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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Jan19

Estes dias que passam 385

d'oliveira

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E a Caixa?

 mcr aos 21/1/19

(não sou especial fã dos CTT – nem na nova forma nem na antiga –vivo numa zona onde não faltam agências -parece que agora se chamam lojas-, uso a empresa apenas para cartas registadas ou envio de embrulhos, o que significa um uso muito marginal. Não conheço nenhum dos figurões que o dirigem nem me apetece conhecê-los. Sou, tanto quanto me parece, relativamente neutral nesta questão que subitamente parece levantar-se ou agravar-se).

A nova empresa CTT tem, segundo testemunhos razoáveis e críveis, diminuído o número de postos (ou estações). Por seu lado o Conselho de Administração da empresa jura que aumentou o número de locais onde os usuários dos correios podem ser atendidos.

Neste ponto, conviria perguntar se esse aumento colmata a falta que o encerramento do anterior posto criou. Isto é, se a população órfã de serviço de correios, tem com igual comodidade acesso a outro idêntico ou melhor. A pergunta é legítima porquanto o novo local pode ser em zonas já com serviço de correios deixando sem ele outras que correspondiam ao posto encerrado. Não é a mesma coisa abrir loja em Lisboa para substituir a que se fechou em Carrazede do Meio.

Em segundo lugar, seria bom e útil saber quais os serviços que deixaram de ser prestados nas zonas ora desertadas. Duvido bem que seja a recepção ou envio de correspondência. Não por estes terem sido substituídos pela internet mas apenas pela singela razão de nos meios envelhecidos e rurais não só subsistir algum analfabetismo mas também não ser normal a troca de correspondência. Já o caso dos vales de correio com a magra reforma e uma que outra encomenda poderá efectivamente tornar-se um problema mais sério.

Em terceiro lugar, poderia pensar-se no serviço de telefone fixo muito embora o mesmo agora possa ser processado por várias empresas que retiraram aos CTT esse monopólio e, desse modo, deixaram ainda mais abalado o nome da empresa. Nem telefones e pouco ou nada de telégrafos...

 

Conviria, porém, atentar neste facto: Há um outro serviço dito público, dito de medonha importância para os cidadãos que também tem vindo a desaparecer aceleradamente do interior: A Caixa Geral de Depósitos, o tal banco “público” que já nos custou uma fortuna e que encerra balcões com uma velocidade que se mede com a usada pelos CTT (também ele, agora, banco) . Permitir que aquela em nome do interesse público e da economia feche balcões ao mesmo tempo que se ruge contra idêntica atitude dos CTT parece-me ser mais um apelo ao uso de língua bífida do que crítica razoável. Tanto mais que a Caixa também era o mealheiro dos mais pobres, o local onde se descontavam as magras pensões de reformados vivendo no interior e que também recorriam à famosa “caderneta” onde constavam as suas escassas poupanças.

O jornal Público traz na edição de hoje (23/1/19), e em páginas centrais, um resumo da escandalosa lista de empréstimos de alto risco a personalidades e empresas portuguesas de onde até à data já resultaram largas centenas de milhões de euros de prejuízo. Na impossibilidade de “nacionalizar” a Caixa só se vê a hipóteses de a privatizar!... Isto para usar do medicamento “reversor” que agora está na moda.

Convém lembrar aos mais assanhados “renacionalizadores” que retirar os CTT da esfera privada poderá ser um excelente negocio para os accionistas que viram a empresa perder mais de 50% do seu valor de venda.

A ideia peregrina de defender o “serviço postal universal” coitadinho é de “ir às lágrimas”. Está-se a defender algo que, se não está morto, está já moribundo e pronto a receber os santos óleos. Não sei se ainda existem os “postais” da minha juventude (pois não os vejo à venda em parte alguma) ou se ainda se troque correspondência em papel. Pelo fraco movimento de venda de selos nos quiosques adivinha-se o cada vez mais reduzido uso deste meio de comunicação. Isto, nos quiosques onde ainda é possível encontrar selos. E a razão é simples: o correio electrónico é gratuito ou, melhor faz parte de um pacote onde também entram a televisão, os restantes serviços de internet e o telemóvel. E se é verdade que, subsistem muitas dezenas de milhares de portugueses info-escluídos, também não é menos verdade que é nessa categoria que se encontram os grupos que menos consumo fazem de produtos dos CTT.

Provavelmente, com certa ironia, um jornalista do citado Público afirma que com a reversão dos CTT só há um ganhador: o grupo privado accionista dos CTT que se livre dos incómodos e fica com a parte boa, o Banco CTT que, à luz das regras da UE, não é nacionalizável.

Depois, se verá se reabrem as lojas fechadas e/ou substituídas por postos nas sedes das juntas de freguesia. E no, improvável caso de serem reabertas, se funcionam com o mesmo número de trabalhadores ou com outro bem superior (relembremos a famigerada passagem das 40 para as 35 horas de trabalho). E se o reactivado serviço universal postal miraculosamente faz surgir cartas às centenas ou aos milhares par justificar as ânsias reversoras de algum PS (que espera votos e postos de trabalho) e da generalidade dos seus aliados a quem a ideologia nacionalizadora cega até à demência. E se tudo isso leva à famosa revitalização do interior, à criação de empresas e de indústrias que mobilizem os escassos recursos humanos locais e exijam uma nova corrida de gente a estas regiões. E, já agora, se obrigam a CGD, tão pública e tão amiga dos desfavorecidos, a reabrir os balcões entretanto fechados.... Sonhar é, sempre, fácil –já agora seria interessante ver responsabilizados os gestores que, contra todas as boas regras do negocio bancário, ofereceram um bodo a uns quantos influentes (e eventualmente receberam uma gorda gorjeta pelos bons serviços prestados). E nessa responsabilização seria bom ver implicados os governantes que indicaram, impuseram e nomearam essas administrações que só lá foram colocadas para servir amigos, amigalhaços, afilhados políticos e outros espécimes de má frequentação. É verdade que a cadeia de Évora está superlotada mas com uns módulos a mais (como no caso dos contentores da pediatria do Hospital S João) acolher-se-iam uns quantos “cavalheiros de indústria” que tem sangrado o país e a Fazenda Pública desaforadamente. Se os contentores podem acolher crianças durante décadas também poderão dar guarida a adultos ladrões. Poder-se-ia mesmo, instalar lá uma estação de correios mesmo que se duvide que os nela instalados sejam capazes de escrever sem erros...

* na ilustração: a medonha mastaba que se vê é a sede da CGD em Lisboa. Mais do que um susto! A pedir um terramoto ali mesmo localizado a bem do bom gosto  (e do bom senso).

08
Jan19

Estes dias que passam 384

d'oliveira

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Indo por partes

mcr 7/8 Jan 19

 

O país, algum país, provavelmente apenas uma pequena parte, está comovido, exaltado, indignado ou, simplesmente, excitado. A causa tremenda é conhecida: um pobre diabo, um indivíduo sem a mínima representatividade (política, moral, social) apareceu num programa da manhã a responder a uma questão (também ela) pouco interessante. Tratava-se, ao que li e agora estou farto de ouvir, de saber se Salazar, enfim o seu impertinente fantasma, estava vivo (como o de Stalin nos corações progressistas de uns centos de criaturas “m-l” que ainda hoje rodam por aí dentro de partidos legais ou de frentes partidárias assumidas e com responsabilidades) e se seria necessário o seu regresso. Convenhamos que a pergunta não era do mais inteligente e que denotava falta dolorosa de tema para uma televisão ou para um programa (ou para um mero apresentador).

Todavia, um tal Manuel Machado, assanhado cabeça rapada, foi ao dito programa dado, pelos vistos, ter “opiniões polémicas”. No caso polémico deve significar burro (e não me refiro só ao entrevistado...).

Na questão de polémicas ficou-se por pouco. Regougou umas frases com escasso sentido e pior gramática, afirmou que não era contra os homossexuais nem contra os pretos e deixou no ar – ao que consigo perceber dos relatos confusos mas palavrosos que vão chegando – a ideia de que com uma extrema direita daquele género podemos nós, sem sequer erguer um pé para uma canelada. A coisa foi, e estou a ser generoso, risível. Direi mesmo que convinha repetir o programa duas, dez, vinte vezes para que o público português percebesse que se o perigo é aquilo então poderemos dormir descansados. Um pouco como a prestação da senhora Le Pen frente a Macron: um desastre e uma goleada do actual presidente francês.

Uma segunda constatação, também prévia decorre da personagem entrevistada. A criatura tem antecedentes criminais e não poucos inimigos no meio onde vegeta. Foi condenada e esteve na cadeia largos anos pelo que, nesse domínio, pagou à sociedade as suas malfeitorias. E pagou-as pesadamente, ao contrário de algumas “personalidades” que, volta que não volta, se pavoneiam nas televisões indígenas e que tem nas mãos o sangue inocente de umas quantas “vítimas colaterais”. Não consta que tenham sido julgadas e condenadas e, pelos vistos, aquilo, aquela autoria moral descabelada, parece ter sido um pecado venial, umas dores do parto da democracia, uns pequenos excessos perdoáveis pela opinião pública já esquecida (ou apenas conformada com uma justiça a várias velocidades e com a conveniente amnésia política da nomenkatura).

Portanto, vir agora, relembrar o passado prisional do tal Machado parece-me uma segunda tentativa de condenação por factos já julgados e punidos.

Porém, o pior disto tudo, desta gritaria escandalizada de filisteus é confundir uma burrice televisiva com um golpe de Munique, com uma marcha sobre Roma, com um 28 de Maio, com a “cruzada” do Franco, para já não falar do tropical Jair que arrota postas de pescada num português lamentável diante da impassível e fraterna testemunha que de Portugal lá foi para defender a CPLP, a “amizade” luso-brasileira, os restos de uma colónia de portugueses em terceira geração que, eventualmente, terão aplaudido o capitão “mito” com ambas as mãos.

Hoje os jornais noticiam que mais de trezentas “personalidades” e um quarteirão de pessoas colectivas (de que pouca gente ouviu falar, cuja actividade era até agora desconhecida ou mínima) escreveram uma “carta aberta” que, francamente, também não demonstra que os redactores tenham inventado a pólvora. Nos últimos dias o sindicato dos jornalistas, uma alta autoridade que tutela a imprensa, vários jornalistas e comentadores com tabuleta na última página de um jornal de “referência”, enfim todos, ou quase, ou seja, os do costume, vieram subscrever-se no politicamente correcto em bicos de pés, “também eu, também eu”... Deprimente!

Contra a corrente, só li Pacheco Pereira, honra lhe seja, que marcou com segurança as fronteiras desta nova guerra do alecrim e da manjerona.

Entre os indignados sobressai a baça figura do senhor Ministro da Defesa que num tweet alardeou duas considerações de fraca qualidade e uma imagem de florestas a arder para agradar a incendiários. S.ª Ex.ª ministro da “grande silenciosa” (as forças armadas) deveria ter reflectido cinco minutos andes de se esganiçar contra a estação de televisão onde os factos horrendos se passaram. É que poderia alguém, de má fé, claro!, pensar que na declaração do cidadão que, aliás, é ministro e não dos menores, perpassava a sombra de uma coação. Claro que S.ª Ex.ª nunca, de nenhum modo, sequer em sonhos, quis dar essa penosa impressão. Não quis mas deu.

Do senhor ministro espero com intranquila ansiedade algo sobre a merda de Tancos e sobre os que sabiam do que se tratava. Falo de militares e de civis e dos importantes. Até à data, nada, zero, raspas de raspas... Como se, cada vez mais, o rol de culpados e conhecedores alastrasse qual mancha de azeite e fosse paulatinamente atingindo muita gente acima de toda a suspeita (se é que se lembram de um filme italiano de Elio Petri: “indagine sul un citadino al di sopra di ogni sospetto” (1970, um grande filme político)

S.ª Ex.ª tem o direito de cidadania como é evidente. No entanto, é ministro. E um ministro tem de saber que tudo o que faz ou diz é escrutinado pelos cidadãos, amigos ou adversários, como já ocorreu um par de vezes com outros membros do actual executivo, mormente a senhora Fonseca, ou, antes, o senhor João Soares o “esbofeteador” e aquela senhora ministra da Administração Interna de que já nem o nome recordo. Aos senhores ministros pede-se trabalho, zelo, competência e que despachem as matérias que lhes competem com brevidade e sensatez. Não precisam, como Tartufo, de vir para arena bater três vezes com a mão no peito. A gente sabe que o senhor ministro é democrata, dos quatro costados. Se quiser adversários escolha um à sua altura melhor que um rapazola já entrado em anos, de suástica no braço e poucas ideias na cabecinha sonhadora.

Não quero com isto dizer que me não preocupam os assomos autoritários de governantes seja cá seja no Brasil, na Venezuela, na Guatemala, na Coreia do Norte ou na China. Ou no leste europeu onde perpassa um cavalheiro húngaro que também foi fraternamente abraçar o Bolsonaro. Vivi trinta e três anos da minha vida sob um poder rural, católicão, gangrenado por dentro, incapaz de pensar o mundo exterior e de perceber a sociedade portuguesa. Não me conformei e recusei-me a ser súbdito dessa gente. E lá marchei para cadeias variadas. O melhor da minha vida passou-se nesse universo cinzento, pesado e triste. Apesar de tudo tive sorte, porquanto alguns centos de portugueses tiveram pior estadia nas cadeias e por mais tempo. Talvez a minha juventude me tivesse salvo de horrores piores. Duma coisa estou certo. Esses anos e os primeiros da democracia curaram-me de várias coisas, entre elas do hábito de gritar pelo lobo mesmo se apenas se avista um pobre cão. E de ver o mundo a preto e branco. Dum lado os atentados à liberdade pessoal são monstruosos do outro, simétrico, são louváveis esforços de construir o futuro. Não são. Ponto, parágrafo.

Se, e quando, o autoritarismo anti libertário vier, não terá o Machado como anjo anunciador, podem estar certos. Espero que, nessa altura, os que se apressam a ver a floresta a arder mesmo quando a luz que se avista seja apenas a de um pirilampo à procura de fêmea, se exaltem e se disponham a agir. A agir. A impedir. A dizer, alto e bom som, NÃO.

Até lá, bom ano.

* Na gravura: o ovo da serpente (filme de Ingmar Bergman)

02
Jan19

estes dias que passam 383

d'oliveira

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Novo ano. Ano novo?

mcr 2.1.19

 

Arre que esta já passou! Refiro-me à noite de “ano bom” que para muitos, eu incluído, é uma valente estopada. Mesmo em família (e a que me caiu na rifa é óptima) as coisas são sempre complicadas. Comecemos pelo jantar. Mas antes uma referência ~2ª em 12 meses! - ao inevitável Nuno Maria que com uns meros 13 meses está que ferve. O catraio aprendeu a andar, anda sozinho, com uma que outra aflição, cai e levanta-se sem se dar por vencido e, sobretudo, para a sua pequena figura parece ser dotado de uma energia imparável. As pessoas cansam-se só de o ver no espaço que se criou em ambas as casas (nossa e dos pais dele), mcerca de 5 ou 6 metros quadrados (mais ou menos o mesmo espaço que me era dado em Caxias nos tempos nunca saudosos da “outra senhora”) fechados por sofás e cadeirões. Incansável e bem disposto, deve ter pensado que aquela era a sua particular corrida de S Silvestre e levou a peito ganhá-la. Só interrompia o passeio para se apoderar dos telemóveis da mãe ou da avó que a criançada desta leva já nasce com o dedinho espetado para a electrónica. Aguentou a pé firme até tarde, demasiado tarde, e foi para a cama contrariado. Estava claramente possuído pelo espírito festivo dos mais alucinados adeptos dos “reveillon”!

E voltemos ao jantar: A minha enteada (melhor filha não podia eu ter tido) acha que um jantar para tão pouca gente há de dar para três vezes (e estou a ser modesto) mais pessoas que as presentes. Com as entradas , entre marisco, enchidos, queijos vários, teríamos todos ficado mais que bem comidos. Sobretudo porque havia uma infinidade de sobremesas, entre elas um queijo da Serra que  ficou a rir-se de mim... Mas a Ana não pactua (pactuar e não “compactuar” , alarvice agora em uso nos ignorantes de português) com essas modernices e vá de arranjar uma sólida “piéce de resistance”, no caso um excelente bacalhau disfarçado que já só provei por falta de espaço.

É uma dor de alma o que fica por comer mas eu já não estou na primeira, segunda ou terceira mocidade.

Depois, há aquela coisa chamada televisão portuguesa e os seus programas para a data. Medonho, horrendo, inqualificável ou abaixo de cão, escolham vocês a expressão mais adequada. Em boa verdade, durante grande parte do tempo, o que se via era a “baby tv” para uso da criancinha aguerrida que aliás, se estava nas tintas. De resto, cá em casa ele vê com a mesma atenção o “Mezzo”. Já ouviu ópera, jazz, concertos vários e até bailado. Desde que haja música e umas figuras a adejar, ei-lo atento durante um período máximo de dez minutos que, depois, vira-se para os telemóveis, os computadores ou os comandos da aparelhagem. Suspeito que são os pais os principais admiradores da tal “baby tv”.

Como ia dizendo assistimos, em paga dos pecados veniais e capitais que teremos cometido ao longo de 2018, ao desbragado programa com a tv portuguesa entendeu brindar a lusa gente. Um desastre, Alcáçer Quibir redobrado. Se se resiste aquilo, então resiste-se a tudo durante o ano que entra.

No dia 1, ao fugir de outros desmandos televisivos, caí, num programa da orquestra de André Rieu, no caso um concerto na praça principal de Maastrich em pleno Verão. Coisa mais ou menos ligeira mas cheia de energia e de comunicação inteligente com um público holandês mais do que entusiasta. Eu tenho, de outros tempos, a recordação (excelente) de três meses nas terras batavas e não recordava o facto daquela malta ser capaz de se divertir assim. E também já não me lembrava de eu mesmo ser capaz de aguentar três horas a ouvir valsas, sucessos musicais antiquíssimos (“Granada”, “Marina”- do Marino Marini, oh imensa saudade, ou o “nel blu dipinto di blu”  do Modugno, coisas da minha verdadeira e perdida adolescência). Isto, esta música relativamente passável mas alegre e tocada com brio profissional, valia uma tonelada de programas nacionais, nossos. E dizemos nós, num mais que ledo engano, que os povos do sul é que são animados! O Tanas e o Badanas! Ou mais europa do norte: o Tanhäuser e o Badanauser!

Do resto do dia primeiro apenas vi o nosso inimitável 4º pastorinho no Brasil para assistir à posse de Bolsonaro. Não vejo qual a necessidade. Laços especiais, dizem-me. Nem laços nem laçarotes. Se ao menos fosse lá para enterrar o miserável “acordo ortográfico”...

Esta ida só legitima o recém chegado presidente e parece ir ao arrepio do resto da União Europeia. É bem verdade que aquele sacripanta da Hungria estava presente mas, convenhamos que para companhia, antes o fantasma de D Sebastião.

E já agora bolsonemos: Bolsonaro foi eleito por uma confortável maioria e não houve notícia de fraudes eleitorais. Por muito que isso custe, foi democraticamente escolhido pelo povo brasileiro. Agora é que se vai ver o que fará tanto mais que o Congresso tem cerca de trinta partidos e que o mais numeroso deles é o PT. Estou para ver o que é que infrequentável evangelista vai poder fazer. Como chegou lá, já sabemos. Chegou porque, antes, a corrupção, o crime (63.000 homicídios/ano!) a troca de favores e o desastre económico prepararam a opinião pública.

Curiosamente, Bolsonaro, nestas últimas semanas, quase apagou os desmandos, esses sim cada vez mais patentes, mais perigosos, mais infames, dos senhores Maduro e Ortega. Nessas zonas tão próximas do Brasil, morre-se à míngua, de fome de falta de medicamentos, de morte matada de tudo o que é opositor. Por cá alguns antipatizantes (permitam-me o neologismo) de Bolsonaro calam-se como ostras quando a Venezuela ou a Nicarágua interrompem a conversa.

Pela parte que me toca, vou seguindo o que oiço de Fernando Henrique Cardoso, o melhor presidente que o Brasil teve desde que me lembro e lembro-me bem dos Café Filho, Juscelino e posteriores, generalagem incluída. Ver para crer. Estar atento (muito atento) aos desmandos do tal Jair mas enquanto as coisas não passarem disso, de palavreado imbecil, não me comover demasiadamente.

De todo o modo, ver S.ª Ex.ª, o Presidente a cumprimentar aquela criatura não me alegrou, não compreendi, antes me envergonhou. Est modus in rebus que não há comunidade linguística que tudo justifique.

Para começo de ano, basta o frio, a bolsa em queda, bastam as greves caseiras e os maus programas de televisão.

 

*na gravura: A Nicarágua do heroico Ortega

28
Dez18

Estes dias que passam 382

d'oliveira

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Alguém mente

mcr 28.12.2018

A Sr.ª Ministra da Saúde veio para os jornais afirmar que, no caso da Maternidade Alfredo da Costa, não houve anestesistas nem a 500 euros por hora.

Por hora? Quinhentos euros? Exactamente, disse e repetiu a azougada senhora. A Ordem dos Médicos veio dizer que S.ª Ex.ª não dissera a verdade. Por outras palavras: que mentira. E mentira à barba longa. Hoje, uma empresa das que fornece médicos veio dizer que o máximo permitido por lei era cerca de 39 euros. Isto é doze vezes menos do que o número da Ministra. Doze vezes! Arre!

Também é verdade que, já que se vai mentir, ao menos que se minta em força. Mentir por ninharias nem vale a pena.

A Sr.ª Ministra, entretanto, parece desconhecer que só em Lisboa faltam quarenta (40!) anestesistas. Sabendo-se que os hospitais preparam cerca de cem anestesistas por ano, e que o país vai ligeiramente além de Lisboa, fácil é de concluir que não é para amanhã a solução deste problema.

Alguns comentadores afirmam que os anestesistas preferem trabalhar no “privado”. Será? E, se assim for, qual a razão?

O “privado”, dizia uma política tão demagógica quão ignorante (e de má fé, acrescento eu) vive à custa de sangrar o SNS mercê do facto de os utentes da ADSE irem de roldão para os hospitais privados onde são atendidos com rapidez. Conviria lembrar à estulta criaturinha que a ADSE é integralmente paga pelos seus utentes que vêm os seus ordenados ou pensões mensalmente sangrados em 3,5%. Três e meio por cento é muito no bolso de qualquer um mas, no momento da verdade, quando a urgência em saber o que temos e como resolveremos o nosso problema de saúde, até se reza de contentamento.

Nada tenho contra o SNS. Aliás pago para ele, visto pagar impostos, todos os impostos (o que no caso do IRS só ocorre com um terço dos portugueses, os que, pelos vistos, serão ricos). Gostaria, contudo, que o SNS funcionasse bem. Que não houvesse falta de médicos, de enfermeiros, de pessoal auxiliar. Que no caso do “ H. S. João” no Porto as crianças tivessem instalações condignas, o que não sucede. Que na “urgência” de um hospital, cujo nome não citarei a menos que me apontem um facalhão ao pescoço. não se passeiem ratos na incómoda sala de espera dos acompanhantes, que no bar (se aquilo, aquela estrumeira, se pode considerar um bar, os produtos não tivessem o ar de coisas abandonadas à má sorte, velhas e rançosas. Que, em tantos estabelecimentos públicos, não se acumulassem doentes em macas nos corredores! Que os funcionários que nos atendem não tivessem um aspecto de homens do lixo depois de uma noite de trabalho intenso. Que o Infarmed não protelasse indefinidamente a autorização para os cerca de 300 novos medicamentos propostos. Parece que os preços são salgados, salgadíssimos. Também o eram para a hepatite e bastou o escândalo de um doente em alta grita para subitamente o Estado encontrar meios de se entender com a empresa fornecedora e começar a curar centenas de criaturas. Há quem diz que, nesse caso, as vítimas pertenciam a grupos de pressão muito fortes com acesso aos meios de comunicação mercê de ligações ao mundo artístico. Desconheço se é verdade mas que houve pressa na procura de um acordo, houve. E que o acordo se fez. Claro que, na altura, o Governo era “fascista” ou quase, isto é liberal. Agora com um Governo do Povo, pelo Povo e para a o Povo, as coisas serão diferentes. E os doentes, neste caso, são apenas meros cancerosos...E não pertencem a nenhum lobby, artístico ou de especial orientação sexual.

Mas voltemos ao mistério dos quinhentos euros. Alguém, da entourage da Ministra, sussurrou para um meio de comunicação simpático que a coisa eventualmente se passara entre um único provedor de serviços de saúde e as autoridades. E que só um profissional teria sugerido aquela tremenda soma. E que não se sabia se a sugestão era a sério ou se o número avançado apenas sugeria que ninguém estava disponível no dia de Natal.

Mesmo assim, seja por chalaça (estúpida), por ironia (cretina), ou só como desabafo (idiota). a coisa parece pouco crível. Tanto mais que nunca se identificaram quer o anestesista (se ele existe) ou a organização (se ela tem tabuleta para a rua). Em suma, no caso estou como S. Tomé, ver para crer.

Todavia, se nenhuma pista for encontrada, ficamos com a ministerial afirmação.  E com a violenta reacção da Ordem dos Médicos (que deve ser do mais reaccionário que há...). E assim, a dúvida (que no caso da Ministra actual, começa a ser metódica) permite pensar que a Senhora está a mais naquele poleiro a que a alcandoraram. Que, como no “princípio de Peter”, ultrapassou o seu limiar de eficiência e não presta para o Governo, este ou outro, seja o do Cazaquistão seja o da Coreia do Norte, seja o da freguesia de aldeia Velha de Sensaborões, sobretudo este último, mais próximo.

Não basta ser temido, muito menos destemido em palavras, importa sim não ter mentido.

21
Nov18

estes dias que passam 380

d'oliveira

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Carta (ou “carto”?) a um “camarado

mcr aos 21de Novembro de 2018

Ex.º Senhor Deputado

Li embevecido as considerações que entendeu dar à fosca luz do dia sobre o uso da palavra “camarado”. Pelos vistos, V.ª Ex.ª, avisado linguista (e não menos excelente gramático) que mostra ser, acha prodigiosamente útil haver um masculino para camarada mesmo se esta palavra tenha tido ao longo de séculos de militaragem, um cunho fortemente machista bem mais expressivo do que a actual e débil conotação marxizante e pseudo proletária.

Pratiquemos, pois, um pouco nessa evolução linguística do português tal qual se fala (que a meu ver tem sido alvo de tratos de polé que não se iniciaram com o miserável e último acordo ortográfico mas que vem de longe tangido pela ignorância atrevida e pela estupidez congénita que assola boa parte da elite que se crê intérprete (ou “intérpreta”? dos desgraçados cidadãos que a tudo assistem impotentes.

Palavra que nunca me tinha ocorrido qualquer ideia de que camarada, apenas por terminar em A era feminino. E que, por isso, urgia arranjar-lhe par condigno para uso de congressos partidários. Já basta que quando se fala do bloco (ou da “bloca”?) só se refiram as senhoras Catarina, Marisa mailas manas Mortágua. Arre que é demais. Demais, sobretudo, por o único cavalheiro de quem se fala é o senhor Robles, egrégio representante da política municipal bloquista e indefectível apoiante da causa dos sem casa ou dos que a procuram a preço razoável.

Sei que isto é injusto para com a sua augusta pessoa (ou seu augusto pessoo?) que a minha tia Jaluca conhece por “aquele carequinha” do BE. Mas que se há de fazer? Elas, à pala de serem mulheres, inteligentes, cultas e relativamente novas, ocupam sem rebuço todos os ecrãs de televisão e até já fizeram esquecer aquele trio de conspícuas figuras (figuros?) de cera constituído por uma espécie de sacristão, por um cavalheiro de suspensórios e por uma espécie de guerrilheiro gorducho e de óculos. Ganhámos (nós os do público) com a troca e quero crer que o BE também ganhou em visibilidade. Não veja nisto qualquer espécie de machismo mas o mesmo sucedeu com o CDS onde o pertinaz e intransigente senhor Portas cedeu o lugar à senhora Cristas (que até terá –a seus olhos - a vantagem de feminizar o nome de Cristo ou o adjectivo muito em uso na lerpa “o cristo” ou seja o que vai perdendo para os parceiros mais afortunados.)

(a propósito, ou nem isso: porque é que há tantos jogos de cartas populares com nomes femininos? Ele é a lerpa, a bisca, a sueca que só têm do outro lado o montinho e o sete e meio – e este só é masculino a um terço. Jogos masculinos só os importados, o bridge, o póquer e o vinte e um real, na realidade “black jack” e, mesmo aí, temos a canasta de que a minha mãe foi devota e brilhante praticante durante uns bons sessenta anos. Agora, a falta de olhos e de mobilidade, deixou-a isolada tanto mais que boa parte das parceiras já foi desta para melhor. Do mesmo mal me queixo eu que vi desaparecer três inteiras gerações de parceiros de bridge...)

Voltemos, porém, às nossas encomendas: O camarado! Assim de repente, e ao correr da pena, lembro-me de idiota, palerma, patarata que pedem masculino convincente e aplicável. Ou de imbecil, que nem é carne nem é peixe, adjectivo mais adequado à causa trans-gênero e a pedir imbecila e imbecilo.

É que esta campanha de feminização ou masculinização da sofrida língua que falamos ou balbuciamos, tem perigos por todo o lado. Ele há expressões (e neste “ele” já vai um mundo de suspeição) que denotam um machismo insuportável e uma visão do mundo que a malta do me too deveria começar a explorar (e a expurgar!). Seja “ungido do Senhor” ou os “caminhos do Senhor” que são ínvios. Então por onde anda a “Senhora”?, raios me partam (ou raias me partam, mesmo se esta última possa confundir-se com com o peixe da família dos miliobactídeos, imbatível frita, ou em caldeirada)

No domínio das más caracterizações também convém reformular “fulano é uma besta” ou “cicrano é um catavento”. Veja como besta é bem mais violento do que catavento, mesmo se fulano apenas possa ser um estúpido contumaz e cicrano um político habilidoso que muda de pensamento qual piuma al vento ou uma dona mobile (não haverá no universo de Verdi um cavalheiro móvel? Vê-se que o músico era mesmo do século XIX).

No domínio da bicheza, zebra, girafa ou pantera pedem a gritos masculino capaz. Como andorinha, mesmo se neste caso, tenha conhecido um marítimo cujo apodo na comunidade era, digamos, Vagina de andorinha, em termos bem mais crus. E mais sonantes.

Nisto de calão há de tudo desde “aquele caramelo” a filho da puta (Por onde paira a filha do puto?), para já não referir aqueles votos mais imperativos e soezes vai à m*, vai para o c* ou o quase enternecedor “longe, longíssimo, cornos da lua, estrelinha que te guie, casa do c*”

Ficar-me-ia por aqui não fora a reclamação de uma amiga, aqui na esplanada, que refilando me espetou porque é que não havia masculinos para Amélia, Rosa, Beatriz, Irene, Isabel ou Helena. Tentei escapulir-me com Pedro (ninguém de bom senso baptiza a descendente com Pedra), Nuno, Miguel ou Hugo que no velho “Mandarim” de outros combativos e ruidosos tempos serviu ao falecido e nunca assaz chorado Zé Manel Pinto dos Santos para apostrofar um empregado ratoneiro e enganador com esta “Arre que o senhor é hugo que se farta!”

Mal ele sabia de como a História (outro feminino uivante) lhe viria a dar razão.

Vai este folhetim par dois destinatários que comigo se cruzaram nesse antro também conhecido como “Kremlin” ao mesmo tempo que a desbotada praça da República onde se situava se crismava nessa época de ilusão em “Praça Vermelha”, num tempo em que os/as colegas, camaradas, amigos/as, companheiros/as, enfim a malta do “contra” sabia bem quanto custava a vida e quanto arriscávamos. Refiro com imensa ternura e amizade a Maria A. (Milu) e o Zé Quitério. Saravah, manos, estamos vivos! E não há camarado “que corte a raiz ao pensamento”.

* na gravura :"Os camaradas" ópera para crianças. 

 

08
Nov18

Estes dias que passam 379

d'oliveira

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Toirada à portuguesa ou garraiada infantil?

mcr  8-11-2018

Nos meus já longínquos tempos de infância, o Casino Peninsular (vero nome do estabelecimento figueirense) dava de longe em longe umas garraiadas insignificantes onde criancinhas tontas toureavam uns pobres vitelos assustados. Eu nunca apreciei tais festividades e, muito menos, as touradas a sério, Aliás só assisti a uma e foi tal o meu berreiro que os meus pais nunca mais me levaram com eles. Nestas coisas, detesto tudo, desde os olés até às pegas, o toureio a cavalo ou os matadores (que em Portugal só matam lá para os confins do Alentejo) bandarilheiros sem esquecer o “inteligente”.

Não gosto e pronto, mesmo se por isso não me sinta mais civilizado do que, por exemplo, o Manuel Alegre. Também não gosto de caça seja ela da de cá ou da grossa. Nunca percebi porque é que se havia de matar um leão ou um elefante, mesmo se este último desse carne para uma aldeia inteira e esfomeada.

E já que estamos numa de desgostos, nunca percebi o boxe, a luta livre ou aquela macacada a fingir do mesmo. Por uma vez irrepetível vi um festival desses no Palácio de Cristal onde um temível “mMascarilha” arreava em toda a marabunta. O público estasiado e entusiasmado rompia em impropérios e o lutador fingindo-se zangado chegava-se às cordas e ameaçava saltar cá para fora. Havia gente que se punha de pé preparada para cavar rapidamente, guinchando de emoção e de susto. Um horror!...

Apetece-me, já agora, falar do futebol profissional onde se assiste a tudo menos a desporto e seriedade. Desde as direcções dos clubes às claques raivosas, aos jogadores batoteiros cujo amor à camisola é o que se sabe, aos treinadores que entram e saem consoante os resultados, até ao público (aliás relativamente escasso) que se apresenta trajado a rigor com cachecóis e demais adereços e quando interrogado bolsa as mais extraordinárias teorias sobre o jogo a que assistiu, tudo me deprime. Mais me deprime, o nacionalismo bacoco com que se olham as Selecções ou certos jogadores (e não cito nomes, seguindo o actual pundonoroso silêncio que recai sobre ele(s)).

Todavia, nenhum destes factos me obriga a estatuir desde o Poder (que aliás, e felizmente, não tenho) com bojardas sobre a civilização ou a cultura (com letra grande ou pequena).

Porém bastou um suelto da actual ministra da Cultura para a discussão do Orçamento estar subvertida. Agora, fala-se do gosto ou da medonha tirania do politicamente correcto ou da incivilidade do espectáculo taurino. Uma tourada!

Eu não conheço a senhora ministra de turno na cultura. Provavelmente está à mesmíssima altura dos seus antecessores e Deus sabe o quanto valiam (os leitores porventura recordados do que por aqui fui escrevendo também saberão do afectuoso respeito que dediquei a tais criaturas).

Desta Ministra nada sei, ou o que sei é algo estritamente pessoal com que nada tenho, nem acho que alguém deva ter, justamente por ser do foro íntimo dela e nada de útil me dizer sobre as capacidades da pessoa, pelo que é irrelevante.

Porém, começa mal ou, pelo menos, desastradamente. Também é bem verdade que, não tendo sido consultada sobre o orçamento da sua actual pasta, pouco poderá dizer a não ser generalidades. A senhora ainda nem aqueceu o lugar e tenho a convicção de que deve andar um pouco perdida naquele labirinto de institutos e direcções gerais e regionais que se atropelam e raramente (estou a ser generoso) cooperam. Justamente por isso, devia abster-se de declarações avulsas e bombásticas. Uma vez feitas, deveria, remeter-se a um salutar silêncio e não insistir, com tanta soberba como falta de senso, na defesa do seu ponto. Não gosta de touradas? Eu também não! Acha que a civilização as condena ao desaparecimento? Gostaria mas não estou assim tão certo. Farto-me de ver por aí alminhas gentis a reinventarem danças e modas tradicionais (as mais das vezes com pouca tradição), a tentarem salvaguardar património construído sem uma ideia clara de como o manter útil e vivo ou amaldiçoar os portugueses actuais pelos feios pecados dos descobridores ou pelas conquistas de Afonso Henriques. Ainda se há de descobrir que Aljubarrota foi uma tentativa de genocídio dos castelhanos...

 

Sª Ex.ª quer uma causa? Ei-la: De Portugal saem anual, mensal ou semanalmente livros antigos cá editados de que só restam exemplares únicos na Biblioteca Nacional. Com sorte, também haverá alguns nas bibliotecas do Porto e Coimbra. No que toca à nefanda expansão portuguesa e ocupação (obviamente medonha) de África talvez existam também na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa que parece atravessar sérias dificuldades –este ano o Boletim é apenas virtual!-

Essas obras são compradas, e por bom preço, pelas bibliotecas universitárias americanas que também não desdenhariam adquirir colecções de arte africana em mãos portuguesas. As bibliotecas municipais, que uma campanha da antiga SEC (Secretaria de Estado da Cultura) estendeu a todo o país, não aceitam doações por não terem espaço (fizeram-nas sem depósitos que se vissem) por não saberem, por burrice, por não terem pessoal especializado. E ainda bem: algumas têm, nas mesmas caixas onde foram acondicionadas por doadores generosos, os livros oferecidos. À espera que a bicharada se eve nas folhinhas velhas mas tenras da livralhada.

O Ministério da Cultura teve um programa de ajuda à edição de autores portugueses e, por isso, recebia uma ou duas centenas de exemplares de cada obra subsidiada. Vi-as, com estes com que morrerei, em pilhas numa espécie de garagem. Felizmente havia pessoas que lá iam roubar um que outro livrito para ler.

Uma edição inteira (“Retratos de Camilo”) andou anos sepultada numa cave da DRN e, que eu saiba, nunca viu a luz do dia.

O resto (substancial) das edições da Comissão dos Descobrimentos andou anos num armazém nos arredores de Lisboa. Por várias vezes fui por alguns deles à loja da Torre do Tombo onde se vendiam alguns em saldo. Os que lá não estavam só poderiam vir se houvesse (mas não havia!...) quem por eles fosse ao citado armazém. Nos alfarrabistas, os mesmos livros atingiam preços especulativos (nomeadamente alguns exemplares da revista “Oceanos”).

Dessa gesta editorial há pelo menos uma história ridícula: a comissão entendeu editar o Atlas de Fernão Vaz Dourado. Todavia nem um fac-símile decente conseguiu fazer. A versão apresentada vem com os mapas reduzidos, os mapas de dupla folha por não estarem encarcelados estão ilegíveis na parte central. Enfim uma tristeza apagada e vil. Dirão os ignorantes que mais valia assim que nada. Erro, erro crasso: em 1948, graças ao Visconde da Lagoa, o Instituto de Alta Cultura patrocinou e a Livraria Civilização Editora pagou a edição fac-simile.

Actualmente, é empresa espanhola Manuel Moleiro Editores que oferece uma edição (absolutamente idêntica à da Civilização) com tiragem única de 900 exemplares. O preço é salgado, salgadíssimo. Se não estou em erro, foi um exemplar desta edição que o Rei de Espanha ofereceu ao Presidente da República em Salamanca!

Com os actuais meios, a INCM poderia editar o mesmíssimo fac-simile bastando-lhe copiar a edição de 1948. Coisa idêntica poderia ocorrer com o Atlas de Lázaro Luís (Academia das Ciências 1990) ou com essa prodigiosa colecção do Visconde de Santarém (os “Atlas du vicomte de Santarém”) que foi também republicada em 1989 pela Administração do Porto de Lisboa, sob a direcção científica de Martim de Albuquerque.

Todas estas edições estão esgotadíssimas e correm nos alfarrabistas a preços que nem vos digo nem vos conto. Outros exemplos de atlas devidos a portugueses pura e simplesmente nunca foram alvo de edição nacional (menciono apenas o de Diogo Homem (Moleiro ed) ou o Atlas de Pedro Teixeira (Siloe), mandado fazer por Filipe III (IV de Espanha) e que descreve maravilhosamente toda a costa portuguesa (englobada na costa geral da península).

Porém, agora me lembro!, estúpido que sou!..., tudo isto soa a “descobertas” nefandíssimo acontecimento que um ramalhudo leque de personalidades entende ser uma abominação. Não sei se a Sr.ª Ministra é do mesmo parecer mas aqui está um tema sobre o qual muito gostaria de a ouvir.

Sobre os seus gostos pessoais e as suas opções de vida não tenho qualquer curiosidade. Isto sim é que é ser civilizado, estar no século XXI mesmo se no anterior onde permaneci largas décadas já pensasse rigorosamente a mesma coisa.

(quanto ao Orçamento, é o que se sabe: a discussão está encerrada pois sabe-se à partida, que está aprovado mesmo que os parceiros menores finjam que querem mais. Querem nada...

* a gravura vem d antiquíssima Creta, a do minotauro. De todo o modo parece uma tourada mais simpática do que as actuai. Mas uma tourada, de todo o modo. 

26
Set18

Estes dias que correm 328

d'oliveira

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A realidade ultrapassa sempre a mais louca imaginação

mcr 26.09.18

 

A detenção de quatro membros da Policia Judiciária Militar, de três elementos da GNR de Loulé (Loulé? A Loulé da tia Anica? ) e de um civil (presumível gatuno das armas e munições roubadas em Tancos) se, por um lado é uma vitória (mais outra...) da Srª Procuradora Geral a quem o Governo e o Sr. Presidente tão secreta quanto eficazmente calçaram os patins, é também indício de que na “tropa” e no Ministério que a tutela anda muita coisa ao Deus dará.

Quanto a este último ponto já nenhuma dúvida subsistia. Toda aquela história mal contada de terem uns paióis menos guardados que a capoeira de um camponês afectado por um Alzheimer do último grau, de intentar processos de inquérito a cinco coronéis, de os “suspenderem” dos respectivos comandos, de um Ministro vir contar histórias da carochinha para a praça pública, chegando ao ponto (inenarrável e, não tenhamos medo das palavras, tolo) de deixar cair aquela pérola do “por absurdo até pode nem ter havido um roubo” , as circunstâncias do “achamento” das coisas roubadas (que até nem eram exactamente as que constavam do rol inicial...), a extraordinária intervenção da GNR de Loulé que dista de Tancos uns bons trezentos quilómetros, o jogo das escondidas entre a PJM e a PJ, tudo isto cheirava mal, fedia que se fartava á distância.

Eu duvido que tenha havido português minimamente atento e são de espírito que não se tivesse espantado com todas estas tropelias. Em Espanha, o jornal “El País” ria-se, por cá quem o lia, tapava a cara de vergonha. Não gosto da expressão “tropa fandanga” mas mesmo esta é piedosa perante o que se passou.

E resta a dúvida. Foram só estes (tirando o gatuno que espavorido resolveu entregar o roubo) os militares que alinharam nesta conspirata, nesta cruzada de dementes, ou há mais gente.

E ninguém se demite? Nem o tal Chefe de Estado Maior que está a caminho de passar à peluda ou o inexistente Ministro que tropeça na via crucis ministerial como um cego de Brueghel? Sª Excelência não se sente ridículo, já que provavelmente não lhe ocorreu ainda envergonhar-se?

 

14
Set18

estes dias que passam 379

d'oliveira

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a escola já não risonha nem franca

(porventura nunca o foi!...)  

mcr 14.09-18

 

Não conheço o dr Paulo Guinote de lado algum, tão pouco o leio (erro meu, aliás) mas oiço dizer que é um analista inteligente d(porventura nunca o foi) a situação do ensino em Portugal.

Ontem, porém, num artigo de opinião saído no “Público” o dr. Guinote afirma que crê firmemente que “boa parte da classe política tem um ódio - ou desafeição para os casos menos graves –particular pela classe docente, mesmo quando saíram dela”. E que por isso os persegue, rejeita as suas razões quanto à questão da contagem do tempo de serviço. Ao mesmo tempo, o dr. Guinote põe em dúvida a bondade dos dados da OCDE sobre a relação da retribuição dos professores com outras classes de licenciados, bem como questiona as conclusões sobre a média salarial dos professores mais velhos dentro dos países d OCDE.

Não tenho ideia de que a OCDE estará ao serviço do Governo português ou que os seus especialistas falsifiquem despudoradamente os dados para provar que a classe dos professores é privilegiada face aos restantes trabalhadores da função pública.

Quanto aos restantes trabalhadores, os “privados” nem vou falar. Esses, e quase só esses, pagaram duramente os anos de crise. Dezenas (provavelmente centenas) de milhares foram despedidos ou viram os seus salários diminuídos. Foram eles que tiveram de pagar a crise, foram eles que emigraram, são eles (e era bom que o dr Guinote metesse isto na cabecinha) que inda não tiveram aumentos e muito menos contagens de tempo. Não tiveram e não terão.

Em Portugal, o dr Guinote que me desculpe, mesmo quando a riqueza é produzida por uns são sempre os outros (e nisto incluo a função pública mesmo se o seu trabalho também mereça consideração) que aproveitam. Ainda agora, há fábricas que fecham, há trabalhadoras que se veem na rua ao fim de vinte ou trinta anos de trabalho duro e mal pago (basta citar-lhe o caso da “Triumph” uma fábrica de roupa interior cara que desandou do país: as valentes mulheres que lá ganhavam um pão escasso levaram a cabo um longo processo de ocupação do exterior da fábrica até conseguirem o mínimo, isto é o despedimento!)

Os senhores professores quando protestam lixam os alunos que ficam sem aulas, os pais que são obrigados a faltar ao trabalho para não deixar as crianças na rua. Perdem o salário de um dia? De dois? Mas não perdem nunca o emprego vitalício, as progressões quase automáticas e outras benesses.

Nesta altura, já o sr. dr. Guinote me está a apontar o dedo acusador tomando-me por inimigo visceral da classe docente que seguramente odiarei com violenta e medonha sanha. Está, porém, tremendamente enganado. Tenho muitos amigos professores, familiares professores, e um enorme carinho e gratidão por vários dos que me ensinaram. Vários, digo, não todos nem a maioria. Recordo com ternura e e respeito uma boa dúzia de grandes professores desde a escola primária, ao liceu e depois à faculdade. Não oculto que haverá dois ou três que detestei, e que a maioria me deixou numa espécie de limbo afectivo: cumpriam sem alegria, demasiado zelo ou simpatia, os devers do cargo. Eram apenas sofríveis ou razoáveis. Já lhes esqueci os nomes, as caras mas não as caraterísticas e os defeitos. Nisto, como em todas as profissões (sobretudo na função pública, claro que na privada as coisas fiam muito, mas muito, mais fino) há uma minoria de bons, outra de maus, bastantes medíocres, outros tantos sofríveis e o resto normal.

Com a classe política (e aqui incluo sindicalistas da função pública – e convenhamos que nos docentes aquilo, a função sindical eterniza-se...) passa-se o mesmo. Há de tudo, como na botica. Concedo que osdeputados poderiam ser melhores, muito, muitíssimo melhores. Mas enquanto forem eleitos à molhada, escolhidos a dedo pelos partido que os nomeiam e escolhem, nada feito. Um eleitor (por exemplo do Porto) nem sequer conhece metade - que digo?, um terço ou um quarto- das criaturas que lhe mendigam – de quatro em quatro anos – o voto. E uma vez eleitas desaparecem do radar cidadão e vão para o Parlamento, levantar e sentar o dito cuja nas votações. Raro é o deputado que contraria o partido nestas matérias de voto. E se contraria já sabe que, para a próxima fornada eleitoral não será escolhido.

Há em Portugal um problema com os professores, ou melhor sobretudo com os candidatos a professor. São dezenas de milhar os que saem das universidades e politécnicos e não conseguem entrar na docência. Os que, por bambúrrio, entram, passam anos de trouxa às costas, de terra em terra, sem criar raízes, amizades, sentido de pertença a uma comunidade educativa ou a darem aulas de substituição com horários incompletos e mal pagos. Um desastre! Um castigo! Um tremendo e estúpido sacrifício! Uma destruição de vocações! Um desperdício!

A resposta a este excesso de oferta é normalmente indigente e estúpida. A mais tola é a exigência de diminuição de alunos por turma. Eu até percebo que uma turma com vinte alunos funciona melhor do que outra com vinte e seis. Todavia, há uma claríssima diminuição de alunos e isso vai-se acentuar dramaticamente nos próximos dez vinte anos. Há menos crianças a nascer e essa pobreza demográfica só se modificará –se se modificar- a longo prazo. Até lá, o número de professores irá diminuir. Se não diminuir, criar-se-ão nas escolas mais horários zero, mais tarefas não docentes inúteis ou quase.

Os jovens licenciados tem de perceber que a entrada no mercado de trabalho não está de nenhum modo garantida. Ou então entram com funções menores. Vai-se a uma farmácia por uma aspirina ou por uma pasta de dentes e somos atendidos para um farmacêutico que só tira o lugar aos antigos ajudantes de farmácia. Entra-se num banco e o caixa é licenciado em Economia, Finanças ou Gestão. Nos grandes (e médios e pequenos) escritórios de advogados pululam profissionais que se rebentam por mil euros mensais. Nas universidades há assistentes com contrato precário, sem direito a férias pagas ou ADSE. E por aí fora...

Não duvido que haja gente farta dos professores. Muitas vezes são pessoas que sentiram na pele os efeitos das últimas greves. Outras já não conseguem enxergar o dr Mário Nogueira, eterno dirigente sindical que, convenhamos, é mais assanhado que uma dúzia de gatos bravos. Muita gente estranha que, neste torrãozinho de açúcar, as greves se repartam entre professores, transportes públicos e alguma saúde (pública, claro). Curiosamente, estas greves só atingem, ou atingem sobretudo, os mais desfavorecidos. Os que precisam do autocarro, do comboio e dos barcos da outra banda; os que tem de ir aos hospitais públicos para um exame, uma consulta, uma intervenção marcados há muito; e os pais de filhos na escola pública. Nas privadas não há greves, como não as há nos hospitais privados (que sorte para quem tem ADSE!...) Também não atingem ou atingem menos quem tem transporte próprio ou é o seu próprio patrão. O patrão Estado fica-se a rir, poupou uns dinheirinhos e não se sente beliscado. O Governo espera sabiamente que ninguém se lembre das greves na altura de eleições. Certos partidos, com influência determinante nos sindicatos também tem o cuidado de “recomendar” (isto é um eufemismo) aos seus militantes sindicais, uma pausa eleitoral. Não é por acaso que a causa dos professores não será tratada, muito menos discutida, pelos parceiros da “Geringonça” durante as discussões do Orçamento. Ou seja, as “correias de transmissão” existem, estão bem oleadas e servirão um único propósito: manter a pressão mas não estragar o “arranjinho”. Perceberá o dr Guinote estas questões elementares?

A progressão e o seu cumprimento integral vai de férias até à aprovação do OE. Depois, voltará, viçosa e combativa sempre com o renovado dr Nogueira e o seu bigode ameaçador. E a miudagem lá terá uns dias sem aulas e os pais outros tantos de cuidados redobrados.

(relembraria ao dr Guinote, se isso não o fizer ter dores de cabeça, que outras profissões dependentes de licenciatura se depararam sempre com a crítica feroz de certos elementos da elite, dos panfletários e dos intelectuais. O caso dos advogados é manifesto, basta ver as milhares de caricaturas que deles se fizeram, as farsas com que os mimosearam – quem não se lembra do “maître” Patelin, ou seja do advogado Patelin, advogado e não mestre, que “maître” é o título francês dado em tribunal aos advogados- ou dos médicos que em Espanha eram mimosamente  apelidados de “matasanos” (mata sãos, para quem detestar a língua dos vizinhos).

29
Ago18

Estes dias que passam 378

d'oliveira

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É pró que estamos!...

 

mcr 29.08.18

 

1  “Dr. Costa, por favor...”

O seu anúncio de desconto no IRS aos emigrantes que regressem, mais do que um flop, é uma tolice, uma bravata ou, mais piedosamente, uma graçola de mau gosto.

Vejamos: em números redondos, e desde 2011, terão emigrado mais de 600.000 portugueses. A crise, os maus salários, a exasperação quando não o desespero são algumas, mas não todas, das causas de tal êxodo. Todavia numa muito alta percentagem o que ocorreu foi um fechamento do mercado de trabalho. Nas causas deste conviria não esquecer a falta de elasticidade das leis laborais, a proteção à funçanata pública ineficiente em elevada dose, a inadequação do mercado de trabalho à preparaçãoo de muitos dos que procuravam em vão um primeiro emprego (tenho um familiar, licenciado em gestão, com uma longa carreira de sucesso que, uma vez desempregado, o melhor que lhe ofereceram foi um emprego temporário num supermercado para “repor stocks”! Outro, licenciado em antropologia com altas classificações preferiu ir colher fruta em França... E por aí fora.

Dentre os que emigraram há até casos espantosos: os enfermeiros (que tanta falta cá fazem) trabalham por essa Europa fora com ordenados largamente superiores aos que cá correm (nos profissionais que, por sorte, conseguiram entrar no SNS). O meu óptimo marceneiro (e amigo) desandou para Inglaterra muito antes da crise: não lhe pagavam, pagavam-lhe tarde e a más horas, pedinchavam-lhe descontos, enfim um pesadelo. Fechou a sua pequena empresa e desempregou outros quatro profissionais.

Dentre os que ficaram, as coisas também não foram simples: o empreiteiro, pequeno empreiteiro que me faz todas as obras cá em casa, viu-se e desejou-se durante os anos de pesadelo, despediu pessoal e eu próprio antecipei obras e reparações para o ajudar. Aguentou-se a custo.

Vir dizer aos emigrantes “qualificados” ou não, mas sobretudo aos primeiros, “volta que te faço um desconto no IRS” fica bem na campanha pré–eleitoral, não tem custos (a menos que houvesse um miraculoso regresso massivo) e, dada a média de salários por aí praticados, pouco significaria na bolsa dos eventualmente regressados que, pelos vistos e pelas reacções já conhecidas ganham bem a vida onde estão, dá-lhes mesmo para umas férias no “torrãozinho de açúcar” e para amealhar uns tostões. Vir por salários entre o medíocre e sofrível significa um desconto risível no IRS.

“Dr Costa, meta a viola no saco e, já agora, lembre-se do medonho sacrifício de quem cá ficou, sempre na corda bamba, manietado pela família, pela casa a pagar em prestações, pela necessidade de acudir a familiares envelhecidos e sem outra ajuda, enfim por mil razões para já não falar pelo medo do desconhecido, pela ignorância da língua ou por mal empregado patriotismo.

 

2  Um deputado municipal comunista da província entendeu escrever um elogioso texto sobre Ramon Mercader conhecido assassino de Trotsky e por isso condenado a cerca de vinte nos de prisão.

Mercader era um catalão, membro do PCE e agente do Komintern e membro do NKVD, a polícia secreta soviética. Infiltrou-se no círculo próximo de Trotsky, exilado no México, e depois de duas ou três visitas, assassinou-o a sangue frio. Anos mais tarde recebeu o título de “herói da União Soviética” e, depois de cumprir a pena, passou a residir alternadamente em Cuba e na Rússia.

Não tenho qualquer simpatia por Trotsky mesmo se reconheça que ele foi, com Lenin e mais uma dúzia de revolucionários o rosto mais evidente da Revolução de Outubro. A ele se deve a organização do Exército Vermelho, foi o principal responsável pelo acordo de paz com a Alemanha e um dos mais importantes membros dos sovietes revolucionários entre a 1ª revolução russa e Outubro. Orador de grande qualidade, intelectual, trabalhador, dotado de uma vaidade sem limites desde cedo teve contra ele alguns dos seus colegas do Comité Central do PCUS (b). Foi o carniceiro de Kronstadt, a ele se devendo a repressão aos comités de marinheiros que tinham sido a espinha dorsal armada da Revolução. Após a morte de Lenin, fez parte de vários grupos anti-Stalin e acabou por ter de se exilar. Escreveu alguns dos mais notórios textos revolucionários da época e foi o inspirador da “revolução permanente” e o verdadeiro rosto do que mais tarde – e ainda hoje – se designa por trotskismo. Se não tivesse tido a perspicácia de e exilar a tempo, teria perecido num dos “processos de Moscovo” como pereceram praticamente todos os fundadores bolcheviques ou mencheviques (Staline cortava a direito) podendo dizer-se que todos os comités centrais (1917-1936)   desde Lenin foram aniquilados com raríssimas excepções, algumas das quais por morte antecipada.

Em boa verdade, estes processos são apenas a ponta do iceberg. No mesmo momento e só de membros do PC (b) foram executados largas dezenas de milhares. Quando os acusados estavam fora do território soviético, eram destacados grupos de executores que levavam a cabo a sua macabra tarefa. Salvaram-se uma ou duas dúzias de “opositores” por mero acaso ou sorte extraordinária. O caso de Trotsky é paradigmático: conseguiu escapar um par de vezes mas, apesar de protegido pelos seus e pela polícia mexicana não escapou a Mercader.

Desde o XX.º Congresso que a monstruosa política de Stalin e comparsas estava condenada no famoso discurso de Krutschev que durante anos foi ocultada em todo o mundo e, particularmente, cá pelos zelotas do PC e respectivos “amigos”.

O descabido elogio a um repelente criminoso diz muito de quem o fez e mais ainda do partido oque o acolhe, o faz eleger (mesmo somente como deputado municipal) e, pelos vistos, o aplaude. Setenta anos depois da morte de Stalin, e quase vinte e cinco depois da medonha derrocada da URSS ainda há estalinistas convictos. Ainda não perceberam a trágica herança que lhes caiu em cima e as extraordinárias parecenças com o fascismo que tanto criticam.

* A fotografia que ilustra a crónica é uma das raras que se salvou da destruição ordenada por Stalin que não só eliminava fisicamente os seus opositores como também os apagava da história manipulando ou destruindo as fotografias. O mesmo se faz agora manipulando a verdade recorrendo a "factos alternativos" como o que suscitou esta crónica. Do deputado municipal a Trump vai apenas a distância de um candidato a guarda de gulag nos bons tempos a um despudorado mentiroso que seguramente aproveitaria os méritos (não literários nem históricos mas mentais) do português admirador de um reles assassino.  

 

 

21
Ago18

Estes dias que passam 373

d'oliveira

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Quaterque beatus

(um grande professor e um “homem bom”)

mcr 21.08.18

 

Soube demasiadamente tarde da morte do Professor Doutor Rui Alarcão. Mesmo detestando enterros cumpria-me estar lá. Por várias e ponderosas razões: como aluno; como conhecido; como democrata que ainda se lembra do outro tempo, do tempo do medo e da coragem e de como era raro ver um professor ao lado dos estudantes como sempre foi o caso de Rui Alarcão; como velho amigo da Eliana, sua mulher que tive a sorte de conhecer mal cheguei à Faculdade. E, finalmente, mesmo se, eventualmente, já não mereça o título, como jurista. 

O jornal onde leio a notícia fala do “Magnífico Reitor”, título com que se adornam , muitas vezes sem fundamento, os reitores da velha universidade. No caso de Rui Alarcão (como ocorreu com outros dois grandes professores meus: José Joaquim Teixeira Ribeiro e António de Arruda Férrer Correia) o título assentava como uma luva. Grandes mestres, homens civilizadíssimos, cultos, resistentes desde sempre, sabedores. Com mais dois ou três outros salvaram a Faculdade de Direito e a Universidade de Coimbra (neste caso com mais contributos de outras faculdades evidentemente). Recordo dois outros professores que me aturaram com bonomia e a quem devo o mesmo que aos já citados: Jorge Figueiredo Dias e Carlos Mota Pinto. Estes homens além de ensinarem, de respeitarem os alunos, davam lições de cidadania e solidariedade. E marcaram várias gerações de estudantes. Com alguns privei muito de perto mas a todos devo muito.

Todavia, é de Rui Alarcão que queria falar. O título deste folhetim, mais uma latinada significa alguém, uma pessoa, quatro vezes abençoada, feliz se quiserem.  Ora Rui Alarcão nasceu sob uma estrela amável: inteligente, culto, persistente e sábio. Eis quatro qualidades que, para efeitos do que quero, reduzirei a duas, emparelhando-as. Era também um excelente professor. E. last but not the least, teve a sorte de ter ao seu lado (e não atrás, como às vezes se diz, uma mulher que, todos quantos a conhecemos e estimamos,  poderão garantir que também ela é, foi sempre, um somatório de qualidades. Como estudante fez parte, e parte muito activa (Presidente do Conselho Feminino), do renascimento da Associação Académica, foi um dos nomes sonantes e intervenientes do CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), era a par de excelente aluna, uma militante democrata de sempre e mais tarde, enquanto jurista distinguiu-se pela actividade que desenvolveu mormente nas questões que diziam respeito  aos direitos de família e aos da juventude. Falo obviamente de Eliana Gersão, a quem daqui mando um comovido e sentido abraço. E era esta a quarta felicidade ou sorte de Rui Alarcão.

Costuma dizer-se que a morte de alguém é uma terrível perda. De Rui Alarcão subsiste, para além do respeito e da admiração de centenas de ex-alunos, uma enorme lição de vida e de dignidade, de coragem e de discrição, de humor e de cultura. Quisesse ele, e poderia ter sido mais coisas, poderia ter feito uma carreira política se é que isso acrescentaria algo ao seu enorme legado de professor e jurista. Não quis. Era um homem discreto e, provavelmente, a luz crua dos projectores mediáticos incomodá-lo-ia. Escolheu as suas trincheiras e nele se manteve sempre com hombridade e determinação. E coragem, claro que os anos da primeira parte da sua vida foram passados durante o Estado Novo. E não foi por acaso que, depois desempenhou durante três mandatos o sempre difícil cargo de Reitor da Universidade. Sabiam os seu eleitores (quer os estudantes quer os seus pares) que aquele homem cortês e discreto prestigiaria o cargo e, sobretudo, a Universidade. Olhando para a história das universidades portuguesas não abundam exemplos destes. Com oitenta e oito anos, Rui Alarcão podia gabar-se, de ter tido uma vida cheia, útil e estimulante para quantos o conheciam. Deixa um legado e, sobretudo, um grande, imenso exemplo de como, mesmo nas piores situações, um Homem pode ser livre e ajudar a libertar os seus concidadãos. Além das belíssimas lições de Direito deu-nos lições de vida e de firmeza perante situações asfixiantes.

Foi uma honra ter sido aluno dele.