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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Jul19

Au bonheur des dames 490

d'oliveira

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Notas à margem

mcr 17.07.2019

 

Emídio, Raio, Edgar, Jesus Correia e Correia dos Santos!

Eu não sei se alguma das leitoras (e leitores) reconhece estes nomes. Provavelmente não! E, porém, eles foram celebres nos finais de 40 e nos 50 do século passado. Fizeram a grande equipa de hóquei em patins de Portugal durante anos e anos. Ganhavam tudo ou quase. Oe relatos radiofónicos eram seguidos por multidões em casa, nos cafés, por todo o lado. Nós miúdos, na escola e depois no liceu, durante quinze bons dias abandonávamos o futebol e disputávamos animadissímas partidas de hóquei (sem patins). Aliás sem nenhum artefacto da modalidade. Não havia, ou se acaso havia algum stick este era caro para uma grande maioria. Que os tempos eram outros, pobres, muito pobres, hoje ninguém se lembra ou, pior, ninguém sabe. Nem sequer a Escola o lembra. Portugal no post-guerra era pobre e maltrapilho. Os ricos escasseavam e muitos deles cuidavam de levar uma vida recatada e sem esbanjamentos. Deixavam isso para os “novos ricos”, para os arrivistas, para os que tinham feito fortunas, nas negociatas da guerra, sobretudo nas conservas e no volfrâmio, no contrabando de café para Espanha (que estava ainda pior do que nós). Uma jornalista chamou ao pais o “paraíso triste” e nunca um nome foi tão bem aplicado. No meio disto tudo, de uma quase geral resignação, o hóquei foi um bálsamo, um foguete luminoso, um arco íris. E os cinco acima citados, foram bafejados pela glória e pela admiração e carinho populares. De todo o modo não enriqueceram nem foram recebidos (que me lembre) pelo Presidente da República. Terão voltado para os seus mesteres habituais e porá lá continuaram. A grande excepção era Jesus Correia que além de exímio no hóquei foi um grande jogador de futebol, do Sporting, onde fez parte dos “cinco violinos”. Terá marcado cerca de mil golos (!!!) e ganhou pelo menos seis ou sete campeonatos. Tantos quantos os de hóquei.

Vale a pena lembrarmo-nos dessa equipa agora que voltámos, depois de um longo jejum, a ser campeões mundiais.

2 Tão pública que ela é (para o anedotário nacional) a CGD, o famigerado banco público, devotado ao alto interesse da pátria e à protecção dos cidadãos, entendeu, depois de outras tropelias tais como fechar balcões a esmo, deixar de pagar juros inferiores a um euro.

Parece uma ninharia mas na verdade, para além de ser um confisco (ou uma ladroeira, escolham o termo) aqueles muitos milhares de importâncias abaixo do euro ainda faziam jeito a muito boa gente. Vá lá que, desta vez, o Banco de Portugal rosnou. E a CGD recuou, pelo menos para já.

Do passado nem falemos: a CGD, o tal banco nosso, público, já nos custou muitos, muitíssimos milhões. E ainda não se sabe o que mais se irá encontrar. Por enquanto só há um ex-gestor na cadeia e não por via da CGD mas por um pequeno e merdoso delito. Por aí, à solta, vagueiam, felizes e contentes, vários cavalheiros. Inocentes, inocentíssimos, claro. E virtuosos... muito virtuosos.

 

3 mamarrachos

(ou eu hei de ir a Viana...)

 

O que se passa em Viana com o prédio Coutinho não é sequer um dramalhão de faca e alguidar. É apenas uma vergonha. E conviria deixar de chamar nomes aos moradores que ainda lá sobrevivem, melhor dizendo subvivem que mesmo que a razão estivesse toda do lado camarário (e não está) ou dessa caríssima vianapolis que já vai em duas décadas de pouco serviço.

Relembremos: o prédio foi construído com todas as licenças necessárias. Não houve atropelos à legalidade que se saiba e de nada serve arguir que a coisa começou ainda no antigo regime. Começou mas continuou pacificamente no actual. E se é verdade que o prédio não prima pela beleza, também não é menos verdade que, dentro de Viana com casas baixas há muito pior. Isto sem falar no mostrengo ao alto de Santa Luzia, imitação horrenda do horrendo Sacré Coeur monumento construído em pagamento de uma promessa : se a França se salvasse na guerra franco prussiana (que aliás perdeu sem apelo nem agravo) ergueriam “aquilo”.

Eu percebo que, em Viana, alguém desejoso de passar à imortalidade local começasse uma campanha contra o prédio. De todo o modo, os critérios estéticos são de per si sempre contestáveis, mesmo se numa cidade baixa um edifício com 13 andares parecesse (e fosse) excessivo.

Seria bom e útil, saber quanto custou até agora futura demolição e o realojamento dos quase trezentos habitantes. Mais os honorários da rapaziada da vianapolis, os custos com advogados e tudo o resto. A ideia é que a coisa deve dar uma maquia gorda, obesa, elefântica!

Do ponto de vista moral, simplesmente moral, a guerra desencadeada contra os habitantes, a pressão exercida durante estes vinte anos deve ter sido tremenda. Sobretudo numa pequena cidade como Viana. E foi tal a pressão que muitos, quase todos (mais de 90%) foram desistindo, foram-se rendendo, acossados pela tal sociedade, pela Câmara, pelos media, pelos poderes públicos e pelas boas consciências da cidade. E os habitantes que saíram foram ou realojados ou receberam as indemnizações mais ou menos impostas.

 

Nestas últimas semanas o zelo medonho dos anti-Coutinho atingiu o auge. Cortaram a água, a luz, o gás, proibiram a entrada de familiares e, preparavam-se para proibir o regresso a casa dos imprudentes que saíssem. Foi vergonhoso e digno do 4º mundo ver os desgraçados velhos que resistem a içar a comida e a água por cordas. É inacreditável que se corte a luz a quem a paga. Por muitas sentenças que se tenham na mão. Aliás não chegam como se viu com este último recurso dos moradores com a providência cautelar.

Agora uma pomposa criatura vagamente amparada pela Administração pública ameaça os moradores resistentes com acções de perdas e danos. Essa pessoa de maus fígados e pior moral deveria, por um breve momento, pensar na angústia de quem vive numa casa a que chama sua, que é sua, que foi legitimamente comprada e vivida durante dezenas de anos.

Isto a que se assiste é o Estado, ou este triste estado de coisas, a usar da sua força contra fracos. Melhor andariam os arautos da estética se começassem a olhar para as inumeráveis criaturas que defraudaram e continuam a defraudar o Estado, o Tesouro público e a rir-se dos cidadãos portugueses. A única diferença é que estes bandoleiros que fazem do país um imenso pinhal da Azambuja, tem poder e tem força.

Claro que isto vai acabar mal para as nove pessoas (todas idosas) que ainda aguentam todo este desacato. Mas a vitória dos vianapolistas é, será sempre, uma triste vitória.

(ainda mais à margem: tudo isto se passa enquanto no parlamento se vota uma lei da habitaçãoo!...

 

4

o sr. Carlos César abandona o parlamento. Boa viajem e que uma estrelinha o guie. Segundo ele, é “um incorrigível açoriano” e por isso vai à vida. Para os Açores?

As más línguas, que as há sempre, relacionam esta saída com o facto de se ter gorado a ideia de o alcandorar à presidência da Assembleia da República! César jura que não, que nunca pensou nessa possibilidade. Que jamais correria Ferro Rodrigues do lugar. Credo! Logo eles tão amigos! Eu não sei o que é ser incorrigivelmente açoriano. Será que um açoriano pode deixar de ser açoriano? Ou sê-lo temporada sim, temporada não? Que diabo, uma pessoa é da terra onde nasceu. Pode evidentemente, mudar de terra, ser expulso dela, adoptar outra por vários motivos, incluindo o facto de encontrar trabalho e futuro noutro lugar que não o natal. Mas nada lhe tira a naturalidade.

No caso do sr. César (Carlos, de seu nome) o facto de ser deputado pelos Açores já justificava a sua incorrigibilidade. Estava no Parlamento para lembrar ao mundo, a Portugal ou aos restantes companheiros de tribuna, que, no meio do Atlântico Norte, há um arquipélago mais ou menos vulcânico que merece atenção. Nada disto implica com o ser-se incorrigivelmente indígena da Terceira ou da Graciosa ou de qualquer outra ilha açoriana incluindo o ilhéu dos Capelinhos.

Claro que o sr César pode estar farto do parlamento. Até seria uma prova de bom gosto. Mas não. A criatura garante que continuará (para mal dos nossos pecados que, pelos vistos hão de ser muitos e medonhos) a fazer política. A, como outro fantasma, a “andar por aí”.

A menos que, à falta da presidência do parlamento, volte a pensar na da região dos Açores mas isso é com os eleitores de lá...

 

5 anda por aí muito machismo disfarçado Reza a lenda que Santa Úrsula prometida a um pagão foi morta por Átila (outro pagão) por se recusar a casar com ele. As suas onze (ou onze mil)companheiras todas virgens como ela foram igualmente mortas pelos hunos ou por outros bárbaros do mesmo género e espécie. Tanta mortandade faz pensar que naqueles ásperos tempos não era bom ser mulher. E nos de hoje?

A senhora Úrsula von der Leyen teve contra ela vários cavalheiros que insistiam em acusações antigas que se verificaram infundadas ou em apreciações pouco lisonjeiras sobre o seu último e difícil cargo ministerial (Ministra da Defesa! na Alemanha!!!) mesmo que geralmente se lhe reconheçam excelentes serviços nas anteriores pastas com especial destaque para o Trabalho,

Dentre os críticos, assume especial relevo, o SPD, partido social democrata alemão em acelerada queda junto dos eleitores. Melhor dizendo, e digo-o com profundo desgosto, está a caminho de se tornar uma insignificância na Alemanha. Um pouco como o que se passa em França onde o PS está nos cuidados intensivos. Ou na Grécia onde o PASOK já só é uma triste memória.

Nada tenho contra o anterior candidato, o sr Timmermans, mesmo se também o não achasse nenhum Hércules político. Aliás, a regra não escrita do PE é eleger para este cargo um representante do partido mais votado. E esse partido é, goste-se ou não, o PPE. Claro que das últimas eleições o PPE saiu menos robusto. Mas essa falta de força não se traduziu em ganho para os socialistas antes permitiu a entrada de mais pequenos grupos políticos no PE e algum crescimento dos ecologistas. Isto para não falar dos anti-europeístas que, ontem pela gritaria dos adeptos do sr Farage se mostraram tão educados quanto as antigas claques futebolísticas britânicas

Tenho por mim que a eleição agora assegurada de Von der Leyen tem para já uma imensa virtude: Finalmente uma mulher à frente da Europa. Já não era sem tempo. Do que fui lendo sobre ela e sobre as suas propostas não vi motivo de escândalo. Cumpre os mínimos à vontade e parece-me, por exemplo, bem mais interessante do que Durão Barroso. Aliás, o facto de ter uma sólida formação académica, ser médica e doutorada, aliada ao quase inacreditável facto de, numa Europa que envelhece sem natalidade que se veja, ter sete filhos, é um bom sinal. E ter sido ministra de áreas sensíveis (Trabalho, Segurança Social e Defesa) dá-lhe um bom background. E o discurso foi bom, francamente bom.

Mas, há sempre um mas, von der Leyen é mulher. Mulher num mundo de homens de barba rija. E, pelos vistos, não cedeu nem precisou de certos votos dúbios. Aliás, dúbia foi a inesperada aliança dos anti-europeístas, com a tropa inglesa e alguns ilustres deputados sans peur et sans reproche que votaram baseados unicamente no preconceito ideológico que disfarçava também, e talvez principalmente, muito marialvismo. Parece que, contra a srª Von der Leyen há a acusação de não ter sido eleita deputada ao PE.

Finalmente, aqui, muito entre nós, o cabeça de lista do PS local foi eleito não pelo seu mérito próprio que é inexistente mas porque sim. E à frente de uma mulher competente, Mª Manuel Leitão Marques, que provavelmente faria (fará?) boa figura na lista que a nova Presidente da Comissão vai apresentar numa composição enfim paritária.

02
Jul19

au bonheur des dames 489

d'oliveira

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Ai aguenta, aguenta...

(a culpa é sempre do povo ingrato)

Mcr (Junho, 2019)

Uma secretariante estadual criatura entendeu vir anunciar a um grupo parlamentar que as filas de cidadãos à porta das repartições que tratam do cartão de cidadão eram culpa única desses mesmos cidadãos, perdão súbditos.

De facto, sempre segundo a surpreendente senhora, são os cidadãos que, ao juntarem-se em magote à porta do serviço com horas de antecedência em relação ao horário de funcionamento, fazem com que o serviço entupa.

Parece que, quando se começam a distribuir as senhas para atendimento, estas se esgotam num ápice e fazem com que cidadãos mais retardatários que entendem só dever procurar a repartição quando esta oficialmente abre ao público batam com o nariz na porta.

Ou seja, os cidadãos que, por imperiosas razões julguem ser seu dever renovar o documento de identificação, são os responsáveis pelo naufrágio. Eu não posso estar mais de acordo com a governante personagem. Os cidadãos são uma chatice medonha para quem carrega aos ombros a pesada cruz do Estado. Se não houvesse estas criaturas madrugadoras e sofredoras tudo se passaria no melhor dos mundos. E sem bichas!

Provavelmente também não haveria necessidade de passar o cartãozinho. Aliás, países há, não dos menores, que não impõem qualquer cartão aos seus indígenas. Todavia, neste jardim ocidental, neste “torrãozinho de açúcar” o malfadado papelucho é preciso por tudo e por nada. E não há documento que o substitua, mesmo se vier munido da fotografia do resinado íncola interpelado por uma qualquer (e são múltiplas...) autoridade civil religiosa militar ou outra, por exemplo o marçano da loja onde se vai por dois quilos de batatas e um litro de azeite.

Há neste país prodigioso ( e não será um prodígio o facto de enquanto meia europa sufoca encalorada, por cá sopre uma doce brisa primaveril que nos permite passear de cabeça descoberta e sem recear uma insolação?) um extraordinário hábito e que é este: a culpa é sempre dos outros, nunca nossa Ou então é o destino cruel, o fado antigo, algum malefício ou praga encomendados contra nós.

A ideia de que a passagem das quarenta para trinta e cinco horas de trabalho (uma justa medida há muito reclamada pelo povo trabalhador), o facto de haver uma crónica falta de pessoal em muitas repartições públicas, a insuficiência de meios técnicos adequados, as famosas cativações que nos irão posicionar num lugar cimeiro do deficit público – os melhores entre os melhores - é coisa que não perpassa pela ment iluminada da senhora SecretáriaBem pelo contrário: é a populaça ignar e vil que no seu descontrolado afã de obter um documento se amontoa num caos sem precedentes à porta dos Serviços exigindo em medonho murmúrio o documento de que, com descaramento inaudito, diz ter necessidade.

Isto, essa mole plebeia e mal educada que se levanta noite fechada para, ameaçadora, vir perturbar a paz pública, tem um único fito: perturbar a excelente governação da pátria que a pariu e levar a cabo uma campanha canalha contra o partido no poder, os seus amigos (ou amigalhaços? Ou ex-amigos?) com vista a fazer a nação valent e imortal voltar atrás, aos tempos da troika malvada, do dr Passos Coelho, agente do conservadorismo e relutante saudoso de tempos ainda mais antigos.

Não se percebe, porém, como é que uma outra Secretária de Estado, entendeu desmentir a primeira (caridosamente afirmando que as palavras desta tinham sido mal entendidas, fora do contexto, como de costume.

Em que é que ficamos?

 

Nem de propósito

Tina acabado a crónica acima quando a minha Mãe me pediu para ir levantar algum dinheiro a banco. A excelente senhora que está a muito poucos passos do 1º centenário não usa cartão e, de resto, por dificuldade de locomoção, prefere mandar os filhos levantar-lhe o dinheiro que precisa para pagar as empregadas e fazer as compras da casa.

Desta feita, quando cheguei à agência havia uma bicha de cinco ou seis pessoas diante da caixa. A pessoa que lá estava despachou um cliente e zarpou para outro local para entregar dinheiro a uns homens fardados de algum transporte blindado. E chegaram, entretanto, mais pessoas que resignadamente se dispuseram a esperar. Dez ou quinze minutos depois os seguranças lá partiram ajoujados, penso eu, ao peso das notas acondicionadas numas maletas de aspecto robusto. E a bicha começou a mover-se. Quando fui atendido e antes sequer de perguntar o que se passava, o caixa entendeu explicar-me que havia dois colegas de férias, que, de qualquer modo, a equipa da agência era reduzida, que o banco tencionava encerrar cem balcões (!!!) e que nós, os usuários e depositantes, tínhamos de “compreender”. Retorqui-lhe que o banco não é o Registo civil, nem nós os solicitantes de cartão de cidadão. Que se havia pouca gente que arranjassem mais. E que, à falta de podermos trocar duas amabilidades com o Presidente do banco ou sequer com o gerente que está sempre em lugar incógnito, era aos funcionários que exprimíamos a nossa indignação. E que se ele se achava inocente que informasse quem de direito, nem que fosse apenas o sindicato.

Tudo visto, despois do descaso dos poderes públicos, as instituições privadas , ou algumas, também acham que os utentes são os culpados do mau funcionamento e, sobretudo, uns chatos que só sabem resmungar e não apreciam como deviam o facto do banco generosamente lhes guardar o dinheiro que aí depositam.

* O título refere uma frase de um senhor banqueiro que interrogado sobre as dificuldades do povo e da sua (in)capacidade para as aguentar respondeu lapidarmente. E tinha razão...

12
Jun19

Au bonheur des dames 488

d'oliveira

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Remember Ruben

mcr 12.06.19 

Aproveito o título de um belíssimo livro de Mongo Beti (escritor cameronês, desparecido no princípio do século) para me despedir do Ruben de Carvalho que conheci logo nos inícios de 60 nas lutas associativas estudantis. Acho que, da primeira vez, ele ainda seria liceal e membro da pequeníssima pro-associação dos liceus de Lisboa, aliás a única que existia. Não sei porquê mas associo-o a umas aventuras (modestas) com malta das RIP (reuniões inter propaganda) por altura da crise e que terminavam sempre, se a memória me não trai (coisa que começa a ser frequente...) na Portugália, à volta de umas imperiais. Durante alguns, poucos, anos ainda nos encontrávamos sempre por via de questões estudantis e/ou políticas. Todavia eram encontros breves, quase fortuitos, tanto mais que eu era de Coimbra e o Ruben lisboeta assumido.

A partir dos anos 70 só fui sabendo dele pelos jornais e por alguma esporádica aparição na televisão. Conservo, porém, uma boa recordação dele e, mesmo sem nunca ter partilhado as suas opções ideológicas e partidárias, estimava-lhe a maleabilidade, a cultura e a boa disposição. Agora, sei, de ciência certa, o que sempre suspeitei. Era a ele que se devia o programa diversificado da Festa do Avante, pelo menos no que toca à música. Até nisso se podia perceber o grau de liberdade (de heterodoxia?) de que o Ruben gozava. E gozava-o porque era respeitado e porque se sabia fazer respeitar.

Amigos ou conhecidos comuns que navegavam nas mesmas ou próximas águas do Rúben isso mesmo me confirmavam. Gabavam-lhe a inteligência, a cultura, a amabilidade, o humor e...a firmeza.

Morre agora, com 74 anos, uma vida cheia e, suponho, uma maleita sacrista e pertinaz. A morte colhe as vítimas cegamente e não tem quaisquer escrúpulos na hora de escolher. Fica-nos uma memória, no meu caso bastante ténue mas abençoada pela alegria daqueles anos tumultuosos em que qualquer escolha encerrava perigos e a aventura estava proibida. Éramos poucos, muito poucos, “we jfew, we happy few we the band of brothers”, que, paulatinamente, o peso dos anos vai inexoravelmente reduzindo. E o Ruben era um dos mais novos...

* na gravura : Mnemosine a deusa da memória e as musas

09
Jun19

Au bonheur des dames 487

d'oliveira

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Fazer dos outros parvos

mcr 9-06-2019

 

1) Eu não queria falar do dr Victor Constâncio. E não queria por uma velha velhíssima razão. Há muitos, sei lá quantos, anos, um velho amigo meu ao saber que eu não estava inscrito num partido, entendeu insistir durante semanas para que entrasse no PS. Na altura o PS andava na mó de baixo, o meu amigo dava-me cabo do pouco juízo que tinha de modo que lá me inscrevi. Descobri, estupefacto, que tendo saído de um agrupamento em que fervilhava a discussãoo ideológica, o PS era um remansoso local onde ninguém se dava a tais práticas. Na secção que me foi destinada, o mais político que ouvi da boca de uma senhora que fazia de responsável foi que os militantes machos fumavam que nem carvoeiros e que ela tinha de varrer a sala das cinzas e até de uma que outra beata deixada cair por algum camarada menos cuidadoso. Não vou contar a minha vida partidária mas sempre acrescento que subi de vento em popa e um mês depois de entrar já era delegado a um congresso federativo, candidato sem o saber a um lugar no respectivo secretariado e mais não sei o quê.

tudo isto porque na campanha que opunha Constâncio a Jaime Gama, escolhi como de costume o lado errado e defendi Constâncio um par de vezes ( “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”). Constâncio ganhou e na direcção do PS cometeu o erro trágico de se deixar seduzir por uma iniciativa do PRD (Partido Renovador Democrático, criado à sombra quarteleira do senhor general Eanes e organização estrafalária e populista até dizer chega que fundamentalmente se apresentava como redentora.

Na altura o Senhor professor Cavaco Silva era primeiro ministro e estava à frente de um Governo minoritário . O PRD (18% ds votos) entendeu propor uma moção de desconfiança e o PS (21 ou 22%) apoiou a ideia. Cavaco caiu. Convém lembrar que até o dr Mário Soares mandava recados ao partido advertindo que em caso de vitória da moção haveria eleições e que as perspectivas não eram as melhores para o PS.

O PS e Constâncio não acreditaram pois pensavam que no último momento seriam chamados a formar Governo. Não foram. A partirdaí Cavaco ganhou com maioria absoluta dois mandatos sucessivose o PS andou pelos corredores esconsos de S Bento a falar sozinho. Entretanto o PRD, essa fantasia pretensiosa, desapareceu sem deixar rasto nem saudades. Vitor Constâncio lá se resignou a abandonar o lugar no PS e o cargo de deputado. Pode dizer-se que nesta fase sombria não se distinguiu nem pelo génio político, nem pelo talento oratório.

Entretanto, este cronista, depois de ter tentado por todos os meios convencer os seus camaradas da loucura de votar com o PRD, desandou do PS, explicando numa cartinha tudo o que pensava daquela aventura. Todavia, poupava Constâncio que “teria sido mal aconselhado”! Ingenuidade minha, claro.

Mesmo assim, custa ver alguém por quem demos a cara a fazer-se de sonso, de desmemoriado, de ignorante, de inocente útil e parvo. Constâncio, pelo que afirmou na Comissão da AR, não se lembrava, não tinha de saber, não sabia enfim, o Governador do Banco de Portugal que ele era andava por lá como na política: às cegas, aos baldões, aos tropeções a apanhar calduços ou cachaços dos malandrins que gozavam o gordinho que passava.

Uma tristeza!

 

2 A digna sucessora dos senhores João Soares, o “esbofeteador” e de Castro Mendes o “fantasma desconhecido”, Doutora Graça Fonseca, a propósito da lista de obras desaparecidas do acervo do Ministério, afirmou, sem tentar ser irónica, que tais obras apenas estavam por localizar. Patético! Ou ridículo, se preferirem...

Conviria lembrar à distinta senhora que qualquer desaparecido está por localizar, É assim nos comunicados de guerra ou sobre desastres: "há mortos, feridos e desaparecidos." Infelizmente, muitos destes últimos nunca parecem ou aparecem já cadáveres. Os americanos até tem uma sigla:MIA (missing in action”).

Portanto as obras “por localizar” estão desaparecidas. É aliás provável que continuem “inlocalizaveis” perdoe-se a palavrinha inventada e abstrusa. São quase 200 as vítimas deste inexplicável nevoeiro. Ou melhor: quem conhece os labirínticos corredores dessa coisa pomposa chamada Ministério da Cultura, desconfia mesmo da veracidade da lista. Estará completa?

Em tempos que lá vão, aquilo era uma balbúrdia. As peças circulavam livremente por todo o lado, não havia um registo seguro do comprado, do recebido como oferta, sequer do eventualmente deteriorado.

Ainda recordo, uma excursão feita à garagem do Ministério, estava este ainda na Avenida da República. Em vez de carros, havia pilhas enormes de livros. Tratava-se de obras editadas com o apoio do Instituto do Livro e que numa certa percentagem eram entregues ao MC. Ali chegavam e ali estadeavam sem préstimo nem destino. Semanas, meses, anos. Recordo igualmente, uma gigantesca partida de livros  adquiridos a uma(s)editora(s) em risco que o ME, na sua versão Secretaria de Estado tentava impingir às instituições que os quisessem.  E foram raras as que, depois de prevenidas, acorreram a levantar os livros...

Recordo também, um livro sobre Camilo Castelo Branco, publicado a expensas do Ministério pela comissão das comemorações do centenário de CCB em 1991, chamado “Imagens Camilianas” Tratava-se de um belíssimo álbum, com caixa própria que reproduzia em mais de 60 páginas, imagens do escritor. Uma vez publicado, foi enviado para a Delegação Regional do MC no Porto e mais uma vez os montes de livros ficaram por lá sem serventia. Que se saiba nunca foram distribuídos sequer vendidos. Uma pequena pesquiza revela alguns exemplares à venda no OLX, e em dois alfarrabistas do Porto. Recordo que no local onde estavam depositados houve uma inundação que destruiu alguns exemplares. Os restantes bem como uma série de obras de pintura transitaram para Vila Real, destino escolhido pelo dr Santana Lopes (outra luminária cultural feita Secretário de Estado!) para a DRN . Nesse lote ia o original de “A liberdade está na rua” (Vieira da Silva) e um belíssimo desenho de Fernando Lanhas. Ao todo seriam duas ou três dúzias de peças, incluindo algumas esculturas. Nem quero pensar no que lhes terá sucedido. Pela parte que me toca (bem como aos dois anteriores Delegados Regionais) tive o cuidado de ao deixar o cargo, pedir quitação e inventário do que passava para a criatura que me substituiu(dinheiros e obras de arte. Cautelas e caldos de galinha nunca são de mais, tanto mais que eu saía daquela casa depois de me demitir  do cargo e em claro enfrentamento com o inglório fundador desse partido largamente derrotado nas últimas eleições ).

Voltando à doutora Fonseca, especialista gorada em eufemismos e desastrada responsável da Cultura nacional, a sua reacção à notícia do Expresso diz muito do estado a que chegou cultura democrática e a ideia de responsabilidade que deveria presidir aos actos e às palavras de quem momentaneamente (e mal, pelo que se vê) governa a pobre pátria. Ainda por cima, o desaparecimento ou, pelo menos, notícias dele, tem anos. De facto há muito tempo telefonou-me alguém que já na altura andaria na peugada das peças. E já havia várias (pelo menos das que estavam na DRN) que estariam em Alcácer Quibir prontas a regressar com o rei D Sebastião numa eventual manhã de nevoeiro.

Na origem deste mistério “doloroso” ou “gozoso” (é só escolher) está o estranho facto de as peças artísticas andarem sempre a mudar de poiso e de não haver um registo claro dessa deambulação ou sequer haver uma ficha decente da peça (com fotografia, preço, data de aquisição. medidas, e demais dados pertinentes. Recordo que na DRN (mais uma vez!) isso foi feito com enorme rigor por Manuel Matos Fernandes, um grande funcionário entretanto falecido. E que tal inventário foi, devidamente enviado, para “conhecimento” ao Ministério. Não me lembro entretanto se alguém de lá se deu ao trabalho de acusar a recepção. E uso o “não me lembro” apenas porque me custaria dizer que pura e simplesmente se estiveram nas tintas. Como já nesses anos do fim do século, ocorria com frequência, displicência e falta de consciência...

na gravura: “A poesia está na rua” (Vieira da Silva)  

31
Mai19

Au bonheur des dames 485

d'oliveira

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Onde votar?

mcr 30 de Maio 2019

A pergunta mais lógica, sobretudo em se tratando de votação para o Parlamento europeu, seria, “votar porquê?”.

Não sou um federalista europeu, muito menos um fanático da pátria, sequer da língua materna, mas algo muito fundo em mim, atira-me para o desconsolo deste meu sofrido país, desta gente rude e pobre, deste mar sempre ameaçador, desta terra sáfara que “eppure si muove”

Sou, já o disse um par largo de vezes, “um pobre homem” de Buarcos, como o meu querido Eça o era da Póvoa de Varzim (isto quando não se considerava um “peixe da ria de Aveiro” onde provavelmente passou os melhores tempos da sua infância desamparada).

Sei que dito desta maneira, a coisa soa a artificial. Nunca nos devemos socorrer de uma citação literária seja ela de Eça, de Homero de Dante de Cervantes ou de Rabelais, só para citar paixões imensas e antigas. Todavia, para onde quer que me vire, é Buarcos, a escola (oficial) dos professores Mourinha e Cachulo (que Deus os tenha em santa glória), a praia, os botes, as lanchas, as bateiras (e algum buque...), varadas na areia, as redes a secar, os meninos de tamancos, as mães com os seus aventais domingueiros, os pais em passos estugado a caminho da doca das traineiras com o foquim no braço, a ronca dos dias de nevoeiro, a espera ansiosa dos barcos de regresso que tentavam passar a barra fintando as ondas e a morte, o dia da chegada dos grandes lugres bacalhoeiros (Jesus, que alegria, aquilo era o fim de meses e meses nas águas frias de Saint John, homens metidos em dóris minúsculos a apanhar o peixe à linha, dentro de um espesso nevoeiro e um mar generoso mas frio. E era uma paga melhor, não digo a abundância, que isso não era para os de Buarcos mas apenas um pouco mais de dinheiro e um pouco menos de pobreza. Era a época em que iam lá casa pagar ao meu pai, as consultas, as visitas domiciliárias e a atenção, sobretudo a atenção que o médico lhes reservava. “Toma lá estas amostras, leva um mata borrão para o teu filho...”

Eu era o filho do senhor doutor, o que usava sapatos, aliás um valente par de botas de atanado que resistiam a tudo e durante algum tempo me foram úteis para me defender dos maiores que eu era o mais novo e “o inimigo de classe” mesmo se naquela terra mágica entre mar e serra não houvesse nenhum discípulo do senhor Marx. De barbas só os santos, especialmente o S Pedro, padroeiro de pescadores e mesmo esse menos importante que a Senhora da Boa Viagem a quem se encomendavam todos logo que punham pé num barco.

E não é de menos insistir na santa porque nas terras do litoral, em que os homens estão as mais das vezes ausentes, são as mulheres que governam, pagam as contas educam os filhos e vendem o peixe.

Mas não era disto que eu queria falar, ou então era, que isto de votar, de escolher, vem desse tempo em que se não votava, não se escolhia. Vem daí a recusa daquela vida dos outros, muito “safanão a tempo” apanhei logo que cheguei à idade da razão, alguma hospedagem gratuita em Caxias e afins, alguns medos, alguma cólera, uma pouca de esperança e amigos e companheiros até hoje. Votar significava muito, e essa aventura começou naquele dia de Outubro de 69 em que finalmente a “Oposição” foi às urnas. Não que esperássemos ganhar ( e não ganhámos, claro) mas apenas para nos contarmos mesmo se, por toda a ordem de razões, muitos não estivessem nos cadernos eleitorais. Fui fiscal na mesa eleitoral onde votei e isso, também isso, ficou registado pela polícia e, em seu tempo, constou de mais um processo (e foram 14 se não estou em erro) da pide/dgs contra este vosso envelhecido cronista.

Por isso nunca perco a ocasião de votar mesmo se, nos últimos tempos, as opções são o que se sabe. Voto, voto furioso, voto em branco se for o caso (e foi) mas a abstenção, os tais quase 70% não me contam no seu número.

Vim de Lisboa onde fui ver a família e sobretudo a minha Mãe, numa carreira para chegar antes do almoço à mesa de voto na escola para onde há trinta anos me empandeiraram. Como fui dos primeiros a registar-se como eleitor andei já por vários sítios todos longe do local onde moro. Desta feita, porém, quando me apresentei na “escola Maria Lamas” e na secção entre o fim dos Manuéis e o principio das Marias, dei com o nariz na porta. A senhora que me viu os cadernos eleitorais, surpreendida com a minha irritação e com a ameaça de não votar, atirou-me com as filas que em África, à torreira do sol, esperam horas e horas. Tive que lhe dizer que votava há mais anos dos que ela tinha de idade e que me irritava mais esta modificação (a 5ª ou a 6ª!!!) do meu local de voto. Lá me explicaram que agora vigorava o “critério da proximidade”, local de morada/ local de voto. Aí zanguei-me a sério pois que vizinhos meus recentes (de há 10, 15, 20 anos) já votavam aqui ao lado enquanto eu, graças a ser mais velho e mais pressuroso na inscrição como votante tinha que ir para cascos de rolha. Parece, no entanto, que desta feita, é para valer: irei votar a duzentos metros da minha casa, da casa onde vivo desde 1976! A CNE ou lá quem distribui o eleitores lá se lembrou deste critério muito mais justo e ajustado do que o do número do falecido cartão de eleitor, uma inutilidade (mesmo como precaução) que só chateava o seu portador.

E lá votei, em menos tempo do que demora esta crónica, mesmo se os meus projectos de vida e as minhas esperanças quanto às actividades do Parlamento Europeu sejam muito, mas muito, moderados.

Parece que, por cá, anda muito boa gente entusiasmada por não haver “populistas”, nacionalistas, direita extrema e não sei que mais. Sempre direi que de facto não aparecem mas também não aparecem sete em cada dez eleitores. Desinteresse? Não se sentem representados? Estão por tudo? Mais cedo ou mais tarde é daí que sairão os populistas, os nacionalistas , os que não conseguem sentir-se representados.

A noite eleitoral foi o que se sabe e o que se esperava. Uns cantam vitória, outros negam a derrota. Nos primeiros, aparece um cataplasma chamado Pedro Marques que andou todo o tempo ao colo do dr Costa. Nos perdedores bom teria sido que no PPD alguém se lembrasse da deputadagem que votou aquela borrada (e aquela burrice) sobre os professores. Até esse momento PPD e PS iam juntos e colados. Daí até hoje vão dez pontos de distância...

Depois há o PC. Esses nunca perdem. Aquilo de ontem foi uma pequena contrariedade dialéctica no caminho para a construção do socialismo e da sociedade sem classes sob a égide do proletariado. Ou o “proletariado” morreu ou foi todo para a praia ou é todo, ou quase, “lumpen” ou o imperialismo monopolista e capitalista estabeleceu uma ditadura férrea sobre os trabalhadores e as classes populares e as impediu de justamente mostrarem a luminosa via dos “amanhãs que cantam”. A culpa é seguramente dos outros, da Direita (qual? A do PS, a do PAN ou a do BE?) jamais da “análise concreta da situação concreta” como pretendia o camarada Ulianov que no século foi conhecido por Lenin.

Por uma vez sem exemplo o camarada Jerónimo não pode acusar a dr.ª Cristas ou o dr. Rio pois esses perderam redondamente, vítimas da sua parva ingenuidade e dos seus obtusos parlamentares que cegos pela desrazão entenderam juntar os seus preciosos votos aos da Esquerda radical mesmo quando esta e o PS (convém não esquecer a votação deste quanto às medidas de salvaguarda propostas pelos primeiros) derrotaram as suas condições. Ainda hoje estou por saber se o PS tinha perfeita consciência do seu voto e sobretudo dos efeitos dele. De todo modo, a minha convicção é que o PS agitou um trapo vermelho e o CDS e o PSD carregaram que nem touros alucinados. Em boa verdade, não eram touros mas apenas uns tristes patos marrecos).

Entretanto, acabado o futebol e ainda longe das férias, terá começado a campanha eleitoral. Costa faz contas e os seus cabos eleitorais já pedem uma maioria absoluta. O PPD tenta limitar os estragos enquanto que do CDS que se julgou maior do que a sombra nada transparece. Talvez esperem ter mais votos que o PAN ou o PC (eu nunca digo CDU porque os verdes daquela banda são fundamentalmente vermelhos por dentro. E úteis: votam sempre, sempre, ao lado do povo, ou daquilo que o PC entende por povo). O BE espera melhorar a sua representação parlamentar e, provavelmente, alguma razão lhe assiste: é mais atraente do que o PC, tem uma base de apoio jovem e educada e anda num extraordinário número de malabarismo circense tentando convencer o PS a chamá-lo a um acordo.  

Aqui para nós, como se ninguém nos ouvisse, este tipo de textos sobre a política imediata desenvolvida na pátria dos heróis do mar, nobre povo, nação valente (narizes de cera que serviram para protestar contra o Ultimato britânico e aliciar gente para o nascente partido republicano) deixa-me deprimido e com a desagradável sensação de parecer ainda mais velho do que na realidade sou, e já não sou, ahimé, nenhuma novidade. Todavia, persisto, contrariando o meu lado de velho do Restelo, a afirmar como no quadro maravilhoso de Rouault “demain sera beau disait le naufragé”.

*na estampa: “demain sera beau disait le naufragé”, gravura 11ª de Miserere (série de cerca de 50 gravuras publicada nos anos 20) (Georges Rouault , 1851-1958)

 

 

24
Mai19

au bonheur des dames 484

d'oliveira

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Isto mais parece o pinhal da Azambuja

mcr 24.05.19

 

Eu nem sei se ainda existe o pinhal da Azambuja, palco de grandes ladroeiras, no século XIX a pontos de, por isso ficar (mal)afamado. Também não sei se a expressão ainda corre com o significado que na altura lhe era dado.

Portugal, este “torrãozinho de açúcar”, alegadamente inventado por Pinheiro Chagas, segundo Eça, goza da pouco recomendável fama de, em questões de História (Geral, Internacional ou Pátria) ser ligeiramente esquecido, para não dizer cruamente ignorante.

A coisa torna-se ainda mais evidente quando, citando sempre o autor do “Primo Basílio,” convém deitar um pesado pano de esquecimento sobre a nudez acusadora da realidade. Num país de brandos e pouco recomendáveis costumes, os gatunos andam à solta pelas ruas e pelos campos sem que a opinião do indigenato local se comova sobremaneira. E com eles, os espertalhaços, os aproveitadores, os que andam continuamente quase a pisar o risco coisa que eles (e os basbaques) confundem com agudeza de espírito e intligência

Agora, segundo o “Público”, uma senhora deputada da Beira Baixa locupletou-se com quase três centenas de milhares de euros de dinheiros europeus. Em duas páginas, lê-se esta saga extraordinária que narra como empreendimentos já a funcionar tiveram ajudas para projectos onde o nome da deputada aparecia como responsável técnica. Aliás, enquanto parlamentar, a deputada no registo de interesses afirmava isso mesmo. Só muito mais tarde é que veio a propor um novo registo onde, imagine-se!, aparecia desvinculada da empresa desde antes da data do primeiro registo. Tudo isto, acrescente-se, dentro de uma história maior e menos brilhante de compadrios no distrito com investigações policiais a várias empresas. No caso em apreço há ainda a nota extraordinária de de a referida criatura ser alta responsável política local e “especialista” na atribuição de verbas para empreendimentos com fins turísticos. Lá que é especialista não há úvida. Sabe-a toda, a senhora deputada. Conhece, ao que se vê, todos os interstícios da lei, todos os truques e todos os atalhos.

Resta saber o fim desta história que no meio do turbilhão das eleições e das férias que se aproximam pode, até, ficar “em águas de bacalhau”. A ética, como se sabe, vai para férias na estação calmosa. E, às vezes, não regressa...

O segundo caso desta crónica de costumes surpreendentes no reino da Lusitânia de Baixo, é o de um artista (um “artista português”) dedicado às artes fotográficas. Vejamos: um cavalheiro de Torres Vedras é um apaixonado pela fotografia paixão que só é sobrelevada pelo amor ao torrão natal. Vai daí decidiu consagrar o seu robusto talento a imortalizar fotograficamente o Carnaval de Torres que, como é amplamente sabido e reconhecido, só pede meças aos do Rio de Janeiro, de Veneza e de New Orleans.

O continuador de Relvas, Alvão ou Emílio Biel, possuído pelo mais lídimo amor à terra onde nasceu e vive, fotografou abundantemente os festejos que fazem a glória da sua cidade e despertam a inveja das vizinhas e concorrentes.

Ao fim de anos de película impressionada e gasta, eis que ao artista ocorreu a ideia de publicar um livro onde constassem não apenas a pesquisa etnográfica mas sobretudo a beleza e a plasticidade das suas fotografias. Vai daí, produziu um volume com 380 (trezentos e oitenta) peças fotográficas.

Ora, sem dúvida atentos à genialidade da obra, os cavalheiros da Câmara Municipal, melhor dizendo da empresa municipal “Promotorres” (responsável pela organização do famosíssimo carnaval indígena,) entenderam dever comprar por 9433,96 euros quinhentos exemplares do livro para “o utilizar como oferta em situações de representação ou agradecimentos”(sic).

E para que não houvesse dúvidas quanto à legalidade do acto, entenderam não comprar o livro diretamente ao autor mas sim a um terceiro, no caso a Livraria União onde a obra estava à consignação. Esclareça-se que esta consignação tinha o belo volume de 500 exemplares (metade da edição). Eu, comprador compulsivo de livros, ex sócio de uma extinta editora, de duas livrarias entretanto finadas, nunca pensei que uma consignação ultrapassasse nos casos mais simpáticos as duas, três cinco dezenas de exemplares.

E, também com sessenta e muitos anos de comprador, nunca entendi como é que se vai comprar uma obra a um intermediário e não ao editor. É que entre editor, distribuidor e vendedor final (livreiro) o livro sai pelo dobro do preço, como é natural.

Tendo em linha de conta o preço anunciado da edição (10500 euros) metade dele seria 5.250 ou seja a Promotorres pouparia (a ela e aos cofres municipais) 4100, 96 euros. É dinheiro!

Poderemos sempre pensar que, ao pagar esta forte diferença a Promotorres estava a ajudar o comércio local, no caso a já citada livraria União feliz consignatária da obra de arte em causa. Sempre era um prémio a quem tão ousadamente aceita uma consignação tão extraordinária.

Simplesmente, há mais dois ou três pormenores nesta história mecenática torriense e carnavalesca.

O celebrado fotografo (que “cultiva desde jovem o gosto pela fotografia, expondo de quando em quando e é um apaixonado pela arte contemporânea” (sic)) é actualmente Secretário de Estado. E antes disso foi presidente da câmara municipal durante dez anos (2004 a a 2015).

Claro que o artista pensou maduramente na hipótese de existir alguma incompatibilidade e por isso mesmo “certificou-se de que o cargo que exerce não o impedia de colocar à venda em local de comércio regular” (sic) o produto da sua veia artística. E ao fazê-lo sempre pode afirmar que foi ou será “tributado pelo produto das vendas em regime próprio ou em sede de IRS” (sic, de novo, Ufa!)

Não oso questionar o génio do fotografo e amador de arte contemporânea (qual?) e que expões de quando em quando (onde?) mas também não consigo deixar de perguntar se nesta compra miraculosa não intervieram factores menos artísticos tais quais o peso político e institucional do artista e o seu passado próximo na direcção da autarquia.

Fosse eu criatura de torva má fé, teria o arrojo de resmungar que a mediação da livraria não passava de um truque e, ao mesmo tempo, de algum favor. E que o entusiasmo da Promotorres teria um sabor politiqueiro pronunciado. Mas sendo eu, mesmo velho e resmungão, criatura de pios hábitos incapaz de ver a maldade onde ela não existe, forçoso é concluir que tudo isto se passou da melhor maneira, no melhor dos mundos e sempre, sempre, motivado pela causa maior da felicidade dos cidadãos torreenses e do país em geral. Tout est bien quando finit bien\1

(ou como diria o imortal Beru, do não menos imortal San Antonio/ Frederic Dard: du “lard or du cochon”.

(se os leitores se interessaram por este último parágrafo sempre informarei que cito um dos mais extraordinários criadores da língua francesa, objeto de estudo e de teses universitárias e autor de uma boa centena de livros vagamente policiais e fortemente humorísticos. Assinou, fundamentalmente na “série noire” sob o nome da San Antonio e menos de Frédéric Dard. Mereceu ter um “dictionnaire amoureux” e ser alvo de números monográficos de revistas como “Le Magazine Littéraire” um must absoluto que descobri por via de um amigo sardo e bem disposto numa Berlin longínqua e murada no ano da graça de 1970. Devo-lhe mais esta devoção e uma receita imbatível de spaghetti alla bolognese. Espero que esteja vivo como merece, de boa saúde sempre curioso de línguas e diversas literaturas.

Mesmo correndo – como sempre! – o risco de me alongar, devo contar que o conheci no primeiro dia do Grundstuffe 1 do Goethe Institut. E à primeira hora. Alguém ao ver deambular a nossa professora de alemão pela sala, exclamou “Che bel culo!” concordei em voz baixa e ficamos logo amigos. Nem podia ser de outra maneira!)

 

15
Mai19

Au bonheur des dames 483

d'oliveira

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Eppur si muove

mcr 15.Maio.2019

 

Ver o grotesco espectáculo de um tal Joe Berardo a tentar graçolas no Parlamento diz tudo sobre esse “augusto” órgão e nada sobre o cavalheiro que a si próprio se denomina Joe, à boa moda de uma certa América dos anos 20/30.

Eu não sei de onde lhe vem a fortuna mesmo se esta está a bom recato, como a bom recato está a famosa colecção que, convenhamos, não é assim tão extraordinária quanto se pinta. Há ali muito “ar do tempo”, muita moda, e muita disparidade (graças provavelmente aos rapazes e raparigas que, com tabuleta de críticos de arte, à porta, foram indicando as peças a adquirir). Ver o dito senhor Berardo a falar de arte é ainda menos estimulante do que um copo de óleo de fígado de bacalhau bem cheio.

É que não basta vestir-se todo de preto paras se poder entrar no mundo dos connaisseurs de arte. De preto andam os gatos pingados e preta é a cor do urubu e não se lhes conhece nenhum entusiasmo por Van Gogh ou Vieira da Silva. Os únicos homens que se vestem muito de preto e nem por isso perdem um certo ar de senhores são (ou eram) os ciganos e nem todos. E há (ou havia) nesses homens um sentido inato da dignidade, da honra e da palavra dada. Uma dívida era uma dívida e não havia subterfúgios (tão pouco advogados ao lado) para iludir esse facto.

Parece que o mister Berardo não tem de seu um cêntimo. Viverá de quê? Quem lhe paga a renda da casa, aliás luxuosa que, pelos vistos, não é dele mas de uma sociedade de que a criatura nem accionista directo é? Quem lhe paga a farrapada preta com que se adorna? E as jataradas e almoçaradas? E o carro? E a quinta da Bacalhoa? E, e, e?

Ver esta abencerragem na televisão dá-me a volta à tripa e faz-me pensar em fugir para muito longe, a ter um estatuto de apatridia para não me confundir com os cidadãos do país de que ele eventualmente se reclama. Será este desgraçado Portugal uma república bananeira, um imenso pinhal da Azambuja, onde cavalheiros de trabuco à ilharga fazem pela vida à custa dos passantes indefesos e inseguros?

 

2 Deixemos este tema inóspito e lavemo-nos mãos e mente com a lembrança dessa grande cantora e atriz (mal aproveitada) que foi Doris Day. Eu sou, pela idade e porque, muito pequeno, ia com a minha excelente Mãe ao cinema Peninsular todos os domingos à tarde, um do felizardos que viram muitas das fitas protagonizadas por D. D.

E, mais ainda, ouvi um ror de canções (muitas delas suavemente jazzy) que valiam cem vezes o “Que será, será?” com que os ignorantes a recordam. Não que seja algo de mau, mas é tão redutor!...

Sobretudo quando se sabe que ela interpretou (e brilhantemente!...) o “song book” de Rodgers & Hart, que cantou em dueto com Sinatra ou que tem uma colectânea de músicas de cinema de grande qualidade. Isto entre quase uma centena de discos onde é raro descer ao sofrível.

 

Curiosamente, ontem (terça feira) vi na 2 um longo documentário sobre Heddy Lamarr, actriz bem mais antiga do que DD e que teve, ainda na Alemanha, uma estreia fulgurante com o filma “Êxtase”, o primeiro a mostrar um nu impressionante. Da europa partiu para Hollywood onde sob a férula de Louis B Meyer teve uma carreira excepcional que culminou (que bem que me lembro, ai quão velho estou!) com “Sansão e Dalila”(real: Cecil B de Mille), em que contracenava com Victor Mature, um actor que tinha grande saída entre o público feminino 2 que trabalhou com John Ford, entre outros,

Além de bonita e boa actriz, Hedy era um inventora de qualidade mesmo se muitas das suas criações neste campo tenham sido esquecidas. Na sua Alemanha natal o dia do seu aniversário foi instituído como “dia do inventor” – bonita e justa homenagem E era, honra lhe seja, uma feroz adversária do nazismo e, em Hollywood, pertenceu a todos os grupos de actores que contribuíram para o esforço de guerra.

 

O jornal “Le Monde”, que devotamente acompanho desde o princípio dos anos 60 (uma vida!) entendeu, e bem, muito bem, republicar todos os livros de Julio Verne numa edição fac-similada da maravilhosa edição Hetzel. Em boa hora o faz, dado que os exemplares dessa edição atingem valores astronómicos que vão das largas centenas de euros até a alguns milhares. Esta ediçãoo anuncia-se barata mas há um horrendo defeito: não se consegue adquiri-la em Portugal, Já escrevi o raio do jornal mas nem resposta. É de uma criatura ficar com os dentes como ossos!

Todavia, pesquisei tanto quanto pude, ou, melhor, tanto quanto sei, e em breve me hegaão outos fac-similes de algumas das principais obras desse autor que já chegou (oh la la!) à colecção “Pleiade”. Uma das características mais interessantes da edição agora em fac-simile é a de apresentar todas as gravuras originais, coisa que nunca (que eu saiba) ocorreu nas edições portuguesas da Aillaud, da Bertrand ou Companhia Nacional Editora (edições ainda do fim do século XIX) que se limitavam a duas magras gravuras.

É curioso como Verne (e também Emílio Salgari) quase desapareceram da actividade editorial nacional. Nos seus países respectivos gozam ainda hoje de grande respeito e afeição de leitores de todas as idades (e não só os mais jovens) e, no dizer de Umberto Eco ou de Fernando Savater, tão ou mais devotos quanto eu, ainda hoje se podem ler com muito maior proveito do que os Harry Potter. Em Itália, nas redes sociais aparecem inúmeros grupos de leitores de Salgari que tentam porfiadamente descobrir a mítica ilha de Mompracem, praça forte de Sandokan, um inimigo jurado dos ingleses à imagem do Capitão Nemo das “vinte mil léguas submarinas” e também da parte final da “ilha misteriosa”.   Provavelmente, isto não passa de uma mania de velho mas antes isso do que perder tempo a ouvir os dislates de boa parte dos candidatos ao parlamento europeu e, entre eles, dquele pobre diabo que dá por qualquer coisa Marques e que o PS numa hora de pesadelo preferiu a Maria Mauel Leitão Marques que sabe mais a dormir do que o cabeça de lista acordado e cheio de vitaminas. Pelo menos, aqui, o PS poderia ter marcado a diferença e apresentado uma grande cabeça de lista, num universo masculino de onde se salva Marisa Matias que, todavia, sucede (pela 3ª vez a si própria) o que não lhe retira o mérito que a sua inteligência, o seu zelo e a sua simpatia mais que justificam. Não é que vá vá votar nela  mas Marisa merece o destaque que tem tido.

*na gravura : um urubu, bicho feio e preto mas apesar disso bem menos medonho que alguns bípedes que por aí se mostram sem vergonha nem pudor

10
Mai19

Au bonheur des dames 482

d'oliveira

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As aventuras do munícipe cumpridor

mcr 10 de Maio de 2019

 

Ser cidadão em Portugal não passa de um eufemismo. Os portugueses, onde quer que vivam (ou quase) são, na melhor das hipóteses súbditos. E súbditos atentos, veneradores e obrigados. Se não...

Os governos, as repartições públicas, as polícias, o fisco (ai o fisco!...), as câmaras, os da água, os da luz, os do gás, os do lixo, o polícia de giro, o senhor presidente da Junta, o excelentíssimo presidente da Câmara e os venerandos vereadores, para não falar dos meritíssimos juízes e demais autoridades judiciais, tudo, todos merecem vénia gorda, respeitinho, muito respeitinho, RESPEITO!

Tudo que é necessário fazer junto de qualquer uma destas altas autoridades é para o desgraçado requerente um percurso armadilhado, tortuoso, cheio de alçapões. Vejamos este caso pequeníssimo.

Vivo numa zona onde o transito era um pandemónio. Estacionava-se por aqui de qualquer maneira, todo o dia. De quando em quando a polícia municipal aparecia e era um bodo aos pobres. Os infratores corriam que nem baratas tontas nas a “autoridade” estava preparada e esperava-os de contravenção em punho.

A Câmara, enfim um qualquer serviço dela, entendeu – e bem! – tornar a nossa vida menos infernal e, de passo, ganhar uns cobres fazendo pagar o estacionamento. Aos moradores foi concedida, mediante uma prestação anual de vinte e cinco euros, licença para durante um par de horas poder parar nos locais vedados ao público em geral. De um dia para o outro apareceram espaços à fartazana. Quem vem às compras tem sempre lugar por cinquenta cêntimos.

No ano passado, tornei-me, sem grande dificuldade (só tive de estar hora e meia no Gabinete do Munícipe à espera de ser atendido...) usuário do novo e útil serviço.

De facto costumo fazer tudo de manhã e saio já pronto a ir tratar dos meus assuntos logo que beba o café que me acorda e leia rapidamente o jornal. Assim sendo, saio de carro estaciono ao pé da esplanada e uma vez despachado, meto-me no carro e vou à minha vida.

No fim do ano recebi um aviso para pagar a nova anuidade mas (mea culpa, mea máxima culpa) deixei passar o prazo para o fazer via multibanco. Agarrei num cheque, juntei-lhe uma carta a desculpar-me) o meti tudo num envelope que estampilhei devidamente.

E fiquei a aguardar que no máximo até meados de Janeiro receberia o selo ou indicação para o ir levantar.

Janeiro passou, Fevereiro também, em Março comecei a desconfiar e em nova carta, desta feita registada perguntei pelo selo. À cautela juntava na mesma missiva uma fotocópia do meu estrato bancário onde se via cruamente que alguém descontara o meu cheque. Março e as suas águas foram-se e em Abril voltei a escrever mas ao senhor Presidente da Câmara: mais fotocópias, mais protestos da mais elevada consideração, enfim a habitual parafernália de cumprimentos devidos à majestosa excelência que teria a maçada medonha de me ler vinte e cinco linhas.

Por mera prudência, desta vez, fiz o registo com aviso de recepção. De facto poucos dias depois, recebia um ofício seco e curto (e grosso) que prevenia alguém com o nome do meu pai (quase idêntico ao meu) de que o meu assunto estava devidamente processado (um número infindável de letras e números!!!) e em vias de resolução e que, caso eu quisesse (e acreditasse) poderia usar um número de telefone que me forneciam. O ofício não estava assinado. Por junto no fim havia a referência “o Técnico”.

Temos assim que o Técnico desconhecido enviava um ofício a um cavalheiro já falecido sobre um requerimento assinado por o filho do mesmo!

Sempre de boa fé, prova de supina e culposa burrice minha fui aguardando pelo selo. Ao fim de dez dias, tentei telefonar. Pior do que telefonar para as criaturas da internet é telefonar para um serviço dito “público”. Do lado de lá alguém nos vai dizendo que “estamos em linha de espera há x minutos”. Ao fim de x mais y, aconselham-nos a deixar o nosso número numa jura mais falsa do que judas de que em breve seremos contactados.

Mais dois telefonemas sempre com a mesma resposta, convenceram-me a ir ao Gabinete do Munícipe. Não levei farnel mas, à cautela, ia cheio de jornais e revistas para aguentar o tempo de espera. A família despediu-se de mim como se despediria de alguém que fosse viajar para os trópicos. Paciência, disseram-me, muita paciência. E caldos de galinha...

No Gabinete reinava o ar torvo de quem espera e desespera. Eu tinha o número A 35 e um quadro electrónico indicava que o paciente 30 estava a ser recebido. A meia hora passou e miraculosamente, um número faltou e eu aproximei-me da senhora que tinha a missão de me iluminar.

Em abono da verdade, devo dizer que a funcionária que me atendeu era bonita, gentil, educada e eficaz. Em dois minutos explicou-me que o nome do meu pai aparecia depois de alguém ter andado a pesquisar. Que se eu tivesse indicado o meu NIF as coisas poderiam ter corrido de outra maneira. Expliquei, contrito, que numa carta, sobretudo dirigida ao Presidente da Câmara não me parecia curial meter um número desse tipo e menos ainda o do telemóvel (pelos vistos também aconselhável!...)

De todo o modo, a funcionária consultou rapidamente o tal processo cheio de letras e números e anunciou-me risonha que o meu selo estaria pronto num minuto. E esteve!

De tudo isto, uma mera anedota, sai uma primeira conclusão em forma de pergunta: será assim tão difícil para A CMP enviar pelo correio para o cidadão requerente o selo, depois de cumpridas as formalidades necessárias e recebido o pagamento?

Eu não quereria tirar daqui, deste historieta, moral nenhuma mas não posso deixar de pensar que o correio não é meio idóneo nem eficaz de obter o que quer que seja. E mais: dei razão a uma versão distorcida do provérbio que diz que quem quer vai, quem não quer manda. Tivesse ido ao Gabinete com o cheque em punho e, provavelmente outro galo me cantaria. Ou não, mas isso é já outra história...

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08
Mai19

au bonheur des dames 481

d'oliveira

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Os professores no labirinto

(“A verdade, a áspera verdade” Danton)

mcr 8 de Maio 2019

 

O sururu que se levantou à volta do descongelamento das carreiras dos professores foi penoso. De ver, de ouvir, de ler.

Indo por partes: Se é verdade que o PS, este, actual de Centeno, parece querer levar as contas públicas com um rigor louvável mas sempre desconhecido na formção socialista, não menos verdade é que desde que o Govero tomou possehouve uma catadupa de medidas que pareciam claramente significar o contrário.

Não indo mais longe, temos que a redução do IVA na restauração foi uma burrice supina. Primeiro, tal medida não reduziu em nada os preços antes praticados. Depois, e num período de crescimento exponencial do turismo, quem se aproveita são os estrangeiros que nos visitam.

Em segundo lugar, temos que o frenesi reversivo do Governo e a vontade de agradar aos seus dois mimosos protetores (PC e BE) a diminuição do horário da função pública teve efeitos catastróficos no funcionamento dos hospitais públicos e das escolas.

Menos horas de trabalho significam necessidade de mais gente ou aumento da balbúrdia nos serviços de saúde. Não se aumentou o número de médicos, enfermeiros e restante pessoal nem sequer se substituíram cabalmente as vagas resultantes da aposentação de profissionais. Pior: prevê-se para os centros de saúde (onde haverá muitas centenas de médicos em fim de carreira) u desastre ainda maior.

Juntem a esta realidade desesperada as cativações levadas a cabo e perceberão que por muito medíocres que sejam (e são-no!) os titulares da Saúde e da Educação, pouco podiam fazer com os recursos humanos e meios financeiros postos à sua disposição.

No caso da Educação, afirma-se por aí – e ainda não vi qualquer denegação – que “de 2015 para cá o absenteísmo de docentes e funcionários aumentou 10% com um custo de 150 M€ por ano; que, no mesmo perído as despesas de pessoal aumentaram cerca de 700 M€; que o número de educadores e docentes aumentou entre 6 a 7000 enquanto o número de alunos diminuiu constantemente” (Público, 8 de Maio).

Entretanto, e voltando à factualidade necessária, temos que, desde há vários anos, os professores representados pela FENPROF, vinham exigindo a reposição dos 9 anos congelados enquanto o Governo respondia com 3 (eliminei os meses e dias por mera comodidade e porque isso pouco ou nada afecta as contas finais relativas)

O PC e o BE (que num prodígio babado de tolice, os “comentadores” descrevem como “consequentes” (ao contrário do PD e do CDS que são uns “inconscientes”) sempre avalizaram as reivindicações dos docentes.

O PS teve, durante estes anos (e nos anteriores ao seu Governo) uma atitude ziguezagueante entre o sim , o não e o “oh quem dera!”. Durante algum tempo, pareceu mesmo concordar com as exigências (na totalidade ou quase) do professor.

Todavia, a tentativa de apresentar um défice decente e a vontade de ter na próxima legislatura um horizonte financeiramente são (o PS está convencido que pode ganhar as eleições e não serei eu quem o contradiga, mesmo se leve muito a série o famoso princípio “prognósticos só no fim do jogo”) levou costa e Centeno (ou vice-versa) a bater o pé e teimar (bem) nos três anos.

Conviria, aqui, lembrar que o simples facto de creditar os professores com um qualquer direito ao descongelamento significa que o mesmo princípio é reconhecido e se torna extenso a todas (e não são poucas nem despiciendas) as restantes carreiras especiais que obviamente reclamarão direito idêntico.

Disto decorre que, mesmo apenas com os três anos aos professores, sempre haverá aumento (importante e não previsto) da despesa pública pois não se vê como é que militares, forças policiais, magistrados e outros corpos essenciais irão aceitar ser excluídos desse maná (começado, repete-se com as reversões generosamente imbecis do IVA).

A questão agudizou-se com a famosa “coligação negativa” ocorrida na comissão parlamentar de Educação. E aqui conviria apontar o dedo às pobres criaturas do PPD e do CDS que, mesmo vendo recusadas as suas elementarmente cuidadosas medidas de salvaguarda do bom funcionamento da despesa pública, não perceberam que se entregavam de pés e mãos – se a distinção, neste caso, tem algum sentido – nas mãos da Esquerda e davam ao PS um balão de oxigénio de que ele precisava como de pão para a boca.

É que ninguém irá verificar se o PS – ao recusar, aliado às Esquerdas, as clausulas de salvaguarda – tem ou não culpas no cartório. Tem-nas, evidentemente, mesmo se por pura falácia venha dizer que as vetou por as mesmas preverem, implicitamente, a bondade da reivindicação de 9 (nove) anos. Ou seja, aceita três (e consequências) mas segundo costa não aceita nove (hoje ou daqui a dez anos). E ameaça não votar a renovada proposta das clausulas de salvaguarda por isso mesmo. Como se vê os “princípios” intangíveis do PS são de tal forma sagrados que prefere perder no parlamento do que ganhar no essencial. E nem sequer se pode dizer que isso seria aliar-se à “Direita” porquanto a “Esquerda”, desprezando os pedidos da FENPROF seu instrumento sindical de sempre, já declarou que votará contras mesmas cláusulas.

Eu, que confesso não ser bom de assoar e menos de convencer entendo que assim o PS pretende uma absoluta rendição da “Direita” mesmo se, à moda de Sansão “morra aqui ele e quantos aqui estão”. Estará a “Direita” prnta a saltar da sertã para a fogueira?

Ou seja, o espectáculo segue dentro de momentos.

No meio disto tudo, o há dias vencedor Nogueira já não exclui sair do partido, coisa aliás natural quando vê o seu desesperado pedido recusado em nome de (Jerónimo dixit) um futuro reconhecimento dos professores quanto à justeza estalinista da sua política de terra queimada.

Em vésperas de eleições europeias parece que vale tudo. Que o BE que só tem uma euro-deputada acredite que isso não a deite para fora da carroça ainda se percebe mas o PC tem outras e diferentes responsabilidades. E há, de todos os lados, desde o “LIVRE” até ao CHEGA (ou basta ou lá que quer que seja...) uma multidão de pretendentes pelo menos tão grande e ambiciosa quanta a que infestava o palácio de Ulisses enquanto este andava a tentar enganar Poseidon, o vingativo.

 

 

16
Abr19

Au bonheur des dames 481

d'oliveira

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50 anos depois

mcr 16-Abril-2019

 

Cinquenta anos é muito, muito,  tempo. Noutras épocas implicava, quase de certeza, um longo cortejo de mortos piedosamente recordados ou nem isso.

Agora, que a esperança de vida aumentou, com o seu cortejo de ameaças (o ahlzeimer e tudo o resto, o trágico resto) cinquenta anos foi ontem, há sobreviventes em quantidade apreciável o que não diminui ausências dolorosas e injustas (o António Mendes de Abreu, o Fred Fernandes Martins, o João Bilhau, a Fernanda da Bernarda, o “Vává” Sarmento e Castro, o Alfredo Soveral Martins entre muitos mais, por exemplo o Zé Gomes Bandeira...).

Amanhã, no edifício das Matemáticas, acorrerão alguns e num mágico par de horas serão de novo jovens, ardentes, com um feroz e animoso sentido de justiça e uma intensa vontade de ser livres.

Já, aqui, o disse, e repito: a crise académica de 1969 foi a única grande movimentação estudantil que teve no imediato (ou quase) ganho de causa: o ministro da Educação caiu, caiu o Reitor da Universidade, foram arquivados mais de cem processos abertos contra estudantes detidos entre Junho e Novembro de 1969, foram arquivados todos os processos disciplinares contra estudantes grevistas, regressaram de Mafra todos quantos pela sua participação tinham sido sumariamente incorporados na tropa, a AAC não foi encerrada e houve épocas speciais de exames para quem tinha cumprido a greve.

O regime político não caiu, antes arrastou-se penosamente durante mais quase cinco anos. Também não era esse o objectivo dos estudantes de Coimbra que enfrentaram, praticamente sozinhos, durante meses, a repressão académica, política, militar e policial. Também é verdade que a “agitação” estudantil não desapareceu, bem pelo contrário: As prisões de dezenas de estudantes, em Janeiro de 1971 são prova vidente da existência de “réplicas” ao grande terramoto de 1969.

 (sou disso, sem alegria mas sem arrependimento, testemunha: fui preso em Fins de Setembro de 69, penei um par de meses nos cárceres privativos da Polícia Judiciária – creio que bati o recorde de tempo de prisão  aplicada aos que foram detidos, partilhando com o João Bilhau e o Orlando Leonardo a duvidosa glória de sermos os últimos presos. De facto andámos fugidos durante dois ou três meses. Em 71, voltei a ser caçado desta feita pela PIDE que me hospedou em Caxias por uns meses numa cela com vista para o rio e para um trecho de auto-estrada ou algo semelhante onde me divertia a contar os carros fazendo um campeonato ente os que desciam e os que subiam. Na cadeia vale tudo!)

Todavia, amanhã, não estarei com os meus antigos amigos, colegas e companheiros e devo-lhes, por isso, uma explicação. Ei-la:

Depois de formado, rumei à terra onde vivo, estabelecendo-me como advogado. Nesses anos de brasa, pré 25 A ganhei uma clientela extensa de rapaziada que “mijava fora do penico” e que, por isso, estava sempre com o coração aos saltos que a polícia (política) não fazia greve sequer de zelo.

Quando o novo poder democrático se instalou, foi-me pedido que desempenhasse por tempo limitado o cargo de Presidente de uma Instituição Pública. Aquilo que deveria durar alguns meses, arrastou-se por sete (muito felizes) anos. Como sou canhoto de pata, de coração e torto de teimosia. Rapidamente tive alguns poucos conflitos com a gentinha ministerial. Durante o primeiro desses “encontrões” uma dúzia de altos funcionários meus subordinados, entendeu solidarizar-se e aproveitaram o dia do meu aniversário para me convidarem. Desde essa altura que, todos os anos (e já lá vão quarenta e cinco) há um almoço pago por eles e u queijo da Serra como prenda.

Há já uns anos, resolvi corresponder a tal gentileza, e comecei a convidar o grupo para uma sessão de lampreia. Com o decurso dos anos o grupo de bons, excelentes amigos, tem começado a encolher significativamente. Há umas semanas lá se foi mais um justamente nas vésperas da lampreia que foi adiada. Adiada para (são os meus convidados que escolhem a data) para justamente amanhã. Entre dois deveres de amizade não poderia deixar de dar prioridade aos mais velhos que tanto me ajudaram com a sua competência, saber e diligência.

Partilhei com os meus amigos de juventude valores únicos de liberdade e solidariedade de que me orgulho e não esqueço. Com estes mais recentes, (enfim com estes, encontrados nos anos setenta e cinco e seguintes, descobri o prazer de fazer bem as coisas, de trabalhar para a comunidade, de chegar ao fim do dia com a sensação de ter ganho um ordenado e o respeito dos utentes dos serviços que dirigia.

Acho que isto define, razoavelmente, uma longa carreira cívica e política. A todos eles estou grato. De todos recordo o empenhamento e a amizade.

Eis pois a razão de, mesmo ausente, me sentir presente amanhã quando a malta se começar a juntar nas Matemáticas, ao alto das “escadas monumentais”

Ao Rui Namorado e ao Luís Januário, amigos certos e antigos que me convocaram, um abraço. Está justificada a falta?

E a uma leitora e amiga desde o princípio dos anos sessenta que esteve presente e corajosa na crise de 62, um beijo: há um Xenofonte à tua espera Maria A...   

*a gravura: correndo o risco de parecer imodesto, entendi publicar esta fotografia datada de 28 de Maio de 1969, dia em que uma gigantesca Assembleia Magna votou por incalculável maioria a greve aos exames. Fui dos primeiros oradores dessa assembleiae, eventualmente, terei sido o primeiro a defender a ideia de greve. Repito: eventualmente. Na mesa, algo caótica, estão o Gil, eu, o Décio de Sousa e o Silva Pinto. Saravah, companheiros! 

Aproveito este momento para recordar mais dois grandes amigos, entretanto, mortos: o João Amaral e o Zé Barros Moura.  Como não podia deixar de ser, estavam lá, activos, corajosos e entusiastas.

Creio que esta fotografia esteve durante estes 50 anos inédita. Acho que o seu autor se chamava Fraga, estudante de Direito e mais tarde juiz que se envolveu em conflitos vários com o CSM. Onde quer que esteja, um abraço e a minha total solidariedade.