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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 564

d'oliveira, 07.03.21

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Os dias da peste 196

Entradas de leão...

Ou: um polícia demasiado virtuoso

mcr, 7 de Março

 

Não odeio a polícia mas confesso que não faço parte dos seus entusiastas. Ponhamos que a considero um “mal menor”. Isso deve-se a uma batalha que durou em 1958 3 1974. Batalha que perdi vezes sem conta e de que os meus fracos lombos muitas vezes se ressentiram. A culpa, claro, foi sempre minha. Quem me mandava alinhar em manifestações que o paternal poder estatal e a doçura dos nossos costumes desaconselhavam? Os famosos “safanões dados atempo” senti-os e de que maneira! E quantas vezes! E em várias geografias! Se bem recordo apanhei bordoada em Berlin, Paris, Madrid e pasme-se!, em Pescara, pacífica e amável cidade nas margens do Adriático. Culpa minha, repito, mea culpa, mea máxima culpa.

No país natal recordo inglórias manifestações em Braga, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa e numa praia algarvia mas pela polícia marítima que nos apanhou um pequeno grupo de rapazes e raparigas, à noite, e entretidos em práticas ofensivas dos bons costumes. Graças a um familiar de gente importante a coisa ficou por ali sem consequências, exceptuado o facto das donzelas terem sido conduzidas, manu militari, a casa dos parentes onde teão sido copiosamente “admoestadas” o que é uma injustiça de todo o tamanho já que os mancebos foram mandados à sua vida sem mais problemas.

Portanto, entre mim e as forças policiais, todas sem excepção (brigada de trânsito, incluída), antigas e modernas ou já extintas, existe um estado de trégua desconfiada e vigilante, uma espécie de guerra fria que a memória não apaga.

Ora, para começar o folhetim, li no Publico que um agente da PSP virtuoso mas veemente anti-racista, entendeu qualificar o deputado Ventura de “aberração”. E, para aproveitar o balanço e o entusiasmo proclamou, sempre na mesma rede social, “decapitem estes racistas nauseabundos que não merecem a água que bebem”.

As chefias policiais suspenderam o fogoso agente e ter-lhe-ão instaurado um processo disciplinar. Entendem, as respectivas, autoridades que não se deve chamar aberração um deputado e muito menos apelar à justiça popular no sentido de cortar a gargantinha das criaturas racistas. Cai mal. Aliás, a pena de morte em Portugal já era. Ou quase, como basta lembrar o emigrante branco e loiro e vindo da do Leste abatido por uns zelosos agentes de outra polícia nacional, nossa.

Convenhamos que a decapitação é um método ultrapassado, mesmo se normalmente se destinasse à nobreza que também já viveu melhores dias. A vilanagem era enforcada, método mais brando, mais limpo e menos custoso.

Pelos vistos este animoso incitador das justas lutas populares usava sempre uma linguagem impressiva, vibrante mesmo se um pouco sanguinária e ameaçadora. Todavia, desta feita, o inquérito injusto e inadequado das chefias que não respeitam o direito à opinião nem a justa ira dos virtuosos, levou a que depois das entradas de leão já descritas o agente tenha, em sua defesa, optado por saídas que o povo, sempre ele, qualifica de ...sendeiro.

Afinal afirma que: “em momento algum quis ofender ou decapitar alguém no verdadeiro sentido da palavra” (convenhamos que entre ofensa e assassínio vai alguma diferença que para o outro se reveste de certa importância)”mas apenas transmitir que é necessário decapitar as ideias racistas que prejudicam a a sociedade em geral” (ideia audaciosa mas de difícil concretização dado que as ideias, normalmente imateriais, não dão o pescoço à faca assim, de mão beijada)

Disse também que “não queria referir em concreto o deputado Ventura mas sim muitas ideias (outra vez!)que o mesmo já expressou publicamente” E refere, pudera não!, que “já apagou a publicação para não gerar um mal entendido” (assim se verifica que não queria ameaçar mas simplesmente mal entender...)

Tambem terá “tentado contactar (o dito Ventura)para esclarecer que não lhe desejava mal e pedir desculpa (upa, upa!!!) caso a sua publicação o tivesse ofendido” (só mesmo alguém de maus fígados é que poderia pensar que ser acoimado de “aberração” é uma ofensa, Nada disso. Isto é como aquela extremosa mãe que chamava o filhinho querido “ó filho da puta vem para a mesa que a sopa ainda fica fria!).

A cereja no bolo: “afirmou-se arrependido da forma como se expressou” e disse que “em nenhum momento ofendeu o senhor deputado, nem lhe desejou a morte nem lhe chamou racista”

Ota toma lá esta e embrulha!

Na parte da decapitação propriamente dita explicou que era no contexto em que várias estátuas estavam a ser vandalizadas” tentando mostrar que era errado destruir o nosso património histórico”.

Neste ponto, como provavelmente em muitos outros, mas isso carece de mais estudo, o polícia “decapita” a cretinice daquele deputado que teria preferido algum (muito?) sangue no 25 A e a demolição do padrão dos descobrimentos.

Os polícias, já o confessei não estão no meu coração como Stalin estava no coração de variados grupos maoístas nos bons tempos em que alardeavam a sua frágil força nas ruas de Lisboa e Porto entre os anúncios de mais PREC e de golpe e contra-golpe. Tudo isso foi chão que deu muita parra e pouca uva mas que , de quando em quando como nos vulcões adormecidos se guinda à superfície em fumarolas fugazes.

Como aliás, se pode extrair de incendiárias proclamações e arrevesadas teorias sobre o racismo, vindas directamente de um português naturalizado e de uma professora universitária, também eles anti-racistas de pura gema e colegas (ou ex-colegas) do “arrependido” agente a contas com a hierarquia.

Devo, pessoa de maus fígados e rancorosa que sou, dizer que esta defesa tosca do agente é demasiadamente pueril, contraproducente, eu diria imbecil mas não quero ofender. Que as convicções sejam elas quais forem se defendem caso se tenha espinha dorsal e não andemos a vozear ameaças armados em carapaus de corrida.

Eu até nem sei se tudo isto não me dá uma infinita pena do agente apanhado em contramão devido ao seu estilo literário demasiado florido.

É que, castigado ou não, vi ser o alvo da chacota de muita má gente e vai, por algum tempo, prejudicar quem, de facto, abomina o racismo e as suas estpidas e aberrantes manifestações.

Entretanto o deputado Ventura deve rejubilar. Às tantas ainda vem depor a favor do agente como parece ser o caso da senhora Gomes arrolada pelo mesmo como testemunha abonatória....    

estes dias que passam 561

d'oliveira, 04.03.21

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Os dias da peste 193

medalhas para todos?

mcr, 4 de Março

 

O Sr. Presidente da República vai, até ao 50º aniversário do 25 A, condecorar todos os militares “de Abril” que participaram no golpe.

Assim, a secas, a notícia vale o que vale mas não clarifica exactamente quem será condecorado.

Por exemplo, os revoltosos das Caldas da Rainha cuja acção antecedeu e, de certo modo, preparou os espíritos para o que um mês depois ocorreria, estão no lote?

Quando se fala de militares a quem é que nos referimos? Aos oficiais do quadro? A esses e aos milicianos? Também aos subalternos ?

E os soldados, os galuchos, enfim o grosso da tropa que aceitou marchar?

Ou, por serem muitos, por não serem ilustres, não merecem a comenda?

Não vou, agora, inquirir se serão englobados os militares das três frentes de batalha que, longe da metrópole, imediatamente secundaram (e boas razões tinham) o pronunciamento. De todo o modo, seria bom saber exactamente tudo isso , porquanto imaginemos que os comandantes chefes, a oficialidade e, sobretudo, as praças – sempre os mais sacrificados- se recusavam a acatar as ordens de Lisboa e da Junta de Salvação Nacional?

Os treze anos de guerra, a vida no “mato”, as privações normais desse afastamento de qualquer cidade ou simples vila tiveram resultados temíveis. Não era apenas a morte à espreita, a lonjura, as más notícias diárias, o facto de um número considerável de soldados estar longe da família, perdido no sertão a combater uma guerra que mal compreendia. Ainda hoje, o stress da guerra afecta gente da minha idade, mais velhos e mais novos. Houve um milhão(no mínimo) de jovens que perderam a frescura e a juventude naqueles lugares duvidosos.

Em sequer vou referir os mortos, os feridos ou os psicologicamente abalados. Mas tudo isso, toda essa gente, deu “o coiro ao manifesto” e o país convenientemente amnésico. Abalado pelas discussões recentes (que curiosamente só tem como actores pessoas que não viveram esse tempo, muito menos a guerra, sequer o regresso das colónias a fuga desordenada e, muitas vezes a falta de solidariedade dos residentes na metrópole que não viram com bons olhos a multidão de refugiados que subitamente lhes caiu em cim), muits desses ex-combatentes calam o que viram, o que passaram, refugiam-se nos ansiolíticos, na droga, no álcool, no rancor.

Não faço parte do pequeno grupo dos que apontam à tropa e especialmente ao corpo de oficiais de carreia todas as responsabilidades decorrentes do 28 de Maio e o Estado Novo.

Mas foram eles a guarda pretoriana do regime, aguentaram-no durante dezenas de anos e, nas condições de feral mediocridade nacional foram uma classe privilegiada. A guerra que eclodiu nas colónias depressa os desencantou e os cansou.

Mas as baixas, essas, atingiram sobretudo os soldados, os subalternos, os milicianos. Isto para não falar da chamada “africanização da guerra” ou seja do cada vez maior recurso ao uso de tropas negras que, mesmo hoje, são escondidas debaixo do tapete da “história” pelos “anti-racistas” que fazem de conta que nada disso existiu...

Ou que se reduziu a uma ínfima minoria de pretos maus (quase brancos), exactamente o contrário de umas elites guineenses, angolanas e moçambicanas que, como é visível, só querem o bem estar dos seus compatriotas que governam com total respeito pela democracia e pelos direitos humanos.

Voltando à vaca fria: o cinquentenário será se não erro em 2024. Três anos de “medalhanço” portanto. Chegará para todos ou ter-se-á que esperar pelo centenário para atingir os que faltarem?

 

     

  

estes dias que passam 560

d'oliveira, 03.03.21

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Os dias da peste 192

Há leitores de luxo

mcr,3 de Março

 

Há dias deixei aqui um pequeno testemunho sobre Lourenço Marques, cidade onde fiz o 2º ciclo dos liceus. Por qualquer razão, terei feito uma pequena incursão histórica e citado um excelente historiador da cidade e de Moçambique, Alexandre Lobato a quem, por mera, mas burra, distração rebaptizei de André!

Um leitor atento, veio retificar esta toliçada e, de caminho, relembrar dois outros historiadores, A Rita-Ferreira e Alfredo Pereira de Lima.

Sobre este último, confidenciei-lhe que não estava tão representado na minha biblioteca como os outros e que até tinha uma obra dele, manca de um dos seus três volumes (“História dos Caminhos de Ferro de Moçambique”, ed. Da Admao dos portos, caminhos de ferro e transportes de Moçambique, 1971).

Ora o meu solícito e amável correspondente respondeu-me na volta do correio , oferecendo o exemplar em falta (1º vol) pois o tinha repetido.

Fiquei maravilhado pois mesmo se eu passe a vida a oferecer livros repetidos que, por descuido, comprei, não é usual conhecer pessoas com iguais hábitos.

Confesso que até já pensei em publicar a lista de repetidos oferecendo a quem quiser ter o trabalho de os vir buscar. Não é generosidade mas apenas uma tentativa de arranjar espaço para outros livros que incessantemente vão entrando.

Por exemplo, um primo meu aceitou receber (e “estimar”...) a colecção completa dos JL publicados desde o 1º número. Estão encadernados por ano e à medida que vou mandando encadernar o último ano completo, lá segue ele para o seu novo proprietário. Deste modo, mantenho-me a par do que vai saindo e despacho numa só vez um inteiro ano de publicação.

Encadernado e pronto a consumir! Não se pode pedir mais.  Ou propondo-os à troca, coisa mais complicada dados os meus gostos actuais.

Tenho mesmo uma lista de amigos a quem vou dando livros. O primeiro de todos era o Manuel Sousa Pereira, escultor viciado em leitura e cinema que ia a todas. Agora já não está e, até nisso, faz uma falta danada.

Costumo dizer que não sou um coleccionador de livros mas apenas, e já me chega, um leitor. Todavia, há autores que, de tanto os apreciar, fui comprando tudo o que els publicaram (Stendahl, Casanova, Prévert, Rabelaus, Helder, O’Neil, Eça, Voltaire, um largo número de surrealistas de toda a parte mas sobretudo franceses, e mais umas dúzias que seria ociso mencionar. E não me fico pela “literatura” dita “séria mas acrescento-lhe uma boa dose de autores policiais desde os eternos Chandler e Hammett até ao Caileri e ao San Antonio esse prodígio da criação de palavras novas e divertidas em França.

Quando o comecei a ler, por indicação de um amigo da Sardenha que conheci em Berlin no Goethe Institut, San Antonio (Frederic Dard) era considerado literatura de 2ª ou 3ª . Com o andar dos anos, começaram a reparar na sua prodigiosa criação de palavras e expressões, na transformação do argot e toca de saírem teses e mais teses universitárias sobre o homem. Se bem recordo, o autor não se emocionou demasiadamente com a glória académica e continuou tranquilamente o seu caminho amparado por uma multidão de leitores (eu incluído) que não perdiam um novo título.

Sic transit...

Na vinheta: os meus dois volumes da História dos Caminhos de Ferro... e a estante dos livros de Lobato. Por cima fica a dos livros de Rita-Ferreira mas não coube na imagem.

 

(Ao amável ofertante convinha que me indicasse a s/ direcção pois descobri aqui alguns títulos que lhe poderão interessar. Logo que tenha notícias enviarei a minha direcção...)

 

estes dias que passam 559

d'oliveira, 02.03.21

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Os dias da peste 191

Alguém anda a fazer caixinha!

mcr, 2 de Fevereiro

 

Faço parte, sabe-se lá com que mala gana!, do grupo de portugueses sofridos que tem cumprido as regras que o Governo paternal e a DGS maternal lhes vão atirando para cima como quem atira ossos aos cães.

A imagem não é assim tão descabida porquanto é notória a convicção governamental de que. menos do que cidadãos, nós portugueses, não passamos de meros súbditos.

Basta ouvir o dr. Costa, o senhor Cabrita, esse mesmo o defensor estrénuo de emigrantes, e a srª ministra da saúde que nos metralha dia sim dia não com verdades como punhos e seguramente pensa que somos todos parvos. (ainda agora, repetiu que sendo ela como é uma pessoa responsável e pronta a assumir todas as responsabilidades do que se passou desde o Natal, logo que se provar essa impossibilidade de ter sido o Natal a principal fonte do desastre, ela “assumirá”. Entretanto vai atirando aos paisanos com o frio invernoso de Janeiro, a variante inglesa e todas as que aparecerão para provar que não foi o descaso da opinião dos cientistas e o oportunismo popularucho natalício o que provocou a hecatombe a que se assistiu.

Esta gente é assim, continuará a ser assim, só faltou culpar (mas lá chegaremos!) o governo de Passos Coelho de tudo o que o vírus fez e mesmo do vírus...

Parece, é a PSP quem o afirma, que no fim de semana quatro milhões de portugueses saíram à rua. Tantos? De certeza? Quatro milhões é quase meio país, que diabo. Como é que a solícita policia chegou a um número tão grande e tão redondo?

As televisões não mostraram nada que se parecesse com esta avalanche de cidadãos ávidos de sol, se sal e de sul. O número de autuações de onde eventualmente se poderia extrapolar o de pessoas a circular não dá, nem de longe, para tais resultados.

Eu, quanto a números policiais estou habituado a vê-los assim: se é uma manifestação contra os poderes estabelecidos, a polícia atira para metade e os manifestantes para o quádruplo. Os jornais mais sérios tentam calcular as multidões fazendo conta aos metros quadra ocupados. De nada serve esta precaução porque cada lado reivindicará o seu número e, meia dúzia de dias depois, tudo isto há passou...

Todavia, volto aos quatro milhões para perguntar se esse número não deveria fazer o nosso paternal pastor Costa e o não menos paternal e meu homónimo Presidente reflectirem na hipótese de, pelo menos, deixarem cair algumas pérolas da sua gigantesca sabedoria sobre, por exemplo, que critérios há e afinados para a 11(onze?) de Março nos virem revelar os limites a um pequeno desconfinamento.

Comecemos pela criançada. O meu neto Nuno Maria, três anos feitos e perfeitos, chora baba e ranho pela sua escolinha, pelos amigos que já não vê há que tempos. O meu sobrinho neto Gil, um pouco mais velho e bastante mais longe, está na mesma.

Os alunos dos primeiros ciclos além de sofrerem o mesmíssimo mal, tem aulas arrevezadas, e pior, nem todos tem a mesma oportunidade de as ter e de as aproveitar. Os famosos computadores que inundariam o país ou, pelo menos, a multidão jovem, não chegam ou só chegam às pinguinhas. Se essa velocidade de fornecimento se mantiver nem para 2023 estarão cá todos.

Não vou sequer referir os restaurantes, os cafés, os pequenos comércios de rua, os barbeiros e assimilados, que por este andar correm mais depressa para a falência do que para uma qualquer reabertura. E refiro estas pequenas e micro empresas porque são uma enorme maioria e podem – como já se viu, antes- manter os seus serviços com “distância social”. A proibição de serviço ao postigo para “afastar multidões” sedentas de café, de galões, de bolos e outros mimos, foi das coisas mais burras que já vi decididas. Vamos pagar tudo isso, em falências, desemprego, logo que acabem as moratórias, os lay-off e os expedientes que se tem usado para manter as coisas dentro de um certo controlo. Só vejo, sempre na televisão, gerentes de empresas a afirmarem de cara descoberta e identidade estabelecida que as “ajudas” ainda não chegaram. Das duas uma: ou mentem e há que processá-los duramente, ou dizem a verdade e, nesse caso, há que perguntar o que fazem as “autoridades”.

Dirá algum/a leitor/a que estou de má fé, que tenho uma pedra no sapato contra o Governo ou que sou um saudoso do anterior. Lamento informar que há por aqui mais de cinquenta textos contra Passos Coelho & companhia, e tenho-me como pessoa de boa fé, demasiada boa fé. Lá quanto à pedra no sapato não a escondo. Bastaria este ano que passou para ter não uma mas uma dúzia de calhaus duros contra algo que corre atrás dos acontecimentos, que não ouve atempadamente quem devia, que nem sequer imita os bons exemplos lá de fora, por prosápia, ignorância ou toleima, que governa como quem navega à bolina e, sobretudo, não decide ou decide tarde e a más horas. Neste exacto momento já deveríamos todos saber quais os critérios que permitirão sair do confinamento ou continuar nele. Também os cidadãos individualmente tem planos, projectos, algum esfarrapado sonho e precisam de saber o que podem ou não podem fazer, amanhã, daqui a um, dois, três meses... E não estou a falar de férias, praia, viagens (e se falasse não seria um despropósito... ) mas de decisões económicas, por exemplo.

Não são apenas umas dezenas ou centenas (e que fossem muitos milhares) de empresas, de organizações de vária ordem, de sindicatos ou de partidos, que precisam de acertar a agulha, somos muitos, muitos mais que ainda por cima seremos essenciais para uma saída da crise tão airosa quanto possível.

Este jogo de escondidas, se jogo é e não simples impotência, não pode continuar.

Não deve continuar.

Basta olhar para a restante Europa, ver meia dúzia de noticiários ao calhas para perceber que, se as dificuldades são muitas, as possibilidades de tentar uma solução também o são. Basta passar pelo escrutínio dos cidadãos.

Dos cidadãos. Nunca dos súbditos!

Isto não é, não pode ser, mesmo que o pareça, o jogo da cabra cega! (cfr vinheta)

 

EStes dias que passam 558

d'oliveira, 01.03.21

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Os dias da peste 190

“feminismo e feminismos”

mcr, 1 de Março

 

Há assuntos que me chamam a a atenção mas em que só pego com pinças. Ou porque não são a “minha praia” ou porque para evitar interpretações apressadas (coisa que está muito na moda da discussão em Portugal) teria de escrever muito mais do que um simples folhetim que se dedica sobretudo a tentar passar o tempo de confinamento obrigatório.

Todavia, um artigo publicado hoje no “Público” permite-se abordar, ainda que obliquamente, o tema do feminismo porquanto uma senhora socióloga concede uma longa entrevista sobre o tema.

Com um título pomposo: ”A ditadura (salazarista) tinha uma ideologia fortíssima que nunca foi posta em causa”

Claro que os títulos são da responsabilidade de quem entrevista, ou do editor e, portanto, não posso sem mais atribuir este à entrevistada.

Em boa verdade ela acrescenta que a democracia (leia-se depois do 25 A) nunca pôs em causa a herança “salazarista”.

Eu nunca tive qualquer espécie de simpatia pelo cavalheiro de Santa Comba Dão mas quando vejo que tudo lhe atiram para cima, fico irritado.

A História, sempre ela, mostra à saciedade que neste capítulo o dr. Salazar apenas seguia um forte tradição ideológica, ética, cultural e política com longos, longuíssimos antecedentes.

Em termos de política em relação às mulheres até, por ironia (e por respeito pela verdade) se pode dizer que foi ele, o ditador, quem, ao contrário da 1ª República, concedeu (limitados) direitos de voto às mulheres fazendo eleger meia dúzia de fervorosas partidárias suas para a Assembleia Nacional. Contrariamente, o anterior regime dito “democrático” não só proibia o direito de voto das mulheres mas, no único caso em que uma mulher, médica e chefe de família, votou numa eleição foi o congresso que solenemente lhe anulou o voto entretanto entrado em urna depois de um tribunal ter entendido que ela tinha direito a votar. Um lei de 1913 veio esclarecer que o direito de voto incumbia apenas aos varões. Está tudo dito.

Portanto, o velho e manhoso ditador (que na altura ainda era novo mas hábil) mereceria que, pelo menos, se lhe reconhecesse este avanço dos direitos das mulheres que bem lhe pagaram em cartas, milhares de cartas apaixonadas e em votos leais sempre que houve uma patética imitação de eleições parlamentares.

Recordo que, na Academia coimbrã, o voto para a direcção da Associação Académica só foi “concedido” às mulheres já em fins de quarenta. Por uma Direcção Geral democrática (ou republicana como então se dizia). O resultado foi surpreendente. Até à eleição de Carlos Candal (1960) nunca mais a “esquerda”, os “democratas”, os “do contra” ganharam eleições. As raparigas votavam em formação cerrada na “situação”.

Quando cheguei a Coimbra ainda persistia esta fidelidade feminina à causa da “reacção”. Nas Assembleias Magnas, eternizavam-se as discussões para esperar que os batalhões femininos vindos dos lares tivessem ordem de marcha. Logo que as raparigas partiam, era um ver se te avias de votações onde, mesmo assim, a nossa margem de êxito era curta.

E estou, que me desculpe a senhora socióloga, a falar de uma elite educada, de futuras médicas, professoras, farmacêuticas, engenheiras ou advogadas!

Curiosamente, como venho de Buarcos, terra de pescadores, sempre vi as mulheres assumirem o governo da casa. Ou porque os homens estavam no mar durante meses (os do bacalhau) ou porque, mesmo vindo para casa todos os dias, era a mulher que tinha de se desenvencilhar. Um dos meus tios por afinidade, filho de pescador e professor do ensino secundário, ainda entregava à mulher o seu ordenado na íntegra, ficando apenas com o do o café e do tabaco. Era a minha tia quem governava as finanças da casa. Mesmo que eu suspeite que o meu tio (uma criatura excelente e um homem cultíssimo) o fazia para não ter trabalho, a verdade é que as coisas eram assim mesmo. Havia também o álibi dele ser doente do coração mas convenhamos...

Sobrevivente que sou dessa época tenho bem presente a enorme mudança que a guerra trouxe à sociedade portuguesa no domínio da feminização de grande número de profissões, mormente as industriais. Como a socióloga reconhece, a guerra mobilizou para a frente interna do trabalho dezenas ou centenas de milhares de mulheres que substituíram os soldados e os emigrantes que abandonaram o país para ir buscar melhor vida na Europa. E também eles eram uma multidão imensa, primeiro os homens, depois, anos depois, com os maridos já precariamente instalados, as mulheres e os filhos.

Esta dupla falta de braços masculinos teve outra e boa consequência. As condições de trabalho, sobretudo a remuneração melhoraram mesmo se isso se obtivesse, e não poucas vezes, com movimentos reivindicativos. Digamos que as mulheres trabalhadoras portuguesas no espaço de uma geração (ou em menos, até) entraram no mercado do trabalho e adquiriram alguma consciência política.

Curiosamente, também as lutas estudantis, as crises de 62 sobretudo a de 69 em Coimbra despertaram para a trincheira dos direitos democráticas cada vez mais mulheres. É minha íntima convicção , e não me canso de o dizer que metade, pelo menos, da responsabilidade pela luta vitoriosa de Coimbra se deveu às raparigas.

Nove anos de direcções democráticas da AAC e, também – e muito! – o forte afluxo de raparigas à universidade transformaram quase radicalmente a situação. Tudo isto sem esquecer a situação política nacional e internacional, a crescente informação e as movimentações de jovens na América e na Europa.  

Todavia, como a senhora socióloga sugere, nem assim se fechou o fosso de desigualdade de género que ainda hoje é visível na clara diferença de remuneração a que se assiste em variados sectores. Ou na divisão do trabalho doméstico.

Mas também aqui não é contra quarenta anos de “noite fascista” que se luta mas sim contra vários séculos de existência como país, contra costumes ancorados, enraizados fortemente e que se reproduzem também devido às mães dos senhoritos que por aí medram viçosos.

E, presumo eu que nisto já vi muito, a coisa está para durar. Mas, também é verdade, que o caminho, como dizia Machado, se faz caminhando.

Citando, também obliquamente, a actual prémio Nobel da literatura, Louise Glûck

Não posso continuar

a limitar-me a imagens

Só porque pensais que tendes direito

a contestar o que quero dizer

Estou finalmente preparada para impor

entre vós a claridade

A VINHETA: EU QUERIA PÔR UMA FOTOGRAFIA DA FERNANDA DA BERNRDA, DIRIGENTE DA AAC EM 1969 , MUINHA AMIFA E MINHA EX-SÓCIA DE ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS. RAZÕES QUE DESCONHEÇO LIMPARAM-LHE A IMAGEM DA INTERNET, OU ENTÃO SOU EU QUE SOU UM NABO.

DE TODO O MODO, ESTE TEXTO VAI-LHE DEDICADO E, AO MESMO TEMPO, A TODAS AS RAPARIGAS DE 69 EM COIMBRA. YINHAM TUDO, JUVENTUDE, CORAGEM, INTELIG^NCIA, BELEZA E ENTUSIASMO. SEI DO QUE FALO POIS CASEI COM UMA DELAS, SOU AMIFO DE MUITAS E CONRINUO PERDIDO DE ADMIRAÇÃO POR TODAS

(DESCULPEM AS MAIUSCULAS MAS DEVO TER FEITO UMA ASNEIRA E NÃO CONSIFO DESFAZÊ-LA.)  

 

estes dias que passam 557

d'oliveira, 28.02.21

 

 

 

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Os dias da peste 189

Uma outra memória africana

mcr, 28 de Fevereiro

 

Ai meus amigos e meus sofridos leitores! Ele há dias em que a memória vem a galope dos confins do tempo e, no caso em apreço, dos confins do mundo.

O Expresso desta semana finda traz uma série de artigos de interesse de que apenas vou destacar os da “revista”. E desses começarei por uma longa entrevista de Eugénio Lisboa, um escritor e ensaísta que conheço sei lá desde quando. Quase certamente da minha juventude em Moçambique.

Eu explico: aos treze anos, andava eu no liceu de Coimbra no terceiro ano (o da Figueira só tinha o primeiro ciclo) quando os meus pais decidiram ir para Moçambique. Ser médico entre Buarcos e a Figueira era muito pouco rentável para quem tinha dois filhos quem no ano seguinte estariam ambos fora de casa.

Por essa altura surgiu uma oportunidade de ouro ou quase. O meu pi foi convidado a ir reorganizar os serviços de aude militares em Lourenço Marques. De facto, desde a sua incorporação como médico miliciano no Batalhão de Metralhadoras 2, estacionado na Figueira, o pater famílias sempre esteve ligado à tropa. Foi mobilizado para os Açores e à volta continuou a prestar serviço na mesma unidade. Por isso, entendeu fazer o curso de capitão miliciano o que, algum tempo depois, lhe permitiu satisfazer as exigências do lugar que iria ocupar em Moçambique.

Devo confessar que a súbita ideia de partida para tão longe não me agradou em absoluto. Iria deixar todos os amigos da terra e do Verão que naquele tempo era longo, deliciosamente longo.

Mas obviamente fomos que as lágrimas de um adolescente não comovem ninguém e necessidade de melhorar de vida era absoluta.

Em abono da verdade, devo dizer que Lourenço Marques me agradou, me enfeitiçou desde o primeiro dia. Por tudo, desde a praia até cidade moderníssima e cheia de coisas de influencia inglesa. E a coca-cola, proibidíssima em Portugal (vá lá saber-se porquê) não era a menor das descobertas. O liceu era outra coisa que logo me impressionou pois era misto. De facto aulas mistas eram só nos 6º e 7º anos mas a zona das raparigas era mesmo à nossa frente, separada da dos rapazes pela álea central ajardinada e pelas instalações da secretaria, da reitoria e do ginásio. E, à saída, claro que nos juntávamos imediatamente que isto de ser adolescente mexe, e de que maneira, no sangue de qualquer criatura, macho ou fêmea.

Depois, havia todo um outro modo de nos tratarmos uns aos outros. Na “metrópole” (uma palavra nova!) era tudo você para cá, você para lá. Ali o tu imperava e com essa subtil diferença tudo o resto começava a ser sedutoramente diverso e mais, muito mais, agradável.

A vida na zona militar onde ficavam os quartéis e as casas dos oficiais e sargentos tinha como ponto central (no caso da oficialidade) o Clube Militar onde, aliás comíamos e onde os meus pais “batiam a cartolina”. A minha mãe era uma emérita jogadora de canasta coisa que já vinha de antes e que durou até há cerca de dez/quinze anos. A velhice e os olhos, sobretudo os olhos, arredaram-na do pano verde, muito a contragosto. O meu pai era um jogador de bridge desde o dia em que se apresentara no quartel com jovem aspirante ou alferes médico. Na altura, o comandante entregara-lhe o “Bridge Contrato” de Ely Culbertson afirmando que aquele era o “regulamento” do BM2 e intimando o jovem oficial a aprendê-lo de cor e salteado que faltavam parceiros.

A miudagem andava por ali, nos pátios e nos terrenos do clube entretida em variadas coisas e aprendendo a andar de bicicleta e a namorar. No Verão, uma camioneta militar levava toda aquela rapaziada para a praia sob a vigilância bem humorada de um cabo branco que, ao fim e ao cabo, fechava os olhos aos “jogos de mão jogos de vilão” que os mais velhos começavam a ensaiar . h, os primeiros beijos! E na boca, santo Deus! E aprender a abri-la...

Tudo isto me foi subitamente recordado pela longa entrevista de Eugénio Lisboa que explica como o facto de Moçambique estar bem mais longe, permitiu de certo modo, uma vida cultural mais intensam mais distante e mais livre do que em Angola.

EL lembra como o facto de haver em Moçambique muitos deportados pelo salazarismo que por lá davam aulas no liceu e faziam uma vida bastante livre, longe da censura e do olhar atento da polícia, propiciou um outro olhar sobre o mundo. Até a imprensa ajudava. Eu lembro-me perfeitamente de ler poemas do Craveirinha, do Rui Knopfli ou da Noémia de Sousa (para não citar muitos outros, Reinaldo Ferreira por exemplo) nos jornais. O Cine-clube projectava filmes russos e havia um par de instituições culturais que produziam obra de vulto. Destaco apenas, mas isso foi uma descoberta recente (anos 90), a Sociedade de Estudos de Moçambique cuja revista alcançou uma significativa longevidade e os diferentes “círculos culturais” que, desde o teatro à música erudita, conseguiam existir, sobreviver e até trazer muitos artistas que passavam pelas colónias inglesas fronteiriças. Também, é outra descoberta recente, publicavam-se revistas de carácter etnográfico, antropológico e científico dignas de menção. Por todas, refiro o “Documentário Trimestral” uma quase luxuosa publicação patrocinada pelo “Governo Geral”

Quer o DT quer o boletim da SEM tiveram uma longa vida cerca de cem volumes o primeiro e quase o dobro o segundo.

Resta dizer que, esta descrição é a descrição de um rapazinho branco numa cidade e numa sociedade feitas para brancos.

Por junto, tive um colega negro, o Joaquim Chissano que viria, como se sabe, a ser Presidente da República de Moçambique (acrescento, mesmo tendo sido amigo dele, que foi o melhor presidente que Moçambique teve até à data, o mais lúcido, o mais culto e o mais democrata. Tivesse sido presidente, desde o início e outro galo cantaria na baía dita “Lagoa bay”). Ouso mesmo pensar que Lourenço Marques não seria agora Maputo (nome de um dos rios que desaguam na baía, sem qualquer significado, sequer simbólico para este recente e compósito país). Não sei se continuaria com o mesmo nome, se seria Xilunguine ou Ka Mfumo, nome de um regulado que se situava precisamente no local onde se ergueu o primitivo presídio. Contra Xilunguine militaria o facto de poder significar “cidade branca” ou “cidade do branco”- Maputo, porém, não tem sentido nem coerência histórica mesmo que tal remetesse para a soberana da “Maputo Land” muito a sul, na fronteira que, todavia, preferiu a suserania portuguesa à dos ingleses.

Quanto a Lourenço Marques seria um comerciante que todos os anos navegava de Sofala para o sul para fazer a troca de barras de cobre por dentes de elefante e outros artigos que pudessem ser encontrados na região. Não era um descobridor, sequer um militar mas um simples comerciante português ou descendente de portugueses e de africanos.

Tudo isto, esta excursão por dispersas memórias de uma cidade de onde saí para não mais voltar, aos quinze anos, só se justifica pela leitura da longa entrevista a Eugénio Lisboa que, como tantos outros democratas portugueses que ousaram sê-lo na colónia e que combateram o poder colonial, teve de se exilar e separar da terra onde crescera e sempre trabalhara. Não foi o único, obviamente. Contam-se pelos dedos os que continuaram teimosamente a viver em Moçambique, afastados, como antes!, do governo da cidade e sempre olhados com suspeição.

Claro que o êxodo dos colonos foi geral e repentino. Bastou uma dúzia, nem tanto, de discursos inflamados de Machel (há um atribuindo a culpa da falta de papel higiénico aos portugueses em fuga que é uma peça de antologia) para tudo o que era técnico, profissional liberal, comerciante ou pequeno industrial para os aviões e barcos se encherem. Para a África do Sul e para a Rodésia partiram outros tantos milhares. De um momento para o outro Moçambique viu-se numa situação desesperada que a guerra agudizou e a “solidariedade! do bloco de leste nunca conseguiu sequer minorar. Não irei ao ponto de afirmar que é um Estado falhado mas convenhamos que, por enquanto, pouco mais é do que isso. A longa guerra civil, as guerras larvares no centro e no norte mostram à saciedade que a receita do partido único não produz qualquer efeito nem melhora a vida das populações.

Eugénio Lisboa, 90 anos lúcidos e atentos, é uma das últimas testemunhas de uma geração que se pensava portuguesa e africana e que acreditava na independência de Moçambique. Deixa uma obra notável, na qual sobressai um conjunto de seis livros de memórias (“Acta est fabula” 5 vol. e “Epílogo”) que muito boa (ou má...) gente deveria ler antes de dizer fosse o que fosse sobre África.

E hoje, domingo triste e solarengo, com as pessoas encafuadas em casa, o rapaz que fui nas terras banhadas pelo Índico, viu-se subitamente a sair à socapa do liceu com mais outros do mesmo jaez e descer as “barreiras” até à praia da Polana e entrar mar adentro fugido às aulas e rumo à aventura.

Isto dava um “msaho” lá isso dava. Falta-me é talento e marimbas das de Zavala, terra musical entre todas.

Vai esta para muitos que não sei se vivos ou mortos e que as voltas da vida me fez perde-los de vista. E um abraço ao Joaquim Chissano. Olha pá, eu era o gajo que veio da metrópole para o 3º C e ficava logo depois de ti. Um kokuana, portanto...

Para ler: além do Lisboa, evidentemente, um livro de André Lobato, um excelente historiador de Moçambique, citado por E L : "Lourenço Marques, Xilunguine (biografia da cidade) " um belíssimo livro editado pela Agencia Geral do Ultramar em 1970. De Lobato, recomenda-se tudo que é bastante e sempre exemplar.  

a vinheta : Lourenço Marques anos ssesenta

PS: Da "revista" destaque ainda para dois arigos. A critica ao 2º volume da Obra Poética de António Ramos Rosa e um texto de Guta Moura Guedes "ir ao encontro" sobre o padrão dos descobrimentos. Dois textos contra a desmemória e a burrice. 

 

  

 

 

estes dias que passam 556

d'oliveira, 27.02.21

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Os dias da peste 189

A TAP: para a crónica de um elefante branco

mcr, 27de Fevereiro

 

Já fui a Paris de carro, de autocarro, de comboio e de avião. Falta-me ir de balão e de barco. A primeira hipótese seria tentadora mas desconfio da passagem dos Pirenéus. A segunda parece-me inviável a menos que o barco seja de tamanho reduzido próprio para navegar no Sena mas duvidoso quanto ao mar que é muito e (como diria o dr. Rui Rio) pouco confiável.

Tirante o avião, todas as outras alternativas de transporte tem o comum defeito de demorarem um largo par de horas. Ainda por cima, parece que já não ligação ferroviária com vagons-lits, que a comida a borda se reduz a umas sanduiches miseráveis, enfim, um castigo. Vê-se que de Lisboa a Paris não há nenhum “occident-express”. Uma tristeza!

Portanto, o avião. Duas horas de voo mais a chatice dos tempos de espera antes do embarque e dos da ida de Orly para o nosso destino que, no meu caso, é, desde há quase sessenta anos, o sexto bairro que ainda conheci voluptuosamente cheio de livrarias, alfarrabistas, lojas de discos e cafés. Hora nem metade das livrarias subsistem, as lojas de discos reduziram-se a quase nada, os pequenos bistrots são uma saudade e reina uma vera corrida às lojas de luxo que aniquilam outros espaços e estão sempre vazias. O sixiéme virou bairro de luxo, os pequenos hotéis estão iguais mas muito mais caros e apareceu uma infinidade assustadora de restaurantes fast food.

De todo o modo, burro velho não aprende línguas, e eu permaneço fiel a uma zona que conheço a palmo e onde poderia passear de olhos fechados.

Durante anos, usei a TAP não por exigência patriótica mas porque a alternativa era mais cara. Depois, verifiquei que havia companhias que me levavam a melhores horas de modo a que saído de manhã pudesse estar a horas decentes diante de uma pratada imensa de moules mariniére. Eu já terei aqui confessado o meu imoderado gosto pelos mexilhões.  

Na Galiza, em férias, como sempre, como entrada, uma farta dose deles, normalmente ao vapor. Meti o vício na CG que, logo que eu falo em Paris, pedincha, desnecessariamente, “vamos aos mexilhões?” Claro que vamos, homessa, então iríamos substitui-los por filetes de pescada?

Durante muitos anos, era no bd de St Germain a caminho do 7º bairro que eu me amesendava a mexilhoar. Era um pequeno mas simpático bistrot que tinha um lote magnífico de cervejas belgas e uma pequena esplanada. Até lá vi, boa parte de um campeonato do mundo de rugby à compita com entusiastas de muitas e desvairadas partes, discutindo méritos da Nova Zelândia, da África do Sul, da Austrália, da Argentina, sei lá de que mais países. Torcíamos cada qual pela equipa que lhe agradava (eu sou todo “all black” e quando ela excepcionalmente falha vibro pela África do Sul.) mas no fim do jogo trocavam-se dicas sobre bares e restaurantes, clubes de jazz enfim coisas boas e excelentes.

Esse bistrot acabou, ou tem nova gerência pelo que nos últimos dez anos optei pelo “Leon de Bruxelles” uma franchise que também tem local no mesmo boulevard. Não é exctamente mesma coisa mas os mexilhões são excelentes e as “frites” de primeira. A CG que não está para itinerários sabe o caminho de cor!

Voltando à vaca fria, Paris e os aviões. Desarrisquei-me da TAP por vergonhosos motivos de economia e de horário. E não perdi nada com a troca.

Quando começou a discussão sobre a necessidade de Portugal ter uma companhia aérea de bandeira, comecei por ficar intrigado. Vários países europeus com prestigiosas companhias tinham, face aos pesados custos destas, abandonado a ideia de terem uma companhia de bandeira. Mesmo quando tinham muitos mais destinos e rotas que a TAP!

A TAP, perdido que foi o império colonial, começou sistematicamente a perder dinheiro e passageiros para esses destinos tradicionais que eram um pouco a sua razão de ser. O Estado, seu único accionista, entrava com o cacau necessário para cobrir o desastre e pronto, tudo como dantes quartel general em Abrantes.

A coisa foi-se tornando cada vez mais evidente, o Estado, sob diferentes Governos, começou a reparar que aquilo era um saco roto e, consequentemente, começaram a surgir, com cada vez mais insistência, apelos a que se transferisse a companhia para o sector privado.

O primeiro problema foi o de não parecer haver uma multidão de interessados, Nem um grupo mais reduzido, nem quase ninguém. E a TAP com falta de aviões, com aviões antiquados e com poucas rotas lá foi ter à mão de um cavalheiro vagamente brasileiro, vagamente israelita e vagamente americano que associando uma empresa sua deu à TAP uma espécie de segunda vida com mais aviões, mais rotas e um associado português para inglês ver.

E começou o coro de lamentações: que a pátria dos egrégios avós maila nação valente e imortal não podia deixar de ter uma companhia de bandeira! Uma vergonha, um Alcácer Quibir do orgulho nacional!

Apontou-se o dedo aos Migueis de Vasconcelos, vulgo Passos Coelho & comandita, réprobos que vendiam a pátria em prestações a quem mais desse.

Veio o Governo da Geringonça e, fazendo peito, “reverteu” a situação, adquirindo 50% da companhia.

E a TAP mesmo com todo o turismo do mundo não mudou, nas encheu a bolsa, bem pelo contrário. O prejuízo, tradicional, de sempre, não só não desapareceu mas cresceu.

A solução, sempre estas bizarras soluções à portuguesa, foi surpreendente. O Estado correu com o usurário privado que comia a carninha da perna da actividade aérea nacional e comprou tudo por cinquenta milhões de euros. Uma pechincha!

Mas o prejuízo que, como se sabe é absolutamente avesso a patrioteirismos e jogos malabares, não desistiu. E cresceu.

Com a pandemia, o que era mais que previsível sucedeu. A TAP está absolutamente falida, Ou melhor, só não está porque o Estado meteu-lhe mais umas milhardas. Estas mesmo não chegando, resolveriam a situação a curto prazo desde que se vendessem umas dezenas de aviões (resta saber se há comprador) e se despedissem muitos trabalhadores, fora a dispensa dos que não eram efectivos e que já foram pelo cano.

Depois, como isto também era pouco inventou-se um corte nos salários dos trabalhadores que, no caso dos pilotos pode chegar aos 50%.

Saliente-se que a TAP, na nebulosa hipótese de se safar daqui a uns anos, precisará de pilotos, trabalhadores raros, de custosa preparação e provavelmente já noutras empresas concorrentes.

Entretanto, uma companhia pertencente à TAP, a “Groundforce” não tem dinheiro para pagar os ordenados deste mês. Está pendente de um eventual empréstimo de 30 milhões que o Estado avalizará ou não. São 2600 trabalhadores o que deve significar cerca de cinco, seis, sete mil pessoas contando com as famílias. Sem um tostão em 27 de Fevereiro. Com a vaga esperança de lá para o dia 15, haver uma solução também ela vaga e pouco crível.

Ontem, os últimos sindicatos a aceitar o plano draconiano do Governo que faz depender da anuência em aceitar uma significativa baixa de salários e limitar o total de despedimentos que, todavia, sempre ocorrerão.

Sem isso, advertem, em alta grita, os decisores da TAP, a companhia não sobreviverá a mais dois meses iguais aos últimos cinco, dez meses. r

A ironia disto, se é que alguém de bom senso e honrado, pode achar um desastre irónico, é que tudo isto era previsível há seis, dez meses. Que tudo isto poderia ter sido mais cuidado, que poderia ter havido um plano, qualquer coisa, que fizesse reflectir (se é que a criatura é capaz disso) o Ministro responsável que. “tão de esquerda!” assiste, contribui, para o despedimento de um grande número de trabalhadores, corta no salário dos restantes, vê mais dois mil e seiscentos desamparados.

Claro que a culpa vai ser toda da pandemia. Que a chantagem exercida sobre as duas últimas classes de trabalhadores (pilotes e tripulantes de bordo) e que se traduzia nesta simples decisão “ou aceitam estas condições ou aplicamos condições ainda mais duras”, é apenas um apelo “ao bom senso e ao patriotismo” dos interessados.

Note-se que, no caso dos pilotos a aceitação do xeque-mate, foi resvés Campo de Ourique.

A História deste medonho naufrágio apenas começou. Já se sabe que as medidas tomadas não chegam. Que vai ser preciso mais dinheiro. Não se sabe por quanto tempo a companhia andará num estado de vida suspensa, no limbo das operações aéreas.

Sabe-se, no entanto, que a TAP perde diariamente três milhões de euros. Três milhões! 

Faço parte das pessoas que não apostam um cêntimo na conclusão airosa da crise. Mas isso é para outras núpcias. Só há uma certeza; o ministro vai continuar impertérrito no seu posto, De vitória em vitória até à derrota final . E a culpa será sempre nossa. 

            

estes dias que passam 555

d'oliveira, 26.02.21

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os dias da peste, 188

Lição de Direito Civil

mcr, 26 de Fevereiro

 

 

Esta, juro-vos é real: acabo de ler no conspícuo "ABC" na pág. 98. Em Nápoles um carro chocou com outro parado onde um casalinho de namorados "estava com intimidades". O dono do carro abalroado acusa, agora, o chocador de, com o acidente, ter provocado a gravidez da prometida pelo que requer à seguradora reparação dos danos causados ao veículo e "os provocados à minha prometida" bem como tutela de "todos os seus direitos já que agora temos de casar à pressa".

A senhora Giovanna Arthur, da seguradora diz que paga tudo excepto a gravidez porque "entre outras coisas os técnicos têm de comprovar os danos com fotografias " o que parece impossível de fazer em relação ao momento iniciador da gravidez.

 

Munido desta notícia previno o leitor que não só gosta de conduzir mas que também não desdenha alargar o conceito de uso deste meio de transporte a extremos que, como se viu, podem arruinar uma vida ou, como é o caso, criar uma nova. Para isso basta um carro, mar q.b., música de fundo, uma posição difícil mas não impossível e um motorista descuidado que nos embata com o X de violência que possibilite a "consumatio". Abra-se aqui um parêntesis. Não poderá o choque ser demasiado forte ao ponto de ferir gravemente os passageiros (diria melhor: utentes) do carro embatido. Digamos que o toque deverá poder caber na difícil categoria de "encorajante".

Continuando o parêntesis ocorre esclarecer que o fruto da colisão - o fruto propriamente dito e não a amassadela na carroçaria- obriga os pais a repensar seriamente o nome que lhe vão dar.

Produto de duas desatenções (a da intimidade “a outrance” e a autobolística) e de um "volens nolens" (que não é confundível com o atentado ao pudor) convém inquirir se o acaso do momento da concepção não obrigará o agente principal a emprestar o seu nome à criatura entretanto feita (se nascida e com vida). Suponhamos que o pai biológico é Manuel e o mecânico um vulgar Toyota. Deverá o infante chamar-se Manuel Toyota etc. e tal?

 

Claro que estão fora de causa nomes como Bugatti ou Hispano-Suiza por razões evidentes   -estas peças não têm por hábito embater modestas viaturas com circulação em Portugal. Também não se crê que dos confins da ex-RDA venha um Trabant desembestado cumprir no jardim lusitano o dever sagrado da procriação.

 

Estão excluidos, por falta de dignidade conceptual, tratores, empilhadoras, autotanques de bombeiros voluntários ou municipais ainda que no caso desta última categoria se pudesse pensar no nome do comandante -caso dos sapadores- ou do sócio mais antigo, no caso de voluntários.

 

2ª questão a pôr é esta: como alimentar nos primeiros tempos o produto deste duplo acidente?

Exclui-se, seguramente, a gasolina seja ela super, normal ou verde. Nada impede à luz da legislação vigente, interna e comunitária, que, a jovem criatura concebida em tão invulgar situação não possa recorrer ao leite materno (ou artificial). E isto por uma razão simples: a maioria dos postos de abastecimento de combustivel está encerrada entre as 0 e as 8 horas, para já não referir feriados, férias e dias santos de guarda. Acresce ainda a razão eminentemente prática de ser dificilmente adaptável um biberon "chicco" ao bico da bomba de gasolina.

 

3º ponto. Terão os noivos apressados direito a um ressarcimento por parte da seguradora relativamente ao efeito extemporâneo do choque? Deverá a companhia pagar o parto, as fraldas, a despesa de casamento (boda, flores, convites, etc.)?   Nesta. como noutras questões, haverá que usar de serenidade e aplicar o que na imorredoira faculdade de direito de Coimbra se apelidava "juízo do bonus pater familias” - prudência e bom senso e um toque de fértil imaginação jurídica. Ofereço aos colegas italianos esta pequena amostra de talento: a questão haverá que resolver-se como se de um nascimento prematuro se tratasse recaindo sobre a companhia seguradora apenas e só as despesas que decorrem do adiantamento e concentração de datas jamais as que resultariam da natural evolução do noivado atrevido que decorria no carro antes do choque.

 

E a franquia, esse pequeno alçapão que no contrato de seguro faz recair uma parte das despesas resultantes de sinistro sobre o segurado?

 

Sugere-se o recurso a tribunal arbitral ainda que com uma ressalva -que na composição deste não entre clérigo ou religioso de qualquer confissão, sabidas que são, as interdições com que todas as religiões sobrecarregam a relação pré-matrimonial. Aliás, e para quem julgue que introduzo aqui qualquer "capitis diminutio" de cariz religioso sempre direi que o caso que nos ocupa é de natureza fortemente civilística, isto é laica.

 

Finalmente tendo em linha de conta a evolução dos costumes, tem-se por conveniente recordar aos motoristas descuidados que não deverão embater automóveis estacionados sobretudo quando estes se encontram em zonas periféricas, em noites de luar e eventualmente ocupados por casais jovens e saudáveis.

 

Em memória de Carlos Mota Pinto meu professor e meu amigo. Bem nos divertimos em Pescara!

(este texto é antigo e suonho que nunca o cheguei a publicar, Hoje, estou com uma preguiça infame e a achei que poderia dá-lo à estampa.Ao fim e ao cabo estas prosas tem a finalidade de distrair os leitores enclausurados e fartos de pandemia. Se conseguir isso, ficarei satisfeitíssimo. 

E já agora, para além da dedicatória a Carlos Mota Pinto, amigo desde que nos encontrámos num bar a ouvir jazz, vai o folhetim para o JMM e outros - todos - juristas que me aturam. 

 

 

 

 

estes dias que passam 554

d'oliveira, 25.02.21

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Os dias da peste 187

Onde para o “El País”?

mcr, 25 de Fevereiro

 

Já aqui o disse várias vezes: sou um leitor compulsivo, incluindo nisso jornais.

Desde que me lembro consumi jornais, quanto mais não fosse os suplementos infantis.

Recordo-me, como se fosse hoje, as disputas com o meu irmão para ver quem é que todas as terças feiras ia à loja do sr. Bracourt, buscar a “Modas e Bordados” de que a nossa mãe era uma fiel.

Nós da M & B só queríamos o suplemento infantil que se chamava “joaninha”. À volta da loja o feliz comprador já vinha embrenhado nas histórias em quadrinhos. Já só me lembro de duas. “Sem família” o clássico de Hector Malot que durou anos de publicação e “Aninhas e Ró-ró” as aventuras de uma menina e do seu cão. Dessa só me lembro do nome.

Os jornais diários também traziam aos domingos um pequeno espaço para a miudagem. Foi n’ “O primeiro de Janeiro” que tomei contacto com o Príncipe Valente que agora anda a ser publicado em volumes que, pelos vistos, durarão até meados do próximo ano. Obviamente, no meu pequeno círculo de amigos, houve, desde o primeiro dia, três assinantes( o Manel Sousa Pereira que Deus tem à sua mão direita em animada conversa com o Corto Maltese, o Manel Simas Santos que tenta justificar-se dizendo que compra para os netos e eu que não apresento nada em minha defesa).

Quando entrei na Universidade, passei a comprador constante do “Diário de Lisboa”. Pouco depois, estreei-me no jornalismo estrangeiro através do “Le Monde” que publicava (e publica) um resumo semanal das notícias mais importantes. Com “L’Express” era a minha porta aberta para o mundo.

Com o passar dos anos diversifiquei as minhas leituras jornalísticas para não falar nas revistas de que sempre fui leitor. Até ao 25 A, assinei religiosamente a “Vértice”, a “seara Nova” e “O tempo e o Modo”.

Logo que o “Expresso” apareceu, tornei-me (e continuo) seu leitor. O mesmo sucede com o “Público” para o qual me transferi de armas e bagagens logo no primeiro número. O mesmo sucedeu com “El País” mesmo se me limitava a um dois exemplares por semana.

“La Reppublica” teve um tratamento idêntico mesmo se a compra do jornal dependa muito dos acasos da distribuição. E com ela uma série de revistas de diferentes procedências mas sempre versando temas literários, artísticos e história. Estou afogado em papel!

Mas tudo isto vem a propósito do inesperado desaparecimento do “El País” dos quiosques portugueses. Só me apercebi do facto segunda feira passada quando fui pelo exemplar de sábado, o que traz o suplemento literário “babélia”. De facto o meu quiosque está fechado ao domingo e o jornal chegava tão tarde no sábado que eu adiava para segunda a leitura.

Comecei por pensar que o facto se devia a uma mudança de distribuidor mas, pelos vistos, agora só há um distribuidor de jornais e revistas (VASP). Terá sido alguém dessa empresa que comunicou que o jornal abandonava Portugal!

Eu não faço a mínima ideia sobre o número de leitores que por cá o periódico teria. Todavia a sua ininterrupta presença durante dezenas de anos pressupunha que alguma audiência teria.

Será que éramos tão poucos que os gestores do jornal se fartaram de perder dinheiro com tão ruim freguês?

Seria assim tão grande o descaso dos portugueses sobre a vida espanhola, a política e a cultura vizinhas?

Em boa verdade conheci alguns intelectuais portugueses, gente séria e interessada que, porém, em lhe cheirando à língua de Cervantes ficavam hirtos e emburrados. Um que muita falta faz acompanhou-me a mim e à namorada dele à livraria Michelena em Pontevedra. A livraria era excelente e espaçosa. Ia de uma rua à outra, paralela, com salas e corredores pejados de livros. As estantes de poesia tinham duas dúzias, passante, de metros lineares. Tudo carregadinho de livros numa prodigiosa desarrumação que indiciava a passagem de muito leitor que não resistia a abrir e folhear um livro. E a pousá-lo no primeiro sítio à mão de semear.

Como eu tinha por hábito fazer férias de Verão a cerca de vinte quilómetros da Pontevedra, na praia de Areas, volta que não volta , à mínima ameaça de chuva, desandava para Pontevedra e para a Michelena, Enchia o carro de livros, almoçava num dos muitos restaurantes da cidade especialistas em marisco e peixe fresquíssimo e voltava para o remanso da praia.

Entretanto, a livraria passou por forte crise, fechou e agora terá reaberto mas com uma fórmula diferente no que toca ao seu fundo de livros. Ainda lá não voltei e muito me temo que o raio da pandemia tenha feito naufragar o projecto.

Mas prometo voltar, assim que passe este desastre.

Esta digressão livreira tinha apenas por finalidade ilustrar o extraordinário caso de um intelectual de mão cheia, uma personalidade cintilante e curiosa que, neste reino dos livros em espanhol parecia um zombie. Nunca percebi como é que ele tinha um tal complexo com uma língua quase irmã, musical cheia de expressões maliciosas para já não falar no léxico gigantesco de palabrotas, injúrias que deixam qualquer tradutor aflito e invejoso.

Será que essa sua ojeriza, melhor diria, incapacidade, é mais generalizada do que eu suspeitava e que seja por Aljubarrota, seja pelos Filipes, seja pela guerra das laranjas, alguns, muitos, de nós portugueses fugimos de Espanha de onde não vem bom tempo nem casamento?

Todavia, no caso da Galiza, por exemplo, sabe-se que todos os anos largas dezenas de milhares de portugueses atravessam a fronteira e passam férias em Sanxenxo e nas vinte e tl praias que a cercam. Que só ali há centos de hotéis que se enchem de portugueses. Aliás, na Galiza, ninguém precisa de tentar o portunhol. Os galegos percebem perfeitamente o português.

Ou quase. Uma amiga minha achava que os turistas portugueses não deveriam tentar espanholar. Ora um dia, entendeu demonstrar-me que fa lan do de va gar to dos a en ten diam. E pe diupor fa vor um chá”.

Nada!, raspas de nada!. O empregado quieto e em sentido aguardava ordens. E ela repetia chá, por favor. A quarta tentativa, compadecido mas triunfante, atirei com “té, hombre, un té pa’ la señorita! E cinco minutos depois, a minha amiga, compungida e zangada, bebia o chá e garantia-me que os espanhóis deveriam ser colonizados por mais uns séculos até aprenderem a falar uma língua de gente!

Nada disto, contudo, me consola. Onde está o meu jornal de tantos e tantos anos? Onde para o “El Pais”?

  

 

 

estes dias que passam 553

d'oliveira, 24.02.21

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Os dias da peste, 186

O direito à burrice supina

mcr, 24 de fevereiro

 

 

O poeta Joaquim Namorado afirmava que. com ele, o problema do Código Civil se resolveria em duas penadas. Convém esclarecer que Namorado, homem culto, corajoso e inteligente, era matemático pelo que a sua visão do Direito poderá parecer “simplista” então era assim:

Artº 1º é proibido ser estúpido

  • único: fica revogada toda a legislação em contrário.

 

Mais do que o regime vigente, a perseguição de que era alvo (inclusivamente não lhe era permitido ensinar salvo como explicador –e que explicador era! Até lhe chamavam “o endireita de Celas”: aluno que o procurasse era aluno que acabava por triunfar!), a censura e tudo o resto, incomodava-o a alarvidade, a burrice, a incapacidade de perceber, compreender.

Morreu há já largos anos mas eu (e seguramente muitos mais) não esqueço a sua perseverante luta pela cultura, pela poesia, pela liberdade. Devo-lhe os primeiros escritos publicados a que me atrevi, a sua crítica generosa, a sua exigência, a sua amizade.

O Joaquim enganava-se na sua divertida descrição do novo código mas nem ele, atento observador da condição humana, levava muito a sério aquela piada.

Muito menos quereria cortar o direito à palavra que qualquer imbecil pode querer mostrar.

Eu, pobre de mim, também não quero perseguir opiniões obtusas muito menos corta a palavra a quem a usa desbragadamente.

Todavia, quando a ignorância, a incultura a espertalhice saloia se aliam, sinto vontade de me transformar numa espécie de Joãozinho das Perdizes (leitores olhem com olhos bem abertos e críticos esse Júlio Dinis, morto demasiado jovem que poderia ter sido o nosso Balzac ou, pelo menos, a nossa melhor testemunha das mudanças que o liberalismo introduziu na sociedade portuguesa, mormente na rural) a varrer feiras com um cacete de boa e rija madeira de marmeleiro.

Tudo isto me vem ao dedo com que avio esta prosa diária porque li um artigo de Maria João Marques, economista e colunista do “Público” onde ela refere a proposta de um deputado que entendia que o Padrão dos Descobrimentos deveria ter sido demolido em 74 (e porventura também hoje) ao mesmo tempo que na mesma zoada lamentava que no 25 A não tivesse corrido sangue. Correr correu mas pouco, felizmente. O regime caiu de podre, não tinha quem de facto o quisesse manter. Até nisso lembrou o “28 de Maio” que se limitou a uma vagarosa passeata de tropas desde Braga até Lisboa, enquanto a 1ª República se desfazia sob o aplauso de muita e boa gente desde a “Seara Nova” até aos sindicalistas que ela perseguira duramente.

A criatura a quem se devem estes dislates não será aqui nomeada. Quem quiser que vá por ela à internet como eu fui. Pelos vistos, deputa desde o início do século, havendo a suspeita que será essa a sua principal tarefa. Terá nascido em meados dos anos sessenta pelo que nada conheceu (e, menos ainda, percebeu se é que o tentou e se, pior, teria capacidade para perceber) do anterior regime.

Também pouco, nada, perceberá do que à falta de melhor chamarei de tentação icónica da História cuja tradução mais simples é a que consiste na erecção de monumentos celebrativos de momentos chave do percurso de um povo e de um país.

Não sou um especial fã do Padrão que foi erigido depois da comemoração dos centenários (fundação e restauração) depois de ter figurado na famosa “Exposição do Mundo Português”.

Já agora, seria bom recordar que esta exposição mobilizou tudo quanto havia de artista plástico, de cineasta, de arquitecto. Curiosamente, colaboraram pessoas de todas as cores políticas provavelmente porque a circunstância o exigia e o António Ferro quereria domesticar com encomendas alguns adversários políticos.

De todo o modo, o padrão lá está, perto da Torre de Belém (outro marco claramente comemorativo das descobertas) dos Jerónimos (idem, aspas, aspas) da praça do Império (do Império !!!) do Jardim Tropical Colonial (!!! , outra vez o passado, desta feita científico da “Expansão”).

O pobre diabo cujo nome não refiro porque de minubus non curat praetor, volta que não volta puxa da esferográfica e bota artigo. A conhecida indulgência do “Público” que não segue a teoria de Namorado lá o publica para deleite dos leitores mais animosos que assim percebem que os limites da vacuidade e da tolice são como os caminhos do Senhor.

Não me lembro de nessa zona de Belém ter alguma vez visto os brasões das cidades ultramarinas. Tais brasões, terão sido um re-arranjo do dito jardim e por lá estavam sem que daí viesse mal ao mundo. A fim e ao cabo, não muito longe dali há uma coisa chamada , se não erro, “união das cidades capitais de língua portuguesa” que é mais outro verbo de encher com que, como bons neo-colonizadores (que nem sequer conseguimos ser) pretendemos mostrar-nos ao mundo. Suponho que boa parte dos brasões em buxo pertenceriam a essas cidades.

Parece, pelo menos é essa a desculpa, que os brasçoes estariam mal cuidados (coisa comum a mais de metade dos jardins portugueses!...) e que seriam pouco perceptíveis pelo público. Vai daí toca de os arrancar e de os substituir sei lá por que tipo de canteiros. Algumas pessoas, ciosas da chamada “memória histórica” protestaram. Outras, defensoras do não retorno ao passado, contradisseram as primeiras. A coisa meteu mesmo um vereador camarário de Lisboa que, à falta de obra mais significativa em prol da cidade, tomou como missão da sua vida insignificante, dar este contributo `à botânica imperial.

O demolidor dos símbolos imperiais teria aqui muito trabalho pela frente. Até os museus contíguos ao Jerónimos estão cheios de peças “coloniais” ou a lembrar a medonha colonização. Já agora, que estenda a sua obra aos coches museografados também perto (como símbolos do elitismo dos privilegiados portugueses que, qual sanguessugas, viviam às costas do bom povo). E à Cordoaria Nacional, exemplo típico do que foi preciso fazer para mandar navios para essas terras longínquas que os portugueses desalmados estragaram.

A segunda opinião da criatura, a que pede mais sangue no 25 A há faz-me temer que à mínima hipótese de sobressalto político o homenzinho saia para a rua de metralhadora em punho à caça de mal pensantes, vulgo adversários políticos.

Conheci, ao longo de uma vida já pesada em anos, muita gentinha como esta personagem. Tive oportunidade de os ver bramir enormidades e de os ver recuar até se lhes ver o dito cujo, quando um modesto rafeiro lhes ladrava às canelas.

Agora saber que este expoente da mais saloia ignorância anda pelo parlamento, pago por nós todos há já quatro legislaturas é que me custa. Bem sei que para fazer um mundo é preciso um pouco de tudo mas devia haver algum limite.

Por exemplo pôr em execução, por uns dias, o código de Joaquim Namorado.