Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 745

d'oliveira, 09.10.22

 

 

Unknown.jpeg

Nenhuma ponte fica longe de mais

mcr, 9-10-22

 

o título inspira-se num filme dos finais de 70 que, por sua vez, recriava a história de uma operação idealizada por Montgomery, o vencedor de El Alamein, general dominado pela ambição que, neste caso (a operação Flower Market) deu fragorosamente com os burrinhos na água. Parece, mesmo que foi o maior desastre aliado no que toca a baixas, superando as decorrentes do dia D.

Como se sabe, depois da ilegal anexação da Crimeia, e temendo um regresso das forças ucranianas, os russos construíram uma ponte rodo-ferroviária entre a margem russa do mar de Azof e a península anexada.

Essa monumental obra garantiria (e garante) um fluxo continuo de transpor te de mercadorias de todos os géneros bem como de pessoas, incluindo tropas.

Na actualidade, dada possibilidade de progressão do exército ucraniano nas frentes dos sul o papel da ponte torna-se ainda mais vital dada a eventual pouca fiabilidade de enviar tropas, armas e combustível pelos acessos terrestres conquistados à Ucrânia.

Ora foi essa ponte majestosa que no sábado sofreu um atentado que redundou, na destruição de um comboio de combustível, na morte de três pessoas e na parcial destruição de algumas partes de ambos os troços que, entretanto, estarão a ser rapidamente reparado.

Os estragos, mesmo se importantes não são de molde a interromper por muito tempo o tráfego mas a humilhação é tremenda e faz os russos perceberem que nada está seguro para eles num país ocupado cuja resistência ultrapassou toda e qualquer previsão de agressores, de testemunhas ocidentais e, presumivelmente de agredidos.

Segundo notícias veiculadas pela CNN, apurou-se (?) que o camião bomba que explodiu pertenceria a um cidadão russo da cidade e Krasnodar. Se assim é, das duas uma: ou o camião foi armadilhado sem o proprietário saber, ou este teria plena consciência do que se passava. E nesse último caso, sabotagem, há ainda que averiguar se o indivíduo agora acusado é um opositor à guerra, um agente dos ucranianos ou até um ucraniano (como dezenas de milhares de outros) residente na Rússia.

De todo o modo, seja qual for a razão, a verdade é que a explosãoo se deu e, pelo que rapidamente se soube, dezenas de milhares de russos residentes ou turistas na Crimeia ficaram alarmados, esvaziaram os supermercados quando não tentaram sair depressa de uma cada vez mais possível zona de guerra.

Dê por onde der, para o Kremlin, isto é além de uma afronta  medonha, uma derrota tremenda, depois de um referendo fantoche e das sucessivas retiradas “estratégicas” que tem sido obrigados a fazer. E, até, depois da conferência pan-europeia que reuniu quarenta e quatro  países (isto é todos menos a Rússia e a Bielorrússia) europeus. Convenhamos que para festejar o aniversário de Putin, dificilmente se poderia ter arranjado melhor.  

 

estes dias que passam 743

d'oliveira, 04.10.22

A hora dos lobos

mcr, 4-10-22

 

“....Soit par issy, soit par Ivry

les loups ont envahi Paris...”

(R Vidalie/L Bessiéres interpr: Serge Reggiani)

 

 

Desconfio que uma parte dos meus leitores não tem ideia da belíssima canção de Regianni que serve de epígrafe para mais um par de linhas que nunca pensei escrever. 

Nem sequer sei se haverá assim tantos que se lembre do magnifico cantor (e actor) que foi Serge Reggiani.Todavia,sempre confiante na curiosidade humana que ainda é maior do que a dos gatos, atrevo-me a sugerir que usem desses meios modernos para ouvir um par de canções , muitas, de Reggiani. Ou comprem os cds bastam dois para se fazer ideia (e que bela ideia...) deste excepcional intérprete. As suas canções não ficam atrás de Brassens, Brel ou Ferré mesmo se Reggiani não fosse um autor cantor mas apenas um cantor Um belíssimo cantor!

E passemos às nossas encomendas que a tarde faz-se tardinha.

Éainda o Brasil, claro. E daí nem boas novas nem melhores mandados. O partido do actual presidente garantia para já a maioria no Congresso! E vai à frentena corrida a governadores estaduais nos mais importantes Estados. Um desastre, um cataclismo! Um naufrágio!

E começa a ser posta a hipótese de uma vitória nas presidenciais!... A maré está a encher e nada  nem ninguém se atreve a permitir um prognóstico seguro a favor de Lula.

Estão a cinco pontos de diferença quando tudo indicaria que seriam quinze ou mais!...

Há, claramente, uma dinâmica de vitória da Direita que pode causar profundos estragos. O “imbrochável” que a mim me cheira mais a ejaculador precoce, já ganhou no litoral que importa, nas câmaras, vai provavelmente averbar mais alguns governadores estaduais, só lhe falta o Palácio do Planalto. 

Lula vai ter dd dar (e muito!) à perna para quebrar este súbito e pestilencial vento da Direita mais reaccionária, dos Evangélicos, dos amantes da ordem e progresso, dos ressabiados que não esqueceram os anos “PT”.

E o PT que não se soube reformar, reestruturar, regressar a umas origens sãs e simples, tem, aqui, fortes culpas no cartório. 

A meu ver, Lula não era o candidato ideal, sobretudo pela idade, pelos problemas, pelas suspeitas que sobre ele, justa ou injustamente, pesam. A norma que prescreve não mais de dois mandatos (seguidos) tem várias e ponderosas razões de ser. E uma delas tem a ver com aidade do candidato e com o facto de durante bastante tempo ter ocupado o poder.

E notem que o caso brasileiro nem sequer é uma surpresa. A Suécia, noutra ponta do mundo, a Itáli ainda há dias, a forte escalada da Direita francesa há alguns meses podem enunciar que o tempo favorece os nacional-populismos e outros ismos ainda piores. O populismo mais dementado vem ocupando posições na América Latina. D Venezuela à Nicarágua sem esquecer a Colômbia, verifica-se que à Esquerda o populismo também vai ganhando terreno. 

Os desastres do socialismo mundial (sobretudo nas versões mais radicais) deixaram as Esquerdas moderadas desamparadas e o Centro inquieto e incpaz de se recentrar (passe o eufemismo que é mais verdadeiro do que se poderá pensar). 

A Esquerda brasileira e o centro-esquerda partiram para a batalha em ordem dispersa . Não é de agora tal desencontro mas os anos “pt”  e a própria intrusão desse novo partido no complexo xadrez político brasileiro  acabaram com um modelo mas não foram capazes de impor um novo e melhor. 

Agora, entrou em cena um rufião  e à falta de modelos mais credíveis, eis que o povo, democraticamente, em eleições que todos afirmam terem sido limpas, oferece na primeira volta um pancadão de votos à raposa que entrou ruidosamente na capoeira.

As parcas semanas que restam para o dia da 2ª volta serão suficientes para criar um clima de confiança e um novo e inspirador alento a um aclamado vencedor à primeira ou a onda, quase um tsunami, da Direita unida e esperançada vai conseguir reeleger um Presidente que, com um Congresso da mesma cor poderá fazer História. 

Mesmo sem ser crente, vou acender uma velinha Entre um candidto mau e outro pior, não há dúvidas: voto no primeiro, nem que isso signifique tomar um purgante durante uma inteira semana, aliás quatro!    

 

(o jornal Público de hoje, trás um mapa eleitoral a cores que merece ser visto e revisto. E estudado...) 

estes dis que passam 589

d'oliveira, 01.10.21

Fugir é o melhor remédio

mcr, 1-10-21

 

 

Vamos imitar aquele pitoresco e brilhante Secretário de Estado e dar uma de politicamente incorrecto.

Eu também me poria ao fresco, “abriria”, “lancetaria” (termo usado na velha república dos 1000-y-onarius nos anos 60 , época em que a malta de África, movida pela ideia de independência das colónias, desandava para outras terras mais hospitaleiras) se estivesse na iminência de ”ir dentro”.

Explicando-me melhor: quando alguns amigos meus me disseram que eu deveria escrever as minhas memórias (como se elas valessem a pena!...) eu lá me desculpava com a preguiça com que Nosso Senhor, a Natureza, ou a soma das minhas fraquezas, me brindou e atirava-lhes para cima com o encargo de recolherem estas trivialidades que vou dando à estampa internética e depois lhes limparem as adiposidades, as excrescências, os narizes de cera. Se algo sobrasse poderiam publicá-las a expensas deles. Só os obrigava a um título que me parece óbvio e adequado: “A pisão é uma chatice e ainda por cima come-se mal”

Trata-se de um título longo (mas sugestivo, parece-me) e é fruto de uma experiência diversificada, colhida nos anos 60  e 70 durante o Estado Novo. Conheci alguns calabouços, desde Caxias ao Tribunal de Coimbra (onde estagiei durante alguns meses, à conta da crise de 69 e dos extremosos cuidados da Polícia Judiciária). A estadia mais confortável, se de conforto se pode falar, foi a última em Caxias (quartinho pequeno com “vistas” para a auto-estrada e rio, águas correntes quentes e frias e o inolvidável espectáculo dominical do içar da bandeira aos domingos (um pelotão de patuscos guardas prisionais que não acertavam com as ordens, um cão que uivava zangado com a desafinação do clarim, a bandeira que ou subia depressa  ou devagar chegando mesmo ao ponto de, por mera perrice, não subir, enfim um momento único onde a glória da pátria, a situação d preso, o cinzentismo nacional e o ridículo se conjugam para me fortalecer na fé contra a ditadura). 

Portanto, um saber de experiência feito!

Quando, mais tarde, mas ainda antes do 25A, me dediquei a evadir fugitivos da pátria madrasta (anos 72-74) era ainda a velha ojeriza ao sistema prisional que me animava. Exerci essa tarefa pro bono como, aliás, também pro bono, advogava e defendia presos políticos, mormente estudantada apanhada nas guerrilhas estudantis (até obtive, com mais três colegas, e no Tribunal de Polícia, uma absolvição de uns rapazolas que tinham cometido vários desacatos numa faculdade, invadindo salas de aula, resistido a contínuos e beleguins, convidando a rapaziada menos ousada a fazer greve. Um êxito único e irrepetível...)

Tudo isto para afirmar, preto no branco, que o sr. Rendeiro, ex-banqueiro, condenado, com transito em julgado, a uns anos de cadeia e candidato a mais duas condenações do mesmo teor e espécie, daria provas de absoluta estupidez se se deixasse engaiolar. Sobretudo quando, como é o caso, há de ter fartos cabedais passados aos direitos, em paraísos fiscais.

Ir para a “choldra” em vez de gozar o tempo de vida que lhe falta numa praia de águas coralinas, um “daiquiri” bem fresquinho, alguma companhia feminina e local, nova e tenra de preferência, não era opção. Era incompetência catatónica, ortorrômbica a roçar o genial da burrice. Ora um cavalheiro que aliviou uma instituição e vários particulares de umas dezenas de milhões pode ser um bandido, um gatuno, um escroque, um gangster, um cabrão mas estúpido seguramente que não será. 

Convenhamos que o Tribunal, os tribunais e toda a restante e perra engrenagem que em Portugal se toma por Justiça, também fez o que pode. 

Parece, ouvi na rádio enquanto me barbeava que uma meritíssima Ju´za, terá dito que nada no passado do condenado evadido fazia crer que ele se atrevesse a furtar-se à justa punição. Sem ofensa, permito-me declarar que isso, essa afirmação judicial, a ser verdadeira é de uma candura descomunal e revela bem que quem anda pelos pretórios desconhece as pulsões da vida real.

Ei, excelentíssima e meritíssima, se soubera que iria ser preso, mesmo naqueles tempos, de pouca pecúnia e de dificuldades sem fim, teria dado “às de Vila Diogo”. De resto, isso mesmo fiz, durante o longo e glorioso Verão de 69, escapando sem demasiados trabalhos e canseiras, a uma matilha de agentes da Judite que ardorosamente me procuravam pelas praias do país (eu e o João Bilhau e o Orlando Leonardo, cada um por si e todo pelo fito de não perderem a praia, os banhos de mar, as férias merecidas depois das fadigas da greve em que nos empenháramos).

Poderia, mesmo, atrever-me a sugerir que, mesmo no caso de futuros condenados de boa fé, talvez tivesse valido a pena, caçar-lhes o passaporte. Isto não os impediria de, pela fresca passar a fronteira e outras, comprar um documento mais falso do que Judas e retomar a peregrinação pelo vasto mundo até encontrar aconchego num local discreto onde a mão incerta da Justiça (que ainda por cima é cega e eventualmente maneta) não o pilhasse de calças na mão.

Parece que o sr. Rendeiro, num auge de boa vontade terá informado o Tribunal de que não tencionava regressar tão cedo à pátria que o injustiçava. Eu, encontrei uma vez este cavalheiro, na altura presidente de um banco e se não erro de uma fundação (Elypse”?)

 Uma amiga minha e artista de mão cheia fizera um filme sobre as aventuras fronteiriças a que acima me refiro. Aí, o casal Laurinda e Manuel Simas Santos, o o Zé Teixeira Gomes, e este que se subscreve  lá diziam de sua justiça sobre o tema evasão de desertores, refractários, oposicionistas vários e restantes malfeitores segundo a polícia. A coisa ganhou um belo prémio, a realizadora, Filipa César,  continua de vento em popa a mostrar o que vale. O filminho chamava-se “Le passeur”, já agora.

No dia da vernissage, lá jantei com um punhado de críticos, gente vária da fundação e o dr. Rendeiro que era quem pagava. Trocámos breve palavras e cada um foi à sua vida. Pelos vistos a dele, era, nessa época, bem mais aventurosa do que a minha, cavalheiro já na reforma, descansando dos trabalhos levados a cabo numa outra e mais antiga vida. 

Duvido que o tenhamos inspirado, porquanto o filme, mesmo com o pano de fundo  da passagem do rio Minho, abundava sobretudo no que nós pensávamos sobre vários e menos excitantes assuntos, situações e visõs do mundo.

Todavia, se o agora prófugo lusitano (apanhem lá esta ó ignorantes da Eneida!) entender que, de algum modo, o influenciei, cá espero uma viagem paga até alguma ilha perdida e coralina, cheia de jovens e entusiásticas musas de Gauguin a dançarem o hulha com empenho, convicção e glmour. 

“A boi velho erva tenra” e eu, mesmo quase desdentado faria os possíveis e os impossíveis para não desfear a fama da pátria imortal dos egrégios avós.    

o título inspira-se numa secção de uma antiga revista, as "Selecções do Reader's Digest" (rir é o melhor remédio) e, aqui para nós, esta penosa história dá uma certa vontade de rir. Para não chorar! 

     

 

estes dias que passam 535

d'oliveira, 07.02.21

caldasxavier-20-de-marco-rebeliao-de-angola.jpg

Os dias da peste 172

15% (e uma referencia a uma revolta esquecida)

mcr, 7 de Fevereiro

 

 

Já antes ouvira (ou lera) esta afirmação que ontem, novamente, e repetidamente, apanhei num noticiário televisivo: 15% dos doentes covid com mais de 75 anos morrem. Assim, à bruta: quinze por ccnto.

Nos outros grupos etários a coisa anda pelos dois ou reês por cento.

A informação não é recente bem pelo contrário. Tem meses e terá sido verificada e confirmada no Verão passado.

Aliás, terá sido essa a razão para em quase toda a Europa se ter fixado a barreira dos 75/80 anos para incluir os velhos no primeiro grupo de pessoas a serem vacinadas. De resto, isso mesmo foi exaustivamente visto nas televisões inglesa ou italiana entre outras.

E por cá? Pois por cá, mesmo tendo-se assistido à mortandade em lares, a famosa task force do sr Ramos pretendeu pôr a velharia no terceiro grupo. Foi preciso a gritaria feral e, sobretudo, as intervenções de Marcelo e Costa ( um deles até falou em “tolice”!) para adiantar os macróbios para o 2º grupo e, no caso de terem passado a barreira dos 80, para estes meses.

Este é o rasto, do cavalheiro que tem vivido a saltar de cadeira em cadeira sempre que isso signifique poder. (aliás, e já agora: se a criatura era assim tão excelente, porque é que tendo sido secretário de Estado da actual Ministra, deixou de o ser?).

Portanto, e deixando alguns pormenores demasiadamente nauseabundos, pode dizer-se que a caça aos idosos está aberta: claro que não é exactamente como na Torre Bela mas é igualmente feia.

Andava eu na escola primária de Buarcos e no livro de leitura da quarta classe figurava a história de um homem que conduz o pai para o monte onde o deixará para morrer. Quando lhe entregou o lençol que o protegeria dos frios da noite, o velho disse-lhe que o rasgasse ao meio para mais tarde o filho o usar quando fosse a sua vez de ser abandonado. Aturdido o filho, agarrou no pai e no lençol e voltaram para casa juntos.

Agora já não se levam os velhos para o monte. Deixam-nos nos hospitais! Sobretudo, em alturas de férias ou de épocas festivas. Largam-nos lá e ala que se faz tarde.

Está a acontecer neste momento, segundo a televisão. Parece que alguns familiares alegam que a casa não tem condições para um convalescente. Isto quando se dignam responder aos instantes pedidos do hospital.

O Estado está desarmado perante esta miserável situação. Desconhecem-se propostas claras para ela. De todo o modo, muitos destes “idosos” são doentes pelo que o melhor é não os deixaram na mão dos extremosos familiares e procurar criar estruturas de apoio (cuidados continuados?) que respondam a este estado infame de abandono de pessoas.

Ao ler isto haverá, decerto, alguém que pensará que estou a defender uma causa própria. Que só agora, que estou numa idade avançada (há quem lhe chame bonita mas não partilho essa ideia) é que me deu para mais esta cruzada.

Lamento desapontar quem assim me interpreta mas não é o caso. Pertenço a uma família que, regra geral, sempre teve pessoas muito avançadas em anos por perto. Mesmo agora tenho ainda felizmente vivos quatro tias, a minha mãe e um tio. Tudo nos noventas! A minha avó morreu aos 97 e mae dela que foi vítima de acidente mortal morreu quando eu tinha vinte e cinco anos. E se a memória não m e falha a trisavó morreu quando eu tinha oito anos. É verdade que não conheci a última e só uma vez contactei a penúltima mas todos os restantes e alguns tios recentemente falecidos foram pessoas que contactei constantemente. O meu avô paterno morreu, em casa de meus pais, tinha eu quarenta anos. O pobre senhor tinha um Parkinson tremendo que o horrorizava e o fazia passar um mau bocado. Mas morreu serenamente, de noite, rodeado de cuidados e carinho familiares.

Metade dos meus parceiros de bridge tinham mais do dobro da minha idade e alguns duraram mais do que se esperava. Nem a doença os afastava da mesa de jogo mesmo que tivessem de ser ajudados. Habituei-me a essas presenças, desde cedo e descobri nesses velhos tesouros de toda a ordem. Ainda hoje me arrependo de não os ter chateado mais para poder saber mais de quase tudo, desde a história da colonização do sul de Angola até à história do PC e da oposição portuguesa desde o tempo do salazarismo. Agora só a minha mãe resta para contar coisas da vida familiar e de sucedidos há mais de oitenta anos. Dentre essas histórias recordo uma a da revolta do coronel Genipro de Almeida, chefe do Estado Maior de Angola contra o governador Filomeno da Câmara (um dos da revolta dos Fifis) que se escafedera de Luanda para Benguela (ou Lobito) para o Lobito deixando nas mãos do tenente Alfredo Morais Sarmento documentos em branco mas assinados para proceder a prisões de opositores (entre eles, possivelmente, como assegura Caldas Xavier em “o 20 de Março ou A revolta de Angola”, Luanda 1930, de kuribekas ou seja filiados na maçonaria). A fuga do Governador (alto comissário) e a entrega ilegal de plenos poderes ao azougado Morais Sarmento, levaram o coronel Genipro a fomentar um golpe de Estado colonial levantando todas as guarnições militares do norte da colónia. Ora a minha mãe assistiu à partida das tropas comandadas pelo meu avô em direcção a Luanda. Quando me contou esta aventura político-militar resolvi pesquizar (daí a razão da compra do livro de Caldas Xavier) e descobri que ela tinha uma memória prodigiosa desses dias que aliás terminaram com a morte de Morais Sarmento e a retirada para Portugal de Filomeno da Câmara. O vencedor Genipro não teve grande sorte pois também terminou aí a sua carreira politico-militar tendo regressado à “Metrópole” e provavelmente passado à reserva. Salazar não estimava rebeliões de qualquer espécie. Quando ouvi esta história desesperei-me por não ter interrogado melhor a minha avó que sabia tudo sobre estas querelas.

Tudo isto para explicar o meu interesse na velhada (de que já vou fazendo parte) e de como muitos deles são testemunhas vivas de um mundo desaparecido ou a desaparecer. Boa parte das toliçadas agora perpetradas por diferentes políticos seriam evitadas se houvesse alguém que lhes lembrasse exemplos passados mas não tão longínquos.

Entretanto, e agora, são os velhos quem mais pena e que, curiosamente ou não, quem percebeu melhor a pandemia e quem se está a defender melhor nestas segunda e terceira vagas. Perceberam que com ou sem Ramos eram eles que tinham de se proteger à falta de protecção devida mas incerta dos que detém o poder de vacinar ou não os mais frágeis.

*ma vinheta: capa do çovro de Caldas Xavier citado no texto. eu vem queria pôe uma imagem da revolta mas devo ser um nabo nisto de andar à pesca na internet .

PS o leitor que me lê pela manhã pode ter perdido a serie "o jovem montalbano" qie passa hoje, domingo , na 2 pelas 18.15. 

estes dias que passam 382

d'oliveira, 03.05.20

IMG_0316.jpg

Diário das semanas da peste

Jornada quadragésima sexta

Projectos abandonados

mcr, 3 de Maio

 

 

Em princípios de Abril deveria ter ido passar uns dias a Paris. Durante anos, foi um dos meus melhores hábitos. Afreguesei-me num pequeno hotel em Saint Germain des Prés que praticava preços módicos e condizentes com a minha bolsa. Eu, por mim, durmo em qualquer sítio mas como ia acompanhado, tinha que encontrar algo que não escandalizasse a minha mais que tudo. Melhor dizendo, a gerência anterior e depois a actual. Então esta, a CG, é um perigo pois tem a mania de lavar o que está lavado.

De todo o modo, quando o anterior hotel fechou para se transformar num quatro estrelas, lembrei-me de regressar ao Saint Pierre, um estabelecimento na r. de l’École de Medicine, mesmo em frente à sede de um dos clubes revolucionários dos finais de 1700, o dos cordeliers que foi dos mais intransigentes. Acabou tudo guilhotinado, excepção feita a Marat que piedosa Charlotte Corday mandou ad patres quando o referido cavalheiro a recebeu na sua famosa banheira. Ignoro se esta entrevista tinha da parte do ilustre cidadão alguma finalidade concupiscente (não é todos os dias que se recebe uma donzela todo nu dentro de uma banheira!...) mas a intemerata tinha apenas em mente cravar-lhe um facalhão no coração. E não se arrependeu, antes confessou placidamente o crime. Ela e o seu advogado recusaram a oferta de Fouquier Tinville, o acusador público, de a apresentar como louca a troca de a libertarem.

Desculpem a digressão histórica mas a revolução francesa não é só Saint Just, Danton ou Robespierre e Marat. É também a de muitos opositores e outros tantos desiludidos que acabaram também eles no patíbulo.

Prtanto, o pequeno hotel Saint Pierre, frequentado pelos meus sogros e, pelos vistos, por Mário Soares durante o seu exílio francês. Está situado nas traseiras de uma imensa livraria a Gibert onde, ao longo de cinquenta anos terei gasto uma pequena fortuna. Eu sou, ou tornei-me, muito “rive gauche” e naquelas ruas entre a Sorbonne, o Luxemburgo, os cais e Montparnasse, conheço cada casa, cada esquina, cada café e todas, todas sem excepção, as livrarias (as desaparecidas e as que ainda se aguentam).

Como calculam, não fui. Em princípios de Junho queria fazer uma surpresa à CG: Florença que ela não conhece com mais umas voltas por Piza, Arezzo, Siena. Também já posso pôr de parte esses projecto pois ela anda aterrada com o covid e, quase certamente, também não haverá condições para esta viagem. Fic para o ano se eu lá chegar e se... Nisto, os “se” são tantos que nem vale a pena gastar muito latim com a hipótese.

Finalmente, tinha também um terceiro projecto que era levar a CG, a Ana e o Nuno e o Nuno Maria, minha perdição, para um hotel muito simpático na costa galega. Suites excelentes amplas com uma kitchinette optima para o chá da tarde, piscina, praia privativa, um bom serviço de restaurante. Em alterntiva, o mesmo hotel em Ofir onde estivemos no ano passado (a Ana tem um forte receio de levar o Nuno Maria para muito longe da pediatra...).

Também esta ideia está em forte, fortíssimo, risco de naufragar. Ou seja, tudo parece resumir-se a um velho slogan dos anos 69/76: Calda, calda, l’estate sera calda! Por acaso era o autunno (outono) mas tanto faz.

 

 

 

Ao dizer isto, tenho plena consciência da enorme distância que vai dos meus privilégios até à sorte de dezenas, centenas de milhares de portugueses para os quais o futuro nem projectos de qualquer natureza alberga. A procissão do desastre ainda vai no adro, infelizmente. Mesmo que o “desconfinamento” resulte, vamos ter pela frente muitos meses de incerteza, angústia, desemprego, quebra de produção, necessidades de toda a espécie. Isto sem falar na hipotética segunda vaga, na espera ansiosa por uma vacina, na difícil reversão dos hospitais públicos que, para combaterem o covid, deixaram tudo o resto para trás.

Agora, todos falam no êxito do SNS mas convirá lembrar que não foi exactamente o sistema que venceu mas sim e com que enorme esforço e desproporcionado sacrifício, o labor devotado, generoso e heroico de médicos, enfermeiros e outros trabalhadores da saúde. Os problemas estruturais são exactamente os mesmos de há quatro meses a começar pela falta de profissionais (gritante e infame, no caso dos enfermeiros que em Inglaterra mostram o que valem) e que, cá, foram vítimas do mais repugnante processo de intenções montado pelo sistema.

Às mortes do covid, irão juntar-se todas as outras, silenciadas, de gente que esperou demasiado tempo por consultas, tratamentos, cirurgias, diagnósticos.

Ouvir, como ouvi, nauseado, a entrevista da Ministra da Saúde, um notório exemplo do princípio de Peter, do solilóquio, da arte de ladear as perguntas e da “cassete”, foi um esforço e uma provação que me hão de ser descontados quando prestar contas.

A esta senhora e à colega da Cultura terá de se juntar uma terceira personagem que rege a Segurança Social. A falha dramática nos pagamentos às vítimas do lay off foi desembaraçadamente atirada para o lado como se esse dinheiro não fizesse falta a dezenas de milhares de pessoas. Atirar para as empresas a obrigatoriedade de adiantar as importâncias devidas aos trabalhadores é desconhecer a realidade do frágil tecido económico. Tanto mais que, numa gigantesca percentagem, se trata de micro, pequenas e médias empresas. Lojas de rua, livrarias, barbeiros, cafés, restaurantes, alojamento local, prestadores de vários serviços com porta aberta, todos estão numa situação desesperada. E muitos, provavelmente nem poderão reabrir...

A vida dita cultural está no fundo do abismo. As livrarias não vendem, os editores não editam, os discos não se produzem, os concertos ainda menos, os trabalhadores invisíveis pararam, o post palco parou, as galerias não vendem. São apenas alguns milhares mas todos eles trabalhavam a recibo verde, pelo que estão desamparados. Desamparados e sem dinheiro.

Nessum dorma!

A procissão ainda vai no adro. Até um optimista como eu, sabe, tem de saber, que “desconfinar” vai demorar mais tempo do que fechar tudo e todos a sete chaves. É que agora há o medo legítimo de pôr o pé na rua, a ideia de que, depois de maus dias, piores poderão vir. E nem o sr. Primeiro Ministro, o “optimista irritante” se coibiu de anunciar (e bem!) que estamos a pisar gelo fino, muito fino.

Será que alguém julga que o turismo, esse maná que caiu estrondosamente na cabeça de tantos, vai num ápice regressar em força já no Verão? Alguém recorda, os centos de brasileiros que se foram apinhando no aeroporto de Lisboa, desempregados, desesperados a caminho de um possível suicídio que é o regresso ao país desse bolsonaro, um pateta ignorante, estúpido e perigoso?

O Banco Alimentar avisa que os pedidos de ajuda dispararam para números assustadores. Ainda por cima não pode fazer a sua habitual recolha de donativos e não são os contribuintes como eu, que querem ajudar, que poderão substituir a generosidade anónima de uma multidão que não vai ao supermercado senão uma vez por semana. E que faz contas à vida. Que não quer dar hoje o que lhe pode faltar amanhã.

Tenho tentado, nestes escritos, dar um pouco de ânimo aos meus leitores, muitos ou poucos. Mas, uma vez sem exemplo, vejo-me obrigado, tenho o famoso “dever cívico” de afirmar que o forno não está para bolos, como dizem os do outro lado da fronteira. E contar com a “Europa” por muito que eu seja pró europeu, é, para já contar com sapatos de defunto. Claro que um plano Marshall seria maravilhoso mas quem fala nele não sabe como foi, não percebe em que condições foi lançado, esquece a guerra fria e, mais importante, o facto de haver um país riquíssimo que poderia dar-se ao luxo de ser generoso, de dar para poder mais tarde receber, de ganhar terreno aos soviéticos e satélites forçados e, cortar o caminho às quintas colunas políticas e sindicais que em França, na Itália, nos países ocidentais industrializados mas arrasados pela guerra, tentaram sem êxito adubar o terreno para os amanhãs que cantam.

E isso, esse combate mais duro, só terminou em 1949, quando Stalin deu por terminado o bloqueio de Berlin. A guerra fria que estava a aquecer voltou a ser fria depois.

É cá que primeiro tem de ser encontrada uma solução que convença os países europeus ricos a abrir os cordões à bolsa. E não vale a pena jurar que a austeridade não voltará. Vai voltar obviamente. Resta saber em que formas. Mas voltará. Sem apelo nem agravo.

Amanhã é um novo dia. Que seja bom, eis o meu voto. Que seja bom para os que voltam a trabalhar. Se for bom para eles será bom para mim. E sobretudo que não me venham chatear se eu sair à rua. Sairei com peso e medida que é esse o meu direito. O “dever cívico” é apenas um conselho e será bom que os agentes da autoridade saibam isso.

 

Duas observações: não se entende a autorização de fazer surf quando se proíbe a de fazer natação

Se se percebe que os cafés só abram na segunda fase entende-se mal a não autorização de abertura das esplanadas onde o distanciamento social é facilmente factível. E também pode ser verificado o tempo de estadia dos clientes. Pelo menos para um café mesmo em copo de plástico... (declaração de interesses: sou louco por um café feito num café, as cápsulas são uma tristeza.)

 

*a vinheta: “alminhas”, uma peça do famoso artista de Barcelos Mistério. Adquirida no fim dos anos 70. Dimensões: 35x23x5, cruz 10cm

 

 

 

 

 

estes dias que passam 330

d'oliveira, 27.02.20

Unknown.jpeg

Pedro Baptista Joaquim Pina Moura

(uma geração que desaparece)

We few, we happy few band of brothersShakespeare, “Henry V”

mcr (Fevereiro 2020)

 

Os leitores que me desculpem. E duplamente. Uso o masculino apenas por economia e não por não prezar as leitoras, bem pelo contrário. De facto, estou farto de ceder ao politicamente correcto que geralmente não passa de prova de tolice.

Depois, por falar em geração, a propósito do Joaquim Pu+ina Moura e do Pedro Baptista. É que, de facto, eles, com tantos outros já desaparecidos e com alguns que ainda andam por aí, são claros exemplos de uma geração bem minoritária que .se bateu corajosamente contra o Estado Novo.

Agora, anda por aí muito boa gente a presumir de “esquerda” e a fanforronar sobre ideias “fraturantes”. Há mesmo uma compita para se ver quem é que fratura mais e mais depressa. Lamentavelmente, parecem desconhecer que o que se arroja pela janela entra, logo seguir e a correr muito, pela porta. A História, sempre essa maçada, está carregada de exemplos de pequenos, pequeníssimos robespierres de pacotilha que uivam por um eventual “terror” e se afogam numa pocinha de água da chuva...

Não é o caso dos dois camaradas que acabo de perder mesmo se o termo camarada, num sentido estricto e historicamente desaparecido seja um exagero. Nos tempos obscuros em que que vivemos e lutámos, havia uma boa dúzia de pequenos grupos que identificavam os seus escassos militantes com  a anteposição da palavra “camarada”. . Isso e a “Internacional” cantada a plenos pulmões ainda que fragmentariamente, identificavam algo que em seu tempo se chamou Esquerda e que fazia pender sobre a cabeça dos que dela se reivindicavam uma boa dose de riscos todos penosos. A coisa ia desde os espancamentos nas manifestações até à prisão e depois à proibição de empregos públicos. E tudo isso, nnuma desoladora solidão pobremente partilhada. No Portugal desses anos, e agora refiro-me apenas aos “sessenta”, a rebeldia tinha um preço que muito poucos estavam dispostos a pagar.

O “povo estava sereno”, como mais tarde afirmaria Pinheiro de Azevedo, o medo guardava a vinha, a bufaria imperava e pouco ou nada acontecia.

Durante uma boa década, nem a guerra colonial, nem a sangria da emigração económica, perturbaram significativamente algum, fraco mas real, desenvolvimento ou o crescimento do PIB.

Portugal, “orgulhosamente só”, aguentava-se graças às remessas dos emigrantes, ao crescimento do turismo e da economia interna, o mercado do trabalho ia-se tornando mais feminino (o esforço de guerra mantinha longe cerca de duzentos mil homens) e até um proto “Estado Social” ia emergindo.

Só uns milhares de “díscolos”, perturbavam a harmonia do “país triste” e ensimesmado. Para esses a polícia usava a mão dura enquanto para o resto bastaram os famosos “safanões dados a tempo”.

Joaquim Pina Moura, militante do PCP desde muito novo, e Pedro Baptista, pertencente à segunda geração maoísta faziam parte do “movimento” estudantil.

Conheci-os, se bem me recordo, entre 68 e 69, entre a crise de Coimbra e o Congresso Republicano de Aveiro. Na altura não me atrevo a dizer que estávamos próximos porque não estávamos. O PCP apelidava todos os que não comungavam do seu ideário fortemente pro-soviético, de “esquerdelhos” e o resto da malta chamava aos do PC, “revisas”, "social-fascistas" e outros mimos que, aliás eram tradicionais na conturbada história do socialismo europeu desde quase a sua fundação.

E essa História estava presente em tudo, basta lembrar os nomes dos jornais partidários, desde o “Avante” (do russo Vperiod, órgão central da fracção bolchevique sediada na Suiça, Genebra) ao “Grito do Povo”, cuja primeira versão apareceu durante a Comuna sob a batuta de Jules Vallés – "Le cri du peuple" – e depois corporizou um infame jornal colaboracionista de Jacques Doriot. Na Esquerda maoísta apareceu durante o PREC um jornal, “A Verdade”, tradução literal do russo “Pravda” o que não deixa de ser irónico dado este ser o principal órgão do poder soviético que os da “Verdade” portuguesa detestavam...

E por aí fora...

De todo o modo, estando ou não de acordo, é este punhado de jovens quem durante aquele período (1962-1974) tenta, com grande risco e duras consequências, profissionais e pessoais, combater o poder instituído e sacudir o conformismo da sociedade portuguesa. Não foi o único bastião resistente mas foi dos mais generosos e influenciou decisivamente a juventude portuguesa mormente a universitária e boa parte daquela que participou na guerra colonial incluindo os que a recusaram desertando ou tornando-se refractários. Fiz parte desta última frente animando com três amigos uma rede de passagem de fronteira que funcionou muito bem graças ao facto de sermos apenas quatro e de tomarmos todas as precauções e cuidados que essa tarefa exigia.

E não foi pequena façanha pois a juventude de muitos era má conselheira e permitia largos descuidos e riscos desnecessários que muitas vezes tiveram os resultados esperados e funestos.

A minha relação com ambos foi diferente. Com Joaquim Pina Moura só privei mais tarde por altura dos “Estados Gerais” de Guterres já ele teria saído do PC.

Com o Pedro Baptista tive mais relações também elas quase sempre posteriores à sua saída da OCMLP. Em boa verdade, fui advogado de muitos militantes estudantis de "O Grito do Povo". Com os “Estados Gerais” tornamo-nos bastante mais próximos e, posteriormente, ao longo de todos estes anos, fomo-nos encontrando esporadicamente e tendo um bom número de conversas que pouco a pouco foram derivando para o campo da cultura, sobretudo da literatura. O Pedro começou a escrever e eu fui seu leitor sobretudo de “Sporá”. Não o acompanhei nos seus delírios regionalistas e muito menos no seu “portismo” a outrance mas admirei-lhe sempre o entusiasmo e a entrega que punha em todas as causas que abraçava.

Ambos são excelentes testemunhos dos humores do século e dos azares da História. E testemunhas, também pois viveram por dentro muitas das convulsões do último e mais exacerbado “socialismo radical”. Divergi deles desde cedo, a começar pela questão checa até ao culto de Stalin que estava “vivo no nosso (deles) coração”. Também nunca vi na URSS o sal e o sol da terra. O fim pouco glorioso da União Soviética, o desmoronar da “cortina de ferro”, a abrupta queda do muro de Berlim, o desastre absoluto da “Revolução Cultural” a patética gesticulação com o “livrinho vermelho”, um aberrante conjunto de máximas do venerado “Grande Timoneiro” que seria ridícula se não tivesse sido dramática e tremendamente mortífera, nunca me apanharam a jeito e muito menos me comoveram ou entristeceram. Às vezes (poucas vezes) a História está do nosso lado, do lado da liberdade.

Em boa verdade, qualquer deles percebeu a tempo a fundura do atoleiro moral, ético e político para que caminhavam e arrepiaram com coragem (e eventual angústia) o seu caminho. Saíram do armário ideológico e foram à sua vida. À vida. Simplesmente.

Cada vez mais me vou sentindo um sobrevivente tanto mais que era mais velho do que eles uma boa meia dúzia de anos. E cada um que morre é menos um testemunho, visto que, até à data, poucas são as “memórias” deixadas por escrito. Pior: algumas das raras publicadas não passam de desculpas de mau pagador por ter havido comportamentos menos gloriosos nas enxovias da polícia. Já, e há muito tempo, me referi aqui a esses tema a que não quero voltar por demasiado nauseabundo. Na “hora de verdade” e perante a sombria perspectiva dos interrogatórios policiais, houve quem não se tivesse comportado com a mais elementar decência. Nada tenho contra aqueles e aquelas que confessaram os seus “crimes” mas não suporto quem, além disso, levasse a falta de vergonha até à denúncia de companheiros e amigos. Isto para não falar de criaturas que não só diziam tudo e mais alguma coisa mas inventavam ainda mais crimes atribuídos a outrem. Não faz muito tempo, narrei aqui mesmo, a bizarra denúncia da minha presença num encontro conspirativo em Cantanhede, terra que de todo em todo desconheço, onde eu me teria gabado de bombista, coisa que sempre detestei e sempre condenei. A história viria de uma tal “Catarina” pseudónimo de uma “bufa” da pide. Pelos vistos nem a polícia acreditou na alarve acusação mesmo se, apesar de tudo, isso conste de um dos meus catorze processos (aliás treze porquanto um deles dá-me como médico em África, pelo que deduzi sempre que se referia a meu pai que, embora solidário com os filhos, nunca partilhou as nossas convicções políticas. Os informadores e os agentes nem sempre eram suficientemente profissionais: num outro processo instruído no Porto, o agente aponta-me como elemento da corrente ”leninista-marxista” – sic! – com “grossa actividade política” não especificada! – sic novamente ...).

Verifico que falar destes dois antigos companheiros foi também falar de mim. Ao fim e ao cabo, cada um à sua maneira e na situação concreta em que viveu ou vive, foi um modesto actor que não limitou a ver a peça mas quis, mal ou bem, nela intervir. Citando Brecht, sempre direi:

“Vós que haveis de surgir das

cheias

em que nos afundámos

....

pensai em nós

com indulgência “

* a gravura é da série da crise académica de coimbra.Eles não eram de lá, não podiam estar lá mas foram solidários com tudo o que lá se passou. Isso me basta e, decerto também basta à malta coimbrã que naquela altura bem apreciou toda a solidariedade possível. E o Joaquim ou o Pedro estiveram sempre, sempre, solidários.

 

 

Estes dias que passam 329

d'oliveira, 18.07.19

images.jpeg

Também se morre no Verão

Ontem foi um dia nefasto. De uma só penada foram dois os desaparecimentos: Andrea Camilleri e Johnny Clegg.

Do primeiro já aqui falei várias vezes. Fundamentalmente, referi os seu romances policiis (série Montalbano, cerca de trinta títulos) mesmo se, para além desses e igualmente com grande mérito tenha publicado mais outras quarenta obras. Curiosamente, Camilleri foi um autor tardio, sobretudo no que se refere à novela policial, começada já depois dos setenta anos. E foram sobretudo esses romances os que o tornaram extremamente conhecido não só em Itália mas também no resto do mudo com particular incidência para a Europa onde está publicado quase na totalidade. Em Itália chegou a ter seis ou sete títulos na lista dos dez livros mais vendidos. Está traduzido em Portugal (uma meia dúzia de títulos, pelo menos) e toda a sua produção policial foi alvo de filmes produzidos pela RAI. Ainda há poucos meses, a RTP 2 passou durante semanas a grande maioria deles.

Camilleri faz decorrer a acção do “seu” Comissário Montalbano na pequena cidade de Vigata , na Sicília, sua ilha natal. Não é, todavia,a Máfia o alvo principal mesmo se esteja sempre presente. Na maior parte dos casos, os casos do comissário são os típicos de uma pequena cidade italiana a que não falta, aliás, a presença de “extra-comunitários” quer oriundos do Leste europeu quer do Magrebe. Como qualquer outro escritor siciliano (e eles são tantos e tão excelentes) Camilleri insiste –mesmo não carregando nas tintas – na singularidade insular, coisa aliás mais presente ainda nos romances não policiais. Terá sido essa exemplaridade que o tornou conhecido, respeitado e muito lido em toda a Itália. E no resto do mundo, pelos vistos tal a quantidade de edições em línguas estrangeiras.

De todo o modo, eis um autor a não perder. E para os mais afortunados vale a pena recomendar os filmes (conheço duas edições: a italiana e a espanhola. Autenticas pequenas pérolas de cerca de hora e meia. Ao que sei há pelo menos 18 já realizados.

 

O zulu branco.

Com 66 anos, eis que se despede Johnny Clegg, músico importantíssimo da África do Sul cuja história recente – desde os tempos do apartheid – ilustrou como poucos.

Clegg, branco foi um profundo conhecedor da cultura e sociedade zulus, aliás concluiu mesmo uma licenciatura em Antropologia sobre esses grande grupo (o maior na maioria negra) sul africano. Falava a língua com desenvoltura e os seus amigos consideravam-no um autentico mestre da dança tradicional zulu. Contra todas as proibições, desde muito jovem, começou a interessar-se pelo povo zulu de onde era originária a grande maioria dos trabalhadores negros emigrados em Joanesburgo. Foi com eles que primeiro aprendeu os conceitos básicos da grande tradição zulu e com eles começou a fazer música, misturando o rock e o pop à música tradicional africana. Cedo constituiu uma (proibidíssima) banda e cedo começou a publicar (algumas vezes em co-autoria) canções onde perpassavam a temível realidade sul africana, os medos e as esperanças da comunidade negra e de alguns brancos não conformes com o regime. Tal actividade não lhe poupou a prisão, obviamente. E o exílio, aliás. Começou por isso uma carreira internacional, sempre com uma banda mista e é autor de um dos grandes hinos anti- apartheid, “Asimbonanga” dedicado a Nelson Mandela. Curiosamente, durante um concerto já na “nova” África do Sul , o Presidente Mandela apareceu de improviso no palco de um dos seus concertos a dançar aquele hino. E a abraçar o músico branco que desafiara tudo e todos, dentro do próprio país ao criar uma banda (Juluka) bi-racial e ao cantar para todos os sul africanos sem excepção.

Músico talentoso, grande dançarino, o zulu branco provou, quase só, que a resistência dos brancos era possível como era possível uma nação arco-íris. Só isso já faz um grande homem.

Estes dias que passam 328

d'oliveira, 11.07.19

Unknown.jpeg

O cronista desconfiado

mcr 11.7.19

 

 

Nem sempre fui desconfiado, bem pelo contrário. Na minha meninice tardia (já lia livros se bem que em voz alta) a avó Aldina (a “Velha Senhora”, visitante antiga desta página) explicou-me o Natal. Não, o menino Jesus não vinha ver a árvore (naquele tempo o Pai Natal todo de vermelho via Coca-cola, ainda não era o intruso tremendo de hoje), era a família que presenteava a criançada que mal conseguia dormir de 24 para 25 (lá em casa era no próprio dia que estremunhados e ansiosos íamos, o meu irmão e eu, quase de madrugada, enfim pelo raiar das 8 da manhã, ver o que se passava junto dos nossos sapatinhos, à sombra da árvore.

Mais tarde, depois de acreditar ferreamente no que contavam Júlio Verne, Emílio Salgari e Edgar Rice Burroughs (o cavalheiro do Tarzan que li integralmente na colecção “Terramarear “ de origem brasileira e presente na Biblioteca Pública Fernandes Tomaz, na Figueira da Foz, tive que me render à evidência. Tudo aquilo provinha da imaginação formidável dos autores e, no caso de Burroughs, a África é bastante fantasiosa pois o autor nunca lá pôs o pé.

Já Verne é um estudioso, um leitor de mapas e revistas científicas e um formidável explorador de futuros prováveis a que, entretanto, consegue juntar num cenário de viagens pelos mais recônditos cantos do mundo, aventuras e heróis que as vivem vitoriosamente graças ao seu conhecimento científico. Salgari, marinheiro e viajante parte de princípios semelhantes e sobretudo de um apertado conhecimento de geografia para, também ele levar os seus heróis por mundos ainda mal descobertos, A Asia, as Américas o Extremo Oriente que os seus leitores iam conhecendo através de jornais e revistas de notável qualidade e extensamente ilustradas.

Tudo isto, toda esta digressão sobre os livros que povoaram a minha infância e primeira juventude, para explicar que sempre tentei perceber o mundo desconhecido pela leitura. Quando cheguei a África, à África verdadeira e não apenas às grandes cidades mas muito ao “mato” onde um branco era quase uma (nem sempre recomendável) novidade o choque foi notável. Aos quinze anos, mesmo sem o saber, já tinha uma obscura consciência dos males do colonialismo, mesmo se não fosse ainda capaz de objectivar claramente o sistema. Mas já sentia como injusto o “contrato”, as culturas obrigatórias (sobretudo o algodão) a injustiça do imposto em moeda no caso de populações onde ela não existia e onde a economia era de subsistência, a brutalidade boçal de muito colono e a inexplicável ausência de negros no sistema de ensino secundário. E não gostava de missionários. E achava lindíssimos os “manipansos” ou seja alguns objectos de arte africana que, sei lá porquê me pareciam extremamente expressivos. Ao invés, a maioria dos nossos conhecidos, mesmo dos interessados em “arte indígena” (!!!) adorava encomendar aos escultores makonde Nossas Senhoras, caravelas e peças para jogos de xadrez, tudo muito “africano” como se vê. Também havia encomendas de máscaras que, de modo algum, correspondiam às máscaras correntes nas culturas locais! Porém, isto era apesar de tudo um vago sinal de interesse – não vou ao exagero de falar em respeito- pelo outro, pelo negro (em português colonial pelo “indígena”). Desse curto período da minha irrequieta mocidade ( acrescentado a três outros - longos, longos- períodos de férias grandes quando já estava na universidade. Nasceu aí e continua em crescendo uma paixão por África, pelas civilizações ditas “primeiras”. Na minha caótica biblioteca jazem milhares de livros sobre África (história, arte, geografia, etnologia, dicionários e línguas além de, obviamente, tudo o que tenho apanhado sobre a “expansão colonial portuguesa” , termo propositadamente ambíguo como é sabido mas que dá imenso jeito nesta época de anti-colonialistas ignorantes e de saudosos do império igualmente néscios.

Neste capítulo incluo aquele vereador patarata que descobriu o mal absoluto no Jardim   da Praça do Império frente aos Jerónimos. Havia por lá uns canteiros representando os brasões das colónias. O pobre diabo nem hesitou: acabem-se os canteiros e assim purifica-se a história pátria! Queira ou não esta criatura, a História fica para além dele e o seu gesto tolo só a torna mais ininteligível. E mais boçalmente ideológica...

Vem tudo isto a propósito de um texto da srª doutora Fátima Bonifácio a quem a passagem acelerada dos anos terá toldado a agudeza. O texto, pobre dele, é ml amanhado, confuso, parte de pressupostos racistas , esquece que em Portugal foram assimilados e se perderam na voragem dos séculos muitas dezenas de milhares de negros trazidos como escravos. Esquece igualmente o que devemos a inúmeros “mestiços” (e só vou citar Almada Negreiros) sem falar na pujante presença de negros na cultura americana mormente na música e nas letras ou em França (também só cito Alexandre Dumas) para não falar de países onde a presença de intelectuais de “cor” (incluindo prémios Nobel) é corriqueira. Tudo sem “quotas”, notem bem.

Li hoje que um professor universitário de origem moçambicana mas residente em Portugal onde, aliás, exerce, entende a obrigatoriedade de quotas como um último e perigoso sinal de paternalismo racista branco. Não direi tanto mas temo bem que não esteja totalmente longe de alguma verdade.

O texto da senhora Bonifácio merece ter o mesmo destino que Camilo augurava a uma carta recebida: passar ao ventre da mãe terra pelo esófago da latrina!

Porem, a notícia, também de hoje, de um grupo de personalidades entendeu apresentar queixa crime contra a referida senhora. A notícia curta não explicita com clareza a base jurídica da queixa e sobretudo mesmo que seja aceite, não destrói a argumentaçãoo da autora. Apenas a transporta para o eventual paraíso dos acusados de delito de opinião. A opinião da historiadora deve ser combatida pelas opiniões dos queixosos. E espera-se que escrevam com mais clareza o que querem. E também apareceram no mesmo jornal onde o artigo saiu apelos a que se proibisse qualquer outra publicação de textos da referida autora. Há até uma senhora que o faz em nome da sua “assinatura” do jornal. Eu, que leio e pago o Publico desde o primeiro dia não me sinto defraudado. Como não me sinto atacado por tantos outros textos em que algum “ódio de classe” de duvidosa origem e de mais que duvidosos antecedentes, lá publicados. Bastaram-me os anos de leitor de jornais entre 1958 e 1974 onde a verdade era só uma e a censura se cevava à vontade nos textos vagamente discordantes. Fui alvo desse lápis azul muitas vezes (na Vértice, no Comércio do Funchal entre outras publicações) para concordar agora com qualquer espécie de censura.

O meu amigo Joaquim Namorado, que viveu e morreu comunista puro e duro, afiançava que estava disposto a colaborar num pasquim dos anos sessenta (o “Agora”) desde que o deixassem dizer o que queria. E remetia para os leitores o julgamento crítico do que defendia. Vivemos numa repelente época do politicamente correcto. Ainda há poucos meses, um grande e excelente jornal americano pedia desculpas por ter publicado uma caricatura do excelente António em que Trump e Netaniahu apareciam um de kipá e o outro à trela. E acabava com a publicação de caricaturas, cedendo assim aos lobbys mais assanhados de Israel e dos EUA.

Somos nós, o público, os leitores, os inconformados, quem perde. E a vitória dos fanáticos torna-se perigosamente mais viável. À falta de contraditório... À falta de opinião....

 

 

 

Estes dias que passam 388

d'oliveira, 22.02.19

images.jpeg

O Carnaval está próximo 2

mcr 22/2/19

 

Carlos, o bombo da festa

 

Não conheço o dr. Carlos Costa de sítio nenhum e é bem provável que nunca me venha a cruzar com ele. Dele apenas sei o que sabe qualquer cidadão que tenta estar informado. E que tenha acompanhado, desde há um par de anos, a sua trajectória como Governador do Banco de Portugal. Cabelos brancos, ar cordato, fala afável e segura, perfil discreto são bons argumentos mesmo que não sejam suficientes para definir um cargo que, por força de lei (e mais ainda depois das regras adoptadas pelo Banco Central Europeu –BCE-) tem de tutelar prudente mas firmemente o sistema bancário português.

CC começou já há bastante tempo por ser acusado de “não ver”, ou ver enviesadamente, o que se passava em certos bancos, nomeadamente o Espírito Santo.

A carreira deste banqueiro que passou pela CGD durante um curto período – e não o pior nem o mais descarado- começou a ser contestada depois de Passos Coelho lhe ter confirmado o mandato para onde fora indicado pelo sr. Sócrates. Ou seja, para certa gente, ele era bom durante o “socratismo” mas mau logo que o passismo despontou! Bizarrias.

Costa foi acusado de nada ter lobrigado no cafarnaum do BES. Tal e qual como Constâncio cuja miopia bancário-política foi idêntica. Só que Constâncio, além de ser socialista, foi para a Europa e Costa ficou por cá a ver o terramoto acontecer.

O segundo (nem falemos da mortal inimizade de Centeno) ataque (aliás pluripartidário) a CC consistiu em tentar embrulhá-lo em financiamentos medonhos da CGD a gente “acima de toda a suspeita”. Aliás, apenas a um, visto que o grosso dos desvarios criminosos ocorreu posteriormente com os resultados que se conhecem (se é que já conhecemos tudo!...). Costa teria estado numa reunião alargada (ora toma: eis que a CGD, tal qual o comité central do PC tem também “reuniões alargadas, provavelmente com os mesmíssimos efeitos de encenação vagamente teatral e realmente sem qualquer importância...) E que nessa reunião se teria atribuído a um empreendimento algarvio uma forte soma sem atender ao risco, às garantias e a tudo o resto. Na versão de Costa o que houve foi tão só uma reunião onde sem se conhecer destinatário, se enunciaram princípios que justamente previam a existência necessária de um sindicato bancário e o escrupuloso acatamento do parecer da comissão encarregada de avaliar o risco. Posteriormente, já sem Costa, na nova reunião mais estricta (ai não!) decidiu o financiamento.

Quando alguém é acusado de algo, compete ao acusador provar sem lugar a dúvidas a acusação. O acusado poderá depois defender-se. No caso de Costa, pelo que se vai sabendo, a versão dele parece ser a mais consistente enquanto a acusação não conseguiu até agora provar a sua participação na efectiva concessão desse mal paradíssimo crédito (lembremos que, na altura, era o dr. Constâncio o governador do BCP e o cuidadoso vigilante das tropelias bancárias...).

Bizarramente, o dr Costa também foi acusado de passar férias no mesmo empreendimento turístico. Dez anos mais tarde! Arre que demorou a cobrar algum hipotético favor. A isso, Costa responde afirmando ter pago totalmente a semana ali passada. Competiria aos acusadores provar que lá esteve à borla mas isso, a estes, terá parecido ser supérfluo!...

Quanto ao caso BES, a coisa parece também extraordinária. Passos Coelho, honra lhe seja, não quis acudir ao senhor Espírito Santo. Todavia, é Costa quem merece os ataques desesperaos do senhor Espírito Santo que, pelos vistos, está “bem” acompanhado pela gente que subitamente (terá sobre ela, numa surpreendente noite de nevoeiro, descido o Espírito Santo à semelhança daquela outra vez há dois mil e tal anos?).

Entretanto Costa, António, parece recusar-se a alinhar n companha contra o actual Governador. Primeiro é quase impossível correr com o homem; depois, este está a um ano de terminar o seu mandato; finalmente, as regras do BCE são, em caos deste tipo, claras. Todavia, fundamentalmente, enquanto Carlos vai apanhando de todos os lados, António põe o lombo a salvo e tenta passar por entre as gotas da chuva.

A riqueza da nação

No ano de 2018 houve 29.500 famílias a pedir a intervenção da Deco por não terem possibilidades de pagar as dívidas contraídas.

Estas, em média, atingem os 924 euros (contra 850 no ano anterior)

A média de créditos concedidos anda pelos 62.770 euros (contra 60.500 em 2017)

A taxa de esforço média das famílias que pedem ajuda está nos 80% quando no máximo não deveria ultrapassar 35%

O rendimento médio das famílias nesta situação situa-se nos 1150 euros (menos 50 do que no ano anterior) Isso significa que o rendimento disponível fique em níveis quase inimagináveis:226 euros.

Estes dados foram obtidos no “Público” de quarta feira.

O tremendo retrato que daqui sai deveria preocupar-nos a todos e, sobretudo, os arautos da maravilhosa vida que o país está a ter. Deveria ser esfregado na cara (eu ia a dizer no fcinho) de certas forças políticas que aora andam numa roda-viva pelo país a explicar os benefícios que trouxeram à pátria neste quadriénio que está findar.

Outros sinais (aumento da dívida pública, baixa nas espectativas sobre o défice que não atingiu a meta governamental “por culpa dos estivadores de Setúbal”... ) deveriam ser levados a sério.

Porém, como o inefável Pangloss, Costa (António) apregoa os êxitos e varre para a sargeta tudo o resto. E nele vão mais 30.000 famílias subitamente empobrecidas.

Não vou afirmar que o desvario despesista seja todo culpa de quem governa mas o discurso “irritantemente optimista” destes anos pretéritos alguma mossa há de ter produzido neste desastre, aliás anunciado.

No rol de despesas verificadas há uma componente forte dos débitos pessoais e de cartão de crédito. O crédito à compra de habitação também ocupa um lugar importante, obviamente. E não deixa de ser preocupante o facto de o rendimento médio das famílias ora em causa ter bio de 2017 para 2018 (50 euros).

Faço notar que o artigo (2 inteiras páginas) refere o facto dos solicitadores de auxílio virem da média burguesia, das classes de idade compreendidas entre os 25 e os 65 anos com maior incidência na faixa 40-54 anos.

E, mais grave ainda, entre quem pede ajuda há 33,3% e 39,6% de pessoas com o 2ª ou 3º ciclos. Não se trata pois de ignorantes, de iletrados mas sim de gente com educação. A eles juntam-se 18,7% de licenciados o que complica ainda mais o retrato e aumenta a ameaça de ruptura social.

 

CTT (a regra e a excepção?)

Há 2 semanas zarpei para Lisboa e só quando estava a chegar é que descobri que não trazia qualquer documento (cartão de cidadão, carta de condução, livrete) nem, pior, dinheiro vivo ou os cartões de crédito. A falta de dinheiro, desde que chegasse a casa da família estava resolvida. Aliás fui ao meu banco e obtive um cartão de crédito provisório. No que toca ao resto dos documentos a coisa era mais complicada. Era uma quarta feira pelo que ou os recebia no ddia seguinte ou máxime na sexta ou ficava numa situação difícil. A todo o momento, quem guia pode ter algum acidente e a primeira coisa que nos pedem são os documentos.

Indaguei na estação de correios se havia meio de receber com rapidez os documentos em falta. Havia, graças e louvores se deem a todo o momento ao divino Sacramento! Há um expediente chamado correio expresso que permite receber no dia ou na manhã seguinte até às onze horas (no caso da expedição ocorrer depois do meio dia) o qur for enviado. Até há seguro!

No momento em que os CTT apanham pela medida grande, há que reconhecer que este serviço – não sei se recente se antigo – funciona. E funcionou impecavelmente. Antes das 10 horas da manhã de quinta voltei a ser um cidadão “documentado” e menos angustiado. Sei que isto não tranquiliza quem, em vez de uma estação completa de correios, tem agora uma “loja” cuja eficácia desconheço. Mas convém também noticiar que nem tudo é mau no actual serviço.

 

Que é que ele quer?

O senhor Corbyn não para de me surpreender. Por mais noticiários ingleses que tente ver ainda não percebi se quer sair ou permanecer na Europa. Se ama desveladamente os judeus ou se, como alguns péssimos sinais indiciam, os quer muito longe dele. Se quer derrotar a Sr.ª May ou se alimenta no seu já cansado coração à beira dos setenta anos um derriço pela dama. Se vai fazer –como até agora se verifica – frente comum com a gentinha conservadora do Brexit ou se tem um projecto crível e viável para uma Grã Bretanha cada vez mais irreconhecível.

Já não questiono as suas opções políticas, sobretudo o regresso impossível a um passado socialista que se alimentava da Escócia boa votante e dos sindicatos que burocratas como ele mesmo foram varrendo para o caixote do lixo da História.

A recente deserção de meia dúzia de deputados (a que se junta uma outra desta vez “torie” de três deputadas) e as declarações deles deixa Corbyn ainda mais desconfortável. Digamos que a sua carreira -aliás obscura – no Labour pouco ou nada promete aos britânicos. May, de resto, acompanha-o nesse cortejo fúnebre.

Se a Europa, por uma vez organizada e de acordo, não parece disposta a aturar muito mais tempo a Sr.ª May, tão pouco se agita entusiasmada com Corbyn. Nem sequer os socialistas e social-democratas do Parlamento Europeu.

Basta-me uma pergunta que propõe Corbyn para a fronteira do Ulster com a República da Irlanda?

 

“aperta o teu coletinho

 

O filósofo francês Alain Finkrelkrault foi há dias violentamente insultado por vários “gillet jaunes” que não só o ameaçaram como o tentaram agredir. Um dos seus atacantes é, aliás, uma criatura ligada ao movimento salafista, o mesmo é dizer, um fanático islamista. Ao mesmo tempo, e em vários locais por onde os coletes passaram, apareceram inscrições anti-sionistas (Nem Simone Veil escapou) .

Já por aqui deixei escrito que esta gente que todos os sábados se reúne e se manifesta não passa de um agrupamento ocasional de descontentes que assume a “jacquerie” como se fora uma revolução. Não o é, pese embora a opinião de muitas luminárias “progressistas”, dessas que estão sempre à espera de um terramoto social. Em França, a saudade da revolução é uma constante e, a cada par de anos, anuncia-se um novo e miraculoso movimento salvífico que dura o tempo da estação amorosa dos pirilampos. Não é oiro mas apenas purpurina. Em boa verdade, grande parte dessa inteligentsia francesa que que sente periódica mas subitamente o orgasmo revolucionário, é profundamente reaccionária e acaba sistematicamente nas academias, nas mordomias e na boa consciência. Todavia, o mito revolucionário (basta lembrar os anos da “ocupação”, a vergonha imensa da colaboração que foi quase unânime -nem o PC escapou no primeiro ano!...- ) foi cuidadosamente alimentado por muita da mais lida historiografia oficial e oficiosa. Desde então é o que se sabe: um sobressalto, umas vagas barricadas ou nem isso, gritaria nos media e aí está pret a porter mais uma revolução, sempre a boa, a definitiva.

Desta feita, são os coletes amarelos que pedem tudo e o seu contrário e, pelo caminho, vão – e não poucas vezes – pilhando, destruindo, incendiando o que lhes está pelo caminho. Pouco a pouco mas com segurança vão aparecendo os sinais de uma extraordinária, mas não surpreendente aliança entre a extrema direita e a extrema esquerda (leram bem: extrema esquerda, a França insubmissa e outras patacoadas idênticas) numa clássica condenaçãoo de tudo o que ameaça o modo de vida conformista e conservador francês (ecologia aí compreendida, claro). .

Por cá, houve uma erupção benigna dessa acne revolucionária: apareceram umas tristes e solitárias criaturas que depois do estrondoso anúncio da sua vinda se juntaram num pequeno grupo junto ao Marquês de Pombal. Eram mais os polícias que os manifestantes à volta os lisboetas prosseguiam imperturbáveis a sua vida de todos os dis. Nem os turistas, sempre ávidos, tiraram fotografias. Aquilo era demasiado pobrete, nada alegrete e reles.

Em França, a coletagem já está em maré decrescente mesmo se em certos programas (cfr “28 minutes” /ARTE) ainda apareçam alguns raros exaltados adeptos daquela bagunça ideológica. De facto, e no fundo, bem no fundo, o que dali sobra é o racismo, o nacionalismo exacerbao e uma profunda incultura política. Só.

E esperemos que mesmo nos estertores da agonia, este cego e incerto movimento não acabe com alguma morte que será sempre a de alguém que nada tem a ver com as razões de descontentamento sentidas por quem se vê excluído.

 

Estes dias que passam 385

d'oliveira, 23.01.19

F17BC009.jpg

E a Caixa?

 mcr aos 21/1/19

(não sou especial fã dos CTT – nem na nova forma nem na antiga –vivo numa zona onde não faltam agências -parece que agora se chamam lojas-, uso a empresa apenas para cartas registadas ou envio de embrulhos, o que significa um uso muito marginal. Não conheço nenhum dos figurões que o dirigem nem me apetece conhecê-los. Sou, tanto quanto me parece, relativamente neutral nesta questão que subitamente parece levantar-se ou agravar-se).

A nova empresa CTT tem, segundo testemunhos razoáveis e críveis, diminuído o número de postos (ou estações). Por seu lado o Conselho de Administração da empresa jura que aumentou o número de locais onde os usuários dos correios podem ser atendidos.

Neste ponto, conviria perguntar se esse aumento colmata a falta que o encerramento do anterior posto criou. Isto é, se a população órfã de serviço de correios, tem com igual comodidade acesso a outro idêntico ou melhor. A pergunta é legítima porquanto o novo local pode ser em zonas já com serviço de correios deixando sem ele outras que correspondiam ao posto encerrado. Não é a mesma coisa abrir loja em Lisboa para substituir a que se fechou em Carrazede do Meio.

Em segundo lugar, seria bom e útil saber quais os serviços que deixaram de ser prestados nas zonas ora desertadas. Duvido bem que seja a recepção ou envio de correspondência. Não por estes terem sido substituídos pela internet mas apenas pela singela razão de nos meios envelhecidos e rurais não só subsistir algum analfabetismo mas também não ser normal a troca de correspondência. Já o caso dos vales de correio com a magra reforma e uma que outra encomenda poderá efectivamente tornar-se um problema mais sério.

Em terceiro lugar, poderia pensar-se no serviço de telefone fixo muito embora o mesmo agora possa ser processado por várias empresas que retiraram aos CTT esse monopólio e, desse modo, deixaram ainda mais abalado o nome da empresa. Nem telefones e pouco ou nada de telégrafos...

 

Conviria, porém, atentar neste facto: Há um outro serviço dito público, dito de medonha importância para os cidadãos que também tem vindo a desaparecer aceleradamente do interior: A Caixa Geral de Depósitos, o tal banco “público” que já nos custou uma fortuna e que encerra balcões com uma velocidade que se mede com a usada pelos CTT (também ele, agora, banco) . Permitir que aquela em nome do interesse público e da economia feche balcões ao mesmo tempo que se ruge contra idêntica atitude dos CTT parece-me ser mais um apelo ao uso de língua bífida do que crítica razoável. Tanto mais que a Caixa também era o mealheiro dos mais pobres, o local onde se descontavam as magras pensões de reformados vivendo no interior e que também recorriam à famosa “caderneta” onde constavam as suas escassas poupanças.

O jornal Público traz na edição de hoje (23/1/19), e em páginas centrais, um resumo da escandalosa lista de empréstimos de alto risco a personalidades e empresas portuguesas de onde até à data já resultaram largas centenas de milhões de euros de prejuízo. Na impossibilidade de “nacionalizar” a Caixa só se vê a hipóteses de a privatizar!... Isto para usar do medicamento “reversor” que agora está na moda.

Convém lembrar aos mais assanhados “renacionalizadores” que retirar os CTT da esfera privada poderá ser um excelente negocio para os accionistas que viram a empresa perder mais de 50% do seu valor de venda.

A ideia peregrina de defender o “serviço postal universal” coitadinho é de “ir às lágrimas”. Está-se a defender algo que, se não está morto, está já moribundo e pronto a receber os santos óleos. Não sei se ainda existem os “postais” da minha juventude (pois não os vejo à venda em parte alguma) ou se ainda se troque correspondência em papel. Pelo fraco movimento de venda de selos nos quiosques adivinha-se o cada vez mais reduzido uso deste meio de comunicação. Isto, nos quiosques onde ainda é possível encontrar selos. E a razão é simples: o correio electrónico é gratuito ou, melhor faz parte de um pacote onde também entram a televisão, os restantes serviços de internet e o telemóvel. E se é verdade que, subsistem muitas dezenas de milhares de portugueses info-escluídos, também não é menos verdade que é nessa categoria que se encontram os grupos que menos consumo fazem de produtos dos CTT.

Provavelmente, com certa ironia, um jornalista do citado Público afirma que com a reversão dos CTT só há um ganhador: o grupo privado accionista dos CTT que se livre dos incómodos e fica com a parte boa, o Banco CTT que, à luz das regras da UE, não é nacionalizável.

Depois, se verá se reabrem as lojas fechadas e/ou substituídas por postos nas sedes das juntas de freguesia. E no, improvável caso de serem reabertas, se funcionam com o mesmo número de trabalhadores ou com outro bem superior (relembremos a famigerada passagem das 40 para as 35 horas de trabalho). E se o reactivado serviço universal postal miraculosamente faz surgir cartas às centenas ou aos milhares par justificar as ânsias reversoras de algum PS (que espera votos e postos de trabalho) e da generalidade dos seus aliados a quem a ideologia nacionalizadora cega até à demência. E se tudo isso leva à famosa revitalização do interior, à criação de empresas e de indústrias que mobilizem os escassos recursos humanos locais e exijam uma nova corrida de gente a estas regiões. E, já agora, se obrigam a CGD, tão pública e tão amiga dos desfavorecidos, a reabrir os balcões entretanto fechados.... Sonhar é, sempre, fácil –já agora seria interessante ver responsabilizados os gestores que, contra todas as boas regras do negocio bancário, ofereceram um bodo a uns quantos influentes (e eventualmente receberam uma gorda gorjeta pelos bons serviços prestados). E nessa responsabilização seria bom ver implicados os governantes que indicaram, impuseram e nomearam essas administrações que só lá foram colocadas para servir amigos, amigalhaços, afilhados políticos e outros espécimes de má frequentação. É verdade que a cadeia de Évora está superlotada mas com uns módulos a mais (como no caso dos contentores da pediatria do Hospital S João) acolher-se-iam uns quantos “cavalheiros de indústria” que tem sangrado o país e a Fazenda Pública desaforadamente. Se os contentores podem acolher crianças durante décadas também poderão dar guarida a adultos ladrões. Poder-se-ia mesmo, instalar lá uma estação de correios mesmo que se duvide que os nela instalados sejam capazes de escrever sem erros...

* na ilustração: a medonha mastaba que se vê é a sede da CGD em Lisboa. Mais do que um susto! A pedir um terramoto ali mesmo localizado a bem do bom gosto  (e do bom senso).