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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 707

d'oliveira, 26.06.22

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Marcha pela guerra

mcr, 26-6-22

 

A exígua manifestação promovida pelo PC e respectivas organizações satélites que, ontem, percorreu um par de ruas é um monumento à hipocrisia, à má fé e um insulto aos cidadãos portugueses que eles tomam por estúpidos.

Reclamar a paz (“com conversações...”), sabendo de antemão que qualquer tentativa de diálogo foi varrida da mesa pela Rússia que nem nas poucas vezes em que delegações suas e da Ucrânia se sentaram a uma mesa  deixou de atacar, bombardear, destruir e matar cidadãos indefesos, é um exercício de hipocrisia e e mentira absoluto. Quando há conversações há, pelo menos, uma temporária suspensão de hostilidades. Ora tal nunca ocorreu como é fartamente sabido.

O sr Jerónimo de Sousa que afirmando não ser a favor de nenhuma das partes (mesmo se uma é invasora e outra invadida !!!) e com a experiência de quem participou numa guerra injusta, recusa referir a palavra invasão (pelo menos no extracto televisivo a que tive acesso pois aí voltou a falar em “operação”)

O espantoso no meio disto tudo é que ninguém confronta esta criatura com o facto do “partido irmão” russo ser um dos mais ardorosos defensores da “intervenção especial”, de ter proposto na Duma o reconhecimento das repúblicas separatistas fantoches, de ter expulsado da sua pequena coorte quatro deputados provinciais que na sua região se pronunciaram contra a guerra.

Boa parte das pessoas mais velhas, Jerónimo incluído são ainda do tempo da invasão da Checoslováquia pelos “exércitos “irmãos” e do Afeganistão. Nestas duas alturas nem uma destas tristes personagens foi capaz de uma crítica, um reparo, um lamento pela sorte do povo e do país invadidos.

Dir-se-á que, mesmo aceitando que nesta manifestação a destempo e contra a moral e a ética, havia também algumas pessoas de “boa vontade” movidas pelo horror à guerra e pelo desejo de concórdia. É possível se bem que quase inverosímil.

Como é possível ser tão cego, tão imbecil que não se veja na convocação da manifestação uma tosca operação de falsificação do que se passa, do que todas as televisões mostram diariamente. Como é possível ignorar largos milhões de refugiados, inclusive em Portugal, de quase 10 milhões de deslocados internos, dos mortos visivelmente executados, das cidades reduzidas a destroços à semelhança de Stalingrado?

Como é possível fingir que a Ucrânia é um coio de nazis quando na Rússia há dezenas de organizações tão ou mais fascistas todas unidas no apoio a Putin?

Como é possível continuar a referir um apoio incial da NATO quando se sabe que esta arrastou os pés e só depois de se verificar uma inesperada e forte (e legítima) resistência ucraniana é que foi enviando , e a conta gotas, armamento defensivo que tem chegado tarde e más horas e cuja falta provocou não só a queda  de Mariupol ou Severdonetsk ou de zonas limítrofes da Crimeia?

Como é possível não perceber que há um sentimento generalizado e mundial contra a intervenção que por várias vezes se materializou na ONU e nas respectivas sessões gerais ou das suas diferentes agências?

Só me referi aos “inocentes ´uteis” (tropa habitual deste género de manifestações pindéricas. Os outros, os que sabem, que organizam, que mexem os cordelinhos estão apenas de má fé e o seu preito à Rússia vem já de outros tempos, do tempo do “sol da terra”, do país dos “trabalhadores”, das “conquistas revolucionárias”  do gulag .Esta gente ainda não digeriu a implosão da URSS, o desastre contínuo de uma economia que nunca permitiu uma vida folgada à gigantesca maioria do povo, silenciada pela bufaria, pela polícia política, pela deportação de grandes grupos humanos como ocorreu na Crimeia, na Estónia em Kaliningrado, antiga Prússia oriental transformada num  enclave de populações russas transferidas para ali depois da expulsão em massa dos habitantes originais.

É verdade que não são uma multidão, que de ano para ano vão perdendo apoiantes e militantes, que de legislatura em legislatura perdem deputados, que o número de Câmaras vai diminuindo a cada  eleição autárquica. E, por espantoso que pareça, é nas suas antigas regiões que florescem com maior força as tentativas conseguidas de implantação da extrema direita que eles dizem combater. Os extremos tocam-se, mimetizam-se porque, ao fim e ao cabo, assentam na mesma grosseira mistificação política ideológica e histórica. E no desprezo pela gente comum, mormente pelos mais fracos e mais desprotegidos (a que eles, os sábios, os esclarecidos, chamam “lumpen proletariado!)

estes dias que passam 706

d'oliveira, 17.06.22

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 A “urgência” tributaria

mcr, 17-6-22

 

Sou, de meu natural, pessoa pacífica pouco dada a conflitos sobretudo quando, como é o caso, correm sempre em nosso desfavor.

Refiro-me, obviamente ao fisco, esse mal necessário que, num país bananeiro ou a tender para isso, como o nosso, acaba sempre por se mostrar um mostrengo insaciável e de pouco préstimo para os cidadãos.

Já aqui relatei a impossibilidade de pagar a taxa ou imposto (ou qualquer outra coisa com o mesmo desagradável significado) do automóvel fora daquele único mês que respeita à emissão do livrete). Como além do carro que uso, há cá outro destinado a CG que já tem uma idade respeitável, pensei poder pagar ambas as quantias ao mesmo tempo. Nada feito. Ninguém me conseguiu explicar porque é que não poderia pagar antecipadamente em Maio o que terei de desembolsar em Julho.

Entretanto, com data de 20 de Maio mas recebidos já Junho ia perto do Santo António, eis que a AT (Autoridade Tributária e Financeira) me enviou duas notificações para pagar umas coimas devidas ao atraso com que durante a pandemia (anos 20 e 21) pude deslocar-me ao 7º Bairro par pagar as respectivas taxas.

Na minha absurda inocência sempre achei que, se alguém paga atrasado deveria poder logo liquidar a coima relativa. Mas não, o Estado, a AT ou o diabo que os carregue, entende proceder  a umas quaisquer operações que sob o eufemístico nome de justiça fiscal (ou algo semelhante) e com um número de processo (só revelado ao contribuinte neste momento fatal da exigência de liquidação da coima), demora o tempo que lhe apraz, no caso 2 anos para um dos pagamentos e 1 ano para o mais recente.

A princípio, por mera preguiça de ler as letras pequeninas não percebi que eram dois anos diferentes pelo que me dirigi à repartição fiscal.

Esperei, ao relento, aliás ao calor, cá fora três quartos de hora. Depois lá fui recebido por uma funcionária que me informou do meu erro e me despachou para o multibanco. NA repartição, contei uma boa dúzia de balcões mas os efectivamente ocupados eram cinco!

Convenhamos que ou  se pensou em grande ou faltam funcionários (ouestão de férias, auentes em oarte incerta, debaixa, na casa de banho a fazer as palavras cruzadas do jornal ou noutro destino exótico e desconhecido. Um dos meus desafortunados companheiros de “bicha” informou-me que, “hoje estávamos cheios de sorte pois as bichas duram em média muito mais tempo. Persignei-me três vezes em sinal de agradecimento a alguns benevolente santo que cuide das “Bichas” e desandei a grande velocidade.

Não vale a pena vir falar de quaisquer direitos dos cidadãos, sobretudo em questão de pagamentos ao Estado. É verdade que isto não é a Somália ou a Rússia, mas o desprezo pelas criaturas que pagam os seus impostos é rigorosamente idêntico. São carne para canhão, tem um único préstimo: pagar e não bufar.

Tudo o resto é fantasia.

Em Julho lá voltarei para pagar mais um imposto do popó, o mesmo que não quiseram receber em Maio...

estes dias que passam 705

d'oliveira, 16.06.22

 

 

 

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10 ou 20?

 

mcr, 16-6-22

 

 

 

Imagine o leitor que um seu futuro empregador lhe propõe um ordenado de 10 e logo um outro da mesma especialidade lhe atira com um proposta de 20. E, além disso, garante-lhe menos trabalho, melhores instalações e mais meios. Qual é a sua escolha?

 

Esta pergunta meramente retórica retrata contudo uma realidade: o pagamento feito a médicos do SNS e do privado, esse horrível monstro que só existe para acabrunhar os portugueses.

Imagine o leitor que, subitamente, uma doença, um mal estar, qualquer coisa duvidosa do ponto de vista sanitário, o acomete.

Por um lado aparece-lhe um serviço que com boa fama e boas provas lhe diz que terá de esperar cinco , dez dias (ou meses ou...custa a dizer, anos) e outro, atacado pelo medonho crime de ser privado e com fins lucrativos – o que esconde a igualmente boa fama- que lhe garante uma assistência em escassos dias. Qual dos dois serviços escolheria no caso de, por razões várias, ter acesso a ambos?

Suponhamos que se está a discutir o Serviço Nacional de Saúde português que neste exacto momento (e ainda só estamos em Junho, mês que poucos escolhem para férias)  já rebenta pelas costuras no capítulo das urgências de obstetcrícia  e pediatria em vários hospitais.

E que, por isso mesmo, fecha urgências nocturnas por um, dois, três ou mais dias sob o sofisticado nome de “contingência” ou outro igualmente usado para ludibriar utentes.

Os noticiários da televisão e da rádio e os jornais enchem-se de notícias sestas que, obviamente, afectarão  todos os portugueses, aliás as portuguesas grávidas (que dado o índice de natalidade são escassas) que precisam de recorrer a um hospital.

É certo que um milhão e meio de portugueses tem ADSE e que 25% dos cidadãos se preveniu com seguros privados que custam dinheiro. Restam os que não tem acesso ao subsistema indicado acima  ou não conseguem pagar um seguro (Claro que se exclui a malédica camada de ricos (capitalistas e exploradores do povo, dos trabalhadores e demais vítimas da fome) pois essa gente (que o reputado político Otelo queria eliminar o que lhe mereceu a resposta do primeiro ministro sueco  que em contrapartida lhe assegurou que no seu país preferiam liminar a pobreza) safa-se sempre...

Eu sei que ao me meter mais uma vez nas alhadas da política de saúde, caio no visor dos amigos da sr.ª ministra. Ainda anteontem duas pessoas respeitáveis me afirmaram convictamente que essa criatura vencera a pandemia quando eu, com uma memória viciosa e distorcida tinha por certo que foi a extraordinária dedicação de médicos, enfermeiros e restantes elementos ligados à saúde quem, de facto colmatara o caos sanitário. E já agora um vice-almirante com um punhado de militares quem, ao substituir uma criatura incompetente mas “do sistema”, conseguiram criar um percurso novo, fácil, inteligente e capaz de resultados admiráveis, ao invés do que antes vinha sendo percorrido com erros de palmatória. Só a opinião pública, o receio de quem mandava, sustiveram essa errada perspectiva e salvaram a barca do Estado de um absurdo naufrágio.

Desta feita, sem pandemia, com uma longa história de urgências fechadas ou apenas semi-abertas, conhecendo-se que faltam médicos ou falta organização, ou as suas coisas, que há cada vez mais concursos desertos, que a paga de tarefeiros a mais do dobro da dos médicos escalados para as urgências (e já nem falo do recurso também subitamente encontrado de encaminhar pra o repelente sistema privado que lucra com o exercício da medicina (??!!!)).

 

Depois, atiram-se as culpas para as ordens profissionais (sobretudo médicos e enfermeiros que alegadamente  “não são da cor”. Seriam estas, sobretudo as os médicos que impedem a criação de novas faculdades de medicina, que impedem os hospitais de formarem mais especialistas, que induzem as universidades existentes e públicas a um númerus clausus mínimo e exigem uma nota de acesso máxima na ordem dos 19 valores ou mais ainda...

Eu ainda não vi explicação para o facto de quase   60% dos obstetras estar fora do serviço público, de faltarem centenas de anestesistas, intensivistas, pediatras e de estar a aparecer uma nova e perigosa falta de cirurgiões de todas as especialidades. Estas faltas, ao que parece, não são sentidas no hediondo sector privado. As demoras no tratamento de certas especialidades com a Oftalmologia à cabeça não parecem existir no mesmo detestável sistema .

Todavia, um,  o das faltas, das demoras, das crises e das contingências é aclamado e o outro o dos ricos, e dos preços de mercado é apontado a dedo e prometido à mais negra sorte.

 O problema, porém, é que os pobres, o que não tem seguro de saúde, nem são utentes da ADSE, estão reduzidos a recorrer ao primeiro, a esperar e desesperar.

Quem é detentor de um seguro de saúde ou utente da ADSE (que leva a cada um dos seus beneficiários uma soma redonda e apreciável dos seus salários) ou meramente rico (qualidade incomum na população portuguesa) consegue ser atendido a tempo, ser socorrido quase na hora. Ou por outras palavras a conquista do direito democrático à saúde está fora do alcance do Estado e sobretudo longe dos mais aflitos. 

À saída do jantar anual dos incursionistas um dos meus camaradas de redacção elogiou-me a assiduidade mas lamentou que eu tivesse o hábito de  “atacar a governação”. Era tarde para lhe responder adequadamente mas sempre lhe recordei que, desde os meus longínquos vinte anos, tomei a decisão de me indignar, de pedir responsabilidades a quem detém legítima ou ilegitimamente o poder. E essa atitude de que nunca abdiquei fez-me viver “exilado na minha própria pátria”  uma boa dúzia de anos. Uma vez mudado o regime entendi que não deveria mudar de exigência e, por isso, por fidelidade a algo que me auxiliou a viver os anos amargos, aqui estou, mais velho, mais desiludido mas sempre solidário com os que não tem a minha sorte.

Isto não é um modo de vida mas, apenas, um voto de vida.

 

 

 

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estes dias que passam 704

d'oliveira, 08.06.22

#me too” à portuguesa

mcr, 8-6-22

 

Numa esplanada vagamente protegida da chuva, aliás do chuvisco, que este ano vai ser de seca gorda, mais uma miséria a juntar-se às restantes (guerra, pandemia à solta, escassez de alimentos – outra vez a guerra!...- uma espero que um diligente lojista me instale uma nova impressora que a antiga está por um fio.  incapacidade generalizada para encarar as novas realidades, enfim o costume, um costume mais carregado do que é habitual). O homem é simpático, educado, costumava vender-me os tinteiros, recarregá-los (eu nunca percebi qual a razão para o preço dos tinteiros, um escândalo...) e acreditei que me poderia tratar desse melindroso tema da nova impressora. Vamos lá a ver porque até ao momento, tem andado atrapalhado com a máquina que me vendeu. Começou por funcionar bem mas dez minutos depois nem por wi-fi nem por cabo!  

E fui eu, um info-excluído dos antigos, dos verdadeiros, quem reparou que a cor (âmbar) que aparecia num mostrador luminoso da impressora indicava erro. Depois a criatura julgou que o computador mais antigo era incompatível com a nova máquina. Tive que lhe dizer que a impressora com que esse computador imprimia lindamente era o modelo anterior da nova pelo que a explicação parecia coxa. Agora deixei-lhe dois aparelhos na loja e ele que se desenrasque (que se desengome, como dizíamos em Coimbra...) a configurar. 

Note-se que fui eu quem o animou a ir por informações à marca porquanto o homem já achava  que era melhor trocar de impressora!

As minhas aventuras neste obscuro domínio da informática e no outro ainda mais estranho da internet já me provaram que os “especialistas” nem sempre sabem tanto quanto apregoam. 

Ainda me recordo de um gabarola enviado pela NOS que à chegada lá a casa me disse que o meu problema seria resolvido “numa fervurinha”. Claro que meia hora depois, telefonava desesperado a solicitar ajuda (e eu a rir-me à socapa...) A coisa demorou várias fervurinhas e no fim o técnico já me falava como a um colega e maldizia a avaria. 

 

Todavia, não era a este mundo perigoso e minado das aparelhagens que eu vinha mas tão só a uma afirmação de uma senhora economista e colunista que sobre o caso “Johnny Depp/Amber Heard concluía muito zangada: “Parabéns, queimaram mais uma bruxa!”

 

Notem que esta colunista não costuma entrar na tolice reinante mas, desta feita, algo lhe passou pela cabeça que a desnorteou. 

Vejamos: ojulgamento ocorreu no sítio menos indicado para os “male chauvinista”, isto é nas mesmas zonas onde a influencia do #me too” é grande e onde vozes mais ponderadas acusaram que nesse caso deitaram fora com a água do banho a criança. Isto é: toda e qualquer acusação de abuso, de assédio, foi aceite e os acusados culpados ou inocentes foram julgados pela mesma rasoira. 

Num que outro caso, houve quem estranhasse acusações com vinte ou mais anos de atraso mas mesmo assim elas prosperaram e os acusados foram varridos mais pela suspeita do que pela prova, aliás difícil. 

Eu recordo que no caso Clinton até apareceu um vestido alegadamente atingido por sémen do impetuoso presidente e que foi aguardado durante anos. Nem lavagem a seco nem nada: aquilo havia de servir e serviu... A mim sempre me espantaram as jovens estagiárias que, uma após outra, ano após ano eram sacrificadas pelo apetite lúbrico dos poderosos. E só falo dos casos que vieram a público e não daqueles, muitos, que foram convenientemente resolvidos nos bastidores por discretos advogados e fortes somas de dinheiro. 

Neste caso entre dois ex-conjuges, actores ele famoso ela muito menos, tudo começou por um artigo da actriz que acusava  o ex de várias e violentas malfeitorias. O homem encrespou-se  processo surgiu. Com uma turba multa de advogados caros de ambos os lados. Num tribunal regular americano. Com um júri onde a paridade de sexos parece ter sido a regra. Enfim com todos os pressupostos de um processo duro mas leal de igual para igual. E uma soma astronómica envolvida.

Ora conclui-se que o júri não deu como provadas as alegações da actriz e considerou que o ex-marido fora acusado sem razão. Daí uma sentença que indemniza este de forma clara. Se não erro, quinze milhões de dólares menos do que era pedido mas claramente condenatório. 

O júri ao que sei foi unânime. Das duas uma: ou Depp, o alegado mau da fita, é alguém com uma influencia maior do que a de Putin ou o júri estudou o caso, as provas e decidiu com equanimidade e dentro da lei.

Afirmar que as mulheres numa guincharia tremenda à porta do Tribunal aclamavam Depp e que os homens calados mas coniventes deitavam para debaixo do tapete as culpas (só evidentes para a colunista) do autor da acção, parece uma toleima, senão uma burrice. Supina! 

O sistema judiciário americano tem, como qualquer outro, virtudes e defeitos, porém regra geral é fiável mesmo secomo em qualquer outro país e sistema quem tem dinheiro usa os melhores advogados, consegue reunir testeminhas e pode até, influenciar alguma imprensa. Alguma, repete-se. Nunca toda. E foi isso a que se assistiu durante este julgamento. Nõ faltaram apoiantes de Amber e violentos opositores de Depp. A mulher foi muitas vezes defendida por gente tão poderosa quanto a do bando contrário. E sobre tudo, num país cada vez mais politicamente correcto, pairava a sombra do #me too# o que não parecia ser coisa pouca.

Eu dei pouco pelo processo. Esperava, com um saber de experiência feito, que Depp perderia. Mesmo se conseguisse provar alguma inocência. E, comigo, muito boa gente, já causticada pelas precedentes campanhas. 

Qe um tribunal e um júri desafiassem as previsões foi uma surpresa de todo o tamanho. Que a sentença fosse tão dura como foi, outra e bem maior. Que fosse em Portugal (mesmo que eu  não leia a imprensa americana) que alguém viesse chamar à colação e enviesadamente as “bruxas de Salém”, ou pelo menos citasse essa antiga história parece-me não só vontade de se armar em carapau de corrida e em jurista especialista neste tipo de causas. 

Ora a colunista é pelos vistos economista o que está bem longe de a creditar como uma conhecedora da lei, sobretudo da lei americana. 

E faz tábua rasa de uma sentença que, pelos vistos, não foi especialmente considerada injusta ou desconforme com a lei e com a prova dos factos encontrada em tribunal.

 

O dia está feio, o homem da impressora não anda nem desanda, a vizinha do lado continua a manter sobre o seu estrito controle mais cadeiras (vazias!...) do que a mesa pede, um chuvisco ameaça e preocupa-me pois amanhã meto-me à estrada para ir a Lisboa. Se calhar sou eu que sou também um porco chauvinista masculino sempre atento à causa nobre da masculinidade sem fronteiras e disposto a relegar as mulheres para um lugar inferior.  

estes dias que passam 702

d'oliveira, 06.06.22

Esperar, verbo português

mcr, 6-6-22

 

Dois anos é, neste momento, o tempo de espera por uma junta médica. 

Não é uma surpresa, sequer uma singularidade nacional mas apenas um dos males que nos toca a todos. Melhor que toca mais uns que outros.

Ou seja, e para resumir: que toca os mais velhos, os mais desprotegidos, os mais doentes.

Parece que a lei (uma palavra oca e sem sentido quando se fala de saúde)impõe um prazo máximo de dois meses.  

Alguém, pelo SNS, pelo Ministério da Saúde, pelo raio que os parta, onde vê escrito meses lê anos.

A srª Ministra jura que está a trabalhar para modificar a situação. Obviamente que também está na lei que compete aos ministros trabalhar.

Pelos vistos a lei esqueceu-se de acrescentar a que ritmo deve ser levado a cabo o trabalho ministerial. E o resultado está à vista. Alguém avança neste intricado caminho, que normalmente apanha as pessoas em fim de vida ou em forte aflição, a passo de caracol. 

A culpa, claro está, é dos portugueses que adoecem, do anterior /anterior governo, o de Passos ou, talvez, de Cavaco Silva, sabe-se lá.

Alguém num depoimento ao jornal afirmava que a morte vem primeiro que a junta e muito antes da reforma por invalidez.

E não e pense que este caso (ou se escândalo) é caso úínico (aparente rari nantes in gurgite vasto... para dar um toque de latim a algo que nem sequer causa chinfrim). 

O português vai ao centro de saúde por uma consulta ou, pior ao hospital para onde o despacham rapidamente. E fica a saber que essa entrevista pode demorar meses quando não demora anos.

Quem tem dinheiro faz um seguro (e o número de segurados privados  já ultrapassa os 20% dos portugueses, devendo a isso acrescer os ainda privilegiados utentes da ADSE (utentes e pagantes pois o Estado não mete um cêntimo nesta instituição embora nomeie os dirigentes...) que sempre que podem se refugiam no hediondo sector privado onde são atendidos a tempo e horas. 

 

Eu, quando soube que tinha uma valente chatice nos olhos, comecei, no privado, claro!, o tratamento em seis dias. Seis dias. Um médico amigo que só trabalha no público disse-me que, com sorte (e alguma cunha) conseguiria ser atendido ao fim de seis meses...Perguntei-lhe se o poderia citar e os leitores calculam a resposta. 

Isto significa que a saúde em Portugal só corre bem para os ricos. Os outros esperam. Esperam e desesperam.

No caso das juntas há quem morra antes o que sempre é dinheiro poupado pelo Estado. Poupança não intencional supõe-se não vá alguém pensar que um deus ex-machina anda por aí a abater gente inútil ao efectivo com o fito de minorar o deficit.

Assim estamos, aqui estamos: em Portugal, o jardim à beira mar plantado, o “torrãozinho de açúcar” citado por Eça. 

estes dias que passam 701

d'oliveira, 05.06.22

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Opinião pública, informação livre e democracia

mcr, 5.622

 

um comentário a despropósito de uma leitora levou-me a tentar recordar o modo como nos anos 60 se viveram várias guerras, a começar pela da Argélia e a terminar na do Vietnam.

Escolhi estes dois casos porque fui testemunha de ambos, já pensava pela minha cabeça e tinha, apesar de tudo (e só o facto de ser português em Portugal já se tornava numa dificuldade para saber como o mundo andava) alguma informação disponível.

No caso da Argélia, que seguia, aliás, o processo de descolonização do restante Magreb era visível no território como na metrópole os choques da opinião pública, a existência de aliados de ambas as partes em conflito, valendo a pena salientar que nem toda a Direita francesa era ferozmente colonialista e adepta da mão dura e nem toda a Esquerda se sentia próxima dos argelinos. Porventura porque estes se dividiam por várias opções partidárias o que, desde logo, fazia surgir entre os partidos metropolitanos as mesmas divergências de sempre. Depois havia um milhão de colonos franceses instalados na Argélia e dentre eles muitos dos que se tinham batido contra a Alemanha e tinham feito parte das tropas coloniais que foram o núcleo dos exércitos franceses no final da guerra.

Havia, ainda, uns milhares de argelinos que se sentiam próximos do colonizador e sobretudo (é bom nota-lo) bem longe dos partidos independentistas mais radicais. Ben Bella que passou como um cometa efémero não reunia todos os consensos nacionais mesmo se fosse ele a comandar a frente mais poderosa e a mais armada, acantonada nas fronteiras da Argélia e sustentada no interior por uma guerrilha que juntava gente de variadas procedências e outras tantas ideologias.

Como de costume, os encarregados da repressão no território faziam tábua rasa dessas diferenças e, de certo modo, contribuíram bastante para a unificação da resistência argelina.

Em França centenas de milhares de trabalhadores argelinos, forçados ou de boa vontade , eram enquadrados por emissários do FNLA, pagavam quotas suficientes para constituírem o maior contribuinte líquido da Resistência armada.  E, facto importante, manifestavam-se vezes sem conta contra a força colonial, pagando com inúmeras mortes  e muitas prisões esse apoio à causa independentista.

Nas zonas de maior concentração de trabalhadores argelinos emigrados e de organizações clandestinas pro-independência, havia alguns milhaes de frandeses metropolitanos que os apoiavam, escondiam os seus dirigentes, e constituíam redes de apoi que muitas vezes se assemelhavam às da antiga “resistência” anti-ocipante alemão. Não foram poucos os militantes descobertos, presos, torturados ou mesmo “desaparecidos” para usar um termo muito em voga.

De resto, a guerra na Argélia foi o factor decisivo do fim da IVª República e do reaparecimento de De Gaulle e do advento da Vª (e actual) República.

De todo o modo, a opiniõ pública francesa dividia-se pela defesa da continuação da colónia ou pela independência desta não só dando voz e voto aos diferentes partidos mas sobretudo apoiando centenas de jornais que dia pós dia se declaravam por um ou outra parte.

A democracia funcionava mesmo se os Governos prosseguissem no não reconhecimento das aspirações independentistas que, aliás, não eram maioritárias mesmo se, ao longo dos anos, os efeitos da guerra, da mobilização de jovens metropolitanos, do insucesso da contra-guerrilha e das atrocidades (cometidas pelas duas partes) fossem cada vez mais claros sinais de que, cedo ou tarde os “ventos da história” fariam da Argélia um país independente.

Mesmo entre os colonos franceses, havia uma minoria pro-independência que inclusive pegou em armas e tomou parte activa na luta (basta relembrar o famoso caso Alleg (Henri Alleg) jornalista, director de um jornal argelino, preso e torturado pelas tropas francesas (sobretudo pelos batalhões libertados da Indochina que, na país, levaram a cabo uma contraguerrilha coroada de sucessos mesmo se votada a uma derrota (política) final.)

 

Este conflito apaixonou as opiniões públicas ocidentais e mesmo nos países onde a Censura velava pela tranquilidade dos espíritos e pela ordem colonial, não era impossível ter notícias quase diárias dos acontecimentos.

Alguma Esquerda portuguesa e anti-colonial teve aí as suas primeiras lições, antes mesmo do despontar da guerra de África. Não vou dizer que se tratava de uma multidão, claro mas é bom recordar que por cá, apesar de tudo, havia quem soubesse o que se passava e tomasse partido.

 

No caso do Vietnam, as coisas mesmo se com origens e desenvolvimentos diferentes, não foram tão diversas como à primeira vista posam parecer. Os EUA “herdaram” de certo modo uma situação deixada pelos franceses derrotados na Indochina. Foram eles quem, ainda no tempo de Kennedy (e da crise cubana, é bom salientar) acabaram por formula uma teoria de “dominós” que chamava a atenção para a necessidade de controlar a expansão do comunismo na Ásia, desde a Coreia ao Vietnam, sem esquecer a difícil situação dos restantes países da Indochina, Tailandia, Cambodja e Laos onde um forte movimento clandestino comunista  (Pathet Lao) estava desde há muito instalado.

A defesa de um regime  pro-ocidental no Sul do Vietnam, controlado por forças diversas apenas unidas na aversão ao comunismo instalado no Norte, foi levada a cabo lentamente pelos americanos que pouco a pouco foram tomando as rédeas de uma guerra de guerrilha fomentada pelo Norte, armada por ste e sobretudo alimentada por contingentes cada vez mais importantes de soldados do Exército  regular norte vietnamita.

As exacções do regime sulista, o desprezo dos seus dirigentes pelo campo e pelos camponeses, apenas suscitaram a antipatia dos habitantes primeiro e a u colaboração com a guerrilha viet-cong depois. Tudo isto atravessado por diferenças religiosas (cristãos do sul contra budistas e é longa a descrição de monges budistas que se imolavam pelo fogo em protesto), políticas e ideológicas de toda a ordem. Da simples existência de ”instrutores” militares americanos  à chegada em massa de tropas regulares  que praticamente substituíam um exército sulista desmoralizado e corrupto, foi um salto que durou um dúzia de anos.

Todavia, dentro dos EUA, nunca houve consenso quanto à guerra, ao esforço militar americano, muito menos ao envio cada vez maior de jovens para as matas da Cochinchina. Desde quase o primeiro dia que, nos campus universitários e nas grandes cidades, houve manifestações anti-guerra, anti-incorporação de jovens nas fileiras, um forte movimento de apoio à deserção  (para o Canadá e para a Europa) e um crescendo de campanhas nos jornais contra a intervenção americana. A campanha anti-guerra foi crescendo, tornando-se muitas vezes violenta mas na verdade o que mais impressiona é o papel dos media (jornais e televisãoo) na denúncia da guerra que todos os dias chegava às salas de estar dos americanos precedida de comentários duríssimos e críticos de alguns dos mais famosos jornalistas americanos. Nada foi poupado aos espectadores americanos, a começar pelo massacre de My-Lai e a acabar na corrida medonha de uma criança queimada pelo napalm. Os bombardeamentos do norte, com comentários de jornalistas e intelectuais americanos que propositadamente lá foram, as entrevistas com personalidades da oposição no Sul e com alguns dos principais governantes do Norte foram constantes nos meios de comunicação americanos. A guerra foi ganha nas casas americanas, à hora dos noticiários pelas televisões.

As próprias tropas no terreno filmadas constantemente não poupavam comentários e acusações contra a condução da guerra e era normal ver nos capacetes dos marines emblemas pacifistas. Há mesmo casos, conhecidos e comentados de oficiais executados pelos seus subordinados.

Em boa verdade, a simples comparação de baixas demonstra a situação no terreno. As guerrilhas e o exército norte coreano nunca controlaram territórios suficientes e pagaram com dezenas e centenas de milhares de baixas algumas das suas actuações mais extraordinárias e violentas. Todavia, politicamente, a intervenção americana tinha, desde há muito, os seus dias contados. O regime de Saigão estava destroçado por dentro, sem apoiantes mesmo se a guerrilha não conseguia de per si vencer.

A América perdia cinquenta mil mortos, o Vietnam do Norte, um milhão de soldados, e no Sul as baixas também foram em grande número.

Ao contrário da Coreia, não havia uma clara oposição ao regime do Norte  mesmo se, hoje, seja duvidoso que o país, depois de muitas e trágicas peripécias e m especial a crise dos boat people cujo número andará pelo milhão.

É duvidoso que a herança da vitóri do Norte se traduza ainda num Vietnam comunista ou algo semelhante mesmo se ninguém possa acoimar o actual regime de liberal. Ho Ci Minh é uma memória antiga e o nome actual de Saigão mas longe vão os tempos da “epopeia” comunista por ele protagonizada.

De tudo o que vem de ser dito, penas relevo um facto: o actual conflito na Ucrânia não tem nada que se paça com os dois que refiro. Na Rússia não há ou não cabem jornalistas ocidentais, não há opinião pública vagamente esclarecida, não há jornais independentes, muito menos qualquer crítica às opções belicistas do invasor. É proibido sob pena de multa e prisão falar em “guerra”,  está prevista um pena de prisão até 15 anos para os transgressores e manifestantes que contrariem a verdade oficial. E, pelos vistos, nem sequer é facilitado o repatriamento dos corpos de centenas de soldados que tem por único e temporário cemitério uns vagões frigoríficos ferroviários. Toda e qualquer comparação deste com os dois outros conflitos é pornográfica, insultuosa e, sobretudo, mentirosa.    

 

 

 

 

 

 

estes dias que passam 670

d'oliveira, 03.06.22

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Instalando-nos na guerra

...e na indiferença

mcr, 3-6-22

 

 

Há cem dias que as hordas russas invasoras se cevam na Ucrânia com o aplauso dos amigos de Putin e dos amigos russos do autocrata. Refiro-me não só aos numerosos grupos nacionalistas extremistas que por lá se foram aclimatando mas, sobretudo, ao triste partido comunista russo, uma excrescência de outras eras, que sobrevive graças à boa vontade do todo poderoso ex-pide soviético que quando precisa o açula para ladrar tudo o que o sr Lavrov manda mas não pode dizer (mesmo se este cavalheiro diga muito, porventura demais...)

Reste resquício de tempos medonhos ainda há pouco se distinguiu expulsando dos seus magros quadros quatro deputados municipais ou regionais que no seu longínquo  parlamento questionaram a guerra. Expulsos sem processo (para quê, sabendo nós desde os anos trinta como funcionam os processos internos), humilhados, correndo o risco de serem presos (se é qie já o não estão) por traição à pátria.

A guerra arrasta-se e e algo há de surpreendente é a resistência dos invadidos mesmo se aqui e ali, a esmagadora superioridade em soldados e armamento (misseis, aviação, artilharia) tenha até à data permitido a ocupação de territórios no leste e no sul até à Crimeia.

As boas almas, leia-se os “filhos de Putin” insistem numa solução negociada como se a Rússia, alguma vez tivesse mostrado vontade de negociar o que quer que seja. Ds raras vezes em que os negociadores das duas partes se encontraram, os combates mantiveram-se (e seria bom nõ confundir os de agressão com os de simples defesa), s exigências repetiram-se e a eventual solução  para uma eventual (e não fiável negociação) passaram sempre pela “libertação de territórios”, pela desnazificação do regime ucraniano, pelo reconhecimento da soberania  de alegadas e auto-proclamadas “repúblicas populares” (Lugansk, Donetzk, Kersten e, em surdina pela ocupaçõ de todo o litoral e interior oeste até à Transnistria, outra invenção russa desta feita contra a pequena Moldávia  que não sabe a que santo se votar.

Nos meios de comunicação (???) russos, aparecem outras, e mais agressivas, vozes que recordam o império dos czares, a união soviética como se a história desta, sobretudo até meados dos anos 20 do século passado fosse um primor de desejo de união e unidade e unificaçãoo.

Como se sabe, não foi,  a URSS navegou de experiência em experiência, desse o comunismo de guerra, às diferentes guerras civis (vermelhos, brancos e “verdes”, desde o desastre económico e alimentar dos primeiros anos, à NEP, desde a instauração leninista da “aliança operário camponesa” até ao controlo absoluto de Stalin operado desde o XI congresso  do PC(b) depois PCUS, até ao extermínio de centenas de milhares de membros do partido, o que significou, entre outas coisas, o desaparecimento da quase totalidade dos companheiros de Lenin, dos mencheviques e de uma boa dúzia de comités centrais do partido. Tudo eliminado, alguns raros enviados para o primeiro gulag onde, aliás, desapareceram, numa orgia de sangue e repressão que nunca parou. Nem a morte de Stalin e o período de ajustes de contas que se lhe seguiu até ao famoso “relatório secreto ao XX congresso” , nem a eliminação meramente política (vá lá) de Krutchev (que se estreara no poder mandando liquidar Beria e outros sinistros personagens e, como ele própio,  vassalos de Stalin), nem as posteriores e cada vez mais anquilosadas direcções do PCUS e da URSS que, finalmente, implodiram nos anos 80 do século passado, deixando um rasto de pobreza e repressão do bloco de leste, agravado pela derrota no Afeganistão.

O legado da URSS mostra-se bem no actual estado da Rússia e na política que os seus líderes levam a cabo.

Quando se ouve falar nas políticas ocidentais (que, ao contrário do que se diz, não são assim tão semelhantes nem tão convergentes  - e daí a raiz de vários problemas actuais de que a Europa enferma) de contenção da Rússia parece esquecer-se que, como actor global, há muito que doi suplantada pela China. Não vou ao ponto de dizer que o que se passa é o estertor de um enorme país minado por gigantescas assimetrias e controlado, cada vez mais, por grupos capitalistas que convivem alegremente com os piores nacionalismos  e com radicalismos de toda a ordem.

Estes cem dias são exemplares, também, na demonstração de algo que se adivinhava desde o Afeganistão e com consequências bem semelhantes: um gigante com pés e barro mas dentes atómicos. Uma administração  corrupta que nem sequer poupou o exército. As rações de combate com anos de existência, a barafunda da intendência, a incapacidade em perceber minimamente o adversário, a pouca fiabilidade nos serviços de informações transformaram um passeio militar de uma duas semanas nisto que se vê: uma tropa desmotivada, que avança lentamente, registando fortes perdas e ganhando terreno à custa de armas de longo alcance. Se os famosos e prometidos armamentos chegarem à Ucrânia (e deveriam ter chegado logo que os serviços secretos ocidentais concluíram pela inevitabilidade da invasão e não agora). Esta guerra que de um lado esconde o nome e os métodos está para durar e sem garantias de vitória.

Ficará um país arrasado mas as vitórias pírricas, sabemo-lo desde o os romanos, são derrotas a longo prazo.

Pra já, a Rússia conseguiu o impossível: engrandeceu o número de países que querem ºpertencer à NATO, mobilizou varias das ex-colónias do “pacto e Varsóvia”, fez a europa começar a pensar numa defesa autónoma e criou condições para uma independência energética que significará uma perda de mercado importante para a Rússia.

É por isso que certas angélicas criaturas se apressam a clamar por negociações sem condições, como se invadido e invasor fossem uma e a mesma coisa. Não o são e, com estes três meses de ocupação selvagem e sem critério, sê-lo-ão cada vez menos.

A ideia de uma Ucrânia independente (que aliás se impôs  a Lenin e aos teóricos da fundação de uma federação de países “socialistas” -não vale a pena enfatizar o adjectivo “soviético” porque os sovietes foram liquidados ainda antes dos anos vinte) deixaram de existir autonomamente e tornaram-se meras correias de transmissão de cima para baixo. O caso mais flagrante foi o de Leningrado que, de resto desapareceu duas vezes: com a ascensão de Kirov  primeiro e com o seu assassínio depois.)

Não foi por acaso que este país foi vítima de uma gigantesca campanha de extermínio pela fome  (holospodor) e apareceu sempre como uma nação quase independente, sobretudo a partir da sua inclusão – com a Bielorrúsia- na ONU, logo no final da guerra.A Ucrania foi palco de sucessivas tradições irredentistas, incluindo dormas larvares de um suseitoso nacionalismo que inclusive viu, por breves momentos, no invasor alemão um aliado. A inépcia alemã, a teoria dos eslavos sub-humanos deu origem à resistência ucraniana e prova-se pela percentagem gigantesca de mortos na guerra (um terço do total das vítimas e quase quarenta por cento das baixas militares)

O passeio sonhado por Putin de dez dias numa Ucrania que receberia com flores e vivas os cerca de 200.000 invasores já leva cem dias, milhares de mortos (mais do que em toda a campanha do Afeganistão que durou quase dez anos...) e sobretudo mostrou as misérias e dificuldades de um Exército poderosamente armado mas mal enquadrado, mal chefiado e desmoralizado.

Isto não significa que a vitória está ao alcance dos invadidos mas tão pouco garante que os invasores, tenham ganho de causa. Seria bom que os “russistas” meditassem nisto.

*na vinheta armamento russo destruído.

** quem se interessar poderá ler com proveito dois livros da colecção "que sais je?" da autoria de 

Nicolas Werth (Histoire de l'Union Sovietique de Lenine a Staline -1915.1953 e "Histoire de lúnion Sovietique de Krourstchev a Gorbatchov". 

 

 

 

 

estes dias que passam 699

d'oliveira, 01.06.22

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O chumbo do juiz

mcr, 1-6-22

 

 

Pela primeira vez, um juiz foi chumbado numa votação para o preenchimento de uma vaga do Tribunal constitucional

Pelos vistos o reprovado é de “Direita”, escreveu há trinta anos um artigo contra o aborto e terá advogado um par de restrições ao “direito a informar nomeadamente quando há quebra do segredo de justiça.

Eu não li o artigo do aborto, nem o irei ler. Literatura jurídica com trinta anos nada me diz. Nem sequer me garante que o autor tenha ainda exactamente o mesmo pensamento.

Se nos fiássemos no que a esmagadora maioria dos nossos políticos e juízes  disseram há trinta anos, isto seria uma surpresa de todo o tamanho. E incluo aqui alguns cavalheiros muito progressistas que também, e há muito tempo, temperaram o seu vinho com doses elevadas de água.

Nem vale a pena apontar nomes...

No que toca ao segredo de justiça, não ouvi o suficiente na famosa sessão com os deputados.

Julgo, contudo, que a haver “segredo de justiça”, a sua violação mereceria severa punição. Vai nisso a subentendida corrupção que grassa nos mais insuspeitos lugares onde se investiga um crime.

Punir o jornalista que obtém de forma imoral e ilegal notícias sobre o avanço do processo não é um ataque à liberdade de informar mas sim uma defesa dos direitos do arguido.

Já assistimos a demasiados julgamentos na praça pública e já verificamos que há fugas de informação cuidadosamente orquestradas por arguidos, ou seus advogados, por “assistentes” constituídos expressamente para poder sabotar o processo, por elementos das policias ou do MP (coisa de que as defesas repetidamente se queixam), enfim por toda a gente.

E tudo isso ocorre sem que, mais tarde, se veja um processo conta todos quantos subverteram o princípio do segredo de justiça.

Curiosamente (ou não) foi esta a primeira vez em que com extraordinária antecedência se conheceu o nome de um candidato à cooptação.

Agora, devido (ou não) à pressão mediática, aos habituais protestos, o candidato não obteve todos os votos necessários.

Nem sempre concordo com o TC, muito menos sou um admirador de boa parte dos seus juízes. Ainda ultimamente, discordei da solução do problema dos metadados e continuo a pensar que os senhores juízes não terão percebido excatamente que a sua acirrada defesa de certos direitos individuais abre caminho à mais desregrada ofensa de direitos de todos. E julgo que a solução portuguesa corre ao arrepio da generalidade das soluções adoptadas na Europa.

Eu creio que um juiz pode ser conservador ou progressista e isso não afectar a honradez e bom senso das suas decisões.

É verdade que já vi decisões judiciais (e nem sequer preciso de chamar a terreiro o sr juiz Ivo Rosa) que depois são esmagadas pelos tribunais superiores, pelo Tribunal europeu ou simplesmente repudiadas pelas pessoas. Todavia, isso é a excepção e não a regra.

Duvido que ao TC vá chegar uma resma de processos sobre o aborto e, mesmo que isso ocorresse, duvido que as convicções de um juiz entre treze obtivessem vencimento.

De todo o modo, tudo isto me cheira a questão importada do que se passa nos Estasos Unidos onde o Supremo Tribunal poderá vir a pronunciar-se sobre o direito ao aborto. Todos sabemos que basta nos EUA  abrir-se uma discussão sobre certos temas fracturantes ou não, e logo cá uma alvoroçada e mal informada multidão que se acha muito ao par do mundo vem para a praça pública cacarejar sobre o tema.

Aconteceu isso com o assédio sexual, depois com o racismo policial, agora temos o aborto que cá parece questão mais que pacífica. Escapámos ao armamento dos cidadãos porque cá até para usar uma pistola de alarme é o cabo dos trabalhos.

Sem a discussão do aborto na sociedade americana duvido que por cá se mobilizasse tanta gente neste ponto do juiz candidato.

Convém esclarecer que desconheço a criatura, que nada me leva a simpatizar ou antipatizar com ela e que duvido de que as convicções pessoais de alguém que está farto de exercer cargos importantes nos meios judiciais sem queixas que se conheçam fosse agora levantar uma cruzada purificadora no TC.

E ocorre-me que, doravante, a cooptação vai ser uma batalha cerrada e longa e perturbadora para o bom nome da instituição e para o seu funcionamento.

Cá estaremos para verificar se tenho ou não razão...

 

estes dias que passam 697

d'oliveira, 29.05.22

Uma “girl” dispensável 

mcr, 28-5-22

 

 

Provavelmente já ninguém se lembra  dos muitos escândalos com vacinas. É natural: foram tantos e tão diversos que só quem não quer pensar em mais nada é que se aferra a este género de faits-divers que tornam a pátria mais ditosa e empolgante. 

Todavia, ontem, o Ministério Público arquivou um desses casos, provavelmente o que mais gente envolveu:  em Setúbal, o Centro Distrital de Segurança Social resolveu numa só vez, e à frente de milhões de pessoas, vacinar o pessoal. 131 criaturas com a directora à cabeça. 

A coisa deu brado, as “autoridades” rosnaram, a senhora pediu a demissão  (aliás exigida) e o mundo pareceu acalmar-se. Entretanto, o MP foi chamado e eis que ontem sai o resultado da devassa: afinal, a criatura dirigente obedecera a instrucções precisas vindas do Instituto da Segurança Social, uma coisa que acolhe protegidos do regime e que teria por fim dirigir a grande trapalhada da Segurança Social. Este instituto tornou-se, há muito, conhecido por ser um alfobre de boys and girls do partido no poder. Da bondade das administrações não consta nada em abono enem em desabono. Aquilo está lá para dar uns tostõezinhos a ganhar a uns militantes médios mas obedientes  que tem por missão controlar os aparelhos distritais onde outros militantes médios, menos médios e médios baixos se vão governando . 

Portanto a vacinação decorreu, garante o M, sob as ordens de estruturas dirigentes dos Ministérios da Segurança Social e da Saúde. 

A criatura escovada não fez mais do que obedecer a uma ordem “dada por engano”!!!

Agora, nem os ministérios em causa, nem o famoso e inútil  instituto tiveram o cuidado de dizer duas a abater. Nad, raspas de nada!

Mais, sabe-se que para a “escovadela” da antiga responsável setubalense houve unanimidade incluindo o voto da pessoa que dera a ordem errada e fatal. Vê-se que estas criaturas estão à altura dos cargos que ocupam e que sentem o peso da “gravitas” e da responsabilidade... 

A televisão mostrou a defenestrada mas foi parca em informar qual o posterior destino desta e, sobretudo, o que ela poderia agora comentar. 

 

 Provavelmente,exerce os seus talentos, noutrocargo de confiança pois mostrou ser capaz de aguentar em silêncio asburrices dos outros. 

Honra ao mérito!

 

 

 

estes dias que passam 698

d'oliveira, 29.05.22

Encontro/desencontro

mcr, 29-5-22

 

Na bicha do supermercado, uma senhora que estava à minha frente, desculpou-se pela demora que estava a causar. “E que sou velha”, disse-me. “-Não tanto como eu” retorqui do alto dos meus oitentinhas. 

A senhora insistiu que era mais velha e, na verdade, levava-me seis meses a mais. 

E depois, desta troca de galhardetes entre dois veteranos do longínquo ano de 41, informou-me que me ouvira falar da Figueira e que ela, pasme-se vivera lá até aos 13 anos. Alvoroçado tentei puxar por conhecimentos comuns já que ambos seguramente andáramos no pequeno liceu  na mesmíssima altura mas aí emperrou. Ainda lhe atirei uns nomes de raparigas (as mulheres são mais durázias, duram mais tempo ou é isso que consta)  do meu tempo mas ela não tugiu nem mugiu. 

Fiquei desgostoso pois não é todos os dias que encontramos alguém quase da nossa criação. E sobretudo quando, como sobreviventes que somos, rareiam os macróbios da nossa geração. 

É a primeira vez que uso a palavra macróbio aplicada a mim mesmo mas, alguma vez teria de ser. 

Isto de perguntar por conhecidos é pau de dois bicos. Há muitos anos que evito essa pergunta fatal sobretudo referida a maridos ou mulheres da pessoa com que me cruzo. 

Aquilo desata uma história comprida onde abundam conflitos, divórcios, queixas enfim um desastre medonho. 

Agora, são os óbitos. Quando se chega à idade das vítimas preferidas do covid, é só nomes a abater, 

E quando, por milagre as criaturas ainda se passeiam por este vale de lágrimas, a realidade também não é cor de rosa. A velhice (que segundo a minha sábia mãe,  é uma doença...), os achaques da mesma, as doenças que antes  espreitavam à espera de uma oportunidade, todas ou várias misérias humanas surdem à superfície. 

Depois, há os lampeiros que se armam em carapaus de corrida e se mostram na sua mais que duvidosa glória, afirmando sentirem-se jovens (prova que já o não são, de todo em todo) que troçam ou fingem ignorar o pouco de razoável que a idade traz na ansia de se mostrarem “modernos”, modernaços, enfim meras caricaturas do que foram ou nem isso. 

Aliás, já não há velhos, mas seniores, veteranos, idosos, alunos da universidade da terceira idade, enfim uma panóplia de adjectivos do pensamento correcto e corrigido que, normalmente, é apenas anti-pensamento. 

Esta ocultação da velhice serve propósitos indignos e normalmente traduz-se no desprezo dos velhos, no abandono deles, na criação de barreiras cada vez mais invisíveis mas mais fortes contra eles.  

Ah, este país (e quase todos os outros) não é para velhos