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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

29
Set18

diário político 209

d'oliveira

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O Infarmed, uma comédia de enredos sem grande substância

d’oliveira fecit (27.Set.2018)

 

Este folhetim deveria chamar-se “Portugal no seu melhor” mas, mesmo que seja verdade, custa meter o nome do desgraçado país num caso que tem muito de farsa e pouco de graça.

Vejamos por partes.

Quando a Grã Bretanha entendeu sair da  U.E., começou a pensar-se para onde iriam as agências europeias lá sediadas. De entre elas, assumia especial relevância a do “Medicamento”. Muitos funcionários, muitos visitantes, muito dinheiro.

O Governo de Portugal, apesar de já cá ter duas agências, entendeu que poderia abichar alguma coisinha e candidatou Lisboa. De imediato, começou a chinfrineira do costume: que era tudo para a capital (o que é verdade...) que assim nunca mais se regionalizava (opção aliás já chumbada há uns anos), enfim o habitual.

O Governo, rapidamente fez uma pirueta e propôs o Porto.

O Norte profundo, melhor dizendo o norte litoral, melhor ainda o Porto, ronronou de felicidade. Nem pensou nas dificuldades previsíveis, na sua situação relativamente periférica, na falta clara e gritante de infra-estruturas disponíveis ou de outras comezinhas condições tais como estabelecimentos de ensino em número e qualidade (em língua inglesa, preferentemente), hotéis com capacidade para absorver os milhares de interlocutores da nova agência.

Até o prudente dr. Rui Moreira (que tem experiência de vida no estrangeiro) embandeirou em arco (ou fingiu...)

Como era previsível a candidatura morreu na praia. Amesterdão ganhou limpamente. Eu que lá demorei uns gloriosos três meses, em nada me espantei. A cidade é agradabilíssima, está no centro da Europa, perto de tudo e só perde para o Porto em horas de sol e calor. No resto, desde museus a escolas, parques a hotelaria, ou acessibilidade, ganha em todos os tabuleiros.

O Governo vestiu-se de rigoroso luto e, sem que nada o solicitasse sequer  sugerisse, lembrou-se de transferir para o Porto o Infarmed!

Logo nessa altura me perguntei como, porquê e quando. Em primeiro lugar as centenas de trabalhadores (de que uma forte percentagem é altamente qualificada) teriam de mudar de residência o que, com família, significava um esforço quase impensável. As escolas das crianças, os familiares na cidade, os amigos, a casa comprada (e eventualmente ainda não totalmente paga), as comodidades, os hábitos, enfim a vida, mudariam de alto a baixo. Para muitos –os mais qualificados – abria-se a possibilidade de sair para outros empregos disponíveis nos campos da saúde e farmacêutico. E isso significaria desguarnecer a instituição das suas mais valias. E um largo par de anos para a recompor.

Tenho a experiência suficiente e vivida de como uma súbita mudança de sede de uma instituição a enfraquece e destrói. Há vinte e tal anos, uma luminária da Cultura, o dr. Santana Lopes entendeu transferir a Delegação Regional do Norte para Vila Real. Pensando nas duas dezenas de funcionários desprotegidos, entendi (mesmo sabendo que me dariam um lugar tão bom ou melhor do que o de Delegado Regional) que teria de tornar claro o meu desacordo, demitindo-me.

A coisa processou-se aos trancos e solavancos, todos os funcionários recusaram Vila Real e foram amontoar-se em várias instituições locais. Três ou quatro técnicos superiores recusaram transferir-se e ficaram anos e anos em casa a receber o ordenado por inteiro. A delegação em Vila Real, mísera e mesquinha, acomodou-se numa cave qualquer e foi fenecendo. Dez aos depois até os Delegados começaram a funcionar no Porto, indo à província escassamente. A coisa está nesse pé: em Vila Real continua a “existir” uma coisa com dois ou três funcionários residentes e tudo o resto se trata no Porto. Com uma diferença: o capital de conhecimentos, relações institucionais, parcerias e confiança foi pelo cano e, com muito vagar, vai-se tentando recuperar. Um desastre cultural, institucional e, sobretudo, caríssimo.

O dr. Santana continuou nas suas tropelias, foi efémero 1º Ministro, caiu redondo ao fim de escassos meses de péssima governação, andou por aí e agora, como de costume, partiu a loiça e parece que fundou “uma coisa em forma de assim” (no estilo “concertos de violinos de Chopin”, por ele imortalizados para não dizer inventados).

Baseado neste minha experiência, nunca acreditei no Infarmed tripeiro. A deslocalização de uma instituição pública, recheada de funcionários públicos estava condenada ao fracasso. Ou melhor: nem sequer se punha a sua hipótese.

Parece que, perante o Parlamento, o Sr. Primeiro Ministro cinco vezes (cinco!) afirmou que o Infarmed estava de malas aviadas para o Porto. Em que se basearia S.ª Ex.ª para tantas e tão repetidas profissões de fé?

A pergunta é legítima porquanto, agora, à crua luz da realidade, o mesmíssimo e excelentíssimo chefe do Governo, veio (pasmem gentes!) dizer que se ele tivesse tendências autocráticas o infa-qualquer coisa já estaria a encher-se de tripas e francesinhas. Seriam as cinco (pelos vistos infrutíferas) anteriores declarações um grito de alma, uma confissão de um impetuoso desejo de governar como o antigo czar de todas as Rússias (aliás imitado, e mesmo ultrapassado, pelos restantes cavalheiros que lhe sucederam na governação daquelas imensas terras). Que terá, entretanto sucedido para agora confessar a sua decaída queda para a autocracia?

O dr. Rui Moreira, presidente da edilidade portuense apareceu nas televisões acusador e definitivo: que “ palavra dada – e nunca solicitada – deveria ser honrada”. Mas que, afinal, “tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou, corrigiu ainda o autarca, “tudo em Lisboa”.

Finalmente, os órfãos da “regionalização” apareceram em chusma bramindo que a única solução passaria por de novo fragmentar a pátria dos egrégios avós em regiões. Valeria a pena perguntar como é que num país de escassos dez milhões de criaturas se dividem, estes também escassos 89.000 quilómetros quadrados. Sobretudo quando nas duas grandes áreas metropolitanas, que apenas cobrem 6% do território, se acumula mais de metade dos portugueses

Eu sei que em Espanha, na Alemanha ou na Itália há regiões. Mesmo se com diferente sucesso. Em boa verdade só a Alemanha se pode gabar dos seus Länder. Na Itália, as regiões do Sul estão entregues às camorras, máfias, ndranghetta & similares enquanto no Norte prospera o nacional-populismo de resultados cada vez mais visíveis. Em Espanha inventaram-se tantas autonomias quanto possível para afogar as tendências irredentistas de algumas “nacionalidades” mais ou menos (menos que mais, é bom reconhecer) históricas. Os custos da divisão tem sido financeiramente medonhos e os êxitos escassos. Em França, depois da criação presunçosa de uma miríade de regiões diminui para menos de metade o seu número por se verificar que os gastos eram muitos e os benefícios para a população raros enquanto o velho centralismo napoleónico e republicano não permitia um grande desenvolvimento regional. De todo o modo, houve instituições (académicas, militares, p.ex,)   que abandonaram Paris e se estabeleceram alhures na "província".

Por cá, por exemplo, os três tribunais superiores que os respectivos juízes frequentam apenas para a sessão semanal poderiam há muito estar distribuídos por Coimbra, Évora, Viseu ou Aveiro. No primeiro caso, há, de pé, edifícios históricos, os colégios da Rª da Sofia onde qualquer destas instituições caberia com largueza. E talvez isso impulsionasse a reocupação pública e nobre dos restantes... Por outro lado, criam-se com facilidade exagerada “altas autoridades” para isto e aquilo ou quase nada. Porque deverão sediar-se em Lisboa? Por exemplo essa nóvel comissão para os fogos de floresta. E por aí fora...

Agora, agarrar numa estrutura pesada, consolidada, com centenas de trabalhadores (ainda por cima da função pública ou algo do mesmo teor e dificuldade em movimentar) não lembra ao careca. Lembrou ao dr. Costa que, aliás, ainda tem bastante cabelo. Antes o tivesse perdido estudando com mais cuidado os dossiers e as promessas. Agora cai-lhe tudo em cima.

E é bem feito!

23
Ago18

diário político 228

d'oliveira

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Ai a silly season...

d'Oliveira fecit 23.08.18

 

1 Repegando num tema quente: parece que o Governo obteve uma grande vitória em Monchique: não houve pessoas mortas!

Conviria lembrar que mortos em incêndios de Verão foram até ao Verão passado, a excepção e não a regra. Desta feita mal seria que além das restantes desgraças houvesse mortos. Os meios empregados (Às vezes mal empregados...) foram tais, o “salvamento” de habitantes ameaçados (por vezes “manu militari” e em demasia) que realmente mortos seria algo de medonho e poria em causa tudo a começar pela cabecinha do dr Costa.

Não houve mortos ou melhor, morreram animais domésticos, gado, fauna silvestre de todo o género e perderam-se casas, lavras, plantações (sobretudo medronheiros, o que é uma desgraça por três razões: demoram a crescer, acabam com pequenas indústrias de licores e destilados e desaparece – provisoriamente- um arbusto eficaz contra o fogo). Mias uma vez se referiram os eucaliptos. Mais uma vez os seus críticos esqueceram que, em terras quase abandonadas, o eucalipto é o único ganha pão dos escassos habitantes. Cresce e é rentável em metade do tempo do pinheiro e nem vale a pena referir outras espécies, por exemplo o sobreiro, que demoram três vezes mais a ser rentáveis.

Agora, timidamente surge a referência à escassez de estradões corta-fogos. Pelos vistos só havia entre 15 e 20% do que seria necessário. Quem é que não fez os trabalhos de casa?

Anda por aí um secreto júbilo sobre a escassez de fogos. Tirando alguns dias extremamente quentes, este Verão e este Agosto (por exemplo, ontem e hoje) tem sido moderadamente quentes. Às vezes a meteorologia ajuda...

 

2 Os panteonistas continuam esforçados. Agora a sociedade Portuguesa de Autores quer agarrar nos ossos do Zeca Afonso e metê-los naquele lúgubre monumento. Quem conheceu o ZA – e eu conheci-o bem – sabe que ele era contra todo o tipo de honrarias. Disse-o vezes sem conta. Troçou delas ainda mais vezes. Deixou claro que queria ser enterrado em campa rasa. Nada disto chega para as criaturas da SPE. Nem sequer as declarações da viúva, do primeiro verdadeiro editor do Zeca (Arnaldo Trindade) e seguramente, pelo menos, da malta que o conheceu em Coimbra. A SPE que vive languidamente no torpor estival à falta de resolver os problemas reais dos seus autores vivos, entendeu tornar-se a campeã dos mortos...

 

3 O Partido Socialista teve, desde o seu atribulado nascimento (1973) uma pequena seita que Lenin qualificaria de “doença infantil”. Cito apenas dois exemplos, aliás os menos tontos: Manuel Serra e a malta do posterior POUS (aires Rodrigues e Carmelinda Pereira). Em qualquer dos casos vinham aureolados pela efectiva e tenaz resistência ao Estado Novo. Era gente séria, mesmo se desvairada pela tentaçãoo radical. No caso de Serra, havia claramente, o esforço da reconversão de líder católico em revolucionário puro e duro. Os recém conversos são sempre assim. Aires e Carmelinda usaram, como bons trotskistas, da táctica do “entrismo” num partido que necessitava desesperadamente de gente inteligente e com duas ideias claras sobre a Esquerda.

O partido suputou-os sem dificuldade e lá se foi acomodando com uma vaga ideia de social democracia que, aliás, nunca se esforçou muito por ser idêntica às dos eficazes alemães ou escandinavos. O PS, graças a Soares, foi sempre afrancesado e o “mon ami” Miterrand forneceu as minguadas armas ideológicas com que o PS se foi afinando. A herança da 1ª República é neste partido muito mais forte do que a de qualquer agrupamento socialista (e nem vale a pena referir o velho Partido Socialista fundado por Antero... esse morreu e foi enterrado na 1ª República graças à trituradora do Partido Democrático e ao desinteresse das organizações sindicais)

Agora, viceja mais um grupo dito “esquerdista”. A sua figura mais eminente parece ser João Galamba. Por mais que uma pessoa se esforce não se distingue na criaturinha nem os dotes de coragem de Serra nem a inteligência de Aires e Carmelinda. Galamba serve apenas como exutório para o politicamente correcto e centrista que vai governando a amálgama de interesses do Partido. O seu ataque a Centeno, enquanto presidente do Eurogrupo, é só isso. E foi só durante uns parcos momentos. Já veremos que mete a viola no saco quando Costa e os que o assistem lhe der as instruções necessárias.

 

na gravura: medronheiro

15
Mai18

diário Político 226

mcr

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A criatura Bruno de Carvalho devido às suas conferencias de imprensa e aos seus escritos é claramente responsável e cúmplice do gang que atacou o centro de estágio.

Ninguém acredita que os cinquenta cobardes de cara tapada tenham agido sem terem as costas quentes e sem uma palavra de ordem. De onde poderia ela vir senão de quem desde há meses atiça o fogo e o ódio aos jogadores?

A minha proposta é simples: imediata passagem do clube a um escalão inferior, se possível bem inferior. Ninguém pode aceitar que o “fecundo ventre” de onde saíram os agressores apareça nos estádios rodeado dos gangues organizados que vivem por ele, para ele e com ele. Se até o principal e festejado goleador Bas Dost está ferido e impossibilitado de jogar na final da Taça, que é que se pode esperar desta súcia que anda por aí à solta?

(estava eu a escrever este folhetim e eis que a SIC fornece o registo de uma conversa de um responsável (e intermediário) sportinguista que, sem papas na língua, se alarga (e confessa) sobre a tentativa (dele) de corrupção de árbitros de andebol. Estamos num mundo nauseabundo.

08
Mai18

Diário político 225

d'oliveira

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Um atestado de óbito tardio

d'Oliveira fecit, 8.5.18

 

A ETA (uma vez mais) anunciou a sua dissolução. E digo uma vez mais porque já por duas vezes em anos passados o anunciara sem que daí decorressem efeitos práticos ou, pelo menos, todos (e os principais) os efeitos práticos.

Agora, reduzida a um escombro vergonhoso e destroçado, a ETA proclama a extinção definitiva de algo que nada mais era do que um pobre mas perigoso bando de malfeitores sem alma nem causa vivendo de e pelo o terror cego que espalhava à sua volta. As polícias espanhola, autonómica (Ertzaintza) e francesa cercaram-na, prenderam os principais cabecilhas e, sobretudo, desvendaram a complicada máquina do terror. Aprisionando cada vez com maior facilidade os militantes (cada vez mais jovens, cada vez mais impreparados militar e politicamente) as polícias obtiveram moradas, nomes, pseudónimos, dados de toda a espécie que, uma vez trabalhados, desmontavam zonas inteiras da clandestinidade.

A cada novo preso, agora sem qualquer dificuldade, seguiam-se confissões pormenorizadas de operações, descrição de refúgios, de casa clandestinas, de cumplicidades de toda a ordem. A “kale borroka” (versão selvagem e infame da luta de ruas) foi o começo do fim de uma estratégia que semeava mortes quase indiscriminadas e um terror absoluto mesmo entre os nacionalistas mais ferrenhos. A ETA, através do “imposto revolucionário” já só tentava manter-se à tona, custear a enorme despesa de se manter fora do alcance dos radares policiais e políticos.

É bom relembrar para as alminhas mais suaves, amigáveis e ignorantes, que, apesar de nascida durante o “franquismo”, a ETA matou mais de noventa por cento dos seus alegados “inimigos” durante a democracia, precisamente quando os direitos civis eram já reconhecidos, as liberdades respeitadas e as polícias controladas. A Democracia é sempre frágil quando se fala de segurança pública.

A ETA, durante o franquismo e depois do espetacular atentado contra Carrero Blanco, manteve uma atitude discretíssima que a polícia do momento era desalmada. Foi contra o Estado Democráico que ela evidenciou todo o seu potwncial de atque. Estava segura que ,mesmo com os GAL e outros escassos e pouco duradouros grupos “anti-terroristas”, os famosos Direitos, Liberdades e Garantias lhe asseguravam uma extrema impunidade. Por outro lado, e a talho de foice, granjeara à sua volta um círculo virtuoso de admiradores babados que ainda viviam (e vivem) à sombra da lenda da “Espanha negra”. E eficaz. E matava, torturava, prendia, invadia casas e esconderijos dia e noite.

Nesse grupo de “cretinos úteis” avultavam os bispos bascos. A bispalhada do lugar além de fascistóide, medieval descendente de inquisidores benzia dos altares a nova “cruzada” que pouco se distinguiu daqueloutra que no tempo da guerra civil iluminava a Falange e os seus guardas mouros exemplo último do ultra-catolicismo triunfante. Na verdade, o País Basco não era republicano e tampouco democrático. Era um cocktail de beatério, e conservadorismo aldeão alentado pelas elites de Bilbau e S Sebastian. Ideologicamente estavam do lado do “caudillo” e a liberdade porque ocasionalmente lutavam fundava-se nas teorias raciais de Sabino Araña, o fundador da causa basca. Nem mais, nem menos.

A ETA que, quinze/vinte anos mais tarde, nasceria argumentava com o massacre infame de Gernika mesmo se isso tivesse ocorrido uma geração antes.

Como (não) é suficientemente sabido, a ETA, sobretudo, após a morte de Franco, dividiu-se em tendências, a mis famosa das quais se crismou a si própria ETA P-M (politico-militar). Foi este a fracção mais consistente ideológica e politicamente da organização. Foi também, o grupo que mais depressa cindiu, se desfez e desapareceu depois de ter percebido que a acção terrorista só era eficaz no semear do medo mas não convertia os cidadãos em apoiantes da independência. Também foi neste grupo, mas não só, que a ETA remanescente matou gente. É bom relembrar que ao lado das centenas de vítimas (polícia, políticos, e – esmagadoramente - gente comum) foram assassinados ex-militantes mesmo se contra eles não pendesse qualquer suspeita de identificação com a polícia, com o “Estado Espanhol” ou contra a causa basca. Invoque-se apenas Yoyes a militante assassinada anos depois de ter saído da organização. E, também de novo talho de foice, recordemos a intensa campanha contra a elite intelectual basca que se viu obrigada a exilar-se sob pena do misericordioso tiro na nuca (por todos, Fernando Savater, o filósofo e escritor de dezenas de títulos sobre ética e política).

Todavia, repontar-me-ão que a ETA sobreviveu, em democracia, cerca de quarenta anos. Em primeiro lugar, cedo se percebeu que a ETA deslocara para lá da fronteira, grande parte do seu aparelho político e logístico mesmo se no pais basco francês nunca tivessem tido especial êxito as teses independentistas que uniam esta região a Euzkadi e à Navarra.

Depois, há que referir o sistema de terror imposto à população em geral. Qualquer cidadão poderia não concordar mas, seguramente, guardava para si essa convicção sob pena de se ver apontado como traidor e/ou serventuário da Espanha. Desde cartas de ameaça a “pintadas” nas paredes ou na porta da casa tudo serviu para pelo exemplo avisar os mal-pensantes dos riscos que corriam. Os não bascos, os “metecos”, sabiam quão perigoso era para eles expressar uma opinião mas mesmo assim a expressão política da fracção mais radical nunca foi relevante. O espaço independentista moderado estava ocupado pelo PNV, Partido Nacionalista Vasco, formação conservadora q.b. e que muitas vezes serviu (e serviu-se) de apoio da Direita espanhola.

A ETA extingue-se de “motu próprio”, afirmam os do último quadrado numa cerimónia ridícula e tonta em território francês testemunhada pelos de sempre. Nem isso é verdade. A ETA já não existia senão como fantasma. Mesmo assim na sua declaração final ainda houve o arrojo de tentar distinguir entre as vítimas. Uma, coitadas, foram o resultado de fortuito erro , aliás desculpável dado o “estado de guerra”. Outras, polícias do Estado, ertainztas ou militares, para já não falar de políticos eleitos, mereciam morrer. Dos ex-militantes assassinados nem uma palavra.

Ao descalabro moral, ético e político junta-se esta outra qualidade: a hipocrisia. E a mentira, evidentemente, base da “narrativa” há dias apresentada.

A herança destes anos de chumbo é pesada: Quase mil vítimas mortais. Centenas de presos, milhares de auto-exilados, uma sociedade dividida que levará o seu tempo a recompor-se.

Esquecia-me: umas dúzias de cavalheiros com um passado de sangue mas livres como passarinhos. Ainda os veremos, como por cá, a escrever livros de memórias onde a morte de outros e a mão encoberta desaparecem como por encanto. Talvez nem valha a pena referir os escassos, tristes, primos portugueses da ETA. Também levam com eles no consciência o peso de alguns mortos, de umas bombas, de uns assaltos a bancos (para onde foi o dinheiro?) que uma justiça morosa, medrosa e uma sociedade generosa deixaram sem solução.

 

02
Abr18

Diário Político 225

d'oliveira

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Contas à moda deles

 

Parafraseando o imortal capitão Joaquim António Pereira “a pátria está ufana” pelos resultados conhecidos das contas públicas. Os do costume desdobram-se em cumprimentos, a Oposição rosna, os aliados do Governo sorriem amareladamente e só um pertinaz grupo de energúmenos, seguramente vendidos ao estrangeiro, ao imperialismo monopolista ou ao bolchevismo dissolvente (ou a outra coisa qualquer), é que se põem a fazer fosquinhas e a semear dúvidas pouco patrióticas.

Comecemos pelo deficit: é de 3% ou de 0,9? Os amigos e turiferários do Governo e o dr. Marques Mendes apontam para a segunda hipótese, mesmo se o distinto comentador dominical da SIC relembre, en passant, a chatice dos milhões enterrados na Caixa Geral de Depósitos. Com essa grossa quantia o deficit vai para os 3%, fronteira última do preceituado pela Comissão Europeia e, pelos vistos, aceite por esta como deficit real.

Argumentam os virtuosos defensores de Centeno que isso não deveria ser bem assim, tanto mais que os milhões enterrados na CGD serão, lá para as calendas gregas, desenterrados e repostos nos cofres do Estado.

Nada garante que tal milagre das rosas ocorra e, no caso altamente improvável de isso se tornar realidade, a coisa só ocorrerá no tempos dos our children’s children’s childrense me é permitido usar parte do título de um grande álbum dos Moody Blues  editado vai para cinquenta anos. Até essa data libertadora, penamos nós e respectiva descendência.

Há mesmo quem queira ver no cacau metido no gasganete aflito da CGD um investimento. Não é, obviamente. Aquela dinheirama toda foi para lá atirada apenas para “esponjar” um colossal prejuízo arranjado por gente mais que duvidosa de que nem quero lembrar-me apenas por receio de infectar o computador à simples menção dos seus nomes e apelidos. Aqui não há investimento algum mas, tão somente, a tentativa de manter o maravilhoso banco público à tona. Diga-se que nem sequer esta medonha injecção de capital é suficiente. A CGD já despediu pessoal, já mandou gente para uma estranha pré-reforma, já fechou agências (de que Almeida em pleno interior que, agora é amado por todos, é exemplo) mas prepara nova arrumação de funcionários e balcões que, (vai uma apostinha?)  irão para a rua e fecharão nas barbas dos do costume, isto é dos que menos tem e mais precisam. Dos que não tem o apoio de nenhuma agência de banco privado nas imediações.

Curiosamente, quando são os CTT a fazer o mesmo, numa escala incomparavelmente menor e sem despedimentos, tremem os céus a terra e chamam-se todos os nomes à administração (por acaso, mero acaso...) privada. A CGD, essa, faz trinta por uma linha e nem uma palavra. Os responsáveis pelo buracão tremendo encontrado não são identificados, perseguidos, acusados ou punidos. Sobre esse assunto caiu um espesso manto de silêncio pesem embora as comissões de inquérito da AR e o grave ar dos cavalheiros da “geringonça”. Nem as manas Mortágua murmuram... Ao fim e ao cabo, a CGD é um banco nacional, público, nosso que devemos todos suportar patrioticamente, orgulhosamente, como, aliás, vamos suportando os Banif, os Espíritos Santos sem falar nos mais antigos desastres todos intervencionados para que o sistema não tremesse...

Sobre o investimento público cai também um pesado pano teatral. É inferior (quer em 16, quer em 17) aos números incontestados do medonho governo de Passos Coelho. Recordarão os leitores que, nessa época, o cavalheiro em causa era todos os dias acusado de tudo e mais alguma coisa, mormente de asfixiar os serviços públicos por falta de apoio e de investimento. Pois agora, com números ainda menores, ninguém se aflige. Milagres de Costa, amnésia oportuna, esquecimento dos encartados, e únicos, “amigos do povo e das mais amplas massas populares”...

Junte-se-lhe essa salazarista teoria das “cativações”, tema preferido do senhor Ministro das Finanças que nisso (e não só) nada inova dentro do pensamento financeiro português. O dr. Salazar inaugurou esse caminho e prosseguiu-o resolutamente durante um bom par de anos para “salvar” a pátria da cobiça da estranja. entre 1926 e o fim dos anos 30 do malvado sáculo passado. As cativações (provavelmente sob diferente pseudónimo) reduziram a dívida externa e o deficit e mascararam o Estado Novo. E aguentaram-no por muitos (e maus) anos.

A substituição de impostos directos por indirectos levada a cabo nestes dois anos deu a aos portugueses a ideia de que lhes caía mais dinheiro nos bolsos, tanto mais que foram acabando as punções salariais introduzidas pelo ministro Gaspar. Como diz um excelente amigo meu, “entra-lhe mensalmente mais dinheiro no bolso”.  É verdade. Esquece, porém o meu amigo que, o que uma mão dá, outra leva. A subida dos impostos indirectos mais que compensou a generosidade governamental com a “ligeira” agravante  que decorre do facto destes impostos serem cegos. Acertam em ricos e pobres sem apelo nem agravo. Com uma outra “pequena” consequência: os pobres sentem mais, muito mais, o agravamento dos bens de primeira, segunda ou terceira necessidade do que os ricos para quem a variação para cima no preço do arroz, das batatas, da carne ou da fruta pouco lhes dói, se sequer dói.

O meu amigo aponta ainda outra “fatal maravilha" da nossa idade: a baixa do IVA nos restaurantes. É verdade mas ele deve esquecer-se de que o recurso ao restaurante é, não direi um luxo, mas algo de ligeiramente supérfluo. Os que pouco têm não vão a restaurantes. Bem que gostariam, imagino, mas o restaurante, mesmo barato, não entra nas contas (desta vez privadas) de uma boa parte da população portuguesa.

Os alegados defensores dos fracos e oprimidos, varrem para debaixo do tapete esta iniquidade. Provavelmente, pensarão que bastará isentar de IRS mais 10% da população. Ou aumentar em meia dúzia de euros o salário mínimo que é rapidamente comido pelo preço dos géneros, da água, da luz, do gás...

Finalmente a carga fiscal. Este ano cifrou-se em 34,7%. Um máximo absoluto, neste século ou no passado. O dr. Centeno desvaloriza (claro!) argumentando que a alegada melhoria dos salários, o aumento do emprego trazem por si sós mais impostos (desta feita directos) e isso faz pensar numa carga fiscal maior dado que a compara com o PIB...

Por um pouco ainda teremos que a carga fiscal é menor do que nos tempos ominosos de Coelho & Portas a quem, decididamente faltou esta arte da comunicação.  

Ou, por outras palavras: não é preciso ser engraçado. Basta cair em graça.

* a ilustração: Esta horrenda e faraónica mastaba é a sede da CGD. Além de medonha vai custar um balúrdio a implodir,  no dia que o bom gosto imperar, para fazer coisa melhor, menos horrenda e mais singela. 

 

d'Oliveira fecit 2 de Abril de 1918

15
Fev18

Diário Político 223

d'oliveira

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Humores cardinalícios

d'Oliveira fecit 15.2.18

Passado que foi o Carnaval, aguardava com evangélica paciência que o Sr. Cardeal Patriarca comunicasse, urbi et orbe, (enfim, quase, que ele não é papa e, com sorte, nunca será) que a sua declaração sobre a forçosa castidade entre recasados até se resolverem alguns problemas de direito canónico, fosse retificada.

Não foi. Todavia, vários bispos e outros tantos teólogos vieram já a terreiro explicar a sua discordância. A comunicação social tem-se divertido e explorado as declarações de Sª Eminência Reverendíssima. O pópulo católico parece completamente dessintonizado da paternal e surpreendente recomendação de alguém que, para o pecado e para as relações sexuais, parece ser inclemente.

Eu estou fora do rebanho pastoreado pelo Senhor D Manuel. As recomendações do prelado não me afectam. Não só porque já vou adiantado em anos mas, sobretudo, porque tenho por certo que S.ª Em.ia Rev.ima não faz a menor ideia do que é a vida de casado. Nem do que os casais, até os católicos, esperam desse viver em comum. As pessoas casam-se e, no caso em apreço, recasam-se para algo mais do rezar juntos o terço. Para permanecer teoricamente virgens (ou revirgens!) não precisam dessa maçada de ir ao padre e ao registo declarar que querem fazer vida em comum.

O Papa percebeu isso. Todas as Igrejas cristãs o perceberam e só esta “católica, apostólica e romana” ainda insiste no celibato sacerdotal, na castidade a outrance, na exclusão da mulher. Aliás, a perturbante devoção à Virgem em oposição à pecadora Eva (e lembremos o que dizia um famoso doutor da Igreja: a Virgem foi virgem antes, durante e depois do parto. Outro não menos surpreendente descobriu que se “o homem precisava de companhia no Éden, Deus poderia ter criado outro homem” espera-se que para conversar.

Há um par de anos, num irreflectido entusiasmo, o júri do Prémio Pessoa, entendeu distinguir este prelado. Nunca descortinei qual a razão mesmo se o senhor fosse licenciado, quiçá doutorado. Não havia ainda, e não há hoje, obra suficientemente relevante para o chamar a tão alto prémio. A menos que o galardão servisse de base para futura obra que ainda está por levar a cabo.

Esta declaração, totalmente fora da realidade, do século e, provavelmente de qualquer hipóteses de “aggiornamento” eclesial não foi uma graçola de mau gosto mas, eventualmente uma profissão de fé no que a Igreja tem de mais conservador e reaccionário. Que lhe preste.

 

Para ilustrar servi-me de uma máscara de carnaval de Trás os Montes. Convenhamos que além de belíssima contrasta fortemente com a deslavada carnavalice de várias terras nacionais - que as televisões mostraram ad nauseam. Não se entende este entusiasmo por aquele desbarato de toleima e falta de imaginação. Outras televisões, desta feita estrangeiras, insistiram em Veneza. Para que se saiba: o actual carnaval veneziano, além de moribundo é animado a 70% por estrangeiros que pagam fortunas por uma semana com fantasias a rigor mas desoladoramente copiadas das antigas: uma dor de alma ver a cidade lagunar perecer sepultada pelo turismo barato, pela sonolência da razão e pelo mau gosto da cópia. Parece portuguesa!...  

 

 

14
Fev18

Diário Político 222

d'oliveira

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Se um procurador incomoda muita gente, o MP na sua totalidade incomoda muito mais

d’Oliveira fecit 14.2.18

 

(uma palavra prévia em guisa de aviso: há uns dias, não sei já quantos, uma criatura, coimbrã e pesporrenta, entendeu escrever uma defesa do Lula. Só lhe ficaria bem, dado ser amigo e admirador do corajoso ex-sindicalista. Porém, nestas coisas há sempre um porém, a peça em causa é menos uma defesa de Lula do que um ataque à Justiça. Note-se que falamos de um país democrático onde só a justiça andava escapada da maldição. Os políticos brasileiros, as elites empresariais, grande parte do mundo desportivo, para não falar do Exército ou da Polícia eram, desde há muito, tidos por irrecuperáveis. Curiosamente, a Justiça, de ano para ano, vira crescer a popularidade das suas instituições e dos seus agentes. O auge da sua popularidade verificara-se até no exacto momento em que fizera frente à poderosíssima construtora Odebrecht e a outras estranhas e espúrias empresas que compravam tudo sobretudo as consciências. Porém, no decurso deste medonho processo, apareceu Lula. E apareceu um juiz. E uma primeira condenação depois revalidade por outra bem mais pesada. E foi "a pedra no fim do caminho". E a acusação tombou como se previa: “estamos a caminho de uma política justicializada”! Pelos vistos parecia preferível uma justiça politizada em que os seus membros, como por cá tantos aconselham, tivessem em linha de conta os “superiores interesses do Estado”. Citaria, se valesse a pena, os grandes processos de Moscovo e as teses sinistras de Vichinsky curiosamente muito semelhantes à sque presidiram aos processos que liquidaram a Resistência Alemã. Neste campo, os tristes Tribunais Plenários nossos são qualquer coisa de angélico, de pais pobre, envergonhado e subdesenvolvido – mas eficazes não se olvide)

Grande parte deste texto foi escrita nessa altura mas abandonada porque entendi não dever dar ao esganiçado coimbrão a escassa honra de ser citado. No entanto, “factos supervenientes” obrigam a repegar no assunto de outra forma. Aí está o que resultou

 

Estava escrito nas estrelas e, mais ainda, na História: Desde o momento em que, em Itália, um punhado de juízes decidiu enfrentar o poder político estabelecido (movimento mani pulite) e levou à derrocada dois dos maiores partidos que durante dezenas de anos ocuparam o poder juntos ou alternadamente, o destino dos magistrados estava traçado. Em Itália mas não só. Lá, sobretudo no Sul, recorria-se ao expeditivo método do atentado bombista (e assim se foram vários e prestigiado juízes e procuradores ligados às investigações anti mafia). No Norte, mais sofisticado, ia-se, pouco a pouco cercando (cerceando) o poder dos magistrados, acusados de judicializar (!!!) a política até se conseguir este resultado absolutamente perturbador: o poder agora está nas mãos de populistas, neo-conservadores exaltados, irredentistas, como se Craxi (Bettino) tivesse lançado uma maldição aos seus acusadores. A prova provada é o à vontade com que Berlusconi se move entre ninfetas sem falsos pudores e a construção de impérios mediáticos.

No Brasil foi o que se viu: enquanto se tratava de atacar o “capitalismo” da construtora Odebrecht e um punhado de políticos corruptos mais ou menos conservadores tudo era louvores. Quando se deram as primeiras bicadas no “mensalão” e no aparelho instalado no PT, começou a soprar (como na famosa área de Rossini) “un venticello”. Data desse tempo a decisão de uma política brasileira de se candidatar contra Lula que, coitado, pelos vistos não sabia de nada... Os dinheiros corriam com mais velocidade que as águas de Iguaçu, os políticos hostis rendiam-se por absoluto milagre e ninguém sabia de nada!... Depois os juízes começaram a apertar.

E juiz que aperta é juiz que deve ser desapertado.

Dantes um honrado cangaceiro dava conta do recado mas os tempos, ai os tempos, mudaram. Os tempos e os costumes. Agora convém ataca o poder judicial na base. Na credibilidade que, em democracia, ele costuma ter. O Sr. Lula foi acusado. Foi julgado. Foi condenado. Recorreu. Voltou a ser condenado por outro tribunal que, aliás, até aumentou a pena.

Ai Jesus que a Direita vem aí. Nisto de condenações a coisa funciona assim: o condenado é um patrão, um banqueiro, um empresário? A justiça funcionou!

É um líder da esquerda ou alguém que se presume como tal? Trata-se de uma conspiração do capital, dos trusts, dos monopólios, da reacção. Renasce com todo o seu bafiento esplendor a velha langue de bois do mais serôdio discurso estalinista.

Em Portugal, as coisas não são diferentes. De repente, e não foi assim tão de repente, o MP deu em acusar banqueiros, políticos, gente do futebol empresários variados, uns humildes cavalheiros africanos que compram no Estoril apartamentos cujo preço equivale a 300 anos de salários deles e começa o fandango.

Anos antes, os actuais acusadores do MP indignavam-se voluptuosamente, com a miopia da justiça. E repetiam em coro que “é sempre a mesma melodia... quem se safa é a burguesia”. A justiça era de classe, estava feita com os ricos, nos grandes ninguém toca, etc...

Agora andam por ai, à solta, como no Pinhal da Azambuja, bandos de juízes de instrução e de procuradores numa desvergonha total que até perseguem (vejam que camorra!) outros procuradores! E pretinhos inocentes. (E bombeiros!, meu Deus!, bombeiros!...)

Há poucos dias um ministro pediu um estúpido favor baseado numa estúpida premissa de que a sua segurança pessoal estava em risco. E foi ufano para o camarote de um cavalheiro que, agora, ó espanto!, está arguido num processo mais uma vez movido pelo tenebroso Ministério Público.

Como ocorre sempre, e decorre estritamente da lei, este pedido despoletou acusações burras. Mas acusações a que o MP não se pode furtar. Em escassos dias o processo, obrigatório, morreu arquivado. E bem arquivado. Isto, que é uma vitória para o ministro pouco cauteloso, não é de nenhum modo uma derrota para o MP. O MP fez o que devia. Fê-lo depressa. Cortou o venticello antes de que ele, "piano piano, terra terra... va fischiando e ti fa d’orror gelar" até que no fim produza "una esplosiose um tremuoto, un temporal que fa l’ária ribombare."

E no meio disto tudo, sobram culpas para os magistrados e ninguém se incomoda com a parvoíce obnóxia de pedinchar um lugarzinho para ver a bola. Já nem se fala de ética (para quê?) mas tão só de um ridículo e presunçoso pedido que a mais elementar prudência – já nem se fala de vergonha – deveria absolutamente evitar.

Do cavalheiro africano acusado de corromper um magistrado, nem novas nem mandados. Parece indecente acusar-se um honrado político cujo único e venial pecado foi comprar uma casinha, um apartamentozinho que custa milhões. Comprou-o com o suor do seu rosto (ou de outros muitos rostos todos pretinhos como ele, claro) e agora anda por aí um MP a perguntar por “lavagem de dinheiro”? Estamos perante uma campanha neo-colonialista e higienista?

Ainda ontem, o dr. Sousa Tavares (filho, não confundamos) mostrava a sua semanal e televisiva indignação com a “roda livre” do MP bem visível numa ordem de detenção do fantamasgórico cavalheiro africano. Parece que corria a notícia funesta que a criatura viria a Portugal e, à cautela, lá se fizeram os necessários (e porventura obrigatórios) esforços para o encontrar e notificar. Essa “inutile precauzione” (para continuar citando a imortal obra de Rossini) foi tomada como um horrendo atentado ao Direito e à Justiça. Aliás, e na mesma penada, o senhor dr. Tavares qualificou a intrusão do MP no caso da poluição do Tejo de absurda e altamente duvidosa. Vejamos: a eventual criminosa é a Celtejo. A Celtejo é da Covina. A Covinna é a proprietária da revista “Sábado” e do jornal “Correio da Manhã”. Estes dois órgãos de imprensa seriam useiros e vezeiros em fintar o “segredo de justiça”. Por seu turno, ao entrar em campo, o MP impôs o dito segredo de polichinelo, digo de justiça, à investigação. Isso seria, aventa o sapiente Tavares, um meio anormal de esconder os pecados da Celtejo ou de, presumo eu, deixar para as duas publicações os direitos exclusivos da reportagem.

No meio desta construção bizarra, há ainda o facto de a Celtejo fabricar papel. E o papel é feito a partir de eucalipto, planta perniciosa entre as perniciosas para Tavares (filho, insiste-se). Tavares odeia eucaliptos ainda mais do que algum agente do MP.

(aparte: eu não gosto nem desgosto de eucaliptos. Tenho na terra a que chamo minha, uma “papeleira”. Felizmente, os ventos dominantes, a “nortada”, afastam os cheiros medonhos da fábrica. E os fumos. Sei, todavia, que a “pasta de papel” é um dos maiores pilares da exportação nacional. E que um eucalipto, ao fim de dez anos, já dá lucro. E que isso foi a parca salvação de dezenas de milhares de pequenos produtores. É verdade que também favorece os incêndios, tanto ou mais que o nosso nacionalíssimo” pinheiro bravo. E que as outras velhas e nobres espécies arbóreas autóctones (carvalho, castanheiro, faia etc...) demoram três ou quatro vezes mais a dar rendimento. Portanto: ou se subsidia fortemente a exploração florestal ou, proibindo o eucalipto, se decapita a fileira do papel se perdem mil milhões anuais e milhares de empregos. E deixam-se dezenas de milhares de pequnos proprietários florestais ainda mais desprotegidos do que já estão...

Esquecia-me referir que a tão propagandeada reorganização da floresta vai demorar (se sequer a implementam) uma ou duas décadas; vai necessitar de uma gigantesca injecção de meios financeiros e humanos; vai obrigatoriamente modificar leis e regulamentos sobretudo em tudo o que toque torra abandonada ou sem proprietário conhecido. E por aí fora.

Em resumo: quem gosta da imobilidade deve, numa corrida, ir ao beija-mão do senhor Tavares (filho) Fim do aparte)

 

No meio disto tudo, que não é pouco, apareceram umas extemporâneas declarações da Sr.ª Ministra da Justiça sobre a duração do mandato da Sr.ª Procuradora Geral da República. A declaração ministerial nem sequer era correcta do ponto de vista jurídico. Um mandato de seis anos pode, se nada estiver estabelecido em contrário (como, p.e., no que se refere os juízes do Tribunal Constitucional) ser renovado. O bom senso obriga a pensar cautelosamente nesta hipóteses. Em equipa ganhadora não se mexe. Pior, quando alguém está ligado a Angola pelo nascimento, pela família –aliás numerosa- que detém postos de poder (mesmo se também possa contar com vítimas do progrom anti-nitista) o silêncio seria de ouro (dado o contencioso existente no caso Vicente ou no da burla ao Banco de Angola – 130 milhões de euros e sete processos de investigação pelo MP -)  tanto mais que o mandato da actual PGR ainda tem alguns meses pela frente para se dar por findo.

Pessoalmente, yo no creo en brujas o en conspiraciones. Pero que las hay, las hay...

 

18
Jan18

Diário político 221

d'oliveira

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Calma aí, malta americana

d'Oliveira fecit 18.1.17 

 

Tenho muita simpatia por Oprah Winfrey. Não exactamente pelo programa que a tornou famosa mas, sobretudo, pela cultura que tem demonstrado e pela biografia que é a de uma esforçada e corajosa lutadora.

Notem que não é todos os dias que uma mulher (mulher!) negra (negra!!) de origem humilde consegue ultrapassar todos estes medonhos senãos e converter-se num ícone americano. E, ainda por cima, não se distinguiu nos tradicionais meios reservados a esta imensa minoria americana. Não canta, não é atleta. sequer escritora. Está no “entertainment”, no reino da televisão onde os brancos, e sobretudo os brancos WASP, dominam quase completamente.

Também não vem das grandes lutas pelos direitos civis mesmo se nunca os tenha desertado.

Oprah fez o seu longo caminho a pulso, com determinação, coragem e talento, imenso talento. E cultura (basta consultar a lista dos livros que ela recomendou ao longo dos anos e a continua mobilização de personalidades culturais que foram ao programa).

Tudo isto e o seu apoio claro e iniludível a Barack Obama são excelentes razões, mas nunca as razões suficientes, para uma candidatura à presidência dos EUA.

Mesmo se, como parece, algumas (eventualmente muitas) criaturas entendam que para bater uma personalidade mediática como Trump seja necessária outra personalidade igualmente famosa. Depois, os súbitos apoiantes de Oprah afirmam que se aquele é um ignorante chapado (e é) de política internacional e até interna, e mesmo assim foi eleito, nada de pior sucederia com Oprah, mais culta, mais inteligente, mais sensível com mais bom senso.

Provavelmente não. Todavia, a América precisa desesperadamente de alguém ao leme com o mínimo de traquejo político (interno e internacional) para resolver enormes e instantes problemas globais desde as questões do clima à da desnuclearização ou aos efeitos da globalização.

Os apoiantes de Oprah já vieram falar de Reagan, um presidente que veio, também, da área do espectáculo. Parece que ignoram alguns factos: Reagan foi um importante dirigente sindical e posteriormente exerceu o cargo de Governador da Califórnia. À escala mundial este Estado americano passa à frente de três quartos dos Estados independentes seja em população, seja em indústria, em PIB ou em integração de populações diversas.

Aliás, a favor de Reagan havia ainda outro ponto: foi um republicano que governou um Estado tradicionalmente democrata. Não é pouco, nada pouco.

O Partido Democrata americano ainda não cessou de lamber as feridas da horrível derrota infligida por Trump. Diz quem sabe, e nisso conviria incluir muitos críticos do Presidente actual, que os democratas estão de cabeça perdida, desvairados à procura de um líder credível e elegível pois não basta ter a maioria dos votos. Há que obtê-los Estado a Estado dado o particular sistema eleitoral americano onde finalmente é o numero de “grandes eleitores” que decide o destino de uma eleição.

Demonstra-se este estado de extrema aflição com a candidatura de uma senhora chamada Chelsea Maning que, numa anterior vida, foi soldado e forneceu à Wikileaks 700.000 documentos classificados. A referida criatura tenta a candidatura com expresso apoio da comunidade LGTB e de numerosos progressistas (eventualmente os mesmos que andam a apoiar o #metoo) que também tweetam a exemplo de Trump.

A coisa seria ridícula e surpreendente sobretudo depois de se saber que a Wikileaks foi um dos principais estorvos contra Hillary Clinton e que o candidato democrata contra quem Chelsea concorre tem um excelente historial como congressista.

Esta América, que parece um cachorro a correr atrás da sua própria cauda, não só não tem “o sentido da galinhola” (Eça, sempre) mas sobretudo não aprendeu nada com a derrota. As elites democratas ainda não entenderam que os EUA não se limitam a N.York, Los Angeles, S Francisco e à intelectualidade que pontifica em certas e óptimas universidades, nos meios jornalísticos de grande qualidade ou no cinema. Esquecem-se que há fortes manchas de brancos pobres, de brancos empobrecidos, de gigantescas minorias de várias cores e culturas onde o sonho americano não chegou. Foram esses votantes (onde também, acreditem, havia negros ou mulheres, gays ou intelectuais) que fizeram a diferença. Eles e, convém relembrar, muitos democratas desiludidos que apostaram tudo em Bernie Sanders e se recusaram a votar Clinton (é a velha ideia de “Morra Sansão e quantos aqui estão” ou do “quanto pior, melhor”...) Bem lembrava Lenin, num contexto absolutamente diferente, é verdade, que “o esquerdismo é uma doença infantil” embora não só do comunismo, acrescento eu.

Alguma Esquerda europeia, obnubilada pelos malefícios do tabaco e do capitalismo, olha a América com mais pavor do que, por exemplo, a Rússia do ex-camarada Putin. E enfileira em todas as bizarrias que por lá surgem desde que rotuladas de “anti-sistema”. Trata-se de não só não perceber o mundo mas também de ser incapaz de transformá-lo se me permitem este paralelo com uns antigos escritos sobre Feuerbach...

Temo bem que a árvore Oprah esconda ou derrote a floresta e espero, para bem de quem, com paciência, quer ver o mundo avançar nem que seja uns milímetros (um avanço é sempre um avanço), que Oprah resista a este súbito canto de sereias, provavelmente oriundo de quem nunca leu e, muito menos perceberá, a “Odisseia”. Ou seja, o regresso do guerreiro à casa onde o esperam mulher filho, a sombra de um velho pai, um porqueiro e súbditos fartos da guerrilha dos pretendentes.

 

*aproveito a deixa grega para recomendar vivamente não só a leitura dos poemas imortais de Homero na tradução de Frederico Lourenço como também a belíssima tradução que este helenista propõe da Bíblia: já cá cantam três volumes e aguardam-se com ansiosa volúpia os restantes.  

24
Dez17

diário político 220

d'oliveira

Duas cartas fartamente esclarecedoras

(d’Oliveira fecit 24-12-17)

Dois leitores do “Público”, entenderam opinar sobre os resultados das eleições catalãs. É um direito que ninguém, e muito menos eu, lhes retira.

Porém, no seu intenso amor pela Catalunha, dizem coisas que só a demência amorosa poderia justificar. Assim um senhor Mário Pires Miguel vem defender que nenhum país que luta pela independência tem a totalidade da população a seu lado. Mesmo que assim seja, conviria lembrar-lhe que, no caso em apreço, há uma região partida ao meio, coisa que torna muito problemática qualquer causa e bastante próxima a guerra civil. Depois, sempre na mesma onda afirma que “é da história que, para impedir os independentistas de serem dominantes, o poder central usa a emigração para esses territórios para criar forças oponentes à independência” (sic). Perante uma parvoíce deste tamanho qualquer simpatizante da Catalunha fugiria a sete pés. Então será que alguém está a ver os malvados “espanhóis” a empurrar dois milhões e meio de andaluzes, estremenhos, valencianos ou galegos para a “pátria” catalã, com o fito único de desbaratar os legítimos anseios da comunidade local? E que dizer das dezenas de milhares de catalães expatriados na Espanha madrasta? Foram enviados pela Generalitat para submeter a castelhanagem impura ou, pressentindo uma invasão espúria de metecos pobres, fugiram para não serem apanhados na guerra a vir? Mais: a “grande dinâmica da economia da Catalunha”(sic)foi construída por quem e, sobretudo à custa de quem? Ignorará Mário Pires Miguel, alegadamente morador na Catalunha e também ele emigrante (será que Portugal também pretende abichar com uma parte do território? Se assim for, eu gostaria que tomassem S Feliu de Guixols onde passei uns dias inolvidáveis e lúbricos) que a “emigração” na Catalunha (por exemplo o pai de Manuel Vasquez Montalban, galego e proletário)é toda ela ou quase de gente pobre que foi ali vender a sua força de trabalho e enriquecer sobretudo a poderosa burguesia catalã tão bem representada pelos Junqueras e pelos Puigmont na cadeia ou em parte incerta?

Finalmente este pobre Miguel remata que os comentadores “associados aos grandes interesses dos espanhóis” só estragam democracia. Ignorará a tonta criatura que ao falar de grandes interesses está certmente mais perto de interesses da indústria e do grande comércio catalães do que de quaisquer outros na península?

O segundo preopinante, Quintino da Silva de Paredes de Coura, esforçada mente que cita Confúcio e António Gedeão em meia dúzia de frases laboriosas, acha que há uma “chantagem exercida pelas empresas que saíram da Catalunha certamente em conluio com o Governo de Espanha”. E acha até que os votantes se estão “borrifando” para tão indecoroso acto.

As empresas saídas passam já dos três milhares e, apesar de apenas terem transferido as suas sedes sociais, já vão custar uns milhões ao erário da autonomia. Se de todo saírem isso traduzir-se-ia em dezenas ou centenas de milhares de empregos. Se lhes juntarmos a não entrada no mercado europeu como existe nas actuais circunstâncias, logo veremos que a coisa fia fino. E fia tanto mais fino quanto já se sabe que o turismo baixou, que o desemprego já aumentou e que tudo isso já começa a ter reflexos. E eles até já são mensuráveis pela simples comparação dos assentos parlamentares. Do anterior para este parlamento não foi só o PP que perdeu lugares. Foram também os independentistas cuja maioria se tornou mais escassa e mais, muito mais, dependente de alianças cada vez mais estranhas e menos sólidas. Se é que conseguem formar um governo fiável e duradouro, conhecidas que são as divisões entre os dois partidos mais fortes.

Não sei se o Público ao publicar estas duas cartas quis algo mais do que mostrar o ridículo de certos catalanistas e, assim, dar uma mãozinha a Rajoy. Espanta-me, ainda que moderadamente, que sobre esta questão não tenha havido uma, ao menos uma, opinião mais pensada e menos estouvada (uso este adjectivo para não maltratar mais os opinantes. A simples citação das suas frases chega e sobra para os avaliar.

14
Dez17

diário político 219

d'oliveira

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This land is (also) my land

d’Oliveira fecit 14.12.17

 

Sou um feliz e atento espectador do “The late night show” que passa na SIC radical todas as noites cerca das nove horas. E sou-o não só pelo animador, Stephen Colbert, um actor e apresentador ímpar mas também porque essa é uma das melhores trincheiras anti Trump tanto mais que nunca caiu na esparrela de dizer ámen a tudo o que a senadora Clinton dizia.

Desde há semanas que Colbert, que não perde uma única ocasião para alfinetar o actual Presidente, atacava o ex-juiz Roy Moore candidato ao Senado e denunciado predador sexual (a criatura terá mesmo afirmado que nunca saíra com uma rapariga sem pedir autorização à mãe dela!) porta-voz dos ultramontanos evangélicos e de tudo o que me repugna na América.

Trump, como de costume, entendeu apoiar Moore afirmando que este faria coisas maravilhosas no Senado e votaria com ele (Trump) sempre.

O Alabama é um Estado do Sul, pertenceu aos Confederados e notabilizou-se pela perseguição intensa à minoria negra. Vota sempre (ou quase) à direita e tudo parecia correr bem a Moore, mesmo se a criatura tivesse cada vez mais críticos (mesmo no campo republicano). Todavia, desta feita, os resultados da eleição constituíram uma agradável surpresa:moore foi derrotado por um quase desconhecido candidato democrata. Estará a América a mudar ou isto é apenas um resultado da actual campanha de denúncia dos predadores sexuais. Como se sabe (e saber-se-á ainda mais e nem sempre melhor) agora os Estados Unidos são percorridos por um furacão de denúncias de assédio sexual. Tudo começou em Holywwod no meio do cinema, passou rapidamente ao campo das modelos e atingiu fortemente a política. Já não se contam os políticos que tiveram de se afastar de campanhas, quando não foi do Congresso, do Senado ou de governos e instituições estaduais. Trump, ele próprio tem sido alvo de acusações do mesmo tipo, estribadas é certo em gravações dele mesmo a declarar o que faz(ia) com algumas mulheres que encontra(va). Longe estamos dos tempos de Clinton que, aliás, para afastar as críticas bombardeava o Iraque.

Pessoalmente, preferiria que, a ser alvo de um impeachment, o fosse por manobras e conluios com a Rússia. Apesar de tudo a coisa é mais grave e mais importante por muito que isso custe ao feminismo mais exaltado.

Claro que uma andorinha não faz a primavera e um lugar a menos no Senado ainda não chega. Trump, por muito surpreendente que isso pareça, mantém intactas as suas bases populares nomeadamente entre os brancos pobres, as mulheres e mesmo as minorias étnicas. Mesmo com uma taxa de popularidade baixa e em queda, a geografia eleitoral americana poderia, se houvesse eleições hoje, dar-lhe a maioria dos mandatos mesmo se o total de votos pudesse ser ainda pior do que foi na eleição passada.

De todo o modo, há pequenas alegrias e os comentadores pacientes tiveram ontem um pequeno presente no sapatinho. Uma derrota é sempre uma derrota e saber que Trump se estrampalhou é uma notícia jubilosa. Generosamente, passo-a aos leitores menos atentos.

* estrampalhar: estragar (calão de Buarcos, terra de palavras fortes e sugestivas)