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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Mai20

diário político 226

d'oliveira

 

 

“O dueto da corda”

d'Oliveira fecit 15/05/2020

 

Por este título, assaz tonto, os leitores não se recordarão desse fabuloso “the Blues brothers”, filme de John Landis, (1980) com John Belushi e Dan Ackroid e uma banda sumptuosa de “rythm n blues”, formada por músicos de estúdio em que pontificavam Steve Cropper e Donald “Duck” Dum, Tom Malone e Matt Murphy.

Além destes músicos, há no filme interpretações de Aretha Franklin, Cab Calloway e Ray Charles. Em suma um excelente musical, uma comédia divertidíssima que ainda hoje anda em dvd e cd com vendas grandiosas.

Mesmo que não me pareçam bons cantores, nem grandes actores, os Srs. Presidente da República e Primeiro Ministro têm demonstrado ser, e desde há muito, um dueto da corda. Um gordinho como Belushi, outro magro e alto como Ackroid andam a entreter o pópulo nacional com um filme que, mesmo não sendo dirigido por Landis, merece alguma atenção e não pouca gargalhada.

Já se sabia de alguns jantares (ou almoços) que ambos partilhavam no “solar dos Presuntos” (boa escolha!) e onde acertariam agulhas ou simplesmente conviveriam.

Também não passou sem se notar, a cumplicidade de ambos em vários, muitos momentos, sendo notório o cuidado em se resguardarem um ao outro mesmo quando havia desacordo.

Nada disto é grave, bem pelo contrário, mesmo se sabemos que vem de áreas políticas diferentes que eles, aliás, não se cansam de apregoar.

Desta feita, e numa só vez, eis que Costa lança Marcello para a recandidatura e deixa o PPD atrapalhado para descalçar a bota. Por seu turno, Marcello acorre em socorro de Costa, atirando-se a Centeno o mau da fita do “novo banco”.

Vejamos, para começar se Centeno, criatura que não me desperta qualquer espécie de simpatia, cometeu, no caso em apreço, qualquer malfeitoria.

Em primeiro lugar, o Estado, e Costa em seu nome, assinou um acordo com os famigerados donos americanos do “novo banco”, onde constavam, preto no branco, várias concessões de crédito, como esta que foi feita. Pior, no caso de Portugal não honrar o acordo, o grupo americano tinha à sua disposição os meios mais que suficientes para pedir, em tribunal, os cacauzinhos em dívida mais uma choruda indemnização. Tudo isto estava à vista de todos, incluindo os neo-indignados parlamentares que, pelos vistos, não leem os documentos. Ou se os leem, esquecem-nos com demasiada rapidez.

O Sr. Primeiro Ministro, pelos vistos, também anda com falta de memória pois afirmou no Parlamento algo que nunca poderia sustentar, ou seja que sem mais outra enésima investigação, o banco não receberia nem um cêntimo dos cofres do Estado. Alguém, mais maldoso, diria que o dr. Costa caiu que nem um pato numa esparrela dos seus amigos gerigoncistas que nesta festa tiveram apoio por parte da chamada “oposição”.

Centeno, que de burro não tem nada, farto de ser acusado por fas e por nefas, não gostou da fogueirinha que lhe acenderam debaixo do mimoso pé. Provavelmente, descobriu que não tinha vocação para fazer de Joana d’Arc.

E com alguma razão: deve-se a ele (e ao turismo e às exportações) o milagre das rosas revelado no Orçamento pré covid. Com isso, provou a profecia do terrível Schauble que o consagrava como um “Ronaldo” das Finanças.

Como alguém ainda recordará, correram, sempre antes do covid aterrar no jardim à beira mar plantado, notícias sobre a vontade de Centeno de sair do Governo (e de eventualmente ir para o Banco de Portugal como Governador). A Costa e ao PS não convinha tal saída e percebe-se porquê. Ao Presidente da República, sempre pronto a reconhecer e propagandear as virtude do “nobre povo, nação valente etc” também não agradava a ideia da criatura sair da presidência do Euro-Grupo.

Aliás, numa rápida corrida pelos eventuais candidatos ao Ministério da Finanças não se vislumbravam sucessores viáveis. Centeno teria, segundo alguns, criado um deserto à sua volta que homem prevenido vale por dois.

Mas, subitamente, eis que a bonança se altera e de que maneira: o novo banco recebia a fatia do bolo prometida num documento irrecusável e Costa, o esquecido, perdia o pé na praia pouco clemente de uma embaraçosa pergunta parlamentar.

A intervenção do Presidente da República, eventualmente precipitada, deixou Centeno sem pé (perdoem a continuação da metáfora banhista que aliás vem a propósito visto andar tudo a discutir as praias e o seu uso por milhões de ex-reclusos nacionais que já só vêm os algarves, o sol, o sale o sul). O homem há de se ter doído, que não nasceu para punching ball de boxe.

E armou-se a tenda! Centeno de um lado a ameaçar sair. Costa descalço com um orçamento suplementar em riscos de ficar órfão.

Para barraca, esta é uma gorda, grande, horrível barraca!

Ontem, à noite (e pela madrugada fora) sucediam-se os comentários sobre a insustentável leveza de ser Centeno. Uma entrevista apressada (oh quem me dera ser mosca a passear-me por S Bento...) um comunicado pouco esclarecedor, muitos beijinhos e abraços mas uma dúvida tenaz e bem mais precisa do que a de S Tomé: e agora?

É que, nesta altura do campeonato (este e não o de futebol) não é indiferente ter Centeno seguro no Governo ou ter um clone da criatura no Terreiro do Paço. Por muito que isso custe à deputadagem apressada do PS ou às meninas do BE sempre prontos a gritarias no Parlamento.

Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos que isto vai ser mais emocionante que as miseras telenovelas que entopem os canais portugueses entre o noticiário das oito e os lancinantes comentários tardios sobre o hediondo crime da criança de Leiria. Em ambos os casos, o tom é apocalíptico, obsessivo, repetitivo e já não esclarece nada.

Está de acordo com a época.

    

 

02
Mai20

diário Político 213

mcr

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Em 1808, a dois de Maio, o povo miúdo de Madrid levantou-se contra os franceses que ocupavam o reino e tinham o Rei e a família real sob  tutela reforçada para não dizer prisão. A repressão a mando do general Murat foi violentíssima mas, na verdade, não só não parou a revolta mas deu início a uma guerra de libertação vitoriosa e exemplar.

 

 

26
Abr20

diário político 225

d'oliveira

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um homem só pode valer mais do que setenta acompanhados

D’Oliveira fecit a 26 de Abril de 2020

 

A celebração do dia 25 lá decorreu, como se previa. Ou, mais exactamente, com um número reduzido de presenças, como mandaria o bom senso.

E fala-se em bom senso porquanto este faltou, e de que maneira!, ao dr. Ferro Rodrigues. Definitivamente, os longos anos de deputado os já quase cinco de Presidente da Assembleia, deram pouco fruto. S.ª Ex.ª ainda não percebeu que os seus tiques autoritários, a sua ansia de protagonismo, a sua tentativa de estar sempre a dizer coisas (como aquela prima do Solnado) enfraquece o seu papel, sujeita-o ao ridículo e torna as suas intervenções em inoportunidades.

Não se põe em causa que a data seja celebrada na AR. Mesmo se dezenas de outras actividades estejam suspensas, assistência a enterros, casamentos, baptizados ou aniversários de familiares e/ou amigos. Manda o bom senso e a prevenção geral que assim seja.

Também as grandes festas religiosas (e destaco a Páscoa, para a imensa maioria cristã portuguesa, ou o Ramadão que agora se inicia e que toca cem ou duzentos mil cidadãos nacionais ou emigrados) tiveram de sofrer fortíssimas restrições que os líderes religiosos, com mais bom senso que o dr. Ferro, aceitaram e acataram. Nem sequer vou usar o argumento da laicidade do Estado porquanto um Estado laico e democrático respeita e protege a religião dos seus cidadãos. E tanto é assim que, ontem, na tribuna dos convidados estava o cardeal patriarca. Se o convidaram por alguma razão foi.

O que toda a gente ou muita, pouco interessa, tentou dizer ao Presidente da AR foi que, justamente porque o parlamento (e bem) está em funções, deveria no caso celebrativo mostrar-se austero, sensato e respeitador das mais estritas regras de segurança sanitária. O Parlamento deve dar o exemplo.

Ora o projecto inicial da celebração era tudo menos isso, desde o número de deputados presentes até ao rol enorme de convidados. Pessoalmente, eu até preferia que os presentes usassem máscara. Para dar o exemplo. Cada vez que a utilizo sofro horrores: os óculos ficam logo embaciados, o calor aperta, a respiração enche e esvazia o raio da máscara – e já recorri a vários modelos!

A obrigatoriedade da máscara vai dissuadir-me de pôr o pé fora de casa muito mais do que o medo (e eu tenho medo, juro!) de me infectar. Numa casa em que só somos dois, em que a minha mulher tem problemas pulmonares graves, uma infecção minha será sempre muito grave. Quem é que irá às compras, à farmácia ou a um qualquer outro recado importante e imprescindível?

Ao contrário de muitos estrénuos defensores ad nauseam da democracia, das conquistas de Abril, do trauteio de Grândola ou dos cravos vermelhos, sempre entendi que uma celebração havia de ser digna, curta e exemplar.

Poderia aduzir um outro argumento: as datas, as famosas datas festivas da pátria celebram-se com normalidade. Ninguém precisa de, em dia certo, sair para a rua de punho no ar vitoreando as forças armadas. As mesmas forças armadas também trouxeram o 28 de Maio, só para dar um exemplo.

Para mim, a tropa, aquela tropa que se baseava na conscrição obrigatória e universal era o povo em armas. Agora, apesar de generoso, magnífico trabalho que os militares estão a prestar, a tropa é outra, é uma corporação quenão representa essa ideia sã e revolucionaria herdada da Revolução Francesa mas um corpo fechado, altamente especializado e, curiosamente, pouco atraente para a população em geral e para a juventude em particular.

De todo o modo, estou grato, gratíssimo, aos militares (do quadro e milicianos, é bom não esquecer estes últimos e aos soldados rasos o maior número, o menos lembrado, o que nunca tem honras sequer um voto de louvor) que correram com a pandilha.

Mas essa gratidão não esquece as sombras que as houve logo de seguida, o 5º Governo, as assembleias selvagens do MFA, a patética e lamentável inventona dos S.U.V., os golpistas sustidos pelo 25 de novembro, a tentativa duradoura de condicionar eleições, governos, assembleias. Nem todos os militares se chamaram Salgueiro Maia ou Melo Antunes, se é que me entendem. E, já agora, mesmo que nunca tivesse sido alguém que eu estimasse, devo lembrar que um certo marechal Spínola escreveu um livro que arrasava o fim do Estado Novo, o estado de guerra, a brigada do reumático. Spínola era um militar autoritário e isso viu-se. Também era, no início da guerra colonial, um oficial que poderia não ter ido para a frente de batalha, para o mato mas foi. A coragem respeita-se.

Resumindo, os militares como casta são do piorio. Como cidadãos são exactamente uma amostra deste povo que é o meu, o nosso.

As grandes datas, e dessas destaco duas, o 25 de Abril e o 1º de Dezembro, podem ser celebradas. Confesso que a maior celebração é o feriado gozado pacatamente, normalmente, como algo de definitivamente adquirido. É que hoje, julgo, ninguém põe em causa a independência pátria ou a liberdade. As pessoas já nem se lembram dos ásperos tempos, o que é um bom sinal. Sinal que a árvore da democracia está forte e que a floresta dos direitos e liberdades cresce sem perigo de fogos ou de ataque de madeireiros.

Mas, sobretudo, há algo que mais do que incomodar-me, me irrita soberanamente. É a contínua desqualificação dos adversários. No caso, como aliás, António Barreto, sublinha no “Público” é este cruzar de acusações fascista/comunista que é brandido por uns e outros.

Criticar o Poder, o Governo, este ou outro de outra cor, o Parlamento, a Câmara Municipal ou a Junta de freguesia é um direito absoluto da cidadania. Ora foi isso que foi tentado, e de forma desigual, nesta guerra do alecrim e da manjerona: os “fascistas” queriam matar o 25 A, proibindo uma meia dúzia de discursos em sessão solene que, sabe-se bem, poucos seguem na totalidade.

Os “comunistas” ou assimilados, os radicais estão prontos a ir para as barricadas para suster a onda impetuosa da Direita de faca nos dentes.

E vá de fazer petições. No caso, a da “direita” era quatro vezes maior do que a de “esquerda”, o que nada quer dizer, aliás. Em tempos de confinamento, as pessoas fazem tudo para se entreter.

Eu nem as vi nem, de resto, as assinaria. A minha frente de combate é esta modestíssima tribuna, e já me chega.

Uma palavra sobre os senhores ex- Presidentes da República. Um, o senhor general Eanes, discordando do modelo, entendeu dever estar presente. Muito bem. Outro, o paisaníssimo dr. Jorge Sampaio, homem avisado, sábio e sem necessitar de dar provas da sua histórica coragem, resolveu não comparecer por estar na situação de risco que a idade e os achaques comprovam. O terceiro, o professor doutor Cavaco Silva achou que não precisava de dar explicação pública e faltou. Não sei se escreveu ao sr Presidente da AR mas isso, eesse toque de boa educação não lhe ficaria mal.

Vir agora, como Vicente Jorge Silva, um ex director do corajoso “Comércio do Funchal”, o jornalzinho cor de rosa, afirmar que Cavaco detestaria o significado da data, é uma canalhice. Cavaco foi um dirigente político e, por acaso ou talvez não, ganhou duas eleições sucessivas por maioria absoluta, facto único na nossa história parlamentar. Não há notícia de ter sido, quando jovem, adepto do Estado Novo. Foi, como noventa por cento dos portugueses da sua idade e do seu tempo, um espectador passivo do que se passava, nada mais.

É antipático, pelo menos para mim, sobranceiro, cabeçudo, e opinante. Nada disso o faz fascista, proto-fascista ou perigo para a democracia. Não se lhe conhece nenhuma conspirata terrorista, como nos casos de alguns heróis militares e civis, nem se lhe aponta morte de homem.

Ontem, o bom senso acabou por vir à tona. Menos de metade das presenças anunciadas. Os discursos, incluindo o tão louvado do Sr. Presidente da República, foram o que foram. Dificilmente os compararão com o relativo à barca Charles et George...

*a gravura: uma imagem que se impõe pela sua dignidade: um homem só, idoso (ai,ai!...) desceu, ontem, a avenida da Liberdade. Ao pé desta imagem, nenhuma se lhe chega sequer aos calcanhares.

 

13
Abr20

diário politico 225

mcr

Alguém deve ser responsável 

 

d’Oliveira confinado mas não resignado

 

O episódio do compasso nos arredores de Barcelos e mostrado na televisão seria ridículo e daria uma ideia de um Zé Povinho de que já nos tínhamos desabituado. Porém, no actual contexto, obriga a uma reflexão mais longa e mais penosa. 

A criatura do sexo feminino que brandia um crucifixo que um bando de transeuntes iam beijando à vez já deveria estar identificada e posta a bom recato. Aliás,  deve ser facílimo identificar essa palerma. Quanto aos restantes tontos valerá também a pena ver quem eram pois não parece insensato pensar que dali sairão infectados. 

Mas a teoria da irresponsabilidade e da insensatez destes “fregueses” que observam uma paródia de compasso obriga a que se vá um pouco mais longe. 

Quem autorizou esta palhaçada grotesca e perigosa? Quem forneceu o crucifixo?  Qual é a posição do pároco local e do senhor bispo (no caso o de Braga, ou o do Porto, desconheço os limites dos respectivos bispados)? 

A regra canónica tão pouco afeiçoada às mulheres já permite a uma o exercício deste mester que, verdade seja dita, é um tanto ou quanto pagão? 

Não me espantaria demasiadamente que nesta garraiada à antiga portuguesa estivesse a mão escondida de algum eclesiástico local ou regional. Ainda há pouco tempo vimos um pároco de uma localidade perdida a celebrar missa contra, parece, as indicações do bispo. E há a vaga notícia de mais umas desgarradas tentativas noutros locais. Padres estúpidos e ignorantes não faltam que nisto, na distribuição da inteligência e do bom senso há democracia até dizer basta. 

Não venho à ribalta para fazer propaganda anti-clerical, era o que me faltava. Penso, mesmo, que a Igreja tem neste processo de combate à pandemia um papel relevante, essencial. Os párocos, os centros paroquiais e as demais organizações eclesiais de base poderão contribuir de forma especial e importantíssima. O que torna este espectáculo ainda mais perigoso e risível. E exige, por isso mesmo, um inquérito imediato, completo, rápido e sem contemplações. E é por isso que, justamente, se espera uma posição clara do bispo local. E, já agora das autoridades civis, Junta de Freguesia e Câmara Municipal. 

Também se pergunta se, neste exibicionismo torpe, houve qualquer reacção policial pois duvida-se que ninguém tivesse prevenido as autoridades. 

......

(em aparte: depois de ouvir na televisão o senhor bispo do Porto, sem dessa entrevista tirar qualquer conclusão desfavorável, soube que Sª Eminência foi à ponte Luís 1º abençoar a cidade. De certa forma, isso surpreende-me. Na realidade a Sé do Porto e o Paço episcopal estão a uma cota mais alta (e mais histórica!) de onde a bênção eventualmente alcançaria mais almas. Será que o senhor bispo  e os seus conselheiros geográficos ignoram  o conceito de altitude?) 

(em segundo aparte, desta feita laico. O senhor Ministro da Administração Interna deu há momentos uma conferencia de imprensa que me faz crer que ou ignora o que se passou na zona de Barcelos ou prefere não se molhar condenando aquele estropício. É pena! )

 

20
Nov19

Diário político 224

d'oliveira

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Foge cão que te fazem barão.

Mas para onde se me fazem visconde?

d'Oliveira, Nov19

 

Este texto havia de chamar-se “e ele a dar-lhe e a mula a fugir”, ou seja perdi uma oportunidade de ouro para dar nome a uma croniqueta, dure ela o que durar na memória de algum leitor.

O caso é o seguinte

Julgo lembrar-me de uma declaração de Sª. Ex.ª , o Senhor Presidente da República onde, ainda em princípio de mandato, afirmava que neste país havia condecorações mais. E por tudo e por nada!

E, em consequência a nova Presidência seria muito mais cuidadosae atenta a essa chuva de benesses honoríficas.

Um jornal pegou-lhe nas palavras e descobriu que Soares teria sido o mais pródigo, logo seguido de Sampaio. Eanes e Cavaco tinham sido menos generosos ou até, no caso do segundo, forretas.

Contudo, passados estes aos de presidência, beijinhos e “selfies” a esmo (a pontos de o meu amigo K dizer que, mais dia menos dia, seria o único português que não se retratara mão na mão com o Presidente. E isso, essa desconcertante ausência, dar-lhe-ia, vejam bem!, uma infinita notoriedade, quiçá um lugar na história das primeiras décadas deste século.)as condecorações dispararam a um ritmo jamais visto. Pelos vistos aquela prometida acalmia nas comendas foi esquecida, obnubilada pela pertinácia dos portugueses que se terão excedido em acções meritórias obrigando o seu lídimo representante a dar o dito por não dito. 

Agora, na hora da morte do José Mário Branco, eis que S.ª Ex.ª acolhe a ideia de uma condecoração póstuma, caso a família do finado não se oponha. E mais: S.ª Ex.ª recordou que já teria, e por várias vezes, proposto uma comenda ao cantor mas que este, como se esperava, sempre recusara.

Quem conheceu o Zé Mário, desde os seus tempos aventurosos de Coimbra sabe que isto era nele algo de inato. Para o Zé, as honrarias protocolares eram detestáveis.

Agora que o apanham morto e desprevenido, eis que a comenda ameaçadora espreita. Basta a família não se opor!

Ontem, mcr, num post aqui mesmo, já se arreceava de uma panteonização do cantor e compositor. Ainda as suas curtas linhas não se tinham (metaforicamente) secado e lá vinha a palavra do Chefe do Estado que, aliás, e sem se rir, abundava num discurso elogioso sobre um adversário político de sempre. Eu desconhecia que nos idos de 60/70, o jovem estudante de Direito Marcello Rebelo de Sousa pertencia já ao pequeno mas combativo núcleo dos admiradores do autor de FMI e, mais na época, da “ronda do soldadinho”. É sempre bom saber que, nesses tempos de combate incerto, um jovem que tudo empurrava para a Direita, se revelasse um resistente, porventura silencioso mas sempre resistente.

Não fui votante de MRS em nenhuma ocasião. Não fui seu entusiasta enquanto frenético dirigente do PPD/PSD. Ouvi-o, as mais das vezes enfastiado, na sua posição de professor Marcello comentador. E, nessa altura, apostei com um par de amigos que aquele homem, inteligente, astuto, frio e bom explicador dos assuntos que pecsava no seu comentário semanal, tinha a ambição de ser Presidente da República. Os meus amigos acharam-me “exageradote” (sic) e aceitaram todas as apostas que propus. E pagaram, sem amuos mas recusando dar-me o estatuto de pitonisa, os almoços em questão. Já renovei o dsafio mas eles, mais precavidos, ainda não se decidiram. E com o elogio ao JMB duvido que arrisquem.

Nada tenho contra o facto de o Doutor (por extenso) Rebelo de Sousa gostar de ser Presidente tanto quanto gostará de nadar. Não tenho qualquer dúvida que, no caso de se recandidatar, ganhará (sem precisar do meu solitário voto) e por larga maioria. Por um lado isso tornou-se já uma tradição: todos os Presidentes da Democracia bisaram e com inegável êxito. É mesmo provável que o PS (como outrora o PPD na 2ª eleição de Soares) apoie ou, no pior dos casos, recuse dar o aval a uma candidatura hostil a MRS. Lá terá as suas razões.

Portanto, essa futura campanha será um passeio (ainda maior e mais fácil do que o anterior) para o actual inquilino de Belém. Aparecerão, claro, uns aventureiros a disputar-lhe a eleição. Não porque pensem ganhar mas sempre é uma ocasião de se tornarem falados. Na melhor das hipóteses essa corrida ganha à partida será uma espécie de Branca de Neve contra os Sete Anões, sem rainha má, sem maçã envenenada e sem príncipe beijoqueiro e salvador. Não é a melhor história mas é a história possível.

O hino de campanha do actual Presidente poderia muito bem ser “a cantiga é uma arma” mesmo se “FMI” fosse mais promissor. Não serve por ser longo de mais e conter palavrões.

 

(Vai a crónica oferecida a Maria Assis por muitas razões e com um beijo)  

14
Nov19

diário político 223

d'oliveira

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eu comovido a oeste”

d’Oliveira, 14.XI.19

 

Não, não é para recordar esse formidável escritor que foi Vitorino Nemésio (o homem de “mau tempo no canal”, quiçá o melhor romance português do passado século) mas apenas para, roubando-lhe o título de um livro, referir-me à primeira intervenção da senhora deputada Joacine Moreira.

E vou só referir-me ao conteúdo e não ao resto. Disse a senhora deputada que um salário mínimo de 900 euros (a sua proposta) seria um “acto de amor” !(sic).

Vejamos mrlhor. O PS propões, lá para o fim do mandato, 750 euros. O PC (como não podia deixar de ser) contrapõe 850 e o “Livre” atira com 900 euros. Porque não 1000, pergunto eu, já que é um número redondo e mágico?

Mas, para além deste disparatado leilão, há a justificação apresentada: seria um acto de amor! Saímos do campo da política, mais ainda do da economia, e caímos numa novela sentimental do século XIX ou numa imitação pueril e pobre de uma aula de catequese nos anos 40 (altura em que gramei uma senhora bondosa que, a par do “acto de contrição” e do “salve Rainha”. É bem verdade que conseguia escapulir-me para a mata de Soto Maior sempre que a bondosa criatura se distraía mas mesmo assim tive 13 valores –em Buarcos e nessa altura, a catequese tinha valores para podermos aceder à comunhão solene.

Ora, com algumas diferenças de idade, de locução de cor e de alegada ideologia, as duas mulheres assemelham-se num ponto importante: transbordam de amor pelos necessitados, pelos pobrezinhos mesmo se entre a época de uma e hoje haja uns bons setenta anos.

Em teoria, ninguém discute a necessidade de os trabalhadores deverem ter um salário decente que os ponha (a eles e à família) o abrigo das necessidades mais elementares. O problema que, entretanto se põe, é saber qual é a capacidade dos empregadores para pagar seja o que seja. E, já agora (algo de que raramente se fala), da produtividade.

Também é verdade que, em alguns países europeus, o salário mínimo é mais elevado (basta a Espanha aqui ao lado) se bem que noutros (todo o leste) chega a ser metade do que o que cá se paga.

E, mesmo em Portugal, temos patrões a pagar acima do estipulado (permitam-me o meu exemplo: tendo em conta o número de horas pago quase o dobro do futuro SMN e, quando ele chegar, continuarei, suponho, com a mesma distância, respeitando e pagando feriados, férias e subsídios de férias e Natal. Não o faço por amor, era o que faltava, mas por simples ética por respeito com um passado meu e com convicções por que me bato. E porque posso pagar isso sem cair na ruína iminente, convém acrescentar.)

A proposta da senhora deputada é pois, no actual quadro económico e financeiro nacional, um absurdo no qual nem ela provavelmente acredita.

Ou acredita num outro plano que não o político, por exemplo numa óptica do discurso amoroso, em que a paixão obnubila tudo e tudo permite. A senhora deputada ama os desprotegidos tanto ou mais que a finada madre Teresa de Calcutá, ou, mais perto, como a santinha da Ladeira. É uma espécie de missionaria laica o que para uma senhora nascida na Guiné e com dupla nacionalidade é quase um programa de vida.

Não sei se os trabalhadores portugueses, sobretudo os que nem ao salário mínimo actual chegam, apreciaram devidamente esta declaração fervorosa e ternurenta da deputada. De todo o modo, há que reconhecer que estamos no

“...Incrível pais da minha tia

trémulo de bondade e aletria...”

como Alexandre O’ Neil diria se conhecesse a senhora Moreira. Não me atrevo (ou melhor, atrevo-me mesmo) a citar Nemésio que, no livro que dá título à crónica de hoje, diz

“...fechei as pálpebras pesadas

de contradição e poesia...”

Sei que estas citações de dois eminentes poetas que muito estimo são salvas de pólvora seca contra o delírio parlamentar desta original deputada. Que dirão os do “Livre” destas prestações delico-doces da sua representante no areópago parlamentar?

Sorrirão felizes e enlevados com estas tiradas melosas m um tanto ou quanto nefelibatas da sua vistosa deputada?

Cá em casa, a coisa foi saudada com uma saudável mas impertinente gargalhada sobretudo por parte da minha mulher que, recordada da sua juventude perigosamente militante e pró-africana, a secundou com uns resmungos que até o neto do alto dos seus dois anos acabados de fazer, entendeu como reprimenda injusta por estar a tentar destruir o telemóvel da avó complacente.

Eu, limitei-me a comover-me, como em Coimbra quando ouvia os discursos do Teixeira e as tiradas do Tatonas. Ao fim e ao cabo na sua inocência e longe do nosso mundo, também eles mereciam amor. Com algum “pão e fantasia” como recomendava o excelente Comencini, um dos realizadores que marcou a minha juventude cinéfila.

* a estampa: fotograma de "pão amor e fantasia "de Luigi Comencini . E com a espampanante (ai, jesus!) Lolobrigida!

 

 

 

09
Ago19

diário político 221

d'oliveira

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Não há volta a dar-lhe!

d'Oliveira fecit 9/8/19

 

Mesmo antipatizando com a greve dos camionistas e com o senhor advogado que preside ao sindicato, não posso deixar de me surpreender e, sobretudo, de me indignar com as medidas “robustas” com que o Governo, dito de Esquerda, a pretende combater. Serviços mínimos que andam entre os 50 e os 100%, requisição civil mesmo antes da greve começar e toda uma série de medidas “amarelas” (a polícia e a guarda republicana a serem preparadas para conduzir camiões cisterna, além de estarem a ser psicologicamente preparadas para “malhar” forte e feio nos mais insurrectos) a tropa a ajudar à festa e a torrente de ameaças diariamente bolsadas pelos agentes governamentais e partidários, a começar pela tristíssima figura do ministro Siza Vieira que, qual lebre numa corrida de galgos, já lançou a ideia de revisitar a lei da greve...

A opinião pública foi preparada para o pior, o alarme redobra soprado pelos tenores do PS sob o silêncio (ou quase) constrangido dos outros parceiros da geringonça. E da Oposição!

Se dez por cento do que se prepara para atalhar a greve tivesse ocorrido com Cavaco, Durão Barroso, Santana ou Passos Coelho, antigos primeiros ministros pelo PPD/PSD, oh que vozearia tremenda, medonha se teria ouvido. Que de manifestações, que de barricadas, que de abaixo-assinados!...

Neste Verão invernoso que precede umas eleições próximas e excitantes, soltaram-se todas as vozes populistas saídas da boca de quem se jura anti-populista.

Eu que não passo de um pobre reformista, que fui advogado de sindicatos quando isso era difícil e arriscado que já apanhei com greves de transportes violentas e prejudiciais para a vida de todos quantos trabalham e estão forçados a viver nas periferias, olho para tudo isto com um misto de horror pois adivinho o que aí virá, o que aí vem, com passos de lã. E esse futuro que condicionará a vida de potenciais grevistas não é risonho, bem pelo contrário.

Uma última palavra sobre um parecer da Procuradoria Geral da República que, ao que os jornais referem faz qualquer um pensar que moral, ética e socialmente a coisa é aberrante. Mesmo quando se diz que a greve não tem fundamento actual e apenas diz respeito a anos vindouros. Aliás, alguns dos apoiantes mais entusiastas das medidas anunciadas, desde os patronato hoteleiro algarvio até aos congéneres de outras regiões, os grandes híper mercados, tudo mostra o gato escondido com o rabo de fora. Uma greve traz sempre transtornos, seja a deste punhado de camionistas seja dos funcionários judiciais ou dos registos e notariado.

E falo destas greves quase sempre do sector público e não nas raras que ocorrem no sector privado (e essas, sim, estragam primeiro a vida aos patrões e só depois ao público em geral) porque neste abençoado torrão de açúcar são as que mais amiúde ocorrem.

Nada disto prenuncia o regresso ao fascismo e esse nunca existiu claramente entre nós pese embora a extraordinária descrição ainda vigente em vários círculos da longa noite fascista. Tivemos um regime rural e autoritário, beato e conservador que se construiu à volta da lembrança de dezasseis desastrados e caóticos anos de república assanhada, do falhanço de quase cinquenta governos de curta duração, da ausência de uma classe média que a ter existido era apenas quase só constituída pelo funcionariato público, pela militaragem e por meia dúzia de pseudo industriais que viviam à mercê do regime. O regime de 26 manteve quase intactas as estruturas herdadas da monarquia e praticamente intocadas pela 1ª república que viveu sempre do apoio de uma minoria activista reduzida às duas grandes cidades. O resto, política e socialmente, era paisagem e como tal foi aproveitado pelo Estado Novo que nunca precisou de um partido forte, de um líder fanfarrão, de organizações que enquadrassem realmente a juventude, os trabalhadores. Bastou uma polícia que já vinha de antes, a bufaria que gangrenou boa parte da sociedade, o respeito instintivo quase religioso pela autoridade estabelecida e pela “ordem”, a censura contra os raros meios de informação (jornais e rádio). E os “famigerados safanões dados a tempo”...

Nunca houve milícias do regime a sério (a Legião tornou-se logo nos anos 40 uma anedota, a MP nunca teve qualquer importância).

Portanto, que fique claro: o que se passa, ou parece poder passar-se, é apenas um renovado tique autoritário governamental que apela ao mais descarado populismo. Com a cumplicidade contrita dos partidos à esquerda do PS e o assobiar para o lado da Oposição. E cai em terreno fértil: ai as férias no Algarve, ai o turismo, ai os emigrantes que vem passar duas semanas na aldeia, coitadinhos...

Em boa verdade, os sindicatos que promovem a greve também não perceberam que, depois de uma vitória há meses, deveriam não esticar demasiado a corda. A paciência da opinião pública tem limites e o esforço propagandístico contra esta futura greve ainda por cima de duração indeterminada deveria ter explicado ao inebriado dr. Pardal Henriques a celebre formula jurídica “non bis in idem”. Provavelmente o ensino do Direito é menos severo hoje e latim uma língua cada vez mais morta. Neste momento só me pergunto como é que ele vai descalçar esta bota. onde meteu não só o mimoso pé mas o corpo inteiro. E se, porventura, é verdade que será cabeça de lista no ajuntamento do dr. Marinho e Pinto, então está feito ao bife. Espera-o a curto ou médio prazo a irrelevância total.

Mas os críticos do sindicalismo, dos direitos dos trabalhadores esses podem esperar tempos fastos ou, pelo menos, prometedores. Bem avisava o dr. Siza Vieira que era tempo de repensar estas coisas...

30
Abr19

Diário Político 216

d'oliveira

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A inestimável ajuda do Poder ou

Arre que é preciso ser parvo

por d'Oliveira  que muito se divertiu (e bem se lixou) naqueles tempos tumultuosos

 

Que os leitores poupem durante alguns minutos a pedra que poderiam querer atirar-me.

Vou entrar no terreno minado de uma quase “contra-história” da crise de 69 em Coimbra e explicar porque acho que mais, ou tanto quanto, do que a acção dos estudantes, foi decisivo para o êxito da greve o delirante conjunto de decisões do governo, da Reitoria da Universidade e das autoridades policiais.

Comecemos pelo mais simples e, de certo modo o inicio de tudo: a atitude do Presidente da República. Confrontado com um pedido respeitoso (nunca é demais insistir) do Presidente da Associação Académica para intervir na cerimónia de inauguração do novo edifício das Matemáticas teve duas respostas contraditórias. Em primeiro lugar, era costume ouvir-se o Presidente da AAC neste género de cerimónias. Depois, havia indícios (fortes, fortíssimos) de que o milhar de estudantes presentes dentro e fora da sala não aceitariam que o seu representante (eleito meses anos por fortíssima – esmagadora! – maioria, após três anos de comissões administrativas integradas por estudantes ligados à Direita pura e dura ((mesmo residual naqueles tempos de mudança)) que nunca conseguiram ter apoio na massa associativa nem, aliás, fizeram por isso qualquer esforço) não tivesse uma palavra a dizer, sobretudo na inauguração de um edifício que já chegava com um atraso de dez anos.

Quem aconselhou o Almirante Américo Thomaz que, aliás, num primeiro momento, pareceu aceder ao pedido de intervenção, respondendo que “primeiro falaria um qualquer Ministro presente”? O Reitor? O Ministro da Educação, um certo Hermano Saraiva que, muitos anos depois se distinguiria com um programa popular sobre a História e as histórias de Portugal? A polícia política (e ao tempo em Coimbra era chefiada pelo inspector Sachetti que mais tarde ascenderia à direcção nacional da PIDE /DGS, e que era considerado “muito hábil” na detecção e prevenção de “zaragatas académicas”)? Alguns círculos da extrema Direita coimbrã inspirados, entre outros, pelo Professor de Letras Miranda Barbosa, considerado uma espécie de guru dos restos do “movimento Jovem Portugal” ainda presentes em Coimbra?

Na verdade, essa inauguração acabou num tumulto e numa gritaria inconcebíveis que saudavam a retirada intempestiva das autoridades logo que terminou a arenga do Ministro já citado.

Um segundo acto decorreu no mesmo local. A sala voltou a encher-se e Alberto Martins leu o discurso que trazia preparado. Cerca do meio dia, ou pouco depois, os manifestantes destroçaram a caminho do almoço e o dia pareceu acabar sem sobressaltos maiores.

O 2º acto desta jornada ocorre já à noite. A PIDE detém o presidente da AAC. A notícia espalha-se num ápice e provoca pequenas manifestações que a polícia dissolve como de costume: à bruta.

No dia seguinte, a Universidade está em polvorosa. A comoçãoo é geral e as assembleias sucedem-se até uma Assembleia Magna que exige a libertação de Alberto Martins e proclama um primeiro “luto académico” (batina fechada, insígnias académicas recolhidas e, o mais forte, greve às aulas). A adesão é enorme sem sem absoluta. Todavia isso já é uma vitória importante do movimento em crescendo desde a eleiçãoo da nova direcção da AAC depois de três tristes anos de comissões administrativas entregues à Direita estudantil mortiça e incapaz de mobilizara esmagadora maioria dos estudantes.

(De resto o resultado destes três anos de completa inabilidade política foram evidentes. As eleições para uma nova direcção foram ganhas com uma fortíssima percentagem pela Esquerda, melhor dizendo pela aliança de vários grupos que iam desde uma fracção do CADC até aos pequeníssimos grupúsculos que despontavam. Na sua grande maioria, os eleitores eram pouco politizados ou politicamente moderados. O que os unia era ainda uma certa ideologia de liberdades académicas e estudantis, uma ideia romântica da Academia (quisesse isto dizer o que quer que fosse). Tudo fundido no horizonte juvenil, na tradicional rebeldia de jovens gerações que já não respiravam o ar viciado do fim de regime que se vivia e, muito menos, a propaganda ultra-nacionalista do apelo à defesa da pátria ameaçada nos sertões africanos.

Junte-se-lhe um facto indiscutível: a universidade de Coimbra vira quase duplicado o número de estudantes (em 1960 eram 5.000, em 1969 passavam os 8.000. Mais, e mais significativo: a percentagem de raparigas crescera enormemente em todas as faculdades, Direito incluída)

Entre 18 de Abril e 28 de Maio, assiste-se em Coimbra a um estranho pas de deux: o Poder (seguramente dividido quanto à estratégia a adoptar para sufocar ou desarmar a “crise” alterna as ameaças com alguma passividade. Se é verdade que há processos disciplinares em curso, não menos verdade é que eles pouco passam do anúncio. A libertação de Alberto Martins ao fim de escassos dias de detenção parece mais um sinal de cedência que habilmente é aproveitado pelos que querem tirar consequências mais alargadas da greve que prossegue com interrupções.

No meio disto tudo, há um actor essencial: o Ministro da Educação, José Hermano Saraiva, que, por vontade própria ou mal aconselhado pelas “autoridades académicas” (Reitor, Senado e Directores de Faculdade), entende, no meio da estranha passividade policial, ameaçar os estudantes. Num memorável e ouvidíssimo discurso televisivo, comina os estudantes (ele fala numa “minoria de arruaceiros”) a voltar às aulas. Lá voltar voltaram mas o tom ministerial e tentativa ingénua ou estúpida de dividir a “Academia” tiveram o resultado oposto: as chamas reavivaram-se e a fogueira tornou-se mais intensa. A crise estaria em banho maria mas este ia progressivamente tornando-se mais quente. Não só as ameaças de processos e castigos se repetiam e precisavam como também, paralelamente, a resistência estudantil se afirmava e fortalecia. O exemplo mais evidente (e que devia ter alertado os responsáveis ministeriais que desconheciam ou não levavam a sério os humores da “Academia”) foi a decisão de anular a “Queima das Fitas”, festa maior e mais consensual dos estudantes. A decisão partiu das diferentes comissões eleitas pelos quartanistas das faculdades (isto é de comissões totalmente independentes da Associação Académica e profundamente ligadas ao núcleo duro da “tradição” coimbrã). Isto mobilizou ainda mais os estudantes que queimariam fitas, ou os que iriam buscar o “grelo” ou as fitas largas. Estamos a falar de alunos dos terceiros, quartos e quintos anos das faculdades, e, indirectamente dos “caloiros” que tradicionalmente terminavam o seu ano horribilis na altura dos festejos. Muita gente, portanto. E as famílias orgulhosas que por nada perdiam a oportunidade de ver os “seus meninos e meninas” quase doutores/as. E, finalmente a cidade    que tinha nesta semana grande fartas oportunidades de negócio e de lucro. A aceitação generalizada deste “sacrifício” deveria ter feito tocar as campainhas de alerta. O poder, esse, permanecia surdo depois de já ter provado estar cego. A gigantesca Assembleia Magna de 28 de Maio que decide por mais de 90% dos votos a greve aos exames leva as autoridades policiais a activar um plano de emergência para proteger os estudantes que queiram furar a greve. Entretanto, é mobilizada para Coimbra a brigada da Polícia Judiciária que desmantelara a LUAR. Medida, finalmente, inteligente dado que deixava a PIDE na sombra. Assim, tentava-se “despolitizar” a crise e a greve que o Poder travestia em “crime de assuada”.

“A latere”, seguiram para a cidade forças da polícia de choque e a “Guarda Republicana” começou a mostrar-se fazendo sair tropa montada para as ruas. As fotografias deste estendal de forças repressivas foram excelentemente aproveitadas pela SIPE (Secção de Informação, Propaganda e Estatística) da AAC que as distribuía (vendendo-as) por todo o lado. A essa campanha juntou-se outra igualmente imaginativa: eram editadas dezenas de desenhos satíricos ridicularizando a polícia, o ministro, as forças repressivas e os fura greves. A determinação estudantil era assim acompanhada pela tradicional gargalhada académica. A isto o Poder só conseguia responder (canhestramente ) com notas oficiosas recebidas com tradicional desconfiança por quase toda a gente. Convenhamos que é pouco, muito pouco.

A última (mas também fortíssima) arma estudantil residiu no uso inteligente da “praxe” e na mobilização do “Conselho de Veteranos”, intérprete último e decisivo daquela. Em dois ou três “Decretus”, o CV formalizou o “luto académico”, aboliu as praxes violentas e de rua excepto para os “fura-greves” e deu a bênção tradicionalista a uma luta de contornos praticamente inéditos.

É verdade que a polícia “ocupou” a cidade, que os jipes da polícia de choque se mostraram por todo o lado e que algumas cargas da Guarda a cavalo ocorreram. Mas já era tarde de mais. As famílias tinham retirado muitos estudantes da cidade (o que aumentou as percentagens de grevistas), a vergonha impediu alguns estudantes de pedir ajuda para ir aos exames, as ameaças tiveram efeito idêntico e as prisões de membros dos piquetes de greve aumentaram a indignação e a determinação grevista. Em oito dez dias de falta generalizada aos exames, já nada havia a fazer por parte das autoridades. A repressão já não produzia efeitos dissuasores e o longo período de agitação verificado entre Meados de Abril e fins de Maio tinha desmobilizado qualquer vontade de estudar e preparar exames. A greve, para muitos, uma multidão, de estudantes era, afinal, o meio de justificar perante as famílias um chumbo quase certo.

O passo final da escalada repressiva ocorrido entre Junho e Outubro, consistiu na prisão de mais estudantes, remetidos para os cárceres da PJ por períodos relativamente breves (exceptuando as prisões de Outubro que atingiram meia dúzia de activistas que andaram fugidos todo aquele tempo) e na mobilização para Mafra de meia centena de dirigentes da AAC, dos Organismos Autónomos e de outras estruturas estudantis.

Nada disto, afectou substancialmente a situação de crise e, na verdade, a única solução que o Poder tardiamente tomou foi a de fazer voltar tudo à estaca zero. Assim, até ao fim desse ano, meados do seguinte, regressaram os enviados para Mafra, foram libertados os últimos presos, foram arquivados os processos disciplinares e aberta uma época extraordinária de exames. Paralelamente caiu o Ministro da Educação, o Reitor e os Directores de Faculdade foram substituídos por elementos mais ou menos simpatizantes da causa estudantil ou, pelo menos, aceitáveis pela “Academia”, as ameaças contra a AAC (encerramento, comissão administrativa) foram retiradas.

O regime mostrou-se incapaz de evitar as suas cada vez mais evidentes contradições internas e, por isso, de reagir atempadamente contra algo que poderia ter evitado ou sufocado no ovo. De certo modo, prenunciava a incapacidade de que daria provas quatro ano depois. Exausto, dividido, incapaz de traçar uma estratégia coerente conseguiu contribuir para a politização de algumas centenas de estudantes e para a desafeição de muitos mais. Estes, em poucos meses, foram obrigados a repensar uma táctica de enfrentamento e souberam aproveitar cada indecisão do adversário para criar um movimento cada vez mais unitário de resposta sem comprometer a Associação Académica descentralizando para as Faculdades e para organizações ad-hoc (Juntas de Faculdade) ou outras privativas dos Cursos (delegados de curso, comissões de curso etc...) o agendamento de assembleias, a tomada de decisões parcelares relativas ao boicote a aulas e/ ou jornadas de discussão a substitui-las com ou sem (quase sempre) a presença de professores. Finalmente, e já durante o período de greve aos exames, optou-se por diversificar totalmente os piquetes de greve não os submetendo a nenhum controlo centralizado o que impediu as polícias de, com algumas prisões, desmontarem uma estrutura que, de facto, não existia. Paralelamente este esquema conseguiu outro objectivo: os piquetes nunca foram instrumentalizados pelos proto-grupos políticos que se iam formando ou estavam já formados.

A este propósito, é bom lembrar que estes escassos meses de luta acesa pelas liberdades académicas politizaram de uma forma inimaginável muitas centenas de jovens mas isso é ainda história quase recente.

 

(a vinheta: Maria Fernanda da Bernarda e Osvaldo Sarmento e Castro dois dirigentes de 69 desaparecidos. Esta fotografia que me parece já ter por aqui aparecido, serve para retratar muitos outros que a lei da morte vai ceifando. Dois amigos muito queridos e duas pessoas de bem. Foram corajosos em 69 e assim ficaram pelo resto das suas vidas. )

(este texto andou perdido no computador por razões misteriosas ou, simplesmente devido aà notória incapacidade do escrevente que o teve pronto a 17 de Abril. Sai agora, semi-recuperado depois de ter sofrido um apagão de origem desconhecida mas certamente malévola, renovando os agradcimentos às mais que incompetentes autoridades académicas que facilitaram a vida à malta de 69- É máxima antiga (Sun Tsu) afirmar que o bom estratega aproveita tudo e sobretudo os erros do adversário.)

          

08
Mar19

Diário Político 214

d'oliveira

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para que o mcr não fique aqui sozinho

d'Oliveira, fecit, 8 de Março

La Lega

 

A oilì oilì oilà e la lega crescerà
E noialtri lavoratori, e noialtri lavoratori
A oilì oilì oilà e la lega crescerà
E noialtri lavoratori vogliam la libertà

 

Sebben che siamo donne
Paura non abbiamo
Abbiam delle belle buone lingue
Abbiam delle belle buone lingue


Paura non abbiamo
Per amor dei nostri figli
Per amor dei nostri figli
Sebben che siamo donne
Paura non abbiamo


Per amor dei nostri figli
In lega ci mettiamo

A oilì oilì oilà e la lega crescerà

(este é um lohgo excerto da canção "la Lega", tão do nosso gosto naqueles anos difíceis. A ilustração é, obviamente, uma gravura dos tempos da Revolução Francesa)

























 

 

29
Mai18

Diário político 226

d'oliveira

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É com certeza uma casa espanhola (e modesta...) 

 

O senhor Pablo Iglésias é, como se sabe, secretário geral da organização “Podemos”, força política radicada na extrema Esquerda espanhola e herdeira, pelo menos em avultado número de militantes, da fantasmática IU e de diversas pequenas, e praticamente desaparecidas, formações de Esquerda. Também recebeu o apoio (e integrou) avultado número de antigos militantes do PSOE. Neste momento é a quarta força política de Espanha depois de durante algum tempo ter ameaçado os socialistas. Desde a fundação até hoje, o Podemos já misturou muita água no seu vinho o que, justamente, lhe terá conseguido uma melhoria na quantidade de votos que tem obtido.

De todo o modo, não é fácil definir com exactidão o programa do novel partido justamente porque, como se sabe, é a prova do poder que finalmente traça as verdadeiras fronteiras da ideologia e da real intervenção política.

Todavia, não é a isto que vimos.

Há uns tempos atrás, em 2012 , o anterior ministro da Economia de Espanha (hoje no BCE) entendeu comprar uma casa por 600.000 euros. Tal facto originou um violento ataque de Pablo Iglésias que não só achava que quem gasta tal soma numa casa é “milionário” e por isso indigno de ser ministro, sobretudo da Economia, mesmo s Guindos tivesse tido excelentes lugares regiamente pagos antes de entrar na política. Iglésias, aliás, também declarava que uma casa de tal preço era um lixo disparatado e ofensivo.

Nas últimas semanas, Iglésias e a sua companheira, entenderam comprar exactamente pelo mesmo preço (ó ironia das ironias!...) uma casa situada numa zona privilegiada para aí viverem e educarem os filhos que estão prestes a nascer.

Estalou o escândalo entre a opinião pública espanhola. Iglésias pecava tanto ou mais que Guindos. Ainda por cima, recorria a uma hipoteca que representa exactamente 90% do preço da futura casa pagável em prestações mensais durante trinta anos, o que atira o fim da dívida do casal para os setenta e poucos anos. Fora o ordenado de deputados que ambos recebem, desconhecem-se outros meios de subsistência, mesmo se Iglésias tivesse sido professor e colaborado nuns simpáticos mas quase desconhecidos programas de televisão.

A militância “podemos” que aplaudira freneticamente a denúncia contra Guindos ficou entalada. A s críticas vieram de todo o lado e especialmente do presidente da câmara de Cadiz, o senhor “Kichi” que, pelos vistos, fez voto de pobreza e vive num apartamento minúsculo de 40 m2, situado numa zona popular e alugado.

Perante o arruído ensurdecedor e a geral gargalhada da restante classe política, Iglésias, sempre hábil recorreu a um estratagema: um referendo interno entre os apoiantes de “Podemos”. Dois terços votaram (como no?) no líder e casal hipotecado até às orelhas já pode dormir descansado na sua nova mansão que, por ser de revolucionários já não é nem uma vergonha nem um luxo.

(lembremos para os ex-amigos íntimos do Siriza grego que já o senhor Varufakis se deixara fotografar numa belíssima mansão com vista sobre a Acrópole: a revolução é sobretudo óptima e aconselhável para os outros, para os paisanos e demais patas ao léu que, embevecidos votam nos exemplares e humildes profetas do futuro radioso e dos amanhãs que cantam ((pelo menos para eles, acrescento eu)).

* na gravura a "casinha" em que questão. Fonte: internet