auto-publicitado, a imprensa Springer, o luxo inaudito das grandes marcas ou da grande distribuição (o Ka De Ve, Kaufhaus des Westen) um luxo em plena “Kudamm” mas estava também a contestação do sistema, os Kindergarten, as livrarias onde havia publicações de todo o mundo, incluindo do Leste (por exemplo Wolf Biermann que seria expulso da RDA). Mas a liberdade estava passar por lá mesmo se a Rote Armee Fraktion fosse duramente combatida ou Rudi Dutschke alvo de atentado. No pequeno cineclube Arsenal vi alguns dos melhores e mais bem conseguidos filmes políticos que se fizeram a par de grandes clássicos do cinema, uma e outra vez repetidos para gozo de multidões de cinéfilos. Nem vale a pena falar da música ou das exposições de artes plásticas se bem que date daí o meu primeiro contacto com a gravura japonesa o ukiyo-o. Berlin, cercada por um muro infame, grotesco e homicida, resistia como antes conseguira ultrapassar o bloqueio.

Nós, ficávamos estarrecidos com a explicação oficial das autoridades da RDA: o muro protegia a parte oriental e sã da agressão imperialista. E por isso urgia matar quem do leste se dispusesse a atravessá-lo. Para que os cidadãos do regime dito socialista não fossem inquinados pelo mal imperialista e capitalista, mais valia matá-los!

Quando regressámos, tive a oportunidade de, em conversa com o professor Paulo Quintela, lhe dizer quanto aquela visão me aterrara. O velho senhor que conhecera bem a Alemanha de antes da guerra e que traduzia Brecht, Rilke ou Goethe com carinho e imenso cuidado, assegurou-me que aquilo, aquele condensado de maldade cairia como caíra o 3ª Reich. O tal que prometido para mil anos não conseguira cumprir uma escassa dúzia. A sua certeza confortou-me mas, na verdade, a coisa arrastou-se entre crime, vergonha e desprezo mais uns dúzia e meia de anos, caindo perante o aplauso de dezenas de milhares de berlinenses de leste em Novembro de 1989. Em boa verdade, o muro caiu porque a DDR era um cadáver político a quem Gorbatchov passou uma atrasada certidão de óbito. A DDR era um Estado tão ou mais fantoche do que o Vietnam do Sul. As multidões que de uma ponta à outra daquela caricatura de Alemanha saíam à rua todas as semanas gritando “wir sind das Volk“ (nós somos o povo) e desafiando a polícia anunciavam já aquele fim desastrado, aquele muro que ruiu de repente no meio da alegria popular.

50 anos depois ou quase lembrando a Martine, os dois John (big e little), o Martin, a Maria, a Fée e a Pia, o Zé Leal Loureiro o casalinho corso (de que só recordo o nome da Gabriela). o Zingarelli e a Ana as duas italianas do potere operaio e outros, muitos outros, tudo gente do Goethe Institut.