Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 761

d'oliveira, 05.12.22

A propriedade privada é um roubo?

mcr, 5-12-22

 

Este título remete obliquamente para Proudhon mesmo que esse ilustre pai fundador do socialismo, miseravelmente atacado por muitos dos predecessores,  não tenha nada a ver com a crónica. 

Todavia, já que um punhado de luminárias afectados pela “doença infantil” (e  aqui dou boleia a V I Ulianov ) tem, nos últimos tempos, lacrimejado pela sorte dos cidadãos que enfrentam os duríssimos problemas da subida das taxas de juro nos empréstimos para aquisição de casa. 

E é verdade que a situação de muitas pessoas piorou dramaticamente e, mesmo que o ritmo da inflação se inverta não está para breve um alívio dos juros. Todavia, não só se ouve esta seita clamar contra a alta de juros como logo de seguida, e em contraponto, se queixam da falta de casas para alugar .

É bom lembrar que estas mesmas criaturas esbracejaram contra o aumento dos alugueres e conseguiram que o Governo o limitasse. 

Convenhamos: alguém acha que com essa imposição de preços é suscitada uma oferta crescente de casas para alugar?

Há nesta prodigiosa terra a ideia de que os senhorios essas “hienas lúbricas” devem substituir a Segurança Social e o Estado. A coisa começou há mais de 100 anos e não parou nunca. Anos a fio as rendas andaram congeladas. Resultado, os prédios degradaram-se a olhos vistos. E, queira-se ou não, os senhorios, sobretudo os mais modestos (que eram a maioria) empobreceram e, na generalidade, o mercado do arrendamento, foi-se estiolando. A tal ponto que, quando se tentou inverter a situação, para além do protesto da Associação dos Inquilinos, outra identidade de contornos duvidosos, as coisas não mudaram pelo menos no património construído e envelhecido. 

Digamo-lo, de uma vez por todas: o mercado do arrendamento urbano está em vias de desaparecimento- como investimento deixou de ser interessante e há, cada vez mais, uma fortíssima pressão para a compra de casa própria.

Na minha família, ainda temos casas arrendadas apenas porque a minha Mãe, senhora de mais de cem anos ainda acredita no valor da pedra. E, de cada vez que um apartamento fica livre, para o voltar a arrendar gastamos dezenas de milhares de euros( a previsão para um que ficou livre é de 38.000 euros mas teme-se que com os aumentos generalizados de preços a coisa suba e não pouco) Na verdade se o vendêssemos tal como está conseguiríamos não só poupar essa verba mas obter uma quantia pelo menos dez vezes superior... ). É verdade que a maioria dos nossos inquilinos habita as casas há dezenas de anos e nem sempre as mantém em condições. Pela nossa parte, os prédios (dois) estão de cara lavada e com as partes comuns restauradas, o que incluiu os elevadores. 

Portanto, e para abreviar, os inimigos da propriedade predial estão num dilema: ou defendem  uma política de preços irrealista para a aquisição ode imóveis e respectiva obtenção de empréstimos ou propõem uma política de ajuda ao arrendamento que afugenta senhorios que se creem vítimas de um quase confisco. 

Há ainda um outro mito sobre esta questão: e esse é o de que a política governamental de vistos gold destruiu o mercado ou tornou rarefeita a oferta. Ora o que se verifica é que os famosos vistos gold (e nem sequer vou dizer que muitas vezes a coisa cheira a lavagem de dinheiro) não são por aquisições de apartamentos T2 ou T3 para a classe média. Nem a grande maioria dos empreiteiros se atreve., ou tem dinheiro ou possibilidades de crédito, para se atirar às grandes construções de luxo que. Essas sim, são o alvo de toda a espécie de investidores. Trata-se de uma pequena fatis do mercado mesmo se pelas somas envolvidas se possa considerar diferentemente Os portugueses já se sentiriam muito felizes de lhes parecessem casas novas e de boa qualidade a partir dos 400.000 euros. E dentro da cidade! 

Ainda há dias se noticiou que do Porto e de Lisboa saíram nos últimos anos mais de 70.000 habitantes. E pelos vistos, além de idosos, corridos miseravelmente de zonas centrais e degradadas das cidades, tratar-se-ia de jovens que não conseguem encontrar um alojamento a preços acessíveis.  

Claro que, no caso dos habituais sectores radicais, a solução seria simples: instaurar um sistema de confisco de casas, proibir o arrendamento, acabar com os capitalistas da construção e voltar aos edénicos tempos da União Soviética e dos apartamentos divididos por várias famílias.  Parece que há saudosos desses anos heroicos.

Ao olhar para essa nova geração de revolucionários puros e duros, verifico que na sua esmagadora maioria, nunca tiveram tempo por não serem nascidos para visitar os deferentes paraísos socialistas europeus  que se arrastaram dificilmente até aos anos oitenta.  

Quem, como eu teve a oportunidade de conhecer alguns países ditos de leste e teve nesses locais amigos e colegas, pode verificar quão  concentracionário, pobre e triste era esse   triunfo  civilizacional que, como se sabe, basta ver o que se passa no antigo mundo socialista, não deixou saudosos bem pelo contrário. 

 

 

estes dias que passam 760

d'oliveira, 01.12.22

cina.jpg

“La Cina è vicina”

mcr, 1-12-22

 

Os leitores (e as leitoras) desculparão o título em italiano mas usei-o sobretudo pela sonoridade. Em português (onde o filme chegou com uma dúzia de anos de atraso!!! E já depois do 25 A) a coisa dá assim: “A China está próxima”, o que, de todo não rima.

Em boa verdade quer nos anos 60 quer hoje, A china nunca esteve próxima, seja de que maneira for. E duvido que, nos próximos tempos, tal milagre ocorra. 

Todavia, para da lá espessa cortina de bambu que esconde a realidade chinesa, algo parece estar a acontecer. Nada de gigantesco, nada de esperançoso, mas apenas um ténue sopro de liberdade e de protesto que, miraculosamente vem dos cidadãos comuns, dos operários das fábricas e, por arrasto (e por hábito antigo) se propagou aos estudantes e à juventude. 

O motivo próximo será a férrea campanha “covid zero” que lembra, na sua insolente concepção e, provavelmente, nos pobres resultados obtidos o que aconteceu com as campanhas duríssimas dos tempos maoístas desde “o grande salto em frente” às “mil flores”.

Não irei ao ponto de afirmar que, também, esta vez haverá fomes medonhas, gigantescas e trágicas mas, seguramente, a liberdade inexistente sofrerá. 

Que ao Ocidente cheguem e em grande quantidade imagens, pequenos vídeos, fotografias de cidadãos espancados, de pessoas com papéis brancos ao alto, diz muito do prodigioso salto que a China viveu mesmo que à culto de sacrifícios enormes e de liberdades coartadas. 

Agora já se não pode esconder tudo, varrer tudo para baixo do tapete como, aliás, ocorre com a perseguição desenfreada às minorias religiosas e étnicas.

Beste aspecto a China que não é vizinha acaba por o ser. Como também o foi nos breves minutos de Tien An Men, afogados em sangue, execuções e prisões. Ou, mais proximamente, em Hong Kong onde reinará a tranquilidade dos cemitérios e das condenações à prisão. A tecnologia vence os “defensores” da ordem a todo o custo e não espanta que no meio dos protestos contra a política covid zero se oiçam, e ada vez mais perceptíveis, os gritos contra Xi Jiping, o actual pai do novo pensamento supremo, uma espécie de sucessor do grande educador das massas Mao Zedong. 

Já não me lembro do que pensei quando vi, em Paris, “La Cina è vicina”. Não sei se me apercebi do imenso logro que espreitava todos quantos esperávamos da China uma renovaçãoo da esperança num mundo melhor já que ninguém se atrevia ainda  pensar num mundo diferente. 

Os aos passaram e todas as promessas que idealizaráramos estavam naufragadas na imensa decepção da “grande revolução cultural e proletária” que de grande (de gigantesco, de inconcebível) só tinha o nume de mortos e a mais brutal regressão ética e civilizacional do processo revolucionário. Centenas, milhares dos mais respeitados revolucionários chineses foram arrastados pela horda infantil atirada para a frente por um grupo que mais tarde obviamente também acabou por seria aniquilado, incluindo Lin Biao o “mais próximo companheiro”  do presidente Mao que virá a desaparecer com a família mais próxima quando o avião em que fugia caiu iu mais presumivelmente foi abatido. Já morto ainda passou pelo vexame, rancoroso e cobarde, de ser expulso do Partido e condenado por  traidor!!!

Cinquenta anos depois continuamos a assistir a purgas mais discretas (ou menos ferozes ainda que ostensivas como a última retirada de um ex-presidente da sessão (aberta !!!) do Congresso que reafirmou o poder absoluto de Xi Jiping) mas igualmente reveladoras da via chinesa pra o comunismo...

Marx está cada vez mais longe e mais desnaturado sem que sequer por isso haja uma ressurreição dos velhos ideais do Celeste Império, agora império apenas mas mais poderoso. 

E a questão renova estará ou não a China vizinha? 

*na vinheta: fotograma do filme que dá nome ao folhetim de hoje 

 

estes dias que passam 759

d'oliveira, 25.11.22

Até a Roménia! 

mcr, 25-11-22

 

A notícia é fresquíssima e desagradável. A Roménia ultrapassou (ou ultrapassará já no próximo ano) Portugal no que toca ao PIB per capita. Lembremos que ainda há uma dúzia de anos a Roménia era o país mais pobre da Europa!...

Como anda toda a gente atarefadíssima  com o apoio à selecção é provável que esta triste novidade caia em saco roto. À uma porque é uma chatice das fordas. Depois porque o Sr. Presidente e as restantes altas figuras do Estado andam tão embevecidos com o apoio à Selecção que nem saibam o que se vai passando neste baixo mundo da economia .

E se, acaso, se lembrarem disto , logo retorquirão que a culpa é do Passos Coelho! Ou da troika! Ou da pandemia. Ou do diabo que os carregue...

No pouco sorridente ano de 1971 iniciei-me no Direito Comparado num primeiro ciclo de estudos ocorrido nas instalações magníficas, superlativas, da Gulbenkian que, posteriormente com generosas bolsas me apoiou até fundar tal empreitada. Conheci gente de quase todo o mundo e, entre essa pequena multidão, um romeno, mais velho, juiz, cultíssimo e multilingue, que me ensinou as primeiras anedotas anti-comunistas ou anti-soviéticas o que vinha a dar praticamente no mesmo. Descreveu-me o seu país condenado pela geografia e ocupado pela URSS via um casal de tiranos locais que felizmente morreu às mãos da turba maltratada, empobrecida e irada por alturas da revolução de 1989. Suponho que o Mihail (se é que soletro bem o seu nome) ainda terá podido assistir a esse momento libertador mas, como lhe perdi o endereço, nunca o saberei ao certo. Recordo porém, as nossas conversas sobre Faulkner, uma paixão mútua e sobre a pobreza dos nossos dois países. O Mihail afirmava que, em comparação com a Roménia, Portugal era rico, riquíssimo e, bem mais livre, o que aliás, na altura, me foi difícil de compreender e menos ainda de aceitar. Cinquenta anos depois, eis que a riqueza dos cidadãos romenos que, contudo, emigram supera a dos portugueses que, aliás, também emigram e às carradas...

Todavia, como já disse e previa, a pátria ou o que, por cá, se toma por pátria está extasiada com a vitória sofrida sobre o Ghana. E foi por pura sorte que não se empatou como se sabe. 

E o Sr Presidente lá cumpriu, enfim lá disse duas larachas numa conversa com uns interlocutores que não eram qataris, sobre Direitos Humanos. Por acaso, via CNN portuguesa, tive ocasião de ouvir um comentador português que explicou a quem o quis escutar que, ao lado de várias ONG e de várias organizações internacionais que intervieram no Qatar, a charla portuguesa e presidencial era pouco senão nada. Como, de resto se previa mesmo se o governo local tenha chamado o embaixador português para duas palavrinhas. 

Convém lembrar que Portugal é um dos três países que manda o seu mais alto magistrado ao campeonato. Pior manda igualmente os dois seguintes se é que não se resolvam a borregar na sua espalhafatosa e inútil atitude. A menos que vejamos o dr. Costa com uma braçadeira LGTBQ (como a ministra alemã fez questão de usar) e o Sr. Presidente da AR com uma gravata arco-íris!

De todo o modo, excepto meia dúzia de ranzinzas, o país viu o jogo, rejubilou, amuou, voltou a rejubilar e jura que à próxima vez, “até os comemos” Coném ter alguma cautela pois o Uruguai costuma ser indigesto. 

O que não é de todo digerível é este facto surpreendente de sermos ultrapassados pela Roménia no que toca a PIB per capita.

Parece que agora, só há mais seis países abaixo de nós. E o mais provável é que daqui a dois, três anos sejamos mesmo o último com futebol ou sem ele, aliás quase certamente sem Ronaldo... Ai Jesus, Maria José! O que mais nos irá suceder?...

 

estes dias que passam 758

d'oliveira, 24.11.22

Casas e estrangeiros ricos

mcr, 24-11-22

 

 

Há, só na região de Lisboa, 27.000 casas arrendadas por menos de cem euros! 

Não sei se estão em boas ou más condições de conservação e habitabilidade, mesmo se tenha a quase certeza de que o seu estado não deve ser brilhante. Nenhum senhoria consegue  fazer obras numa casa alugada a este preço. Quanto aos inquilinos, duvida-se que se resignem a reparar o que não lhes pertence. O resultado é a degradação cada vez mais rápida do edificado. 

Também não sei qual é a condição social dos inquilinos mesmo se presuma que, na maioria, serão pessoas idosos e, muito provavelmente, com poucas posses (o que é um eufemismo para significar pobres).  Duvido igualmente que os senhorios em causa sejam ricos. Se o forem não o devem às rendas recebidas. 

Este não é o único problema da habitação em Portugal, nem sequer o mais generalizado, uma vez que o mercado do arrendamento não cobre mais de20/30% do mercado da habitação. 

Agora, por óbvias razões, a questão agudiza-se com a subira das taxas de referência para empréstimos bancários mas o problema vem de longe e tem a ver com as leis que desde há muito regem o arrendamento urbano. As poucas casas para arrendar atingem valores altos, fora do alcance de uma forte maioria dos que querem uma casa alugada. 

Durante décadas as leis do arrendamento urbano prejudicaram severamente os senhorios o que levou à rarefacção do mercado e à súbita e incontrolada subida da tendência para a compra de habitação própria.  Com os resultados que se conhecem e com as angustias que se preveem.

E, como de costume, com o Governo a distorcer o mercado com ocorreu ainda recentemente  com mais uma fixação administrativa de rendas. E, pior, com a ameaça, de estender tal fixação ao mercado e novos arrendamentos. 

Consta que há senhorias que já começaram a retirar casas do mercado. Não tenho quaisquer meios para infirmar ou aceitar esta ideia mas, na verdade, verifica-se uma fuga de casas devolutas para outro género de mercados e fundamentalmente para os alugueres breves. 

De verdadeiro sabe-se apenas que centenas ou milhares de inquilinos vão sendo expulsos do centro para as periferias, cada vez ais longínquas, das grandes cidades. 

Os estudantes, as famílias jovens, desesperam por um quarto a preço decente ou um apartamento que sirva para um casal. Não há! Ou o que aparece é a preços que ou são altos ou, pura e simplesmente, especulativos. 

Com os meus familiares, terminei há dias de me desfazer finalmente (Aleluia! Aleluia!!!) de um prédio numa zona nobre de Lisboa, vendendo a última fracção após a morte de uma inquilina que ia nos seus 102 anos!...  Provavelmente porque não valorizamos devidamente  o apartamento, apareceu um comprador em menos de uma semana. É verdade que o prédio esteve sempre bem cuidado, estimado, nunca regatámos obras que, obviamente, foram sendo cada vez mais caras. Todavia, os restantes condóminos (o processo de venda começou  há anos e foram vários os inquilinos que não hesitaram em comprar os andares onde moravam nem nunca se questionou a necessidade de obras de manutenção julgadas necessárias ou apenas aconselháveis. Houve mesmo uma fracção que foi a leilão entre pretendentes a comprador!.. E já ocorreu – aliás recentemente- vender um apartamento ocupado por um inquilino que já lá se encontrava desde há muito).

Ter inquilinos, mesmo no nosso caso que, em dezenas de anos, apenas tivemos uma razão de queixa, é um risco que, pessoalmente, e logo que possa, deixarei de enfrentar. Não tenho paciência, muito menos idade ou vontade, e não me sinto especialmente vocacionado para substituir-me ao Estado no que toca à sua vertente social de protecção do Direito à Habitação. Muito menos estou para ser alvo de pequenas franjas radicais que veem o capitalismo selvagem, o imperialismo abusador e o fascismo rampante em todo o lado. Recuso-me a ser pião das nicas da iliteracia políca e económica de algumas figurinhas que se pavoneiam na Assembleia da República...

E já que estamos com a mão na massa, gostaria de saber que raio de influência tem os compradores ricos e estrangeiros, amadores de andares de luxo, com o mar em pano de fundo, com a falta ou a carestia de casas nitidamente construídas para classes médias  ou menos que médias, de tamanho reduzido e em bairros de muito menor gabarito? Quem vai por um andar em Alvalade, em Lisboa ou no Bonfim, no Porto  não se prepara para competir com os compradores de casas na primeira linha de mar do Estoril ou da Foz do Douro. Não é que não quisesse mas este género de comprado não vai atrás do luxo, mas apenas pretende um sítio que não seja um buraco para viver. Provavelmente, nem teria dinheiro para pagar o condomínio de luxo, a segurança 24 horas os porteiros de noite e dia e tudo o resto que, por arrasto, é pressuposto nas moradias de luxo. 

Usar o tema como arma de arremesso político é, além de uma burrice, um insulto à inteligência das pessoas.

Pessoalmente, sou absolutamente contrário à venda fisfarçada de passaportes ou de direitos de passagem por Schengen graças à compra de um pequeno palácio.Quem se diz pronto a investir em Portugal que o faça em investimento industrial ou desserviços e, deverá sempre ser verificado se o dinheiro é de fonte limpa. E o capital de muito investimento chinês, russo ou brasileiro tresanda! Isto, esta venda de benefícios é tão imoral quanto a entrega de mão beijada de passaportes portugueses a gente que, arguindo de um antepassado sefardita de á cinco séculos, alardeia um infinito amor a Portugal ou, sobretudo, a cidadania europeia. Não sabem nem pretendem estabelecer-se em Portugal, não falam a nossa língua, ignoram totalmente os nossos costumes e cultura mas, depois de um extravagante manipulação de dados biográficos, feita por gente que para o efeito, apenas tem a chancela de um duvidoso contacto com autoridades religiosas e o aval preguiçoso e criminoso do Estado que delega funções que só a ele cabem, fabrica portugueses a todo o vapor.  

Identicamente, no capítulo problemas da habitação aponta-se o tiro para todos os alvos excepto para o real que é a ausência de uma política que funcione, a incapacidade de proteger os inquilinos frágeis e idosos com uma medida tão simples quanto barata de, investigado cada caso, lhes conceder o subsídio de renda adequado até que, num futuro que nunca será imediato, criar uma rede pública de oferta de casas com rendas económicas e viáveis. 

Tudo o resto é fantasia. 

 

 

estes dias que passam 757

d'oliveira, 13.11.22

 

 

 

 

 

 

Unknown.jpeg

“A história repete-se...”

ou “rei morto, rei posto!”

mcr, 13-11-22

 

 

Valerá ainda a pena refletir sobre a vida interna do PCP? Ou será que, à semelhança da Maçonaria, o PC faça parte do nosso quotidiano de mistérios mesmo se o “partido” se anuncie como tendo paredes de vidro. Se são de vidro esse há de ser fumado pois o que os cidadãos vão vendo é apenas a encenação ritual de uma missa cantada e com sermão de pregador de dentro, sempre igual, sempre previsível e sempre exaltando a comunidade interna e protestando contra as trevas exteriores. O “partido” apresenta-se sempre cercado de inimigos tremendos, de conspirações constantes que só a fé imperturbável dos fieis permite vencer ou, pelo menos, resistir a um cerco malévolo e insidioso que quer não só o extermínio dos militantes mas a morte da da democracia, a escravidão dos trabalhadores e do povo (como se os primeiros não fizessem parte do segundo ). 

Vejamos o quadro. Há meia dúzia de dias o público (e os militantes e simpatizantes) souberam que o Secretário Geral Jerónimo de Sousa deixava o cargo e que o seu sucessor, oum desconhecido sr.  Paulo Raimundo, membro do Comité Central, fora indicado para o substituir. Para o efeito convocava-se uma “conferencia nacional onde o “comité (ia a dizer comissão...) central  votaria o seu nome. Isto de votar tem, no caso  em apreço, um significado especial. O CC iria reafirmar solenemente o que já estava decidido!

Pelos vistos, e sempre segunda as parcas informações prestadas, esta movimentação andava a ser discutida há meses! Pelo menos há quatro meses! É obra! Durante quatro meses, cento e vinte dias nada transpirou cá para fora. Isto num país em que o segredo é manteiga em focinho de cão (como eventualmente Jerónimo de sousa poderia dizer). 

A política de segredo, herdada possivelmente dos longos anos de clandestinidade que, todavia, teriam terminado há uns bons 48 anos (tantos quantos os da “longa noite fascista” que, para o PC ainda não se extinguiram totalmente porquanto pelo menos do ponto de vista parlamentar e eleitoral subsistem incólumes todos os males, todas as perversões do fascismo e, sobretudo, do anti-comunismo... ) continua afinal a imperar. 

Não se vai agora voltar à extraordinária biografia proletária do sr. Raimundo. De resto não será a primeira vez que um funcionário do “partido” aparece aureolado com o exercício de profissões humildes. Já a sr.ª coordenadora de CGTP também ele, desde sempre nos quadros internos da central, sem nunca ter visto um patrão a sério, foi distinguida do mesmo modo e apontada como vinda do mesmo universo proletário ou, pelo menos, laboral. 

Assim se salva a famosa “regra de ouro”  outro chavão incontornável do discurso comunista. Como se esperava, o sr. Raimundo foi votado por unanimidade (não vale a pena contar com a sua abstenção) o que terá sido um progresso dado que na reunião que o propôs teria havido um par de abstenções. 

Como se esperava o discurso do recém eleito indica que o PC vai voltar à rua (onde aliás já anda desde que saiu da geringonça). Também era previsível que o amável, simpático e sorridente Jerónimo de sousa fizesse um discurso de despedida em voz forte e tom agressivo mesmo se nisso incluísse (e deque maneira!) o PS que apareceu nas suas palavras de mão dada com o Chega. 

Isto, este rosário de recriminações, veio exactamente do mesmo cavalheiro que numa já longínqua noite eleitoral veio passar a mão pelo pelo de um costa choroso e desanimado afirmando que nem tudo estava perdido, bem pelo contrário e que a sua derrota se transformaria em vitória graças ao meigo abraço do PC. 

Desta feita, Jerónimo que, de resto, nunca foi tido por “renovador” veio relembrar de que farinha é feito e tonitruou um agravamento impetuoso da renovada luta de classes. O PC “passa” à oposição (onde aliás já estava)  e prepara-se para a  “rua”, para as greves para o que for preciso  .Resta saber se tem dentes para tal tarefa mas isso é outro falar. 

O público que assistiu à entronização do seu sucessor (mesmo que se insista sempre no “colectivo”...) vibrou com os discursos e aplaudiu freneticamente durante longos minutos. A diferença para os rituais coreano e chinês tem  dois aspectos. Apesar de tudo as palmas duram mesmo tempo e os comunistas portugueses não usam uniformes nem se vestem todos de igual. Todavia, se tentarmos encontrar pontos de convergência com esses “camaradas” orientais e longínquos basta ouvir as condenações do costume, a exaltação do périplo de sacrifícios, a confiança no futuro de manhãs cantantes e a indiferença pelo mundo real que, queiram eles ou não, os cerca. 

E, já agora, a referência à guerra em que todos eles se escusam de indicar um agressor e um agredido. Pior: tudo indica que no caso Rússia Ucrânia o agressor chama-se NATO, EUA, Europa, Ocidente, o agredido Rússia sendo a Ucrânia cujas tropas acabam de libertar a única capital provincial tomada pelos russos, uma espécie de pião de brega  que não percebe os ventos da história .

De resto, os mesmos ventos que Jerónimo afirma serem os que sopram contra os comunistas e a que estes nunca viram as costas... Não sei se isto é meteorologia ou ideologia mas, no actual momento, a coisa é de somenos. 

(não vamos ao ponto de citar a máxima chinesa “o vento do oriente prevalece perante o do ocidente” pois, como se sabe o parido português nunca alinhou pela “heresia” maoísta. ) 

*na vinheta: Fujin o deus dos ventos japonês Em termos de vento oriental foi o que se arranjou...

 

estes dias que passam 756

d'oliveira, 11.11.22

Os pontos nos iis

mcr, 11-11-22

 

o sr Alves “arreou” e apresentou a inevitável demissão. Isto se a iniciativa partiu dele coisa que não parecia muito plausível mas a política tem mistérios que não sendo gozosos dão, de todo o modo, alguma satisfação aos paisanos.

A propósito da demissão (justificada pelo facto da criatura ter sido constituída arguida num par de processos, logo apareceu uma chusma da sábios a dizer que isto de ser arguido é apenas uma maneira de alguém se poder defender, que nada tem de vexatório ou de verificação de  malas artes.

Só faltou virem dizer que o alegado pedido de demissão era algo de louvável e de “sentido de Estado”. 

É verdade que o estatuto de arguido permite a uma pessoa defender-se. Também não é um atestado de culpa definitivo. 

Porém, a constituição de alguém como arguido não é uma bênção nem um especial sinal de cordialidade do Ministério Público. Uma coisa é o seu significado jurídico e outra é aquilo que chega ao público. Para este anónimo amontoado de gentes que seguem a política um arguido é sempre um culpado. E continuará a sê-lo mesmo se o processo der em nada. 

Haverá sempre quem entenda que a falta de provas é apenas um sinal da fraqueza da instituição que instrui o processo, uma incapacidade, um favor  ou um atestado de burrice aos magistrados.

“Não há fumo sem fogo” é um velho ditado português que se aplica como uma luva que manieta a mão  em vez de a aquecer.

O dito sr Alves bem que contribuiu para essa má impressão, tão atabalhoada e insensata que foi a sua defesa, o seu silêncio, a argumentação posterior . 

Não sai pela porta grande.

 

E já que aqui estamos, bom é lembrar que o Tribunal da Relação chumbou o insensato recurso do MP no caso que envolvia o presidente da Câmara do Porto.

Desde o princípio que toda aquela montagem jurídica cheirava a esturro e parecia mal fundamentada . sobretudo verificava-se que o caso Selminho não redundara em qualquer benefício da família Moreira ou do autarca. Que o público não acreditava na culpa do acusado  prova-se pelo simples facto de ele ter sido reeleito por forte margem de votos a raiar a maioria absoluta. A primeira instância já deitara abaixo a argumentação do MP com uma sentença devastadora. Inconformado o  MP recorreu e agora a Relação nega-lhe razão e iliba uma vez por todas  Rui Moreira.

Queirao MP ou não, perpassa a ideia, porventura falsa , de que aquele processo não só não tinha pés para andar mas sobretudo parecia encomendado. Claro que não terá sido isso mas uma coisa é o que se faz e outra a impressão do público que ainda por cima se vê mais que amparada pelas decisões judiciais. 

Todavia, o presidente da Câmara do Porto sai chamuscado, como já acima adiantei. Haverá sempre um quiddam que lembrará a acusação esquecendo as sentenças subsequentes. 

Não pretendo culpar o MP por levar a cabo a sua tarefa mas apenas recordar que a intenção de recorrer não é obrigatória e que deve ter sempre em consideração os factos e a sentença recorrida. 

No caso em apreço toda a gente esperava exactamente o que veio a suceder com a sentença da Relação.

E é bom lembrar que o MP tem no memento muito mais gatos que esfolar para se perder teimosamente a mostrar que é o melhor. Mas isso é com os senhores magistrados e não com um blogger que normalmente os defende mas não perde a cabeça com tufo o que ocorre nos domínios da Procuradoria. Esta derrota era evitável e deixa algumas feridas. Qua pelo menos daqui se tirem as necessárias ilações...

Não deixarei passar em claro a subita descoberto de um rapaz de 22 anos, recen formado e chamado a um gabinete ministerial . A coisa merece atenção tanto mais que fora a viliação partidária se desconhece qualquer (imposível) curricuo!... 

 

estes dias que passam 754

d'oliveira, 07.11.22

 

 

 

 

Unknown.jpeg

Mais outro operário sui generis

mcr, 7-11-22

 

convenhamos: a indicação do nome do futuro Secretário Geral do PCP apanhou toda a gente de surpresa, militantes comunistas incluídos. 

Queira-se ou não o sr. Paulo Raimundo é para o publico um perfeito desconhecido mesmo que se saiba (agora) que é uma personagem de peso no Comité Central do partido e que tenha desempenhado várias tarefas importantes sempre dentro do aparelho dirigente. 

Vejamos: militante da JCP aos 15/16 anos funcionário aos 20 tendo no intervalo sido padeiro, carpinteiro e “animador cultural”. Com 46 anos de vida, 26 são passados no serralho comunista e não, como alguns pretenderão, cá fora junto à vida normal, quotidiana dos portugueses, mesmo dos trabalhadores portugueses ou, até, dos filiados no partido. 

Não sei se alguma vez os meios de comunicação o referiram especialmente, o mesmo é dizer se o tornaram conhecido da gente que se esforça por discutir política. 

Claro que nada disto é formalmente grave. Primeiro porque é (ou seria) o partido que pode escolher quem o deve dirigir;

Depois porque o facto de as luzes da ribalta apontarem para meia dúzia de militantes muito conhecidos poe terem desempenhado cargos importantes no interior do partido, na Ar, no Parlamento Europeu, na CGTP, nas autarquias ou como candidatos a diferentes cargos electivos nacionais, regionais ou locais, não significa eventualmente que o seu nome seja sufragado num partido que tem tiques especiais (a famosa regra de ouro é um deles). O PCP não é um partido como os restantes com assento na AR (ou até fora dela) rege-se por estatutos próprios que nem sempre são percebidos como razoáveis pela opinião pública.

Isto de uma criatura ser escolhida no mais absoluto dos segredos por uma instância pequena e posteriormente eleito por outra (o comité Central)  que também não é enorme poderá parecer algo de esdrúxulo para a maioria dos portugueses mas está nas leis internas do partido desde sempre. O famigerado “centralismo democrático” tem destas consequências mas isso “é com eles” que o aceitam e defendem. 

Ver-se-á (se é que teremos esse privilégio...) como é que a votação decorre. No caso de ser por mão ao ar, arrisco-me a dizer que a votação do nome será esmagadora. É essa a prática dos partidos comunistas, pelo menos no pouco que se consegue ver (sirva de exemplo o recentíssimo congresso do partido chinês onde a única novidade no meio dos aplausos frenéticos e sempre prolongados só uma nota destoou: a retirada não demasiado pacífica do antigo Secretário Geral que saiu da sua cadeira acolitado por dois cavalheiros que mais pareciam polícias a levar um condenado recalcitrante do que dois amáveis enfermeiros a suster amorosamente nos seus braços um velhinho doente e incapaz

Para já, sabe-se que a escolha (Jerónimo dixit) não foi isenta de alguma oposição. Pequena, claro, certamente por distração dos que não aclamaram imediatamente o novo nome. 

Chegado a este ponto, algum leitor (ou muitos) já terá dito para os seus botões que o cronista é, como de costume, um anti-comunista primário, um inimigo do partido, um agente da reacção, um cão de guarda do imperialismo, um renegado e já agora (para retomar uma antiga acusação muita em voga nas Franças e araganças) uma “víbora lúbrica” (que pelos vistos era algo de horrível naqueles anos em que o PCF se passava na ribalta revolucionária. 

E já que será esse o juízo que sobre o cronista recai, vamos então à caracterização deste filho do proletariado, operário ele mesmo. A menos que, já no Portugal democrático Paulo Raimundo tenha sido vitima do trabalho infantil, a verdade é que, entrado na JCP rapidamente chegou ao escalão dirigente enquanto estuava e trabalhava. Deixemos de lado o “animador cultural” que não significa nenhum especial esforço de sinal progressista e fiquemos nos dois/três anos de profissões tão divergentes como as de padeiro e carpinteiro.  Olvidemos o tempo necessário de aprendizagem que não será assim tão curto  para mesmo assim ousar dizer que numa vida política de trinta anos esses dois ou três iniciais pouco ou nenhum peso tem face à vida de “funcionário” polítco. 

DE resto, a famosa regra de ouro, a insistência na condição proletária, morrem facilmente face à existência do secretário geral mítico Alvaro Cunhal o mesmo do seu efémero adjunto e sucessor Carlos Carvalhas. Isto para não referir o pai Lenine ou o ex-seminarista Stalin. E toda uma plêiade de dirigentes comunistas desde Fidel até Mao...

E não esqueçamos os dois profetas fundadores Marx e Engels cuja condição proletária por mais voltas que se lhe dê é absolutamente inexistente. 

O facto de alguém de origens humildes ter pouco a pouco tido sucesso seja em que profissão for apenas permite pensar que há, apesar de tudo, uma espécie de elevador social que movido pela perseverança, pela inteligência e pelo trabalho lhe permite vir a ocupar posições de relevo seja em que ramo for da actividade humana. O cidadão Paulo Raimundo chega (ou chegará) daqui a dias a um importante cargo político que, goste-se ou não, influenciará a vida de muitas outros portugueses, simpatizantes ou não das suas opções ideológicas. Vir com as referências a duas esporádicas actividades profissionais de há trinta anos não tem qualquer significado ou importância. 

A menos que se caia outra vez na mitificação do operário (e mesmo neste caso os ofícios de padeiro ou carpinteiro podem perfeitamente ser atribuíveis a trabalhadores patrões de si próprios ou de mais  um ou dois outros companheiros de profissão) criatura revolucionária por definição... 

Terá a partir dos próximos dias uma missão arriscada e dificílima: sair do poço eleitoral e político onde o partido que vai dirigir está metido!

O resto é um par de narizes de cera que só funcionam para ingénuos entusiastas, exactamente o contrário do que se espera de marxistas (leninistas, se é que isto ainda quer dizer alguma coisa). 

*a expressão víbora lúbrica deve-se o famoso "jurista" e procurador  Andrei Vichinsky e foi proferida num dos "processos de Moscovo"

**a vinheta mostra um "proletário de fato e gravata de seu nome vladimir Ilicht Ulianov a dirigir uma multidão revolucionária e proletária. A autoria da vinheta é soviética Vê-se que a ironia não era o forte do artista ou dos seus editores...

 

 

estes dias que passam 753

d'oliveira, 05.11.22

A novidade  de mais de setenta anos!

mcr, 5-11-22

 

Noticiaram as televisões e jornais de todo o mundo que as tropas russas dispõem de brigadas especais para caçar desertores. Em boa verdade não se disse qual o destino destes desgraçados apavorados pela guerra, pelo medo da morte e, sobretudo, absolutamente desmotivados no que diz respeito à libertação/massacre dos irmãos ucranianos.

Qualquer interessado nesta prática russa de disciplina militar e de motivação a toda a força poderá ler qualquer livro publicado em Portugal sobre o avanço das forças soviéticas na “frente oriental” durante a 2ª guerra mundial. Em tos os que conheço vem referida a mesma prática, dessa feita levada a cabo por unidades especiais da NKVD que se movimentavam na retaguarda dos exércitos que iam reconquistando terreno aos alemães e, depois, avançando em direcção ao Reich. Com uma eventual modificação: não faziam prisioneiro qualquer soldado longe da sua unidade, melhor dizendo na retaguarda dela.  

De facto os membros da famigerada NKVD abatiam quantos encontravam pois eram sempre suspeitos de deserção.

Os seus opositores nazis davam-se ao luxo de prender os seus desertores param depois de um julgamento sumário e de duvidosa legalidade os fuzilar ou enforcar. “Les beaux esprits se rencontraient...”

 

Há de resto histórias de repressão de desertores, insubordinados ou autores de crimes em todos os exércitos. Na 1ª guerra mundial foram fuzilados para exemplo numerosos recalcitrantes que se insurgiam contra o matadouro das trincheiras. 

Durante a invasão da Normandia o Exército americano enforcou algumas dezenas de soldados por crimes de violação de civis francesas e  prendeu muitos desertores que passaram longo tempo em prisões militares (pelo menos até ao fim das hostilidades)

Todavia nada que se comparasse com as práticas expeditivas dos soviéticos que, de resto, tinham multidões suficientes para substituir os que na prática duvidavam da grande guerra patriótica. Diferenças de estilo e de qualidade apesar de tudo. Não espanta ninguém que a antiga prática russa tenha sido retomada no todo ou em parte. Tropa que é enviada sem preparação para a frente de combate de uma “operação especial” que teoricamente não é guerra e, muito menos, exposta a uma ameaça à segurança tem diferentes reacções que ,aliás, se observam diariamente nas reportagens televisivas. Já se viram protestos de toda a espécie e há notícia de deserções e de rendições ao exército ucraniano.

Daí até às medidas mais fortes por parte das autoridades militares russa vai um passo que parece já ter sido dado.

Também é verdade que nada já nos pode espantar da parte desse exército   “libertador”...

estes dias que passam 752

d'oliveira, 03.11.22

Bom senso ou noção de ter ido demasiado longe?

mcr, 3-11-22

 

 

A Federação Russa voltou atrás no que toca ao acordo de saída de cereais da Ucrânia suspenso após uma operação de retaliação ucraniana sobre os vasos de guerra da esquadra do Mar Negro. 

Sabe-se pouco, quase nada, dos estragos que o porto de Sebastopol realmente sofreu e do estado dos navios atingidos. A seu tempo conheceremos a verdade sobe um acto de guerra absolutamente legitimado por várias razões. A Ucrânia (cujas instalações de energia eléctrica e de fornecimento  de água tem sido alvejadas  danificadas o que eventualmente poderá ser considerado “crime de guerra”) ripostou a bombardeamentos vindos da Crimeia e de barcos estacionado entre o corredor dos cereais e a península da Crimeia.

A Rússia finalmente terá percebido que desta feita a sua atitude prejudicaria violentamente países africanos e asiáticos que até à data ainda não se manifestaram contra, abstendo-se nas votações mais cruciais.

De todo o modo, a absurda ameaça do autocrata do Kremlin está na lógica sequência de uma gigantesca série de acções e proclamações que denotam um avançado espírito de fuga à realidade. 

Ainda me recordo (vantagens, parcas vantagens da idade a que cheguei) que na Espanha do tardo-franquismo se falava no “bunker” tentando comparar essa situação com as últimas e enlouquecidas semanas de Hitler no seu esconderijo berlinense. 

E dizia-se (diziam-me amigos e resistentes anti-franquistas em Madrid onde fui muitas vezes ) que o ambiente do último reduto do Generalíssimo era semelhante à irrealidade nazi.

Ora, já nos estertores da URSS, se recorreu a semelhante imagem, a de alguém que já não consegui vislumbrar a realidade e menos ainda ripostar aos acontecimentos, aliás nem sequer os percebia bem. 

A famigerada operação militar especial  já foi resultado do autismo que a autocracia sempre provoca. Quando os ditadores criam à sua volta o deserto das opiniões, fácil é darem com os burrinhos na água. Um passeio de duas semanas, com o Pópulo “libertado” a uivar de alegria transformou-se numa guerra que no tereno está a ser perdida diariamente depois da surpresa inicial.

Se o Ocidente que (excepção feita dos americanos) nunca acreditou numa aventura militar, tivesse fornecido desde o primeiro dia as armas que agora vão chegando, nunca os russos teriam ocupado o sul e o corredor de M. ariupol. Isto, mesmo sem o gigantesco arsenal de mísseis e a aviação russa que, obviamente sempre foram uma vantagem para o agressor. É a infantaria que ocupa o território e aqui as diferenças entre agressor e agredido estão  clamorosamente à vista. O soldado russo não percebe o que está a fazer num sítio onde tudo lhe diz que não é benvindo. Sobretudo esse soldado maioritariamente proveniente das repúblicas pobres e não russas não se identifica com o sentimento pan-russo, com a igreja ortodoxa . Nada o motiva e sobretudo a morte espreita e os mortos amontoam-se em vagões frigoríficos que nenhuma autoridade russa aceita receber e levar para as famílias enterrarem os seus mortos e fazerem o seu luto. Por muita censura que afecte os meios informativos sempre funcionou o chamado “telefone árabe”. Com mais outro inconveniente para a nomemklatura de Moscovo: É que qualquer boato, sempre desfavorável, circula nesses meios como verdade indiscutível.

A “opinião ilustrada” russa mesmo a mais saudosa dos tempos do triste império soviético, começa a compreender o que se está a passar. E as centenas de milhares de auto-emigrados para as zonas vizinhas acentua esse sentimento. 

Por uma vez, alguém, no Kremlin terá conseguido chega à fala com Putin o que, com a intervenção da Turquia e de Recip  Erdogan, acabou com a perigosa ameaça de suspensão do transito de navios carregados de cereais que, de resto, ao que sabemos, nunca se deteve, num desafio  claro aos poderosos meios navais  russos. 

É claro que este súbito acesso de bom senso deveria e poderia ser continuado. É duvidoso que isso se verifique. O inverno que aí vem vai ser penoso, duro, terrível para os civis ucranianos mas as tropas russas também irão padecer. E ainda não se começou a pensar na hipótese da Ucrania retaliar a atingir instalações eléctricas no Donbass, em Lugansk ou na Crimeia  

E não devem faltar, no país agredido, vozes a pedir uma resposta olho por olho dente por dente...Aliás se isso ainda não ocorreu foi apenas porque o governo da Ucrânia querer manter a postura de país europeu e civilizado face ao bárbaro invasor. 

Esta guerra joga-se em muitos tabuleiros e no da opinião pública mundial (pesar da rapaziada russistas que por aí se manifesta) que é, cada vez mais, algo de importante ou até de decisivo. 

 

 

 

estes dias que passam 751

d'oliveira, 31.10.22

Les temps sont difficiles (suite)

Ou 

Por uma unha negra

mcr, 30-10-22

 

 

no momento em que estou para aqui a dar ao dedo ainda não sei se o ainda actual presidente do Brasil já se deu por derrotado. 

Diga-se que lhe vai ser difícil confessar a derrota sobretudo quando esta lhe vem demonstrar que a culpa é dele e quase só dele. 

De facto o seu partido (ou a Direita onde o PL é agora a maior força) ganhou folgadamente nas eleições para  o Senado e para a Câmara dos Deputados pelo que o desastre (por uma unha negra, mas desastre, de todo o modo) presidencial só se pode atribuir à boçalidade, à impreparação e à arrogância do candidato.

Também é verdade que o sr Lula da Silva não pode cantar uma grande vitória pois, nem 51% dos votos conseguiu. E foi preciso que todo o Centro (e provavelmente alguma Direita mais envergonhada) saltasse para a arena no que alguém chamou defesa da democracia. 

Lula, no inicio do seu discurso de vitória foi igual a si próprio pelo menos no descaramento: isto de agradecer a Deus a escassíssima vitória depois de anos e anos de laicismo exacerbado mostra bem as possíveis futuras dificuldades que ele vai enfrentar. 

Eu não sei exactamente como é que num país tão imprevisível como o Brasil, alguém vai governar sem apoio suficiente dos poderes legislativos. 

Ainda não tenho o número excto de Governadores estaduais conseguido pelo PT e eventuais aliados mesmo se já se saiba que os Estados mais ricos (à excepção de Minas Gerais) caíram nas mãos da Direita.

A maioria dos comentadores afirma que a Democracia se salvou no último round. É verdade mas convenhamos que resultado do que, bem ou mal,  se convencionou apelidar de campo anti-democrático  é, no mínimo preocupante

Faço parte daqueles que acreditam que com outro candidato, a “Esquerda” ou a “Democracia”, poderia ter tido um resultado muito mais claro, melhor e de maior segurança. 

E, já agora, suspeito que a Direita com um candidato menos detestável do que Bolsonaro poderia ter facilmente arrebatado a eleição.  

Dada a minha venerável idade, ainda recordo Café Filho, Juscelino, Jânio Quadros para falar de presidentes anteriores à Ditadura dos Generais. E digo ditadura dos generais porquanto ainda recordo Getúlio Vargas um presidente saído de um golpe de Estado e mais tarde reeleito  até ao seu suicídio que, recordo-o

bem, me impressionou muito. Li todas as histórias sobre esse momento numa revista muito famosa chamada “Cruzeiro” que chegava a Lourenço Marques do mesmo modo que para a miudagem chegavam o “Guri” e o “Gibi”  que em Moçambique substituíam o “Cavaleiro Andante” e “O Mundo de Aventuras”.

Se cito estas duas publicações infanto-juvenis é apenas porque, algumas vezes, os desvarios da certa política brasileira lembram mais histórias fantásticas para adormecer meninos mal comportados do que o dia a dia normal de uma sociedade democrática.

O Brasil está permanentemente na cabeça de muitos portugueses,  nem sempre pelas melhores razões. Mesmo se Jorge Amado escreveu “O país do Carnaval” o carnaval do Rio (ou da Baía) não resume, não representa e muito menos, mostra um outro, e mais temível,  Brasil que continua a ser um país onde o racismo vive às claras e confortavelmente. Basta olhar para uma fotografia do Congresso para perceber que ali os negros estão em absoluta minoria para já não falar nos índios que devem ser inexistentes e que são chacinados na Amazónia sem que os poderes se mostrem demasiadamente  perturbados. 

Entretanto, é Lula quem vai, apesar dos seus cansados 77 anos, governar um país  que parece mais dividido do que nunca.

O grande problema é que, nestes anos bolsonaristas (para não falar nos ano Dilma) Lula criou o deserto à sua volta e sacrificou o malogrado Hadad (que agora perdeu S Paulo) que poderia ter sido um eventual presidente não fora ter sido atirado às feras com um único propósito “salvar” Lula. A verdade é que nesse salvamento, naufragou ele e é duvidoso que possa ser repescado para novas aventuras eleitorais. 

Lula fanha, finalmente, porque o Centro (o “centão”) engoliu uma imensidade de sapos só para não ver um desvairado “imbrochável” regressar  ao Palácio do Planalto. 

Os tempos que se avizinham mesmo sem bolsonaro vão ser difíceis, muito difíceis.