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Incursões

Instância de Retemperação.

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27
Dez18

estes dias que passam 381

d'oliveira

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E agora o Joaquim Antero Romero de Magalhães?

mcr 27-12-2018

Alguém chamado Bruno Paixão chega de supetão à minha caixa de correio a agradecer um texto do Rui Namorado sobre o Joaquim Magalhães. O Inverno e os seus frios não trazem só a petisqueira nacional, os fumados que se hão de comer com uma roda de bons e velhos amigos, acompanhados pelo vinho novo e um bom fogo na lareira. O Inverno traz sempre más novidades que aos velhos leva-os o frio, as noites longas e pesadas, esta entranhada humidade (hoje, aqui, está a 100% se a meteorologia do telemóvel da CG não mente) e a muitos, a solidão.

Não era esse o caso do Antero Romero (a malta gostava de se meter com o nome do Magalhães) que nos últimos anos quando aqui aparecia (aliás, aparecia na esplanada) vinha sempre escoltado por vários antigos alunos dos quais apenas conheço o Luís Miguel Duarte, professor também de História na Faculdade de Letras da UP.

E era bom e reconfortante, para mim pelo menos, ver o velho professor rodeado por alunos gratos que o não esqueciam e, via-se a olho nu, o admiravam. Poucos se podem gabar de ir vida fora, com tão invejável companhia.

Lá nos abraçávamos como se deve a dois cavalheiros da mesma idade que se conheceram em Coimbra no longínquo ano de 1960 e enfrentaram sem se fazerem grandes perguntas o cerco odioso do Estado Novo. E que cada um no seu grupo de teatro (ele no TEUC, eu no CITAC) rivalizavam amavelmente unidos pelo mesmo amor à palavra sobre as tábuas numa noite escura e frente a uma plateia atenta, exigente e calorosa.

O Joaquim foi depois da greve de 1962 e consequente derrube da direcção da AAC (também já não restam muitos) eleito Presidente da Associação Académica. Na época, o governo para maior controlo das AA EE inventou para Coimbra um sistema de representação na Direcção Geral em que dava sempre alguns lugares à lista vencida (a lista deles, dos “fascistas”, dos monárquicos, dos conservadores, dos retintamente tradicionalistas, dos que faziam trupes e chateavam os pobres caloiros). A Direcção Geral legítima ficava com maiores problemas para acudir à gestão de uma grande Associação com dezenas de secções e chamada a intervir em muitos e variados capítulos. Isto claro, porque a todos parecia inaceitável distribuir pelouros por elementos vencidos democraticamente sem mandato nem direito para gerir a Academia tanto mais que quase não passavam – se é que passavam – de agentes do governo repressivo. Decorreu daí  a necessidade de criar uma estrutura associativa que estudasse e preparasse soluções para apoiar o dia a dia da Direcção Geral. Nasceu assim a “Comissão de Estudos Associativos” da qual, juntamente com o Zé Barros Moura, o António Lopes Dias, o Zé Tomás Baganha fiz parte.  De longe, mas não muito, o Eurico Figueiredo e o Manel Alegre, tutelavam este grupo de rapazolas ainda novos e com (demasiado) sangue na guelra.

(Acho que cumprimos decentemente a nossa função de “pessoal de gabinete” sombra onde, valha a verdade também nos divertimos. Como curiosidade, o apodo de “inteligente” (Barros Moura) foi inventado pelo Dias já citado (Didi) que pôs alcunhas aos restantes das quais só vingou a do Baganha (“abastado”). Quando leio nebulosas interpretações sobre o IBM não posso deixar de me rir à socapa.)

O Magalhães cumpriu decentemente a sua difícil tarefa mesmo se, na altura, lhe exprobássemos a notória prudência com que agia. Mais tarde, verifiquei quanta razão ele tinha e quanta habilidade teve de usar para manter a AAC a salvo. E, de facto, no ano seguinte, direcção de Octávio Ribeiro da Cunha, a coisa voltou a estoirar e a Associação esteve três longos anos sob o regime de “comissão administrativa”. Até 1968, para ser mais preciso.

O Joaquim Antero enveredou pela carreira académica depois de um curso notável e da publicação de uma tese de grande qualidade que viria a dar origem ao “Algarve económico, 1600-1733” que ainda hoje se lê com largo proveito. Depois foi a carreira que se sabe, comissão dos descobrimentos, deputado e tudo mais. Mas sempre, antes e por cima disso, havia o professor dedicado, o suscitador de paixões pela História, o intelectual lúcido e o homem culto que morria por livros. Tantas vezes nos encontrámos em alfarrabistas... A começar por aqui mesmo. Depois de uma hora na esplanada lá íamos para  a livraria Esquina em busca de um impossível graal. E dali se saia sempre com livros. O Magalhães e discípulos continuavam o seu dia numa almoçarada que, suponho, os ex-alunos ofereciam ao Mestre.

Morreu hoje, ou ontem, não percebi, bem pelo texto do Rui Namorado, outro desse tempo de vinho e rosas, de chumbo e escuridão. E o Rui deixou um texto recheado de ternura no seu blogue “ograndezoo”, algo que se deve frequentar amiúde pois o Rui não deixa nariz de cera por derreter nem tolice de pé. que nunca lhe faltem forças nem vontade!

À Luísa e aos filhos (“a minha progénie”, dizia o maroto do Antero Romero, como é que com um nome destes se tem humor é mistério gozoso mas grande) um beijo muito sentido e abraços a todos.