Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

12
Nov19

au bonheur des dames 416

d'oliveira

Unknown.jpeg

À Lagardere

 

mcr 11.11.19

 

Duvido bem que a maioria dos meus leitores tenha algum vez lido Paul Féval, um cavalheiro francês (sec XIX) que, com Ponson du Terrail (outro da mesma nacionalidade e da mesma matriz literária), escreveu romances de capa e espada na senda de Alexandre Dumas. Féval tinha um herói, o jovem Lagardere, espadachim emérito que aliava a coragem, a virtude ee o encanto a um bote secreto com que vencia duelos tremendos.

Depois, sei lá porque razões começou a usar-se a expressão “à Lagardere” para referir ousadia (num primeiro tempo) e excesso de qualquer qualidade, finalmente.

Ora, eu, ainda que sem especial vontade, vou voltar a referir-me uma vez mais à sr.ª dr.ª Joacine Moreira deputada do Livre (ou será o Livre que é o grupo de Moreira?) que tem ocupado excessivamente as páginas dos jornais. E não pelos melhores motivos, convenhamos. A polémica instalou-se pelas más razões, desde a gaguez da personagem até à cor de pele brandida como arma de arremesso pelos seus partidários (a começar pelo sr. dr. Rui Tavares) que carregou nessa tecla juntamente com a da condição de mulher como se isso fosse uma panaceia para o parlamento. Não é o facto de ser mulher, mesmo negra (como ele insistiu e ela se conformou com inegável à vontade ), que faz um bom deputado/a. E nem sequer como símbolo isso parece valioso num país que, com todos os seus defeitos (e são muitos) já elegeu gente de “cor” (pudica expressão para dizer preto que, pelos vistos é muito pior do que negro) e até tem no seu Governo uma mulher negra (ou preta) e um 1º Ministro com sangue indiano.

Portugal mesmo sem recorrermos ao estafado luso-tropicalismo, encheu-se de negros (escravos) desde o século XVI, de mulatos e governou colónias onde estes foram, em quase todos os casos, os executantes subalternos da política colonial e imperial. No Alto Alentejo subsistiram durante centenas de anos grupos fortemente mestiçados para ali levados para os trabalhos agrícolas e se, agora, são menos visíveis foi porque abandonaram a zona e se cruzaram com “brancos” nas zonas de imigração interna para onde se deslocaram.

E onde é que entra a sr.ª deputada Joacine? Entra, precisamente, com uma versão modificada da espadeirada à Lagardere. Ou seja, ganhará sempre todas as discussões recorrendo ao argumento “atacam-me porque sou negra, mulher e gaga”. Perguntam-lhe alhos e ela responde que é negra. Perguntam-lhe bugalhos e retorque que é gaga (“de fala mas não de cabeça”, sic). À questão dos negalhos dirá que só lhe falam disso porque é mulher. E assim, sucessivamente.

Todavia, as questões que se puseram em relação a esta senhora não são assim tão inconvenientes. A gaguez é mesmo um senão, uma barreira à discussão no parlamento. Darem-lhe mais tempo, benefício que não discuto e a que, muito menos, me oponho, pode ser uma prova desagradável de condescendência e não o reconhecimento de um direito. De todo o modo, sozinha como está e com a limitação de direitos que também recai nos outros dois deputados igualmente sós, temos que mais minuto menos minuto em pouco modificará a discussão na AR.

E, já agora, o problema da gaguez não perpassou sequer ao de leve, pelas cabecinhas iluminadas dos dirigentes do Livre? Não acharam (e muito menos entenderam) que, mesmo sem assessor espampanante de saia de pregas e meia verde bandeira, era complicada a sua acção no parlamento?

É que, para um espectador distraído, poderá surgir a tentação de pensar que a cor d pele é apenas um truque para mostrar a “diferença” mesmo se isso não tem cobertura política e/ou ideológica! E se for assim, e bem que o pode ser, impõe-se uma grave conclusão: a cidadã Joacine chega ao parlamento não por ela própria mas pelo sexo, pela cor de pele e, eventualmente, pelo seu problema de locução. Um truque, um expediente uma vigarice (para usar uma expressão posta em moda politicamente pelo sr. deputado Rui Rio).  

Não sei se nisto tudo ela é actriz ou meramente vítima. Seja como for, ha aqui algo que cheira a expediente eleitoral e a uso e abuso de diferenças de sexo, e de cor.

E é pena porquanto uma voz (mais uma) feminina pode sempre tornar o parlamento mais abrangente, mais curioso mais interventivo.

 

 

10
Nov19

au bonheur des dames 415

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

“Lonely Woman”

mcr, 10.11.19

 

Permito-me recordar um belíssimo tema do grande grupo Modern Jazz Quartet (John Lewis, Connie Kay, Percy Heath e Milt Jackson –piano, bateria, contrabaixo e vibrafone). A música, porem deve-se a Ornette Colleman, um saxofonista rebelde mas genial. E tanto ou tão pouco que o álbum do MJQ que contem esta composição intitula-se justamente “lonely woman” e tem uma capa lindíssima que adorna a gravura deste folhetim.

De todo o modo, não é do MJQ que pretendo escrever mas, roubar o título ,para apenas falar da jovem mulher de 22 anos, cabo-verdiana e imigrante, provavelmente pouco alfabetizada que vivia nas ruas de Lisboa como sem abrigo. Junte-se a isso uma gravidez provavelmente indesejada e o abandono do alegado pai da criança.

Não pretendo dizer que a tentativa de homicídio tenha justificação, sou infelizmente um vago jurista não praticante, imbuído todavia dos preceitos inculcados pela Faculdade e pela ética que bebi desde menino.

De todo o modo, se a mulher jovem e ignorante tivesse ido a uma abortadeira (que ainda as há) ou, caso mais difícil, tivesse abortado legalmente num hospital (pressupondo que encontraria um médico que não levantasse a famosa objecção de consciência) onde estava o crime?

Alguém, aí desse lado das leitoras e leitores que, com infinita paciência, me aturam poderá explicar-me?

Eu sei que andam por aí subtis distinções entre feto e recém nascido (que reconheço do alto da minha idade, meio social, classe, cultura e educação mas que não funcionam da mesma maneira para uma jovem, pobre, miserável mesmo, só e abandonada numa terra estrangeira e não tão afável como a propaganda tenta fazer-nos acreditar) mas que quer isso dizer perante o caso concreto?

Temendo irritar-me mais do que me apetece, não li, não ouvi os comentadores jornalísticos e televisivos que, pelos vistos não largam a notícia. Sei, tão só que a rapariga está preventivamente presa o que, dado o seu passado próximo, até pode ser um alívio. Tem um teto e três refeições quente por dia o que, para um sem abrigo em fins de Outono numa Lisboa onde chove que Deus a dá, pode ser um “upgrade” (estamos em época boquiaberta por uma coisa chamada web summit que pelos vistos nos vai pôr no cume do progresso tecnológico e na vanguarda da ciência) de certa importância.

Todavia, apesar da minha pouca atenção aos oráculos que pululam pela tv e um pouco pelos jornais, não tive eco de um pouco de dó, de compreensão, de caridade no caso em apreço. Pelos vistos, todos acham que a pobre criatura é uma homicida fria e desapiedada.

Entretanto, um recém nascido, mesmo mulato parece despertar o interesse de demasiada gente, incluindo (e é melhor aspecto) adoptantes. Um bebé de dias é um must mesmo se andam por aí, e mal, centenas de crianças que hão de crescer em instituições frias longe dos focos da comoção pública. Fosse eu mais novo, mais experiente da coisa jurídica e vivesse em Lisboa, já me teria oferecido para defender essa mulher só, terrivelmente só.

(em tempo: estou obviamente disposto a contribuir com algum dinheiro para ajudar a acusada. Assim eu saiba como e a quem o entregar.

 

 

06
Nov19

au bonheur des dames 414

d'oliveira

2019081301085347490.jpg

Em Berlin, espantado

mcr 5.11.19

 

Foi em 1970, entre Outubro e Dezembro. A minha mulher, estudante de Germânicas, entendeu (e bem!) que uma estadia na Alemanha ajudaria em muito o seu alemão. Nada como a imersão total numa língua para a aprender (e apreender). Os meus mais que generosos sogros propuseram-me que também fosse e que, igualmente, frequentasse o Goethe Institut, se bem que num grau inferior ao da    Maria João. Claro que aceitei sem qualquer hesitação. Acabara o curso de Direito e o 6º ano (curso complementar de ciências jurídicas) podia esperar. De facto, boa parte dos benefícios dessa formação extra nunca me tocariam. Destinava-me à advocacia, não por vocação mas apenas porque com uma informação política altamente desfavorável nunca entraria nos quadros da magistratura ou da diplomacia. Numa palavra, o funcionalismo público estava-me vedado. Só me inscrevi por mero desafio a um passado académico aos altos e baixos e tentando provar a mim mesmo que era capaz. E, em boa verdade, logo em Fevereiro desse ano, voltei a ser preso e estagiei mais uma temporada em Caxias num quartinho com vista para a estrada e para o rio (ao menos isso, pensei quando me vi naquele cubículo minúsculo espartanamente mobilado. De todo o modo, não perdi totalmente o meu tempo, pois foi aí que li, em traduções publicadas pela “Livros do Brasil” , o Proust e o Joyce. Nem me dei conta, no caso do segundo, das famosas dificuldades daquela leitura. Na cadeia, julgo eu com um saber todo feito de experiências várias, até a literatura inclusa nas embalagens de remédios serve. De todo o modo, fiquei com imenso respeito pelo Ulisses e com um a recordação agridoce do meu homónimo Marcel.

Deixemos esta (costumeira e viciosa) deriva e voltemos a Berlin. A Berlin e ao omnipresente muro. Em Wedding, onde era a nossa residência universitária (eine Gefängniss, segundo os nossos novos amigos alemães, ébrios de liberdade por contraposição aos do “outro lado) víamos o muro de cada vez que rumávamos ao centro. Aliás, depressa o começámos a atravessar não só porque havia uma imensidade de extraordinários museu a visitar em Mitte, o velho centro da cidade, mas porque com o cambio contrabandista dos marcos ocidentais por orientais (1 por 4) comia-se barato num restaurante chamado Linden Corso.

A passagem do muro era algo de épico. Não só o carro teria de ir livre de tudo e mais alguma coisa, incluindo imprensa (um dia houve em que “Le Monde” trazia uma reportagem mais do que generosa sobre a DDR apelidando-a de “Dinamarca dos países socialistas” (!!!), exagero estrondoso sobre um país artificial onde faltava quase tudo e sobre uma cidade que em comparação com o sector ocidental parecia mais atrasada do que a Figueira dos anos quarenta. Pois nem esse exemplar laudatório mereceu um salvo conduto e tivemos de o ir de guardar na sentinela americana que nos achou tolamente ingénuos) mas nós teríamos de suportar uma forte inspecção além de sermos obrigados a cambiar cinco marcos ocidentais por igual quantia oriental. Felizmente, nunca nos apanharam o dinheiro leste-alemão trocado nos esconsos da estação de Zoo Garten.

A cidade, do outro lado, era desoladora. A única vantagem era o trânsito ralo e, em boa parte, alimentado por automóveis de turistas como nós. No resto, incluindo a entrada no complexo de restaurante onde íamos, havia um permanente cheiro a couve fermentada ou algo do mesmo género. A arquitectura era deprimente, mesmo na Leninplatze ou na Karl Marx Allee. Na primeira, num bar que deveria querer parecer sofisticado, vimos prostitutas. Um turco, meu colega e admirador de Nazim Hikmet (e isto já diz tudo) nem queria acreditar e suspirava desalentado “Demokratie, Demokratie...” A francesa Martine, vinda do peuple de gauche foi definitiva: “isto é que é o social fascismo”, e, mesmo que historicamente não tivesse razão, de facto, aquilo não era mais do que isso. Uma ditadura protegida por meio milhão de soldados russos, um muro homicida, uma Stasi omnipresente e duzentos mil bufos regulares. No outro lado, poderia estar, e estava, o capitalismo mais auto-publicitado, a imprensa Springer, o luxo inaudito das grandes marcas ou da grande distribuição (o Ka De Ve, Kaufhaus des Westen) um luxo em plena “Kudamm” mas estava também a contestação do sistema, os Kindergarten, as livrarias onde havia publicações de todo o mundo, incluindo do Leste (por exemplo Wolf Biermann que seria expulso da RDA). Mas a liberdade estava passar por lá mesmo se a Rote Armee Fraktion fosse duramente combatida ou Rudi Dutschke alvo de atentado. No pequeno cineclube Arsenal vi alguns dos melhores e mais bem conseguidos filmes políticos que se fizeram a par de grandes clássicos do cinema, uma e outra vez repetidos para gozo de multidões de cinéfilos. Nem vale a pena falar da música ou das exposições de artes plásticas se bem que date daí o meu primeiro contacto com a gravura japonesa o ukiyo-o. Berlin, cercada por um muro infame, grotesco e homicida, resistia como antes conseguira ultrapassar o bloqueio.

Nós, ficávamos estarrecidos com a explicação oficial das autoridades da RDA: o muro protegia a parte oriental e sã da agressão imperialista. E por isso urgia matar quem do leste se dispusesse a atravessá-lo. Para que os cidadãos do regime dito socialista não fossem inquinados pelo mal imperialista e capitalista, mais valia matá-los!

Quando regressámos, tive a oportunidade de, em conversa com o professor Paulo Quintela, lhe dizer quanto aquela visão me aterrara. O velho senhor que conhecera bem a Alemanha de antes da guerra e que traduzia Brecht, Rilke ou Goethe com carinho e imenso cuidado, assegurou-me que aquilo, aquele condensado de maldade cairia como caíra o 3ª Reich. O tal que prometido para mil anos não conseguira cumprir uma escassa dúzia. A sua certeza confortou-me mas, na verdade, a coisa arrastou-se entre crime, vergonha e desprezo mais uns dúzia e meia de anos, caindo perante o aplauso de dezenas de milhares de berlinenses de leste em Novembro de 1989. Em boa verdade, o muro caiu porque a DDR era um cadáver político a quem Gorbatchov passou uma atrasada certidão de óbito. A DDR era um Estado tão ou mais fantoche do que o Vietnam do Sul. As multidões que de uma ponta à outra daquela caricatura de Alemanha saíam à rua todas as semanas gritando “wir sind das Volk“ (nós somos o povo) e desafiando a polícia anunciavam já aquele fim desastrado, aquele muro que ruiu de repente no meio da alegria popular.

50 anos depois ou quase lembrando a Martine, os dois John (big e little), o Martin, a Maria, a Fée e a Pia, o Zé Leal Loureiro o casalinho corso (de que só recordo o nome da Gabriela). o Zingarelli e a Ana as duas italianas do potere operaio e outros, muitos outros, tudo gente do Goethe Institut. 

25
Out19

au bonheur des dames 413

d'oliveira

Unknown.jpeg

Retrato a sépia de um país à beira da resignação

mcr 24.10.19

 

Estas eleições recentes e os dias que se lhe seguiram deixam em quem vive diariamente o país por cuja dignidade (e dignificação) lutou em tempos sombrios um laivo de amargura que não se desvanece mesmo se, por vezes, haja pormenores que não podem ser levados a sério.

Comecemos por aquela senhora candidata do PAN que numa entrevista parecia incapaz de explicar o programa do partido. Não pela eventual complexidade do mesmo mas porque, pura e simplesmente, dava a ideia de não o ter lido.

Os espectadores viam-na rir-se tontamente e não acreditavam no deprimente espectáculo a que assistiam. O povo generoso e ignorante tê-la-á premiado elegendo-a.

A senhora “coordenadora” do Bloco de Esquerda afirmou sem se rir que o BE não tinha sido derrotado. À uma porque conservava o mesmo número de deputados. Depois, porque, segundo ela, em vários círculos a percentagem de votos na sua formação teria aumentado.

Ou seja, cinquenta mil votos a menos significam nada!

Haja quem explique à boa senhora que aumentar a percentagem quando o quadro é de aumento da abstenção pode nada significar. Basta saber alguma matemática, ter uma pequeníssima noção de estatística e, sobretudo –sobretudo- não querer atirar areia para os olhos dos portugueses.

O BE e o PCP, outro perdedor claro (100.000 votos!) parece quererem transmitir ao público a ideia de que foram eles que impediram a maioria absoluta do PS. Obviamente não impediram nada tanto mais que os votos a mais do PS vieram provavelmente das perdas que eles registaram.

O PPD/PSD disparou em todas as direcções para justificar uma claríssima derrota. Se é verdade que os quezílias internas ajudaram à festa, não menos verdade é que o percurso errático de Rio não suscitou qualquer espécie de entusiasmo nos eleitores potenciais que, eventualmente transferiram votos certos no partido para a vitoriosa Iniciativa Liberal e para a calamitosa Aliança do dr. Santana Lopes, um homem sem norte que já merecia uma tranquila velhice na reforma. Ao que parece, a criatura nunca mais se candidatará ao Parlamento. Em boa verdade, eleições só haverá eventualmente daqui a quatro anos pelo que todos os cenários são possíveis, desde o da Aliança já não existir (se é que actualmente existe...) ou de uma morte indesejada mas misericordiosa acompanhar a morte política do cavalheiro.

O PCP é de certo modo o retrato de um país envelhecido. Cada idoso que desaparece é, eventualmente, um eleitor a menos. Como a natalidade é o que se sabe, o “partido” enfraquece. E vê, aterrado, como os seus homólogos por esse mundo fora, desapareceram sem que se verificassem grandes prantos ou algumas saudades.

É verdade que a China, a Coreia do Norte e Cuba andam por aí. A primeira leva a cabo uma política de expansionismo capitalista que choca com os EUA. Qualquer milionário chinês que se preze é membro do PCC e até no comité central há muitos exemplos disso. Convenhamos que, mesmo se a ditadura permanece, o proletariado já foi.

Na Coreia é o que se sabe: uma dinastia instalou-se no poder de pai para filho, deste para o neto e não se vê nesta curiosa história de terror instalado e bombas atómicas em fabrico nada que nos recorde Marx, sequer Lenine ou mesmo Mao. (só o “nosso” “partidão” não o vê mas isso é pura cegueira devida ao autismo e à idade avançada)

Aliás um bom retrato deste PCP foi-nos indiscretamente dado pela televisão a propósito de uma reunião de quadros no Porto. Uma sala não demasiado grande cheia de cabeças brancas!

O PS apresentou um Governo a que só por cortesia se pode chamar “novo”. Desapareceram os laços familiares. Por um lado, Vieira da Silva deve ter achado que os seus 66 anos lhe dão direito à reforma enquanto Cabrita, um ministro tão discreto que as pessoas perguntam para que serve, vê com evidente desgosto e redobrado azedume despedirem-lhe a esposa amada.

Em boa verdade, Ana Paula Vitorino era dez vezes melhor do que o cônjuge e deixa, mesmo que algumas críticas se lhe possam ser dirigidas, obra importante.

Porque é que a defenestraram? Ou o simples facto de o marido ser um velho e próximo compincha do Primeiro Ministro pesou na escolha desta espécie de sentença salomónica e, aliás, muito tradicional por cá. (à mulher a casa, ao homem a praça).

É verdade que Cabrita debitou nas redes sociais um comentário furibundo. Não se demitiu claro. E, mais surpreendente ainda, ninguém o demite! Mesmo quando a criatura põe em causa a formação do Governo!...

Ninguém consegue explicar a manutenção da Ministra da Saúde. Marta Temido parece imune ao desastre do SNS. Ainda por cima, tem uma péssima presença na comunicação social e uma confrangedora falta de argumentos.

Também ninguém consegue entender a permanência da dr.ª Graça Fonseca ao volante da Cultura. Ou entende-se demasiado bem porque lá está, mesmo sem se recorrer à absoluta fidelidade ao Primeiro Ministro. Também nunca se entendeu como é que a senhora chegou ao poderoso coração do partido. O PS é useiro e vezeiro em mistérios destes quando toca ao Ministério da Cultura. João Soares, Manuel Maria Carrilho ou Luís Filipe Castro Mendes para só falar nestes (e esquecendo a srª Canavilhas outra miragem) tem aqui uma digna sucessora. Só que mais ignorante...

A cereja no topo do bolo é o número desconforme de ministros e secretários de Estado. 19+50, eis algo que desafia a imaginação sobretudo se pensarmos que todas estas luminárias teráo assessores nos seus gabinetes. Depois, perdoem se me engano, ainda ninguém conseguiu explicar onde começam e onde acabam as competências reais e a possibilidade de agir, de uma boa dezena de Secretários de Estado que gerem áreas próximas, as mais das vezes secantes. Os conflitos surgirão. Ou então nada se passará porque nada se poderá coordenar com tempo, eficácia e baixo custo.

(uma amiga minha, demasiado à esquerda para meu gosto mas inteligente e sardónica q.b., jura que havia que premiar um ror de pessoas. Um cargo no Governo pode não ser muito gratificante do ponto de vita financeiro mas dá currículo hipóteses de futuro no privado, no semi-privado e no semi-público.

Não vale a pena referir dois senhores juízes no Governo. Os denunciantes da judicialização da política bem que se podiam entreter na doméstica politização da judicatura... E os sindicatos & restante comandita dos magistrados nada dizem! É obra!

Convicto de que nasceu para salvador do mundo, o dr. Rio vai à luta. E promete gerir a bancada parlamentar até ao congresso do partido. Mesmo para quem, como eu, que nunca passou nenhuma certidão de óbito ao ex-presidente da Câmara do Porto e sempre o considerou resiliente (abominável palavra!) ou meramente teimoso, há que considerar que Rio é presunçoso (“aprés moi le deluge) até dizer basta. Não admira que tenha criado anticorpos em quantidade (já em qualidade é mais duvidoso...).

No CDS em vez de dilúvio temos o deserto a perder de vista. Ninguém se chega à frente! Ainda acabaremos de ver o senhor Manuel Monteiro (coveiro dos centristas noutros tempos) a candidatar-se.

Convenhamos que seria divertido se não fosse também um retrato a sépia de um país exausto.

 

 

10
Out19

Au bonheur des dames 412

d'oliveira

images.jpeg

13 anos depois!

mcr 10.10.19

 

Mais precisamente, 13 anos, cinco meses menos um dia. Eu explico. Em 11 de Maio de 2006, neste espaço livre chamado “incursões” escrevi na edição 24 de “estes dias que passam”, umas linhas sobre uma sacanice mesquinha perpetrada pela “Comédie Française”. De facto, uma peça de Peter Handke que estava a ser preparada para levar à cena foi desprogramada pela direcção do teatro (um teatro nacional, note-se) porque o autor tinha estado presente no funeral de Milosevic, um antigo chefe de Estado da Sérvia e valente filho da puta.

Eu sempre entendi que uma coisa é a obra (literária, pictórica ou musical, etc) e outra é alguma eventual posição política, moral do respectivo autor. Caravaggio não era companhia recomendável, como também o não era Villon ou, neste século, Céline ou Pound. Todavia eram, são, serão exemplos ímpares de grandes criadores e a sua memória persistirá muito mais tempo do que os politicamente correctos que apontam o dedinho inquisidor e denunciam as ideias, os costumes, as atitudes ou ate o pensamento de um qualquer outro indivíduo.

E, sobretudo, sou contra qualquer espécie de censura artística que em vez de criticar o objeto critica o autor ou outras circunstâncias mais ou menos conexas.

Handke, dizia eu (e quem quiser pode ir até ao dia e data anunciados (11.5.2006, pag 11) e ler o que então entendi escrever.

Lembro-me, como se fosse hoje, que terei pensado que Handke nunca receberia o “Nobel” justamente porque a bem-pensância o identificaria com um tiranete. Por muito menos Borges, o admirável Jorge Luís Borges, foi proscrito das listas dos nobelizáveis. Borges, dizia-se, era a favor dos generais argentinos. Por junto, o escritor congratulara-se com a queda dos peronistas (aliás tão corruptos e tão anti-democráticos como os militares mesmo se matassem infinitamente menos), Isso bastara para o confundirem com os meliantes militares argentinos. Convirá notar que alguns dos que criticavam as Juntas militares babavam-se de admiração perante Fidel de Castro, os coreanos e outro autênticos democratas progressistas que “reeducavam” os opositores nos gulags do costume...

Afinal, treze longos anos depois, eis que o Nobel lhe cai no regaço. Valeu a pena não ter morrido, ao fim e ao cabo, Handke é da minha idade, uns meses mais novo e já poderia estar num pacífico cemitério a fazer tijolo. Mas o homem é resistente e a nova composição da Academia sueca lá terá entendido que não pode estar sempre a descobrir talentos desconhecidos de quase toda a gente.

Este prémio é merecidíssimo, Handke é um escritor notabilíssimo, tem inclusive alguns livros traduzidos em português (devem estar esgotados mas seguramente podem encontrar-se nos alfarrabistas) e, por outro lado, este gesto dos suecos é um bofetão de luva branca na gentinha da “Comédie...”

Aliás, provavelmente já nem sequer por lá andam os censores de 2006 que a lei da vida (e da morte) também se aplica em Paris.

 

....

um breve parágrafo para lembrar que Chico Buarque é o “prémio Camões ” deste ano. Prémio justo sobretudo se lembrarmos o autor de uns centos de canções de alta qualidade poética. Conheço pior os romances mas os textos das canções que me vem acompanhando há mais de quarenta anos bastam pra felicitar o júri.

Parece que o sr. Bolsonaro, cujas qualidades intelectuais são assaz conhecida,s está “aborrecido”. Chico não é criatura da sua privança (como alguém, um duque, parece-me, terá dito a Franco “es que hay clases...”) e terá amigos duvidosos. Mais uma vez aqui se lembra que ser amigo de Lula não estraga a qualidade do poema “Construção” e que a falta de assinatura de Bolsonaro no documento que concede o prémio torna este muito mais valioso. Há assinaturas que destroem uma reputação ou uma declaração.

Resta saber se Bolsonaro sabe escrever o seu nome todo e não se engana nalgumas letras...

Força, capitão Bolsonaro, não assine, por favor, não assine...

 

* na ilustação: a extraordinária "Descida da Cruz" do enorme Caravaggio

19
Set19

Au bonheur des dames 411

d'oliveira

proletarios_unidos.jpg

As palavras também valem politicamente

mcr  19.09.19

 

Ando nisto há demasiados anos, e se o faço agora com passos mais curtos, paragens mais frequentes e percursos menos longos, nem por isso olho para o mundo com menor curiosidade e, ai de mim!, com menor indignação. Comovo-me e zango-me com a mesma antiga frequência mesmo se os motivos para tal se tenham alargado à medida que fui tendo mais mundo.

Ao mesmo tempo, outro sinal de afastamento da juventude, foi diminuindo o meu entusiasmo e arrefecendo a minha atracção pela novidade. Nem tudo o que reluz ao sol do meio dia tem luz própria e o oiro da surpresa é muitas vezes mera purpurina.

Vem tudo isto a propósito das próximas eleições legislativas e da desenfreada conversata de jornais e candidatos (qual deles o mais prolixo) sobre os benefícios do voto nas suas listas.

Pelos vistos estamos num combate onde vale tudo. Nalguns casos a coisa começou há mais de um ano. Quem não se lembra daquele ministro patusco que anunciou num espaço de escassas semanas uma catarata de investimentos do Estado em tudo o que mexia, com especial incidência para a ferrovia que está num estado catatónico? A criatura foi mandada para a Europa para eventualmente ocupar um lugarzinho de comissário. Não contavam os seus patrões que, apesar de tudo, na Comissão Europeia ainda há critérios e, finalmente, foi Elisa Ferreira a escolhida. (por acaso, ou talvez não, logo apareceram vozes alvissareiras a uivar que com Elisa no poder ia ser um regabofe para o país pedinchão. Esqueciam-se as criaturas que, justamente por lhe caber um pelouro de que Portugal é grande beneficiário, todos os cuidados serão poucos. Elisa terá de ponderar criteriosamente cada solicitação nacional. Os comissários não são embaixadores dos seus países mas membros de uma estrutura que representa todos).

Deixemos, porém, aquele político de via reduzida e passemos a algumas afirmações da campanha. O primeiro prémio vai sem dificuldade para Catarina Martins que afirmou, com a sua habitual candura, que o Bloco era social-democrata! Assim, a secas...

Eu não sei se a distinta senhora terá alguma vez manifestado qualquer espécie de curiosidade sobre a história pregressa do socialismo. Não sei sequer se, alguma vez, sobrecarregou a sua cabecinha com os chamados textos fundadores e diferenciadores dos socialismos que por aí vicejam, permanecem, murcham ou vegetam. Nem sequer a vou importunar com as querelas que atravessaram as duas primeiras Internacionais em que se agigantam os primeiros grandes revolucionários, depois elididos por Marx que os combateu asperamente, com o crescimento da social-democracia alemã (e aqui Bernstein e Kautsky, “o renegado” são imprescindíveis) com o corte brutal da 3ª Internacional, a de Lenin e amigos, que cindiu definitivamente o “movimento operário” e se cindiu a si própria dezenas de vezes quando não eliminou fisicamente e em atroz quantidade milhões de pessoas e dezenas de milhares dos seus mais devotados apóstolos e aqui mereceriam destaque os membros dos comités centrais do PCb (bolchevique) e posteriormente do PCUS bem como a esmagadora maioria dos elementos do Komintern, dos revolucionários profissionais despachados de Moscovo para a restante Europa e Ásia, que acabaram praticamente todos diante de pelotões de fuzilamento ou no gulag. A história do pai ou do avô do Bloco seja em que variante fundadora for (trotskista, maoísta ou dissidente do pcp) é a crónica de uma permanente, visceral, animosidade contra a social democracia.

É verdade que, nestas coisas, que à falta de melhor, chamaremos “os restos do marxismo-leninismo” todas as cambalhotas foram dadas, todas as palavras subvertidas e todos os princípios reinterpretados segundo as conveniências do momento.

O BE nasceu de uma aliança de pequenas formações que tiveram a clarividência de perceber que (excepção feita da UDP) sozinhas nunca sairiam da cepa torta e que o juntar-se numa proto-geringonça surpreendente por muito que isso fosse aberrante havia uma forte possibilidade de chegar ao Parlamento. O que aconteceu: a sua massa eleitoral, urbana, educada e órfã de partido poderá não ter importância sindical, não tocar senão ao de leve as estruturas autárquicas, não arrastar massas proletárias, mas, nos grandes meios urbanos, dá-lhe a força suficiente para eleger um grupo parlamentar. Para tal bastou acenar com causas fracturantes o que é sempre rentável e envolver o resto num discurso radical apelando à perdida unidade do campo revolucionário. A mítica unidade que nunca existiu (basta lembrar os ataques de Marx a Proudhon, a Bakunin e mais uns tantos na 1ª Internacional) e que foi esmagada com as famosas 21 condições de adesão à 3ª Internacional (Komintern). E os partidos comunistas também nunca foram exemplos de unidade ou, pelo menos, as exclusões, a condenação e a liquidação maciça de dirigentes e militantes (na URSS mas também em Espanha durante a guerra civil ou ainda na URSS entre as comunidades comunistas estrangeiras aí refugiadas e posteriormente nos países de leste satelizados por Moscovo) mostram à evidência que a luta ideológica (que também escondia luta pelo poder) ia “purificando” o partido libertando-o de inimigos verdadeiros ou imaginários e convertendo-o numa organização de funcionários cada vez menos criativos e, sobretudo menos eficientes na governação e direcção dos respectivos países. Os dramáticos anos 80 que viram o desaparecimento da URSS, de todas as “democracias populares” europeias, as mais das vezes de forma pacífica (excluem-se a Albânia e a Roménia curiosamente arredadas da esfera próxima do Kremlin bem como a posterior implosão da Jugoslávia, uma criação de Tito que não resistiu ao desaparecimento dele. E não se consideram o Afeganistão, uma aberração ou o Cambodja onde a revolução comunista se traduziu no genocídio.) mostraram como um sistema cai de podre perante a indiferença dos cidadãos ou o seu activo repúdio (DDR e Polónia).

Todavia, o sentimento de orfandade de alguma esquerda, sobretudo da que embarcara na “doença infantil”, foi suficientemente mobilizador para fazer nascer o BE. Ali estava, pensou-se, algo de novo, de diferente do PC enquistado no Alentejo e nas zonas industriais de Setúbal e Lisboa, afastado do poder pelo cordão sanitário dos partidos do arco da governação. E, além do mais, envelhecido e dogmático...

O BE ao apresentar-se à sociedade, trazia um ar de juventude e de ousadia e garantia a potenciais votantes que aquilo nunca seria como o PC. E não era, e não foi. Não penetrou nas tradicionais zonas de influencia comunista e não conseguiu criar raízes sindicais ou autárquicas. A geringonça foi uma bênção que lhe caiu no regaço mesmo se a ideia e a proposta tenham vindo do PC. O BE naquele pacto só trazia os seus deputados, necessários para formara maioria parlamentar e votar o Orçamento. Em boa verdade, cumpriram a parte deles e, pela primeira vez cheiraram o doce perfume do poder. E verificaram, porventura surpreendidos, que o PS, que deles dependeu durante estes quatro anos, pretende uma maioria absoluta que o liberte de parceiros que pouco ou nada tem a ver consigo. É este o sentido último da proclamação de amor pela social democracia. Só lhes falta revelar uma súbita paixão pelo euro e defenderem intransigentemente a pertença de Portugal na União Europeia. Esperei alguns dias por um eventual sobressalto nas hostes do Bloco onde, volta e meia, aparecem uns militantes desalinhados a acusar a direcção de abastardamento dos princípios. Surpresa: nada! Será que a ânsia de duas Secretarias de Estado levaram tudo de vencida? Ou, contra as sondagens (aliás sempre falíveis) o BE confia na alegada desconfiança do eleitorado que, juram alguns comentadores, detesta as maiorias absolutas. Em boa verdade já houve três e nada faz pensar que não possa haver mais...

Já gastei demasiada cera com tão ruim defunto. É hora de olhar para o último prodígio parlamentar, o PAN. Em boa verdade ainda não havia um partido ecologista no areópago. “Andam por lá, ao colo do PC, umas criaturas que se são verdes por fora, são vermelhinhas por dentro e votam sempre ao lado do padrinho que lhes abriu a porta de S Bento. Terá sido por isso que m punhado de animosas criaturas entendeu fundar o “Pessoas, Animais e Natureza”. Demasiada areia para uma só camioneta mas como dizia o Vadinho “impossíveis não há!”. Não sei se foi o efeito novidade ou se, de facto anda por aí uma multidão ansiosa por mudar o mundo (e eventualmente a vida, como em tempos presunçosos mas juvenilmente sinceros, alguns sonhámos). A verdade é que o partido chegou ao parlamento, à Europa e caracola nas sondagens . Há, todavia, um pequeno problema. O seu cabeça de cartaz em saindo do estreito campo da ecologia não acerta uma para a caixa. Além de impreparação, de per si grave, anda por ali muita ignorância. Política e não só. A economia, a cultura, a sociedade parecem ser (para não parecer indelicado) conhecidos vagos e de fresca data. E tirando os animais até as pessoas parecem uns vagos fantasmas. Chega-se a pensar que o tema pessoas incomoda como aliás do mesmo parece padecer a Natureza. Eu não sei onde está a base eleitoral deste jovem partido mas de tudo o que ouvi julguei entrever que a natureza por eles pintada é mais cenário do que realidade. Há anos que acompanho as peripécias dos verdes europeus, mormente franceses e alemães e depois do qu observei pemso que é urgente uma visita prolongada dessa malta ao nosso pequeno canto. Ou pelo menos mandem um treinador ao PAN e que seja mais feliz do que o senhor Keiser ao Sporting. Doutro modo, até a senhora Apolónia parece o prémio Nobel comparada com o esforçado senhor Silva. Mal comparado, o PAN é uma caricatura primitiva da conferencia de S Vicente de Paula da ecologia...convenhamos que por mais generosas que sejam as vontades, aquilo é pouco, muito pouco. Ganha votos porque é uma espécie de menor denominador comum da política. E não ofende ninguém, sequer os amigos das touradas ou os caçadores.. Estes, como os pássaros, já perceberam que o PAN é apenas um espantalho desengonçado no meio da seara.

(para ser “justo” eu deveria debruçar-me sobre alguns surpreendentes e novos partidos da Direita, a Aliança ou o Chega, por exemplo. Em boa verdade, do partido do dr. Santana Lopes basta lembrar este fantasmático cavalheiro que “anda sempre por aí” para logo se desvanecerem quaisquer dúvidas. Ninguém percebeu os motivos do abandono do PSD mesmo se toda a gente já estivesse habituada aos seus malabarismos circenses. Quanto ao outro ajuntamento, fora uns slogans radicais e racistas, nada indica que venha a fazer mossa nos resultados eleitorais. O mesmo, aliás, se augura para o grupo do dr. Marinho e Pinto. Aquilo, ideologicamente, é nada, faz nada, e não merece sequer mais que quatro palavras: estrelinha que o guie!...).

 

29
Ago19

Au bonheur des dames 409

d'oliveira

Unknown.jpeg

Coincidências, demasiadas coincidências....

mcr 29.Ago.19

 

O Ministério Público terá anunciado que iria requerer a dissolução do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas por, na sua Assembleia Constituinte, ter participado uma pessoa que “não é trabalhador por conta de outrem”.

Vale a pena relembrar que o Sindicato está prestes a fazer um ano, que os seus Estatutos foram aprovados por todas as entidades competentes e que, até hoje, tem funcionado sem que a sua legitimidade tenha sido minimamente posta em causa.

Duas greves depois, várias violações governamentais e patronais da lei da greve depois, muito barulho, pouca razão e a brutal constatação de que de facto o salário real (o que conta para efeitos de subsídio de doença e de reforma) é uma vergonha e uma afronta, eis que agora, frente à ameaça de uma nova greve (desta feita ao trabalho extraordinário) marcada para daqui a um par de semanas, é tirada da cartola anti-sindical mais outra repolhuda lebre: o sindicato é ilegal, não está conforme às leis em vigor e padece de vício absoluto pelo que só a sua dissolução pode trazer ao país, ao patronato e ao Governo a tranquilidade necessária e a paz social.

(vá lá que ainda não foi desta que se cercaram os grevistas e se ameaçou liquidar essaescumalha a tiro de canhão ou se prendeu toda essa multidão indisciplinada e se conduziu o bando para os porões dos navios de guerra estacionados no Tejo como em tempos d saudosa e democrática 1ª República ocorreu. O dr Salazar e a sua gente levavam a coisa com mais cuidado: iam prendendo pela madrugada, à hora do leiteiro, os mal pensantes, arreavam-lhes forte e feio, extorquiam as normais condfissões de pertencerem ao partido bolchevista e punham-nos a bom recato numa cadeia por uns anos. Outros tempos, pelos vistos saudosos...)

Desconheço quantas pessoas estariam na Assembleia Constituinte do Sindicato mas, pelos relatos e pelos documentos fotográficos existentes, havia ali gente que chegasse para criar um, dois talvez mesmo três sindicatos. Estar lá ou não alguém exterior ao universo de trabalhadores por conta de outrem só tiraria sentido à reunião se esse ET ou  o seu voto, ou a sua assinatura. fossem essenciais para o acto constitutivo.

Questão mais complexa será a de saber se na Direcção do sindicato cabem membros que não pertençam à profissão protegida. Que isto não é líquido basta o facto de ninguém (Ministério Público incluído – que, aliás, já se tinha pronunciado sobre outras questões legais mormente as relacionadas com a absurda requisição civil preventiva) ter questionado durante todo este empo a presença subversiva e perturbante de um agente do anti sindicalismo e da Constituição da República Portuguesa. Todavia, a presença tão tardiamente constatada dessa alma penada saída do 9º círculo do Inferno de Dante adquire agora o estatuto de ameaça que se atribuía – em vida – ao senhor Bin Laden.

(nota à margem: o mesmo Ministério Público ou o seu Conselho Consultivo demorou um dia para decidir da bondade da aplicação da requisição civil preventiva e já leva um larguíssimo par de semanas para saber se os os negócios de familiares de ministros com o Estado estão ou não dentro da lei... Por este caminho se parecer houver ele só aparecerá depois das eleições. E, mesmo nesse caso, das duas uma: ou é homologado e produz algum efeito ou nem isso. A homologação depende do 1º Ministro de um Governo que, pela voz de vários dos ministros e apoiantes tem qualificado a lei de absurda...)

Sobre a momentosa questão de saber se na Direcção de um sindicato, ou de qualquer outra estrutura sindical, regional ou nacional, pode estar alguém que na prática esteja por completo desligado da actividade, lembraria que são às dúzias, aos quarteirões, os sindicatos representados por sindicalistas cujo único emprego conhecido nos últimos, cinco, dez, vinte anos é o de dirigente sindical. A burocracia sindical das duas grandes confederações existentes está cheia deles e nunca vi alguém questionar estes, de facto, ex-trabalhadores que algumas vezes tem mais anos de actividade sindical do que de trabalho por conta de outrem.

Mas este é um território minado. Quero com isto dizer que, nos tristes tempos que correm, há operários bons e sindicatos bons e operários perversos e sindicatos malignos que só querem o mal de Portugal e dos Portugueses. As organizações patronais acarinham os primeiros, celebram acordos com eles (magros acordos, está bem de ver, mas acordos) e arrepelam-se à simples ideia de se sentarem à mesa com os díscolos, sejam eles enfermeiros, estivadores ou camionistas que transportam matérias perigosas.

Claro que isto não ocorre só no “torrãozinho de açúcar” pastoreado por Costa. Em França a história sindical está pejada de “sindicats-maison” e, muito recentemente nos Estados Unidos, uma empresa de capitais chineses que reergueu das ruínas uma fábrica de componentes auto numa das antigas capitais do automóvel já avisou os seus trabalhadores americanos que não permitirá a “entrada do sindicato”. O senhor Trump, tão defensor da America great again e tão crítico da Chin, está, neste capítulo, mais calado que uma ostra melancólica...

Não me vou atrever a afirmar que no cerne disto tudo está a figura baça do dr. Pardal Henriques que se tornou o espantalho de toda a boa consciência nacional. A criatura não me suscita qualquer espécie de simpatia mas incomoda-me pouco. Todavia, para certos tenores pífios da comunicação social e do “Comentariado” político, o homem é o diabo reencarnado em advogado gordo e óculos. Até o dr. Marques Mendes o elegeu como o “pior da semana” num dos seus melífluos sermões dominicais. Eu bem sei que a opinião de Marques Mendes vale o que vale e influencia quem influencia e pesa o que pesa. (Não é “professor Marcelo” quem quer mas apenas quem pode e Mendes pode muito pouco. Nunca se deve comparar um açor com uma galinha pedrês com vontade de voar).

Eu, quando vejo tantos assanharem-se contra um simples mortal, mesmo gordinho, mesmo de óculos grossos, mesmo atrevidote, desconfio. Quando a sanha parece atingir as instituições que nos deviam proteger e defender, relembro a celebre frase “qui custodiet ipsos custodies?”, que, no caso, se poderia traduzir “quem nos guarda dos nossos guardas?” Estou à vontade neste capítulo porquanto, quando tudo e todos se atiravam ao Ministério Público, eu, por aqui, várias vezes, tomei a sua defesa. Lamento muito, mas agora, a coisa parece-me demasiado política, demasiado inquisitorial para aceitar sem mais este aviso de acção contra um sindicato. Como se isso pretendesse dizer que é na praça pública que estas questões se julgam e que deste princípio de acção já saiu, pelo menos para a opinião pública, a condenação de perverso sindicato e do seu advogado. Convenhamos que para calar 1800 motoristas num universo que engloba mais de 30.000 anda por aqui muito fogo à peça, muito obus, muita metralhadora e muita, mas muita, raiva...

Arre!

*a ilustração: o Inferno de Dante

26
Ago19

au bonheur des dames 408

d'oliveira

Unknown.jpeg

Ai Zeca o que te querem fazer!

( ou: nem depois de morto os vampiros te largam!)

mcr 26.08.19

 

Conheci o Zeca Afonso logo que cheguei à faculdade, ou seja há quase sessenta anos. Na altura ele ainda andava no fado de Coimbra mesmo se já fosse fazendo incursões na balada. Recordo o meu pai, “coimbrinha” assanhado, antigo elemento da “república” Penúria Constante, ex-orfeonista ex-jogador de andebol na AAC, fadista ocasional e poeta oficial do seu curso, maravilhado com a Balada do Outono. Por altura de umas férias de Verão passadas em Moçambique, houve uma reunião dos “antigos estudantes de Coimbra” associação a que o meu pai, a par do bridge, devotava o seu tempo livre e o seu carinho, e eis que ele garganteou, com a sua bela voz de tenor do orfeão académico de Coimbra, a balada. Nesse momento, percebi que a geração mais antiga acolhia o Zeca entre os seus.

Todavia, a primeira vez em que falei a sério com o Zeca foi quando ele mostrou, muito em segredo, a um comum amigo, Jaime Magalhães Lima, e a mim as letras de “Os Vampiros” e (se não erro) “Menino do Bairro Negro”. Quando se é jovem, as amizades surdem com facilidade sobretudo se a admiração as sustenta. A partir dessa altura (1962) passei a encontra-lo com frequência e, depois do regresso dele de Moçambique, fui um dos privilegiados (com António Mendes de Abreu e João Nazaré) a quem ele entregava cópias de canções com receio de as perder ou de não se lembrar das letras quando cantava em Coimbra. (Uma das vezes em que isso sucedeu foi justamente nos jardins da AAC em plena crise de 69 em que ele com a generosidade infinita que o caracterizava apareceu para animar a malta. O António e o João cantaram-lhe o “coro da primavera” e eu murmurava as palavras pois desafino a qualquer velocidade, mesmo entre o dó e o ré. E o Zeca, entusiasmado ia-se recordando e dizia –juro – “ó pá isto não é nada mau!” ) Os seus discos eram por mim (e por muitos mais) comprados logo no dia em que chegavam à Casa Neves (em Coimbra) mercê de um acordo feito com um dos empregados da loja. Havia sempre o risco de serem proibidos e apreendidos. O último encontro importante que tivemos foi quando, em nome da delegação da SEC no Porto, o recebi no Auditório Nacional Carlos Alberto. Foi a primeira vez que um cantor de intervenção actuou num palco nacional (Logo se seguiram outros, obviamente). E lembro como se fosse hoje, uma ácida pergunta de um “progressista” da mesma Secretaria de Estado: “E além de comunistas quem é que vocês convidam mais?”. Na época, mesmo entre os socialistas, havia gente, intelectuais incluídos, que não iam à bola com o Zeca. Não só era um cantor de esquerda, mas, sobretudo, era “popular”.

Agora, que está morto e enterrado, chovem os ditirambos e as ameaças de homenagens. A primeira e mais ridícula é a ideia peregrina de o amortalhar em Santa Engrácia, no Panteão. A família, no caso boa intérprete do pensamento do Zeca, recusa. Quem o conheceu bem, adivinha facilmente primeiro a gargalhada, depois a indignação perante tão insólito sepulcro.

A segunda questão prende-se com o seu fabuloso legado musical e poético. Parece que os “masters” das canções andam perdidos no meio do naufrágio da Movieplay, agora falida mas proprietária deles. O antigo Secretário de Estado Barreto Xavier sustenta, muito acertadamente, que não é preciso encontrar o objecto físico para classificar como património imaterial nacional esse riquíssimo acervo, testemunho exemplar de um tempo obscuro (pela parte que me toca, considero a obra pré-abril 74 muito mais interessante, muito mais inventiva e mais significativa do cancioneiro afonsino. É uma mera opinião, claro.

Portanto, enquanto não aparecerem os negregados masters há que classificar preventivamente a obra. Depois, logo se vê. Quanto à edição, uma nova edição dos seus discos (e ainda há por aí muitos exemplares das anteriores edições), há que precaver o pagamento de direitos e, sobretudo, não dar oportunidade aos vampiros e aos urubus que só querem lucro fácil mesmo que seja “á pala” de um ícone de que não poucos se aproveitaram.

A ver vamos se os burocratas da Ajuda percebem estas coisas tão simples...

E se os embalsamadores profissionais de glórias defuntas largam a ideia de depositarem os humanos restos mortais do cidadão Zeca Afonso naquela mastaba sinistra de Stª Engrácia e os deixam honradamente converter-se em pó no cemitério humilde onde agora está.

 

(nota à margem: surgiu recentemente um disco –livro com duas gravações inéditas de J A . Fiz parte dos que desde o primeiro momento o subscreveram, não pela valia artística da coisa que é (e sou bondoso) medíocre mas porque faço parte dos seus amigos e dos que guardam uma memória fresca e alegre dele. A recolha é fraquinha, não traz nenhuma novidade e o texto que a acompanha também nõ descobre a pólvora. Longo, chato e sem novidade. Felizmente a edição parece ser limitada o que significa que não irá afectar demasiados ouvintes. Sempre é uma triste consolação...)

(2ª nota ainda mais à margem: correu por aí a ideia de medalharem postumamente José Afonso! Credo! Jesus, Maria José! )

 

*a ilustração: capa do disco que contém a "Balada do Outono" que, a meu ver, marca, pelo menos do ponto de vista musical,  o novo rumo da canção de José Afonso. 

 

 

 

14
Ago19

Au bonheur des dames 407

d'oliveira

Unknown.jpeg

A silly season lá vai ao tropeções

mcr 14.Ago.19

 

E a greve, idem. Agora, S.ª Ex.ª o Ministro do Ambiente, resolveu fazer doutrina laboral e sindical, a criatura tem, pelos vistos, um largo cabedal de conhecimentos. E disse que, em certos casos, provavelmente neste, os camionistas não podem ater-se ao horário normal de oito horas mas levá-lo até às onze, ou seja fazer 60 horas semanais! Vê-se que S:ª Ex.ª sabe o que é sentar-se ao volante de um camião pesado. Porventura porque senta ela própria o dito cujo nos cadeirões do ministério...

Nisto, parece estar de acordo com o homenzinho da ANTRAM que é mais papista do que o Papa e censura o Governo por não ser ainda mais autoritário. O indivíduo ataca o dr. Pardal Henriques sem perceber que aquele é o seu exacto retrato no espelho. Com a diferença, pequena mas importante de que um é, até prova em contrário, representante de trabalhadores e outro de patrões. Por mais que as coisas estejam diluídas, a luta de classes ainda mexe. E com patrões que impõem a famosa cláusula das duas horas extra diárias (que são sempre mais ao fim de contas) logo se vê quem explora e quem é explorado.

Até o PC que só acha que os únicos grevistas que não são instrumentalizados são os dos “seus” sindicatos (o resto é lumpen enganado por falsos profetas, basta ler o comunicado ou o dr. Domingos Lopes) entende que as coisas foram longe demais. E faz bem, o PC que para a próxima greve da sua gente bem pode recear outra requisição civil agora que o dr. Costa se habiruou e que a sua gente perdeu a vergonha.

Quanto à Direita bem se pode perguntar se alguém a viu ou se anda perdida nas brumas de Agosto, escondida nas areias algarvias, férias são férias, que diabo e no Twiter o pobre RR bem que tenta gracejar. Mas Rio nunca teve piada, o humor não é com ele e a gramática (ou o estilo literário) não o ajuda.

Mudemos de agulha. Agora uma dúzia de senhoras cantoras de ópera, todas mais relativamente desconhecidas umas que as outras, vem queixar-se de Plácido Domingo, cavalheiro com setenta e oito anos feitos e perfeitos. Pelos vistos há quarenta anos, mais dia menos dia, o tenor negociava o seu apoio a troco de uns favores sexuais que elas teráo rejeitado o que teve como consequência a falta de contratos e carreiras no limbo. Demoraram algum tempo a pôr a boca no trombone, mesmo se alguma queixa ainda vá até 2001...

Dantes, contava-se que muitas aspirantes a estrela tentavam um caminho menos duro e mais horizontal, oferecendo-se para ir para a cama de alguém influente a troco de um momento de glória ou de um contrato vantajoso. E citavam-se nomes, muitos nomes. Agora, é a vez das que sem atingirem a fama, atiram as culpas não para alguma eventual falta de talento mas para o apetite insaciável de ogres como Domingo. Porquê agora e não há dez, vinte, trinta anos quando o homem tinha real poder e poderia ser atacado. Nesta altura do campeonato o espanhol já quase não risca, está com os pés para a cova, o nome dele já nada diz às novas gerações.

O “me too” assume muitas vezes um certo toque de requentado e não precisa de provas. Basta uma declaração de uma “vítima” e eis que a “bem-pensância”, os politicamente correctos, os influentes do pret-a-penser na moda, todos juntos num místico casamento entre a hipocrisia e a virtude, saltem para a rua. Eu desconfio, desconfiei sempre, destes ajustes de contas tardios, sobretudo quando as notícias vm de meios onde a promiscuidade é generalizada.

Entretanto, uma notícia consoladora, ainda não foi desta que aquele fulaninho grosseiro e parlapatão que dá por Salvini, levou a água ao seu moinho. O homem é apenas uma caricatura deslavada de Benito Mussolini. Espero que acabe como ele já que não se lhe pode augurar a poética justiça de o ver desaparecer no mar cor de vinho. Arre que este mundo está horrendo. Entre os Putin, os Kim, os Trump, os Maduro, os Boris Johnson, o cavalheiro chinês, os Assad, os Erdogan e mais um largo par de personagens (nas Filipinas, no Brasil na Nicarágua ou na Guiné Equatorial), o planeta bem que está em risco. E em risco bem maior do que a invasão do plástico, o carbono triunfante, e o clima que perdeu a cabeça. Ao pé disto que vale uma greve de 2000 motoristas (800 de um sindicato e 1200 do outro)? Ou a mobilização de 12.000 agentes da autoridade (seis polícias para cada grevista (no caso de todos fazerem greve!) É obra!

* na estampa: rio poluído nas Filipinas

08
Ago19

Au bonheur des dames 406

d'oliveira

Unknown.jpeg

A falsa alternativa & outras observações

mcr 9.08.19

 

Pelos vistos, o Governo indicou a dr.ª Elisa Ferreira e o dr. Pedro Marques para o cargo de comissário na UE.

Eu confesso que ainda não percebi como é que uma criatura como Marques chegou onde chegou, mesmo descontando a fidelidade ao líder supremo. Vi e ouvi, vezes sem conta, demasiadas, aliás, o homenzinho a anunciar maravilhas e autênticos milagres. Tudo redutível à conhecida e contumaz expressão “uita parra e pouca uva”. Quando se tratou de discussão política a coisa ainda foi mais confrangedora. Marques, coitado, não marcava um mero golo. Mais: permitia “frangos” espantosos aos contraditores. Um desastre.

Mesmo assim foi alcandorado ao primeiro lugar nas listas europeias do PS. Para mim, só havia uma conclusão: costa queria livrar-se a todo o custo daquele fiel entre os fieis. Garantir que o via pelas costas durante um par de anos.

Todavia, esta suposição (amigável em relação a Costa) sofre um abalão quando este envia o nome de Marques à sr.ª Von der Leyen. É verdade que ia acompanhado do de Elisa Ferreira o que poderia indiciar que Costa poderia mandar uma mensagem tipo “queres um bombom ou umas gotas de cicuta?

Também, apesar de tudo, não deixa de ser estranho o Governo não avançar com o nome da dr.ª Maria Manuel Leitão Marques. Dir-se-á que não o avançou por ela estas no grupo parlamentar do PE para onde foi eleita imediatamente atrás de Marques. E para não embaraçar a Presidente da Comissão que teria de escolher entre o nº1 e a nº2, coisa sempre ingrata.

Daí o recurso à dr.ª Elisa Ferreira, obviamente uma pessoa infinitamente mais capaz do que Marques. E isto é dito por quem não aprecia demasiadamente a candidata depois da sua prestaçãoo como candidata à Câmara Municipal do Porto. De todo o modo, a doutora (por extenso) Elisa Ferreira tem um currículo impressionante, batendo em todas as áreas possíveis o candidato Marques e isso me chega.

E espero que também chegue para a Presidente da Comissão. A bem da mesma e, sobretudo, do bom nome de Portugal.

 

A propósito de Leonardo Padura e da sua devota leitora Mariana.

Pelos vistos a doutora Mortágua vai de férias carregada de livros. Não posso pronunciar-me sobre dois mas sempre lembrarei que a biografia de Trotsky por Deutscher apesar de ser um clássico está bastante ultrapassada. Trata-se um texto apaixonado, inteligente mas escrito há mais de cinquenta anos. E muita água já passou pelas pontes de Leningrado...

Quanto à outra escolha, “A transparência do Tempo” de Leonardo Padura, recentemente editado, é óbvio, pelo menos para um habitual leitor deste autor cubano, que é seguramente uma boa escolha e, nesta lista de quatro, o mais recente e o mais adequado ao tempo de veraneio. Padura tem uma obra muito interessante, mormente tudo quanto se relaciona com o detective Mario Conde, ou seja com cerca de 90% dos livros deste autor.

Se bem que vivendo em Cuba, Padura, com quem privei durante uns dias há um par de anos, não é exactamente um fiel daquele regime. E aproveitou (muito bem) a ficção policial para nos trazer um retrato pouco favorável daquilo em que se transformou a revolução cubana: uma caricatura amarga e funesta de tudo o que era prometido também há cerca de sessenta anos.

Convenhamos: eu não pediria à doutora Mortágua que lesse (caso já tivesse ouvido falar) Cabrera Infante, Herberto Padilla ou Reinaldo Arenas. Também não esperaria que lesse “cem garrafas numa parede “ da excelente Ena Lucia Portela (um monte de prémios e traduções em vinte líguas). E Ena Lucia também vive em Havana como Padura. E, como ele, retrata a Cuba actual desde dentro. Só que o romance acima referido cobre o período mais negro e cruel da história recente cubana. E vista do ponto de vista de uma mulher, uma dúzia de anos mais velha que Mariana, é verdade, mas uma mulher que vive por escolha própria lá, no meio da tristeza.

(passo de largo pelos enormes, magníficos escritores cubanos desde Lezama Lima a alejo Carpentier. Ninguém é obrigado a ler os melhores, mesmo se cubanos).

Aliás, o que me surpreendeu foi as breves frases de Mortágua sobre este livro. Das duas uma ou já o leu (e o livro é recentíssimo) ou limitou-se a transcrever uma qualquer notícia publicitária sobre a obra. Note-se, finalmente, que ao dispor-se a ler um dos três volumes da biografia escrita por Deutscher, a deputada terá esquecido ou não conhecerá um magnifico livro de Padura exactamente sobre Trotsky “O homem que gostava de cães” cuja publicação em Portugal nos trouxe Padura e a propósito do qual - mão só – tivemos duas longas conversas.

De todo o modo, repetindo, aliás, uma proposta já antiga aqui mesmo feita, vale a pena recomentar todos os livros de Padura. Estão traduzidos em português mesmo se a sua leitura no original espanhol de Cuba valesse (e muito) a pena.

O livro de Ena Lucia foi publicado, em Portugal, pela Ambar (2004) e mais tarde, novamente em português, com a mesma tradução, em Maputo (Moçambique) pela Kutsemba cartão (2010).

* na estampa: Ena Lucia Portela uma autora brilhante que (como Jesus del Campo, "as últimas vontades do cavaleiro Hawkins", Ambar, 2004)   me deu imenso gozo traduzir.  Aí vão dois apertados abraços para dois escritores cheios de imaginação