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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

diário político 233

d'oliveira, 03.01.21

Como envenenar a vida política

d'Oliveira fecit 3.1.21

Eu já tinha decidido encerrar este capítulo do procurador europeu. A coisa cheirava mal há tanto tempo que mais valia esquecê-la do que voltar a revolver aquele tapete para onde foram varridos verdade e decência (e respeito pelos cidadãos a quem se atira um par de mentirolas mostrando o desprezo em que são tidos).

Todavia, a senhora ministra da Justiça entendeu conceder uma entrevista onde acusa quem se sentiu incomodado ou meramente perplexo de “envenenar a vida política”. Eu, às vezes, pergunto-me se algumas pessoas falam português e se conseguem fazer entender nessa língua que, pelos vistos, é traiçoeira.

A senhora Van Dunen, disse em substância o seguinte: Que a menção de procurador geral adjunto aplicada a um procurador da República teria sido uma “presunção” dos serviços do Ministério; que a menção à condução e investigação de um importante processo resultava apenas da confusão entre isso e a simples presença do mesmo magistrado no julgamento, algo absolutamente diferente e com um peso claramente menor; que a declaração de que o mesmo magistrado era responsável pelo “maior departamento nacional no âmbito da criminalidade económico financeira” quando na verdade o procurador era apenas responsável “da nona secção do DCIAP que, isso sim, era a nível regional “a maior em termos de volume de serviço dos DCIAP regionais”.

Juntamente com isto,  que não é pouco, a sr.ª Ministra desculpou o Ministério dizendo que a carta, onde este chorrilho de absurdas contra-verdades vinha plasmado,  fora enviada por uma repartição sem conhecimento ministerial.

Se isto, esta última e grotesca declaração fosse para tomar a sério temos que o Ministério da Justiça anda em roda livre, sendo indiferente haver ou não quem mande, no caso, a Ministra da pasta!...

Conviria, novamente, recordar, que foram estes especiosos argumentos os essenciais para descartar a escolha por um júri internacional e preferir-se estoutra puramente caseira, doméstica, amigável.

Se considerarmos que, de tudo isto, não há consequências conhecidas a tirar no que toca às presunções, enganos e erros dos serviços, facilmente verificaremos que pelo ministério anda tudo à balda.

Vir dizer que quem observa esta escolha em contradição com o hábito de avalizar a pessoas escolhida pelo júri, é envenenar a vida política é de uma falta gritante de inteligência e um total desrespeito pela inteligência dos cidadãos.

Eu diria que estas declarações da sr.ª Ministra empeçonham a credibilidade do Governo enquanto este a conservar num lugar para o qual manifestamente não está preparada.

Acresce que, desde que a vemos nesta posição também não se descortina qualquer acto que mereça já não digo o elogio mas pelo menos a ideia de que aquele ministério funciona, vive,. Nada!

Mais uma vez se recorre ao principio de Peter: numa cadeia hierárquica há um momento em que alguém assume a sua mais total incompetência.

Curiosamente, até o sr. Presidente da República, que vem sendo acusado de andar com o Governo ao colo, se sentiu “incomodado” e prometeu questionar o sucedido.

Claro que a sr.ª Ministra está de pedra e cal. Já se sabe que se manterá, dignamente inútil e inamovível, coisa que aliás ocorre com mais colegas. Daqui a dias já ninguém falará disto e a mansa tradição nacional esquecerá mais esta aberrante situação.

Ao fim eao cabo, já passámos por vergonhas maiores ...

diário político 211

d'oliveira, 05.12.20

Brincar aos orçamentos

d’ Oliveira fecit, dezembro, 5, festa de Stª Bárbara, virgem e mártir

 

O Parlamento deu mais uma brilhante amostra do que é capaz e aprovou um orçamento que, não sendo bom, tem a vantagem de ser original e de servir de escarmento para qualquer país civilizado.

Não só a proposta do Governo saiu alterada (e de que maneira!) mas também tivemos, ao vivo, e em primeira mão, o indizível espectáculo da negociata política. Que o sr. dr. Costa queira conservar-se no poder à custa da compra devotos não espanta. Já o “chorado” engenheiro Guterres conseguira o prodígio de apresentar o famigerado orçamento do “queijo Limiano”. Estamos pois em pleno domínio da tradição.

Que um partido cada vez mais nas franjas do declínio político e social em perda de votos e de militantes, tenha alinhado neste leilão sempre na defesa dos mais sagrados interesses do povo, dos trabalhadores, da pátria e sei lá que mais também me não espanta. Desde há muito que as coisas são assim envolvidas num vale tudo para ganhar espaço e piscar o olho aos eleitores.

Dir-me-ão que a discussão orçamental comporta sempre dois momentos (generalidade e especialidade). e que é no segundo que se afinam propostas. E a palavra é exactamente essa: afinar.

Todavia, o que na realidade ocorreu foi algo de substancialmente diverso. Ao orçamento inicial (e aos seus custos) vieram juntar-se uma boa centena de novos temas sem que, pelos vistos, tenha havido (nem podia haver perante quase duas mil páginas de propostas de alteração) tempo suficiente para as ponderar e, sobretudo, para avaliar o seu impacto financeiro.

Fique claro que não vou discutir a bondade das propostas. Mesmo que sejam todas excelentes, há que saber se há dinheiro para as activar. Será que alguém se lembrou de deitar contas à gigantesca redução de receitas, ao já claríssimo aumento de despesa em auxílios de diversa ordem e ainda nem chegamos ao fim do ano? Será que alguém tentou sequer fazer um cálculo aproximado dos efeitos da pandemia durante, pelo menos, a primeira metade de 2021 (versão optimista do correr do próximo ano)?

Ontem, os jornais e a televisão traziam mais uma novidade: havia reservado para a TAP um teto de 500 milhões. Pois bem, agora, por artes mágicas, isto por uma canelada da realidade sempre desagradável, verifica-se que, afinal, são precisos mais outros tantos milhões.

A serem minimamente verdadeiras as queixas do sector turístico, restauração incluía, o pior está para vir nos próximos três meses. As falências aumentarão exponencialmente, o desemprego ameaça umas dezenas de milhares de pessoas ( o sector avança cem mil). 2021 corre o sério risco de ser o ano de todas as contas por pagar.

No quadro europeu, as coisas não estão famosas. A bazuca está para demorar, a menos que alguém tenha uma solução para ultrapassar a crise polaco-húngara. Mas há mais: a França ameaça vetar um vago projecto de acordo post-Brexit. Aliás, neste capitulo, as partes separaram-se há dois dias concluindo que não estão reunidas condições mínimas para continuar as conversações de modo a que cheguem a bom porto. Ahora, diz-se, tudo depende de um encontro Von der Leyen-Johnson. Se tenho alguma esperança na primeira, não aposto sequer uma moeda falsa de cinco cêntimos no segundo

Isto, estas duas eventuais más notícias, sentir-se-ão sobretudo nos países mais desprotegidos e, suponho, que ninguém tem dúvidas que Portugal é um dos mais visados, tanto mais que a maior fonte de rendimentos (o turismo) funcionará sequer a meio gás no próximo ano.

Boa parte dos comentários à discussão na especialidade, centrou-se no pagamento de cerca de quatro centenas de milhões ao Novo Banco. O PS rasgou as vestes perante esta horrenda coligação negativa. E disparou sobre o PSD sem cuidar de se lembrar que a proposta vinha do Bloco. Porém, nisto tudo há, de novo, duas particularidades picantes: à uma ninguém conhece o famoso contrato que tem condicionado os pagamentos ao BE. E já lá vão três mil milhões de euros que o BE votou alegremente...

Depois, a ideia de atirar para o Tribunal de contas uma auditoria desta dimensão é uma aventura de alto, altíssimo risco pela mesquinha razão de o TC não ter qualquer experiência neste campo. Não haveria, por aí, mesmo excluindo a Deloite, uma instituição capacitada com provas dadas e rapidez de procedimentos?

É claro que a verba irá ser paga mesmo sem auditoria como também já todas as fontes adiantaram e os jornais propagandearam. No entanto, não deixa de ser jurídica e politicamente interessante o acrescento de uma condição à velha regra “pacta sunt servanda” que numa tradução rápida diz que os contratos devem ser cumpridos, tanto mais que foram feitos conhecendo perfeitamente as situações.

E em boa verdade, que importância tem isso? Não vão ser os deputados subitamente indignados e alertados quem vai pagar.

Somos nós todos!

* A menção à Santa padroeira dos artilheiros deve-se ao facto de também ser a padroeira dos fogueteiros que andaram por aí a atroar os ares e a terra com os dinheirinhos a vir de Bruxelas. Não vou falar em esperar por sapatos de defunto mas alguma prudência teria tido cabimento . E talvez os cruzados do orçamento a rebentar pelas costuras tivessem sido menos generosos com dinheiros que (ainda) não tem. 

 

 

diário político 213

d'oliveira, 28.11.20

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Se...

(à maneira de Kipling)

d’Oliveira, confinado e zangado, fecit no dia de Santa Catarina Labouré

 

Se o Bolsonaro, um ignaro e ignorado deputado brasileiro conseguiu vencer uma eleição presidencial ...

Se um ricaço de mau gosto, pretensioso, machista e ignorante conseguiu ganhar as eleições de há quatro anos na América ...

Se depois de uma governação caótica, crivada de zangas, de críticas de todo o lado, o mesmo indivíduo obtém, depois de um desgoverno da pandemia. um espantoso resultado traduzido em maior número de votos mesmo se abaixo de Biden (felizmente)...

Será que um obscuro comentador de futebol, e agora deputado, conseguirá ter uma votação significativa, digamos um 2º ou 3º lugar depois de Marcelo?...

A seu favor tem o vitimismo da cerca sanitária, os erros de certos partidos populistas de esquerda, o exemplo de crescimentos de votação semelhantes na França e na Itália onde a direita populista ganha no terreno que já foi dos partidos comunistas.

O mesmo de resto se passa na Alemanha, a “Alternativa” (nome significativo nasceu, desenvolveu-se e marca pontos na antiga República Democrática e não no Oeste.

“Yo no creo en brujas pero que las hay, las hay”

* a imagem de Santa Catarina Labourée e sobretudo a famosa medalhinha miraculosa são de aconselhar para o conturbado período que se aproxima. Esta santinha, menos famosa do que as restantes santas com o mesmo nome, passou à posteridade como exemplo de modéstia e humildade como se pedia bo século XIX às "filhas da Caridade"

 

 

 

diário político 230

d'oliveira, 29.10.20

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O jogo do chinquilho

(Versão sec XXI)

 

d’Oliveira fecit (28/10/20)

 

 

A história, caso se lembrem, começou no dia em que o PS perdeu as eleições legislativas. O dr. Costa apareceu com caro de enterrado vivo, pesaroso, a família estava em lágrimas e tudo levava a pensar que um governo minoritário PPD/CDS.

Isto pareceu verdadeiro até aparecer o sr Jerónimo de Sousa travestido de Jesus de Nazaré a fazer ressuscitar um morto. No caso o dr. Costa. De facto foi o Secretário Geral do PCP quem virou o bico ao prego, quem inventou a geringonça, quem varreu a coligação centro/direita, quem realmente decidiu acabar com a fumaça de um (im)possível bloco central.

O dr. Cavaco Silva, presidente da República, descrente de alianças espúrias ou assim consideradas desde os inícios da IIIª República, obrigou a que se celebrasse um contrato escrito- Também ele é, ainda que sem o querer, pai da geringonça.

E, na verdade, durante quatro anos, a coisa funcionou. Com equívocos vários, seja dito. A “austeridade” manteve-se com outro nome graças a cativações que impediram excessos despesistas, o investimento público foi mais baixo do que durante o horrível período da Passos Coelho, mas a comunicação faz milagres. E a propaganda fá-los parecer ainda maiores...

Entretanto, quando o PS sonhava com uma maioria absoluta, o milagre pareceu excessivo. Não a teve e o PPD, mesmo ferido na asa, conseguiu aguentar-se. A geringonça II teve hipótese de seguir mesmo sem o milagroso Centeno, um Ronaldo de pouca dura mas sabedor que os milagres não se repetem e que depois do Verão vem o Outono e, pior, o Inverno.

A pandemia e o dr. Rebelo de Sousa fizeram o resto. A primeira pôs a nu as debilidades de uma economia que devia tudo, ou quase, ao turismo. O segundo achou desnecessário exigir acordos escritos entre os falsos irmãos geringoncistas.

E chegamos a isto. O BE sabe perfeitamente que por muito dinheiro que nos chegue, vai haver austeridade por uns anos. O desastre, o verdadeiro, o “diabo” sicut Passos Coelho, está prestes a chegar. As consequências da pandemia, que está viva e em progressão, vão ser duradouras. Com ou sem vacina, o período de terror vai estender-se por todo o ano que vem. A UE, que reservou 700 milhões de doses da futura vacina, já fez saber que a vacinação nunca estará completa antes do fim do próximo ano. Não basta descobrir a molécula maravilhosa também é preciso produzi-la em quantidades impensáveis até agora. E há a recuperação da confiança, o restabelecimento de relações de todo o género mesmo se, nos próximos tempos, nada suceder de especialmente dramático. Qualquer doença deixa sequelas, exige um longo período de convalescença. De certa maneira, mesmo falsa, a ideia de que nada voltará a ser como dantes, vai ser verdadeira durante algum tempo. E a nossa vida mede-se em algumas dezenas de anos apenas. Daqui a cem anos isto vai merecer apenas um período breve, meia dúzia de linhas num futuro manual de história. O diabo é que já cá não estaremos nem os nossos filhos. O tempo que nos resta é limitado.

Ora o BE sabe tudo isto mesmo sede economia e finanças no sistema capitalista saiba pouco. E vive na obsessão da via albanesa ou algo no género. A pequena burguesia radical que desconhece a classe operária e a verdadeira vida dos pobres acredita nas receitas que durante um inteiro século já mostraram ser nados mortos. Em boa verdade vive, viveu sempre, da alucinação fracturante porque nunca teve de governar fosse o que fosse. Nem a recente experiência grega em que o BE embarcou alegremente lhes serviu de lição. Depois de vermos a candidata Marisa ao lado dos gregos momentaneamente triunfantes nunca mais a lobrigámos logo que a realidade, a “estúpida” realidade, derrubou um governo práfrentista.

O BE contou com o ovo no cu da galinha, isto é, pensou que o PC o ajudaria. Vê-se que os bloquistas nunca leram Lenine e muito menos a “doença infantil...”. O PC, este PC é um velho partido bolchevique enraizado numa parte do país real, informado do que as pessoas comuns pensam. Ao votar o OE, o PC vai, n especialidade marcar alguns pontos e tentar atenuar a erosão eleitoral que o tem atingido. Dá a ideia que Jerónimo de sousa e os seus camaradas conduziram com o seu silêncio o BE para um beco sem saída.

Há indícios, ténues mas indícios, de que o BE pode recuar no voto final. Tentará reduzir os prejuízos mas mesmo essa alternativa é perigosa porquanto, à mínima cedência, será acusado de traição por uns e de oportunismo por outros. Logo veremos o que se passará.

Finalmente, mesmo que ninguém, ou poucos, a queiram, a crise política paira por aí. Um OE chumbado obrigará, queira o dr. Rebelo de Sousa ou não a eleições legislativas mesmo que só depois do período “europeu”, isto é d primeira metade do ano. Até agora, o PS parece estar em boa posição para vencer sem maioria absoluta. A menos que a ruptura do BE resulte numa forte transferência de votos para o PS. Isso, dadas as características do BE permitirá alguns aumentos de votação nas grandes cidades ou seja mais lugares de deputados praticamente garantidos. I Chega morderá sobretudo as franjas da Direita ou seja o CDS e algum PPD. A anomalia Livre evaporar-se-á e não é crível que outra anomalia chamada PAN conserve aquele bizarro número de deputados. Para o PC o melhor resultado possível seria o estancamento da sangria que tem sofrido de eleição para eleição. É provável que a sua atitude quanto ao OE decorra desse cálculo. Poderá até captar desiludidos do BE. Convenhamos que de uma pequena ou grande recomposição da extrema esquerda não virá mal ao mundo.

E talvez os jogadores de chinquilho desapareçam do cenário onde andam agora alegremente. Que diabo, já nos basta a pandemia...

diário político 229

d'oliveira, 02.10.20

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La Cina é vicina

d’Oliveira fecit Outubro de 2020

 

 

Causou natural burburinho a entrevista do sr. George E Glass, actual embaixador americano em Portugal. Nos meios diplomáticos usuais não é normal, longe disso, uma linguagem tão brutal quanto a que foi usada pela criatura.

Em boa verdade, o sr Glass não é um diplomata de carreira, antes um embaixador vagamente político eventualmente nomeado por ter sido um apoiante financeiro da campanha de Trump. Para países como Portugal, há muito o hábito de enviar este tipo de personagens como agradecimento dos seus anteriores préstimos.

É duvidoso que este embaixador saiba qualquer coisa sobre o país para além do que eventualmente terá aprendido nos últimos anos. Será por isso que a entrevista que concedeu foi tão divulgada e comentada. Ele disse em termos crus e pouco elegantes o que provavelmente um membro da carreira diplomática americana sugeriria sempre entre vénias e mesuras.

Convenhamos: a importância de Portugal no quadro da campanha anti Huawei é diminuta e pouco risca. E risca ainda menos quando se sabe que, num caso destes, a questão do 5 G, o governo português acolher-se-á sempre ao guarda chuva da U E.

Todavia, o homenzinho lá veio com o seu discurso vagamente ameaçador e isso incendiou as opiniões. Eu, mesmo, fiquei profundamente irritado pela desfaçatez mesmo se compreenda o fundo da questão em que Portugal é um parceiro menor, entre os menores.

O sr Ministro dos Negócios Estrangeiros já respondeu e o sr Presidente da República não se coibiu de vir dizer que Portugal é um parceiro económico da China há 500 anos.

Não é exactamente assim, Sª Ex.ª que me desculpe o arrojo. É verdade que portugueses dispersos e em ordem dispersa, por sua livre iniciativa aportaram à China a partir eventualmente de 1540 e tentaram fazer negocio com as populações locais. Em boa verdade, basta ler atentamente o “Tratado das cousas da China” de fr. Gaspar da Cruz para se perceber como esta relação comercial se ergueu, de quando em quando, por períodos limitados e iniciativa privada. E de como o comércio era substituído pela pilhagem quando os portugueses se sentiam seguros. Há, aliás, e da mesma época, cartas de cativos portugueses em que se expõe em toda a sua crueza este género singular de relações que, de resto, eram idênticas às das relações fortuitas que se estabeleciam com outros povos da região.

Por outro lado, a pequenez lusitana nunca suscitou uma ampla corrente de trocas comerciais com a China, E o exemplo de Macau nada tem a ver com isso nem nunca os chineses enquanto Estado lhe deram especial importância.

De todo o modo, deve-se a portugueses alguns dos primeiros documentos sobre a China e o Tibete e esses textos estão publicados entre nós mesmo hoje em dia.

Eu não faço a mínima ideia quanto ao perigo da espionagem chinesa via Huawei. Estou, porém, predisposto a aceitar que num país totalitário todos os seus agentes económicos devam forte obediência ao Estado e, no caso em apreço, ao Partido que o controla ferreamente.

Esta é uma das enormes diferenças entre o “Oriente” e o Ocidente tal qual o vemos e habitamos. Por cá, a grandes empresas dão-se ao luxo de não acatar as orientações do Estado. Bastaria lembrar um exemplo caricato. Quando os Estados Unidos boicotaram os jogos olímpicos de Moscovo, uma empresa americana, a Coca-Cola subsidiou a representação portuguesa. O Secretário de Estado da altura , e meu amigo, Joaquim Barros de Sousa contava divertidíssimo a conversa com um representante da empresa que, inquirido sobre a proibição americana lhe terá dito mais ou menos o seguinte: o Governos dos E U A é o governo dos E U A e a Coca-cola é a Coca-Cola, ponto final, parágrafo.

Como é evidente, ninguém está sequer a imaginar um dirigente da Huawei a dizer algo de remotamente semelhante sobre as relações da empresa com o governo chinês.

Aceito, até, que não é de todo improvável que o “patriotismo” da Huawei a leve a comunicar ao Governo algo que este peça (ou imponha). Não tenho qualquer prova disto como não tenho qualquer prova de mil e uma coisas que se passam ou passaram na China pelo menos desde que o poder passou para as mãos do PCC.

A China nunca foi algo de totalmente transparente para o Ocidente. Sempre se lhe associou uma farta dose de mistério e exotismo desde o “Milhão” de Marco Polo, esse livro que incendiou as imaginações de todos os europeus e que ainda hoje é lido fervorosamente.

Curiosamente, os nossos exploradores na China contraditaram por várias vezes a descrição maravilhosa de Polo mesmo tendo em conta que chegaram lá mais de dois séculos depois. Todavia, as descrições, algo têm em comum, desde a imensidão da terra, a administração eficiente do território, a disciplina dos súbditos do imperador e a opacidade da governação.

Quando Mao tomou as rédeas da China (e digo Mao propositadamente e não o PCC de que ele dispôs e moldou várias vezes, eliminando companheiros de sempre com um grande à vontade) o segredo e o mistério não só não desapareceram mas tornaram-se até um modo de funcionamento do Estado. A China esteve sempre fechada ao estrangeiro, União Soviética incluída que, no máximo foi tolerada enquanto foi necessário, e as variadíssimas reportagens sobre a China “nova” foram sempre fundadas no conhecimento imperfeito da língua, na vigilância constante dos visitantes que nunca conseguiram pôr pé em ramo verde e na absoluta perseguição dos mínimos desvios internos.

Ainda hoje, se desconhece exactamente o número de vítimas do Grande Salto em Frente e mais ainda da Grande Revolução Cultural e Proletária. Aliás, nem sequer se tem uma noção rigorosa do número de vítimas da “Longa Marcha”, da Guerra Civil as mais das vezes travestida em guerra patriótica contra os japoneses , mesmo se uma forte percentagem dos confrontos fosse com as forças de Chiang Kai Chek e do Kuominang.

(aliás também ninguém conseguiu saber quem era o homem que na praça Tien An Men desafiou uma e outra vez os tanques da repressão. É caso para dizer que aquela longa tradição de segredo e mistério tem de longe em longe algum efeito positivo)

A China (a República Popular da China) é uma potência mais que emergente. É a 2ª ou 3ª maior economia mundial e dá passos gigantes para tentar ultrapassar os EUA A sua política comercial agressiva, o facto de ela ser pensada estrategicamente desde Pequim, a “nova rota da seda”, a cooperação inteligente com umas dezenas de países pobres que não obtém investimentos idênticos nas antigas metrópoles ou nos EUA, tornam a América de Trump e do embaixador Glass, num adversário semi vencido sobretudo porque o actual inquilino da Casa Branca ainda é mais isolacionista que qualquer dos anteriores presidentes isolacionistas americanos. E mais ignorante, infinitamente mais ignorante. Trump olha para os seus eleitores mas escapa-lhe a América e o slogan make america greta again leva-o a desprezar aliados antigos e seguros (incluindo o Reino Unido!...)Mais um mandato de Trump e a China terá vencido a corrida.

Com Huawei ou sem ela. Com o porto de Sines ou sem ele. Apesar da pesada impertinência de Glass, um industrial caído na diplomacia sem qualquer espécie de preparação e sem conhecer sequer o mundo, já nem falo de Portugal.

       Trump, basta ver como se veste, como se penteia, imaginar como consegue viver naquela horrenda casa de Nova Porque, cheia de dourados esdrúxulos, usando uma sub-língua de retardado mental e uma sintaxe que arrepela o mais tolerante, mesmo quando pões o dedo na ferida, consegue, como um elefante numa sala cheia de bibelots, causar um destroço espantoso.

Que esta criatura esteja a disputar a reeleição é algo que tira o juízo a qualquer um. Que haja, por aí, uns tolinhos que sustentem a teses que entre um e outro dos candidatos venha o diabo e escolha, é algo que me assusta. Joe Biden já não é novo mas tem uma longa biografia de homem decente, cumpriu honrosamente toda uma série de mandatos como senador, foi o nº 2 de Barak Obama e é conhecido pelas suas posições moderadas e pela defesa dos direitos das minorias a quem deve a nomeação como candidato. Conhece bem o mundo pois dirigiu a influente comissão de Política Externa. Tem uma preparação académica de qualidade tendo obtido o grau de “júris doctor” na Universidade. Poderá não vir a ser um grande presidente mas será sem qualquer dúvida um presidente muito aceitável quer interna quer externamente.

Infelizmente nós não podemos votar ao contrário de uma série de grunhos ultra racistas, bisonhos, ignorantes, sexistas e religiosamente fanáticos. E é nesse campo onde a eleição também se joga. Que Deus abençoe a América e lhe inspire algum bom senso, exactamente o que falta a muito híper crítico de cá.

Na vinheta: um fotograma de “la Cina é vicina” filme de Marco Bellochio (1967) e que marcou muito alguma malta da minha geração. Prefiro-o a “La Chinoise” de Godard, mesmo ano, mas claramente mais confuso. De todo o modo, ambos prefiguram algo que irá rebentar no ano seguinte e que, obviamente ainda é um marco absoluto cinquenta anos depois.

 

 

diário político 227

d'oliveira, 09.06.20

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Estupidamente "revolucionário"

d'Oliveira fecit, 9-6-2020

 

O finado presidente Mao afirmava num dos seus melhores ensaios (e não são assim tantos) que “o guerrilheiro deve mover-se no seio do povo como o peixe na água”.

Mais tarde, muito mais tarde, a destempo e contra qualquer lógica revolucionária, alguns intelectuais alemães ocidentais apregoavam a genialidade da acção da “rote Armée Fraktion”, afirmando que à volta do esquálido grupo de guerrilheiros urbanos havia uma espessa névoa de simpatizantes que permitiria aos primeiros actuar com grande impunidade sem ser pressentidos pelas autoridades.

Nada mais falso, como depois se viu. A RAF foi duramente eliminada, violentamente dissolvida depois de uma meia dúzia de assassínios inúteis e contraproducentes. Os “netos de Marx e filhos da Coca-cola” não passavam de pequeno-burgueses fanatizados que se aborreciam no seio de uma sociedade afluente e sonhavam com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Pelos vistos não conheciam bem nem os texto de Rosa nem a história curta e movimentada do “espartaquismo”. E, muito menos, as consequências da acção revolucionaria deste.

No caso da China, as coisas também não corresponderam exactamente à teoria.

A “longa revolução” e a não menos “longa marcha” se é verdade que tiveram alguns citadinos no seu comando, devem o seu êxito a um par de factores com que Mao não tinha contado, a saber a invasão japonesa, a insanável divergência entre vários senhores da guerra nacionalistas e o não apoio (ou escasso apoio) americano ao generalíssimo Chang Kai Chek. E a outros dois factores importantes: a base comunista do Yunan estava longe e não era considerada um alvo prioritário. O apoio camponês a Mao era mais uma jacquerie do que uma revolução. Aliás, os russos do Komintern sabiam-no, diziam-no e não eram exactamente, já nessa altura, apoiantes de Mao.

Deixemos, no entanto, estas pequenas questões históricas e passemos ao que interessa.

Em Portugal, neste Portugal, o “maoísmo” foi passageiro, a revolução nunca esteve na ordem do dia, sequer para o PC, e os pequenos movimentos da Esquerda radical (os “esquerdelhos” como o PC os anemizava), tiveram o seu momento entre Junho de 74 e Novembro de 75. A partir daí, o que ficou e que mexeu foi mais um caótico agrupamento de radicais sem causa, guerrilheirinhos urbanos e desajeitados, que se distinguiu em assaltos a bancos do que qualquer organização de base revolucionária. A “revolução” não estava na ordem do dia nem para Moscovo nem para o resto do mundo. A descolonização fizera-se e o que restava, isto é a “metrópole” não convidava ninguém a criar aqui outra Cuba, cara e longínqua. E com uma fronteira terrestre com Espanha!

Mas ficou desses tempos já perdidos no passado, uma saudade de acção que alimentou até à data uma pequena franja radical e citadina que, graças ao admirável sistema de eleição para deputados, se conseguiu incrustar no Parlamento. Não deixa de ser curiosa e, eventualmente, um case study, a existência de uma organização que se reclama da Esquerda mas que não tem apoio sindical nem base autárquica!

Ora bem, esta organização e a miríade de grupos pequeníssimos que preenche o que se costuma chamar esquerda radical portuguesa, precisa, como de pão para a boca, de causas que lhe deem visibilidade. Isso, esse apontar de alvos a abater ou a sublimar, permite depois, votar alegremente e sem estados de alma, todos os orçamentos que o PS lhe impuser como, de resto, se irá ver brevemente.

O assassínio vil e cobarde de um pequeno delinquente negro americano (se acaso é verdade que pagara com dinheiro falso uma qualquer e pobre compra) permitiu na América voltar a pôr-se em questão a situação arrepiante da minoria negra que (com as minorias nativa e latina emigrada e indocumentada) vive não o sonho mas sim o “pesadelo americano”. O covid e a desastrosa e repelente política de Trump, com o seu cortejo de mortes e desemprego, fizeram o resto.

Em Portugal, o BE com o apoio expresso ou tácito de mais um par de organizações entendeu manifestar-se na rua contra o fim trágico de Floyd. Não foi original mas isso não impede a justeza do protesto.

O que, eventualmente (e com excepção de alguma manifestação em França onde a minoria emigrante tem fartas razões para se queixar) foi diferente e original foi a presença de uma meia dúzia de cartazes que apelavam à violência contra a polícia, distinguindo-se especialmente um (ou uns) em que se enfatizava uma velha máxima do Faroeste (índio bom, é o índio morto) afirmando que polícia bom é só o polícia morto.

A coisa causou escândalo, os sindicatos da polícia resolveram queixar-se a quem de direito e no parlamento todos juraram virtuosamente que “aquilo”, as ameaças, era um fait-divers e totalmente fora do “espírito” altruísta da manifestação.

Não ponho em dúvida que este tipo de cartazes não fosse desejado pelo BE & assimilados. Todavia, uma manifestação tem sempre um “serviço de ordem” ou, à falta dele, um par de criaturas que tentam limitar os excessos e os estragos.

Ora, pelos vistos, os portadores dos cartazes anti-polícia passearam-se com um perfeito à vontade sem que ninguém lhes exprobasse a burrice e a fobia criminosa.

E é isso que interessa aqui julgar. Esse desinteresse por esta espécie, lusitana e morna de um black-bloquismo de faca e alguidar diz muito do subterrâneo ideológico em que se movem alguns, muitos ou poucos, simpatizantes do BE & associados.

Eu, ingénuo que sou, fico sempre surpreendido com as explicações a posteriori como se o que que correu mal fosse algo de impensável e imprevisível. Não é. Uma organização política, mesmo com os ademanes juvenis e fundibulários do BE, não se pode dar ao luxo de vir dizer depois que nada daquilo é com ela.

Veja-se como o PCP se demarcou rápida e inteligentemente da burrice pseudo-revolucionária dos portadores de ameaças. O BE pela voz, e foi a primeira vez que vi a senhora deputada em questão, e não por mero acaso, negra, veio desfazer em frouxidões mal amanhadas recusando qualquer responsabilidade como se este género de passeatas de fim de semana não tivessem responsáveis. Aliás, e depois de ter condenado o ajuntamento propício a covids vários, também vieram e a despropósito afirmar que tinham máscaras para distribuir e gel. Alguém ainda não percebeu bem como é que a pandemia funciona. E mais uma vez, a comparação com o PC, raposa velha que numa coreografia brilhante encheu o parque Eduardo VII com um pequeno grupo de manifestantes devidamente embandeirado e sempre mantendo a distância regular imposta pela DGS (salvo seja, raio de sigla!)

É aqui que entra a velha regra de Mao: no BE, pelos vistos, ao lado do voto pudibundo nas medidas que o PS entende dever submeter à Assembleia da República, há a velha tentação maximalista de prometer o inferno aos adversários ou, no caso, à polícia.

Eu aproveito para uma declaração de interesses: ao longo da minha vida dei-me sempre mal com a polícia: Com a política, com a Judiciária que um bom par de vezes substituiu com denodo a primeira, com a PSP que várias vezes me zurziu os lombos, com, imagine-se, a Guarda Fiscal que, nas fronteiras antigas, ajudava a pide diligentemente, com a GNR que guardava os presídios para onde eram atirados os opositores do Estado Novo e mesmo com a Polícia Marítima que chateava os veraneantes por causa da indecência dos fatos de banho. E, já agora, com a espécie extraordinária dos “inspectores de isqueiros” que à socapa andavam à caça dos que não tinham licença de uso de tais objectos mas que os preferiam aos fósforos!  

Mas nunca, mesmo se maltratado, desejei a morte de qualquer muito menos a prometi fosse a quem fosse.

 

...

E já agora: parece que os senhores Presidente da República e Primeiro Ministro entenderam ir ao Campo Pequeno assistir a um extraordinário acto de cultura, ou seja a um concerto da mais exaltante música popular do momento. Não consta que o recinto estivesse, milagrosamente, preservado contra a infecção nem sequer que tivesse havido um especial cuidado na delimitação cuidadosa das distâncias necessárias.

Eu não questiono os gostos musicais de Suas Excelências mesmo se os não partilho mas julgo que não foi um momento feliz para ambos, sobretudo se, como se sabe, Lisboa é já há algum tempo, o foco principal da infecção.

Que Deus os guarde do covid

*a imagem retirada da internet. Ou como um palerma juvenil corre o risco de apanhar com uma pena de prisão. Merecida, aliás!

diário político 226

d'oliveira, 14.05.20

 

 

“O dueto da corda”

d'Oliveira fecit 15/05/2020

 

Por este título, assaz tonto, os leitores não se recordarão desse fabuloso “the Blues brothers”, filme de John Landis, (1980) com John Belushi e Dan Ackroid e uma banda sumptuosa de “rythm n blues”, formada por músicos de estúdio em que pontificavam Steve Cropper e Donald “Duck” Dum, Tom Malone e Matt Murphy.

Além destes músicos, há no filme interpretações de Aretha Franklin, Cab Calloway e Ray Charles. Em suma um excelente musical, uma comédia divertidíssima que ainda hoje anda em dvd e cd com vendas grandiosas.

Mesmo que não me pareçam bons cantores, nem grandes actores, os Srs. Presidente da República e Primeiro Ministro têm demonstrado ser, e desde há muito, um dueto da corda. Um gordinho como Belushi, outro magro e alto como Ackroid andam a entreter o pópulo nacional com um filme que, mesmo não sendo dirigido por Landis, merece alguma atenção e não pouca gargalhada.

Já se sabia de alguns jantares (ou almoços) que ambos partilhavam no “solar dos Presuntos” (boa escolha!) e onde acertariam agulhas ou simplesmente conviveriam.

Também não passou sem se notar, a cumplicidade de ambos em vários, muitos momentos, sendo notório o cuidado em se resguardarem um ao outro mesmo quando havia desacordo.

Nada disto é grave, bem pelo contrário, mesmo se sabemos que vem de áreas políticas diferentes que eles, aliás, não se cansam de apregoar.

Desta feita, e numa só vez, eis que Costa lança Marcello para a recandidatura e deixa o PPD atrapalhado para descalçar a bota. Por seu turno, Marcello acorre em socorro de Costa, atirando-se a Centeno o mau da fita do “novo banco”.

Vejamos, para começar se Centeno, criatura que não me desperta qualquer espécie de simpatia, cometeu, no caso em apreço, qualquer malfeitoria.

Em primeiro lugar, o Estado, e Costa em seu nome, assinou um acordo com os famigerados donos americanos do “novo banco”, onde constavam, preto no branco, várias concessões de crédito, como esta que foi feita. Pior, no caso de Portugal não honrar o acordo, o grupo americano tinha à sua disposição os meios mais que suficientes para pedir, em tribunal, os cacauzinhos em dívida mais uma choruda indemnização. Tudo isto estava à vista de todos, incluindo os neo-indignados parlamentares que, pelos vistos, não leem os documentos. Ou se os leem, esquecem-nos com demasiada rapidez.

O Sr. Primeiro Ministro, pelos vistos, também anda com falta de memória pois afirmou no Parlamento algo que nunca poderia sustentar, ou seja que sem mais outra enésima investigação, o banco não receberia nem um cêntimo dos cofres do Estado. Alguém, mais maldoso, diria que o dr. Costa caiu que nem um pato numa esparrela dos seus amigos gerigoncistas que nesta festa tiveram apoio por parte da chamada “oposição”.

Centeno, que de burro não tem nada, farto de ser acusado por fas e por nefas, não gostou da fogueirinha que lhe acenderam debaixo do mimoso pé. Provavelmente, descobriu que não tinha vocação para fazer de Joana d’Arc.

E com alguma razão: deve-se a ele (e ao turismo e às exportações) o milagre das rosas revelado no Orçamento pré covid. Com isso, provou a profecia do terrível Schauble que o consagrava como um “Ronaldo” das Finanças.

Como alguém ainda recordará, correram, sempre antes do covid aterrar no jardim à beira mar plantado, notícias sobre a vontade de Centeno de sair do Governo (e de eventualmente ir para o Banco de Portugal como Governador). A Costa e ao PS não convinha tal saída e percebe-se porquê. Ao Presidente da República, sempre pronto a reconhecer e propagandear as virtude do “nobre povo, nação valente etc” também não agradava a ideia da criatura sair da presidência do Euro-Grupo.

Aliás, numa rápida corrida pelos eventuais candidatos ao Ministério da Finanças não se vislumbravam sucessores viáveis. Centeno teria, segundo alguns, criado um deserto à sua volta que homem prevenido vale por dois.

Mas, subitamente, eis que a bonança se altera e de que maneira: o novo banco recebia a fatia do bolo prometida num documento irrecusável e Costa, o esquecido, perdia o pé na praia pouco clemente de uma embaraçosa pergunta parlamentar.

A intervenção do Presidente da República, eventualmente precipitada, deixou Centeno sem pé (perdoem a continuação da metáfora banhista que aliás vem a propósito visto andar tudo a discutir as praias e o seu uso por milhões de ex-reclusos nacionais que já só vêm os algarves, o sol, o sale o sul). O homem há de se ter doído, que não nasceu para punching ball de boxe.

E armou-se a tenda! Centeno de um lado a ameaçar sair. Costa descalço com um orçamento suplementar em riscos de ficar órfão.

Para barraca, esta é uma gorda, grande, horrível barraca!

Ontem, à noite (e pela madrugada fora) sucediam-se os comentários sobre a insustentável leveza de ser Centeno. Uma entrevista apressada (oh quem me dera ser mosca a passear-me por S Bento...) um comunicado pouco esclarecedor, muitos beijinhos e abraços mas uma dúvida tenaz e bem mais precisa do que a de S Tomé: e agora?

É que, nesta altura do campeonato (este e não o de futebol) não é indiferente ter Centeno seguro no Governo ou ter um clone da criatura no Terreiro do Paço. Por muito que isso custe à deputadagem apressada do PS ou às meninas do BE sempre prontos a gritarias no Parlamento.

Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos que isto vai ser mais emocionante que as miseras telenovelas que entopem os canais portugueses entre o noticiário das oito e os lancinantes comentários tardios sobre o hediondo crime da criança de Leiria. Em ambos os casos, o tom é apocalíptico, obsessivo, repetitivo e já não esclarece nada.

Está de acordo com a época.

    

 

diário Político 213

mcr, 02.05.20

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Em 1808, a dois de Maio, o povo miúdo de Madrid levantou-se contra os franceses que ocupavam o reino e tinham o Rei e a família real sob  tutela reforçada para não dizer prisão. A repressão a mando do general Murat foi violentíssima mas, na verdade, não só não parou a revolta mas deu início a uma guerra de libertação vitoriosa e exemplar.

 

 

diário político 225

d'oliveira, 26.04.20

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um homem só pode valer mais do que setenta acompanhados

D’Oliveira fecit a 26 de Abril de 2020

 

A celebração do dia 25 lá decorreu, como se previa. Ou, mais exactamente, com um número reduzido de presenças, como mandaria o bom senso.

E fala-se em bom senso porquanto este faltou, e de que maneira!, ao dr. Ferro Rodrigues. Definitivamente, os longos anos de deputado os já quase cinco de Presidente da Assembleia, deram pouco fruto. S.ª Ex.ª ainda não percebeu que os seus tiques autoritários, a sua ansia de protagonismo, a sua tentativa de estar sempre a dizer coisas (como aquela prima do Solnado) enfraquece o seu papel, sujeita-o ao ridículo e torna as suas intervenções em inoportunidades.

Não se põe em causa que a data seja celebrada na AR. Mesmo se dezenas de outras actividades estejam suspensas, assistência a enterros, casamentos, baptizados ou aniversários de familiares e/ou amigos. Manda o bom senso e a prevenção geral que assim seja.

Também as grandes festas religiosas (e destaco a Páscoa, para a imensa maioria cristã portuguesa, ou o Ramadão que agora se inicia e que toca cem ou duzentos mil cidadãos nacionais ou emigrados) tiveram de sofrer fortíssimas restrições que os líderes religiosos, com mais bom senso que o dr. Ferro, aceitaram e acataram. Nem sequer vou usar o argumento da laicidade do Estado porquanto um Estado laico e democrático respeita e protege a religião dos seus cidadãos. E tanto é assim que, ontem, na tribuna dos convidados estava o cardeal patriarca. Se o convidaram por alguma razão foi.

O que toda a gente ou muita, pouco interessa, tentou dizer ao Presidente da AR foi que, justamente porque o parlamento (e bem) está em funções, deveria no caso celebrativo mostrar-se austero, sensato e respeitador das mais estritas regras de segurança sanitária. O Parlamento deve dar o exemplo.

Ora o projecto inicial da celebração era tudo menos isso, desde o número de deputados presentes até ao rol enorme de convidados. Pessoalmente, eu até preferia que os presentes usassem máscara. Para dar o exemplo. Cada vez que a utilizo sofro horrores: os óculos ficam logo embaciados, o calor aperta, a respiração enche e esvazia o raio da máscara – e já recorri a vários modelos!

A obrigatoriedade da máscara vai dissuadir-me de pôr o pé fora de casa muito mais do que o medo (e eu tenho medo, juro!) de me infectar. Numa casa em que só somos dois, em que a minha mulher tem problemas pulmonares graves, uma infecção minha será sempre muito grave. Quem é que irá às compras, à farmácia ou a um qualquer outro recado importante e imprescindível?

Ao contrário de muitos estrénuos defensores ad nauseam da democracia, das conquistas de Abril, do trauteio de Grândola ou dos cravos vermelhos, sempre entendi que uma celebração havia de ser digna, curta e exemplar.

Poderia aduzir um outro argumento: as datas, as famosas datas festivas da pátria celebram-se com normalidade. Ninguém precisa de, em dia certo, sair para a rua de punho no ar vitoreando as forças armadas. As mesmas forças armadas também trouxeram o 28 de Maio, só para dar um exemplo.

Para mim, a tropa, aquela tropa que se baseava na conscrição obrigatória e universal era o povo em armas. Agora, apesar de generoso, magnífico trabalho que os militares estão a prestar, a tropa é outra, é uma corporação quenão representa essa ideia sã e revolucionaria herdada da Revolução Francesa mas um corpo fechado, altamente especializado e, curiosamente, pouco atraente para a população em geral e para a juventude em particular.

De todo o modo, estou grato, gratíssimo, aos militares (do quadro e milicianos, é bom não esquecer estes últimos e aos soldados rasos o maior número, o menos lembrado, o que nunca tem honras sequer um voto de louvor) que correram com a pandilha.

Mas essa gratidão não esquece as sombras que as houve logo de seguida, o 5º Governo, as assembleias selvagens do MFA, a patética e lamentável inventona dos S.U.V., os golpistas sustidos pelo 25 de novembro, a tentativa duradoura de condicionar eleições, governos, assembleias. Nem todos os militares se chamaram Salgueiro Maia ou Melo Antunes, se é que me entendem. E, já agora, mesmo que nunca tivesse sido alguém que eu estimasse, devo lembrar que um certo marechal Spínola escreveu um livro que arrasava o fim do Estado Novo, o estado de guerra, a brigada do reumático. Spínola era um militar autoritário e isso viu-se. Também era, no início da guerra colonial, um oficial que poderia não ter ido para a frente de batalha, para o mato mas foi. A coragem respeita-se.

Resumindo, os militares como casta são do piorio. Como cidadãos são exactamente uma amostra deste povo que é o meu, o nosso.

As grandes datas, e dessas destaco duas, o 25 de Abril e o 1º de Dezembro, podem ser celebradas. Confesso que a maior celebração é o feriado gozado pacatamente, normalmente, como algo de definitivamente adquirido. É que hoje, julgo, ninguém põe em causa a independência pátria ou a liberdade. As pessoas já nem se lembram dos ásperos tempos, o que é um bom sinal. Sinal que a árvore da democracia está forte e que a floresta dos direitos e liberdades cresce sem perigo de fogos ou de ataque de madeireiros.

Mas, sobretudo, há algo que mais do que incomodar-me, me irrita soberanamente. É a contínua desqualificação dos adversários. No caso, como aliás, António Barreto, sublinha no “Público” é este cruzar de acusações fascista/comunista que é brandido por uns e outros.

Criticar o Poder, o Governo, este ou outro de outra cor, o Parlamento, a Câmara Municipal ou a Junta de freguesia é um direito absoluto da cidadania. Ora foi isso que foi tentado, e de forma desigual, nesta guerra do alecrim e da manjerona: os “fascistas” queriam matar o 25 A, proibindo uma meia dúzia de discursos em sessão solene que, sabe-se bem, poucos seguem na totalidade.

Os “comunistas” ou assimilados, os radicais estão prontos a ir para as barricadas para suster a onda impetuosa da Direita de faca nos dentes.

E vá de fazer petições. No caso, a da “direita” era quatro vezes maior do que a de “esquerda”, o que nada quer dizer, aliás. Em tempos de confinamento, as pessoas fazem tudo para se entreter.

Eu nem as vi nem, de resto, as assinaria. A minha frente de combate é esta modestíssima tribuna, e já me chega.

Uma palavra sobre os senhores ex- Presidentes da República. Um, o senhor general Eanes, discordando do modelo, entendeu dever estar presente. Muito bem. Outro, o paisaníssimo dr. Jorge Sampaio, homem avisado, sábio e sem necessitar de dar provas da sua histórica coragem, resolveu não comparecer por estar na situação de risco que a idade e os achaques comprovam. O terceiro, o professor doutor Cavaco Silva achou que não precisava de dar explicação pública e faltou. Não sei se escreveu ao sr Presidente da AR mas isso, eesse toque de boa educação não lhe ficaria mal.

Vir agora, como Vicente Jorge Silva, um ex director do corajoso “Comércio do Funchal”, o jornalzinho cor de rosa, afirmar que Cavaco detestaria o significado da data, é uma canalhice. Cavaco foi um dirigente político e, por acaso ou talvez não, ganhou duas eleições sucessivas por maioria absoluta, facto único na nossa história parlamentar. Não há notícia de ter sido, quando jovem, adepto do Estado Novo. Foi, como noventa por cento dos portugueses da sua idade e do seu tempo, um espectador passivo do que se passava, nada mais.

É antipático, pelo menos para mim, sobranceiro, cabeçudo, e opinante. Nada disso o faz fascista, proto-fascista ou perigo para a democracia. Não se lhe conhece nenhuma conspirata terrorista, como nos casos de alguns heróis militares e civis, nem se lhe aponta morte de homem.

Ontem, o bom senso acabou por vir à tona. Menos de metade das presenças anunciadas. Os discursos, incluindo o tão louvado do Sr. Presidente da República, foram o que foram. Dificilmente os compararão com o relativo à barca Charles et George...

*a gravura: uma imagem que se impõe pela sua dignidade: um homem só, idoso (ai,ai!...) desceu, ontem, a avenida da Liberdade. Ao pé desta imagem, nenhuma se lhe chega sequer aos calcanhares.

 

diário politico 225

mcr, 13.04.20

Alguém deve ser responsável 

 

d’Oliveira confinado mas não resignado

 

O episódio do compasso nos arredores de Barcelos e mostrado na televisão seria ridículo e daria uma ideia de um Zé Povinho de que já nos tínhamos desabituado. Porém, no actual contexto, obriga a uma reflexão mais longa e mais penosa. 

A criatura do sexo feminino que brandia um crucifixo que um bando de transeuntes iam beijando à vez já deveria estar identificada e posta a bom recato. Aliás,  deve ser facílimo identificar essa palerma. Quanto aos restantes tontos valerá também a pena ver quem eram pois não parece insensato pensar que dali sairão infectados. 

Mas a teoria da irresponsabilidade e da insensatez destes “fregueses” que observam uma paródia de compasso obriga a que se vá um pouco mais longe. 

Quem autorizou esta palhaçada grotesca e perigosa? Quem forneceu o crucifixo?  Qual é a posição do pároco local e do senhor bispo (no caso o de Braga, ou o do Porto, desconheço os limites dos respectivos bispados)? 

A regra canónica tão pouco afeiçoada às mulheres já permite a uma o exercício deste mester que, verdade seja dita, é um tanto ou quanto pagão? 

Não me espantaria demasiadamente que nesta garraiada à antiga portuguesa estivesse a mão escondida de algum eclesiástico local ou regional. Ainda há pouco tempo vimos um pároco de uma localidade perdida a celebrar missa contra, parece, as indicações do bispo. E há a vaga notícia de mais umas desgarradas tentativas noutros locais. Padres estúpidos e ignorantes não faltam que nisto, na distribuição da inteligência e do bom senso há democracia até dizer basta. 

Não venho à ribalta para fazer propaganda anti-clerical, era o que me faltava. Penso, mesmo, que a Igreja tem neste processo de combate à pandemia um papel relevante, essencial. Os párocos, os centros paroquiais e as demais organizações eclesiais de base poderão contribuir de forma especial e importantíssima. O que torna este espectáculo ainda mais perigoso e risível. E exige, por isso mesmo, um inquérito imediato, completo, rápido e sem contemplações. E é por isso que, justamente, se espera uma posição clara do bispo local. E, já agora das autoridades civis, Junta de Freguesia e Câmara Municipal. 

Também se pergunta se, neste exibicionismo torpe, houve qualquer reacção policial pois duvida-se que ninguém tivesse prevenido as autoridades. 

......

(em aparte: depois de ouvir na televisão o senhor bispo do Porto, sem dessa entrevista tirar qualquer conclusão desfavorável, soube que Sª Eminência foi à ponte Luís 1º abençoar a cidade. De certa forma, isso surpreende-me. Na realidade a Sé do Porto e o Paço episcopal estão a uma cota mais alta (e mais histórica!) de onde a bênção eventualmente alcançaria mais almas. Será que o senhor bispo  e os seus conselheiros geográficos ignoram  o conceito de altitude?) 

(em segundo aparte, desta feita laico. O senhor Ministro da Administração Interna deu há momentos uma conferencia de imprensa que me faz crer que ou ignora o que se passou na zona de Barcelos ou prefere não se molhar condenando aquele estropício. É pena! )