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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 382

d'oliveira, 03.05.20

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Diário das semanas da peste

Jornada quadragésima sexta

Projectos abandonados

mcr, 3 de Maio

 

 

Em princípios de Abril deveria ter ido passar uns dias a Paris. Durante anos, foi um dos meus melhores hábitos. Afreguesei-me num pequeno hotel em Saint Germain des Prés que praticava preços módicos e condizentes com a minha bolsa. Eu, por mim, durmo em qualquer sítio mas como ia acompanhado, tinha que encontrar algo que não escandalizasse a minha mais que tudo. Melhor dizendo, a gerência anterior e depois a actual. Então esta, a CG, é um perigo pois tem a mania de lavar o que está lavado.

De todo o modo, quando o anterior hotel fechou para se transformar num quatro estrelas, lembrei-me de regressar ao Saint Pierre, um estabelecimento na r. de l’École de Medicine, mesmo em frente à sede de um dos clubes revolucionários dos finais de 1700, o dos cordeliers que foi dos mais intransigentes. Acabou tudo guilhotinado, excepção feita a Marat que piedosa Charlotte Corday mandou ad patres quando o referido cavalheiro a recebeu na sua famosa banheira. Ignoro se esta entrevista tinha da parte do ilustre cidadão alguma finalidade concupiscente (não é todos os dias que se recebe uma donzela todo nu dentro de uma banheira!...) mas a intemerata tinha apenas em mente cravar-lhe um facalhão no coração. E não se arrependeu, antes confessou placidamente o crime. Ela e o seu advogado recusaram a oferta de Fouquier Tinville, o acusador público, de a apresentar como louca a troca de a libertarem.

Desculpem a digressão histórica mas a revolução francesa não é só Saint Just, Danton ou Robespierre e Marat. É também a de muitos opositores e outros tantos desiludidos que acabaram também eles no patíbulo.

Prtanto, o pequeno hotel Saint Pierre, frequentado pelos meus sogros e, pelos vistos, por Mário Soares durante o seu exílio francês. Está situado nas traseiras de uma imensa livraria a Gibert onde, ao longo de cinquenta anos terei gasto uma pequena fortuna. Eu sou, ou tornei-me, muito “rive gauche” e naquelas ruas entre a Sorbonne, o Luxemburgo, os cais e Montparnasse, conheço cada casa, cada esquina, cada café e todas, todas sem excepção, as livrarias (as desaparecidas e as que ainda se aguentam).

Como calculam, não fui. Em princípios de Junho queria fazer uma surpresa à CG: Florença que ela não conhece com mais umas voltas por Piza, Arezzo, Siena. Também já posso pôr de parte esses projecto pois ela anda aterrada com o covid e, quase certamente, também não haverá condições para esta viagem. Fic para o ano se eu lá chegar e se... Nisto, os “se” são tantos que nem vale a pena gastar muito latim com a hipótese.

Finalmente, tinha também um terceiro projecto que era levar a CG, a Ana e o Nuno e o Nuno Maria, minha perdição, para um hotel muito simpático na costa galega. Suites excelentes amplas com uma kitchinette optima para o chá da tarde, piscina, praia privativa, um bom serviço de restaurante. Em alterntiva, o mesmo hotel em Ofir onde estivemos no ano passado (a Ana tem um forte receio de levar o Nuno Maria para muito longe da pediatra...).

Também esta ideia está em forte, fortíssimo, risco de naufragar. Ou seja, tudo parece resumir-se a um velho slogan dos anos 69/76: Calda, calda, l’estate sera calda! Por acaso era o autunno (outono) mas tanto faz.

 

 

 

Ao dizer isto, tenho plena consciência da enorme distância que vai dos meus privilégios até à sorte de dezenas, centenas de milhares de portugueses para os quais o futuro nem projectos de qualquer natureza alberga. A procissão do desastre ainda vai no adro, infelizmente. Mesmo que o “desconfinamento” resulte, vamos ter pela frente muitos meses de incerteza, angústia, desemprego, quebra de produção, necessidades de toda a espécie. Isto sem falar na hipotética segunda vaga, na espera ansiosa por uma vacina, na difícil reversão dos hospitais públicos que, para combaterem o covid, deixaram tudo o resto para trás.

Agora, todos falam no êxito do SNS mas convirá lembrar que não foi exactamente o sistema que venceu mas sim e com que enorme esforço e desproporcionado sacrifício, o labor devotado, generoso e heroico de médicos, enfermeiros e outros trabalhadores da saúde. Os problemas estruturais são exactamente os mesmos de há quatro meses a começar pela falta de profissionais (gritante e infame, no caso dos enfermeiros que em Inglaterra mostram o que valem) e que, cá, foram vítimas do mais repugnante processo de intenções montado pelo sistema.

Às mortes do covid, irão juntar-se todas as outras, silenciadas, de gente que esperou demasiado tempo por consultas, tratamentos, cirurgias, diagnósticos.

Ouvir, como ouvi, nauseado, a entrevista da Ministra da Saúde, um notório exemplo do princípio de Peter, do solilóquio, da arte de ladear as perguntas e da “cassete”, foi um esforço e uma provação que me hão de ser descontados quando prestar contas.

A esta senhora e à colega da Cultura terá de se juntar uma terceira personagem que rege a Segurança Social. A falha dramática nos pagamentos às vítimas do lay off foi desembaraçadamente atirada para o lado como se esse dinheiro não fizesse falta a dezenas de milhares de pessoas. Atirar para as empresas a obrigatoriedade de adiantar as importâncias devidas aos trabalhadores é desconhecer a realidade do frágil tecido económico. Tanto mais que, numa gigantesca percentagem, se trata de micro, pequenas e médias empresas. Lojas de rua, livrarias, barbeiros, cafés, restaurantes, alojamento local, prestadores de vários serviços com porta aberta, todos estão numa situação desesperada. E muitos, provavelmente nem poderão reabrir...

A vida dita cultural está no fundo do abismo. As livrarias não vendem, os editores não editam, os discos não se produzem, os concertos ainda menos, os trabalhadores invisíveis pararam, o post palco parou, as galerias não vendem. São apenas alguns milhares mas todos eles trabalhavam a recibo verde, pelo que estão desamparados. Desamparados e sem dinheiro.

Nessum dorma!

A procissão ainda vai no adro. Até um optimista como eu, sabe, tem de saber, que “desconfinar” vai demorar mais tempo do que fechar tudo e todos a sete chaves. É que agora há o medo legítimo de pôr o pé na rua, a ideia de que, depois de maus dias, piores poderão vir. E nem o sr. Primeiro Ministro, o “optimista irritante” se coibiu de anunciar (e bem!) que estamos a pisar gelo fino, muito fino.

Será que alguém julga que o turismo, esse maná que caiu estrondosamente na cabeça de tantos, vai num ápice regressar em força já no Verão? Alguém recorda, os centos de brasileiros que se foram apinhando no aeroporto de Lisboa, desempregados, desesperados a caminho de um possível suicídio que é o regresso ao país desse bolsonaro, um pateta ignorante, estúpido e perigoso?

O Banco Alimentar avisa que os pedidos de ajuda dispararam para números assustadores. Ainda por cima não pode fazer a sua habitual recolha de donativos e não são os contribuintes como eu, que querem ajudar, que poderão substituir a generosidade anónima de uma multidão que não vai ao supermercado senão uma vez por semana. E que faz contas à vida. Que não quer dar hoje o que lhe pode faltar amanhã.

Tenho tentado, nestes escritos, dar um pouco de ânimo aos meus leitores, muitos ou poucos. Mas, uma vez sem exemplo, vejo-me obrigado, tenho o famoso “dever cívico” de afirmar que o forno não está para bolos, como dizem os do outro lado da fronteira. E contar com a “Europa” por muito que eu seja pró europeu, é, para já contar com sapatos de defunto. Claro que um plano Marshall seria maravilhoso mas quem fala nele não sabe como foi, não percebe em que condições foi lançado, esquece a guerra fria e, mais importante, o facto de haver um país riquíssimo que poderia dar-se ao luxo de ser generoso, de dar para poder mais tarde receber, de ganhar terreno aos soviéticos e satélites forçados e, cortar o caminho às quintas colunas políticas e sindicais que em França, na Itália, nos países ocidentais industrializados mas arrasados pela guerra, tentaram sem êxito adubar o terreno para os amanhãs que cantam.

E isso, esse combate mais duro, só terminou em 1949, quando Stalin deu por terminado o bloqueio de Berlin. A guerra fria que estava a aquecer voltou a ser fria depois.

É cá que primeiro tem de ser encontrada uma solução que convença os países europeus ricos a abrir os cordões à bolsa. E não vale a pena jurar que a austeridade não voltará. Vai voltar obviamente. Resta saber em que formas. Mas voltará. Sem apelo nem agravo.

Amanhã é um novo dia. Que seja bom, eis o meu voto. Que seja bom para os que voltam a trabalhar. Se for bom para eles será bom para mim. E sobretudo que não me venham chatear se eu sair à rua. Sairei com peso e medida que é esse o meu direito. O “dever cívico” é apenas um conselho e será bom que os agentes da autoridade saibam isso.

 

Duas observações: não se entende a autorização de fazer surf quando se proíbe a de fazer natação

Se se percebe que os cafés só abram na segunda fase entende-se mal a não autorização de abertura das esplanadas onde o distanciamento social é facilmente factível. E também pode ser verificado o tempo de estadia dos clientes. Pelo menos para um café mesmo em copo de plástico... (declaração de interesses: sou louco por um café feito num café, as cápsulas são uma tristeza.)

 

*a vinheta: “alminhas”, uma peça do famoso artista de Barcelos Mistério. Adquirida no fim dos anos 70. Dimensões: 35x23x5, cruz 10cm

 

 

 

 

 

estes dias que passam 330

d'oliveira, 27.02.20

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Pedro Baptista Joaquim Pina Moura

(uma geração que desaparece)

We few, we happy few band of brothersShakespeare, “Henry V”

mcr (Fevereiro 2020)

 

Os leitores que me desculpem. E duplamente. Uso o masculino apenas por economia e não por não prezar as leitoras, bem pelo contrário. De facto, estou farto de ceder ao politicamente correcto que geralmente não passa de prova de tolice.

Depois, por falar em geração, a propósito do Joaquim Pu+ina Moura e do Pedro Baptista. É que, de facto, eles, com tantos outros já desaparecidos e com alguns que ainda andam por aí, são claros exemplos de uma geração bem minoritária que .se bateu corajosamente contra o Estado Novo.

Agora, anda por aí muito boa gente a presumir de “esquerda” e a fanforronar sobre ideias “fraturantes”. Há mesmo uma compita para se ver quem é que fratura mais e mais depressa. Lamentavelmente, parecem desconhecer que o que se arroja pela janela entra, logo seguir e a correr muito, pela porta. A História, sempre essa maçada, está carregada de exemplos de pequenos, pequeníssimos robespierres de pacotilha que uivam por um eventual “terror” e se afogam numa pocinha de água da chuva...

Não é o caso dos dois camaradas que acabo de perder mesmo se o termo camarada, num sentido estricto e historicamente desaparecido seja um exagero. Nos tempos obscuros em que que vivemos e lutámos, havia uma boa dúzia de pequenos grupos que identificavam os seus escassos militantes com  a anteposição da palavra “camarada”. . Isso e a “Internacional” cantada a plenos pulmões ainda que fragmentariamente, identificavam algo que em seu tempo se chamou Esquerda e que fazia pender sobre a cabeça dos que dela se reivindicavam uma boa dose de riscos todos penosos. A coisa ia desde os espancamentos nas manifestações até à prisão e depois à proibição de empregos públicos. E tudo isso, nnuma desoladora solidão pobremente partilhada. No Portugal desses anos, e agora refiro-me apenas aos “sessenta”, a rebeldia tinha um preço que muito poucos estavam dispostos a pagar.

O “povo estava sereno”, como mais tarde afirmaria Pinheiro de Azevedo, o medo guardava a vinha, a bufaria imperava e pouco ou nada acontecia.

Durante uma boa década, nem a guerra colonial, nem a sangria da emigração económica, perturbaram significativamente algum, fraco mas real, desenvolvimento ou o crescimento do PIB.

Portugal, “orgulhosamente só”, aguentava-se graças às remessas dos emigrantes, ao crescimento do turismo e da economia interna, o mercado do trabalho ia-se tornando mais feminino (o esforço de guerra mantinha longe cerca de duzentos mil homens) e até um proto “Estado Social” ia emergindo.

Só uns milhares de “díscolos”, perturbavam a harmonia do “país triste” e ensimesmado. Para esses a polícia usava a mão dura enquanto para o resto bastaram os famosos “safanões dados a tempo”.

Joaquim Pina Moura, militante do PCP desde muito novo, e Pedro Baptista, pertencente à segunda geração maoísta faziam parte do “movimento” estudantil.

Conheci-os, se bem me recordo, entre 68 e 69, entre a crise de Coimbra e o Congresso Republicano de Aveiro. Na altura não me atrevo a dizer que estávamos próximos porque não estávamos. O PCP apelidava todos os que não comungavam do seu ideário fortemente pro-soviético, de “esquerdelhos” e o resto da malta chamava aos do PC, “revisas”, "social-fascistas" e outros mimos que, aliás eram tradicionais na conturbada história do socialismo europeu desde quase a sua fundação.

E essa História estava presente em tudo, basta lembrar os nomes dos jornais partidários, desde o “Avante” (do russo Vperiod, órgão central da fracção bolchevique sediada na Suiça, Genebra) ao “Grito do Povo”, cuja primeira versão apareceu durante a Comuna sob a batuta de Jules Vallés – "Le cri du peuple" – e depois corporizou um infame jornal colaboracionista de Jacques Doriot. Na Esquerda maoísta apareceu durante o PREC um jornal, “A Verdade”, tradução literal do russo “Pravda” o que não deixa de ser irónico dado este ser o principal órgão do poder soviético que os da “Verdade” portuguesa detestavam...

E por aí fora...

De todo o modo, estando ou não de acordo, é este punhado de jovens quem durante aquele período (1962-1974) tenta, com grande risco e duras consequências, profissionais e pessoais, combater o poder instituído e sacudir o conformismo da sociedade portuguesa. Não foi o único bastião resistente mas foi dos mais generosos e influenciou decisivamente a juventude portuguesa mormente a universitária e boa parte daquela que participou na guerra colonial incluindo os que a recusaram desertando ou tornando-se refractários. Fiz parte desta última frente animando com três amigos uma rede de passagem de fronteira que funcionou muito bem graças ao facto de sermos apenas quatro e de tomarmos todas as precauções e cuidados que essa tarefa exigia.

E não foi pequena façanha pois a juventude de muitos era má conselheira e permitia largos descuidos e riscos desnecessários que muitas vezes tiveram os resultados esperados e funestos.

A minha relação com ambos foi diferente. Com Joaquim Pina Moura só privei mais tarde por altura dos “Estados Gerais” de Guterres já ele teria saído do PC.

Com o Pedro Baptista tive mais relações também elas quase sempre posteriores à sua saída da OCMLP. Em boa verdade, fui advogado de muitos militantes estudantis de "O Grito do Povo". Com os “Estados Gerais” tornamo-nos bastante mais próximos e, posteriormente, ao longo de todos estes anos, fomo-nos encontrando esporadicamente e tendo um bom número de conversas que pouco a pouco foram derivando para o campo da cultura, sobretudo da literatura. O Pedro começou a escrever e eu fui seu leitor sobretudo de “Sporá”. Não o acompanhei nos seus delírios regionalistas e muito menos no seu “portismo” a outrance mas admirei-lhe sempre o entusiasmo e a entrega que punha em todas as causas que abraçava.

Ambos são excelentes testemunhos dos humores do século e dos azares da História. E testemunhas, também pois viveram por dentro muitas das convulsões do último e mais exacerbado “socialismo radical”. Divergi deles desde cedo, a começar pela questão checa até ao culto de Stalin que estava “vivo no nosso (deles) coração”. Também nunca vi na URSS o sal e o sol da terra. O fim pouco glorioso da União Soviética, o desmoronar da “cortina de ferro”, a abrupta queda do muro de Berlim, o desastre absoluto da “Revolução Cultural” a patética gesticulação com o “livrinho vermelho”, um aberrante conjunto de máximas do venerado “Grande Timoneiro” que seria ridícula se não tivesse sido dramática e tremendamente mortífera, nunca me apanharam a jeito e muito menos me comoveram ou entristeceram. Às vezes (poucas vezes) a História está do nosso lado, do lado da liberdade.

Em boa verdade, qualquer deles percebeu a tempo a fundura do atoleiro moral, ético e político para que caminhavam e arrepiaram com coragem (e eventual angústia) o seu caminho. Saíram do armário ideológico e foram à sua vida. À vida. Simplesmente.

Cada vez mais me vou sentindo um sobrevivente tanto mais que era mais velho do que eles uma boa meia dúzia de anos. E cada um que morre é menos um testemunho, visto que, até à data, poucas são as “memórias” deixadas por escrito. Pior: algumas das raras publicadas não passam de desculpas de mau pagador por ter havido comportamentos menos gloriosos nas enxovias da polícia. Já, e há muito tempo, me referi aqui a esses tema a que não quero voltar por demasiado nauseabundo. Na “hora de verdade” e perante a sombria perspectiva dos interrogatórios policiais, houve quem não se tivesse comportado com a mais elementar decência. Nada tenho contra aqueles e aquelas que confessaram os seus “crimes” mas não suporto quem, além disso, levasse a falta de vergonha até à denúncia de companheiros e amigos. Isto para não falar de criaturas que não só diziam tudo e mais alguma coisa mas inventavam ainda mais crimes atribuídos a outrem. Não faz muito tempo, narrei aqui mesmo, a bizarra denúncia da minha presença num encontro conspirativo em Cantanhede, terra que de todo em todo desconheço, onde eu me teria gabado de bombista, coisa que sempre detestei e sempre condenei. A história viria de uma tal “Catarina” pseudónimo de uma “bufa” da pide. Pelos vistos nem a polícia acreditou na alarve acusação mesmo se, apesar de tudo, isso conste de um dos meus catorze processos (aliás treze porquanto um deles dá-me como médico em África, pelo que deduzi sempre que se referia a meu pai que, embora solidário com os filhos, nunca partilhou as nossas convicções políticas. Os informadores e os agentes nem sempre eram suficientemente profissionais: num outro processo instruído no Porto, o agente aponta-me como elemento da corrente ”leninista-marxista” – sic! – com “grossa actividade política” não especificada! – sic novamente ...).

Verifico que falar destes dois antigos companheiros foi também falar de mim. Ao fim e ao cabo, cada um à sua maneira e na situação concreta em que viveu ou vive, foi um modesto actor que não limitou a ver a peça mas quis, mal ou bem, nela intervir. Citando Brecht, sempre direi:

“Vós que haveis de surgir das

cheias

em que nos afundámos

....

pensai em nós

com indulgência “

* a gravura é da série da crise académica de coimbra.Eles não eram de lá, não podiam estar lá mas foram solidários com tudo o que lá se passou. Isso me basta e, decerto também basta à malta coimbrã que naquela altura bem apreciou toda a solidariedade possível. E o Joaquim ou o Pedro estiveram sempre, sempre, solidários.

 

 

Estes dias que passam 329

d'oliveira, 18.07.19

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Também se morre no Verão

Ontem foi um dia nefasto. De uma só penada foram dois os desaparecimentos: Andrea Camilleri e Johnny Clegg.

Do primeiro já aqui falei várias vezes. Fundamentalmente, referi os seu romances policiis (série Montalbano, cerca de trinta títulos) mesmo se, para além desses e igualmente com grande mérito tenha publicado mais outras quarenta obras. Curiosamente, Camilleri foi um autor tardio, sobretudo no que se refere à novela policial, começada já depois dos setenta anos. E foram sobretudo esses romances os que o tornaram extremamente conhecido não só em Itália mas também no resto do mudo com particular incidência para a Europa onde está publicado quase na totalidade. Em Itália chegou a ter seis ou sete títulos na lista dos dez livros mais vendidos. Está traduzido em Portugal (uma meia dúzia de títulos, pelo menos) e toda a sua produção policial foi alvo de filmes produzidos pela RAI. Ainda há poucos meses, a RTP 2 passou durante semanas a grande maioria deles.

Camilleri faz decorrer a acção do “seu” Comissário Montalbano na pequena cidade de Vigata , na Sicília, sua ilha natal. Não é, todavia,a Máfia o alvo principal mesmo se esteja sempre presente. Na maior parte dos casos, os casos do comissário são os típicos de uma pequena cidade italiana a que não falta, aliás, a presença de “extra-comunitários” quer oriundos do Leste europeu quer do Magrebe. Como qualquer outro escritor siciliano (e eles são tantos e tão excelentes) Camilleri insiste –mesmo não carregando nas tintas – na singularidade insular, coisa aliás mais presente ainda nos romances não policiais. Terá sido essa exemplaridade que o tornou conhecido, respeitado e muito lido em toda a Itália. E no resto do mundo, pelos vistos tal a quantidade de edições em línguas estrangeiras.

De todo o modo, eis um autor a não perder. E para os mais afortunados vale a pena recomendar os filmes (conheço duas edições: a italiana e a espanhola. Autenticas pequenas pérolas de cerca de hora e meia. Ao que sei há pelo menos 18 já realizados.

 

O zulu branco.

Com 66 anos, eis que se despede Johnny Clegg, músico importantíssimo da África do Sul cuja história recente – desde os tempos do apartheid – ilustrou como poucos.

Clegg, branco foi um profundo conhecedor da cultura e sociedade zulus, aliás concluiu mesmo uma licenciatura em Antropologia sobre esses grande grupo (o maior na maioria negra) sul africano. Falava a língua com desenvoltura e os seus amigos consideravam-no um autentico mestre da dança tradicional zulu. Contra todas as proibições, desde muito jovem, começou a interessar-se pelo povo zulu de onde era originária a grande maioria dos trabalhadores negros emigrados em Joanesburgo. Foi com eles que primeiro aprendeu os conceitos básicos da grande tradição zulu e com eles começou a fazer música, misturando o rock e o pop à música tradicional africana. Cedo constituiu uma (proibidíssima) banda e cedo começou a publicar (algumas vezes em co-autoria) canções onde perpassavam a temível realidade sul africana, os medos e as esperanças da comunidade negra e de alguns brancos não conformes com o regime. Tal actividade não lhe poupou a prisão, obviamente. E o exílio, aliás. Começou por isso uma carreira internacional, sempre com uma banda mista e é autor de um dos grandes hinos anti- apartheid, “Asimbonanga” dedicado a Nelson Mandela. Curiosamente, durante um concerto já na “nova” África do Sul , o Presidente Mandela apareceu de improviso no palco de um dos seus concertos a dançar aquele hino. E a abraçar o músico branco que desafiara tudo e todos, dentro do próprio país ao criar uma banda (Juluka) bi-racial e ao cantar para todos os sul africanos sem excepção.

Músico talentoso, grande dançarino, o zulu branco provou, quase só, que a resistência dos brancos era possível como era possível uma nação arco-íris. Só isso já faz um grande homem.

Estes dias que passam 328

d'oliveira, 11.07.19

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O cronista desconfiado

mcr 11.7.19

 

 

Nem sempre fui desconfiado, bem pelo contrário. Na minha meninice tardia (já lia livros se bem que em voz alta) a avó Aldina (a “Velha Senhora”, visitante antiga desta página) explicou-me o Natal. Não, o menino Jesus não vinha ver a árvore (naquele tempo o Pai Natal todo de vermelho via Coca-cola, ainda não era o intruso tremendo de hoje), era a família que presenteava a criançada que mal conseguia dormir de 24 para 25 (lá em casa era no próprio dia que estremunhados e ansiosos íamos, o meu irmão e eu, quase de madrugada, enfim pelo raiar das 8 da manhã, ver o que se passava junto dos nossos sapatinhos, à sombra da árvore.

Mais tarde, depois de acreditar ferreamente no que contavam Júlio Verne, Emílio Salgari e Edgar Rice Burroughs (o cavalheiro do Tarzan que li integralmente na colecção “Terramarear “ de origem brasileira e presente na Biblioteca Pública Fernandes Tomaz, na Figueira da Foz, tive que me render à evidência. Tudo aquilo provinha da imaginação formidável dos autores e, no caso de Burroughs, a África é bastante fantasiosa pois o autor nunca lá pôs o pé.

Já Verne é um estudioso, um leitor de mapas e revistas científicas e um formidável explorador de futuros prováveis a que, entretanto, consegue juntar num cenário de viagens pelos mais recônditos cantos do mundo, aventuras e heróis que as vivem vitoriosamente graças ao seu conhecimento científico. Salgari, marinheiro e viajante parte de princípios semelhantes e sobretudo de um apertado conhecimento de geografia para, também ele levar os seus heróis por mundos ainda mal descobertos, A Asia, as Américas o Extremo Oriente que os seus leitores iam conhecendo através de jornais e revistas de notável qualidade e extensamente ilustradas.

Tudo isto, toda esta digressão sobre os livros que povoaram a minha infância e primeira juventude, para explicar que sempre tentei perceber o mundo desconhecido pela leitura. Quando cheguei a África, à África verdadeira e não apenas às grandes cidades mas muito ao “mato” onde um branco era quase uma (nem sempre recomendável) novidade o choque foi notável. Aos quinze anos, mesmo sem o saber, já tinha uma obscura consciência dos males do colonialismo, mesmo se não fosse ainda capaz de objectivar claramente o sistema. Mas já sentia como injusto o “contrato”, as culturas obrigatórias (sobretudo o algodão) a injustiça do imposto em moeda no caso de populações onde ela não existia e onde a economia era de subsistência, a brutalidade boçal de muito colono e a inexplicável ausência de negros no sistema de ensino secundário. E não gostava de missionários. E achava lindíssimos os “manipansos” ou seja alguns objectos de arte africana que, sei lá porquê me pareciam extremamente expressivos. Ao invés, a maioria dos nossos conhecidos, mesmo dos interessados em “arte indígena” (!!!) adorava encomendar aos escultores makonde Nossas Senhoras, caravelas e peças para jogos de xadrez, tudo muito “africano” como se vê. Também havia encomendas de máscaras que, de modo algum, correspondiam às máscaras correntes nas culturas locais! Porém, isto era apesar de tudo um vago sinal de interesse – não vou ao exagero de falar em respeito- pelo outro, pelo negro (em português colonial pelo “indígena”). Desse curto período da minha irrequieta mocidade ( acrescentado a três outros - longos, longos- períodos de férias grandes quando já estava na universidade. Nasceu aí e continua em crescendo uma paixão por África, pelas civilizações ditas “primeiras”. Na minha caótica biblioteca jazem milhares de livros sobre África (história, arte, geografia, etnologia, dicionários e línguas além de, obviamente, tudo o que tenho apanhado sobre a “expansão colonial portuguesa” , termo propositadamente ambíguo como é sabido mas que dá imenso jeito nesta época de anti-colonialistas ignorantes e de saudosos do império igualmente néscios.

Neste capítulo incluo aquele vereador patarata que descobriu o mal absoluto no Jardim   da Praça do Império frente aos Jerónimos. Havia por lá uns canteiros representando os brasões das colónias. O pobre diabo nem hesitou: acabem-se os canteiros e assim purifica-se a história pátria! Queira ou não esta criatura, a História fica para além dele e o seu gesto tolo só a torna mais ininteligível. E mais boçalmente ideológica...

Vem tudo isto a propósito de um texto da srª doutora Fátima Bonifácio a quem a passagem acelerada dos anos terá toldado a agudeza. O texto, pobre dele, é ml amanhado, confuso, parte de pressupostos racistas , esquece que em Portugal foram assimilados e se perderam na voragem dos séculos muitas dezenas de milhares de negros trazidos como escravos. Esquece igualmente o que devemos a inúmeros “mestiços” (e só vou citar Almada Negreiros) sem falar na pujante presença de negros na cultura americana mormente na música e nas letras ou em França (também só cito Alexandre Dumas) para não falar de países onde a presença de intelectuais de “cor” (incluindo prémios Nobel) é corriqueira. Tudo sem “quotas”, notem bem.

Li hoje que um professor universitário de origem moçambicana mas residente em Portugal onde, aliás, exerce, entende a obrigatoriedade de quotas como um último e perigoso sinal de paternalismo racista branco. Não direi tanto mas temo bem que não esteja totalmente longe de alguma verdade.

O texto da senhora Bonifácio merece ter o mesmo destino que Camilo augurava a uma carta recebida: passar ao ventre da mãe terra pelo esófago da latrina!

Porem, a notícia, também de hoje, de um grupo de personalidades entendeu apresentar queixa crime contra a referida senhora. A notícia curta não explicita com clareza a base jurídica da queixa e sobretudo mesmo que seja aceite, não destrói a argumentaçãoo da autora. Apenas a transporta para o eventual paraíso dos acusados de delito de opinião. A opinião da historiadora deve ser combatida pelas opiniões dos queixosos. E espera-se que escrevam com mais clareza o que querem. E também apareceram no mesmo jornal onde o artigo saiu apelos a que se proibisse qualquer outra publicação de textos da referida autora. Há até uma senhora que o faz em nome da sua “assinatura” do jornal. Eu, que leio e pago o Publico desde o primeiro dia não me sinto defraudado. Como não me sinto atacado por tantos outros textos em que algum “ódio de classe” de duvidosa origem e de mais que duvidosos antecedentes, lá publicados. Bastaram-me os anos de leitor de jornais entre 1958 e 1974 onde a verdade era só uma e a censura se cevava à vontade nos textos vagamente discordantes. Fui alvo desse lápis azul muitas vezes (na Vértice, no Comércio do Funchal entre outras publicações) para concordar agora com qualquer espécie de censura.

O meu amigo Joaquim Namorado, que viveu e morreu comunista puro e duro, afiançava que estava disposto a colaborar num pasquim dos anos sessenta (o “Agora”) desde que o deixassem dizer o que queria. E remetia para os leitores o julgamento crítico do que defendia. Vivemos numa repelente época do politicamente correcto. Ainda há poucos meses, um grande e excelente jornal americano pedia desculpas por ter publicado uma caricatura do excelente António em que Trump e Netaniahu apareciam um de kipá e o outro à trela. E acabava com a publicação de caricaturas, cedendo assim aos lobbys mais assanhados de Israel e dos EUA.

Somos nós, o público, os leitores, os inconformados, quem perde. E a vitória dos fanáticos torna-se perigosamente mais viável. À falta de contraditório... À falta de opinião....

 

 

 

Estes dias que passam 388

d'oliveira, 22.02.19

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O Carnaval está próximo 2

mcr 22/2/19

 

Carlos, o bombo da festa

 

Não conheço o dr. Carlos Costa de sítio nenhum e é bem provável que nunca me venha a cruzar com ele. Dele apenas sei o que sabe qualquer cidadão que tenta estar informado. E que tenha acompanhado, desde há um par de anos, a sua trajectória como Governador do Banco de Portugal. Cabelos brancos, ar cordato, fala afável e segura, perfil discreto são bons argumentos mesmo que não sejam suficientes para definir um cargo que, por força de lei (e mais ainda depois das regras adoptadas pelo Banco Central Europeu –BCE-) tem de tutelar prudente mas firmemente o sistema bancário português.

CC começou já há bastante tempo por ser acusado de “não ver”, ou ver enviesadamente, o que se passava em certos bancos, nomeadamente o Espírito Santo.

A carreira deste banqueiro que passou pela CGD durante um curto período – e não o pior nem o mais descarado- começou a ser contestada depois de Passos Coelho lhe ter confirmado o mandato para onde fora indicado pelo sr. Sócrates. Ou seja, para certa gente, ele era bom durante o “socratismo” mas mau logo que o passismo despontou! Bizarrias.

Costa foi acusado de nada ter lobrigado no cafarnaum do BES. Tal e qual como Constâncio cuja miopia bancário-política foi idêntica. Só que Constâncio, além de ser socialista, foi para a Europa e Costa ficou por cá a ver o terramoto acontecer.

O segundo (nem falemos da mortal inimizade de Centeno) ataque (aliás pluripartidário) a CC consistiu em tentar embrulhá-lo em financiamentos medonhos da CGD a gente “acima de toda a suspeita”. Aliás, apenas a um, visto que o grosso dos desvarios criminosos ocorreu posteriormente com os resultados que se conhecem (se é que já conhecemos tudo!...). Costa teria estado numa reunião alargada (ora toma: eis que a CGD, tal qual o comité central do PC tem também “reuniões alargadas, provavelmente com os mesmíssimos efeitos de encenação vagamente teatral e realmente sem qualquer importância...) E que nessa reunião se teria atribuído a um empreendimento algarvio uma forte soma sem atender ao risco, às garantias e a tudo o resto. Na versão de Costa o que houve foi tão só uma reunião onde sem se conhecer destinatário, se enunciaram princípios que justamente previam a existência necessária de um sindicato bancário e o escrupuloso acatamento do parecer da comissão encarregada de avaliar o risco. Posteriormente, já sem Costa, na nova reunião mais estricta (ai não!) decidiu o financiamento.

Quando alguém é acusado de algo, compete ao acusador provar sem lugar a dúvidas a acusação. O acusado poderá depois defender-se. No caso de Costa, pelo que se vai sabendo, a versão dele parece ser a mais consistente enquanto a acusação não conseguiu até agora provar a sua participação na efectiva concessão desse mal paradíssimo crédito (lembremos que, na altura, era o dr. Constâncio o governador do BCP e o cuidadoso vigilante das tropelias bancárias...).

Bizarramente, o dr Costa também foi acusado de passar férias no mesmo empreendimento turístico. Dez anos mais tarde! Arre que demorou a cobrar algum hipotético favor. A isso, Costa responde afirmando ter pago totalmente a semana ali passada. Competiria aos acusadores provar que lá esteve à borla mas isso, a estes, terá parecido ser supérfluo!...

Quanto ao caso BES, a coisa parece também extraordinária. Passos Coelho, honra lhe seja, não quis acudir ao senhor Espírito Santo. Todavia, é Costa quem merece os ataques desesperaos do senhor Espírito Santo que, pelos vistos, está “bem” acompanhado pela gente que subitamente (terá sobre ela, numa surpreendente noite de nevoeiro, descido o Espírito Santo à semelhança daquela outra vez há dois mil e tal anos?).

Entretanto Costa, António, parece recusar-se a alinhar n companha contra o actual Governador. Primeiro é quase impossível correr com o homem; depois, este está a um ano de terminar o seu mandato; finalmente, as regras do BCE são, em caos deste tipo, claras. Todavia, fundamentalmente, enquanto Carlos vai apanhando de todos os lados, António põe o lombo a salvo e tenta passar por entre as gotas da chuva.

A riqueza da nação

No ano de 2018 houve 29.500 famílias a pedir a intervenção da Deco por não terem possibilidades de pagar as dívidas contraídas.

Estas, em média, atingem os 924 euros (contra 850 no ano anterior)

A média de créditos concedidos anda pelos 62.770 euros (contra 60.500 em 2017)

A taxa de esforço média das famílias que pedem ajuda está nos 80% quando no máximo não deveria ultrapassar 35%

O rendimento médio das famílias nesta situação situa-se nos 1150 euros (menos 50 do que no ano anterior) Isso significa que o rendimento disponível fique em níveis quase inimagináveis:226 euros.

Estes dados foram obtidos no “Público” de quarta feira.

O tremendo retrato que daqui sai deveria preocupar-nos a todos e, sobretudo, os arautos da maravilhosa vida que o país está a ter. Deveria ser esfregado na cara (eu ia a dizer no fcinho) de certas forças políticas que aora andam numa roda-viva pelo país a explicar os benefícios que trouxeram à pátria neste quadriénio que está findar.

Outros sinais (aumento da dívida pública, baixa nas espectativas sobre o défice que não atingiu a meta governamental “por culpa dos estivadores de Setúbal”... ) deveriam ser levados a sério.

Porém, como o inefável Pangloss, Costa (António) apregoa os êxitos e varre para a sargeta tudo o resto. E nele vão mais 30.000 famílias subitamente empobrecidas.

Não vou afirmar que o desvario despesista seja todo culpa de quem governa mas o discurso “irritantemente optimista” destes anos pretéritos alguma mossa há de ter produzido neste desastre, aliás anunciado.

No rol de despesas verificadas há uma componente forte dos débitos pessoais e de cartão de crédito. O crédito à compra de habitação também ocupa um lugar importante, obviamente. E não deixa de ser preocupante o facto de o rendimento médio das famílias ora em causa ter bio de 2017 para 2018 (50 euros).

Faço notar que o artigo (2 inteiras páginas) refere o facto dos solicitadores de auxílio virem da média burguesia, das classes de idade compreendidas entre os 25 e os 65 anos com maior incidência na faixa 40-54 anos.

E, mais grave ainda, entre quem pede ajuda há 33,3% e 39,6% de pessoas com o 2ª ou 3º ciclos. Não se trata pois de ignorantes, de iletrados mas sim de gente com educação. A eles juntam-se 18,7% de licenciados o que complica ainda mais o retrato e aumenta a ameaça de ruptura social.

 

CTT (a regra e a excepção?)

Há 2 semanas zarpei para Lisboa e só quando estava a chegar é que descobri que não trazia qualquer documento (cartão de cidadão, carta de condução, livrete) nem, pior, dinheiro vivo ou os cartões de crédito. A falta de dinheiro, desde que chegasse a casa da família estava resolvida. Aliás fui ao meu banco e obtive um cartão de crédito provisório. No que toca ao resto dos documentos a coisa era mais complicada. Era uma quarta feira pelo que ou os recebia no ddia seguinte ou máxime na sexta ou ficava numa situação difícil. A todo o momento, quem guia pode ter algum acidente e a primeira coisa que nos pedem são os documentos.

Indaguei na estação de correios se havia meio de receber com rapidez os documentos em falta. Havia, graças e louvores se deem a todo o momento ao divino Sacramento! Há um expediente chamado correio expresso que permite receber no dia ou na manhã seguinte até às onze horas (no caso da expedição ocorrer depois do meio dia) o qur for enviado. Até há seguro!

No momento em que os CTT apanham pela medida grande, há que reconhecer que este serviço – não sei se recente se antigo – funciona. E funcionou impecavelmente. Antes das 10 horas da manhã de quinta voltei a ser um cidadão “documentado” e menos angustiado. Sei que isto não tranquiliza quem, em vez de uma estação completa de correios, tem agora uma “loja” cuja eficácia desconheço. Mas convém também noticiar que nem tudo é mau no actual serviço.

 

Que é que ele quer?

O senhor Corbyn não para de me surpreender. Por mais noticiários ingleses que tente ver ainda não percebi se quer sair ou permanecer na Europa. Se ama desveladamente os judeus ou se, como alguns péssimos sinais indiciam, os quer muito longe dele. Se quer derrotar a Sr.ª May ou se alimenta no seu já cansado coração à beira dos setenta anos um derriço pela dama. Se vai fazer –como até agora se verifica – frente comum com a gentinha conservadora do Brexit ou se tem um projecto crível e viável para uma Grã Bretanha cada vez mais irreconhecível.

Já não questiono as suas opções políticas, sobretudo o regresso impossível a um passado socialista que se alimentava da Escócia boa votante e dos sindicatos que burocratas como ele mesmo foram varrendo para o caixote do lixo da História.

A recente deserção de meia dúzia de deputados (a que se junta uma outra desta vez “torie” de três deputadas) e as declarações deles deixa Corbyn ainda mais desconfortável. Digamos que a sua carreira -aliás obscura – no Labour pouco ou nada promete aos britânicos. May, de resto, acompanha-o nesse cortejo fúnebre.

Se a Europa, por uma vez organizada e de acordo, não parece disposta a aturar muito mais tempo a Sr.ª May, tão pouco se agita entusiasmada com Corbyn. Nem sequer os socialistas e social-democratas do Parlamento Europeu.

Basta-me uma pergunta que propõe Corbyn para a fronteira do Ulster com a República da Irlanda?

 

“aperta o teu coletinho

 

O filósofo francês Alain Finkrelkrault foi há dias violentamente insultado por vários “gillet jaunes” que não só o ameaçaram como o tentaram agredir. Um dos seus atacantes é, aliás, uma criatura ligada ao movimento salafista, o mesmo é dizer, um fanático islamista. Ao mesmo tempo, e em vários locais por onde os coletes passaram, apareceram inscrições anti-sionistas (Nem Simone Veil escapou) .

Já por aqui deixei escrito que esta gente que todos os sábados se reúne e se manifesta não passa de um agrupamento ocasional de descontentes que assume a “jacquerie” como se fora uma revolução. Não o é, pese embora a opinião de muitas luminárias “progressistas”, dessas que estão sempre à espera de um terramoto social. Em França, a saudade da revolução é uma constante e, a cada par de anos, anuncia-se um novo e miraculoso movimento salvífico que dura o tempo da estação amorosa dos pirilampos. Não é oiro mas apenas purpurina. Em boa verdade, grande parte dessa inteligentsia francesa que que sente periódica mas subitamente o orgasmo revolucionário, é profundamente reaccionária e acaba sistematicamente nas academias, nas mordomias e na boa consciência. Todavia, o mito revolucionário (basta lembrar os anos da “ocupação”, a vergonha imensa da colaboração que foi quase unânime -nem o PC escapou no primeiro ano!...- ) foi cuidadosamente alimentado por muita da mais lida historiografia oficial e oficiosa. Desde então é o que se sabe: um sobressalto, umas vagas barricadas ou nem isso, gritaria nos media e aí está pret a porter mais uma revolução, sempre a boa, a definitiva.

Desta feita, são os coletes amarelos que pedem tudo e o seu contrário e, pelo caminho, vão – e não poucas vezes – pilhando, destruindo, incendiando o que lhes está pelo caminho. Pouco a pouco mas com segurança vão aparecendo os sinais de uma extraordinária, mas não surpreendente aliança entre a extrema direita e a extrema esquerda (leram bem: extrema esquerda, a França insubmissa e outras patacoadas idênticas) numa clássica condenaçãoo de tudo o que ameaça o modo de vida conformista e conservador francês (ecologia aí compreendida, claro). .

Por cá, houve uma erupção benigna dessa acne revolucionária: apareceram umas tristes e solitárias criaturas que depois do estrondoso anúncio da sua vinda se juntaram num pequeno grupo junto ao Marquês de Pombal. Eram mais os polícias que os manifestantes à volta os lisboetas prosseguiam imperturbáveis a sua vida de todos os dis. Nem os turistas, sempre ávidos, tiraram fotografias. Aquilo era demasiado pobrete, nada alegrete e reles.

Em França, a coletagem já está em maré decrescente mesmo se em certos programas (cfr “28 minutes” /ARTE) ainda apareçam alguns raros exaltados adeptos daquela bagunça ideológica. De facto, e no fundo, bem no fundo, o que dali sobra é o racismo, o nacionalismo exacerbao e uma profunda incultura política. Só.

E esperemos que mesmo nos estertores da agonia, este cego e incerto movimento não acabe com alguma morte que será sempre a de alguém que nada tem a ver com as razões de descontentamento sentidas por quem se vê excluído.

 

Estes dias que passam 385

d'oliveira, 23.01.19

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E a Caixa?

 mcr aos 21/1/19

(não sou especial fã dos CTT – nem na nova forma nem na antiga –vivo numa zona onde não faltam agências -parece que agora se chamam lojas-, uso a empresa apenas para cartas registadas ou envio de embrulhos, o que significa um uso muito marginal. Não conheço nenhum dos figurões que o dirigem nem me apetece conhecê-los. Sou, tanto quanto me parece, relativamente neutral nesta questão que subitamente parece levantar-se ou agravar-se).

A nova empresa CTT tem, segundo testemunhos razoáveis e críveis, diminuído o número de postos (ou estações). Por seu lado o Conselho de Administração da empresa jura que aumentou o número de locais onde os usuários dos correios podem ser atendidos.

Neste ponto, conviria perguntar se esse aumento colmata a falta que o encerramento do anterior posto criou. Isto é, se a população órfã de serviço de correios, tem com igual comodidade acesso a outro idêntico ou melhor. A pergunta é legítima porquanto o novo local pode ser em zonas já com serviço de correios deixando sem ele outras que correspondiam ao posto encerrado. Não é a mesma coisa abrir loja em Lisboa para substituir a que se fechou em Carrazede do Meio.

Em segundo lugar, seria bom e útil saber quais os serviços que deixaram de ser prestados nas zonas ora desertadas. Duvido bem que seja a recepção ou envio de correspondência. Não por estes terem sido substituídos pela internet mas apenas pela singela razão de nos meios envelhecidos e rurais não só subsistir algum analfabetismo mas também não ser normal a troca de correspondência. Já o caso dos vales de correio com a magra reforma e uma que outra encomenda poderá efectivamente tornar-se um problema mais sério.

Em terceiro lugar, poderia pensar-se no serviço de telefone fixo muito embora o mesmo agora possa ser processado por várias empresas que retiraram aos CTT esse monopólio e, desse modo, deixaram ainda mais abalado o nome da empresa. Nem telefones e pouco ou nada de telégrafos...

 

Conviria, porém, atentar neste facto: Há um outro serviço dito público, dito de medonha importância para os cidadãos que também tem vindo a desaparecer aceleradamente do interior: A Caixa Geral de Depósitos, o tal banco “público” que já nos custou uma fortuna e que encerra balcões com uma velocidade que se mede com a usada pelos CTT (também ele, agora, banco) . Permitir que aquela em nome do interesse público e da economia feche balcões ao mesmo tempo que se ruge contra idêntica atitude dos CTT parece-me ser mais um apelo ao uso de língua bífida do que crítica razoável. Tanto mais que a Caixa também era o mealheiro dos mais pobres, o local onde se descontavam as magras pensões de reformados vivendo no interior e que também recorriam à famosa “caderneta” onde constavam as suas escassas poupanças.

O jornal Público traz na edição de hoje (23/1/19), e em páginas centrais, um resumo da escandalosa lista de empréstimos de alto risco a personalidades e empresas portuguesas de onde até à data já resultaram largas centenas de milhões de euros de prejuízo. Na impossibilidade de “nacionalizar” a Caixa só se vê a hipóteses de a privatizar!... Isto para usar do medicamento “reversor” que agora está na moda.

Convém lembrar aos mais assanhados “renacionalizadores” que retirar os CTT da esfera privada poderá ser um excelente negocio para os accionistas que viram a empresa perder mais de 50% do seu valor de venda.

A ideia peregrina de defender o “serviço postal universal” coitadinho é de “ir às lágrimas”. Está-se a defender algo que, se não está morto, está já moribundo e pronto a receber os santos óleos. Não sei se ainda existem os “postais” da minha juventude (pois não os vejo à venda em parte alguma) ou se ainda se troque correspondência em papel. Pelo fraco movimento de venda de selos nos quiosques adivinha-se o cada vez mais reduzido uso deste meio de comunicação. Isto, nos quiosques onde ainda é possível encontrar selos. E a razão é simples: o correio electrónico é gratuito ou, melhor faz parte de um pacote onde também entram a televisão, os restantes serviços de internet e o telemóvel. E se é verdade que, subsistem muitas dezenas de milhares de portugueses info-escluídos, também não é menos verdade que é nessa categoria que se encontram os grupos que menos consumo fazem de produtos dos CTT.

Provavelmente, com certa ironia, um jornalista do citado Público afirma que com a reversão dos CTT só há um ganhador: o grupo privado accionista dos CTT que se livre dos incómodos e fica com a parte boa, o Banco CTT que, à luz das regras da UE, não é nacionalizável.

Depois, se verá se reabrem as lojas fechadas e/ou substituídas por postos nas sedes das juntas de freguesia. E no, improvável caso de serem reabertas, se funcionam com o mesmo número de trabalhadores ou com outro bem superior (relembremos a famigerada passagem das 40 para as 35 horas de trabalho). E se o reactivado serviço universal postal miraculosamente faz surgir cartas às centenas ou aos milhares par justificar as ânsias reversoras de algum PS (que espera votos e postos de trabalho) e da generalidade dos seus aliados a quem a ideologia nacionalizadora cega até à demência. E se tudo isso leva à famosa revitalização do interior, à criação de empresas e de indústrias que mobilizem os escassos recursos humanos locais e exijam uma nova corrida de gente a estas regiões. E, já agora, se obrigam a CGD, tão pública e tão amiga dos desfavorecidos, a reabrir os balcões entretanto fechados.... Sonhar é, sempre, fácil –já agora seria interessante ver responsabilizados os gestores que, contra todas as boas regras do negocio bancário, ofereceram um bodo a uns quantos influentes (e eventualmente receberam uma gorda gorjeta pelos bons serviços prestados). E nessa responsabilização seria bom ver implicados os governantes que indicaram, impuseram e nomearam essas administrações que só lá foram colocadas para servir amigos, amigalhaços, afilhados políticos e outros espécimes de má frequentação. É verdade que a cadeia de Évora está superlotada mas com uns módulos a mais (como no caso dos contentores da pediatria do Hospital S João) acolher-se-iam uns quantos “cavalheiros de indústria” que tem sangrado o país e a Fazenda Pública desaforadamente. Se os contentores podem acolher crianças durante décadas também poderão dar guarida a adultos ladrões. Poder-se-ia mesmo, instalar lá uma estação de correios mesmo que se duvide que os nela instalados sejam capazes de escrever sem erros...

* na ilustração: a medonha mastaba que se vê é a sede da CGD em Lisboa. Mais do que um susto! A pedir um terramoto ali mesmo localizado a bem do bom gosto  (e do bom senso).

Estes dias que passam 384

d'oliveira, 08.01.19

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Indo por partes

mcr 7/8 Jan 19

 

O país, algum país, provavelmente apenas uma pequena parte, está comovido, exaltado, indignado ou, simplesmente, excitado. A causa tremenda é conhecida: um pobre diabo, um indivíduo sem a mínima representatividade (política, moral, social) apareceu num programa da manhã a responder a uma questão (também ela) pouco interessante. Tratava-se, ao que li e agora estou farto de ouvir, de saber se Salazar, enfim o seu impertinente fantasma, estava vivo (como o de Stalin nos corações progressistas de uns centos de criaturas “m-l” que ainda hoje rodam por aí dentro de partidos legais ou de frentes partidárias assumidas e com responsabilidades) e se seria necessário o seu regresso. Convenhamos que a pergunta não era do mais inteligente e que denotava falta dolorosa de tema para uma televisão ou para um programa (ou para um mero apresentador).

Todavia, um tal Manuel Machado, assanhado cabeça rapada, foi ao dito programa dado, pelos vistos, ter “opiniões polémicas”. No caso polémico deve significar burro (e não me refiro só ao entrevistado...).

Na questão de polémicas ficou-se por pouco. Regougou umas frases com escasso sentido e pior gramática, afirmou que não era contra os homossexuais nem contra os pretos e deixou no ar – ao que consigo perceber dos relatos confusos mas palavrosos que vão chegando – a ideia de que com uma extrema direita daquele género podemos nós, sem sequer erguer um pé para uma canelada. A coisa foi, e estou a ser generoso, risível. Direi mesmo que convinha repetir o programa duas, dez, vinte vezes para que o público português percebesse que se o perigo é aquilo então poderemos dormir descansados. Um pouco como a prestação da senhora Le Pen frente a Macron: um desastre e uma goleada do actual presidente francês.

Uma segunda constatação, também prévia decorre da personagem entrevistada. A criatura tem antecedentes criminais e não poucos inimigos no meio onde vegeta. Foi condenada e esteve na cadeia largos anos pelo que, nesse domínio, pagou à sociedade as suas malfeitorias. E pagou-as pesadamente, ao contrário de algumas “personalidades” que, volta que não volta, se pavoneiam nas televisões indígenas e que tem nas mãos o sangue inocente de umas quantas “vítimas colaterais”. Não consta que tenham sido julgadas e condenadas e, pelos vistos, aquilo, aquela autoria moral descabelada, parece ter sido um pecado venial, umas dores do parto da democracia, uns pequenos excessos perdoáveis pela opinião pública já esquecida (ou apenas conformada com uma justiça a várias velocidades e com a conveniente amnésia política da nomenkatura).

Portanto, vir agora, relembrar o passado prisional do tal Machado parece-me uma segunda tentativa de condenação por factos já julgados e punidos.

Porém, o pior disto tudo, desta gritaria escandalizada de filisteus é confundir uma burrice televisiva com um golpe de Munique, com uma marcha sobre Roma, com um 28 de Maio, com a “cruzada” do Franco, para já não falar do tropical Jair que arrota postas de pescada num português lamentável diante da impassível e fraterna testemunha que de Portugal lá foi para defender a CPLP, a “amizade” luso-brasileira, os restos de uma colónia de portugueses em terceira geração que, eventualmente, terão aplaudido o capitão “mito” com ambas as mãos.

Hoje os jornais noticiam que mais de trezentas “personalidades” e um quarteirão de pessoas colectivas (de que pouca gente ouviu falar, cuja actividade era até agora desconhecida ou mínima) escreveram uma “carta aberta” que, francamente, também não demonstra que os redactores tenham inventado a pólvora. Nos últimos dias o sindicato dos jornalistas, uma alta autoridade que tutela a imprensa, vários jornalistas e comentadores com tabuleta na última página de um jornal de “referência”, enfim todos, ou quase, ou seja, os do costume, vieram subscrever-se no politicamente correcto em bicos de pés, “também eu, também eu”... Deprimente!

Contra a corrente, só li Pacheco Pereira, honra lhe seja, que marcou com segurança as fronteiras desta nova guerra do alecrim e da manjerona.

Entre os indignados sobressai a baça figura do senhor Ministro da Defesa que num tweet alardeou duas considerações de fraca qualidade e uma imagem de florestas a arder para agradar a incendiários. S.ª Ex.ª ministro da “grande silenciosa” (as forças armadas) deveria ter reflectido cinco minutos andes de se esganiçar contra a estação de televisão onde os factos horrendos se passaram. É que poderia alguém, de má fé, claro!, pensar que na declaração do cidadão que, aliás, é ministro e não dos menores, perpassava a sombra de uma coação. Claro que S.ª Ex.ª nunca, de nenhum modo, sequer em sonhos, quis dar essa penosa impressão. Não quis mas deu.

Do senhor ministro espero com intranquila ansiedade algo sobre a merda de Tancos e sobre os que sabiam do que se tratava. Falo de militares e de civis e dos importantes. Até à data, nada, zero, raspas de raspas... Como se, cada vez mais, o rol de culpados e conhecedores alastrasse qual mancha de azeite e fosse paulatinamente atingindo muita gente acima de toda a suspeita (se é que se lembram de um filme italiano de Elio Petri: “indagine sul un citadino al di sopra di ogni sospetto” (1970, um grande filme político)

S.ª Ex.ª tem o direito de cidadania como é evidente. No entanto, é ministro. E um ministro tem de saber que tudo o que faz ou diz é escrutinado pelos cidadãos, amigos ou adversários, como já ocorreu um par de vezes com outros membros do actual executivo, mormente a senhora Fonseca, ou, antes, o senhor João Soares o “esbofeteador” e aquela senhora ministra da Administração Interna de que já nem o nome recordo. Aos senhores ministros pede-se trabalho, zelo, competência e que despachem as matérias que lhes competem com brevidade e sensatez. Não precisam, como Tartufo, de vir para arena bater três vezes com a mão no peito. A gente sabe que o senhor ministro é democrata, dos quatro costados. Se quiser adversários escolha um à sua altura melhor que um rapazola já entrado em anos, de suástica no braço e poucas ideias na cabecinha sonhadora.

Não quero com isto dizer que me não preocupam os assomos autoritários de governantes seja cá seja no Brasil, na Venezuela, na Guatemala, na Coreia do Norte ou na China. Ou no leste europeu onde perpassa um cavalheiro húngaro que também foi fraternamente abraçar o Bolsonaro. Vivi trinta e três anos da minha vida sob um poder rural, católicão, gangrenado por dentro, incapaz de pensar o mundo exterior e de perceber a sociedade portuguesa. Não me conformei e recusei-me a ser súbdito dessa gente. E lá marchei para cadeias variadas. O melhor da minha vida passou-se nesse universo cinzento, pesado e triste. Apesar de tudo tive sorte, porquanto alguns centos de portugueses tiveram pior estadia nas cadeias e por mais tempo. Talvez a minha juventude me tivesse salvo de horrores piores. Duma coisa estou certo. Esses anos e os primeiros da democracia curaram-me de várias coisas, entre elas do hábito de gritar pelo lobo mesmo se apenas se avista um pobre cão. E de ver o mundo a preto e branco. Dum lado os atentados à liberdade pessoal são monstruosos do outro, simétrico, são louváveis esforços de construir o futuro. Não são. Ponto, parágrafo.

Se, e quando, o autoritarismo anti libertário vier, não terá o Machado como anjo anunciador, podem estar certos. Espero que, nessa altura, os que se apressam a ver a floresta a arder mesmo quando a luz que se avista seja apenas a de um pirilampo à procura de fêmea, se exaltem e se disponham a agir. A agir. A impedir. A dizer, alto e bom som, NÃO.

Até lá, bom ano.

* Na gravura: o ovo da serpente (filme de Ingmar Bergman)

estes dias que passam 383

d'oliveira, 02.01.19

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Novo ano. Ano novo?

mcr 2.1.19

 

Arre que esta já passou! Refiro-me à noite de “ano bom” que para muitos, eu incluído, é uma valente estopada. Mesmo em família (e a que me caiu na rifa é óptima) as coisas são sempre complicadas. Comecemos pelo jantar. Mas antes uma referência ~2ª em 12 meses! - ao inevitável Nuno Maria que com uns meros 13 meses está que ferve. O catraio aprendeu a andar, anda sozinho, com uma que outra aflição, cai e levanta-se sem se dar por vencido e, sobretudo, para a sua pequena figura parece ser dotado de uma energia imparável. As pessoas cansam-se só de o ver no espaço que se criou em ambas as casas (nossa e dos pais dele), mcerca de 5 ou 6 metros quadrados (mais ou menos o mesmo espaço que me era dado em Caxias nos tempos nunca saudosos da “outra senhora”) fechados por sofás e cadeirões. Incansável e bem disposto, deve ter pensado que aquela era a sua particular corrida de S Silvestre e levou a peito ganhá-la. Só interrompia o passeio para se apoderar dos telemóveis da mãe ou da avó que a criançada desta leva já nasce com o dedinho espetado para a electrónica. Aguentou a pé firme até tarde, demasiado tarde, e foi para a cama contrariado. Estava claramente possuído pelo espírito festivo dos mais alucinados adeptos dos “reveillon”!

E voltemos ao jantar: A minha enteada (melhor filha não podia eu ter tido) acha que um jantar para tão pouca gente há de dar para três vezes (e estou a ser modesto) mais pessoas que as presentes. Com as entradas , entre marisco, enchidos, queijos vários, teríamos todos ficado mais que bem comidos. Sobretudo porque havia uma infinidade de sobremesas, entre elas um queijo da Serra que  ficou a rir-se de mim... Mas a Ana não pactua (pactuar e não “compactuar” , alarvice agora em uso nos ignorantes de português) com essas modernices e vá de arranjar uma sólida “piéce de resistance”, no caso um excelente bacalhau disfarçado que já só provei por falta de espaço.

É uma dor de alma o que fica por comer mas eu já não estou na primeira, segunda ou terceira mocidade.

Depois, há aquela coisa chamada televisão portuguesa e os seus programas para a data. Medonho, horrendo, inqualificável ou abaixo de cão, escolham vocês a expressão mais adequada. Em boa verdade, durante grande parte do tempo, o que se via era a “baby tv” para uso da criancinha aguerrida que aliás, se estava nas tintas. De resto, cá em casa ele vê com a mesma atenção o “Mezzo”. Já ouviu ópera, jazz, concertos vários e até bailado. Desde que haja música e umas figuras a adejar, ei-lo atento durante um período máximo de dez minutos que, depois, vira-se para os telemóveis, os computadores ou os comandos da aparelhagem. Suspeito que são os pais os principais admiradores da tal “baby tv”.

Como ia dizendo assistimos, em paga dos pecados veniais e capitais que teremos cometido ao longo de 2018, ao desbragado programa com a tv portuguesa entendeu brindar a lusa gente. Um desastre, Alcáçer Quibir redobrado. Se se resiste aquilo, então resiste-se a tudo durante o ano que entra.

No dia 1, ao fugir de outros desmandos televisivos, caí, num programa da orquestra de André Rieu, no caso um concerto na praça principal de Maastrich em pleno Verão. Coisa mais ou menos ligeira mas cheia de energia e de comunicação inteligente com um público holandês mais do que entusiasta. Eu tenho, de outros tempos, a recordação (excelente) de três meses nas terras batavas e não recordava o facto daquela malta ser capaz de se divertir assim. E também já não me lembrava de eu mesmo ser capaz de aguentar três horas a ouvir valsas, sucessos musicais antiquíssimos (“Granada”, “Marina”- do Marino Marini, oh imensa saudade, ou o “nel blu dipinto di blu”  do Modugno, coisas da minha verdadeira e perdida adolescência). Isto, esta música relativamente passável mas alegre e tocada com brio profissional, valia uma tonelada de programas nacionais, nossos. E dizemos nós, num mais que ledo engano, que os povos do sul é que são animados! O Tanas e o Badanas! Ou mais europa do norte: o Tanhäuser e o Badanauser!

Do resto do dia primeiro apenas vi o nosso inimitável 4º pastorinho no Brasil para assistir à posse de Bolsonaro. Não vejo qual a necessidade. Laços especiais, dizem-me. Nem laços nem laçarotes. Se ao menos fosse lá para enterrar o miserável “acordo ortográfico”...

Esta ida só legitima o recém chegado presidente e parece ir ao arrepio do resto da União Europeia. É bem verdade que aquele sacripanta da Hungria estava presente mas, convenhamos que para companhia, antes o fantasma de D Sebastião.

E já agora bolsonemos: Bolsonaro foi eleito por uma confortável maioria e não houve notícia de fraudes eleitorais. Por muito que isso custe, foi democraticamente escolhido pelo povo brasileiro. Agora é que se vai ver o que fará tanto mais que o Congresso tem cerca de trinta partidos e que o mais numeroso deles é o PT. Estou para ver o que é que infrequentável evangelista vai poder fazer. Como chegou lá, já sabemos. Chegou porque, antes, a corrupção, o crime (63.000 homicídios/ano!) a troca de favores e o desastre económico prepararam a opinião pública.

Curiosamente, Bolsonaro, nestas últimas semanas, quase apagou os desmandos, esses sim cada vez mais patentes, mais perigosos, mais infames, dos senhores Maduro e Ortega. Nessas zonas tão próximas do Brasil, morre-se à míngua, de fome de falta de medicamentos, de morte matada de tudo o que é opositor. Por cá alguns antipatizantes (permitam-me o neologismo) de Bolsonaro calam-se como ostras quando a Venezuela ou a Nicarágua interrompem a conversa.

Pela parte que me toca, vou seguindo o que oiço de Fernando Henrique Cardoso, o melhor presidente que o Brasil teve desde que me lembro e lembro-me bem dos Café Filho, Juscelino e posteriores, generalagem incluída. Ver para crer. Estar atento (muito atento) aos desmandos do tal Jair mas enquanto as coisas não passarem disso, de palavreado imbecil, não me comover demasiadamente.

De todo o modo, ver S.ª Ex.ª, o Presidente a cumprimentar aquela criatura não me alegrou, não compreendi, antes me envergonhou. Est modus in rebus que não há comunidade linguística que tudo justifique.

Para começo de ano, basta o frio, a bolsa em queda, bastam as greves caseiras e os maus programas de televisão.

 

*na gravura: A Nicarágua do heroico Ortega

Estes dias que passam 382

d'oliveira, 28.12.18

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Alguém mente

mcr 28.12.2018

A Sr.ª Ministra da Saúde veio para os jornais afirmar que, no caso da Maternidade Alfredo da Costa, não houve anestesistas nem a 500 euros por hora.

Por hora? Quinhentos euros? Exactamente, disse e repetiu a azougada senhora. A Ordem dos Médicos veio dizer que S.ª Ex.ª não dissera a verdade. Por outras palavras: que mentira. E mentira à barba longa. Hoje, uma empresa das que fornece médicos veio dizer que o máximo permitido por lei era cerca de 39 euros. Isto é doze vezes menos do que o número da Ministra. Doze vezes! Arre!

Também é verdade que, já que se vai mentir, ao menos que se minta em força. Mentir por ninharias nem vale a pena.

A Sr.ª Ministra, entretanto, parece desconhecer que só em Lisboa faltam quarenta (40!) anestesistas. Sabendo-se que os hospitais preparam cerca de cem anestesistas por ano, e que o país vai ligeiramente além de Lisboa, fácil é de concluir que não é para amanhã a solução deste problema.

Alguns comentadores afirmam que os anestesistas preferem trabalhar no “privado”. Será? E, se assim for, qual a razão?

O “privado”, dizia uma política tão demagógica quão ignorante (e de má fé, acrescento eu) vive à custa de sangrar o SNS mercê do facto de os utentes da ADSE irem de roldão para os hospitais privados onde são atendidos com rapidez. Conviria lembrar à estulta criaturinha que a ADSE é integralmente paga pelos seus utentes que vêm os seus ordenados ou pensões mensalmente sangrados em 3,5%. Três e meio por cento é muito no bolso de qualquer um mas, no momento da verdade, quando a urgência em saber o que temos e como resolveremos o nosso problema de saúde, até se reza de contentamento.

Nada tenho contra o SNS. Aliás pago para ele, visto pagar impostos, todos os impostos (o que no caso do IRS só ocorre com um terço dos portugueses, os que, pelos vistos, serão ricos). Gostaria, contudo, que o SNS funcionasse bem. Que não houvesse falta de médicos, de enfermeiros, de pessoal auxiliar. Que no caso do “ H. S. João” no Porto as crianças tivessem instalações condignas, o que não sucede. Que na “urgência” de um hospital, cujo nome não citarei a menos que me apontem um facalhão ao pescoço. não se passeiem ratos na incómoda sala de espera dos acompanhantes, que no bar (se aquilo, aquela estrumeira, se pode considerar um bar, os produtos não tivessem o ar de coisas abandonadas à má sorte, velhas e rançosas. Que, em tantos estabelecimentos públicos, não se acumulassem doentes em macas nos corredores! Que os funcionários que nos atendem não tivessem um aspecto de homens do lixo depois de uma noite de trabalho intenso. Que o Infarmed não protelasse indefinidamente a autorização para os cerca de 300 novos medicamentos propostos. Parece que os preços são salgados, salgadíssimos. Também o eram para a hepatite e bastou o escândalo de um doente em alta grita para subitamente o Estado encontrar meios de se entender com a empresa fornecedora e começar a curar centenas de criaturas. Há quem diz que, nesse caso, as vítimas pertenciam a grupos de pressão muito fortes com acesso aos meios de comunicação mercê de ligações ao mundo artístico. Desconheço se é verdade mas que houve pressa na procura de um acordo, houve. E que o acordo se fez. Claro que, na altura, o Governo era “fascista” ou quase, isto é liberal. Agora com um Governo do Povo, pelo Povo e para a o Povo, as coisas serão diferentes. E os doentes, neste caso, são apenas meros cancerosos...E não pertencem a nenhum lobby, artístico ou de especial orientação sexual.

Mas voltemos ao mistério dos quinhentos euros. Alguém, da entourage da Ministra, sussurrou para um meio de comunicação simpático que a coisa eventualmente se passara entre um único provedor de serviços de saúde e as autoridades. E que só um profissional teria sugerido aquela tremenda soma. E que não se sabia se a sugestão era a sério ou se o número avançado apenas sugeria que ninguém estava disponível no dia de Natal.

Mesmo assim, seja por chalaça (estúpida), por ironia (cretina), ou só como desabafo (idiota). a coisa parece pouco crível. Tanto mais que nunca se identificaram quer o anestesista (se ele existe) ou a organização (se ela tem tabuleta para a rua). Em suma, no caso estou como S. Tomé, ver para crer.

Todavia, se nenhuma pista for encontrada, ficamos com a ministerial afirmação.  E com a violenta reacção da Ordem dos Médicos (que deve ser do mais reaccionário que há...). E assim, a dúvida (que no caso da Ministra actual, começa a ser metódica) permite pensar que a Senhora está a mais naquele poleiro a que a alcandoraram. Que, como no “princípio de Peter”, ultrapassou o seu limiar de eficiência e não presta para o Governo, este ou outro, seja o do Cazaquistão seja o da Coreia do Norte, seja o da freguesia de aldeia Velha de Sensaborões, sobretudo este último, mais próximo.

Não basta ser temido, muito menos destemido em palavras, importa sim não ter mentido.

estes dias que passam 380

d'oliveira, 21.11.18

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Carta (ou “carto”?) a um “camarado

mcr aos 21de Novembro de 2018

Ex.º Senhor Deputado

Li embevecido as considerações que entendeu dar à fosca luz do dia sobre o uso da palavra “camarado”. Pelos vistos, V.ª Ex.ª, avisado linguista (e não menos excelente gramático) que mostra ser, acha prodigiosamente útil haver um masculino para camarada mesmo se esta palavra tenha tido ao longo de séculos de militaragem, um cunho fortemente machista bem mais expressivo do que a actual e débil conotação marxizante e pseudo proletária.

Pratiquemos, pois, um pouco nessa evolução linguística do português tal qual se fala (que a meu ver tem sido alvo de tratos de polé que não se iniciaram com o miserável e último acordo ortográfico mas que vem de longe tangido pela ignorância atrevida e pela estupidez congénita que assola boa parte da elite que se crê intérprete (ou “intérpreta”? dos desgraçados cidadãos que a tudo assistem impotentes.

Palavra que nunca me tinha ocorrido qualquer ideia de que camarada, apenas por terminar em A era feminino. E que, por isso, urgia arranjar-lhe par condigno para uso de congressos partidários. Já basta que quando se fala do bloco (ou da “bloca”?) só se refiram as senhoras Catarina, Marisa mailas manas Mortágua. Arre que é demais. Demais, sobretudo, por o único cavalheiro de quem se fala é o senhor Robles, egrégio representante da política municipal bloquista e indefectível apoiante da causa dos sem casa ou dos que a procuram a preço razoável.

Sei que isto é injusto para com a sua augusta pessoa (ou seu augusto pessoo?) que a minha tia Jaluca conhece por “aquele carequinha” do BE. Mas que se há de fazer? Elas, à pala de serem mulheres, inteligentes, cultas e relativamente novas, ocupam sem rebuço todos os ecrãs de televisão e até já fizeram esquecer aquele trio de conspícuas figuras (figuros?) de cera constituído por uma espécie de sacristão, por um cavalheiro de suspensórios e por uma espécie de guerrilheiro gorducho e de óculos. Ganhámos (nós os do público) com a troca e quero crer que o BE também ganhou em visibilidade. Não veja nisto qualquer espécie de machismo mas o mesmo sucedeu com o CDS onde o pertinaz e intransigente senhor Portas cedeu o lugar à senhora Cristas (que até terá –a seus olhos - a vantagem de feminizar o nome de Cristo ou o adjectivo muito em uso na lerpa “o cristo” ou seja o que vai perdendo para os parceiros mais afortunados.)

(a propósito, ou nem isso: porque é que há tantos jogos de cartas populares com nomes femininos? Ele é a lerpa, a bisca, a sueca que só têm do outro lado o montinho e o sete e meio – e este só é masculino a um terço. Jogos masculinos só os importados, o bridge, o póquer e o vinte e um real, na realidade “black jack” e, mesmo aí, temos a canasta de que a minha mãe foi devota e brilhante praticante durante uns bons sessenta anos. Agora, a falta de olhos e de mobilidade, deixou-a isolada tanto mais que boa parte das parceiras já foi desta para melhor. Do mesmo mal me queixo eu que vi desaparecer três inteiras gerações de parceiros de bridge...)

Voltemos, porém, às nossas encomendas: O camarado! Assim de repente, e ao correr da pena, lembro-me de idiota, palerma, patarata que pedem masculino convincente e aplicável. Ou de imbecil, que nem é carne nem é peixe, adjectivo mais adequado à causa trans-gênero e a pedir imbecila e imbecilo.

É que esta campanha de feminização ou masculinização da sofrida língua que falamos ou balbuciamos, tem perigos por todo o lado. Ele há expressões (e neste “ele” já vai um mundo de suspeição) que denotam um machismo insuportável e uma visão do mundo que a malta do me too deveria começar a explorar (e a expurgar!). Seja “ungido do Senhor” ou os “caminhos do Senhor” que são ínvios. Então por onde anda a “Senhora”?, raios me partam (ou raias me partam, mesmo se esta última possa confundir-se com com o peixe da família dos miliobactídeos, imbatível frita, ou em caldeirada)

No domínio das más caracterizações também convém reformular “fulano é uma besta” ou “cicrano é um catavento”. Veja como besta é bem mais violento do que catavento, mesmo se fulano apenas possa ser um estúpido contumaz e cicrano um político habilidoso que muda de pensamento qual piuma al vento ou uma dona mobile (não haverá no universo de Verdi um cavalheiro móvel? Vê-se que o músico era mesmo do século XIX).

No domínio da bicheza, zebra, girafa ou pantera pedem a gritos masculino capaz. Como andorinha, mesmo se neste caso, tenha conhecido um marítimo cujo apodo na comunidade era, digamos, Vagina de andorinha, em termos bem mais crus. E mais sonantes.

Nisto de calão há de tudo desde “aquele caramelo” a filho da puta (Por onde paira a filha do puto?), para já não referir aqueles votos mais imperativos e soezes vai à m*, vai para o c* ou o quase enternecedor “longe, longíssimo, cornos da lua, estrelinha que te guie, casa do c*”

Ficar-me-ia por aqui não fora a reclamação de uma amiga, aqui na esplanada, que refilando me espetou porque é que não havia masculinos para Amélia, Rosa, Beatriz, Irene, Isabel ou Helena. Tentei escapulir-me com Pedro (ninguém de bom senso baptiza a descendente com Pedra), Nuno, Miguel ou Hugo que no velho “Mandarim” de outros combativos e ruidosos tempos serviu ao falecido e nunca assaz chorado Zé Manel Pinto dos Santos para apostrofar um empregado ratoneiro e enganador com esta “Arre que o senhor é hugo que se farta!”

Mal ele sabia de como a História (outro feminino uivante) lhe viria a dar razão.

Vai este folhetim par dois destinatários que comigo se cruzaram nesse antro também conhecido como “Kremlin” ao mesmo tempo que a desbotada praça da República onde se situava se crismava nessa época de ilusão em “Praça Vermelha”, num tempo em que os/as colegas, camaradas, amigos/as, companheiros/as, enfim a malta do “contra” sabia bem quanto custava a vida e quanto arriscávamos. Refiro com imensa ternura e amizade a Maria A. (Milu) e o Zé Quitério. Saravah, manos, estamos vivos! E não há camarado “que corte a raiz ao pensamento”.

* na gravura :"Os camaradas" ópera para crianças.