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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

Novo ano, novos desafios

José Carlos Pereira, 30.01.26

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Na última edição do "Jornal de Vila Meã", propriedade da Associação Empresarial de Vila Meã, cuja Direcção integro na qualidade de vice-presidente, escrevo sobre os desafios que se colocam em 2026 na relação da associação com as autarquias locais, com os parceiros e as empresas da região:

"O início do novo ano traz consigo novos desafios a nível do associativismo empresarial, mas também no domínio autárquico. É o primeiro exercício completo dos órgãos sociais da Associação Empresarial de Vila Meã (AEVM) empossados em Maio passado, como é igualmente o primeiro ano de mandato dos órgãos autárquicos eleitos em Outubro de 2025.

A AEVM está profundamente empenhada em cooperar com a Câmara Municipal de Amarante e com a Junta de Freguesia de Vila Meã em todas as iniciativas que contribuam para o desenvolvimento integrado do território, da economia local e das suas empresas. As iniciativas recentemente levadas a cabo no período do Natal, focadas na animação e promoção do comércio local, foram um bom exemplo dessa colaboração frutuosa entre as três entidades.

O projecto da Área de Acolhimento Empresarial de Vila Meã, uma ambição antiga dos empresários e da AEVM, tem merecido a maior atenção da associação, que pretende dar o seu contributo para o planeamento de uma infra-estrutura que corresponda às necessidades da região. Esse projecto deve ser exemplar como plataforma de dinamização económica e de atracção de investimento, assente num modelo de gestão eficaz, atento a critérios de sustentabilidade e promotor de cooperação entre instituições públicas, empresas e outros stakeholders.

A AEVM continuará apostada numa relação de proximidade com associados e parceiros, com as empresas e as centenas de formandos que todos os anos reforçam as respectivas qualificações em acções promovidas pela associação.

Ao longo dos anos, a AEVM assumiu-se como parceiro e interlocutor das entidades mais relevantes do território, das autarquias locais à Comunidade Intermunicipal e ao Conselho Empresarial do Tâmega e Sousa, o mesmo sucedendo com instituições como o Instituto do Emprego e Formação Profissional, a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, a Associação Empresarial de Portugal, a Escola Superior de Tecnologia e Gestão ou a Universidade Portucalense Infante D. Henrique, com quem vai desenvolver em breve um projecto na área da digitalização no sector da construção.

As empresas podem contar com a AEVM para a defesa dos seus interesses, seja através do acesso a informação privilegiada, da participação nos projectos e iniciativas que promove, da formação e qualificação de recursos humanos ou da integração desses activos no mercado de trabalho. A intervenção da AEVM terá tanto mais impacto quanto maior for o número de empresas associadas.  Por isso, caro empresário, junte-se à AEVM, beneficie da condição de associado e contribua para fortalecer o associativismo empresarial e a economia da região."

Um novo ciclo político em Marco de Canaveses

José Carlos Pereira, 08.01.26

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Na edição de hoje do jornal A Verdadepublico um artigo de opinião acerca da actualidade política em Marco de Canaveses, concelho que me viu nascer e onde já fui autarca:

" O ano de 2026 assinala verdadeiramente o início de um novo ciclo na vida política de Marco de Canaveses. Por um lado, a recente aprovação do primeiro orçamento do último mandato de Cristina Vieira como presidente da Câmara Municipal lança as bases do que se pode esperar da acção do novo executivo. Por outro lado, as eleições que se avizinham para os órgãos concelhios de PS e PSD podem deixar algumas indicações acerca da forma como ambos os partidos se começam a preparar para o futuro.

Cristina Vieira venceu as eleições de Outubro depois de ter apostado numa renovação do seu executivo. Manteve ao seu lado Nuno Pinto como vice-presidente e escolheu para a vereação novos colaboradores com diferente experiência autárquica e política. José Manuel Carvalho, quadro dirigente da autarquia e com ligação anterior ao ensino profissional no concelho, foi vereador e candidato a presidente da Câmara de Castelo de Paiva, além de ter responsabilidades na Federação do PS/Aveiro. Raquel Pereira, que veio do sector privado, foi presidente da Junta de Freguesia de Penha Longa e Paços de Gaiolo e é dirigente do PS/Marco. É certo que o PS elegeu desta feita menos um vereador, mas isso não foi surpreendente, nem sequer uma novidade. O mesmo aconteceu a Avelino Ferreira Torres nos seus dois últimos mandatos e também Manuel Moreira esteve a muito poucos votos de perder o vereador que lhe garantiu a maioria na sua última eleição.

Cristina Vieira quererá, por certo, deixar obra assinalável neste último mandato. O orçamento de 2026, aprovado sem votos contra, é o maior de sempre: 64,3 milhões de euros, valor que deverá ser ainda reforçado com o saldo de gerência que vier a ser apurado no exercício de 2025. As principais prioridades do orçamento – água e saneamento, habitação, infra-estruturas e educação – são bem reveladoras das opções do executivo. Realço em particular a aposta na recuperação do atraso estrutural do município na disponibilização de água e saneamento e o maior investimento alguma vez feito em habitação pública, medidas com impacto directo na vida de muitas famílias.

Estas prioridades do executivo serão acompanhadas de outros projectos desafiantes, desde logo a transformação da antiga fábrica da Electro Moagem do Marco como pólo de desenvolvimento económico, social e cultural, com infra-estruturas vocacionadas para a qualificação, promoção e fomento das empresas, do turismo e do emprego no Tâmega e Sousa, beneficiando das parcerias já anunciadas com o Instituto Politécnico do Porto e o Turismo de Portugal, entre outras entidades.

O último mandato de Cristina Vieira traz consigo renovados desafios à oposição, cujo papel é inestimável no poder local. Fiscalizar e acompanhar a intervenção do executivo maioritário no dia a dia, assegurar uma gestão exemplar nas juntas de freguesia conquistadas pela coligação PSD/CDS e começar a delinear uma estratégia tendo em vista as autárquicas de 2029 são diferentes vertentes daquilo que se pode esperar, em particular, do PSD. Creio que, enquanto o vereador Mário Bruno Magalhães e a estrutura local do PSD comungarem dos mesmos propósitos, não haverá reflexos das feridas que resultaram das escolhas efectuadas pelo PSD em 2025. Se eventualmente se vier a perceber que o PSD, que fez eleger para a Assembleia Municipal alguns dos seus principais dirigentes, como Francisco Sousa Vieira ou Luís Vales, pretende valorizar outros protagonistas, aí podem surgir as primeiras dissensões na forma de conduzir a oposição.

As eleições internas no PSD, que decorrem no final do próximo mês, podem dar sinais acerca das posições do partido no futuro próximo. Um nome que circula em alguns sectores como potencial candidato à liderança da concelhia é o de Joaquim José Aguiar, actual vice-presidente e um dos vencedores das recentes autárquicas ao ganhar a Junta de Freguesia de Tabuado. Falta saber se quadros hoje mais afastados da vida partidária, nomeadamente antigos autarcas do tempo das maiorias de Manuel Moreira, consideram que é a altura de regressar às lides eleitorais, começando a preparar o caminho para 2029.

Do lado do PS, também são esperadas eleições internas nos próximos meses. O actual presidente da concelhia, Gabriel Carvalho, deve ser eleito este mês como secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa e pode não ter as melhores condições para se recandidatar. Nesse caso, será curioso ver quem avança para a disputa interna, sendo quase certo que Celso Santana, derrotado há dois anos, voltará a apresentar-se a eleições, não escondendo de ninguém o objectivo de ser candidato à presidência da Câmara Municipal em 2029."

Eça com Norte

José Carlos Pereira, 26.11.25

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O meu amigo José Vieira, professor universitário em Itália, escreveu por estes dias no "Público"" sobre as comemorações dos 180 anos do nascimento de Eça de Queiroz, na sequência do relevante congresso internacional que organizou no último fim-de-semana em Marco de Canaveses, a nossa terra. Do que assisti no último dia e dos ecos que recebi, facilmente se conclui que a magnitude do congresso, com a presença de académicos, autores prestigiados e antigos membros do governo na área da Cultura, e das actividades envolventes - cinema, apresentação de livro, tertúlia, concerto - justificava uma maior adesão de professores, autores e cidadãos de Marco de Canaveses e da região. É que não nos podemos queixar de que não há eventos culturais e quando os há...

A minha visão de Francisco Pinto Balsemão

José Carlos Pereira, 23.10.25

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No dia em que decorreram as cerimónias fúnebres de Francisco Pinto Balsemão, deixo testemunho da admiração que sempre tive pelo jornalista, empresário de comunicação social e político. Era ainda criança quando comecei a acompanhar o meu pai nos primeiros comícios e manifestações a seguir ao 25 de Abril. Admirador de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão a partir das suas intervenções na Ala Liberal e do lançamento do "Expresso", foi com naturalidade que o meu pai se tornou apoiante e seguidor do PPD. Com onze ou doze anos, num período de grande agitação política, já eu lia o "Expresso", partilhando com o meu pai o gosto pela política e pelo jornalismo. O que não mudou até aos dias de hoje.

Impulsionado pela emoção da morte de Sá Carneiro, inscrevi-me como militante da JSD em Dezembro de 1980, ligação que durou até meados de 1987. Nos anos da liderança de Pinto Balsemão, fui sempre seu apoiante, numa altura em que foi vítima de campanhas dentro do seu próprio partido e do parceiro de coligação CDS, que muito contribuíram para a queda dos dois governos que liderou.

Balsemão era um convicto social-democrata e, apesar do curto período de tempo em que foi primeiro-ministro e líder do PSD, deixou marcas importantes no regime democrático, desde logo a revisão constitucional de 1982, que conduziu em conjunto com Mário Soares, e a preparação da adesão à então Comunidade Económica Europeia. A Norte, por exemplo, os seus governos tiveram acção determinante para assegurar a muito desejada navegabilidade do Douro, hoje tão importante para o desenvolvimento turístico e económico da região. 

Francisco Pinto Balsemão teria sido um excelente presidente da República, mas preferiu retirar-se do primeiro plano da política e criar o maior grupo de comunicação social em Portugal. Ao "Expresso", seguiu-se a SIC, primeira estação privada, a SIC Notícias, primeiro canal de notícias 24 horas, e outras sucessivas apostas em canais temáticos, no streaming, no digital, nos podcasts.

Como sempre tive um gosto particular pelo jornalismo e pela comunicação, reforcei a admiração que tinha por Francisco Pinto Balsemão ao acompanhar o investimento que foi fazendo nos media, a qualidade e a inovação que caracteriza o grupo Impresa e a liberdade e independência que sempre foram a imagem de marca dos diferentes órgãos de comunicação criados por Balsemão, como nestes dias todos sem excepção testemunharam, mesmo aqueles que foram saindo e hoje estão em órgãos concorrentes. Leitor de sempre do "Expresso", sou praticamente consumidor em exclusivo da informação SIC e SIC Notícias.

Como muitos disseram por estes dias, Balsemão foi acima de tudo um jornalista, independente e arrojado, deixando essa marca indelével no seu grupo de comunicação. Foi caso único em Portugal.

As autárquicas na rádio

José Carlos Pereira, 12.10.25

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As eleições autárquicas de hoje têm um impacto relevante no desenvolvimento dos territórios. É o caso, designadamente, de Marco de Canaveses e da sub-região do Tâmega e Sousa, o município que me viu nascer, onde tenho as minhas raízes familiares e fui autarca e o espaço regional a que tenho dedicado muito do meu tempo. Razões acrescidas que me levaram a aceitar o convite para estar hoje à noite na Rádio Marcoense FM a comentar os resultados eleitorais.

Eleições de digestão difícil

José Carlos Pereira, 29.05.25

Na edição em papel do jornal A Verdadepublico hoje um artigo de opinião acerca da realidade saída das últimas eleições:

"As eleições de 18 de maio mudaram por completo o panorama político português. Mais do que a vitória da AD – Coligação PSD/CDS, foi o retumbante resultado do Chega que abanou os fundamentos do nosso sistema político.

Quando o jornal chegar à mão dos leitores, provavelmente já serão conhecidos os resultados dos círculos da emigração e deverá estar confirmado o Chega como segundo partido com mais votos e deputados. Pela primeira vez em democracia, os dois partidos mais votados não serão o PSD e o PS, que deixam também de assegurar, por si só, o consenso constitucional e os dois terços indispensáveis para certas reformas e nomeações.

Como chegámos aqui? As razões são múltiplas e merecem ser bem estudadas. Se olharmos para o mapa eleitoral saído das eleições, vemos que não há um padrão único. O Chega cresce em praticamente todo o país e ganha em 60 municípios, mas isso tanto sucede na industrial Marinha Grande como na piscatória Nazaré, em Sintra ou em Sesimbra, em Beja ou em Barrancos, em terras marcadas por turismo e imigração tão diversos como Odemira ou Loulé.

No Chega reúne-se, sem dúvida, a vontade de mudança, os receios com a imigração, o protesto pelas dificuldades da vida, pela ausência de soluções para os problemas sentidos no dia a dia, seja com as condições remuneratórias, a insuficiente resposta dos serviços públicos ou a falta de habitação a preços comportáveis. Mas o Chega também sabe tirar partido da sociedade digital em que vivemos, na qual deixou de ser prioritária a procura do conhecimento, a avaliação crítica e rigorosa, a comparação de fontes, a discussão fundamentada de propostas. Tudo isso deixou de ter espaço na torrente polarizada das redes sociais, com consequências para a forma como (não) avaliamos com discernimento, como muitas opções são determinadas por correntes e algoritmos, como só vemos aquilo que queremos ver, mesmo que seja mentira.

Estou convicto que se a maioria dos eleitores do Chega lesse com atenção as propostas do partido, designadamente no domínio dos direitos, liberdades e garantias, ou analisasse as promessas com impacto orçamental na despesa superior a 20 mil milhões de euros, tomaria consciência de que tinha depositado mal o seu voto. E já não falo dos atropelos e crimes praticados por muitos dos seus eleitos, coisa que aparentemente nem sequer penalizou o Chega. O que não sucederia se o mesmo tivesse ocorrido com outros partidos!

A AD cresceu de forma moderada – é evidente que o caso “Spinumviva” provocou estragos na imagem e na credibilidade de Luís Montenegro perante os portugueses – mas os resultados obtidos vão permitir-lhe governar com estabilidade durante um período razoável. O primeiro-ministro deve aproveitar para reforçar politicamente o governo nas pastas mais críticas e sabe antecipadamente que a moção de rejeição do programa do governo já anunciada pelo PCP não será aprovada. O país precisa que o próximo executivo se concentre nas tarefas que tem pela frente, num contexto internacional desafiante e com os fundos do PRR e do Portugal 2030 a exigirem foco e determinação.

O PS teve uma pesada derrota. Só Almeida Santos e Vítor Constâncio, em 1985 e 1987, tinham alcançado piores resultados. Pedro Nuno Santos avaliou mal a resposta a dar à moção de confiança apresentada pelo Governo. Teria sido mais apropriado aceitar o prazo da Comissão Parlamentar de Inquérito proposto pelo primeiro-ministro, abster-se na moção de confiança e aprofundar a investigação às várias ramificações da “Spinumviva”. Pelo contrário, o líder cessante do PS caiu no engodo das eleições, fez uma campanha centrada num núcleo reduzido de protagonistas e cedo se percebeu que não ia conseguir fazer valer as suas propostas.

Tudo indica que José Luís Carneiro será o próximo secretário-geral. É o nome mais bem colocado neste momento para relançar o PS, num momento difícil para os partidos socialistas e sociais-democratas – só em seis países europeus a direita não supera 50% dos votos!

José Luís Carneiro já anunciou que estará disponível para acolher todas as sensibilidades socialistas. Além de toda a experiência que traz consigo, tem a vantagem de ser oriundo de um meio pequeno e de conhecer as dificuldades próprias dos mais simples. Habituou-se a encontrar respostas para os que mais precisam.

Confirmando-se a sua eleição, Carneiro terá pela frente vários desafios: unir e mobilizar o PS para as próximas autárquicas, reflectir profundamente sobre as causas para o declínio socialista, captar a atenção das largas centenas de milhares de eleitores perdidos desde 2022 e lançar as bases que permitam atrair estratos demográficos e profissionais que se têm afastado do PS.

O próximo líder socialista deve também ser um factor de estabilidade e confiança para o país, disponibilizando-se para que matérias como a revisão constitucional, a política europeia, de defesa ou de segurança interna, por exemplo, possam continuar a ser alvo de consenso entre os partidos moderados do nosso sistema."

"Porque Falha o Estado"

José Carlos Pereira, 23.05.25

Sou insuspeito de simpatia por Paulo Portas, mas no podcast "Porque Falha o Estado", gravado poucos dias antes das eleições, o antigo vice-primeiro-ministro identificou boa parte das razões que nos trouxeram até aqui (ou que trouxeram o Chega à liderança da oposição): os algoritmos e as redes sociais, a "democracia digital", a polarização, as simplificações, o tribalismo, a "abreviação do conhecimento", a governação para coleccionar likes.

Miguel Poiares Maduro e os estilos de vida

José Carlos Pereira, 29.03.25

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Miguel Poiares Maduro no "Expresso":

"...ao contrário de um cidadão normal um político tem de explicar porque leva um estilo de vida acima do que a função política lhe permitiria".

Penso exactamente o mesmo que o ex-ministro do PSD e isso ainda é mais evidente quando alguém que passa mais de metade da sua vida profissional na política ostenta um património de alguns milhões de euros.

Um novo xadrez político

José Carlos Pereira, 28.03.24

Na edição online do jornal A Verdade publico hoje um artigo de opinião acerca do quadro político saído das últimas eleições legislativas:

"As eleições do passado dia 10 colocaram Portugal perante um quadro político inédito, na medida em que passámos a contar com três pólos políticos: PSD, PS e Chega. O resultado alcançado pelo partido de André Ventura foi verdadeiramente surpreendente e, com os seus 50 deputados, que representam cerca de 1.170.000 votos, o Chega passa a ser determinante nas contas à direita e terá um papel relevante na próxima legislatura.

As cenas caricatas dos últimos dias, em torno da eleição de José Pedro Aguiar-Branco como presidente da Assembleia da República, foram um aperitivo para os tempos conturbados que aí vêm.

A Aliança Democrática (AD), que ganhou as eleições à justa e ficou abaixo das expectativas criadas, prepara-se para formar governo. Espera-se que amanhã [hoje] Luís Montenegro apresente a composição do executivo a Marcelo Rebelo de Sousa. Ficaremos então a conhecer as suas apostas para um governo que lutará mês a mês pela sobrevivência, uma vez que os 80 deputados da AD, a que podemos juntar os oito deputados da Iniciativa Liberal (IL), estão longe de garantir uma governação estável e duradoura.

Terminada a especulação acerca da participação da IL, sabe-se já que o governo apenas incluirá representantes do PSD e do CDS. A presença da IL, que nas eleições também ficou aquém dos objectivos de crescimento a que se propôs, apenas se justificava na perspectiva de o PSD pretender aglutinar sob a sua alçada toda a direita democrática. Mas o perfil mais irreverente e irreflectido da IL acabaria por acrescentar problemas a um governo da AD que terá de ser coeso, determinado e alinhado nas suas políticas e iniciativas.

Luís Montenegro deve optar por concentrar-se na execução dos fundos europeus e do Plano de Recuperação e Resiliência, na gestão do excedente orçamental que herda do governo cessante e na resolução das reivindicações mais prementes. Desse modo, implementa as medidas mais populares e procura reforçar a empatia com os portugueses, com o objectivo de chegar à negociação do orçamento para 2025 numa posição mais favorável.

A via alternativa seria procurar desde o início uma confrontação com a oposição, designadamente na Assembleia da República, que conduzisse à queda do governo e a novas eleições em breve. A AD não vai certamente enveredar por esse caminho.

O PS perdeu quase 490.000 votos face a 2022, mas essa derrota acaba atenuada pelo facto de ter ficado apenas a cerca de 54.500 votos do resultado da AD. Foi a menor diferença de sempre entre as duas forças mais votadas numas eleições legislativas. Esse resultado e a circunstância de Pedro Nuno Santos ter escassos meses em funções como secretário-geral do PS não coloca em causa a posição do líder socialista, como se viu, de resto, nas reuniões dos órgãos nacionais do PS entretanto realizadas.

Pedro Nuno Santos esteve bem ao antecipar que não viabilizará moções de rejeição e que está disponível para concertar medidas direccionadas a determinados sectores profissionais. Como também fez bem em afirmar que o PS deve ser a alternativa à AD, não deixando esse espaço para a extrema-direita.

Caberá agora ao PS olhar para dentro de si próprio e encontrar explicações para a perda de votos verificada desde as eleições de 2022 e para as dificuldades em atrair o voto de determinadas classes etárias e profissionais. Os mais jovens, sobretudo, afastaram-se das propostas socialistas e isso deve interpelar seriamente os dirigentes do PS.

Jovens e menos jovens, descontentes, renitentes, habituais abstencionistas, saudosos de um passado distante e militantes do protesto, todos juntos formaram um caudal que resultou na grande votação do Chega. Construir algo a partir desse resultado será uma tarefa quase impossível para André Ventura. Por um lado, os votos que alcançou foram mais contra a “situação” e contra os ditos partidos do regime do que propriamente a favor das ideias e dos princípios do Chega. O país não tem um número tão grande de xenófobos, racistas e extremistas.

Por outro lado, se o PSD lhe fechar a porta, o que pode fazer Ventura com os seus votos? Política de terra queimada e obstrução sistemática ao governo? De que servirá, em termos práticos, ter votado no Chega? Os eleitores do Chega preferem soluções ou confusão e arrivismo permanente?

Lidar com o Chega, e sobretudo com os eleitores do Chega, é um grande desafio para PSD e PS. Se o PSD optar por se aproximar das reivindicações do Chega para se manter no poder, isso poderá ser um presente entregue nas mãos do PS. Ficaria mais fácil demarcar linhas vermelhas com os que transigem com forças que se guiam por valores políticos, humanistas e civilizacionais retrógrados e, na sua essência, anti-democráticos.

Os restantes partidos com assento parlamentar, com resultados e balanços diferentes no pós-legislativas, prosseguirão certamente as respectivas agendas, mas tendo presente que estão muito limitados na forma como podem condicionar a governação da AD. O xadrez, nesta legislatura, joga-se em três tabuleiros: PSD, PS e Chega."

Um ano de incertezas

José Carlos Pereira, 18.01.24

Na edição de hoje do jornal "A Verdade", publico um texto de opinião acerca da situação política nacional e internacional que temos pela frente:  

"Entrámos em 2024 com poucas certezas sobre o que nos reserva o futuro próximo. A nível internacional, o novo ano fica marcado por eleições em dezenas de países. Do Parlamento Europeu aos Estados Unidos da América (EUA), da Rússia à Ucrânia, da Índia ao México, da Bélgica, no coração das instituições europeias, a Portugal. Sem esquecer as eleições em Taiwan, ocorridas já na semana passada, e que deram a vitória a um candidato repudiado por Pequim e defensor de uma crescente aproximação ao Ocidente. A importância de Taiwan no contexto internacional releva do facto de ser um potencial foco de conflito entre a China, que reclama a reunificação com Taiwan, e os EUA, defensores do regime democrático da ilha. Acresce que o facto de Taiwan ser o principal produtor mundial de semicondutores poderia provocar um autêntico bloqueio da economia mundial em caso de disputa militar.

Em termos económicos, o ano transacto terminou melhor do que aquilo que se podia perspectivar no início de 2023. Na realidade, os preços do petróleo e do gás natural baixaram significativamente, a inflação desceu, as bolsas estão em alta e a economia global cresceu na ordem dos 3%. A confiança dos investidores aumentou e a taxa de desemprego na Zona Euro, em Novembro de 2023, fixou-se em 6,5% (6,6% em Portugal).

Poder-se-á dizer que a economia andou, de certo modo, em contraciclo com a realidade geopolítica. À invasão da Ucrânia pela Federação Russa, uma guerra prestes a completar dois anos e que tem motivado um grande esforço financeiro e militar dos países ocidentais no apoio à Ucrânia, acrescentou-se em 2023 um novo foco de guerra entre Israel e o Hamas, que administra a Faixa de Gaza, com repercussões graves nos restantes territórios da Palestina e também no Líbano. Os recentes ataques de rebeldes Hutis, do Iémen, a navios no Mar Vermelho são uma consequência da escalada militar na região e já motivaram resposta por parte dos EUA e do Reino Unido. A rota do Mar Vermelho é fulcral para a logística e as cadeias de abastecimento globais e não pode ficar refém de investidas terroristas.

Neste quadro internacional difícil, Portugal tem também o seu quinhão de incerteza com a realização de eleições legislativas antecipadas. Marcelo Rebelo de Sousa decidiu-se pela dissolução da Assembleia da República e pela marcação de novas eleições para daqui a menos de dois meses.

O Governo de António Costa cessa funções, segundo o Banco de Portugal, com um crescimento económico de 2,1% em 2023, um dos mais elevados na Zona Euro. Registe-se também a redução da dívida pública para um valor que deve ficar situado abaixo de 100% do PIB, o crescimento das exportações e do emprego e um novo excedente orçamental.

A marcação de eleições para Março apanhou os partidos de surpresa e fez com que todos tivessem de ajustar rapidamente protagonistas e estratégias, designadamente os que aspiram a liderar o próximo governo de Portugal.

O PS elegeu Pedro Nuno Santos como secretário-geral, numa disputa interna aguerrida com José Luís Carneiro. A eleição de Pedro Nuno Santos deixa claro que o partido terá mais facilidade em voltar a entender-se com os partidos à sua esquerda, em caso de necessidade, muito embora o novo secretário-geral socialista venha dando mostras de querer mitigar o “radicalismo” de que o acusam. Seja nas questões orçamentais, na relação com o Presidente da República ou nos contactos mantidos com empresários, Pedro Nuno Santos tem vincado uma linha de continuidade com os anteriores governos socialistas, naturalmente com o impulso renovador próprio de quem inicia funções.

Do lado do centro-direita, o PSD trouxe para o seu lado o CDS e o PPM para recriarem a Aliança Democrática (AD). Mais de quarenta anos depois da constituição da AD original, nada é igual. As lideranças, a energia e a novidade que caracterizaram a AD de 1979 não são repetíveis. Luís Montenegro sabe que as próximas legislativas são o tudo ou nada para a sua liderança e a aposta na AD procura galvanizar eleitorado que tem estado afastado do PSD e dos seus parceiros de coligação.

No momento em que escrevo, todos os partidos estão a ultimar as suas listas de candidatos a deputados, um processo sempre delicado e que costuma abrir algumas feridas internas. Seguir-se-ão os programas e a campanha eleitoral, que se deseja esclarecedora.

A vida será mais simples para o PS do que para o PSD. Se ganhar, Pedro Nuno Santos deve poder contar com os partidos à sua esquerda para viabilizar uma solução de governo, apesar de acreditar que é mais provável o PS vencer as eleições do que a esquerda no seu todo alcançar a maioria absoluta. Se perder, desde que não seja com um resultado catastrófico, que não se vislumbra, ninguém exigirá a sua cabeça.

No caso da AD, Luís Montenegro está obrigado a ganhar. E, sem maioria da AD, passa a ter no meio da sala um elefante chamado Chega. Será capaz de manter o seu “não é não!” ao Chega? Resistirá à pressão da maioria dos militantes e dirigentes, que certamente defenderá nesse caso um acordo com o Chega para se alcandorar ao poder? No caso de sair derrotado, Montenegro não terá alternativa à demissão e a dar lugar ao líder seguinte."