Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Abr19

Au bonheur des dames 481

d'oliveira

Digitalização 1.jpeg

50 anos depois

mcr 16-Abril-2019

 

Cinquenta anos é muito, muito,  tempo. Noutras épocas implicava, quase de certeza, um longo cortejo de mortos piedosamente recordados ou nem isso.

Agora, que a esperança de vida aumentou, com o seu cortejo de ameaças (o ahlzeimer e tudo o resto, o trágico resto) cinquenta anos foi ontem, há sobreviventes em quantidade apreciável o que não diminui ausências dolorosas e injustas (o António Mendes de Abreu, o Fred Fernandes Martins, o João Bilhau, a Fernanda da Bernarda, o “Vává” Sarmento e Castro, o Alfredo Soveral Martins entre muitos mais, por exemplo o Zé Gomes Bandeira...).

Amanhã, no edifício das Matemáticas, acorrerão alguns e num mágico par de horas serão de novo jovens, ardentes, com um feroz e animoso sentido de justiça e uma intensa vontade de ser livres.

Já, aqui, o disse, e repito: a crise académica de 1969 foi a única grande movimentação estudantil que teve no imediato (ou quase) ganho de causa: o ministro da Educação caiu, caiu o Reitor da Universidade, foram arquivados mais de cem processos abertos contra estudantes detidos entre Junho e Novembro de 1969, foram arquivados todos os processos disciplinares contra estudantes grevistas, regressaram de Mafra todos quantos pela sua participação tinham sido sumariamente incorporados na tropa, a AAC não foi encerrada e houve épocas speciais de exames para quem tinha cumprido a greve.

O regime político não caiu, antes arrastou-se penosamente durante mais quase cinco anos. Também não era esse o objectivo dos estudantes de Coimbra que enfrentaram, praticamente sozinhos, durante meses, a repressão académica, política, militar e policial. Também é verdade que a “agitação” estudantil não desapareceu, bem pelo contrário: As prisões de dezenas de estudantes, em Janeiro de 1971 são prova vidente da existência de “réplicas” ao grande terramoto de 1969.

 (sou disso, sem alegria mas sem arrependimento, testemunha: fui preso em Fins de Setembro de 69, penei um par de meses nos cárceres privativos da Polícia Judiciária – creio que bati o recorde de tempo de prisão  aplicada aos que foram detidos, partilhando com o João Bilhau e o Orlando Leonardo a duvidosa glória de sermos os últimos presos. De facto andámos fugidos durante dois ou três meses. Em 71, voltei a ser caçado desta feita pela PIDE que me hospedou em Caxias por uns meses numa cela com vista para o rio e para um trecho de auto-estrada ou algo semelhante onde me divertia a contar os carros fazendo um campeonato ente os que desciam e os que subiam. Na cadeia vale tudo!)

Todavia, amanhã, não estarei com os meus antigos amigos, colegas e companheiros e devo-lhes, por isso, uma explicação. Ei-la:

Depois de formado, rumei à terra onde vivo, estabelecendo-me como advogado. Nesses anos de brasa, pré 25 A ganhei uma clientela extensa de rapaziada que “mijava fora do penico” e que, por isso, estava sempre com o coração aos saltos que a polícia (política) não fazia greve sequer de zelo.

Quando o novo poder democrático se instalou, foi-me pedido que desempenhasse por tempo limitado o cargo de Presidente de uma Instituição Pública. Aquilo que deveria durar alguns meses, arrastou-se por sete (muito felizes) anos. Como sou canhoto de pata, de coração e torto de teimosia. Rapidamente tive alguns poucos conflitos com a gentinha ministerial. Durante o primeiro desses “encontrões” uma dúzia de altos funcionários meus subordinados, entendeu solidarizar-se e aproveitaram o dia do meu aniversário para me convidarem. Desde essa altura que, todos os anos (e já lá vão quarenta e cinco) há um almoço pago por eles e u queijo da Serra como prenda.

Há já uns anos, resolvi corresponder a tal gentileza, e comecei a convidar o grupo para uma sessão de lampreia. Com o decurso dos anos o grupo de bons, excelentes amigos, tem começado a encolher significativamente. Há umas semanas lá se foi mais um justamente nas vésperas da lampreia que foi adiada. Adiada para (são os meus convidados que escolhem a data) para justamente amanhã. Entre dois deveres de amizade não poderia deixar de dar prioridade aos mais velhos que tanto me ajudaram com a sua competência, saber e diligência.

Partilhei com os meus amigos de juventude valores únicos de liberdade e solidariedade de que me orgulho e não esqueço. Com estes mais recentes, (enfim com estes, encontrados nos anos setenta e cinco e seguintes, descobri o prazer de fazer bem as coisas, de trabalhar para a comunidade, de chegar ao fim do dia com a sensação de ter ganho um ordenado e o respeito dos utentes dos serviços que dirigia.

Acho que isto define, razoavelmente, uma longa carreira cívica e política. A todos eles estou grato. De todos recordo o empenhamento e a amizade.

Eis pois a razão de, mesmo ausente, me sentir presente amanhã quando a malta se começar a juntar nas Matemáticas, ao alto das “escadas monumentais”

Ao Rui Namorado e ao Luís Januário, amigos certos e antigos que me convocaram, um abraço. Está justificada a falta?

E a uma leitora e amiga desde o princípio dos anos sessenta que esteve presente e corajosa na crise de 62, um beijo: há um Xenofonte à tua espera Maria A...   

*a gravura: correndo o risco de parecer imodesto, entendi publicar esta fotografia datada de 28 de Maio de 1969, dia em que uma gigantesca Assembleia Magna votou por incalculável maioria a greve aos exames. Fui dos primeiros oradores dessa assembleiae, eventualmente, terei sido o primeiro a defender a ideia de greve. Repito: eventualmente. Na mesa, algo caótica, estão o Gil, eu, o Décio de Sousa e o Silva Pinto. Saravah, companheiros! 

Aproveito este momento para recordar mais dois grandes amigos, entretanto, mortos: o João Amaral e o Zé Barros Moura.  Como não podia deixar de ser, estavam lá, activos, corajosos e entusiastas.

Creio que esta fotografia esteve durante estes 50 anos inédita. Acho que o seu autor se chamava Fraga, estudante de Direito e mais tarde juiz que se envolveu em conflitos vários com o CSM. Onde quer que esteja, um abraço e a minha total solidariedade. 

 

 

11
Abr19

Au bonheur des dames 480

d'oliveira

images-1.jpeg

As políticas familiares e as famílias políticas

mcr,  11-4-19

 

Alguém que, simpaticamente, me vai aturando e lendo, espantou-se com uma referencia ao dr. Mário Soares a propósito das ligações familiares no Governo.

Sem querer censurar tão excelente como exigente leitora, aclaro melhor a minha nota antiga.

O dr. Mário Soares teve, no seu 9º Governo constitucional, como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, o dr Alfredo Barroso seu sobrinho (por parte de sua mulher, Maria(de Jesus) Barroso.

E não se ficou por aqui. Mais tarde já Presidente da República, nomeou o mesmíssimo dr. Barroso Chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Não me dei ao trabalho de escrutinar mais os governos e as presidências soaristas. Para o meu ponto, bastavam estes dois flagrantes (pela importância dos cargos e pela proximidade) exemplos.

Conviria, porém, relembrar que os anos 70, 80 e 90 do século passado, não são exactamente os anos 10-20 deste.

Na época, era comum, cá e lá fora, nos parlamentos, nos governos e nas instituições europeias (sobretudo no parlamento) associar familiares quer como adjuntos, consultores ou chefes de gabinete. .

O mundo muda, as regras (felizmente) também mudam, precisam-se, tornam-se menos permissivas e o que era normal numa época passa a ser bizarro depois e acaba por se tornar inaceitável.

Não são precisos expedientes jurídicos, mesmo se, no caso francês, se tenha chegado, já com Macron, a uma lei que proíbe e pune (com multa e até prisão) as nomeações de familiares.

Lembraria, para os profanos, que as leis são, muitas vezes, a expressão das ideias tornadas comuns entre a opinião pública. Legisla-se, menos para prevenir, mas apenas para tornar firme uma prática já aceite pela maioria da sociedade.

Por outras palavras: o que nos tempos dos drs Soares e Cavaco não causava espanto nem especial condenação, passou, decorridos que foram vinte/trinta anos, em algo que perturba a opinião pública, desacredita as instituições e pode pôr em causa a actual noção de transparência.

Por exemplo: mesmo no caso dos Estados Unidos, a pouco recomendável figura de Donald Trump usou o expediente de nomear filha e genro mas “pro bono”, isto é, sem os remunerar. Subjacente a este truque está a ideia de que estes parentes próximos do Presidente não sobrecarregam os contribuintes.

É claro que na teoria isso é verdade, todavia o circulo de conhecimentos que qualquer deles ganha com a sua situação gerará, no futuro próximo, lucros políticos e, eventualmente económicos, dignos de nota.

Talvez já ninguém recorde o caso dos irmãos Kennedy, um Presidente e outro procurador geral (attorney general) na mesma Administração.

Na Europa tivemos o caso de dois gémeos polacos (Lech e Jroslav Kackzinsky, respectivamente Presidente da República e Primeiro Ministro) e em certos países da América Latina marido e mulher (caso da Nicarágua) desempenham cargos políticos próximos. Isto para não referir as situações em que um dos cônjuges sucede ao outro (A Argentina, por exemplo) ou há famílias que se perpetuam no poder (a Índia dos Nehru ou o Paquistão). O caso extremo é o da Coreia do Norte mas há antecedentes (na China Mao teve uma mulher, Jiang Ching com imenso poder político, na Roménia o casal Ceausescu partilhou o poder (e a morte) como também na Albânia com os esposos Hodja. (Enver e Nexmidje). Em Cuba, os irmãos Castro ocuparam os principais lugares de responsabilidade política tendo Raul sucedido a Fidel. (O que significa que a “esquerda” ou quem se pinta como tal não está de nenhum modo inocente nesta história. Com a agravante de enunciar constantemente exactamente o contrário do espírito dinástico e familiar que caracterizou uma boa parte das direcções políticas e dos comités centrais dos países “socialistas”.

A lista acima citada não é exaustiva, longe disso e apenas se menciona par provar que a confusão entre família e poder político não acontece apenas nas democracias liberais e capitalistas. Aliás há uma diferença: no Ocidente a crítica ainda é possível. Nos regimes ditos “socialistas” isso pagava-se e paga-se ( no que resta) duramente.

Uma segunda questão que se prende com a actual é que deriva da esfarrapada tentativa de desculpar o que actualmente se passa com casos anteriores (no caso bastante anteriores). Os erros de hoje não se apagam com os de ontem ou anteontem sobretudo se ontem (ou anteontem) não havia uma consciência tão sensível como a que agora condena este conúbio de interesses familiares e políticos.

Todavia, nesta história das relações familiares, cheia de som e de fúria, convém observar que uma coisa é a nomeação discricionária de alguém e outra a eleição de familiares para cargos públicos. Mesmo num sistema tão imperfeito quanto o português em que os deputados são eleitos aos molhos, há algum escrutínio popular. Pouco, quase irrelevante, mas existe.

Daí não deverem ser considerados, por medíocres e tolos, alguns argumentos brandidos por segundas linhas do PS quando referem pessoas eleitas de outros partidos que teriam relações familiares com membros do Governo.

Outro argumento usado foi o da qualidade das pessoas nomeadas para gabinetes, instituições públicas dependentes do Governo e outras semelhantes. No limite, o que se pretendia dizer era que o escrutínio público severo afastaria gente competente e premiaria eventuais nulidades! Apenas porque as primeiras eram familiares!... Teoria estapafúrdia e intelectualmente desonesta sobretudo porque se baseia na eventual falta de gente qualificada fora do estreito círculo familiar e político. E, finalmente!, a cereja no bolo: o sr. Carlos César sustenta sem corar que “há famílias tradicionalmente vocacionadas para a política” onde o sentido de Estado está especialmente aguerrido e alerta! Depois das pobres elites aristocráticas temos as elite partidárias...

É para o que estamos...

 

 

05
Abr19

au bonheur des dames 479

d'oliveira

images-1.jpeg

Pequeno lembrete ao dr Costa

(e aos seus epígonos...)

mcr 5/4/19

 

O Sr. Primeiro Ministro entendeu criticar o ex- Presidente Cavaco por este sair do recato a que soem submeter-se os ex-presidentes da República. Desconfio que S.ª Ex.ª não recorda o dr Mário Soares que nunca deixou ( várias vezes com acerto e sempre com pleno direito) de intervir na “res publica”.

Mais: não o fez com punhos de renda ou pezinhos de lã. Alturas houve em que foi truculento, para não usar palavra mais forte.

É verdade que o sr. general Eanes ou o sr. dr. Jorge Sampaio foram mais discretos (poderia dizer-se que estavam nos antípodas do sr. doutor Marcelo Rebelo de Sousa que consegue ainda ser mais interventivo do que no seu longo e conturbado passado de jornalista, dirigente partidário e comentador.

A minha simpatia pelo sr. professor doutor Cavaco Silva é nula e isto desde sempre, melhor dizendo, desde que ele foi ministro das Finanças. Disso há neste blog farta constância numa boa dúzia de textos.

Todavia, não posso nem quero, nem devo impedir que qualquer português – e especialmente quem tem clara influência na opinião pública – de a todo o momento dizer alto e claramente o que pensa sobre a vida política. Diria, até, que os senadores da república tem o estricto dever de não se calarem.

....

Uma segunda questão se me permitem: parece que o sr. dr. Carlos Martins usou, quando era deputado, uma direcção algarvia para receber mais uns miseráveis euros do erário público. Foi apanhado e terá devolvido toda ou parte da soma assim obtida. Conviria dizer que isto, esta bizarra interpretação da “ética republicana” o impediria de chegar a Secretário de Estado. Pelos vistos, nem o Ministro da Pasta nem o Primeiro Ministro pensaram desta maneira. Arriscaram apostar nele e o resultado está à vista...

....

voltando aos recados ao sr. Primeiro Ministro.

Se é verdade que o expediente de pôr o Parlamento a legislar sobre a questão agora em aberto terá algum escasso mérito, não menos verdade é que o próprio Governo poderia estabelecer para si mesmo uma grelha de incompatibilidades familiares. Deixar a discussãoopara a AR significa, por outro lado, adiar para as calendas gregas a resolução do problema. E até lá, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

E finalmente

Da banda do acossado PS, houve a referencia ao caso das sete amantíssimas esposas de ministros ppd que, há quase trinta anos, infestaram os gabinetes dos colegas dos maridos (umas vezes como adjuntas, outras com chefes de gabinete). Na altura, o “Independente” pôs a boca no trombone e muito boa, ou má, gente (eu incluído) explorou o tema. Nessa época, até no Parlamento Europeu havia o arraigado hábito de levar familiares para os respectivos gabinetes de apoio. E não era apenas o caso português. Com o decurso do tempo foram-se afinando as regras (escritas ou meramente implícitas) e o festim foi acabando. A prática, aquela prática, não era saudável mas poucos, raros, a criticavam. Trazer à colação o caso, trinta anos depois, poderá fazer lembrar casos idênticos passados por exemplo com o Dr Mário Soares e alguma parentela. Ou será que ninguém se lembra?

Ou a prescrição só funciona em 50% dos casos?

...

 

29
Mar19

Au bonheur des dames 477

d'oliveira

images.png

Lemos e não acreditamos ou

No desconversar está o ganho

 

mcr 29.3.19

 

Temos um país todo sal, sol e sul (O’Neil) que, ao que dizem é a inveja dos estrangeiros que nos visitam. Vê-se que eles apenas passam, “leve, levemente” (Augusto Gil) e pouco se demoram. Ou quando se demoram refugiam-se no Algarve mais profundo, um pouco na zona de Cascais e, agora, alguns no Alentejo. Gozam uma velhice tranquila como os alemães em Maiorca, num terra onde as suas reformas valem bem mais do que na pátria longínqua e fria.

Eu que, por breves períodos, habitei noutras latitudes europeias, bem os percebo. O sol, o peixe do Atlântico, a natural gentileza das gentes, os baixos preços desculpam muitas coisas e entre elas o analfabetismo político sobretudo quando este se mistura com a espertalhice saloia.

Vem tudo isto a propósito de uma algazarra defensiva soltada por segundas e terceiras figuras do PS (Carlos César, Ascenso Simões ou Pedro Marques.

Supondo que ninguém desconhece estas estes abencerragens, basta-me recordar a questão que, sem qualquer gosto ou prazer, me faz citar estas criaturas é a famosa endogamia governamental e o desenfreado clientelismo que parece vigorar em nomeações longe do escrutínio público de familiares para cargos ditos de “confiança” (chefes de gabinete, assessores, adjuntos, consultores e o que mais vier).

O primeiro a intervir foi Carlos César, cavalheiro sem chama e menos qualidade oratória que desempenhou o cargo de presidente do governo regional dos Açores (e sempre que recordo isto vem-me à memória um famoso texto de Eça sobre o arquipélago e a política da metrópole em relação a ele que vivamente recomendo aos leitores. Estará na Campanha Alegre e, como de costume é um mimo) e é actualmente deputado, chefe da bancada socialista e “presidente do partido”.

. Li algures que vários familiares seus, eventualmente uma boa meia dúzia, desempenham cargos relevantes sempre na velha base da nomeação.

Este César (não confundir com o Borgia ou o Júlio) acha naturalíssima a presença de familiares no mesmo Governo e, já agora, as nomeações de familiares de responsáveis governativos para cargos de “confiança política” para os gabinetes. Tem até uma bizarra teoria para esta surpreendente acumulação de políticos todos eles familiares. Parece que há famílias em que a res política vive com grande intensidade e contagia todos rebentos da mesma gens. Desconheço se César atribui isso a um especial ADN, à Providência Divina, ao “grande arquitecto ou ao mero acaso. A verdade é que ele parece acreditar piamente nesta coincidência porventura científica que faz de uma série de desconhecidos ligados pelo sangue uma espécie especializada no cursos honorum político, seja ele local, regional ou nacional.

No meio da defesa das peripécias governamentais, terá (no que depois foi exemplarmente seguido) citado o caso de deputados que são parentes. César, ou esquece que um deputado é, mesmo no actual sistema de “tudo ao molho”, eleito pelos cidadãos 8e não empossado num cargo político por “confiança”, ou propositadamente chama à colação os eleitos para confundir a opinião pública. No primeiro caso é mera ignorância – indesculpável no seu caso) e no segundo é manifestamente uma tentativa pouco hábil e mainda menos inteligente de deitar areia para os nossos olhos.

Pedro Marques, que de ministro sem obra foi alcandorado a cabeça de lista para as europeias, descobriu fortes doses de misoginia nos comentários: de facto, muitos dos reparos aparecidos tinham como alvo uma extremosa filha de ministro e duas “belas, inteligentes e mais não sei quê” esposas de responsáveis por pastas. Não se no lote também incluía a mulher do ministro Cabrita. Se sim, faz mal. No caso vertente é ele que, muito naturalmente está na sombra da mulher que já tinha um sólido percurso. Fora esta originalidade, Marques fica-se dentro do modestíssimo perfil que se lhe reconhece. Não descobriu a pólvora, nunca a descobrirá mas se atendermos ao que fanfarrona, já vai na energia a hidrogénio... A Europa que se ponha a pau.

E finalmente, cereja no bolo, Ascenso Simões. Ao que sei, ainda antes dos trinta aninhos, esta luminária já emprestava todo o seu charme à vida política. E pelos vistos nunca mais de lá saiu. Um exemplo típico de político lusitano!

Indo pelo seu currículo, verifica-se que além de múltiplas outras coisas há uma forte produção literária (14 títulos, sendo um provavelmente poético e outros – eventualmente- pequenos folhetos). Todavia, não é este o aspecto mais impressionante. Contas feitas, para alguém nascido em 1963, temos que aos vinte anos já era membro da Assembleia Municipal. E com 24 já exercia de vereador. Tudo antes de terminar a sua briosa carreira académica (presidente de uma AE em 1991). A deputação só veio em 2005 mas antes já se tinha passeado por S Bento (adjunto do presidente da AR entre 1995 e 2002). Ao Governo chegou em 2005 e por lá perdurou até 2009, percorrendo, se não erro, três Secretarias de Estado.

É bonito! E exaltante!...

E passemos à sua intervenção na polémica cavilosa que espíritos mal formados lançaram contra o Governo actual. O “Público” (não sei de má fé ou apenas por chalaça) deu-lhe uma inteira página na passada quinta feira, 28 de Março. E aqui Ascenso ascende ao Olimpo não direi das belas letras mas pelo menos da inenarrável confusão. O texto chamado “Manifesto anti-Rangel” pretenderia citar o manifesto anti-Dantas de Almada. Só que...só que não é Almada quem quer mesmo que saiba escrever a onomatopeia “Pim!”Para isso seria necessária uma prosa interessante, uma ironia cortante e algum contexto. Nenhuma destas três modestas condições concorrem num arrazoado que se lê mais espantado que contristado tanto e tal é o disparate. Para Simões, a tese rangeliana (e só quem leu Rangel é que percebe que isto é uma diatribe contra ele...)significaria que da sua condenação do ensimesmamento familiar governamental se pode deduzir uma condenação geral de todo e qualquer laço familiar na sociedade portuguesa.

Comecemos pela singela constatação de que Simões confunde o facto de duas pessoas com laços familiares serem deputados, ao mesmo tempo ou em épocas diferentes, com a existência no mesmo governo e num determinado momento de vários familiares (marido e mulher, pai e filha) E já nem refiro os assessores, chefes de gabinete & assimilados que são parentes e pululam por lá ou lá perto. Ascenso ainda não percebeu que o simples facto de alguém ser eleito significa que passou pelo crivo do escrutínio popular, cidadão e republicano. Em teoria, os eleitores sabem quem é quem que lhes pede o voto. Por isso terão votado duas irmãs (Mortágua) pelo mesmo partido ou dois irmãos Portas por partidos diferentes e convenhamos claramente antagónicos (CDS e BE). No mesmo registo temos (e cito sempre as pessoas que a criatura trouxe à baila) os irmãos Horta. Ou ainda, pasme-se os irmãos Moreira da Silva (um ministro e um vereador!). Tambem na temível lista de Simões aparece um casal igualmente eleitos (Amandio Azevedo e cônjuge) e mais extraordinariamente ainda um ex-casal (os Roseta, ele ministro PPD ela deputada PS!!!). Mota Pinto aparece na lista mesmo se Ascenso pareça não entender que o filho que foi deputado só o foi mais de dez anos da morte do pai.

Ascenso, num desatino onde falece o mais elementar bom senso, vem depois trazer à baila dois prestigiados médicos e irmãos (os Gentil Martins). E nessa onda insana acrescenta mais três pares de irmãos, desta feita militares (os Cabral Couto, os Espírito Santo e os Reis e Fonseca) que no que Ascenso atribui a Rangel nunca deveriam ter chegado a generais !!!

E no capítulo irmãos lá conseguiu ainda mobilizar os irmãos Lopes que ele identifica como quadros do PC.

Finalmente revela que um jornalista Sebastião Bugalho é filho de uma jornalista Patrícia Reis. Também neste registo filial há uma menção a Rui Machete que foi ministro de vários governos até 2014 e Pedro Machete actual juiz do Tribunal Constitucional onde chegou após cooptação de todos os restantes membros desse alto tribunal.

Ascenso pretende dizer que a “doutrina” Rangel nunca permitiria nenhum destes casos mesmo se as situações nada tem a ver com nomeações. Em boa verdade, Ascenso deve achar que Rangel é uma amiba ortorrômbica!

Vai longa a parlenga mas convém realçar aqui que citação de Almada (um texto aliás divertidíssimo) não encobre o facto do manifesto ter tido origem numa crítica de Júlio Dantas (médico e político republicano - da 1ª República) ao então jovem futurista que anos mais tarde será um talentoso pintor e escritor apesar de, a partir do 28 de Maio ter sido um entusiasta do Estado Novo com que colaborou desde logo com o primeiro cartaz a favor da Constituição de 1933. E se é verdade que, muito mais tarde, Salazar terá torcido o nariz a algumas das suas propostas pictóricas não menos verdadeiro é que foi um claro artista do regime por muitos e bons anos. Não foi caso único, antes pelo contrário, mas é conveniente que se dê o seu a seu dono. E o futurismo não foi sempre, nem principalmente, um movimento democratizante como algum néscio poderia pensar ao babar-se com o “manifesto”. Mas ninguém, eu muito menos, exige de Ascenso qualquer luz de conhecimento histórico ou estético.

Pim, Pam, Pum!

Cada bola mata um

Prá galinha e pró peru

Quem se livra és tu!

 

(declaração de interesses: não conheço o dr Rangel. Identicamente não conheço nenhum dos senhores políticos citados pelos media. Também não me apetece conhecê-los. Já basta uma pessoa ter os achaques da idade e ler resignadamente os políticos que se metem a articulistas. Credo!

Fui duas vezes nomeado para cargos de certa monta por pessoas que eram minhas adversárias políticas e que, por mim, foram prevenidas disso. Recusei três nomeações honrosas e financeiramente vantajosas com que amigos meus quiseram brindar-me. Suponho que eles perceberam as minhas razões. Pelo menos, continuam a cumprimentar-me amavelmente. Provavelmente sofro de orgulho a mais (feio pecado, e mortal) e de escrúpulos que estarão fora de moda. Tenho de viver com isso e igualmente de morrer com isso que já é (muito) tarde para mudar. Nunca aceitei cunhas ou as meti. Pelas mesmas razões. O espectáculo a que assistimos é doloroso e pouco edificante.

 

Ai Portugal se fosses só três sílabas...

...meu remorso

meu remorso de todos nós...

(Alexandre O’ Neil)

 

20
Mar19

Au bonheur des dames 476

d'oliveira

No século passado

mcr 19.3.19

 

 

O dr Pedro Nuno Santos já se tinha distinguido em 2011 quando, sem pestanejar e, muito menos sorrir, assegurou que, no que tocava à dívida pública indígena, Portugal possuía a bomba atómica. Bastava dizer que não se pagava e as pernas dos banqueiros alemães começariam a tremer.

Era um delírio, provavelmente devido à mocidade da criatura e, sobretudo à sua falta de experiência de vida, de vida vivida, de vida a sério. PNS foi sempre político desde a sua filiação na Jota socialista até aos dias de hoje. Vê o mundo pelos óculos bem escurecidos, dos cargos políticos e duvida-se que saiba, mesmo vagamente, o que é trabalhar no duro para um qualquer patrão ou o que é andar na profissão liberal a começar a tentar obter nome e clientes.

Depois, também se viu que não sabia o que era a Alemanha, os alemães, banqueiros ou não (por favor mandem-no para lá três mesitos que ele talvez comece a perceber. Aliás, poderá mesmo ir para qualquer outro destino europeu para ver como as coisas acontecem. Poupo-o a uma ida a África pois aí seria bem mais penosa a aprendizagem do mundo.

Agora, volta à ribalta noticiosa por via de um fait-divers. A sua mulher foi nomeada chefe de gabinete de um senhor Secretário de Estado. Parece que ambos, a senhora e o secretariante cavalheiro se conheciam desde a Câmara Municipal de Lisboa e, provavelmente, dos labirínticos corredores do aparelho partidário.

Reinava nessa pouco longínqua época a confiança política e pessoal de um na outra e por isso, só por isso, o primeiro logo que se viu membro do Governo entendeu a que devia entregar a chefia do seu gabinete à senhora em questão.

 

A justificar a decisão estava o facto de a senhora em questão ser eficiente e de merecer toda a confiança do nomeante.

PNS veio a terreiro afirmar que a sua cônjuge merece ser tratada como qualquer outro cidadão/ã e não pode ser menorizada por ser casada com ele.

É comovente este apelo aos direitos humanos, mormente da mulher mas esbarra num escolho difícil de ignorar e que desde a antiguidade tem assombrado os políticos. A famosa frase À mulher de César não basta ser honesta, tem de parece-lo” atribuída a César para justificar o divórcio de Pompeia. De facto, diz a história que Pompeia organizara uma festa exclusivamente reservada a mulheres mas que um seu suposto apaixonado tentara itrodir-se no ágape disfarçado de tocadora de lira. Não conseguiu sequer aproximar-se da anfitriã pois foi rapidamente descoberto e expulso da casa de César. Todavia, este, quis o divórcio e justificando-o com a famosa frase.

A senhora Gamboa pode ser um génio, uma criatura leal, e uma trabalhadora incansável. Merece ter umacarreira política autónoma do marido. Porém, estando ele no Governo, poderá, com ou sem razão, ficar na opinião pública a ideia que só vai para “chefe de gabinete” (de outro membro do Governo) por ser cada com é.

A este propósito relembro uma história antiga muito glosada por um PS também antigo. Num governo PPD houve duas cônjuges de responsáveis ministeriais que também foram para “chefe de gabinete”. Uma das senhoras em causa foi para a Secretaria de Estado da Cultura e era casada com um ministro importante (eventualmente Dias Loureiro). Da outra perdi-lhe o rasto que isto ocorreu no século passado lá pelos anos 80/90. Durante um par de meses foi uma festa de ditos, de piadas, de acusações, enfim o costume.

Mais recentemente, e num exemplo “a contrario” temos que um cavalheiro de seu nome Jorge Simões, presidente do Conselho Nacional de Saúde, se demitiu logo que a mulher, Marta Temido foi indicada para Ministra da tutela.

Relembra-se que Jorge Simões já estava no cargo, que anteriormente passara, como presidente, pela entidade Reguladora da Saúde. Ou seja este professor prestigiado de Higiene e Medicina Tropical há muito que andava nestes domínios (inclusivamente durante o anterior Governo) e era reconhecido como uma autoridade na matéria.

Todavia, entendeu que mesmo estando há tempos no cargo não devia continuar porque sua mulher ia ser Ministra. Bem sei que no mesmo ramo mas o simples facto de já lá estar não poderia ser usado contra ele ou contra a Ministra.

Não vou afirmar que o Professor Doutor Jorge Simões merecia “não ser menorizado por ser casado com é” mas o pudor e o bom senso e uma certa ideia de sentido de Estado levaram aquele profissional reputado a optar por se retirar, reafirmando assim que é honesto e que parece ser honesto.

Este pequeno exemplo deveria servir para o senhor dr Pedro Nuno Santos estar caladinho e não vir para cá para fora a justificar algo que mesmo legal é dificilmente entendido pela opinião.

Ma ao cavalheiro que não percebe os alemães este género de argumentos não convence, se é que sequer os percebe.

Asim Deus (ou o diabo, a escolha é dele) o ajude, se bem que para isso tem ele, primeiro, que se ajudar.

(em tempos que já lá vão, fui convidado - e aceitei - para ser presidente de uma instituição pública. Tive, imediatamente, o cuidado de solicitar à Ordem dos Advogados a suspensão do meu mandato para não poder ser acusado de servir a dois senhores ou de confundir os interesses da instituiçõ com os do meu ofício de advogado. Já nessa altura, uma estadual e secretariante criatura me mostrou o seu espanto porque "nada me obrigava a tal decisão. Tive de lhe explicar com fria cortezia que uma coisa era a lei outra a ética e a vontade de estar em paz com a consciência. Claro que perdi dinheiro que me fartei. Mas dormi sempre bem...)

06
Nov18

Au bonheur des dames 463

d'oliveira

images.png

 

Terça feira de todos os perigos

(e de todas as esperanças)

mcr, terça feira, 12.50 em Portugal, 8 da manhã em N York.

 

Há hoje eleições intercalares nos Estados Unidos. Disputam-se lugares na Câmara dos Representantes e no Senado. Neste último renovam-se 26 lugares ocupados por Democratas e nove por Republicanos. Só um milagre (assim o queira Deus...) poderá dar uma vitória aos Democratas visto ser mais fácil defender uma posição do que arrebata-la ao adversário. Neste momento as representações são quase idênticas havendo uma ligeiríssima vantagem republicana. Os democratas teriam de manter todos os seus lugares e conquistar três aos adversários. É obra!

Na Câmara dos Representantes havia até há pouco uma forte esperança de os Democratas conquistarem a maioria (actualmente detida pelos Republicanos). Pareci desenhar-se uma vaga de fundo acrescida de uma tendencial subida do número de eleitores jovens a que acresceria um cada vez mais notório repúdio das políticas de Trump. Mesmo assim, será bom não esquecer que grupos potencialmente votantes nos Democratas (por exemplo os operários brancos pobres) transferiram-se em massa para o campo de Trump motivados pelo que acreditam ser a defesa intransigente dos seus mal pagos postos de trabalho e a condenação da globalização, fonte de todos os males (sicut propaganda republicana). De facto, nas eleições presidenciais anteriores, o partido Democrata descurou esta frente, porventura desprezou-a e o resultado viu-se: Estados tradicionalmente Democratas acordaram num pesadelo Republicano. Notória culpa das elites educadas que habilidosamente Trump colocou no alvo.

Para além disto, que é assaz conhecido, há – por muito que nos espante a nós europeus – a ideia de que a América é novamente grande (great again) por ter batido o pé ao acordo de Paris, por enfrentar a China ou ter posto fim ao acordo sobre o Irão. Os americanos não esquecem nem engoliram a desfeita da ocupação da embaixada americana em Teerão, detestam os “amarelos” sejam eles chineses, coreanos ou japoneses, temem-nos e acreditam piamente que os europeus são uns ingratos e querem ver a sua defesa feita pelas ogivas e pelos marines americanos. Esquecem ou nunca perceberam que o mundo da guerra fria lhes foi favorável e que, no caso dessa guerra aquecer seriam os países europeus a linha da frente e as primeiras vítimas da URSS.

Mas, eventualmente mais grave do que este conjunto de percepções que assusta o americano médio há desde há semanas a “marcha dos emigrantes sul americanos” em direcção à fronteira sul dos EUA.

Convenhamos que a ocasião foi pessimamente escolhida se é que na génese deste movimento de pobres fugidos ao terror e à miséria não andou mão de conspiradores pró-Trump. É que a “ameaça” deste grupo de desvalidos deslocou a discussão política para terrenos favoráveis a Trump. É a defesa sagrada das fronteiras, a clara “ilegalidade” dos objectivos da marcha (entrar nos EUA “a bem ou a mal” – como se um punhado mesmo numeroso de desgraçados, onde não faltam mulheres e crianças em número avultado, pudesse fazer perigar a tranquilidade e os empregos no mais poderoso país do mundo!). As televisões tem mostrado fartamente esta pobre gente que tenciona caminhar mil e muitos quilómetros para aceder ao “novo e melhor mundo americano”. As declarações recolhidas são claras e (parece) feitas num tom tão afirmativo que podem passar por ameaças(!!!?). “Nada nem ninguém nos deterá!” é o lema mais ouvido. Nada? Ninguém? Sequer uns tiros (que Trump já desmentiu depois de ter ameaçado)? A prisão dos adultos em campos que hão de ser medonhos, a separação dos menores (o que angustia qualquer pai), os maus tratos? Sirva, para o efeito o exemplo do Texas, Estado republicano por excelência, onde um jovem turco democrata ameaça pela primeira vez com alguma consistência o senador Ted Cruz. Até há pouco o Democrata estava razoavelmente cotado nas apostas mesmo se, eventualmente, tal não chegasse para destronar Cruz (um adversário infeliz de Trump na corrida republicana à nomeação), político gasto e de origem “latina” (ao contrário de “Beto” O’Rourke, de origem irlandesa, bilingue saudavelmente parecido com o mito Kennedy. “Beto” é claramente a favor dos emigrantes mesmo se não fossem especificamente os da “marcha”. Com a campanha actual é provável que diminua ou não cresça suficientemente a sua base de apoio.

Quem estas linhas vai escrevendo, mesmo se tem poucas ilusões, conserva, apesar de tudo uma débil esperança no êxito Democrata na Câmara dos Representantes. Vencer aí seria já um princípio do princípio do fim de Trump. A América de Faulkner, de Armstrong e Ellington, de Aretha e John Ford, de Luther King ou Tony Morisson merece mais do um parolo nova-iorquino arruaceiro e mitómano. Andou-se por aí a falar de Bolsonaro mas este seu par do Norte é pior, mais perigoso, mais ignorante e mais fanfarrão. Se cair, ou pelo menos tremer, as suas réplicas sul americanas ou europeias passarão um pouco pior.

O que já seria muito, muitíssimo!

20
Jan18

Au bonheur des dames 435

mcr

unnamed.jpg

 

Unknown.jpeg

 

Não há pachorra!

Existe no Porto, desde finais dos anos sessenta, um conjunto residencial que abrange doze grandes edifícios (igreja incluída) que rodeiam um jardim de boa dimensão para além de boa parte deles estar implantada em zonas ajardinadas e/ou arborizadas. O nome oficial do conjunto é “Parque Residencial da Boavista” mas, na cidade, toda a gente o conhece como “Foco”, nome de um excelente cinema que ainda existe mas fechado. Também fechados estão um hotel de cinco estrelas e um supermercado). Esta obra foi projectada por três conhecidos arquitectos (Agostinho Ricca acompanhado por Magalhães Carneiro e João Serôdio). É no dizer de todos, um conjunto de excepcional qualidade, de grande beleza e passados mais de cinquenta anos sobre a sua concepção nem uma ruga se nota. Obra exemplar da chamada “arquitectura moderna”, há muito que se pensa propor a sua classificação como “área de interesse urbanístico e aruitectonico”. Para além de milhares de moradores, há galerias de comércio e de escritórios e actualmente existem vários projectos de instalação de empresas e serviços nas escassas áreas que a crise tornou vagas. De todo o modo, excepção feita do hotel (que pertencia ao BES e por isso está ainda pendente de ulterior definição), regista-se um crescente interesse por ocupar os poucos espaços ainda vagos. Aliás, entre esses está um edifício de escritórios que justamente é o motivo deste folhetim.

Ao que se sabe, uma empresa (Atitlan Real Estate Porto Imóveis SA) está a fazer obras de restauro e julga-se que este espaço estará integralmente ocupado até meados do ano. Celebre-se a boa novidade mesmo se, para os moradores e comerciantes instalados, esta ocupação traga problemas de estacionamento e de mais trânsito tanto mais que nas imediações estão instaladas duas escolas secundárias, um estádio de futebol e outro hotel.

Nada, porém, explica a estranhíssima ideia da empresa proprietária deste edifício que divulgou uma vista futura da empena do prédio coberta com uma intervenção do artista Vihls que clara e definitivamente contende com as linhas puras e simples deste prédio e dos restantes.

Só uma canhestra e aberrante concepção da modernidade, explica que numa obra reconhecida como de excelente arquitectura se vá pôr um remendo (por muito interessante que Vihls seja) que não só não melhora nada (nem sequer falamos de uma ruína ou de um prédio degradado) mas desfeia um conjunto admirado por arquitectos, artistas plásticos, críticos e cidadãos comuns moradores ou não.

Quem estas linhas traça habita o “foco” desde 1975. Está instalado num apartamento de mais do que generosas dimensões como todas as tipologias dos diferentes edifícios. No Porto (e em qualquer outra cidade) já ninguém faz casas assim, espaçosas e inteligentemente organizadas. Já ninguém faz um conjunto de edifícios com um enorme jardim no meio (que os habitantes iniciais de um dos prédios ofereceu à Câmara. Fiz parte desses ofertantes e nunca me arrependi. Só tenho uma imensa saudade do meu primeiro apartamento na zona um T1 com 81 m2 (!!!) que entretanto troquei por um T4+1 um pouco mais acima também ele de dimensões inusitadas para não dizer impossíveis de encontrar hoje em dia.

Escrevo pois, pro domo mea, mas não é isso que me faz indignar-me com a bacoquice provinciana e estulta da “Atitlan qualquer coisa em ingliche para aturdir os passantes”. Às imobiliárias, infelizmente, ninguém pede bom gosto embora seja recomendável. E bom senso sobretudo quando, por toda a cidade, se verifica um maior cuidado com a construção e com o restauro de imóveis. Pede-se, isso sim, respeito pela arquitectura, pela harmonia, pela história. Para estragar há, seguramente, muitos sítios ainda por construir.

Não é por acaso que, num abrir e fechar de olhos, apareceu uma petição pública dirigida à CM do Porto a requerer a urgente classificação de todo o conjunto. Assinam-na muitos arquitectos, claro mas muitas mais outras pessoas que vivem na cidade, sentem a cidade como sua e reconhecem sem dificuldade a diferença entre um prédio medíocre (e há tantos, cá como em qualquer outro lugar) e algo que durante mais de cinquenta anos ainda se pode gabar de ser emblemático.

Já se destruiu e desfeou demasiadamente. Proprietários, chicos-espertos, empresas ambiciosas destituídas de qualquer bom gosto aliaram-se para tornar grandes zonas urbanas inabitáveis e irrespiráveis. A ganhunça obscena é a palavra de ordem geral. Há que dizer “BASTA” a esta enxurrada. Sob pena de, mais dia menos dia, ficarmos soterrados por um tsunami de falsa engenharia, de arquitectura feita por mestres de obras ignorantes e de criaturas que confundem Vieira da Silva com os graffitis da estação de Campanhã.

Claro que a empresa em causa ao sentir o temporal já começou a tentar recolher o velame. A obra de Vihls teria um “carácter efémero”, juram. Um empena com a altura   de oito ou nove pisos e parte de uma outra fachada adjacente custa só numa borradela pobre um ror de dinheiro. Pedir a um conhecido artista como Vihls que a cubra é coisa para muitos e bons milhares. Em efémero? Esta gente é tonta ou quer fazer-nos passar por parvos? Ou no inglês de merceeiro deles, julgam que somos a bando of fools?

Stop it!

Stop it now!

Stop it, porra!

* a petição corre na internet sob o nome “pela classificação patrimonial do parque residencial do Boavista Porto”

13
Dez17

Au bonheur des dames 437

mcr

Raro? Nem tanto, assim

 

mcr 12/13 Dez 2017

 

Subitamente, uma reportagem televisiva (TVI) alvoroçou os portugueses.

Alvoroçou e perturbou por razões várias que a seguir se exporão.

Parece que a associação “Raríssimas”, uma IPSS (Instituição Privada de Solidariedade Social) funcionava de forma altamente surpreendente. Não negando o interesse (e eventualmente a obra realizada) parece que tinha uma presidente que era generosamente abonada pelos seus serviços: um ordenado de 3.000 euros, ajudas de custo que iam quase até aos 2.000 sem falar de um fundo abonado para aposentação no valor de 800 euros mensais.

No meio disto tudo ainda constavam umas despesas extravagantes (gambas, vestidos, spa, etc...)

Comecemos, porém, pelo ordenado da senhora em causa. Nas IPSS o máximo admissível ronda os 1650 euros ou seja praticamente metade do que a dirigente percebia. Isto não contando os outros pagamentos que, nas minhas contas andam entre 2000 e 2800 euros mensais.

Também, parece certo que a generosa presidente da Raríssimas empregava na instituição familiares directos (pelo menos um marido e um filho) desconhecendo-se quais as competências destes.

Como vai sendo costume no “torrãozinho de açúcar” a instituição convidava políticos de todos os bordos para os órgãos sociais (até o actual ministro Vieira da Silva foi, durante dois ou três anos vice-presidente da Assembleia Geral. A título gratuito, assegura ele coisa de que não duvidamos. Sem saber como a casa era gerida, o que se aceita com alguma dificuldade. A mulher do ministro foi a Agrenska (Suécia) como participante num congresso ou colóquio em 1916 sendo o pagamento da viajem adiantado pela Raríssimas que depois terá sido ressarcida pela organização do evento. Desconhece-se se a senhora dr.ª Sónia Fertuzinhos teria especiais conhecimentos para intervir sendo certo que não é uma especialista em saúde. Aliás, convém lembrar à sr.ª deputada que esta viajem decorreu na altura em que o marido era ministro da tutela e só isso a deveria ter feito pensar duas vezes. Mas, mesmo com singular esforço, acredita-se na ingenuidade da conhecida política. Políticos ingénuos não faltam por aí, mesmo se, na generalidade o grau de ingenuidade não vá tão longe)

A mulher do antigo Presidente da República terá sido madrinha da Associação. De todo o modo, a sr.ª Cavaco Silva deve ter apadrinhado dezenas ou centenas de organizações semelhantes. As primeiras damas adoram esse eminente serviço patriótico e social e não falham uma oportunidade para demonstrarem o seu acrisoladoo amor pelos desprotegidos. O combate feminista para aqui: em sendo primeiras damas estas abnegadas criaturas dedicam-se à caridade ou às artes e letras, ainda que em circuito limitado e desinteressante.

Há um senhor Secretário de Estado que colaborou antes de se governamentalizar com a instituição. Recebia uns pingues 3.000 euros mensais pelo trabalho de consultor. Ignora-se em que o robusto talento deste melhorou a Raríssimas mas não se duvida que deverá ter deixado um rasto forte.

...........

(razões de vária ordem, interromperam aqui o folhetim que se retoma 24 horas depois)

O aludido Secretário de Estado já não é. Que desperdício! O Sr. Ministro tropeça nas cada vez mais patéticas explicações sobre a sua inacção. Sabe-se agora que as denúncias foram periodicamente enviadas ao Ministério desde Agosto. Devem ter-se perdido no correio ou nalguma gaveta traiçoeira do Ministério: aquilo é tão grande...

Também se compreende (se é que compreender é o verbo adequado) cada vez menos a excursão da amantíssima esposa do Ministro à Suécia.

Fossem estes tempos os de Passos Coelho e já o estrondo protestário teria ululado por todo o país e regiões autónomas. Isto porque já não há colónias senão até de Timor chegariam patrióticos e indignados protestos.

A coisa está tão negra mesmo se tudo se passe sob a imposta surdina da “geringonça” que o próprio PS quer o Ministro no Parlamento!...

Vê-se que os tempos são diferentes e as indignações mais do que moderadas.

De todo o modo, convém relembrar aos mais distraídos duas ou três verdades. A primeira é que sem IPSS o país estaria muito, medonhamente, pior. A segunda é que uma IPSS é algo que fica bem no botão da lapela de um político. A terceira é que em milhares de IPSS milagre seria se, volta e meia, não houvesse escândalo.

Eu próprio acabei a minha carreira na Segurança Social com uma intervenção numa Misericórdia entregue a um Provedor manhoso que a sangrara até ao tutano. Disso haverá um pequeno eco nos primeiros tempos deste blog e, sobretudo nos jornais locais e nacionais da altura. Hoje em dia, confesso que me diverti, mas não deixo de reconhecer que durante três meses enfrentei toda a espécie de dificuldades, faltaram-me apoios e foi preciso algum, bastante, sangue frio para que a minha pequena equipa (uma técnica social, um jurista e uma economista) ganhasse aquela guerra.

(Na semana posterior à nossa vitória, a Câmara Municipal, uma empresa local e um benemérito também local entregaram-me quase três mil contos para recomeçar quase do zero a tarefa para que a Misericórdia fora fundada.

 

Este folhetim vai dedicado à memória do dr. Sílvio Matos, amigo desde Coimbra, meu subordinado durante anos e devotado colaborador nesta campanha que ele abraçou com entusiasmo, abnegação e muita competência.

Não refiro a restante equipa para lhe evitar problemas idênticos aos que, depois, tive com alguns dirigentes da Segurança Social. Há gente que não suporta o sucesso dos outros.  

 

29
Set17

Au bonheur des dames 428

mcr

35434d_lg.jpeg

 

Houve gente melhor

(e, sobretudo, uma imensa multidão claramente pior)

mcr 29.09.17

 

Não era sobre Hugh Heffner (HH) que pretendia escrever. Todavia, a sua morte merece um comentário tanto quanto possível desapaixonado e, espero fervorosamente, sem pôr em causa a eminente dignidade das mulheres.

Convenhamos que é uma empreitada difícil. A “Playboy” notabilizou-se pelas fotografias (aliás belíssimas) de mulheres com pouca ou nenhuma roupa. As famosas “coelhinhas” (bunnies) que, mensalmente, apareciam em quantidade inimaginável na revista e, depois de fundada a “Mansão”, por toda a propriedade de HH.

A revista “Playboy”, e as dezenas de edições noutras línguas, tem mais de sessenta anos e, mesmo se já não vende como vendia, é ainda um grande negócio editorial.

Para além disso, a “Playboy” foi sempre uma revista com enormes ambições literárias e não só. Não tem conta o número de grandes escritores (e não só americanos) que ali publicou artigos, novelas, contos ou poemas. Publicou e foi regiamente pago, é bom dizê-lo. Os mais empedernidos adversários de HH juram que a vertente literária era meramente um álibi, uma desculpa para a publicação das fotografias. Admitamo-lo. Porém, além desta intensa e magnífica colaboração literária, HH trouxe para a revista a discussão de causas “fracturantes” (como agora se usa tanto). E nisso foi porta-voz voluntário e decidido de algumas grandes reivindicações feministas, a começar pela liberdade de prescrição da pílula e a continuar pela discussão sobre o aborto.

Outras causas (casamento de homossexuais, defesa das minorias sexuais, ataque ao puritanismo sexual ) foram cavalos de batalha de Heffner que nunca virou costas a uma boa (e geralmente justa) luta.

O exemplo dele foi seguido abundantemente e em todos os tons (da francesa “Lui” até à “Penthouse” – mais atrevida e à “Hustler” que chegou a reivindicar a pornografia) e em todas as latitudes, carreando para este tipo de revistas todos os ataques de moralistas, fanáticos religiosos e, é bom relembrar, extremistas de Direita. Multas e prisão (incluindo uma tentativa de assassinato contra Larry Flint, editor da “Hustler” que, em consequência ficou reduzido a uma cadeira de rodas. O agressor pertencia a uma grupo supremacista branco e o ataque tinha como causa próxima um ensaio fotográfico que mostrava um negro e uma branca).

Também seria interessante lembrar a constante atenção às artes, mormente à pintura, ao cinema e à música. Na “Playboy” publicaram-se alguns dos grandes textos sobre jazz de que tenho memória, mesmo se, nunca tenha passado de um leitor ocasional. Claro que as fotografias das “playmates” me seduziram, ai não que não seduziram. Mas a revista ia muito para além disso e, em matéria de de exploração da mulher há uns milhares de títulos de “imprensa cor de rosa” que nunca suscitaram a mesma desenfreada ira de feministas e de moralistas. Com uma diferença: Nada nessa revistas (e por cá são mais de vinte entre mensais, semanais ou quinzenais) tem a qualidade e, sobretudo, a qualidade da “Playboy” para já não falar na completa ausência de textos dignos sequer de uma leitura em viés.

Heffner, um herói do nosso tempo? Nem tanto, nem tanto, mas, pelo menos, uma personalidade que moldou duradouramente muita coisa e foi, queiram ou não alguns adversários, um defensor da liberdade. Num mundo cada vez mais perigoso e alienado, só isso merece um cumprimento e um agradecimento.

* na gravura: Marilyn no 1º numero da "Playboy"