Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Abr18

Estes dias que passam 369

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

 

Em memória de Manuel da Graça Patrício Curado

por mcr (10/11, abril de 2018)

Enquanto filho segundo, a família queria-o padre. Era assim no Alentejo, mais especificamente em Nisa. Lavradores com algumas posses Mariana e Francisco Curado destinaram Joaquim o mais velho a doutor e a herdeiro da maioria dos bens familiares. Manuel o benjamim seria padre evitando assim uma descendência que concorreria na repartição da herança com a do irmão mais velho.

Manuel que ainda fez grande parte do seminário não esteve pelos ajustes. Aos 18 anos fugiu para Lisboa e alistou-se no então chamado Exército Colonial. Para Angola e depressa, terá pensado. Nessas terras foi soldado de todas as guerras grandes e pequenas. Graças à sua inteligência, à sua tenacidade e à sua coragem nunca desmentida, foi sendo sucessivamente promovido até terminar a carreira como capitão, o máximo que poderia atingir. Pelo meio ficaram a Grande Guerra, várias campanhas de “pacificação” sempre no Sul, um casamento, sete filhos e a participação na “revolução” contra um governador geral autoritário e tonto. A sua terceira filha, minha mãe, recorda a saída da companhia que ele comandava em direcção a Luanda para secundar a decisão do Chefe de Estado Maior, coronel Genipro de Almeida, que abertamente desafiou o Governador Filomeno da Câmara, fugido para Benguela deixando nas mãos do seu chefe de gabinete, tenente Morais Sarmento, uma série de papéis assinados que convenientemente preenchidos demitiriam, a pretexto de pertença à Maçonaria (a Kuribeka), meio mundo na colónia. Sarmento, cercado na própria casa terá sido abatido por “algum soldado negro”, nervoso e pouco habituado ao português... (assim reza a história “oficial”)

É provável que a honrosa e honrada carreira militar de Manuel Curado tivesse sido prejudicada por este aventura político-militar que, se conseguiu afastar Filomeno, também não poupou Genipro e os militares seus apoiantes.    

De todo o modo, não é de meu avô que pretendo falar mas sim da Guerra, a grande, a primeira, em que ele participou como combatente no extremo sul de Angola em confronto aberto com as treinadas tropas alemãs do então Sudoeste Africano (Namíbia, hoje).

Portugal logo no início da guerra viu-se envolvido no conflito com a Alemanha quer no Sul de Angola, quer no Norte de Moçambique. No primeiro dos casos não se podendo falar de uma campanha especialmente brilhante sempre é verdade que a “frente” nunca saiu da zona fronteiriça. Em Moçambique a guerra foi um desastre. Apesar do elevado número de expedicionários portugueses, as tropas alemãs do extraordinário general Paul von Lettow-Vorbeck (que terá derrotado 17 generais e um marechal sem nunca ter sido vencido), fizeram o que quiseram. Os portugueses referem piedosamente a “vitória” de Nevala (na realidade ocupada depois de abandonada) e escondem as incursões profundíssimas do alemão que chegou a ameaçar as proximidades de Quelimane depois de se passear pelos territórios de Cabo Delgado, Moçambique e Niassa sem grandes incómodos. Esta desastrada campanha deve-se mais à inadequação do treino militar, ao quase completo desconhecimento do território onde decorriam as operações (de Kionga no litoral até ao Niassa seguindo todo o percurso do Rovuma), a uma intendência incapaz e a um apoio médico sanitário absolutamente medíocre.

Convém salientar que do outro lado von Lettow contava apenas com escassos milhares de alemães e nunca mais de 12.000 askaris. E com uma organização ímpar apoiada lealmente pelas populações branca (escassa) e negra do Tanganika (território atacado a Norte e pelo mar por tropas e marinha inglesas, superiores em número e esmagadoras no mar).

De todo o modo, a guerra em África correspondia um desígnio nacional, sentido por todos (a defesa do Império Colonial cuja existência estaria ameaçada por alegados conluios anglo-germânicos de partilha dos “nossos” territórios.

Ora, e é aqui que bate o ponto, tal não sucedeu com a tola, funesta e desastrosa intervenção no cenário de guerra europeu.

A intervenção portuguesa na Flandres foi desejada pela “República”, recente e mal vista na Europa. Os “guerristas” viam na participação nacional um meio de serem reconhecidos pelos países europeus e, depois de uma pertinaz campanha, conseguiram entrar no conflito e enviar tropas para a frente europeia.

Ora o CEP (a força expedicionária portuguesa, dotada de duas divisões de vinte mil homens cada) foi formado à pressa, em Tancos – o “milagre de Tancos” – e partiu para o norte da França em barcos ingleses. Ali chegadas, houve que preparar, de novo, as tropas   portuguesas para o combate, dar-lhes um verdadeiro treino “à inglesa” por instrutores ingleses, fardá-las (!), à inglesa, armá-las (!!) à inglesa e enquadrá-las na dependência inglesa. Até a comida foi, nos primeiros meses, inglesa. Aos soldados portugueses, quase todos de origem rural e na maioria analfabetos, nunca foi verdadeiramente explicada a razão de terem sido trazidos para uma terra que não era deles, que nada lhes dizia, cuja língua ignoravam e cujo clima era inclemente.

Também não estavam preparados para a “guerra industrial” e, desgraçadamente, foi-lhes atribuída uma zona de frente pantanosa que inundava as precárias trincheiras que conseguiam erguer no intervalo dos bombardeamentos. A intendência não funcionava ou funcionava mal e, a partir do primeiro ano, (culpa de Sidónio mas também, e muito, do governo que o antecedeu. Basta dizer que para levar e trazer soldados de e para Portugal havia que contar exclusivamente com a marinha britânica!...) deixou de haver “roulement” das tropas. É nesse cenário de falta de quase tudo, de mau comando, fraca oficialidade, dificuldade de transmissões que se inscreve o desastre de La Lys. Ainda por cima, o violento ataque alemão ocorreu em vésperas de mudança de posições da topa na frente que deveria ser rendida e deslocar-se para a retaguarda no dia seguinte ao do ataque de 9 de Abril. Além do cansaço, da desmotivação, das dramáticas condições das trincheiras, havia a notícia da saída daquela posição. Provavelmente, à vigilância constante sucedera algum alívio e menor precaução.

Numa palavra, os alemães destroçaram, esmagaram, aniquilaram a Divisão portuguesa. Entre mortos, feridos e prisioneiros ficou ali quase toda a gente mesmo que se saiba que alguns escassos milhares de homens recuaram precipitadamente, debandaram, fugiram varridos pelo fogo de artilharia, pelo gás, pela ferocidade dos atacantes. A frente portuguesa desapareceu e o resto da tropa portuguesa que estava de reserva nunca mais foi operacional. A guerra acabaria alguns meses depois, os mais de sete mil (!!!) prisioneiros portugueses regressaram dos campos de internamento, boa parte dos oficiais voltou ao país com o forte (e compreensível) desejo de ajustar contas com a “República” ou pelo menos com os “democráticos” que tinham exercido sem glória nem talento o papel de “falcões” quando não sabiam sequer ser frangões.

La Lys, pese embora o soldado Milhões e mais um pequeno punhado de corajosos, deveria ser lembrada apenas como um dia de luto pesado não tanto por Portugal mas pela incúria, incapacidade, desfaçatez do Poder da altura.

Cem anos depois, os senhores Presidente da República e Primeiro Ministro foram juntos, de mãozinha dada, celebrar esse trágico momento da nossa História. E fizeram-no, pelos vistos, ufanos, como se de uma vitória se tratasse. Como se, nas palavras do Senhor Presidente, se estivesse a comemorar uma vitória que só não foi a mais trágica derrota depois de Alcácer Quibir, porque os dois flancos ingleses travaram, com custo mas determinação e muitos mortos, o ataque das divisões alemãs salvando possivelmente as restantes tropas portuguesas, mais à retaguarda, de um total aniquilamento.

Entre um João Chagas (pelo menos brilhante escritor), guerrista assanhado e duramente criticado por Aquilino Ribeiro (“É a guerra”, Bertrand) e Marcelo Rebelo de Sousa começam a despontar semelhanças que não engrandecem o primeiro nem melhoram o tíbio e patrioteiro discurso do segundo.

Os morto de La Lys, do sul angolano e do norte de Moçambique mereciam mais, muito mais e melhor. Pelo menos, respeito e verdade. Mas isso é tarefa para Santo António que sabia pregar aos peixes. Por cá prefere-se pregar aos papalvos que é como somos tomados.

 

23
Mar18

Estes dias que passam 368

d'oliveira

images.jpeg

 

O regresso dos mortos mortos

 

 mcr  22/23 de Março de 2018

 

O jornal “Público” traz hoje (22/3) mais uma reportagem sobre a trasladação do cadáver de um militar morto na guerra colonial. Obviamente era o de um soldado de origem humilde. Daqueles cuja família nunca poderia pagar os custos do repatriamento do cadáver. Naqueles tempos ásperos e obscuros, a quantia exigida era quase um absurdo para mais de 80% da população portuguesa. Pior: os soldados e cabos que faziam o Serviço Militar Obrigatório vinhamde famílias numerosas, pobres e razoavelmente incultas. Os senhores oficiais (do quadro ou milicianos) eram provenientes das elites, de gente mais acomodada que mesmo com grande sacrifício poderia custar a trasladação. Ignoro se os oficiais do QP (Quadro Permanente) teriam o privilégio de ser repatriados gratuitamente quando morriam nos sertões africanos. De todo o modo, as baixas no corpo de oficiais foram diminutas, não só porque estes eram menos mas sobretudo porque o seu treino militar era superior. É verdade que alguns (muitos. E um único já seria demasiado)por lá morreram. Estou a lembrar-me do João Cabral de andrade, meu amigo, do Bação Leal que mal conhecia ou do José Manuel Pais que bateu com os costados em angla depois de denunciado por um miserável informador da PIDE, estudante como ele, e hoje médico na “outra banda” (Este canalha deve ter denunciado meio CITAC a que pertenceu e a sua sorte é apenas derivada da minha falta de memória. Não me lembro do seu nome infelizmente)

Voltando ao tema principal: os mortos na guerra de África, colonial ou do Ultramar, como lhe quiserem chamar.

Bem ou mal, estes jovens homens morreram ao serviço de Portugal. como antes, de 1916 a 1918 morreram milhares de outros na Flandres com o mesmíssimo pretexto de salvar o Império Colonial. Ou de tornar a 1ª República mais aceitável perante uma Europa que nos olhava de soslaio...

Conviria acrescentar, mesmo que isso perturbe algumas ignorâncias bem pensantes, que esta guerra de 13 longos, longuíssimos, anos com o seu cortejo de 9.000 mortos e de muitos mais feridos (sem falar em todos, e são multidão, os que se viram afectados – algumas vezes para toda a vida- com o stress de guerra) que a defesa das “colónias”, do “ultramar” ou , tout-court, de Portugal foi durante muito tempo uma causa popular em Portugal e entre os portugueses. É verdade que, nesses anos de chumbo, houve sempre “alguém que resistiu”, que não se conformou mas isso não quebrou o largo consenso que subsistiu quase até ao fim do Estado Novo. Aliás, este caiu por obra dos oficiais do QP que se fartaram da guerra e da falta de perspectivas que tal estado de coisas pressupunha. É verdade que difusa mas seguramente crescia na população (sobretudo a mais ilustrada) uma crítica à guerra. É verdade que a gigantesca emigração verificada nos anos 60 e 70 do século passado também teve uma pequena componente política de gente que fugia à guerra pelos mais variados motivos sendo que o principal era obviamente a vontade de não arriscar o coiro numa guerra que nada lhe dizia. É verdade que, mesmo cá dentro, houve sempre oponentes à guerra fosse por pacifismo, fosse por acreditar no direito dos povos a disporem deles próprios. Mas a verdade, a “áspera verdade” (Danton) é que desde a Situação até boa parte da Oposição, as colónias foram durante muito tempo indiscutíveis. E tão indiscutíveis foram que, de 1965 a praticamente 1974, a população branca colonial em Angola e Moçambique aumentou de forma quase exponencial. Foram dezenas de milhares ou, talvez, mais de cem mil, os portugueses da “metrópole” que resolveram fixar residência em África. Acreditavam na melhoria de vida, nas vantagens de lá viver, na continuação do Império mesmo na forma mitigada de federação de Estados de língua portuguesa. Poder-se-á dizer que este movimento se inscrevia no mais geral movimento migratório cujo centro foi Paris e região adjacente. Seja como for, este ocorreu e contribuiu em muito para o enorme surto de desenvolvimento que as duas principais colónias experimentaram. Estes novos migrantes para o “Ultramar” modificaram objectiva e subjectivamente as condições de vida da maioria negra. Tinham menos preconceitos raciais, já não vinham como grupo superior aos colonizados, acabara o Estatuto do Índígena, as escolas abriam-se de forma extraordinária   aos negros e via-se o impossível: acesso a cargos políticos municipais e regionais. Nada disto diminuiu o ímpeto independentista entre os novos “assimilados” (se me é permitido o uso de uma expressão repulsiva e negregada), bem pelo contrário. As novas e incipientes elites africanas alinhavam nas escolas secundárias e nas novíssimas universidades pelo diapasão nacionalista influenciando, mesmo que num número mínimo, jovens brancos.

Neste amplo movimento devem ainda contabilizar-se o aumento de casamentos e uniões de facto inter-raciais. Muitos soldados desmobilizados optaram por se fixar nos territórios onde tinham combatido e juntavam-se com nativas africanas.

Voltemos, porém, aos 1500 soldados metropolitanos mortos nos teatros de guerra e aí sepultados em cemitérios disseminados na Guiné, Angola e Moçambique. Terá passado por África cerca de um milhão de portugueses parecendo, por isso, diminuto o número de mortos total (9000) e mais ainda o de cadáveres que não voltaram à terra natal. Este é um argumento forte para, de uma vez por todas, se proceder ao repatriamento desses corpos. O Estado português não pode atirar para cima dos familiares sobrevivos o custo desta operação que, por ser isolada, tem sempre um preço elevado. Mal ou bem esta gente morreu pelo país exactamente como os morto da 1ª Grande Guerra cuja memória se perpetua em centenas de monumentos por todo o país, em talhões próprios nos cemitérios das principais cidades ou na simples existência de uma “Liga dos Combatentes” criada em 1923 em plena1ª República e destinada a perpetuar a memória dos mortos e em ajudar os sobreviventes em diversos domínios.

Esta instituição poderia e deveria ser ajudada no apoio que presta às famílias dos caídos em combate nas colónias. O Estado deveria assumir uma parte importante dos custos da trasladação dos cadáveres o que, numa operação conjunta, mitigaria, e muito, os custos dessa missão legítima, necessária e, porque não?, patriótica.

Para uma imensa maioria dos portugueses a lembrança cultual dos seus mortos faz parte da sua razão de ser. Digo portugueses mas poderia dizer seres humanos. Uma das características do actual homo sapiens é o culto dos mortos. Quase se poderia dizer que a civilização começou com o sepultamento (ou com fórmulas mortuárias de valor idêntico) dos membros da comunidade. A sepultura tem a mesma marca das gravuras rupestres e traça com bastante segurança a passagem para o que chamamos civilização humana.

É verdade que há países em que a norma é sepultar o seus mortos em combate nas regiões onde pereceram. O caso da Grã Bretanha é o mais conhecido. Há cemitérios de guerra britânicos disseminados por todos os continentes. Todavia, esses cemitérios são regra geral considerados “território britânico”, estão bem tratados e melhor documentados. Os americanos têm por principio não deixar nenhum dos seus soldados (morto ou vivo) para trás. Ainda hoje, rebuscam em zonas perdidas do Vietnam e do Laos cadáveres dos seus combatentes. Criaram para o efeito uma agência e celebraram acordos e protocolos com as autoridades nacionais desses países com que estiveram em guerra. Trasladaram para o cemitério nacional de Arlington cerca de meio milhão de cadáveres de soldados mortos em combate desde a guerra da Secessão até às mais recentes (Vietnam, Iraque).

Anda por aí meio mundo a encher o peito de bazófias sobre as maravilhas da pátria mormente as mais recentes, desde o festival eurovisão até ao “melhor do mundo” e a um obscuro campeonato de futebol de salão. Tudo isso e o sol, o sal e o sul tão turísticos aquece os ímpetos da portugalidade do século XXI. Será pedir muito uma sepultura junto dos seus para os soldados perdidos numa guerra travada, queiramo-lo ou não, em nome de todos nós  nos sertões esquecidos da Guiné, de Angola e Moçambique?

 

*O título do folhetim refere um filme de terror dos anos 80 (“O Regresso dos mortos vivos” de Dan O’Barron) que, com o passar do tempo se tornou um filme culto que teve direito a remake e continuações.

** este texto começou a se escrito ontem mas a habitual preguiça do autor só hoje permitiu concluí-lo. Mas não é um dia a mais que prejudica uma justiça que tarda já quase meio século.

07
Mar18

Estes dias que passam 367

d'oliveira

images.png

 

28 anos já...

 

Ou: mais de 9000 exemplares lidos com alegria, com sofreguidão com interesse ou com indignação. Numa palavra: o “Público” o jornal que, sem falhas, leio desde o número 1.

Quando digo sem falhas, não refiro todos os dias porquanto as férias de muitos desses anos passeia-as fora de Portugal e, sempre que, pude estive fora do país, às vezes por períodos que duraram meses. Todavia, em estando cá, nunca deixei de comprar o jornal, hábito e vício diários.

Esta fidelidade ao mesmo periódico tem, em mim, antecedentes fortíssimos. Em pequeno, muito pequeno, fui um fã do “Mundo de Aventuras” em detrimento do posterior “Cavaleiro Andante”. Durante esses anos, felizes e inocentes, o meu irmão e eu, batíamo-nos à compita para, cada terça feira, ir à loja do senhor Bracourt comprar a “Modas e Bordados” que a minha Mãe, que lia tudo e mais alguma coisa, aplicadamente comprava. O nosso alvo era o suplemento infantil “Joaninha” que no regresso até casa íamos lendo impacientes. Oh que saudades de duas longuíssimas séries “Aninhas e Ró-ró” (uma menina e o seu cão) e “Sem Família” uma banda desenhada baseada no romance de Hector Mallot (1830-1907, escritor comprometido com causa da liberdade, amigo de Jules Vallés que ele ajudou financeiramente durante o exílio, defensor do divórcio e uma nova política de saúde psiquiátrica, autor de mais de cinquenta romances).

Nos poucos anos que passei em Moçambique (e sobretudo nas férias grandes) lia “A Tribuna” um dos grandes títulos moçambicanos e o mais livre da imprensa africana.

Logo que entrei para Universidade, tornei-me um devoto de “Le Monde” e de “L’Éxpress” uma notável revista semanal que foi uma das publicações que mais defendeu a causa dos argelinos . Anda hoje os leio, mesmo se diferentes. Da banda de Espanha, sou, desde o primeiro dia, leitor de El País e, no que toca à Itália, confesso que abandonei “Paese Sera” por “La Republica” logo que este apareceu.

Sou, portanto, um leitor (e comprador) de jornais e não consigo começar o dia sem eles. No fim de semana as coisas complicam-se por via do “Expresso” (sempre desde o primeiro dia) e das edições mais volumosas dos jornais estrangeiros.

Mas voltemos ao “Público” que hoje festeja o seu 28º aniversário. Que bela aventura. Que zangas tremendas tive ao longo destes anos por via de artigos, comentários, omissões. Que falta me faz no dia de Natal e no de Ano Novo!...

Com todos os seus imensos defeitos, o “Público” é, de longe, o melhor quotidiano português, o mais imparcial, o menos populista e, de certo modo, o mais eclético em colaboração de todos os quadrantes políticos.

Tem falhas? Claro que as tem, a começar pela frágil cobertura de notícias sobe livros e literatura. Nada que se compare com, por exemplo, “El País” (ou até o “ABC”, também espanhol, conservador e monárquico que tem uma revista semanal de cultural de alta qualidade). O suplemento “babélia” deste jornal com mais de uma dúzia de páginas e que já vai na edição 1371, é um acontecimento e supera largamente o “Monde des livres” que aparece às sextas e é mais pequeno e menos variado.

Porém, em Portugal (e isto desde a morte de “O jornal”) a causa cultural tem perdido espaço. Sobrevive, com dificuldade, o “Jornal de Letras” (outra obrigatória e quinzenal leitura) e há por aí, tentativas dispersas e irregulares de imprensa cultural que morrem às duas por três por falta de leitores e de anunciantes. Por todos refiro o extraordinário “& etc.” suplemento e depois edição autónoma do Jornal do Fundão. A colecção completa (25 números) vale hoje uma pequena fortuna e as escassas dezenas de colecções encadernadas pelo editor praticamente não tem preço. (se algum leitor tiver uma e ma queira vender avise-me)

 

Ora o Público, jornal generalista, pertence, por vocação e tradição, a esta espécie de meteoritos jornalísticos que não chamam as grandes massas mas estão indissoluvelmente ligados ao melhor e ao mais puro espírito da democracia. Nasceu na 3ª República, orientado pelo Vicente Jorge Silva, alma do “Comércio do Funchal”, o jornal cor de rosa onde deixei alguns poucos artigos embora tivesse enviado para a Redacção muitos mais. A Censura foi implacável comigo e durante um interrogatório durante a minha última prisão o inspector que me coube insistia muito no carácter “subversivo e trocista” das minhas tentativas cronísticas. Fiquei orgulhoso por ter um leitor tão atento... e desanimado porque a atenção dele e de mais um par de funcionários me cortasse as asas para a glória literária...

Voltemos, porém, ao Público e aos seus escassos trinta ou quarenta mil leitores (em papel): há naquelas páginas, que o dia a dia tritura, uma alegria, um profissionalismo, uma teimosia que merecem um olhar. E, ao mesmo tempo, todos os dias lá aparecem a crónica de Miguel Esteves Cardoso e os desenhos irónicos e certeiros de Luís Afonso. Todos os dias! É obra!

No que toca ao jornalismo dito de investigação destaquemos o seu cuidadoso carácter sóbrio, a recusa do sensacionalismo que contamina quando não destrói outros exemplos noutros jornais. Raras, muito raras vezes, vi o jornal ser desmentido.

Finalmente (e porque este texto comemorativo já vai aparecer com alguns dias de atraso) gostaria de destacar o que me parece ser uma característica quase única na débil imprensa diária portuguesa: a tenção à divulgação de notícias científicas (da arqueologia à biologia, da química à medicina) que conseguem entusiasmar o leitor mais preguiçoso.

Tudo isto pelo preço de duas bicas na esplanada do costume!

Que bom!

Que muitos anos se sucedam, iguais ou melhores. Se algum de nós há de morrer espero ir eu em primeiro lugar não só porque tenho mais do dobro da idade do jornal mas sobretudo porque amanhecer sem o jornal tornaria ainda mais tristonhos os dias. Ou mais vazios...

01
Mar18

Estes dias que passam 366

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Viva o Esportingue!

mcr 1-3-18

 

Não tenho clube de futebol. Nunca tive, mesmo se confessasse uma certa ternura pela “Associação Naval 1º de Maio”, modesta equipa que andou décadas pela 2ª divisão, subiu surpreendentemente à 1ª onde se entreteve uns parcos anos e depois desapareceu do panorama futebolístico nacional. Acho que, actualmente, disputa alguma coisinha regional de somenos importância.

A minha ligação ao clube figueirense advém do facto de, entre meados de quarenta e de cinquenta, meu pai ter presidido aos destinos da Naval onde também exercia de médico gratuito e, se me lembro bem, uma que outra vez de chauffeur de um carro enorme e desengonçado onde se transportava toda a liderança do clube. Fora isso, só recordo ter penosamente assistido a uns jogos no “campo da Mata” levado, sem alegria nem prazer, pela pátria potestas. O mesmo, aliás, me sucedeu quando andava no 3º ano do liceu em Coimbra. De quinze em quinze dias era-me negado o prazer do fim de semana na Figueira porque a Académica jogava em Coimbra e o meu pai, sempre ele!, fervoroso adepto, vinha à bola e leva-me ao estádio. Um horror!

Feita esta necessária introdução, apenas com o fito de explicar o meu nulo apreço pelos clubes de futebol nacionais e internacionais, pela “bola” e por boa parte do que por aí corre disfarçado sob o nome de desporto, eis que me vejo perante o extraordinário (no pior sentido de eminentemente ordinário) caso do Sporting e da estrondosa carreira do seu presidente.

Comecemos pelo mais óbvio, a história. O Sporting (Clube de Portugal) é um produto lisboeta puro e duro e, mais do que isso, uma criação da chamada elite social e financeira da capital. Um clube de senhoritos, de meninos bem, chiques até dizer basta.

Ainda me lembro de ouvir um cavalheiro respeitável acusar um amigo de ser um “talassa” logo que soube que o segundo era sportinguista. Talassas eram a princípio os monárquicos mais conservadores e depois os ricos e os bem pensantes. “Poucos mas bons”, como se dizia, senhores do seu nariz e desprezando ostensivamente o “povo”, a “gentinha”, o “pé descalço” que, obviamente havia de engrossar os fãs do Benfica o outro clube de Lisboa (Não se referem o Belenenses, o Oriental ou o Atlético também lisboetas mas confinados a bairros e sem historial que mereça mais do que modestos titulares, mesmo se o Belenenses tivesse tido nos anos 50 e 60 honras de “grande”).

Durante as décadas da minha infância, adolescência e primeira juventude, o Sporting e o Benfica (ocasionalmente o Porto) eram quem todo lo mandava. Do primeiro ficou famoso o grupo dos “cinco violinos” (2ª metade dos anos 40: Jesus Correia, Peyroteu, Travassos, Vasques e Albano) prodigiosos jogadores. O Benfica é o que se sabe. Durante anos a fio, décadas mesmo, foi o clube do regime e a joia da coroa. Ganhava em todos os palcos desde Portugal até à Europa. Suponho que ainda é o clube com mais títulos e taças logo seguido pelo Porto que sempre foi sólido mas só começou a brilhar verdadeiramente depois dos anos 60.

Data dessa época o progressivo eclipse do Sporting. Não me vou dar ao trabalho de procurar mas aposto que desde os anos 60 até hoje não terá ganho mais de meia dúzia, o que em 58 épocas sabe a pouco. O resto distribuiu-se quase sempre entre o Benfica e o Porto com ligeira vantagem para o primeiro.

As direcções do clube foram sendo progressivamente ocupadas por uma nova classe social cada vez mais distante da conservadora e tradicional elite anterior. O que não tem nada de mal mas que, no caso em apreço, reveste uma peculiar característica. Os novos dirigentes tentam macaquear os antigos ou, pior ainda, os dos clubes líderes dos últimos cinquenta anos. Os associados, que sempre riscaram pouco, ficam deliciados quando os “chefes” farroncam, esbracejam, ameaçam, uivam e se desfazem em impropérios e acusações.

O delírio atingiu o auge (?) com o actual presidente do clube, um a criatura que dá por Bruno de Carvalho e se gaba de ser sobrinho neto de um antigo e fugaz primeiro ministro. Sempre me espantou esta necessidade de recorrer a eventuais antepassados que, de resto, nunca se identificam como “carnais” ou por afinidade, caso em que a reivindicação familiar além de obnóxia é parva.

A criatura Carvalho apareceu no universo televisivo mais vezes do que o decoro permitiria mas com sobrados motivos: o homenzinho excede-se em patacoadas violentas contra adversários internos e externos (mais, até, os primeiros) e numa última e triunfante alocução aconselhou os associados a não ler jornais (falo dos associados que serão alfabetizados e tenham algum escasso hábito de leitura) desportivos –todos inimigos do clube- a não ouvir os comentadores desportivos nos media (medida que até poderia ser salutar atenta a quantidade de horas que aquelas cabecinhas pensadoras ocupam os melhores horários televisivos, mas que no caso é apenas um protesto contra algumas observações “menos respeitosas” dos palestrantes sobre o Sporting) e mais quatro fatwas do mesmo teor. Em boa verdade, o cavalheiro Carvalho elaborou um programa informativo par os associados digno da Coreia do Norte: não vejam, não ouçam, não leiam, não comentem (e não pensem?) o que vai nas bocas do mundo. Fora de Alvalade (de um Alvalade expurgado de conspiradores, detratores, críticos ou meramente neutros) não há salvação. O sindicato dos Jornalistas ofendeu-se e protestou como se esta estúpida proposta valesse sequer um comentário. Como se uma boa parte do sportinguismo militante se fechasse ao mundo. Alguns benévolos comentadores gerais viram em Carvalho um novo fascismo como se ele soubesse o que isso é. Aquilo não é coisa alguma excepto arrogância de uma galinha pedrês que gostaria de ser águia um de uma lagartixa que se tomasse por um dragão. Mais do que irritar, Carvalho faz rir mesmo se a gargalhada seja penosa. Saber que num país pacato e civilizado ainda há destes abencerragens deixa muita gente perplexa e a perguntar onde é que a Educação Nacional falhou. Já se sabia que, no fim da escolaridade média, a escrita é um mistério, as contas um sacrifício sobre-humano e a capacidade de conhecer o mundo em que se vive algo de escasso e contingente.

É habito dizer-se que “no melhor pano cai a nódoa”. Convenhamos que aqui nem o pano é mais do que sofrível nem a nódoa assusta. Nada que lixívia e bom senso e alguma educação não limpe e desinfecte.

O Clube de Carvalho vai corajosamente na terceira e habitual posição. Nada prenuncia que possa, facilmente, ultrapassar os dois que o antecedem mesmo se, em futebol, haja horas que duram mais alguns minutos do que os usuais.

Todavia, numa coisa o Sporting é indubitavelmente já campeão: no terrorismo verbal, na tolice ameaçadora, na impotência acusatória. À falta de melhores razões, este título também serve.

(Em memória de João Taveira da Gama, sportinguista sofrido, amigo desde os sessenta que a Parca já arrebanhou. Felizmente não assistiu a isto. Para azar basta a morte, é inútil acrescentar-lhe a vergonha.)

14
Fev18

Estes dias que passam 365

d'oliveira

alle reden von Wetter.png

Deutschland bleiches mutter

 

 mcr 8/2/18 e 14/2/18

 

O cartaz que acima se reproduz vem (ahimé!) dos anos 6o, melhor deizendo dos finais dessa época contraditória e, para mim, luminosa e indecisa. Vi-o pela primeira vez em Berlin, num Studentenheim em Wedding onde me albergava enquanto estudante do "Goethe Institut. Abafei-o à má fila e regressei à pátria madrasta com ele. Se a memória me não falha esteve pendurado n parede lá de casa até a PIDE ir fazer uma visitinha. Eu acabara de ser preso e aquela boa gente queria por força saber que leituras eu faria. Acabaram por levar dois quarteirões de livros, um poster do Ho Chi Minh e este cartaz. Talvez também tenha ido um poster comemorativo do cinquentenária da Revolução de Outubro e alusivo ao cruzador Aurora. 

Berlin, nesses anos de vinho e rosas, de certezas e angústia, era uma inolvidável experiência. Para um estrangeiro que podia (mesmo que dificultosamente, bem dificultosamente) passar o muro o mundo explicava-se com grande rapidez. do lado de cá, o protesto, Rudi Dutschke, os Kindergarten, a prosperidade gritante e uma imprensa variada mesmo que assombrada pelo império Springler. Comunas de todo o género, anarquistas, comunistas, contestatérios sem agenda especial mostravam uma cidade cercada e vibrante. Do outor, o cinzentismo da Karl Marx Allee, os cafés tristonhos e pobres, as lojas quase vazias, as livrarias reduzidas aos clássicos marxistas, aos aitores do realismo socialista e a alguns, não todos, escritores alemães de séculos passados. Aquilo não era apenas pobreza intelectual. Era censura pura e dura, coisa que, pelo que depois fui lendo, não parecia visível aos raros estudantes portugueses que tinham bolsas de estudo para a chamada República Democrática Alemã.

No meio disto tudo, as Juventudes do SPD exerciam uma rigorosa crítica a tudo o que o Governo Alemão fazia ou queria. E faziam o excelente Willy Brandt passar maus bocados. Achavam-no "burguês", "reformista", inseguro frente à CDU e ao Ocidente. Ao mesmo tempo, iam acertando o passo à deslavada mas ditatorial república vizinha refugiada atrás do Muro e alvejando os seus cidadãos quando algum deles tentava fugir do paraíso socialista para o império do capital e do mal. 

Tudo isto, agora que o império da STASI está enterrado, me vem à memória ao ler as notícias do eventual acordo de governo para a Alemanha. Pelos vistos, Schultz ainda vai submeter a votos o acordo. Os militantes (mais de 400.000) responderão por postal à pergunta se concordam ou não com o alcançado. Parece que Juventude partidária é contra. E que, desde há meses, tem andado  numa intensa campanha de recrutamento para obter mais vozes contra. Vejam bem: estes novos, novíssimos, militantes (já são quase 25.000!), sem passado político, sem garantias de futuro no SPD, vão poder dizer "sim" ou ""não" a um acordo para cuja discussão não contribuiram. Entretanto, o partido vai perdendo continuamente popularidade. Se a coisa continua arrisca-se a ser suplantado pelos neo "fascistas" da Alternativa pela Alemanha. 

Convenhamos. O antigo slogan (tradução livre: todos andam por aí a dizer ninharias, nós não) era eventualmente ousado e a destempo naquela época de guerra fria. No entanto não propunha que "morresse Sansão e todos os que aqui estão", como infelizmente agora parece ser o caso. Este acordo, pelo que tenho lido (e ouvido na televisão alemã) merece ser aproveitado. Na Alemanha porque marca um forte progresso de políticas mais justas, mais igualitárias  e mais geradoras de emprego. Na Europa porque dá ainda mais força à actual tentativa de melhorar o dificultoso estado da União.

A juventude, comentou alguma vez algum cínico demaiadamente realista, é uma doença que passa com o tempo. Como a acne  que, todavia, pode deixar borbulhas maxime um rosto desfigurado.

...............

Repego neste texto perdido há quase oito dias. Não dava com ele, e ele, quieto e manso na caixa do blog!...

entretanto Martin Schulz desiste de ser (um bom) ministro dos Negócios Estrangeiros e, já se demitiu de todas as suas funções no SPD. Má notícia para o partido e má notícia para a coligação em perspectiva. Pior notícia para a europa e, especialmente, para os países do Sul.

Os ventos foram semeados. Vejamos se por aí vem alguma tempestade.

02
Jan18

Estes dias que passam 364

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Roupa Velha

mcr 2.1.18

 

Há tantas receitas de roupa velha quantos os praticantes e amadores deste excelente aproveitamento. A mais habitual é de bacalhau e usa-se muito no Norte depois no almoço de Natal e no dia de Ano Bom. Os restos do bacalhau bem desfiado juntamente com a couve, ou grelos, cebola cozida um pouco de alho e um traço de vinagre e azeite compõem uma boa entrada para o peru recheado, o cabrito o capão e outras maravilhas que se podem comer nesse ia de fartura, de família e de mesa enorme e generosa.

Em minha casa, quando era pequeno, a roupa velha significava passar por ovo quaisquer estos, mormente de carne e o meu irmão e eu disputávamos sem grande escrúpulo e alguma pouca animosidade cada garfada.

Dito isto vamos à roupa velha com o que nos sobra do ano que lá vai. Prescindindo de outras ”cavalhadas” fiquemo-nos pela lei de financiamento dos partidos adoptada pelas formações parlamentares do PS, PSD, BE e PC. E dos Verdes, ia-me esquecendo. Como é possível olvidar essa formidável organização que só vê o dia na AR por obra e graça de uma alegada “coligação” e que nada mais é do que um pseudónimo proto-ecologista do PC?

Não vale a pena esmiuçar os aspectos mais contestáveis (e são bastantes e surpreendentes) da lei pois isso fez parte dos noticiários, dos comentários e de uma série de artigos publicados durante a semana que passou.

Pessoalmente, nem me estranha o tom confidencial que alegadamente presidiu à confecção da lei. Parece que um distinto constitucionalista veio a terreiro defendendo a pureza dos trbalhos preparatórios e negando o óbvio: os paisanos, isto é, nós todos, devíamos andar em viagem por outra nebulosa porquanto ninguém parecia saber do que se cozinhava nos cafundós do parlamento.

Neste momento, aguarda-se que o Presidente da República mande a lei para “o ventre da mãe terra pelo esófago da latrina” (Camilo Castelo Branco, sempre esse homem das Arábias).

Entretanto, os partidos votantes da lei num raro ataque de quase unanimidade (salvaram-se do escândalo o CDS e o PAN permitindo-me usar o meu defunto latinório: aparente rari nantes in gurgite vasto, Eneida, I, 118) vieram à estacada em ordem dispersa. Enquanto o PS e o PSD tentavam defender o indefensável, o que, de certo modo, os dignifica, os dois comparsas da “Esquerda” “borregaram” vergonhosamente. Numa penada, o BE veio dizer que não concordava com a lei mas que o seu voto favorável representava o seu esforço para melhorar aquela mistela mesmo se o resultado era péssimo. O PC acrescenta a esta graçola de mau gosto a ideia de que a lei votada é inconstitucional não se percebendo a razão do seu voto.

Dito isto, e convidando os leitores que até penaram a procurar na internet os textos completos das absurdas (senão abjectas) declarações destas formações que tentam fugir com o dito cujo à seringa e provocar a confusão nos cidadãos que acabam por não entender qual foi de facto a real motivação dos seus votos a favor (e nada permite sabe-la) podemos ver a que grau zero da responsabilidade política nos tentam condenar. Aquela triste mistela, aquele miserável aproveitamento dos dinheiros públicos, afinal nunca existiu. Há, tão só, dois pulcros partidos, verdadeiros “cavaleiros da Imaculada” (Esta coisa existiu, juro-o mas era, apesar de tudo bem mais inocente) que, perante uma miserável conspirata do “centrão”, tudo fizeram para dignificar a lei e a assembleia que a pariu. E sempre, com a mira num melhoramento futuro, claro mesmo se ele fosse atirado para as calendas gregas.

Esta roupa velha é tóxica e aumenta prodigiosamente o perigo de indigestão post festividades. O mal que esta procissão de lúgubres tontos ou de gente que nos tenta enganar não pode, não deve, ser esquecida depois do foguetório de fim de ano, dos fogachos de artifício, das boas intenções proclamadas para o novo ano.

E não vale a pena tentar vir afirmar que a culpa é dos deputados votantes. A culpa, caros leitores, é das direcções políticas. A deputadagem vota o que lhe mandam, depende absolutamente dos aparelhos partidários, levanta ou senta o calejado cu como lhe mandam os que realmente mandam.

O resto é paisagem.

04
Dez17

estes dias que passam 363

d'oliveira

images.jpeg

 

Também tu, mcr?

 mcr 2 e 4 de Dezembro

Também, leitoras e leitores amigos mesmo se escassos. A minha vontade, confesso-o já, era passar ao lado, assobiar uma modinha e fingir que estava distraído. Mas isso, convenhamos, é impossível. Há mortes que fazem um tal arruído (escrevi arruído, à moda de Fernão Lopes) que não há escapatória possível.

No meu caso, por várias razões sendo que a principal é o facto de ser leitor do “Público”. Leitor desde o primeiro dia com a mesma devoção que me liga a “Le Monde” e a “L’Express”, publicações que compro e leio desde os inícios dos anos 60. Os tempos eram outros, é verdade, mas foi com esses órgãos de imprensa que me formei. Em plena guerra da Argélia, é bom recordar. Numa altura em que era difícil discordar do governo da França e apontar o dedo contra a persistência de mitos como o da pátria indivisível. Hoje qualquer deles mostra cicatrizes e diferenças. Como o Público, claro. Todavia, o caminho do jornalismo livre e independente é mesmo assim. Mudam os tempos, mudam as causas mas não o espírito “frondeur” que, provavelmente amortecido, ainda mantemos mesmo com o passar dos anos, a experiência, as ilusões desfeitas, a “áspera verdade” (Danton) e o inevitável balanço que qualquer um de nós tem (deve) de fazer sob pena de ignorando-o se transformar no papagaio de Long John Silver.

Deixemos, porém, a “Ilha do Tesouro” e passemos à morte do moderno fazedor de tesouros que hoje irá a enterrar: Belmiro de Azevedo, o homem da Sonae, da Optimus, do Público. Morre carregado de um coro de elogios vindos das mais diversas personalidades muitas das quais ele, com algum humor, outro tanto de sarcasmo e muita malícia, foi alfinetando. Bastaria o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa de quem BA disse o que Mafoma não se atreveu a dizer sobre o toucinho. O mais interessante da farpa “belmiriana” é ela acertar em muitos dos pontos fracos de MRS que do comentário do empresário sai muito mal ferido, as mais das vezes com inteira justiça.

Eu nunca falei com a personagem que, de resto, não me fascinava especialmente. Não que não lhe admirasse a habilidade e o gosto pelo risco ou o facto de, ao contrário da grande maioria dos seus colegas, ter criado na Sonae e nos restantes universos empresariais que criou uma verdadeira “cultura de empresa” que, desde cedo, foi claramente visível. Desafiou os poderes do Estado e nem o PREC o conseguiu dobrar. Foi, nessa altura, defendido pelos seus empregados e colaboradores que, como ontem alguém referia, chegaram a fazer uma “greve ao contrário” contra os apetites perigosos de um “Estado” inimigo da iniciativa privada e ignorante do que uma empresa moderna era. As batalhas que perdeu, e o caso da PT é exemplar, perdeu-as na secretaria por batota governamental. A história é o que é mas apetece pensar no que a PT seria gerida por Belmiro. Pior não estaria e é mesmo altamente provável que estivesse muito, mas muito melhor.

Já escrevi que nunca o conheci (nem fiz por isso, aliás). Limitei-me a avistá-lo muitas manhãs de sábado ou domingo a caminhar pelo Molhe metido num vulgar (aliás feio) fato de treino. O homem que passava não parecia rico nem pretendia parece-lo. De certo modo, até essa simplicidade sabe a virtude.

De todo o modo, devo-lhe o “Público”, um jornal que leio desde o primeiro dia e que é uma excepção no panorama jornalístico nacional. Zango-me com o jornal duas ou três vezes por mês mas sei que isso só melhora a relação leitor-jornal. É são discordar. É são irritar-me com certas opiniões ou editoriais. Mas esse é o preço que gostosamente pago diariamente para ter uma informação decente, equilibrada.

Belmiro de Azevedo nunca terá ganho dinheiro com o “Público”. Consta mesmo, que até o perdeu. Aliás, tenho uma prova viva disso. Fui, há largos anos, convidado para colaborar regularmente com uma coluna semanal (ou quinzenal já não recordo). O convite foi aliás repetido durante uns tempos mas tempos de austeridade posteriores deixaram-no sem efeito. Graças a isso, juntei um quarteirão de crónicas que mais tarde com mais alguns acrescentos publiquei em livro. Sem o convite do Público nunca as teria escrito e, provavelmente, nunca teria tido a oportunidade de corresponder ao convite para vir a integrar a equipa deste blog onde escrevo de forma regular há mais de dez anos. Foi bom, foi mau? Só os meus leitores e leitoras poderão responder. A mim dá-me gozo e Belmiro de Azevedo com o seu gesto de criar um jornal (ou de o pagar incondicionalmente) deu-me a coragem para estar aqui a crocitar constantemente contra o estado a que isto chegou.

Para terminar: fala-se muito na coragem de Belmiro em criticar sem receio o poder político. Convenhamos: o homem tinha poder suficiente para o fazer sem temer retaliação. Em vez de coragem, prefiro pensar que ele era profundamente independente dos pequenos potentados que por aí pululam. Mas a independência também tem os seus custos e a PT ou o BPA são disso inequívocos sinais. E isso não é pouco, bem pelo contrário.

R.I.P.

PS: morreu Zé Pedro, guitarrista do Xutos e Pontapés. Não era a minha música, pouco o ouvi mas que ele marcou, e muito, a música ligeira portuguesa, não há dúvidas. E pelo que vi na TV de entrevistas dele, havia ali, um lado luminoso e digno de estar na música e na vida. Só isso já faz uma personalidade.

R.I.P.

 

* razões de pura preguiça atrazaram este post escrito no quente dos acontecimentos. Estive para não o publicar mas o que lá digo diz-se em qualquer momento. Sai hoje sem modificar uma única letra. Preguiça e teimosia e, provavelmente, muita pretensão, são as minhas coordenadas e um pouco o meu compromisso.

13
Nov17

Estes dias que passam 346

mcr

images.jpeg

 

O “jornalismo” de referência de vez em quando descarrila

 

Sou um empedernido leitor de jornais. Sempre fui, parece-me. Mantenho com elas uma relação de fidelidade quase canina. Com “Le Monde” a relação tem 55 anos. O mesmo com “L’Express” mesmo se, ao longo destes anos, a revista tenha mudado muito, demasiadamente. Durante muitos anos fui um fiel leitor do “Diário de Lisboa”, um vespertino de que me saparei algum tempo depois do 25 A.

Quando o “Público” apareceu (vai para quase trinta anos) despedi-me sem saudades do JN e nunca mais comprei outro jornal diário (português). Volta e meia, irrito-me mas, genericamente (como no caso do “Le Monde”, “El País”, “La Republica”), não desisto.

Todavia, há dias em que me zango. E hoje é um deles. Desde há muito que no “Público” há uma secção chamada “espaço público” que normalmente acompanha o editorial. A coisa funciona assim. Alguém, os redactores, suponho, dão setas verdes ou vermelhas a pequenas notícias. Algo semelhante aos “altos e baixos” do Expresso. Hoje, segunda feira, havia duas notíciasa verde uma nem sim nem sopas e uma a vermelho. É sobre esta que quero escrever: o sr Rajoy foi à Catalunha apoiar o PP local e num comício pediu o voto da maioria silenciosa para “recuperar a região do caos do separatismo”.

O redactor notador achou isto péssimo, mesmo se não saibamos se é a frase em si (dentro de comas), a recuperação (perfeitamente alcançável dado o que sabemos) ou a referencia ao caos do separatismo.

Vejamos

A frase é perfeitamente plausível num político conservador ou até num político qualquer desde que não seja a favor do separatismo.

Que Rajoy apele a essa maioria (que raramente vota e que, segundo consta, é contra a independência) é absolutamente normal e se seta vermelha houvesse seria devido a não pedir esse voto.

Que a Catalunha enfrenta grandes dificuldades futuras ninguém duvida. Fugiram, até sábado passado, 2700 empresas. Pelo menos metade (aliás um pouco mais) dos votantes nas últimas legislativas é anti independentista e já se tem manifestado com uma força semelhante às manifestações independentistas. Que uma “república catalã” ficaria absolutamente isolada na Europa (ou na Europa da UE) é, até à data, uma clara certeza. Que os cidadãos catalães ficariam fora do euro, de Schengen, idem. Que o principal mercado catalão (a Espanha) pode fugir, boicotar, diminuir é outra verdade de La Palisse. Que isso criará dificuldades enormes e protestos identicamente fortes é uma evidência. Que o primeiro ministro de Espanha não queira uma situação deste género nem merece discussão.

Portanto, pergunta-se à criatura que assina RS onde é que ela vê razão para uma seta vermelha.

Claro que RS pode não gostar de Rajoy. Pode detestar o PP e os conservadores onde quer que seja. Pode ter um profundo amor pela “causa catalã”, pelo senhor Puigdemont, pela senhora Forcadell, pela CUP. Pode detestar medonhamente a Espanha, a União Europeia, o euro e sei lá o que mais.

Todavia, para isso, só tem de pegar na caneta e escrever um artigo de opinião. Se a tem. Se é capaz de falar do assunto com um mínimo de conhecimento e, já agora, de qualidade. Não pode, ou não deve, fingir que a sua seta tem razão de ser numa notícia de dez escassas linhas. A menos que ache que Rajoy é um fascista encapotado que, de faca nos dentes, está a invadir a Catalunha para sufocar pela força das armas o que alguma lei (qual) direitos ofendidos e legítimos.

Já por aqui falei dos padeirinhos de Aljubarrota espécie indígena que traz nos meigos coraçõezinhos a lembrança imperecível dos batalhadores da época joanina, dos restauradores de 40 e a cólera pelo roubo de Olivença. Não suporta “castelhanos”? Pois que não vá ao “El corte Inglês”, que não compre na “Maximo Dutti”, na “Zara” que não tenha conta no Santander Totta ou no Millenium (hoje de “La Caixa”, empresa que logo no primeiro dia abandonou a Catalunha). Que indague cuidadosamente se as laranjas ou as cenouras ou as cebolas que compra no supermercado vêm ou não do odiado país. E cuidado com o peixe que vem de Espanha às toneladas. E com os camarões congelados, os carabineiros sem falar do bacalhau (há três ou quatro grandes marcas espanholas a impingir-nos o bacalhau deles. O mesmo se passa com o atum. O melho seria mesmo fazer uma campanha contra os milhões de turistas espanhóis que invadem o país nas datas festivas (brevemente cairão por cá durante o feriado da proclamação da Constituição). Coño, RS, a por ellos!

E "visca Catalunya liura"...

02
Nov17

Estes dias que passam 345

mcr

1467842950800_villapisani.jpg

O regresso do presidente

ou o não regresso

ou...

 

Parece que o senhor Puigdemont volta à “pátria” desalmada, depois de não ver Bruxelas em festa com a sua fulgurante presença (e nem refiro os seus consellers igualmente em trânsito pela capital belga). A conferência de imprensa, não obstante ser dada em três línguas (não me pareceu ouvir catalão, provavelmente porque ninguém perceberia) foi de uma pobreza dramática. Eu não sei se o sr. Puigdemont se apercebeu do ridículo da sua posição, da inabilidade da sua fuga precipitada, da impossibilidade (legal, teórica, política e ética) de alguém lhe conceder asilo político.

Também não consigo entender como é que alguém se lembra de desandar para paisagens mais amenas e deixar para trás cinco companheiros de Govern, para não falar em milhares de cidadãos desamparados, desesperados e (eventualmente) envergonhados com a deserção do chefe.

A menos que.... a menos que o pobre Carles quisesse fazer um frete a Rajov. Este, se bem conheço o galego, deve ter esfregado as mãos de contente. Um “sedicioso” em fuga confessa todos os crimes mesmo os que não ocorreram.

.................................

Estava eu entretido com outras coisas, sem terminar o texto que acima se lê, quando afinal verifico que o fugaz fugitivo não voltava à “terra liura” porque tanto suspirava. À terá onde, em conferência de imprensa, jurou voltar. Em duas ou três horas mudou mais uma vez, e como é seu costume, de opinião. Puigdemont não só erra a cada momento como é errático. Com esta (sei lá se derradeira) posição complica a vida dos seus companheiros. Dos que ficaram e dos três que, tendo-o acompanhado, entenderam vir defender-se em Madrid. Dar a cara. Ter a coragem das suas opiniões e convicções, mesmo se delas se discorde. Carles, o insubmisso inconstante, ficou no quentinho de Bruxelas, amparado por um advogado flamengo que já se distinguira por defender os pistoleiros da ETA. Está, pois, em boa companhia mesmo se qualquer pessoa dotada de senso duvide que ele, Puigdemont seja capaz de brandir uma pistola mesmo contra um adversário desarmado. Carles é tímido, para não dizer que é um cobardolas até dizer basta.

Afirma ele, pelo advogado dos mafiosos, que não confia na Justiça espanhola que, porém, inspira todos os restantes -e são uma boa dúzia- de dirigentes independentistas. A menos que os anime uma fé de mártires (sempre convenientes para uma causa nada e criada na boa burguesia catalã), eles esperam poder enfrentar a juíza que os vai ouvir hoje sem grande sobressalto. Todavia, e é aí que bate o ponto, a fuga de Puigdemont e de três ou quatro ex-consellers, basta, segundo juristas de várias tendências (incluindo no lote catalães), para se ordenar a prisão preventiva por receio de fuga. Aqui temos um belo exemplo da solidariedade do ex-President e do desnorte que campeia no bando nacionalista. Isto, esta caótica e insensata retirada do campo (incruento) de batalha, permite ver mais claro como a campanha independentista foi, como se alimentou de mentiras (Junqueras garantia mesmo depois da saída da “Caixa” que aquilo era mero folclore e que tudo regressaria à normalidade depois da declaração de independência), de obsessivos erros continuados (uma Catalunha independente da Espanha não teria nunca lugar na União Europeia, não exportaria os seus produtos com a actual liberdade, não conseguiria para os seus cidadãos a livre circulação na União, perderia seguramente grande parte do seu mercado exportador (que é, lembremos, intra-espanhol) não conseguiria para os seus habitantes um mirífico estatuto de dupla nacionalidade (como se anunciava) para não falar nos entraves que uma Espanha ferida poderia criar-lhe na fronteira (que é duas vezes maior do que a francesa). É duvidoso que conseguisse voos que sobrevoassem o espaço aéreo espanhol para o seu aeroporto e arriscava que as empresas estrangeiras até agora sedeadas em território catalão continuassem lá, sobretudo as que exportam (industria automóvel por exemplo). A propaganda independentista baseava toda a sua propaganda na aceitação cordial, simpática, construtiva do negregado “Estado espanhol”, sobretudo deste Estado ora governado pelo Partido Popular.

À margem: leiam o programa do partido de Puifdemont ou da Esquerra Republicana e tentem vislumbrar na sua filosofia intrínseca e nos princípios para que apelam, diferenças substanciais com o programa do PP.

Ainda mais à margem: uma gloriosa mas escassíssima minoria de entusiastas portugueses (os padeirinhos de Aljubarrota) sentiram-se profundamente irmanados com o agrupamento CUP que, numa região eminentemente burguesa e intrinsecamente capitalista por convicção e tradição, propõem sair da Europa, do euro e mergulhar nas delícias de uma espécie de via albanesa ou coreana( do norte, entenda-se).

Eu bem sei que estes lusitaninhos ardentes estão a dois passos de passar a colaboradores, ou aliados íntimos, do PS, de eventualmente, nele se integrarem. Vontade não lhes falta e muito menos descaramento mas que a coisa vem aí, ai vem, vem. Podem estar certos. O poder cheira deliciosamente a quem está à frente dele e não lhe toca. Ou como alguém já disse: o poder corrompe. Muito ou pouco, mas corrompe, desvaria, enlouquece.

24
Out17

Estes dias que passam 344

mcr

images.jpeg

jurista não praticante

 

Formei-me em Direito na Universidade de Coimbra no fim dos anos 60. Frequentei, até ser preso, o então chamado 6º ano, ou seja o Curso de Ciências Jurídicas, privilégio apenas acessível a quem tivesse uma média de 14 valores. A coisa seria, na época, uma antecipação do actual Mestrado, talvez um pouco mais, não sei dizê-lo ao certo. Nos anos que se seguiram, já advogado (a função pública estava-me vedada por razões políticas) frequentei e concluí o “Cours Superieur de Droit Comparé”, bem como duas outras variantes do mesmo dedicadas respectivamente ao Direito de Trabalho Comparado e ao Direito das Instituições Europeias. Depois da severa brutalidade das aulas conimbricenses era fácil obter notas bastante agradáveis nesses cursos e, por isso, obter bolsas de estudo que permitiam frequentar as universidades europeias onde esses estudos tinham lugar.

Entretanto, veio o 25 de Abril e alguns amáveis cavalheiros da “oposicrática” entenderam que eu poderia utilmente salvar a pátria dos egrégios avós, servindo a causa pública, primeiro na Segurança Social e depois na Cultura. Acabou-se o exercício do Direito e a eventual abastança que, na altura, ele prometia.

Confesso que a desistência da perseguição da riqueza não me causou especial engulho. A função pública, mesmo se levada a sério e rigorosamente, permite ao funcionário consciencioso fazer o que tem a fazer bem e dentro, muito dentro do horário convencionado. Ficavam-me, pois, livres os fins de tarde, as noites e os fins de semana. E as férias todas, tudo coisas impossíveis para um advogado que não tenha padrinhos. aproveitei conscienciosamente esse tempo imenso para ler, ver exposições, viajar, ir a festivais de cinema, de teatro e de jazz bem como a jogar bridge uma paixão que herdei de meu pai.

O mundo solene do Direito foi-se afastando de mim e eu dele sem remorso, saudade ou desgosto. Apenas um par de velhos amigos e colegas me ia dando notícia dos tribunais. E assim sobrevivi sem grande abalo até hoje.

Todavia, hoje, este meu adormecido mundo antigo, digno e austero, devotado à causa das pessoas e dos seus direitos começou a cambalear.

De facto a notícia de uma sentença que, além de insensível e insensata, cheira a beatério jihadista e a preconceito rançoso e canalha, sobressalta mesmo quem, desde há muito, anda longe dos subterrâneos da Justiça.

Ora vejamos: uma mulher casada teve uma relação adúltera com outro caalheiro. Resolveu, porém, terminar tal relação. Inconformado o amante preterido doravante chamado “corneador” solicitou ao marido “ultrajado” (doravante referido como “cornudo”, “chifrudo” ou “pirilau mole”) ajuda para a difícil tarefa de pôr a relapsa na renovada via do adultério.

Este, sempre prestável (resta saber se não terá ele mesmo empurrado a amantíssima esposa para os braços do galã repudiado) muniu-se de uma moca convenientemente reforçada por pregos e, juntamente com o outro (ou, pelo menos, às suas ordens), espancou fortemente a grevista aos actos de cama.

A criatura espancada pediu justiça, o que não é para menos. Afinal, como parece verificar-se, recusara as solicitações amorosas do seu antigo amante pelo que, força-la a reactivá-las sob ameaça de agressão a dois e com moca configura, para o senso comum, uma tentativa de violação.

O cornudo que, pelos vistos, usa uma moca com pregos para substituir um pénis inerme e inerte ajudou claramente o corneador na sua tarefa de obrigar uma mulher a deitar-se com ele. Provavelmente, o “pirilau mole” teria direito a deleitar-se com o espectáculo da legítima sob o resfolegar acintoso do corneador.

O caso foi julgado e da decisão de primeira instância (eventual condenação do(s) agressor(es) houve recurso para a Relação.

Ora. é aqui que entra em cena um Senhor Desembargador (e uma Senhora Desembargadora, já agora) que numa sentença de que entre espantado, envergonhado e enojado li na íntegra.

Já os jornais, várias associações e, mesmo que de forma pouco clara, para não dizer absolutamente obscura, o Conselho Superior de Magistratura, tiveram oportunidade de questionar as extraordinárias e aviltantes considerações do juiz desembargador sobre a medonha situação das mulheres adúlteras.

Até a Bíblia é chamada à colação! E mal chamada, ou viciosamente chamada, porquanto o meritíssimo Desembargador e a não menos excelentíssima Desembargadora, não recordam -ou ocultam a resposta de Cristo quando observa que à mulher adúltera só podem atirar pedras os ue não pecaram anteriormente.

Portanto, os dois desembargadores deveriam reflectir (e bastante) antes de citar o que não conhecem, ou conhecem mal, muito mal.

Seguidamente, e aqui que o meu ponto assume alguma relevância, é que foram dois homens conluiados e armados que exerceram uma indescritível violência contra uma mulher (normalmente mais fraca, mais frágil e com menos capacidade para se defender) . Um deles, o amante preterido chamou como ficou provado o marido de quem a mulher estava separada havia meses- Depois, não colhe o miserável argumento da indignação do marido quando também ficou provado que havia meses que sabia da “infidelidade” da mulher que dele se separara chegando ao ponto de a acusar de puta e de não se deixar sodomizar por ele quando, no dizer do triste cornúpeto o fazia com “todos os homens” (sic).

A simples ideia de que uma relação conhecida há meses, seguida de separação, é capaz de suscitar uma depressão é uma barbaridade para não dizer algo mais forte e provavelmente mais verdadeiro acerca do bom senso e inteligência de quem aceita esta esfarrapada desculpa.

A cobardia manifesta ainda não é alvo de censura jurídica. Mas os actos violentos que ela genera já o são. O adultério pode ter sido considerado uma coisa horrenda durante séculos. Ainda é punido com a lapidação em países bárbaros como alguns do Médio Oriente. No Ocidente, o adultério, há muito, praticamente sempre, foi desculpado ao homem. No que toca à mulher a coisa fiou mais fino mas, mesmo assim, no século XIX era mais um argumento de grandes romances (Madame Bovary ou Ana Karenina, ou mesmo “O amante de Lady Chaterley)) do que um crime tão grave como a insuportável adjectivação utilizada pelo distinto magistrado.

Entre nós, há muito que a coisa perdeu boa parte do significado que alguma vez teve.

“ O tempora, o mores”: que de crimes se cometem em nome da modernidade. Felizmente alguém vela. Pelo menos, um homem e uma mulher no Relação do Porto. Com ele as desavergonhadas, as desonestas, as traidoras do lar estão sob cuidada e piedosa suspeita. Pena já não haver o depósito da mulher (extinto em 1967) e, pelos vistos não citado pelos abnegados servidores da justiça que, porém, não se coíbem de citar um Código Penal há muito revogado.

Já não bastavam os fogos, o BES, a corrupção de vários uitos próceres da Pátria Imortal e eis que agora, insidiosamente, uma sentença dada em pleno século XXI nos faça regredir enquanto, nação, país, povo para as brumas da memória.

E mesmo aí, há que reflectir: um bastardo de D Pedro I , o Cru, João de seu nome, apunhalou a sua mulher (D Maria Teles, irmã da Rainha) sob o falso pretexto de que ela o traía. De facto, pretendia casar com a sobrinha Beatriz, herdeira do trono. Teve de se homiziar para escapar ao castigo, acabou como renegado ao serviço de Castela, invadiu Portugal sem glória nem proveito e acabou prisioneiro do rei castelhano, morrendo na prisão e na infâmia.

Ou seja, nem sempre o castigo da adúltera foi passado sob silêncio ou compreensão. E à medida que os costumes se humanizavam, mais e mais, diminuiu a condenação da sociedade, equiparando cada vez mais o adultério feminino ao masculino.

Conviria dar conhecimento disto aos senhores desembargadoras, ora em causa. Mesmo se não se esperem grandes resultados. A intolerância entranha-se e é coo uma nódoa de azeite: expande-se e não desaparece sequer com lavagens sucessivas.

*os leitores verificarão que não se nomeiam as personagens desta novela de faca e alguidar. É por mero decoro, por imerecida piedade e por sentido de vergonha.

 

**na gravura lapidação de adúltera (pilhado na internet)