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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

13
Abr19

Diário Político 215

d'oliveira

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O gato escondido com o rabo de fora

d'Oliveira fecit (12/13 de Abril)

 

O dr Centeno, excelso Ministro das Finanças, resolveu dizer ao Financial Times o que não diz aos jornais portugueses. Presumo que ele é mais fluente em inglês do que na pátria língua, coisa que, aliás, já me tinha ocorrido pois, sempre que o ouvia. Notava-lhe alguma dificuldade de expressão.

Em poucas palavras, afirmou que entre a política económica e financeira do anterior Governo e a do actual não houve mudanças dramáticas. Deu-se com uma mão o que se retirou com outra (impostos indirectos, por exemplo).

A riqueza líquida do indigenato local apenas aumentou na medida (e nem sequer na exacta medida) em que aumentou a do resto da Europa.

Nem podia ser de outra maneira, mesmo se o país contou com um Banco Europeu complacente e generoso, com o incremento (importante) das exportações e com o maná turístico.

(e não se refere a baixa do investimento público e a pouca atractividade denotada pelo investimento estrangeiro e, muito menos, a política de cativações que redundou num espinhoso problema no capítulo da saúde, por exemplo).

As razões desta súbita “autocrítica” de Centeno prendem-se com algum “arrefecimento” generalizado da economia europeia e nacional, com a impossibilidade de resolver os problemas salariais de certos, bastantes, corpos da função pública (professores, militares, médicos e enfermeiros etc.) como parecia deduzir-se do programa de governo e, sobretudo, do que a “geringonça” poderia pressupor. Por isso, num último momento, viu-se o pobre diabo do Planeamento e Infra-estruturas avançar com salvas de pólvora seca sobre faraónicos projectos públicos que tinham a vantagem de ser sempre futuros, muito futuros. De todo o modo, as promessas estavam feitas e o Governo que depois viesse teria de se entender com os portugueses. Isto se não se apostasse na proverbial memória curta dos eleitores cuja utilidade (escassa) é servirem de carne para canhão em épocas eleiçoeiras. Quando as coisas acalmarem, na hipótese provável de um novo Governo capitaneado pelo PS, o sr. Pedro Marques estará longe, em Bruxelas.

Não se nega a Centeno as qualidades que tem e não serão poucas. E são elas, justamente, o que fundamenta a sua cautelosa navegação sempre à vista da costa. Pessoalmente, acho que teve uma cedência infeliz: permitiu que o IVA sobre a restauração fosse revertido. Conviria lembrar duas coisas (e ambas previsíveis no momento em que a medida foi levada a cabo): as empresas não baixaram os preços mesmo quando o IVA baixou (recorde-se que quando ele foi instaurado, praticamente todos os restauradores aumentaram consequentemente os preços); depois, é bom lembrar que num país onde o turismo externo crescia exponencialmente a medida foi apenas (ou sobretudo) boa para os visitantes estrangeiros. É duvidoso que a plebe nacional tenha sofrido especialmente com o agravamento e mais duvidoso ainda que do alegado e inexistente desagravamento, tivesse obtido algum benefício.

Sei que o sr. professor doutor Cavaco Silva se referiu a este ponto mas isso não me impede de o usar. De resto, não sei se o dinheiro que se perdeu absorveria parte do desastre na Saúde. De todo o modo, quem ganhou com esta medida foram de certeza os turistas e todos os que sempre puderam dar-se ao luxo de frequentar restaurantes. A minha diligente empregada doméstica (que aliás ganha bem mais do que o salário mínimo) seguramente que não foi a correr empanturrar-se nalgum mesmo pequeno restaurante.

A Oposição bem que bramia, do poço fundo para onde foi atirada, que a austeridade continuava. Mas, em Portugal, já o disse repetidas vezes, as oposições nunca são ouvidas seja qual for o Governo em funções. Por cá as oposições são sempre más, malignas, moscovitas ou serventuárias do mais infrene capitalismo, fascistas até. Ser da oposição não é uma sina mas tão só um traço de carácter. Eu ainda sou do tempo da “Outra Senhora”, dita a “oposicrática”, e recordo com desprazer não só as bastonadas que recebi nos magros e juvenis ombros mas sobretudo o desprezo a que eram votadas todas as opiniões que não respeitavam o Estado Novo.

O 25 de Abril não mudou uma vírgula neste capítulo, basta ver e ouvir o que os partidos dizem dos adversários, o uso imoderado de expressões como ética republicana, povo, democracia e reacção. A reacção é como a Hidra de Lerna, mas como já não aparece nenhum Hércules, continua a pavonear-se por aí como sustenta o PC que mantem, sem originalidade mas convictamente, que existe na pátria uma conspiração sem fim contra as políticas “patrióticas e de esquerda” e contra o povo que o PC entende representar sozinho (mesmo se esse povo, eventualmente ingrato, só lhe conceda 10% dos votos). A Direita (bicho de que todos fogem e ninguém assume) acaba nas franjas pouco edificantes de um par de grupúsculos que detestam imigrantes, sobretudo os mais escuros, homossexuais (de todos os tipos) e democratas. Além disso, juntamente com alguma alegada Esquerda, não gostam da Europa, do euro e são férreos defensores da “soberania nacional”, esdrúxula ideia que o PC (esquecido da célebre “soberania limitada” propagandeada por Brejnev e respeitada pelo dr Cunhal, que reduzia os países “socialistas” e os seus partidos únicos e dirigentes a uma extensão desinteressante da URSS).  

O dr. Centeno fez que sim com uma mão enquanto com a outra ia cortando eito e forte e feio. Agora, perto da hora da verdade, incapaz de pagar todas as promessas de bacalhau a pataco, veio friamente lembrar que o dinheiro não é elástico e que a mais elementar prudência obriga a dizer não. A entrevista no jornal estrangeiro serviu para avisar os mercados internacionais que isto por cá não anda sem rei nem roque. E que podem, apesar de tudo, confiar no actual Governo que poderia parecer vermelho por fora mas que é verde, verdinho, por dentro. Os protestos dos aliados na Geringonça serão sempre tomados por mera campanha eleitoral. Aliás, diga Costa o que disser, se necessário fosse, havia sempre a hipótese de “geringonciar” à direita. O “centrão”, ou o que lhe quiserem chamar, está ali para as curvas, sobretudo depois de quatro anos de amargo jejum e abstinência.

O dr Centeno foi saudado por Schauble o temível ministro das finanças alemão que o apelidou de Cristiano Ronaldo. O elogio não era fingido, como se vê. Nem fingidos foram os votos para a presidência do Euro-Grupo, mesmo sabendo-se que a grande maioria dos eleitores vinha do campo conservador. Estes cavalheiros (como o dr Cavaco Silva em seu tempo) nunca se enganam. E promover um ministro de um pequeno e periférico país (como também já ocorrera com a eleição de Durão Barroso...) evita problemas entre os restantes. Centeno era, é, um excelente menor denominador comum e mínimo divisor também comum. Com a obrigatoriedade de ter, como Janus, duas caras: a europeia e a nacional, nossa.

As boas almas do costume rejubilaram com a eleição de Centeno. Que bom, que agora sim, que já nos respeitam por esse mundo fora que voltaram os heróis do mar e outras banalidades do mesmo teor .

Houve mesmo quem adivinhasse um futuro brilhante para a pátria tristonha e benefícios a granel para Portugal. A iliteracia política, entre nós, não tem limites ou, se os tem, alguém se encarrega cuidadosamente de os obliterar.

 

Apêndice que não tem nada a ver com o antecedente: os líderes europeus deram à sr.ª May alguns meses para ele sair do beco sem saída em que se meteu. Ela e o parlamento inglês, diga-se... Há porém alguns pequenos escolhos. O primeiro diz respeito à data das eleições europeias. Nessa altura ou os britânicos vão a votos ou saem de todo. Se forem a votos, os deputados que elegerem poderão causar vasto sarilho no Parlamento Europeu. Por outro lado, os “brexiters” uivarão à simples menção de votar para um aboinávl parlamento que não querem. Finalmente, alguém credita que emOutubro (já com votos e tudo) alguma coisa diferente poderá suceder?

A pobre sr.ª May aguentou estoicamente e sozinha seis longas horas numa sala enquanto os 27 estatuíam sobre o seu pedido. Pior do que isto só o blitzkrieg!

Por cá há comentadores que enchem a boca com a “mais velha aliança europeia ou do mundo”. Temos pago essa aliança bem duramente e sempre al contado. E estamos a pagar, todos, este folhetim desde há meses. Estão em jogo a permanência e o empregos de 400.000 emigrantes portugueses lá e de 40.000 reformados ingleses cá e, por muitos planos de contingência que se desenhem ninguém garante quer para uns quer para outros uma solução razoável e digna.  

 

Nota: este texto está pronto desde ontem mas razões fúteis ealguma preguiça só o trazem à dvidosa luz destedia mais que cinzento hoje. Entretanto, um comentador do Público produz algo com algumas semelhanças neste sábado. Não me copiou, claro e muito menos eu o copiei. Coincidimos, apesar de claras divergências ideológicas, numa mesma conclusão. Centeno tem a língua bífida!

26
Fev19

diário político 214

d'oliveira

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Uma morte ao retardador

D’Oliveira, fecit 26 Fev 2019

 

Morreu o Arnaldo de Matos.

Quem?

O grande educador da classe operaria.

Ah, esse...

 

 

Arnaldo de Matos, 80 anos, militante e, na sombra, dirigente do MRPP morreu há dias. No entanto, a sua morte, pelo menos política, fora há já muito tempo. E em etapas sucessivas. A primeira data dos tempos post-PREC , finais dos anos 70. O MRPP, depois do 25 de Novembro e, sobretudo, depois dos governos militares, foi-se finando tranquilamente pesem embora os murais e toda a iconografia vermelha e amarela com que pintaram Lisboa e arredores. Sem lugar na Assembleia da República (ao invés da UDP que conseguiu manter um deputado tão inútil quanto representativo de uma certa extrema esquerda), batido em sucessivas eleições que cada vez mais o confinavam a Lisboa (mas não à sua cintura industrial), perdida gradualmente a influência nas escolas superiores seus veros bastiões. O MRPP (a quem alguma irónica má língua apelidava de “eme erre pum pum”) diluía-se na paisagem política, entretido em cisões internas (a famosa “linha vermelha contra a linha negra”) e sem ligações internacionais significativas (A China não lhe ligava especial importância, preferindo outros e mais modestos, discípulos lusitanos, igualmente irrelevantes no jardim da Celeste, e, obviamente a Albânia também não).

O fim da China da grande revolução cultural e proletária, o mesmo é dizer, o desaparecimento de Mao Zedong e a lenta, dificultosa mas tenaz caminhada para um capitalismo de Estado controlado pelo partido único, o fim da União Soviética (que, mesmo se criticada pelos ideólogos do MRPP, estabelecia um padrão e uma linha de conduta para a Esquerda de todos os matizes desde os “revisionistas modernos” e/ou “social-fascistas” até aos “verdadeiros marxistas-leninistas” (maoístas), passando pelas diferentes tendências trotskistas, e alentava a ideia de uma outra margem ideológica) tudo se conjugou para criar no público a ideia da irrelevância do também fantasmático Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses nome oficial do mrpp a partir de 76ou 77.

Entretanto, Arnaldo, crismado “o grande educador da classe operária” pelos seus entusiásticos camaradas deixou os cargos dirigentes (pelo menos oficialmente) passando o cargo ao advogado Garcia Pereira que aguentou anos e anos a fio uma organização onde, segundo ele, se conspirava permanentemente contra si. O desaparecido Arnaldo, pelos vistos, advogava para ganhar a vidinha, coisa que de nenhum modo pode ser criticável.  Não é impunemente que sedeixa o palco a outro por longos anos. Esta foi a 2ª ou 3ª morte do personagem de que ninguém ou muito poucos  sabiam. Nos últimos dois, três anos Arnaldo reemerge, ele-próprio e ele-outro sob o pomposo pseudónimo de Espártaco, e vai distribuindo, para um público tão indiferente quanto restrito, elogios –raros-, excomunhões –muitas, e ataques cerrados, quase sempre. E Pereira abandona o barco, como já antes outros conhecidos dirigentes (a começar por Durão Barroso, enquanto menino, ou Saldanha Sanches – o da linha negra – ou Fernando Rosas, um dos pais do Bloco).

Todavia, Arnaldo de Matos, a quem nunca se negou grande inteligência, excelentes dotes oratórios e cultura acima da média, conseguiu –talvez a par de Francisco Rodrigues Martins, o pai da FAP e do comité marxista leninista português e ex-membro do CC do PCP, ser a mais conhecida figura desta extrema esquerda que teve os seus dias de glória entre 1970 e 1976. Antes do 25 de Abril tornou-se conhecido pela campanha pro Vietnam e, menos pela luta anti-colonial. Também controlou algumas associações de estudantes lisboetas e, coroa de glória, a última dúzia de edições de “O tempo e o Modo” que, aliás liquidou pouco depois do 25 de Abril. Ler esse conturbado ano de “o TM” é, hoje, um penoso exercício. Os textos então publicados são de uma grande ferocidade e igual pobreza ideológica. Não foi caso único esta erupção editorial. Os mais curiosos poderão com igual espanto ler alguns dos derradeiros números dos “Cahiers Marxistes Leninistes” (Union des Jeunesses Comunistes Marxistes Leninistes) que eram bem mais rebarbativos. Todavia, neste caso, a maioria daquela malta acabou na “gauche proletarienne” e nos “mao-spontex”. De todo o modo, não se livram da vergonha de terem assumidamente perdido o comboio do Maio de 68 que, pelo menos era festivo e tentava com ingenuidade “changer la vie”

Foi por estes anos, mais precisamente em 68, provavelmente durante a “Tomada da Bastilha” de Coimbra que me cruzei episodicamente com Arnaldo de Matos. Este e mais umas dezenas de adeptos da ainda “Esquerda Democrática Estudantil” mãe putativa do mrpp. A Coimbra, nesse ano, com a AAC já reaberta depois de três anos de miseráveis comissões administrativas, afluíram para a festa uns centos de estudantes maioritariamente de Lisboa. No “plenário” que se realizou, ouvi pela primeira vez Arnaldo de Matos, senhor de um verbo vibrante mas com um discurso totalmente fora da realidade estudantil coimbrã. Curiosamente, nas vésperas da maior e mais bem sucedida greve estudantil portuguesa, alguns dos visitantes entendiam dever trazer a boa palavra aos bárbaros coimbrões que pacientemente e durante três anos de luta não só tinham conseguido manter uma forte unidade mas, nesse ano de 68, tinham infligido à Direita uma rotunda derrota nas eleições associativas. Não deixa de ser irónico que todos estes revolucionários não tenham conseguido sequer secundar a greve de Coimbra.

Depois dos discursos, encontramo-nos mais ou menos casualmente e ele, AM exigiu-me com sobranceria que lhe entregasse uns livros e documentos que me tinham sido oferecidos por um italiano com quem desde algum tempo eu mantinha relações políticas. Já só me recordo do título de dois livros dessa, aliás pequena, remessa: “L’anno degli studenti” de Rossana Rossanda e “Lettera a una professoressa” um texto colectivo alegadamente atribuído aos alunos de uma escola de Barbiana. Qualquer destes livros estava a milhas do discurso dos futuros eme-erres.

A coisa ficou por aqui e nunca mais nos cruzámos. Ou melhor, em inícios de 70 (Fevereiro ou Março) alguém me passou o primeiro número do recentíssimo “Luta popular”. Trazia-o comigo quando desconfiei de umas manobras de um conhecidíssimo agente da PIDE que ao passar pela “Brazileira” me fitou com ar de espanto. À cautela subi as escadas até ao andar dos bilhares e enfiei o jornalzinho muito bem dobrado num buraco da parede escondido pela porta, que estava sempre aberta (era aliás um local que eu e alguns outros conspirativos usáramos durante algum tempo para deixar papéis). Em boa hora o fiz porque pouco depois de ter regressado à minha mesa para tomar mais uma bica, fui ignominiosamente caçado por uma flotilha de pides e posteriormente enviado para Lisboa, primeiro por uns dias para a António Maria Cardozo e depois para Caxias onde estanciei uns meses numa cela com vistas para o mar. Quando regressei a casa, fui pelo jornalinho e lá estava ele bem escondido no buraco de sempre. Infelizmente, o mesmo não sucedeu com umas dezenas de livros que me foram levados e jamais restituídos.

Arnaldo de Matos, já o disse, era inteligente. Porém, era um estalinista convicto e ouvi-lo ou lê-lo era ainda mais chato do qu ler o artigo de fundo da Pekin Information. O seu estreito mundo ideológico era primitivo e parecia tirado a papel químico do “pequeno livro vermelho”. Nada tinha a ver com Portugal, com a Europa e, pelos vistos, nunca melhorou da miopia política de que enfermava. Nem é necessário relembrar as palavras de ordem do mrpp dos “bons velhos tempos”. Basta recordar a justificação infame e criminosa dos atentados jihadistas de Paris. Dignos de Pol Pot!

Dos mortos não deve dizer-se mal mas numa altura em que as boas consciências (que Matos sem rebuço desprezava) se multiplicam em elogios fúnebres, convém recordar estes pequenos factos, a cegueira e rudeza ideológicas. E imaginar por um único instante como seria o país se o mrpp alguma vez tivesse chegado ao poder. Diga-se de boa verdade que o mesmo se passou com o babado elogio fúnebre dos fundadores da ”rote Armée Fraktion” bem como de certos membros das “Brigate Rosse” ou de outros, e tão ou mais sinistros, grupos radicais. Uma vez mortos, são transfigurados em anjos anunciadores dos amanhãs que cantam.

 

13
Dez18

diário político 211

d'oliveira

Alguém que faça o favor de me explicar

(dOliveira a 13 (dia fatídico) de Dezembro de 2018 fecit)

A partir de Janeiro, p.f., o ordenado mínimo vai aumentar. Na privada passa para 600 euros. Na função pública para 635. Será que alguém, mormente do Governo ou dos partidos que o apoiam me pode explicar?

Teremos, em vez de um, dois países ou duas nações ou duas pátrias que se confundem num mesmo e único território?

Será que o trabalho na função pública é mais complexo, difícil e trabalhoso que o que se pratica nas empresas privadas?

Desde há anos que se assiste a uma contínua reivindicação de aumentos salariais na função pública tendo como base o facto, aliás indiscutível, ou quase, de as famosas “progressões na carreira” terem sido paralisadas. Conviria, já agora, lembrar que muitas dessas interrupções na famigerada “progressão” datam do último e virtuoso Governo Sócrates, ou seja de um governo retintamente socialista de que, aliás, sobram muitos membros no actual Executivo.

Conviria talvez, e com a habitual e contumaz má fé que me caracteriza, lembrar que durante o fim desse governo e depois nos anos da troika, o desemprego campeou à rédea solta. Enfim quase: na função pública não há notícia de nenhum desempregado, de nenhum despedido. Ao que parece foi na “privada” que se concentraram todas as desgraças, toda a emigração, toda a perda de riqueza. Em boa verdade, os trabalhadores privados, além de não terem uma sinecura, um seguro de emprego, são feios, porcos e maus. Merecem o lugar abjecto que ainda têm e a desigualdade de tratamento de que são alvo.

E não serve vir arguir que a culpa desta desigualdade é dos malvados patrões, das empresas que criam riqueza, que exportam, que criam emprego real. Como diz, e bem, o dr. Costa, o país não é rico. Não é rico mas trata os seus empregados como filhos e deixa a maioria dos trabalhadores reduzidos à situação de enteados. Isto sem esquecer que o dinheiro com que são pagos os funcionários públicos sai do bolso de todos os portugueses que pagam impostos (e há muitos que estão livres dessa alcavala) pelo que a generosidade do Estado patrão tem origem no facto de não sair do bolso dos seus responsáveis um cêntimo do que gastam (e, já agora, também recebem que por ali ninguém trabalha de borla seja contínuo, ministro ou professor). Com o dinheiro alheio também eu faria milagres...

31
Out18

Diário Político 211

d'oliveira

 

Brasil, Brasis...

d’ Oliveira fecit 29/30, Outubro, 2018

Não sou brasileiro, nunca fui ao Brasil (e bem pena tenho) mas, desde pequeno, o Brasil faz parte da minha casa. O meu pai é (era) um carioca de gema e todos os seus parentes do lado materno o eram. Em boa verdade, um longínquo trisavô, fidalgote empobrecido saiu demandou as terras de Santa Cruz, estabeleceu-se bem longe da corte, no Rio Grande do Sul e amassou uma fortuna gigantesca, com sorte, bom senso, muito trabalho e provavelmente alguma ajuda extra. Mais tarde, um médico alemão chegou aos mesmos sítios e casou com uma neta do terra-tenente. Vem daí uma longa teoria de famílias Heinzelmann e Martins que alastraram do estado do sul até ao Rio. Um desses Heinzelmann, militar de carreira ainda se correspondeu comigo via internet. (“Ué que é que você é a vôvô?”- Respondi-lhe que trineto e daí uns tempos de correspondência até ele desaparecer no éter. Em boa verdade, devo-lhe uma lista de Heinzelmann desde o século XVI que o pai, também militar coligira com dificuldade, várias falhas e muita paciência).

Depois, o Brasil foi para mim, as “Selecções do Reader’s Digest”, a revista “Cruzeiro” que chegava a Moçambique, bem como duas publicações de “quadrinhos” (Gibi e Guri) que eram óptimas.

Um pouco mais tarde irrompia, na minha mocidade, a literatura brasileira: graças e louvores se deem a todo o momento à editorial “Livros do Brasil” que nos trouxe, Amado, Veríssimo, Guimarães Rosa, Lins do Rego e mais outros tantos – nunca esquecer a abençoada Clarice Lispector, Deus a tenha o seu lado direito, senão ao colo sé que ela deixa e o Senhor se atreve. Através do Cruzeiro chegavam-nos ecos das tragédias brasileiras, ainda me recordo do fim de Getúlio Vargas, dos escritos de Lacerda, dos desenhos e piadas de Vão Gogo e de toda uma plêiade de jornalistas e cronistas que se deixavam ler com um profundo encantamento. Já perto da Universidade, chegaram os poetas. Primeiro o Manuel Bandeira e depois, em turbilhão, Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto com quem tive a honra e o imenso prazer de conversar um par de vezes. E outros, muitos outros (uma comovida homenagem ao grande Vinicius de Moraes “o branco mais negro do Brasil” que vi e ouvi no Teatro Avenida de Coimbra, em plenos anos sessenta acompanhado por dois estreantes (Toquinho e Maria Creuza). Dessa época são também os “Jograis de S Paulo”, um quarteto de recitadores extraordinário de quem consegui há pouco gravar para “cd” dois Lp de primeira água (“Poemas de Fernando Pessoa” e “Poemas Brasileiros”) que nunca foram reeditados nem passados a cd!!! Estes quatro actores tornaram-se célebres porque, mais tarde, interpretaram muitas personagens de telenovela (assim de repente só posso lembrar o Nacib, da “Gabriela cravo e canela”, a única telenovela que vi de cabo a rabo. A partir dessa, nunca mais consegui prestar atenção às que se seguiram. Defeito meu ou “Gabriela... era imbatível?

Nunca perdi de vista a política brasileira (Café filho, Kubitschek, Jânio Quadros, Goulart e uma série longa de generais que acaba com um Figueiredo que, por acaso, era irmão de um Guilherme autor de um manual/tratado sobre os chatos que é imperdível e emparelha com os notáveis escritos de Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto. A “ditadura” saía dali bem maltratada...

A “democratização” teve dois grandes protagonistas, Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardozo. O primeiro foi uma esperança e o segundo lançou –mesmo quando alguns finórios esquecem a sua imensa obra (e bom teria sido se tivessem lido um seu artigo saído no “El País” há duas escassas semanas) mas FHC não cabe nos estreitíssimos quadros mentais de alguma nomenclatura lusitana sobretudo num apaixonado “madurista” coimbrão que só vê maravilhas na Venezuela e medonhas profecias nessa indigência chamada Bolsonaro). O resto das presidências do Brasil, por muito que isso custe a uma certa inteligentsia esquerdizante, morreu com o mensalão. Nunca percebi como é que houve quem passasse por entre as gotas da chuva desse imenso escândalo e se fosse aproximando da beatificação democrática. É que, nesse momento, ainda havia hipóteses de inverter a triunfal marcha do populismo que se alimentava da corrupção avassaladoramente crescente de um regime exausto que fugia para a frente semeando medidas populares sempre segundo uma conhecida receita sul-americana que Perón e seus sucessores inventaram para anestesiar a Argentina e manter até hoje uma coorte popular saudosa desses tempo de desastre nacional anunciado (nem os anos dramáticos da Junta Militar conseguiram -no meio de um cortejo de horrores- vacinar duradouramente os “descamisados”).

Pelos vistos, só entredentes e em voz baixa, é que há quem lembre as responsabilidades da “Esquerda” neste vertiginoso caminho para o abismo. A “Direita” só não aproveitava este desastre ético, social e económico se fosse absolutamente imbecil. E nunca, por nunca, o é.

Ontem, na televisão, o pomposo dr. Louçã insistia na tola trivialidade: Bolsonaro é “fascista”. Eis uma qualificação fácil, encantatória, própria de um sacristão retardado que, pelos vistos, não aprendeu a história do século XX. Bolsonaro é claramente de Direita, odeia homossexuais, criminosos ( e no Brasil, no último ano, houve vários homicídios por dia, parece mesmo que por hora!), tem uma devota admiração pela generalagem da última ditadura que, aliás saiu pelo seu pé sem revolução das massas ou golpe de algum quartel menos autoritário. Nada disto absolve os militares golpistas mas também não eleva a nenhum altar especial os seus opositores (que, uma vez caído o regime, se multiplicaram como os pães e os peixes evangélicos. Como cá, aliás, como cá...).

A democracia brasileira teve de tudo e, sobretudo, abundaram os políticos medíocres, os Sarney, os Collor de Mello, os Itamar Franco... A ascensão do Partido dos Trabalhadores foi fartamente ajudada pela mediocridade desta gente e poderia ter produzido um estado regenerado não fora a fatal atracção pelo abismo. A corrupção aumentou e com ela aumentaram os corruptos, os corrompidos, a exasperação de quem assistia a este deboche.

Quando o cerco judicial a Lula se começou a apertar, Dilma Roussef, a “presidenta” (é dela o termo tão enganadoramente feminista) não soube, ou não pode, ou não a deixaram, distanciar-se do padrinho, bem pelo contrário. Caiu com ele, perante o protesto dos que subitamente entendiam a Justiça como demasiado politizada. A mesmíssima Justiça que já tinha atirado para a prisão dezenas de poderosos empresários e acusado outros tantos para não falar da multidão de políticos indiciados e arguidos por corrupção. Mas a “Justiça” só é boa quando varre os nossos inimigos...

O PT, entretanto, não percebeu que um candidato preso não é um candidato credível. E que insistir nele pode ter efeitos imprevisíveis. E assim começou a surdir um candidato improvável, um deputado discreto que percebeu (e para isso não era preciso especial clarividência) que o eleitorado brasileiro achava insuportável o partido no poder, o sistema, o desemprego que crescia exponencialmente, a criminalidade incontrolável o custo de vida, as tentativas canhestras (sentidas, aliás, como ilegais, imorais e injustas) de libertar Lula.

Haddad, que poderia ter sido um excelente candidato original e não – como a sociedade brasileira pressentiu – um “pau mandado” (que reunia semanalmente com Lula!!!), um homem de palha que, uma vez no poder, amnistiaria imediatamente o seu mentor, foi escolhido quando o furacão já vinha a caminho. A pergunta que poderia fazer-se é se o aparelho “pêtista” sequer o queria, se confiava nele se não esperava apenas o momento de o defenestrar, uma vez ele eleito e amnistiado Lula.

Percebe-se a desconfiança dos outros candidatos ditos democratas, o mais que tíbio apoio (sempre “crítico”) que deram a um homem que fora, todos concordam, um bom governador de S Paulo, mas que não tem qualquer mandato electivo para poder agir num futuro imediato. De que modo poderá Haddad intervir? Terá o apoio do partido a quem evitou uma derrota humilhante? É bom não esquecer que, da primeira para a segunda volta, o PT com Haddad registou uma subida quase vertiginosa (de 22 para 44% mesmo se nesse número se possam, e devam imperativamente, contar-se com as vozes de todos que repudiavam Bolsonaro mesmo que a simpatia para com o PT fosse inexistente ou diminuta.

Por outro lado, o PT tem a maior bancada no Congresso onde campeiam cerca de trinta partidos. Com esta pulverização partidária, Bolsonaro não terá a vida fácil. Não me custa pensar que terá de misturar alguma água ao seu vinho se é que não será obrigado a engolir sapos, e bem gordos. O mesmo sucedeu, aliás, a Trump que já viu medidas programáticas suas serem derrotadas e abandonadas. Julgo mesmo que a privatização de algumas grandes empresas públicas naufragará na antiquíssima tradição brasileira, reforçada nos tempos de Getúlio que, se não erro, foi quem estatizou a Petrobrás, entre outras.

No que diz respeito às medidas securitárias, é bom recordar que a polícia depende das autoridades estaduais (e os Estados do Nordeste são pêtistas) pelo que, mesmo neste ponto extremamente melindroso, muita água passará debaixo da ponte.

A liberalização do uso e porte de armas levanta um curioso problema: pelos vistos, no Brasil, os criminosos sempre tiveram um acesso franco e fácil à aquisição de armamento (de que fazem um uso generoso e imoderado: não são apenas os 36.000 homicídios contados anualmente mas a quantidade provavelmente muitíssimo maior de agressões, roubos, ameaças e assaltos diariamente perpetrados o que faz com que muitos particulares sintam essa promessa como justa, leal e necessária. Tudo isto terá de passar pelo crivo do parlamento onde os bolsonaristas, lato senso, não detém a maioria.

O “fascismo” na sua essência pressupunha uma visão pagã da vida, um partido único, militarizado, organizações militarizadas da juventude, dos sindicatos, submissão das igrejas ao Estado quando não o seu enfraquecimento. Por muitas homilias que Louçã pronuncie, nada disto, pelo menos nos curto e médio prazos, é ou parece ser exequível.

De todo o modo, o discurso do futuro presidente do Brasil é assustador, repelente e não augura nada de bom. A personagem é antipática, o seu passado é risível e são permitidas todas as dúvidas (até as menos razoáveis) sobre a sua capacidade para governar. De certo modo, isso acaba por minorar algum receio (minorar, repito, não apagar) que eu tenha. Bolsonaro terá de se apoiar em alguém como já é patente no que toca à Economia (onde, temivelmente, parece prosperar um ultra-liberal) e na Casa Civil.

O Brasil, não sendo uma “tenda de milagres”, não é também um país conformista, habitado por dóceis fantasmas. O famoso “jeitinho”, o desembaraço, a atitude lúdica e desafiante de boa parte da sua gente, se levaram à catástrofe da corrupção instituída e respeitada, também permite pensar num combate vitorioso a esse estado das coisas e numa eventual eventual salvação. Assim seja

 

18
Out18

Diário Político 2010

d'oliveira

Remodelar, verbo transitivo

D’Oliveira fecit 17-Out-1918

 

Se apenas nos detivéssemos a analisar os discursos, prima facie, seríamos surpreendidos por esta brusca dança de cadeiras no Governo. O Primeiro Ministro andou nos últimos meses a dizer que tudo estava bem, que não mexia nas suas criaturas. Em jornais e na televisão esta foi a pauta musical mais usada. Usada, diga-se, até à exaustão.

Afinal, havia uns ministros exaustos, usados, desgastados. Alguns saíram no domingo depois de terem aprovado um Orçamento que outros hão-se cumprir. É bizarro mas é assim. Cavalheiros com o pé no estribo aprovam o mais importante documento que não irão cumprir! Portugal is different! Allways...

Há quem diga, fiando-se apenas no habitual nariz de cera desta ocasiões, que estes responsáveis saíram por seu pé. Que, ao contrário dos comentadores mais maldosos, inimigos do Governo, pedreiros livres, bolchevistas e tudo o mais que alguém se lembre, estas agora desaparecidas criaturas chegaram-se mansamente ao dr. António Costa e pediram com varonil insistência que as deixasse ir para o sossego dos seus lares, para o conforto da família, agora que o Natal está próximo...

Este “suave milagre” não tem grande base. Primeiro porque, se alguém quer mesmo sair, sai nem que seja a bater com a porta. Depois porque, pelo menos no caso do ex-ministro da Defesa, a sua defenestração estava na ordem do dia há meses. Só por birra bizantina é que a criatura não percebia que estava a mais, que, eventualmente, sabia de mais. Quem o viu, nas últimas semanas, garboso e marcial, ao lado do Primeiro Ministro que o cumulava de amabilidades, percebe perfeitamente que o homem se agarrava ao lugar como lapa ao rochedo. Estava, parecia dizer, de pedra e cal.

O senhor Ministro da Cultura, depois de mandado para casa, afirmou que fora muito feliz no seu ministério. Ora quem diz isto não faz supor que andasse pelos cantos do palácio a remoer mágoas e queixumes e a pedir pelas alminhas que o soltassem daquela medonha prisão da Ajuda.

O senhor Ministro da Saúde, não só permaneceu impávido e sereno (e muitas vezes com razão, demasiada razão...) perante os ataques de médicos e de enfermeiros, perante os remoques sobre o SNS (de cuja quase falência de nenhum modo era responsável: é bom lembrar que ali, na falta de meios, andou sempre a mãozinha de Centeno) foi, também ele, alvo da defesa pertinaz do chefe do Governo.

O discreto ministro da Economia que nunca conquistou as simpatias dos media, do público, das empresas e do resto, desdobrou-se nas últimas semanas num frenético rol de actividades, aparecimentos, promessas e declarações que, também, não prenunciavam qualquer ímpeto de abandono. Bem pelo contrário.

E por aí fora (sem esquecer Seguro Sanches que sai para alegria de todos os que andam a ganhar a vidinha cobrando ao Estado, melhor dizendo a nós, balúrdios muito mal justificados se justificação cabe aqui).

A imprensa, falada e escrita, jura que esta mudança tem em vista fortalecer a componente política do Governo. Não consta que, por exemplo, a dr.ª Graça Fonseca conheça melhor o mundillo cultural do que qualquer dos seus antecessores. Sabe-se, isso sim, que é uma fiel entre os fieis de St. António Costa pai dos milagres sucessivos. Idem quanto ao jovem Galamba cujo conhecimento das políticas energéticas é desconhecido de todos. Mas, também ele, é um fiel mais seguro do que o embaraçador Sanches que de seguro só tinha o nome.

Diz quem sabe que a novel ministra da Saúde tem sobre o sector um olhar que não se diferencia especialmente do substituído ministro. Mas que este estaria desgastado pela violenta e persistente ofensiva das corporações da saúde e pela endémica falta de dinheiro. A ver vamos se, como no das rosas, haverá o milagre da multiplicação de verbas para a Saúde.

As remodelações ocorrem quando algo começa a falhar ou para, pelo menos, dar a imagem que há algo de novo no horizonte. A “novidade” é um produto que vende bem sobretudo em época pré-eleitoral. Todavia, lembremos que vinho velho em odres novos não demonstra nada, mesmo se o provérbio fale em vinho novo em invólucro bem antigo.

E finalmente, a pergunta ou a constatação: estes novos responsáveis vão governar dentro de umas balizas orçamentais para as quais em nada contribuíram. É verdade que o Orçamento só fecha depois da discussão no Parlamento. Mas alguém acredita que, depois de tanta discussão no interior da “geringonça”, mude algo de substancial? Que os recém chegados Ministros que terão de penar um par de semanas só para conhecer os corredores do seu ministério e alguns dos mais importantes dossiers, poderão ter na discussão uma intervenção realmente produtiva?

As remodelações são sempre uma aposta ou, no pior dos casos, um remedeio para situações controversas (ainda hoje, em França, se noticia uma e seguramente que na Alemanha estará na forja algo do mesmo género dada a nova situação criada na Baviera onde a CSU registou –mesmo vencendo – o seu pior resultado em cinquenta anos E o SPD quase despareceu: tem menos de 10% dos votos e e 2º partido passa a 5º).

As espectativas que geram ou pretendem gerar é que não são sempre as mesmas. Por cá, o mais interessante foi a reacção dos parceiros da coligação. Apanhados de surpresa, reagiram comedidamente para não dizer desconfiadamente. É que dois cenários se perfilam: Costa quer a maioria absoluta ou tão só pretende evitar a usura de mais um ano complicado. Convenhamos que este é o que mais conviria ao BE e ao PC, sobretudo ao primeiro. Só que, neste caso, há uma confissão de que nem tudo o que brilha é ouro de lei. E, nesse caso, os partidos que, fora do Governo, o apoiam também devem pagar parte do prejuízo.

Claro que nada disto, neste momento, permite que a Oposição se entusiasme. Os anos de governo de Passos (nem sempre justamente) são considerados os da crise. Sócrates está demasiado longe para que alguém se lembre da falência trágica que fez a Troika entrar em Portugal. E, para maior ironia, o tratamento de choque aplicado pela coligação de Direita está na base do ressurgimento que, anos depois, se verificou e ainda se verifica. Isso e a política do BCE, o imenso esforço de reconversão das indústrias exportadoras e a vaga de turismo sem precedentes propiciada pela insegurança na grande maioria dos destinos turísticos mediterrânicos.

Dir-se-á que o povo português pagou um alto preço nesses anos dramáticos, a começar pelo desemprego. Também aqui, convém separar as águas. Foi o sector privado quem, de facto, sofreu a vaga de falências, de despedimentos, de empresas encerradas. E a emigração. Os funcionários públicos mantiveram os seus postos de trabalho mesmo se, como com os professores viram algumas espectativas bloqueadas. Aliás, os famosos 9 anos, quatro meses e não sei quantos dias dos senhores professores não começaram com Passos mas sim, antes, com Sócrates. O mesmo Sócrates que na iminência das eleições de 2009, aumentou os vencimentos da Função Pública...

No entanto, na hora do voto, a memória não costuma mergulhar tão longe e é com isso que Costa conta.

Ainda é cedo para analisar as medidas propostas no projecto de OE. Algumas, porém, são apenas fachada. Assim, a proposta de diminuir em 50% o IRS dos emigrantes que regressem só terá impacto se de facto houver regressos. O que parece pouco provável pelo que até à data se conclui das declarações dos interessados. Não vejo um enfermeiro, por exemplo, a trabalhar na França ou na Inglaterra a resolver baixar fortemente o seu salário atual para vir ganhar o que os congéneres recebem em Portugal. A incidência de 50% no IRS não parece argumento suficiente.

Outro ponto, que aliás me surpreende, é a baixa generalizada de propinas universitárias. Tal facto aproveita a pobres, remediados e ricos. E embaraça as universidades que, a secas, perdem 50 milhões de euros que, eventualmente, serão repostos pelo Estado. Porém, como afirmava a Federação Académica do Porto, esses milhões permitiriam duplicar o número de residências universitárias. Ora o alojamento de estudantes nas maiores cidades (Lisboa, Porto, Coimbra ou Braga e Aveiro) está caríssimo e raro. Os duzentos euros que cada estudante pagará anualmente a menos são uma gota de água no preço de quartos que atingem e até superam os 500 euros mensais.

Esta medida foi apresentada pelo BE e aceite pelo PS. Percebe-se que o BE saído da burguesia urbana de Lisboa e Porto não sinta com a mesma urgência o problema dos jovens deslocados da província. Ou não se percebe, mas isso é outro contar...

Também não se vê um abrandamento na incidência dos impostos indirectos, os mais danosos porque atingem todos. Atingem desigualmente, ao fim e ao cabo, visto que o mesmo imposto no preço de um quilo de batatas tem significados diferentes consoante se ganhe o ordenado mínimo ou um salário de, p.e., 2000 euros.

O Orçamento é sempre um instrumento político o que não é grave. O problema dos orçamentos feitos no fio da navalha é outro: basta que os juros subam, ou subam mais do que o previsto e a dívida dispara e o deficit aumenta. Mesmo que não se espere nada de dramático, não deixa de ser preocupante o facto de todas as previsões indicarem uma atenuação do crescimento. É por isso que a OCDE e o FMI discordam da previsão optimista de Centeno. Por outro lado, a guerra comercial EE.UU. /China e o desenlace do Brexit, deixam pairar mais sombras do que luz sobre os anos mais próximos.

Há pois mais incertezas do que as que nos querem fazer crer. Claro que não é morte de ninguém um défice mais alto, ligeiramente mis alto do que o proposto. Há caminho feito e poderemos esperar mais um ou dois anos pelo equilíbrio orçamental. De resto, os orçamentos são sempre passíveis de medidas de correcção (“retficativos”), como se viu em anos precedentes. Não se pretende ser profeta da desgraça (nem ela é desejada, bem pelo contrário) mas convém gastar menos nos foguetes no caso de ter de apanhar as canas na cabeça. Cautela e caldos de galinha nunca são de mais.

 

(nota que tem pouco a ver: o Chefe de Estado Maior do Exército demitiu-se. Menos um trabalho para o Ministro Cravinho. Não poderia desejar melhor ao filho de um bom, velho e leal amigo).

 

 

29
Set18

diário político 209

d'oliveira

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O Infarmed, uma comédia de enredos sem grande substância

d’oliveira fecit (27.Set.2018)

 

Este folhetim deveria chamar-se “Portugal no seu melhor” mas, mesmo que seja verdade, custa meter o nome do desgraçado país num caso que tem muito de farsa e pouco de graça.

Vejamos por partes.

Quando a Grã Bretanha entendeu sair da  U.E., começou a pensar-se para onde iriam as agências europeias lá sediadas. De entre elas, assumia especial relevância a do “Medicamento”. Muitos funcionários, muitos visitantes, muito dinheiro.

O Governo de Portugal, apesar de já cá ter duas agências, entendeu que poderia abichar alguma coisinha e candidatou Lisboa. De imediato, começou a chinfrineira do costume: que era tudo para a capital (o que é verdade...) que assim nunca mais se regionalizava (opção aliás já chumbada há uns anos), enfim o habitual.

O Governo, rapidamente fez uma pirueta e propôs o Porto.

O Norte profundo, melhor dizendo o norte litoral, melhor ainda o Porto, ronronou de felicidade. Nem pensou nas dificuldades previsíveis, na sua situação relativamente periférica, na falta clara e gritante de infra-estruturas disponíveis ou de outras comezinhas condições tais como estabelecimentos de ensino em número e qualidade (em língua inglesa, preferentemente), hotéis com capacidade para absorver os milhares de interlocutores da nova agência.

Até o prudente dr. Rui Moreira (que tem experiência de vida no estrangeiro) embandeirou em arco (ou fingiu...)

Como era previsível a candidatura morreu na praia. Amesterdão ganhou limpamente. Eu que lá demorei uns gloriosos três meses, em nada me espantei. A cidade é agradabilíssima, está no centro da Europa, perto de tudo e só perde para o Porto em horas de sol e calor. No resto, desde museus a escolas, parques a hotelaria, ou acessibilidade, ganha em todos os tabuleiros.

O Governo vestiu-se de rigoroso luto e, sem que nada o solicitasse sequer  sugerisse, lembrou-se de transferir para o Porto o Infarmed!

Logo nessa altura me perguntei como, porquê e quando. Em primeiro lugar as centenas de trabalhadores (de que uma forte percentagem é altamente qualificada) teriam de mudar de residência o que, com família, significava um esforço quase impensável. As escolas das crianças, os familiares na cidade, os amigos, a casa comprada (e eventualmente ainda não totalmente paga), as comodidades, os hábitos, enfim a vida, mudariam de alto a baixo. Para muitos –os mais qualificados – abria-se a possibilidade de sair para outros empregos disponíveis nos campos da saúde e farmacêutico. E isso significaria desguarnecer a instituição das suas mais valias. E um largo par de anos para a recompor.

Tenho a experiência suficiente e vivida de como uma súbita mudança de sede de uma instituição a enfraquece e destrói. Há vinte e tal anos, uma luminária da Cultura, o dr. Santana Lopes entendeu transferir a Delegação Regional do Norte para Vila Real. Pensando nas duas dezenas de funcionários desprotegidos, entendi (mesmo sabendo que me dariam um lugar tão bom ou melhor do que o de Delegado Regional) que teria de tornar claro o meu desacordo, demitindo-me.

A coisa processou-se aos trancos e solavancos, todos os funcionários recusaram Vila Real e foram amontoar-se em várias instituições locais. Três ou quatro técnicos superiores recusaram transferir-se e ficaram anos e anos em casa a receber o ordenado por inteiro. A delegação em Vila Real, mísera e mesquinha, acomodou-se numa cave qualquer e foi fenecendo. Dez aos depois até os Delegados começaram a funcionar no Porto, indo à província escassamente. A coisa está nesse pé: em Vila Real continua a “existir” uma coisa com dois ou três funcionários residentes e tudo o resto se trata no Porto. Com uma diferença: o capital de conhecimentos, relações institucionais, parcerias e confiança foi pelo cano e, com muito vagar, vai-se tentando recuperar. Um desastre cultural, institucional e, sobretudo, caríssimo.

O dr. Santana continuou nas suas tropelias, foi efémero 1º Ministro, caiu redondo ao fim de escassos meses de péssima governação, andou por aí e agora, como de costume, partiu a loiça e parece que fundou “uma coisa em forma de assim” (no estilo “concertos de violinos de Chopin”, por ele imortalizados para não dizer inventados).

Baseado neste minha experiência, nunca acreditei no Infarmed tripeiro. A deslocalização de uma instituição pública, recheada de funcionários públicos estava condenada ao fracasso. Ou melhor: nem sequer se punha a sua hipótese.

Parece que, perante o Parlamento, o Sr. Primeiro Ministro cinco vezes (cinco!) afirmou que o Infarmed estava de malas aviadas para o Porto. Em que se basearia S.ª Ex.ª para tantas e tão repetidas profissões de fé?

A pergunta é legítima porquanto, agora, à crua luz da realidade, o mesmíssimo e excelentíssimo chefe do Governo, veio (pasmem gentes!) dizer que se ele tivesse tendências autocráticas o infa-qualquer coisa já estaria a encher-se de tripas e francesinhas. Seriam as cinco (pelos vistos infrutíferas) anteriores declarações um grito de alma, uma confissão de um impetuoso desejo de governar como o antigo czar de todas as Rússias (aliás imitado, e mesmo ultrapassado, pelos restantes cavalheiros que lhe sucederam na governação daquelas imensas terras). Que terá, entretanto sucedido para agora confessar a sua decaída queda para a autocracia?

O dr. Rui Moreira, presidente da edilidade portuense apareceu nas televisões acusador e definitivo: que “ palavra dada – e nunca solicitada – deveria ser honrada”. Mas que, afinal, “tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou, corrigiu ainda o autarca, “tudo em Lisboa”.

Finalmente, os órfãos da “regionalização” apareceram em chusma bramindo que a única solução passaria por de novo fragmentar a pátria dos egrégios avós em regiões. Valeria a pena perguntar como é que num país de escassos dez milhões de criaturas se dividem, estes também escassos 89.000 quilómetros quadrados. Sobretudo quando nas duas grandes áreas metropolitanas, que apenas cobrem 6% do território, se acumula mais de metade dos portugueses

Eu sei que em Espanha, na Alemanha ou na Itália há regiões. Mesmo se com diferente sucesso. Em boa verdade só a Alemanha se pode gabar dos seus Länder. Na Itália, as regiões do Sul estão entregues às camorras, máfias, ndranghetta & similares enquanto no Norte prospera o nacional-populismo de resultados cada vez mais visíveis. Em Espanha inventaram-se tantas autonomias quanto possível para afogar as tendências irredentistas de algumas “nacionalidades” mais ou menos (menos que mais, é bom reconhecer) históricas. Os custos da divisão tem sido financeiramente medonhos e os êxitos escassos. Em França, depois da criação presunçosa de uma miríade de regiões diminui para menos de metade o seu número por se verificar que os gastos eram muitos e os benefícios para a população raros enquanto o velho centralismo napoleónico e republicano não permitia um grande desenvolvimento regional. De todo o modo, houve instituições (académicas, militares, p.ex,)   que abandonaram Paris e se estabeleceram alhures na "província".

Por cá, por exemplo, os três tribunais superiores que os respectivos juízes frequentam apenas para a sessão semanal poderiam há muito estar distribuídos por Coimbra, Évora, Viseu ou Aveiro. No primeiro caso, há, de pé, edifícios históricos, os colégios da Rª da Sofia onde qualquer destas instituições caberia com largueza. E talvez isso impulsionasse a reocupação pública e nobre dos restantes... Por outro lado, criam-se com facilidade exagerada “altas autoridades” para isto e aquilo ou quase nada. Porque deverão sediar-se em Lisboa? Por exemplo essa nóvel comissão para os fogos de floresta. E por aí fora...

Agora, agarrar numa estrutura pesada, consolidada, com centenas de trabalhadores (ainda por cima da função pública ou algo do mesmo teor e dificuldade em movimentar) não lembra ao careca. Lembrou ao dr. Costa que, aliás, ainda tem bastante cabelo. Antes o tivesse perdido estudando com mais cuidado os dossiers e as promessas. Agora cai-lhe tudo em cima.

E é bem feito!

23
Ago18

diário político 228

d'oliveira

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Ai a silly season...

d'Oliveira fecit 23.08.18

 

1 Repegando num tema quente: parece que o Governo obteve uma grande vitória em Monchique: não houve pessoas mortas!

Conviria lembrar que mortos em incêndios de Verão foram até ao Verão passado, a excepção e não a regra. Desta feita mal seria que além das restantes desgraças houvesse mortos. Os meios empregados (Às vezes mal empregados...) foram tais, o “salvamento” de habitantes ameaçados (por vezes “manu militari” e em demasia) que realmente mortos seria algo de medonho e poria em causa tudo a começar pela cabecinha do dr Costa.

Não houve mortos ou melhor, morreram animais domésticos, gado, fauna silvestre de todo o género e perderam-se casas, lavras, plantações (sobretudo medronheiros, o que é uma desgraça por três razões: demoram a crescer, acabam com pequenas indústrias de licores e destilados e desaparece – provisoriamente- um arbusto eficaz contra o fogo). Mias uma vez se referiram os eucaliptos. Mais uma vez os seus críticos esqueceram que, em terras quase abandonadas, o eucalipto é o único ganha pão dos escassos habitantes. Cresce e é rentável em metade do tempo do pinheiro e nem vale a pena referir outras espécies, por exemplo o sobreiro, que demoram três vezes mais a ser rentáveis.

Agora, timidamente surge a referência à escassez de estradões corta-fogos. Pelos vistos só havia entre 15 e 20% do que seria necessário. Quem é que não fez os trabalhos de casa?

Anda por aí um secreto júbilo sobre a escassez de fogos. Tirando alguns dias extremamente quentes, este Verão e este Agosto (por exemplo, ontem e hoje) tem sido moderadamente quentes. Às vezes a meteorologia ajuda...

 

2 Os panteonistas continuam esforçados. Agora a sociedade Portuguesa de Autores quer agarrar nos ossos do Zeca Afonso e metê-los naquele lúgubre monumento. Quem conheceu o ZA – e eu conheci-o bem – sabe que ele era contra todo o tipo de honrarias. Disse-o vezes sem conta. Troçou delas ainda mais vezes. Deixou claro que queria ser enterrado em campa rasa. Nada disto chega para as criaturas da SPE. Nem sequer as declarações da viúva, do primeiro verdadeiro editor do Zeca (Arnaldo Trindade) e seguramente, pelo menos, da malta que o conheceu em Coimbra. A SPE que vive languidamente no torpor estival à falta de resolver os problemas reais dos seus autores vivos, entendeu tornar-se a campeã dos mortos...

 

3 O Partido Socialista teve, desde o seu atribulado nascimento (1973) uma pequena seita que Lenin qualificaria de “doença infantil”. Cito apenas dois exemplos, aliás os menos tontos: Manuel Serra e a malta do posterior POUS (aires Rodrigues e Carmelinda Pereira). Em qualquer dos casos vinham aureolados pela efectiva e tenaz resistência ao Estado Novo. Era gente séria, mesmo se desvairada pela tentaçãoo radical. No caso de Serra, havia claramente, o esforço da reconversão de líder católico em revolucionário puro e duro. Os recém conversos são sempre assim. Aires e Carmelinda usaram, como bons trotskistas, da táctica do “entrismo” num partido que necessitava desesperadamente de gente inteligente e com duas ideias claras sobre a Esquerda.

O partido suputou-os sem dificuldade e lá se foi acomodando com uma vaga ideia de social democracia que, aliás, nunca se esforçou muito por ser idêntica às dos eficazes alemães ou escandinavos. O PS, graças a Soares, foi sempre afrancesado e o “mon ami” Miterrand forneceu as minguadas armas ideológicas com que o PS se foi afinando. A herança da 1ª República é neste partido muito mais forte do que a de qualquer agrupamento socialista (e nem vale a pena referir o velho Partido Socialista fundado por Antero... esse morreu e foi enterrado na 1ª República graças à trituradora do Partido Democrático e ao desinteresse das organizações sindicais)

Agora, viceja mais um grupo dito “esquerdista”. A sua figura mais eminente parece ser João Galamba. Por mais que uma pessoa se esforce não se distingue na criaturinha nem os dotes de coragem de Serra nem a inteligência de Aires e Carmelinda. Galamba serve apenas como exutório para o politicamente correcto e centrista que vai governando a amálgama de interesses do Partido. O seu ataque a Centeno, enquanto presidente do Eurogrupo, é só isso. E foi só durante uns parcos momentos. Já veremos que mete a viola no saco quando Costa e os que o assistem lhe der as instruções necessárias.

 

na gravura: medronheiro

15
Mai18

diário Político 226

mcr

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A criatura Bruno de Carvalho devido às suas conferencias de imprensa e aos seus escritos é claramente responsável e cúmplice do gang que atacou o centro de estágio.

Ninguém acredita que os cinquenta cobardes de cara tapada tenham agido sem terem as costas quentes e sem uma palavra de ordem. De onde poderia ela vir senão de quem desde há meses atiça o fogo e o ódio aos jogadores?

A minha proposta é simples: imediata passagem do clube a um escalão inferior, se possível bem inferior. Ninguém pode aceitar que o “fecundo ventre” de onde saíram os agressores apareça nos estádios rodeado dos gangues organizados que vivem por ele, para ele e com ele. Se até o principal e festejado goleador Bas Dost está ferido e impossibilitado de jogar na final da Taça, que é que se pode esperar desta súcia que anda por aí à solta?

(estava eu a escrever este folhetim e eis que a SIC fornece o registo de uma conversa de um responsável (e intermediário) sportinguista que, sem papas na língua, se alarga (e confessa) sobre a tentativa (dele) de corrupção de árbitros de andebol. Estamos num mundo nauseabundo.

08
Mai18

Diário político 225

d'oliveira

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Um atestado de óbito tardio

d'Oliveira fecit, 8.5.18

 

A ETA (uma vez mais) anunciou a sua dissolução. E digo uma vez mais porque já por duas vezes em anos passados o anunciara sem que daí decorressem efeitos práticos ou, pelo menos, todos (e os principais) os efeitos práticos.

Agora, reduzida a um escombro vergonhoso e destroçado, a ETA proclama a extinção definitiva de algo que nada mais era do que um pobre mas perigoso bando de malfeitores sem alma nem causa vivendo de e pelo o terror cego que espalhava à sua volta. As polícias espanhola, autonómica (Ertzaintza) e francesa cercaram-na, prenderam os principais cabecilhas e, sobretudo, desvendaram a complicada máquina do terror. Aprisionando cada vez com maior facilidade os militantes (cada vez mais jovens, cada vez mais impreparados militar e politicamente) as polícias obtiveram moradas, nomes, pseudónimos, dados de toda a espécie que, uma vez trabalhados, desmontavam zonas inteiras da clandestinidade.

A cada novo preso, agora sem qualquer dificuldade, seguiam-se confissões pormenorizadas de operações, descrição de refúgios, de casa clandestinas, de cumplicidades de toda a ordem. A “kale borroka” (versão selvagem e infame da luta de ruas) foi o começo do fim de uma estratégia que semeava mortes quase indiscriminadas e um terror absoluto mesmo entre os nacionalistas mais ferrenhos. A ETA, através do “imposto revolucionário” já só tentava manter-se à tona, custear a enorme despesa de se manter fora do alcance dos radares policiais e políticos.

É bom relembrar para as alminhas mais suaves, amigáveis e ignorantes, que, apesar de nascida durante o “franquismo”, a ETA matou mais de noventa por cento dos seus alegados “inimigos” durante a democracia, precisamente quando os direitos civis eram já reconhecidos, as liberdades respeitadas e as polícias controladas. A Democracia é sempre frágil quando se fala de segurança pública.

A ETA, durante o franquismo e depois do espetacular atentado contra Carrero Blanco, manteve uma atitude discretíssima que a polícia do momento era desalmada. Foi contra o Estado Democráico que ela evidenciou todo o seu potwncial de atque. Estava segura que ,mesmo com os GAL e outros escassos e pouco duradouros grupos “anti-terroristas”, os famosos Direitos, Liberdades e Garantias lhe asseguravam uma extrema impunidade. Por outro lado, e a talho de foice, granjeara à sua volta um círculo virtuoso de admiradores babados que ainda viviam (e vivem) à sombra da lenda da “Espanha negra”. E eficaz. E matava, torturava, prendia, invadia casas e esconderijos dia e noite.

Nesse grupo de “cretinos úteis” avultavam os bispos bascos. A bispalhada do lugar além de fascistóide, medieval descendente de inquisidores benzia dos altares a nova “cruzada” que pouco se distinguiu daqueloutra que no tempo da guerra civil iluminava a Falange e os seus guardas mouros exemplo último do ultra-catolicismo triunfante. Na verdade, o País Basco não era republicano e tampouco democrático. Era um cocktail de beatério, e conservadorismo aldeão alentado pelas elites de Bilbau e S Sebastian. Ideologicamente estavam do lado do “caudillo” e a liberdade porque ocasionalmente lutavam fundava-se nas teorias raciais de Sabino Araña, o fundador da causa basca. Nem mais, nem menos.

A ETA que, quinze/vinte anos mais tarde, nasceria argumentava com o massacre infame de Gernika mesmo se isso tivesse ocorrido uma geração antes.

Como (não) é suficientemente sabido, a ETA, sobretudo, após a morte de Franco, dividiu-se em tendências, a mis famosa das quais se crismou a si própria ETA P-M (politico-militar). Foi este a fracção mais consistente ideológica e politicamente da organização. Foi também, o grupo que mais depressa cindiu, se desfez e desapareceu depois de ter percebido que a acção terrorista só era eficaz no semear do medo mas não convertia os cidadãos em apoiantes da independência. Também foi neste grupo, mas não só, que a ETA remanescente matou gente. É bom relembrar que ao lado das centenas de vítimas (polícia, políticos, e – esmagadoramente - gente comum) foram assassinados ex-militantes mesmo se contra eles não pendesse qualquer suspeita de identificação com a polícia, com o “Estado Espanhol” ou contra a causa basca. Invoque-se apenas Yoyes a militante assassinada anos depois de ter saído da organização. E, também de novo talho de foice, recordemos a intensa campanha contra a elite intelectual basca que se viu obrigada a exilar-se sob pena do misericordioso tiro na nuca (por todos, Fernando Savater, o filósofo e escritor de dezenas de títulos sobre ética e política).

Todavia, repontar-me-ão que a ETA sobreviveu, em democracia, cerca de quarenta anos. Em primeiro lugar, cedo se percebeu que a ETA deslocara para lá da fronteira, grande parte do seu aparelho político e logístico mesmo se no pais basco francês nunca tivessem tido especial êxito as teses independentistas que uniam esta região a Euzkadi e à Navarra.

Depois, há que referir o sistema de terror imposto à população em geral. Qualquer cidadão poderia não concordar mas, seguramente, guardava para si essa convicção sob pena de se ver apontado como traidor e/ou serventuário da Espanha. Desde cartas de ameaça a “pintadas” nas paredes ou na porta da casa tudo serviu para pelo exemplo avisar os mal-pensantes dos riscos que corriam. Os não bascos, os “metecos”, sabiam quão perigoso era para eles expressar uma opinião mas mesmo assim a expressão política da fracção mais radical nunca foi relevante. O espaço independentista moderado estava ocupado pelo PNV, Partido Nacionalista Vasco, formação conservadora q.b. e que muitas vezes serviu (e serviu-se) de apoio da Direita espanhola.

A ETA extingue-se de “motu próprio”, afirmam os do último quadrado numa cerimónia ridícula e tonta em território francês testemunhada pelos de sempre. Nem isso é verdade. A ETA já não existia senão como fantasma. Mesmo assim na sua declaração final ainda houve o arrojo de tentar distinguir entre as vítimas. Uma, coitadas, foram o resultado de fortuito erro , aliás desculpável dado o “estado de guerra”. Outras, polícias do Estado, ertainztas ou militares, para já não falar de políticos eleitos, mereciam morrer. Dos ex-militantes assassinados nem uma palavra.

Ao descalabro moral, ético e político junta-se esta outra qualidade: a hipocrisia. E a mentira, evidentemente, base da “narrativa” há dias apresentada.

A herança destes anos de chumbo é pesada: Quase mil vítimas mortais. Centenas de presos, milhares de auto-exilados, uma sociedade dividida que levará o seu tempo a recompor-se.

Esquecia-me: umas dúzias de cavalheiros com um passado de sangue mas livres como passarinhos. Ainda os veremos, como por cá, a escrever livros de memórias onde a morte de outros e a mão encoberta desaparecem como por encanto. Talvez nem valha a pena referir os escassos, tristes, primos portugueses da ETA. Também levam com eles no consciência o peso de alguns mortos, de umas bombas, de uns assaltos a bancos (para onde foi o dinheiro?) que uma justiça morosa, medrosa e uma sociedade generosa deixaram sem solução.

 

02
Abr18

Diário Político 225

d'oliveira

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Contas à moda deles

 

Parafraseando o imortal capitão Joaquim António Pereira “a pátria está ufana” pelos resultados conhecidos das contas públicas. Os do costume desdobram-se em cumprimentos, a Oposição rosna, os aliados do Governo sorriem amareladamente e só um pertinaz grupo de energúmenos, seguramente vendidos ao estrangeiro, ao imperialismo monopolista ou ao bolchevismo dissolvente (ou a outra coisa qualquer), é que se põem a fazer fosquinhas e a semear dúvidas pouco patrióticas.

Comecemos pelo deficit: é de 3% ou de 0,9? Os amigos e turiferários do Governo e o dr. Marques Mendes apontam para a segunda hipótese, mesmo se o distinto comentador dominical da SIC relembre, en passant, a chatice dos milhões enterrados na Caixa Geral de Depósitos. Com essa grossa quantia o deficit vai para os 3%, fronteira última do preceituado pela Comissão Europeia e, pelos vistos, aceite por esta como deficit real.

Argumentam os virtuosos defensores de Centeno que isso não deveria ser bem assim, tanto mais que os milhões enterrados na CGD serão, lá para as calendas gregas, desenterrados e repostos nos cofres do Estado.

Nada garante que tal milagre das rosas ocorra e, no caso altamente improvável de isso se tornar realidade, a coisa só ocorrerá no tempos dos our children’s children’s childrense me é permitido usar parte do título de um grande álbum dos Moody Blues  editado vai para cinquenta anos. Até essa data libertadora, penamos nós e respectiva descendência.

Há mesmo quem queira ver no cacau metido no gasganete aflito da CGD um investimento. Não é, obviamente. Aquela dinheirama toda foi para lá atirada apenas para “esponjar” um colossal prejuízo arranjado por gente mais que duvidosa de que nem quero lembrar-me apenas por receio de infectar o computador à simples menção dos seus nomes e apelidos. Aqui não há investimento algum mas, tão somente, a tentativa de manter o maravilhoso banco público à tona. Diga-se que nem sequer esta medonha injecção de capital é suficiente. A CGD já despediu pessoal, já mandou gente para uma estranha pré-reforma, já fechou agências (de que Almeida em pleno interior que, agora é amado por todos, é exemplo) mas prepara nova arrumação de funcionários e balcões que, (vai uma apostinha?)  irão para a rua e fecharão nas barbas dos do costume, isto é dos que menos tem e mais precisam. Dos que não tem o apoio de nenhuma agência de banco privado nas imediações.

Curiosamente, quando são os CTT a fazer o mesmo, numa escala incomparavelmente menor e sem despedimentos, tremem os céus a terra e chamam-se todos os nomes à administração (por acaso, mero acaso...) privada. A CGD, essa, faz trinta por uma linha e nem uma palavra. Os responsáveis pelo buracão tremendo encontrado não são identificados, perseguidos, acusados ou punidos. Sobre esse assunto caiu um espesso manto de silêncio pesem embora as comissões de inquérito da AR e o grave ar dos cavalheiros da “geringonça”. Nem as manas Mortágua murmuram... Ao fim e ao cabo, a CGD é um banco nacional, público, nosso que devemos todos suportar patrioticamente, orgulhosamente, como, aliás, vamos suportando os Banif, os Espíritos Santos sem falar nos mais antigos desastres todos intervencionados para que o sistema não tremesse...

Sobre o investimento público cai também um pesado pano teatral. É inferior (quer em 16, quer em 17) aos números incontestados do medonho governo de Passos Coelho. Recordarão os leitores que, nessa época, o cavalheiro em causa era todos os dias acusado de tudo e mais alguma coisa, mormente de asfixiar os serviços públicos por falta de apoio e de investimento. Pois agora, com números ainda menores, ninguém se aflige. Milagres de Costa, amnésia oportuna, esquecimento dos encartados, e únicos, “amigos do povo e das mais amplas massas populares”...

Junte-se-lhe essa salazarista teoria das “cativações”, tema preferido do senhor Ministro das Finanças que nisso (e não só) nada inova dentro do pensamento financeiro português. O dr. Salazar inaugurou esse caminho e prosseguiu-o resolutamente durante um bom par de anos para “salvar” a pátria da cobiça da estranja. entre 1926 e o fim dos anos 30 do malvado sáculo passado. As cativações (provavelmente sob diferente pseudónimo) reduziram a dívida externa e o deficit e mascararam o Estado Novo. E aguentaram-no por muitos (e maus) anos.

A substituição de impostos directos por indirectos levada a cabo nestes dois anos deu a aos portugueses a ideia de que lhes caía mais dinheiro nos bolsos, tanto mais que foram acabando as punções salariais introduzidas pelo ministro Gaspar. Como diz um excelente amigo meu, “entra-lhe mensalmente mais dinheiro no bolso”.  É verdade. Esquece, porém o meu amigo que, o que uma mão dá, outra leva. A subida dos impostos indirectos mais que compensou a generosidade governamental com a “ligeira” agravante  que decorre do facto destes impostos serem cegos. Acertam em ricos e pobres sem apelo nem agravo. Com uma outra “pequena” consequência: os pobres sentem mais, muito mais, o agravamento dos bens de primeira, segunda ou terceira necessidade do que os ricos para quem a variação para cima no preço do arroz, das batatas, da carne ou da fruta pouco lhes dói, se sequer dói.

O meu amigo aponta ainda outra “fatal maravilha" da nossa idade: a baixa do IVA nos restaurantes. É verdade mas ele deve esquecer-se de que o recurso ao restaurante é, não direi um luxo, mas algo de ligeiramente supérfluo. Os que pouco têm não vão a restaurantes. Bem que gostariam, imagino, mas o restaurante, mesmo barato, não entra nas contas (desta vez privadas) de uma boa parte da população portuguesa.

Os alegados defensores dos fracos e oprimidos, varrem para debaixo do tapete esta iniquidade. Provavelmente, pensarão que bastará isentar de IRS mais 10% da população. Ou aumentar em meia dúzia de euros o salário mínimo que é rapidamente comido pelo preço dos géneros, da água, da luz, do gás...

Finalmente a carga fiscal. Este ano cifrou-se em 34,7%. Um máximo absoluto, neste século ou no passado. O dr. Centeno desvaloriza (claro!) argumentando que a alegada melhoria dos salários, o aumento do emprego trazem por si sós mais impostos (desta feita directos) e isso faz pensar numa carga fiscal maior dado que a compara com o PIB...

Por um pouco ainda teremos que a carga fiscal é menor do que nos tempos ominosos de Coelho & Portas a quem, decididamente faltou esta arte da comunicação.  

Ou, por outras palavras: não é preciso ser engraçado. Basta cair em graça.

* a ilustração: Esta horrenda e faraónica mastaba é a sede da CGD. Além de medonha vai custar um balúrdio a implodir,  no dia que o bom gosto imperar, para fazer coisa melhor, menos horrenda e mais singela. 

 

d'Oliveira fecit 2 de Abril de 1918