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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 496

d'oliveira, 16.05.22

 

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Um presente do passado tão presente

mcr, 16-5-22

 

acabo de regressar a casa depois de 2 horas que correram velozes, mais depressa do que alguma vez terão corrido.

A culpa desta insólita aceleração do tempo cabe por inteiro a três mulheres a quem me ligam fortíssimos laços de amizade, de ternura, de cumplicidade. 

Subitamente, enquanto conversávamos, assaltavam-me memórias fragmentadas de há mais de cinquenta anos, a bem dizer quase sessenta para ser mais verdadeiro.

Com elas partilhei muito, esperanças, certezas, dúvidas gargalhadas e desgostos. E amigos também, nem todos vivos, nem todos bem mas sempre gente a que confiaria a minha pobre e já longa vida.

É que, nestas celebrações (e o que é um encontro de amigos senão uma celebração?) amontoam-se passado e presente, este visto à dupla luz do que alguma vez sucedeu e do que os nossos olhos actuais mas cansados recordam com maior nitidez.

E, como não podia deixar de ser, atravessa-se, pungente e cruel a sombra da morte. Quando se avança na idade, a morte vai cercando os sobreviventes, carrega-nos de cicatrizes mesmo se, de algum modo, a força da vida manter quem recorda. Há, contudo, alguma urgência nesse exercício, nessa “revisão da matéria dada”, que isto é como o rio do filósofo: nunca mais nos banharemos nas mesmas águas em que mergulhámos.

Não vou dizer, oh estultícia!, que subitamente regressei aos meus vinte anos. Todavia, a ternura, a alegria do reencontro, um indizível conforto, esses estão todos lá.

Também estão as rugas, os sinais claros da idade que não apagam os traços juvenis dos jovens que fomos, antes se sobrepõem de tal modo que, em certos momentos, não temos a inteira certeza do momento em que estamos a viver.

Ganhei o dia, a semana, o mês. Mesmo se ao ver um par de fotografias tivesse de lamentar a falta da minha lupa para reconhecer-me e reconhecer outros que estes olhos já não são o que foram.

A CG diz-me que estou com um sorriso vago mesmo se a máscara (ele está de covid aceso...) me oculte meia cara. Porventura são os olhos de que me queixo que, apesar de tudo, sorriem embevecidos.

Ou então é ela, que já leva quase três décadas a aturar-me, que me tira a bissectriz: as mulheres sabem coisas que qualquer homem nunca alcançará, acocorado a sua fanfarronice e na sua incapacidade de ver, antever, o mundo que o cerca.

O passado, o meu, pelo menos trouxe-me imprevistamente um presente que adoça, ilumina, este presente que vai escorrendo.

Oh que belo dia!

 

 What a beautiful day (hey hey)
I'm the king of all time
And nothing is impossible
In my all powerful mind

 

( eu terminei o texto com uma canção bem mais recente do que uma antiga banda rock, dos idos de 60 cantava. O grupo chamava-se “It´s a beautiful day” e obviamente não é o autor da canção “what a beautiful day” que já é deste século. Porém, sei lá que razões, associo-as sempre. Como se vê, o passado e o presente (enfim um presente também já com um par de anos, teimam em misturar-se. Com esta idade também já vou tendo direito a associações inesperadas) E a vinheta além de uma homenagem ao grupo é um vero retrato daquele nosso tempo. 

 

 

au bonheur des dames 495

d'oliveira, 15.05.22

A inútil precaução”

mcr, 15-5-22

 

 

Permitam-me os raros mas heroicos leitores cuja indulgência é extraordinária para com este escriba que roube ao “Barbeiro de Sevilha”, o segundo título, justamente “a inútil precaução” que aliás  será referida por Rosina quando o conde Almaviva aparece travestido de professor de música.

No caso em concreto a inútil precaução ganha todo o seu significado. ora vejamos: a CG levou sempre muito a sério a pandemia. encerrou-se em casa e nas raríssimas ocasiões em que saía nunca largava a máscara. Até no carro sozinha comigo ela enfiava a máscara. E assim continuou até hoje. Ora na quinta feia passada, enquanto eu estava em Lisboa eis que a nossa excelente empregada apareceu queixando-se de fores, mal estar, enfim algo que parecia uma gripe e como tal foi tomada por ambas. Não era gripe mas um raio de um covid 6ª vaga com que a pobre senhora se cruzou no consultório onde fazia um qualquer tratamento. Deu boleia ao bicho mau que, mal viu a CG,  entrou a matar (enfim a chatear). Na sexta feira já ela me telefonava a informar-me que fizer o teste caseiro e que este dera positivo. 

Só regressei hoje, domingo, e deparou-se-me uma madona dolorida amparada pelas duas gatas mas, vá lá, com apetite para um rosbife. 

Felizmente, a casa é grande pelo que me transladei o cadáver para outro quarto e tenho-me mantido afastado (e mascarado) da doentinha. Temos, ao que parece até quinta ou sexta feira pois afigura-se que o ataque insidioso do vírus maléfico terá terminado por essa altura com, espera, vitória clara da resistente CG que entretanto me jurou que passara uma noite horrível. 

Apiedei-me dela mas pouco ou nada posso fazer  exceptuando os recados, o ir buscar almoço, tratar das coisas até a empregada poder regressar. E esperar, com alguma ansiedade, sair incólume desta emergência.  Convenhamos que ando a tentar passar por entre os pingos da chuva mas, que diabo, tenho uma fezada que ao  vírus  não lhe apeteça esta carcaça  antiga e desinteressante. 

Mesmo vacinado (e à espera da quarta dose que chega daqui a dias e já me apanha pronto para mais uma picadela) não me alegra a hipótese de também eu ser pasto do maldito bicho mau. E julgo que neste caso não devo sentir-me solidário com os contagiados e pronto a sacrificar-me. Passo bem sem o vírus e, com sorte, ele passará bem sem mim. 

Mas que isto, o ataque à cara metade, mulher prudentíssima e que usou de todas as defesas possíveis para não ser infectada, parece mesmo enquadrar-se numa “inútil precaução” não me restam dúvidas. 

Com sorte, (como no finale dessa belíssima ópera do genial Rossini) poderemos daqui a uma semana cantar

 

Amore e fede etera

Si vegga in voi regnar

 

E já que estamos com a mão na massa rossiniana aqui me despeço

Pace e gioia sia con voi

 

 

 

 

au bonheur des dames 494

d'oliveira, 12.05.22

O cumpridor e promessas

mcr, 12 de Maio de 2022

 

escrevi aqui que se da Azofstal (Mariupol) saíssem os civis graças ao tardio esforço do sr. engenheiro Gutterres, o acompanharia a Fátima. 

Eu não acreditava que a coisa tivesse êxito mas na verdade saíram quase quinhentas pessoas mesmo se haja notícias de outro tanto que lá ficou (doentes, feridos quase todos homens, eventualmente soldados também feridos). De todo o modo, como há muito deixei de ser radical, entendi que a promessa deveria ser meio cumprida, mesmo sem a beatíssima companhia do Secretário Geral da ONU. 

Aproveitei o facto de ter de vir para Lisboa para ver a mater augusta que vai briosamente nos seus cem anos e fiz um desvio até  Fátima. Dispensei-me de entrar no santuário que nesta época está que ferve de peregrinos e dei por cumprida a minha promessa. E regressei logo que pude à A17 para continuar a fazer uma viagem razoavelmente solitária.

Verifiquei, assim que entrei em estradas normais que eram muitos os peregrinos, a guarda republicana a avisar os automobilistas e os grupos de voluntários que ajudam as pessoas que vem de longada e de longe a pé- Até vi uns peregrinos com uma bandeira ucraniana!...

Cumprido o meu dever, laico e automobilístico, desacompanhado de Guterres , entendi trazer (ou voltar a trazer) uma crónica com trinta e muitos anos sobre uma promessa de ida a Fátima que se gorou pelas razões que no texto se expõem. 

Aqui vai:

 

 

Figueira-Fátima só ida

Se os meus parcos leitores  permitem tenho uma confissão a fazer: não sou nem nunca fui pessoa dada aos mistérios da fé. Aquilo passa-me ao lado como se fosse água pelas penas de um pato. E não é que não me tenha esforçado: foi há quase meio século que num verão mimoso desfilei com outros meninos e meninas na procissão dos primeiro-comungantes. Há disso uma fotografia delida pelo tempo: eu e o meu irmão, de casaco e calção cinzentos, fitinha larga e benzida num dos braços e mãos juntas atadas por um terço.

 

Lembro-me  que, nesse dia inesquecível, lavado de todos os pecados, o meu maior desejo era pertencer `a "Cruzada Eucarística" cujos elementos abriam a procissão ostentando a tiracolo uma banda branca com uma cruz azul. O quadro ficará mais completo ( e ligeiramente menos inocente) se acrescentar que nesse grupo se incluía uma menina de loiros e longos cabelos anelados...

 

Todavia nunca cheguei a ingressar nessa piedosa agremiação. Havia muitas missas e novenas a cumprir que os caminhos do Senhor não são pera doce. Tanto mais que, durante o longo período de catequese me fartara de faltar às aulas de doutrina, salvando-me de denúncia da catequista apenas porque com a memória forte da infância decorava e papagueava, sem erros, orações, mistérios, listas dos pecados capitais, das virtudes teologais, hinos sagrados incluindo, oh maravilha!, o inteiro  "tantum ergo sacramentum..." e a Salvé Rainha, toda em latim de igreja (bem melhor e mais bonito do que esse arremedo que ora se usa sob o nome de pronúncia restaurada).

 

Depois as missas eram insuportavelmente longas, sobretudo a das onze, a melhor e a de mais escolhida freguesia. Com o meu irmão e um comum amigo de nome Bartolomeu, fintávamos as famílias e metíamo-nos no museu a ver armaduras japonesas, cacos romanos e outros objectos fascinantes, enquanto na igreja cheia o monsenhor Palrinhas dava início a uma longa cabotagem de ladaínhas, sermão, cânticos enfim o que se chama uma missa bem medida. Normalmente chegávamos quase no "ite.." para saber, não fosse alguém perguntar, qual a cor dos paramentos. Depois sorrateiramente seguíamos os cardumes de raparigas até ao bairro novo onde se passeava uma meia hora antes de recolher toda a gente a casa para o almoço dominical.

 

Convenhamos porem que não éramos só nós a fazer gazeta ao "santo sacrifício": as esplanadas dos cafés estavam desde cedo cheias de cavalheiros  que aproveitavam a ausência das  famílias na missa para tomar uma descansada bica, ler o jornal e falar com amigos. Provavelmente pensavam que a mulher e a filharada rezariam o quantum satis para absolver toda a tribo...

 

Não se pense contudo que esta mansa falta à prática dominical fosse sinal de  laicismo radical. Nada disso: era apenas preguiça, despreocupação e vontade de aproveitar a manhã luminosa depois de uma semana de duras penas. Os figueirenses quando era necessário frequentavam a casa de Deus com aplicada devoção e era lá que se casavam, baptizavam a prole e enterravam os seus.

 

Todavia, de longe em longe, a cidade era percorrida por um frémito religioso de maior alcance e rivalizava com Buarcos onde era conhecida a devoção por S Pedro e pela Senhora a Encarnação. Os pescadores, sobretudo aqueles que se perdiam meio ano pelos mares do bacalhau em dóris frágeis no meio do nevoeiro encaram a religião como um assunto sério e vivem-na como um perpétuo seguro de vida que eles contratam com um par de santos que consideram mais influentes e próximos de Deus. 

 

Terá sido pois num desses momentos de arrependimento colectivo e exacerbada introspecção que um grupo de cidadãos proeminentes e amplamente conhecidos nos meios boémios da terra entendeu ir, de longada e a pé, até Fátima, coisa que nesses anos longínquos deveria significar oitenta quilómetros bem medidos.

 

Os cavalheiros em causa além de pertencerem a algumas das mais conhecidas famílias tradicionais gozavam da fama (e proveito) de bebedores inveterados coisa que dava muito (e ainda dá, penso...) nas terras pequenas. Nesses tempos benditos em que beber vinho era, sic, dar de comer a um milhão de portugueses a embriaguez só assumia foros de escândalo quando atingia indivíduos socialmente desqualificados que, na via pública, vomitavam com o vinho um rol de palavrões. Isso, vestirem andrajos e cheirarem mal atirava-os para a categoria de bêbados sem préstimo ao passos que os señoritos de que falo frequentavam o Tennis  ou a Assembleia e sabiam qual era a diferença entre o garfo de peixe e o da carne.

 

Foi pois dentre o selecto meio dos que se embebedavam na "Agostinha" e no "Casino Peninsular", que se projectou a piedosa excursão à terra dos três pastorinhos. Os penitentes prepararam com esmero e unção a viagem, munindo-se de uma muda de sapatos meias q.b., bordões peregrinantes e demais impedimenta. Para comer socorrer-se-iam dos estabelecimentos do caminho mas à cautela levavam alguns mimos caseiros num cesto de vime. No que respeita à sede resolveram depois de breve debate que se desalterariam em todas as locandas do caminho. Andar cansa e torna a goela sequiosa de modo que o melhor seria parar sempre que, nessa via crucis, se mostrasse restaurante, venda, taberna ou casa de pasto. 

 

E que beber perguntará algum leitor cuja coragem o fez chegar até aqui. Pois para beber eliminou-se desde logo qualquer bebida gasosa (laranjada ou pirolito) por efeminadas e pouco adequadas a uma jornada sacrificial. O leite foi vetado por não oferecer confiança o que se vendia por aqueles pinhais imensos. Alguém terá mesmo falado dos perigos da febre de Malta e de outras maleitas igualmente perigosas. A cerveja foi cortada por duas razões essenciais: no caminho não deveria haver quem decentemente soubesse tirar uma caneca á pressão (e a cerveja mal tirada é pior que mijo de burra...)  e tendo um efeito diurético forte poderia obrigar algum dos caminhantes a verter águas na via pública com notório escândalo de quem visse.

 

Resta a água arguirá de novo o mesmo e já citado leitor generoso mas inocente. Alto aí e para o baile!  A água fora as propriedades higiénicas que ninguém nega, a utilidade para o regadio ou para a culinária, só é bonita na forma de mar, rio ou lago. Aceita-se no estado sólido se servir para temperar o whisky e no gasoso para saunas. Fora isso, que já é muito esgota-se, aqui o parágrafo água que mesmo em religião apenas serve para baptismos.

 

Há que recorrer ao vinho, maxime a algum dos seus derivados ou destilados se tal for necessário. O vinho está consagrado desde as bodas de Caná, pertence à herança greco-latina, é um genuíno produto português além do que tem efeitos vaso-dilatadores unanimemente reconhecidos.

 

Não posso precisar o dia e a hora em que a comitiva  iniciou a sacra caminhada. Sei apenas que foi a pastelaria Caravela o local de reunião. Aí os peregrinos tomaram uma bica e um cálice de "Carvalho, Ribeiro & Ferreira" na altura a melhor aguardente velha do mercado. Um minuto depois paravam no Nicola para um licor beirão, e logo em frente no "Oceano" para um bagaço. Nos restantes trinta e oito metros parou-se na "Império", no "Astória", na "Peninsular"  e no Arnaldo, cortando-se aí para esquerda, com o fim de atingir o jardim municipal, tomar a marginal do rio até à ponte para a margem direita do Mondego. 

 

Parece, ou pelo menos tudo o leva a crer, que ninguém se terá apercebido aquando da elaboração do roteiro que a R.ª Dr. António Dinis, além do Mercado, do cinema Parque Cine era praticamente ocupada no seu lado esquerdo descendente por pequenas casas de pasto (hoje 40 anos passados muito snakebarizadas e hamburguerizadas, infelizmente). 

 

 A penosa caminhada e as libações sacrificiais a que ia dando azo fizeram com que a marcha penitencial tenha acabado  antes do jardim. Um dos caminheiros teve mesmo que ser socorrido no hospital com coramina, dois outros foram levados a casa por um talhante solícito, um quarto ferrou-se a dormir numa das tascas mais consagradas e como era assíduo só foi acordado onze horas depois a pedido de uma esposa aflita mas conhecedora dos seus hábitos. O quinto vomitou, discretamente, nos lavabos do cinema "Parque cine" e saiu pelo portão da Rª Cândido dos Reis,  subiu, foi comer na "Lagosta Vermelha" tendo-se posteriormente emborrachado de cerveja no mesmo e mal afamado local em companhia de um croupier do Casino. 

 

O último entrou no mercado comprou vários produtos com os quais fabricou um coktail de ovo que ofereceu a vários vendedores. Com eles e numa marcha titubeante ( o licor de ovo é fatal...) saiu da praça pela porta oeste, atravessou a rua e foi encontrado nos baloiços do parque infantil a cantar para um grupo de meninos a imortal modinha

  " Mamã eu quero

    Mamã eu quero mamar

  Dá chupeta, dá chupeta

  pro bebé não chorar..." 

 

 

 

Vai esta para António Pinguel, Ana Leal de Oliveira, os 2 manos Esteves, Mário Vieira de Carvalho, Octávio Correia Ribeiro, Luisinha Novais e Rosa Carlos núcleo duro de um grupo de amigos que começou na praia de Palheiros, entre Figueira e Buarcos, à sombra  do parque Sotomayor. E com uma comovida lembrança do Luís Neves nosso amigo. E à Teresa  Estrela Esteves, idem

 

 

 

 

au bonheur des dames 493

d'oliveira, 04.05.22

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A oligarquia tem saúde frágil

mcr, 4.o5.22

 

 

Está a dar o beribéri nos oligarcas russos. Já lá vão seis com as respectivas legítimas. Tudo por suicídio depois de um homicídio (a legítima morre antes às mãos do cônjuge que, seguidamente, se despede definitivamente deste mundo cruel por meios expeditos e de grande eficácia mortífera.

Ou seja, nos últimos meses, criaturas riquíssimas, frequentadoras do Kremlin ou, pelo menos com entrada franca lá, entram em profunda e angustiante depressão e pimba: tiro no porta-aviões.

Será uma variante mais mortífera e selectiva de uma nova forma de covid que só ataca homens endinheirados até dizer basta, e os leva a despedir-se sem apelo nem agravo deste mundo cruel, enfastiados com os iates maiores que os antigos paquetes da carreira de África, de casas demasiado (agressivamente, mesmo) sumptuosas semelhantes aos modestos apartamentos que Trump tem em diversas cidades americanas (a começar pelo alegado esplendor do seu “pied-a-terre” no penthouse da Trump Tower, um desbarato de dourados capaz de cegar o mais míope dos visitantes), de contas bancárias em tudo o que é banco e sobretudo nos de alguns e privadíssimos paraísos fiscais?

O mistério sobre esta epidemia suicidária é enorme e, mesmo numa Rússia onde os jornais só publicam o que é conveniente, a população, enfim os escassos que, apesar de tudo, tem acesso ao diz-se que diz-se, já se interroga com vingativa e invejosa curiosidade sobre este princípio de hecatombe que atinge gente acima de toda a suspeita sobre simpatias democráticas.

É sabido que na Rússia a qualidade de oligarca local e vivendo em solo russo, não está isenta de perigos. De facto, um par destes cavalheiros já se viu envolvido em acusações fortes e acabou com os ossos na cadeia por alegadas malversões no que toca à origem, desenvolvimento ou consequências das suas colossais fortunas.

Outros, pondo-se a salvo, além fronteiras, foram alvo de mandatos de detenção, confiscação de bens na Federação russa e, consta, de tentativas de assassínio.

Anda por aí uma teoria que pretende justificar a onda suicidária pela actual situação política: as pobres criaturas vendo as suas fortunas encolherem duramente, os iates apresados, as casa arrestadas, os depósitos nos bancos ocidentais  congelados, começaram a entristecer, e todos nós sabemos como pode ser violenta a tristeza russa.     

E, assim, decidiram despedir-se de um mundo que, além de os invejar, os não compreende.

Uma teoria revolucionaria tenta explicar estas desaparições pelo envolvimento ucraniano. Incapazes de alcançarem Putin, os homens de Zelensky infiltrados no país invasor terão sido encarregados de “acertar o passo” aos oligarcas. Duvido que isso seja verdade pela simples razão de que estes se podem proteger muito mais do que os pobres generais russos que tem sido eliminados com fulgurante rapidez por snipers e tropas especiais de cariz claramente neo-nazi como se sabe, mesmo se os velhos nazis de antigamente não se mostrassem, bem pelo contrário, especialmente adversos das grandes fortunas, excepção feita das judaicas.

Não é por acaso que o lusitaníssimo Abramovitch se propôs reconstruir parte da Ucrânia com os lucros da venda do Chelsea. Ou seja, além de distribuir no Porto uns tostões pelos rapazes que identificaram formalmente os seus antepassados sefarditas e portugueses, este cavalheiro está disposto a reconstruir o que os soldados do seu amigo Purin destroem a torto e a direito. Há, porém, um argumento para o facto de ainda estar vivo: justamente essa vontade de ajudar a futura reconstrução de Mariupol e de outra cidades vítimas da libertação. Convenhamos que esta teoria tem direito a uma cuidadosa ponderação.

A seu tempo, informarei, se possível, os leitores que até aqui chegaram. E, já agora, rezem uma ave maria pelos desaparecidos apesar de eles serem ou judeus ou ortodoxos. Uma oraçãozinha nunca fez mal a ninguém...

Na vinheta : seis vítimas da epidemia suicidárias

au bonheur des dames 492

d'oliveira, 28.04.22

Frágeis sinais de primavera

mcr, 28.04.22

 

(há 96 anos (mas em Maio) o sr. general  Gomes da Costa, trepou para os costados de u cavalo branco e partiu de Braga rumo a Lisboa alvoroçando populações, convocando guarnições militares que prontamente se lhe juntaram e devagar, prudentemente, foi conquistando o país sem dar um tiro. 

Esperavam-no em Lisboa o almirante Mendes Cabeçadas e mais um par de militares que pensavam ser os comandantes da revolução. Rapidamente perceberam que o não eram e Gomes da Costa governou sozinho até ser diligentemente arrumado como marechal mas sem poder.

Há 53 anos (e também em Maio, daqui a um mês) um nutrida multidão de estudantes de Coimbra, realizou nos jardins da Associação Académica uma Assembleia Magna que decretou a única greve estudantil vitoriosa de que há memória. Saravah, companheiros, amigos e colegas dessa jornada!

 

Isto apenas pretende provar que as datas se sobrepõem ao sabor de movimentos por vezes distintos)

 

Hoje entrei no supermercado sem máscara e também sem máscara fui atendido com gentileza pelos empregados já velhos conhecidos. 

Ao lado do super, numa pastelaria encerrada há dois anos, retiraram os anúncios de proposta de arrendamento. Um porteiro do prédio abaixo do meu informou-me (o que é que um porteiro competente não sabe?) da próxima abertura desse estabelecimento cuja porta fica a 20 metros da saída da garagem da primeira cave do meu prédio e a 100 da porta principal. A trezentos e tal metros numa transversal, sempre dentro do bairro, anuncia-se a abertura de um florista numa loja que também estava encerrada desde o início da pandemia. 

Do lado da esplanada abriu um “salão de estudo” e, pelos vistos, já há clientes. E por aí fora...

São sinais de que a vida económica recomeça a dar sinais de ressurreição, o que está de acordo com o tempo post-pascal que, infelizmente, não ocorreu na Ucrânia apesar do piedoso Putin ter ido receber a bênção de um pope que mais parece um sargento mor do que um religioso. Ou de como as cruzadas ainda estão na moda naquelas paragens longínquas e perigosas. 

O governo quer ajudar à festa contratando agora, e à pressa, cinco mil professores. A iniciativa peca por tardia porquanto este governo sucede a um anterior da mesmíssima cor que, pelos vistos, não amava demasiadamente s escolas e sobretudo os alunos. A reviravolta do ME foi tão repentina que até o sr Nogueira, um profissional de sindicalismo que não vê uma sala de aulas há pelo menos trinta anos, ficou sem palavras. 

Uma querida, boa e bela amiga de que não tinha notícias há muito diz-me agora que vai lendo os meus textos. É seguramente a Primavera a chegar. 

 

 

au bonheur des dames 491

d'oliveira, 27.04.22

Cada cavadela cada minhoca

mcr, 27.04.22

 

Na falta de carne mais apetecível, ama articulista entendeu questionar um desfile  festejando o 25 A por este ser da iniciativa da “Iniciativa Liberal” e por, segunda razão, a embaixadora da Ucrânia ter participado nele. 

No que toca ao primeiro aspecto parece que só os organizadores da tradicional descida da Avenida da Liberdade tem direito a manifestar-se! 

Pelos vistos, e segunda a criatura,  esta “descida” é a única boa pois junta pessoas  e partidos de várias proveniências além dum grupo de antigos militares de Abril. Seria, portanto, uma manifestação “unitária” onde caberiam todos os que se sentem democratas e agradecidos pela chegada da liberdade. 

E assim sendo, não se vê a que título os militantes (ignoro se muitos se poucos) da IL se dão ao trabalho de desfilar festejando uma data que, alegadamente, eles entendem que qualquer pessoa poderia juntar-se, tem lugar.

Eu não vejo nada de mal no facto desta data poder ser recordada por diferentes grupos de pessoas que se sentem mais livres do que no tempo da outra senhora. De resto, e já o escrevi, também não condeno os que fazem do feriado  - e logo deste no prolongamento do fim de semana – um momento de evasão, de mini-férias, de descanso particular. 

Os feriados servem também para isso e boa parte deles não convocam seja quem for para as ruas, para a “luta”, para o patriotismo (o caso específico do Primeiro de Dezembro) para recordar as glórias passadas ou as comunidades (o 10 de Junho) ou o nascimento de um regime já secular (o 5 de Outubro). Duvido que o “Corpo de Deus”, o 8 de Dezembro por exemplo sejam apenas ocasiões para católicos militantes saírem à rua. Do mesmo modo os “santos populares” (que seguramente são os feriados mais partilhados –não incluo o Natal e a Páscoa que mesmo parecendo celebrar datas puramente cristãs são por todos aproveitadas-) não pedem maior esforço do que comer sardinhas, dançar nas ruas, encher-se de cabrito assado e tudo o resto (e mais não digo, eu que festejei o S João de todas as maneiras e sobretudo das que não entram no folhetim por via dos leitores mais pundonorosos, se é que os há e, havendo, não consentem que a carne, que é fraca, se liberte das cadeias que uma moral judaico-cristã mais pesada impõe).

Os feriados são momentos de fuga o quotidiano que é para isso que a democracia  e a liberdade existem.  

No caso em apreço, qualquer pessoa que se sinta grata pela data é d minha família, da minha tribo, do meu particular grupo de amigos. 

Todavia, nem sequer me digno censurar os que nesse dia se vestem de luto, fazem jejum ou cobrem a cabeça de cinza (isto no caso de haver quem o faça, coisa de que duvido pois sei, de ciência certa e segura que qualquer criatura indígena esquece a ideologia e ala que se faz tarde, para a praia, para o campo, para o que muito bem lhe entender. Por outras palavras nunca vi ninguém fazer má cara a qualquer feriado nem protestar  por não poder ir trabalhar para um qualquer patrão nesse dia).

A “Iniciativa Liberal” não quer,  ou não lhe convém, misturar-se com a Esquerda desfilante na Avenida? Está no seu direito e isso não lhe retira o carácter festivo mesmo se obviamente lhe define a orientação política

Como excatamete acontece com quem desfila entre o PC, o BE e alguns independentes de esquerda (incluindo alguns militares de Abril). Este desfile não é um desfile de todos os que se posicionam no campo das liberdades e da democracia mesmo que tente mostrar que e uma frente muito ampla. Nada disso deslustra qualquer organização ou pessoa que, de cravo ou sem ele, entende vir afirmar o seu apoio, o seu reconhecimento ao actual e bevindo regime político em que vivemos.

 

A segunda questão prende-se com o facto de uma embaixadora, a da Ucrânia entender mostrar o seu apreço pelo país que recebe milhares de ucranianos, que envia medicamentos e armas e autocarros para o país infamemente invadido. Claro que a srª embaixadora poderia enviar uma carta, pôr a florinha ao peito, cantar um fado ou a eterna Grândola.  Tudo para dizer do seu apreço à democracia e à liberdade, do seu agradecimento a Portugal e aos portugueses. Nada a impede porém de “fazer” a avenida “pedibus calcantibus” pois que, na minha modesta opinião nesta festa da liberdade cabem todos os que estão neste mundo de boa vontade. Sedesfila com a IL em vez do BE não tem qualquer importância: desfila com quem celebra! E basta (para não dizer chega que agora parece provocação mesmo se essa gente enche a boquinha com a democracia e com a condenação da Rússia invasora). 

A criaturinha de que falo e que comenta os factos quase quotidianamente tem uma insofismável vocação para polícia das consciências, de inquisidora ou até de guarda prisional. É com ela. Mas sair-lhe ao caminho é, seguramente, com qualquer democrata e sobretudo com quem no verdadeiro 25 A estava lá! E eu  com uma montanha de amigos que tentavam resistir ao Estado Novo, estava lá mesmo sem saber se a coisa correria bem ou para o torto.

Celebrámos o 25 A antes dele ser uma festa mas tão só um risco. Já demos para o peditório  de muito “adesivo” e, de mais ainda, de uma multidão de vira-casacas.

 

au bonheur des dames 490

d'oliveira, 26.04.22

Em que terra vivemos?

mcr, 26-4.22

 

 

Na intervenção que lhe cabia como representante do PC,  a actual dirigente da bancada, veio (não se riam, por favor...) insurgir-se contra o “pensamento único” de que, segundo a excelsa criatura, o seu partido é vítima!

Pergunto-me se a pobre senhora acredita mesmo no que a mandam ler ou se estará apenas a divertir-se à custa do pagode tão enorme é a toliçada que solta boca fora.

 

O dr. Pacheco Pereira perora desde há anos, muito, nas televisões num programa que se chamou quadratura do circulo, circulatura do quadrado (oh imaginação!) e não sei que mais. 

Esta longevidade televisiva deve ter-lhe dado a volta às meninges pois só assim se explica que tenha há dias afirmado, com um ar sério e profético, que há em Portugsl um movimento, muita gente, presume-se, que quer erradicar o pc da vida política ou mesmo da vida tout court.  D política entenda-se, supondo que o bom senso a que JPP tem direito, ainda não o levou a asseverar que se pretende exterminar radicalmente o partido e os seus militantes. 

Pessoalmente, dado o curso descendente e declinante daquela organização, em militantes, mandatos e influência (inclusive na rua), acho que a profecia do biógrafo de Cunhal (obra que começada em 1999, vai no IVº volume datado de 2015- há já 7 anos!..) tem frágil base e, sobretudo, não vislumbro por aí uma furiosa cruzada contra Jerónimo sequer contra a deputada Paula acima referida. 

Aliás, basta um dos dirigentes comunistas aparecer para uma chusma de jornalistas e curiosos se precipitarem sobre ele não com intuitos homicidas mas apenas com a malévola intenção de descobrirem mais uma pérola marxista-leninista-jeronimista para gáudio de leitores e aumento de circulação do jornal.

 

A menos que se trate de uma metáfora tirada a ferros do espírito cintilante e jocoso de PP (que não é exactamente alguém dotado do que chamaríamos humor, sequer ironia) a frase parece idêntica à da deputada comunista na tribuna da AR e já acima referida.

 

A comentarista Afonso oferece mais outra pérola (vagamente artificial) no artigo “em cada esquerda um amigo” (Público) que de bom apenas tem a referência à cantiga de José Afonso que merecia melhor comentadora.

Eu já não tenho esperança alguma em campanhas de alfabetização política de adultos, mormente no que concerne à história da Esquerda. A verdade é que em Portugal não abundam textos sobre a  história das Internacionais. E as línguas ditas estrangeiras resumem-se a um inglês básico que, provavelmente, não é usado para ler e estudar seja o que for.

Todavia, e partindo apenas da figura de Marx, esta senhora aperceber-se-ia de nunca houve uma (mas várias) Esquerda fraterna e sorridente para com as heterodoxias, as seitas, as correntes, os desvios. Bem pelo contrário e é por isso que me socorro do velho filósofo que zurzia sem piedade em qualquer criatura que nas mesmas fileiras ousasse discordar dele. (A coisa menos grave que me ocorre é a acusação de “utópico” a Proudhon). Depois é o que se sabe Kaustsky ficou para sempre “renegado”, Bernstein é “revisionista” e por aí fora. O PCF, tinha mesmo um extenso catálogo de insults um dos quais nunca olvidei “víboras lúbricas”. Vishinsky esse imortal procurador da URSS legou-nos uma extensa listas de apodos a adversários todos traidores, todos trotskistas, direitistas et j’en passe, de fino recorte literário político. Por cá também houve uma pequena diarreia de insultos que não foram apenas pertença do pc mas de todos os restantes grupos e “grupelhos” “esquerdelhos” que pulularam a partir de finais de sessenta. Geralmente eram apenas traduções de literatura política estrangeira especialmente chinesa ou albanesa. 

(sobre este artigo de franciscana pobreza não vale a pena gastar mais cera. É igual ao que a senhora vem esforçadamente produzindo dia sim dia não na última página do Publico (ai que saudades do Rui Tavares...)

 

O sr Putin, um ex-oficial superior da ex- pide soviética, veio dizer (ou alguém por ele) que “o fornecimento de armas à Ucrânia, é contrário à paz e só vem prolongar a guerra e o sofrimento das pessoas”.

Isto, quase ipsis verbis, não vos recorda nenhuma declaração política recente?

Será que Putin pagou direitos ao PC pelo argumento?

E assim chegámos ao 63ª dia de intervenção armada especial que nunca foi uma invasão e menos ainda um acto de guerra.   

 

 

Au bonheur des dames 489

d'oliveira, 25.04.22

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Uf! Que alívio!...

mcr, 25.4.2

 

58 contra 42!  É uma vitória “confortável, mais que confortável sem ser esmagadora mas aproximando-se disso.

Só por ignorância atrevida é que, no caso da França, se pode menosprezar estes 16 pontos de diferença. Eu aconselharia os comentadores de sofá a melhorar o seu francês, a ler os jornais, a ouvir as opiniões dos franceses (e ontem eram multidão) mesmo do francês que na SIC explicou a duas sumidades locais e indígenas algumas pequenas nas duras verdades. 

A segunda questão a que se deve prestar atenção é esta: a extrema direita francesa tem muitos e muitos anos de vida, existiu sempre , não é de hoje, de ontem ou anteontem. Basta lembrar o século XX, a longa presença contínua que vai dos inimigos de Dreyfus aos croix de Feu, a Vichy e por í fora.

Ao lado coexistiu sempre uma Direita moderada, que se dividia entre os radicais e outras espécies autóctonas. A partir da Vª  República, de Gaulle federou por largos anos a Direita ms teve sempre uma extrema direita a combate-lo, incluindo com atentados sob a marca da OAS. 

Por seu turno, a Esquerda francesa sempre teve um partido socialista, a SFIO, ou sja a Section Française de l’Internationale Ouvriére, fracções radicais , o PCF (a partir do Congresso de Tours, um peueno mas ágil partido trotskista e, já nos anos 60 diversas facções maoístas, ecologistas e anarquistas.

As eleições presidenciais, na Vª República sempre dividiram a França em dois . Não é de agora, de ontem (as anteriores presidenciais que viram Macron despontar), nem de hoje estes dois campos. Chirac precisou de uma “união sagrada e republicana para bater o pai Le Pen e nessa altura ninguém uivou que vinha aí o lobo...

Ou seja, no sistema eleitoral francês, houve sempre dois campos e a extrema direita sempre apostou num, enquanto a extrema esuerdase inclinava para o outro mesmo se, e aqui há um ponto importante, sempre tivesse havido sob diveras desculpas uma tendência para não escolhr o seu campo. Não é de hoje que alguma extrema esquerda se refugia na abstenção à segunda volta. 

O que é mais recente, e isso ontem viu-se, é uma fracção da extrema esquerda (leia-se melenchonista ) virar-se para o regaço da srª Le Pen (e foram 20% dos eleitores da “France insoumise”  darem esse passo fatal e inacreditável!).

E no capítulo dos quês se abstiveram lá esteve também uma bela fatia de adeptos de Mélenchon.

Portanto, o campo lepenista contou com os já tradicionais e reais 15-20% de adeptos puros e duros de sempre, com todos os votos de Zemour,  “lebre” oportuna e útil da candidata que, pelo mero facto de existir, e de ser ultra-radical, quase a tornou frequentável, os rapazes e raparigas “jovens” e desiludidos bemcomo estractos importantes vindos da classe média que se sentem marginalizados pela globalização, pelo custode vida, pelar reformas urgentes e necessárias de Macro que tentou acabar com privilégios extraordinários e inconcebíveis numa sociedade moderna  (desde a idade da reforma até aos estatutos corporativos de uma boa centena de profissões ou empresas – caso SNFC p. ex.)

Uma quarta  questão que cá abriu a boca a ignorantes, é a da abstenção. A abstenção nas presidenciais atingiu 28/29%, um máximo em muitos anos. Comparem-na com a de cá e depois a gente conversa.

A alegada “atribulada” vitória de Macron, na versão lusitana, parece fazer esquecer que ganhar um segundo mandato é algo que há muito não se via em França! Pelo menos, e sem ter de ir pesquizar, recordo que nem Sarkozy (Direita) nem Holande (Esquerda)  conseguiram este resultado. Percebem ou é preciso fazer um desenho.

Eu escrevi aqui não há muito tempo que desta vez as coisas estavam complicadas e havia uma forte incerteza  quanto ao desfecho. Mesmo com Macron à frente, é verdade que Le Pen e Mélenchon o seguiam de perto. E também é verdade que o último nunca deu um apoio claro ao vencedor mesmo se, depois de muito instado, lá se aventurou a dizer que votar na Direita era inaceitável. E isto quando os seus jovens admiradores pintavam de igual os dois finalistas!  

É bom lembrar que o re-eleito Presidente, apanhou com o covid, com os coletes amarelos, com a atual guerra, com a guerrilha dos eternamente insatisfeitos (e na França isso é mais do que uma vocação).  

É por isso que volto a repetir: foi uma grande vitória, uma vitória saborosa, extremamente confortável, num cenário de incerteza e de flutuação do eleitorado que, por sua vez,  fez evaporar partidos tradicionais desde o socialista aos gaulistas ou o pcf...

É obra!  Por muito menos se perderam eleições noutros países.

Pessoalmente sinto-me aliviado, contente, de parabéns. Por mim, egoisticamente, por Portugal, pela Europa e pela Ucrânia. 

(quanto ao sr Putin, ele que engula a derrota de uma amiga do peito que, aliás, financiou. E já isto é outro, e bom motivo, para achar que ganhei o dia de ontem e tenho mais um motivo para celebrar o de hoje que também é meu por muitas e sólidas razões como fartamente narrei em vários folhetins quase todos publicados por estas alturas.

E é altura, mais uma vez, para relembrar comovido mas alegre, dois amigos que nesses dias 24 e 25 se dispuseram a arriscar muito: Rui Feijó e Jorge Delgado, (mortos há anos) que fizeram pelo 25A mais do que eventualmente uma resma de futuros medalhados pelo Sr. Presidente da República.

*na imagem, um dos meus locais favoritos desde sempre. A esplanada do "Les deux magots" a que nunca falho. Um "express", o jornal "Le Monde" a vista da praça de St Germain des Prés e ala que se faz tarde para uma boa dúzia de livrarias, duas das quais a poucos metros de distancia. Espero estar lá daqui a um par de semanas que quase tres anos sem Paris foi horrível!

 

 

 

 

 

 

au bonheurs dames 489

d'oliveira, 22.04.22

Aventuras com computadores 

mcr, 22-4-22

Já por várias vezes aqui o confessei: sou um analfabeto informático.

Um info-excluído! Um caso perdido. Conseguir ter um mail, enviar correio, escrever um blog, consultar a internet, fazer compras on line é um prodígio e, creiam-me, uma façanha para mim.

Todavia, à minha ileteracia não foi suficiente para evitar quepejasse esta casa de computadores. Sempre fui um usuário "apple" e desde que comprei o primeiro instrumento nunca mais quis outro.Isso, nos anos 90 (e  fins de 80) foi um desafio. todos os meus amigos, os que poderiam dar-me uma ajuda, ensinar qualquer coisinha. O que eu sofri!...

A apple tinha nesses anos e até há uma dúzia de anos outro defeito: não havia mercado de usados. Isto significava que sempre que eu me deixava seduzir por uma nova e melhor máquina, ficava com a velha. Nalguns casos despacheia-a para pessoas que sem pagar um cêntimo sempre ficavam mais bem servidas. De todo o modo, foram-se acumulando. além de um icónico imac dos de bola, mais três portáteis. Um, foi vítima de um banho na esplanada e perante o escandaloso preço do arranjo foi imediatamente substituído pelo seguinte. Depois, sei lá porque razões, apareceu um terceiro portátil (este macbook air). Entretanto, a santinha da ladeira lá terá influenciado o meu genro que depois de insistir para ver o finado por afogamento, chegou-lhe um dedo ameaçador e aquilo voltou à vida como se nada fosse. É o meu computador de rua. Contas feitas há quatro computadores mesmo se um, o de bola apenas sirva para jogar bridge. De facto o software de bridge que uso é, até à data, o melhor que encontrei mas infelizmente não há versão capaz para computadores mais modernos. 

O outro  ( um macbook pro) vai prestando honroso serviço  e está ancorado no que chamamos escritório 2. 

Em suma três portáteis, um de mesa além de outro portátil com mais de 25 anos  estacionado em casa da minha mãe e também adequado ao bridge. 

Ora acontece que há dois dias (provavelmente) terei num gesto elegante e moscovita mexido onde não devia e causado assim uma avaria (um "bug", raio de ingliche!) que não sendo de proporções ucranianas, me cortou o acesso à internet. A coisa começou num e pouco a pouco passou para os restantes sem eu perceber patavina do que se passava.

Felizmente, tenho desde há vinte anos, mais dia menos dia, uma empresa familiar que me presta assistência. Já os sinto mais como amigos (excelentes) do como fornecedores de um serviço. Tenho por mim, e fundado na abalizada opinião de um desses génos da apples, que o técnico Rui Silva é do melhor que há por aí. 

Claro que me precipitei ao primeiro sinal para a loja e hoje, depois de verificar que o desastre atingia os restantes continuei nessa peregrinação. 

Obviamente, ao fim de fazer vários testes, aliás demorados, o sr Rui Silva descobriu o motivo daquela desgraça e com uma diplomacia que falece a muita e muita boa gente, sempre me iformou que algum gesto mais distraído meu tinha feito não sei que maldades a uma firewall (!!!???###) e isso passara subtilmente de um compatador para os restantes . Resolveu o problema, mandou-me passar um bom feriado com um sorriso e dnão permitiu que eu, o perigoso manipulador de computadores inocentes mas imperialistas, belicistas e xenófobos, pagasse! 

Eu, entretanto tinha escrto mais uma vez sobre três criaturas negacionistas da guerra. E tinha até um título enorme ("cristalizar no ortorrômbico ou os antidiluvianos "pretendendo significar que esta gente ou parou nos piores anos da guerra fria ou ainda não percebeu que o muro de Berlin caiu e que a URSS implodiu. Para quem confunde agressor e agredido tudo é possível)

Agora, resolvi pôr o texto na lista dos "borrões" e deixar este testemunho muito mais ligeiro das minhas proprias inépcias. Estas têm pelo menos algo de menos mau: não prejudicam ninguém apenas ferem o meu escasso amor próprio no capítulo informático e são também sinal da idade que me fez chegar tarde à revolução informática. Demasiado tarde... 

Festejem o 25 A como acharem melhor. Ninguém é obrigado a fardar-se de cravo vermelho ou a desfilar pela avenida mas se o fizer também ninguém, e eu muito menos, o olhará de soslaio. A democracia é isto: fazer o que nos dá na real gana sem prejudicar quem quer que seja e, se possível, aumentando o nível de felicidade próprio e dos outros. Ai a liberdade é algo de maravilhoso...

 

 

au bonheur des dames 488

d'oliveira, 19.04.22

 

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D. Madalena

mcr, 19-04-22

 

o jornal traz a notícia que, em boa verdade, já não surpreenderia ninguém. Morreu Madalena Sá e Costa, excepcional interprete de violoncelo, discípula da enorme Suggia que por sua vez fora aluna do avô da primeira.

MSC vinha, como acima já se intui, de uma família de músicos, de virtuoses, gente que enobreceu a história musical de Portugal e, sobretudo, do Porto de forma notável. Durante um bom século marcaram  a arte musical na cidade, ensinaram gerações, deixaram um rasto notável que poderia ser ainda maior se como hoje, houvesse a possibilidade, a enorme possibilidade, de gravar actuações de que toda a gente fala para inveja minha e de tantos outros que já chegaram tardiamente às audiências de MSC e de sua irmã Helena, excelente pianista, aliás.

Conhecia ambas, e com elas privei um pouco sobretudo porque trabalhando durante anos na Delegação Regional do Norte d Secretaria de Estado da Cultura as recebi vezes sem conta sobretudo para tratar de assuntos referidos ao Orpheon Portuense, instituição fundada por seu pai ou seu avô e um dos motores da vida musical da cidade. As duas senhoras eram uma excelente companhia, estavam ao par de tudo o que se passava nas cenas nacional e internacional e no meu tempo já tiveram o azar de viver uma época em que outras preocupações afastavam da área cultural muita gente que antes contribuíra para um ambiente cultural excepcional. O Porto, durante anos, orgulhava-se do seu Teatro Experimental, dos seus dois cineclubes, do Orpheon e do Círculo de Cultura Musical, instituições vivas e pujantes que mobilizavam fortes plateias. De certa maneira, o 25 A abrindo portas à discussão política e às actividades daí decorrentes, enfraqueceu o movimento cultural  e retirou-lhe público e apoios.

De todo o modo, as irmãs Sá e Costa, de per si, eram uma instituição respeitada e reconhecida não só pela actividade artística mas também pelo facto de terem sido grandes professoras que educaram gerações de músicos que continuaram a distinguir-se quer em Portugal quer no estrangeiro. 

Suponho que já há até uma rua celebrando a pianista falecida há alguns anos. A Câmara tem agora a oportunidade de baptizar outra com o nome de Madalena  para ver se evitamos mais toponímia à base de vereadores de que ninguém se lembra e que, com quase toda a certeza, não deixaram obra  que os torne lembrados pelos portuenses.

Seria mesmo bonito, e mais do que isso, digno e imperioso, que a cidade decretasse luto pelo falecimento desta grande artista. MSC, provincial, não será especialmente recordada pelas autoridades culturais nacionais que, coitadas, só olha para o que lhes está próximo. É pena, e sem desmerecer a acção da grande actriz Eunice Muñoz eu lembraria a quem de direito que MSC não fez menos pela grande cultura nacional. Mas, como disse, ela era apenas uma provincial por muito aluna e digna sucessora de Guilher

mina Suggia que fosse. Todavia, a Câmara Municipal tem a estricta obrigação de a recordar e participar na homenagem à artista e professora que a D Madalena (era assim que eu a chamava) merece.