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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 492

d'oliveira, 05.10.20

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Se algum Deus existisse...

mcr 5 de Outubro

 

Bolsonaro e Trump teriam rido o mesmo destino de dezenas ou centenas de milhares de outros infectados pelo vírus. Vá lá escapariam à vala comum mas da certidãozinha de óbito não escapavam.

Eles menos rezaram a pandemia e, pior, menosprezaram os afectados. E desqualificaram aberta e despudoradamente todos quantos alertavam para os perigos evidentes do covid.

Só que eles não são meros cidadãos dos respectivos países: são presidentes, eleitos provavelmente por muitos dos que morreram (ave Cesar morituri...).

E por serem presidentes, mesmo desdenhosos e incapazes de pensar nos seus desgraçados súbditos, tiveram direito ao mais refinados tratamentos, aos cuidados mais extremos, à inovação mais moderna.

É bom que se diga que qualquer destas duas desprezíveis criaturas terá gasto ou irá gastae (em tratamentos de ponta) ao Estado somas centenas ou milhares de vezes superiores às alocadas aos cidadãos normais.

E por isso escapam e sobrevivem. Para gáudio dos seus descerebrados apoiantes, muitos dos quais irão inexoravelmente morrer com o vírus e sobretudo porque no seu entusiasmo cego e fanático não se protegem minimamente.

Eu, como terão eventualmente reparado, desta gentuça falo pouco, questão de não sujar metaforicamente os pobres dedos que lá vão teclando estas palavras.

Por outro lado, como num imortal romance de ficção científica (“os marcianos divertem-se”, Frederic Brown, colecção Argonauta, Livros do Brasil, circa 1955/60), tento apaga-los da realidade concreta e com isso condená-los à não existência. Vê-se, porém, que a ficção científica é apenas isso, ficção, e há que aguentar com estas pragas presidenciais que não estão sozinhas, basta lembrar a Venezuela, a Nicarágua, a Coreia do Norte inter alia...

Os noticiários afirmam que Trump terá alta hoje. Claro que é uma “alta” política e, já se conhecem reacções contra de médicos que o acompanharam.

A pandemia pode fazer com que esta prodígio do analfabetismo político, este naufrágio da dignidade política, seja derrotado justamente pelo que ele destemperadamente escarneceu e negou. Todavia nem isso é certo qi a memória dos homens é curt, a cegueira fanática gigantesca e as ajudas externas (russas, por exemplo) podem desvirtuar uma eleição nestes tempos tumultuosos.

Bem que vimos mulheres, muitas mulheres, votarem num tipo que as despreza, as apalpa, as rebaixa. É extraordinário que no país que inventou o # me too #, que persegue com exagerada violência alegados predadores sexuais, existam tantas mulheres que apoiem a criatura. Pelos vistos o #me too# só funciona entre elites artísticas, vagamente de esquerda que, até à data, tem sido impotentes para conter o tsunami infamante e anti cultural do trumpismo. Hollywood fica seguramente noutro planeta que não nos Estados Unidos ou mesmo na Terra.

Á luz desta sinistra realidade, não me admira que um homenzinho professor de Direito, catedrático e tudo, compare o feminismo ao nazismo e o diga alto e bom som e o escreva nuns papeluchos que, felizmente, só são lidos nos soturnos gabinetes universitários.

Apenas refiro esta obscena realidade portuguesa porque, pelos vistos, há cavalheiros que até no Tribunal se safam de acusações de sexismo virulento.

Trump vai, pois, para casa mesmo se essa casa (branca) esteja pejada de infectados como parece ser o caso. Todos, claro, terão os melhores tratamentos e é duvidoso que partilhem a sorte dos milhares que apenas partilham com eles uma vaga cidadania americana.

Eu não tenho deus (nem mestre) mas com certeza absoluta, não partilho o que nas notas de dólar aparece citado (in God we trust). Não, nesse deus que vê isto com indiferença e com isso vai conseguindo tornar muita gente indiferente

na vinheta: a nota citada

 

 

 

estes dias que passam 491

d'oliveira, 29.09.20

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Alguém não fez o trabalho de casa

mcr, 30 de Setembro

 

Eu não sei se é a DGS, se é o Ministério da Saúde, se é mais algum departamento estatal que pensa Portugal como uma república bananeira ou se, pura e simplesmente, é a habitual bur(r)cracia.

Também não excluo a estupidez ou, pior, a vontade de alguém em governar-se à custa dos governados.

Eis o caso: aproxima-se o tempo da gripe o que, junto à persistência da pandemia, torna a vida de todos e, particularmente dos mais velhos (é é o meu triste caso) mais complicada.

Faço parte daquele grupo de pobres diabos que leva a sério as prevenções dos médicos, do SNS, da DGS, enfim dos que entendem dever vacinar-se contra a gripe.

Em chegando o fim de Setembro, passo pela farmácia e, zás, por uma módica soma, vacinam-se. Não vou ao Centro de Saúde por duas razões muito simples. Uma pessoa chega lá e espera horas para ser atendida. Depois, razão menor, sempre poupo ao Estado o custo de uma vacina. Aliás, mesmo sendo “beneficiário” da ADSE (que mensalmente me leva uma bela soma) apenas a utilizo para o desconto nos poucos medicamentos que, por sorte -por serem poucos – sou obrigado a tomar. O resto fica por minha conta, tanto mais que reaver o dinheiro gasto dá uma trabalheira dos diabos e recebe-se tarde e a más horas. Por outras palavras a minha saúde fica barata ou, até dá lucro ao Estado e/ou à ADSE.

Todavia, enquanto cidadão, entendo que tenho direito a que o Estado se preocupe com a minha saúde e atempadamente ponha ao meu dispor os meios para me manter tão são quanto possível.

Portanto, e para abreviar, desloquei-me à farmácia para a vacina. Nada feito. Já há vacina mas, para já, é para os profissionais de saúde e para certos grupos de risco residindo em lares, isto é para os que, por milagre, ainda não foram mortos pelo covid e pela péssima assistência sanitária de que “gozam”.

Aceito que haja prioridade mas, porém, não percebo porque é que, cá fora, sem pesar no SNS não poderiam as farmácias fazer este ano o que sempre fizeram. Ou seja, abastecer-se no mercado armazenista, e vender o seu produto a quem esteja disposto a pagá-lo.  

O amável jovem farmacêutico que me atendeu afirmou-me que este ano a DGS ou outra qualquer instituição bur(r)ocrática entendeu que ou não haveria abastecimento no mercado livre ou, se acaso o houver, ele será deixado para as calendas de Outubro.

Convenhamos que isto tem um nome e esse é atentado contra a saúde publica, entendendo-se que nisto vão incluídos o receio, a angústia e a cautela de milhares, dezenas ou centenas de milhares de cidadãos que, avisados do que pode por aí vir, e escaldados pelo que as televisões mostram de outros países decidiram não deixar para amanhã o que poderiam fazer hoje. E sempre, note-se bem, sem obrigar o Estado a pagar seja o que for!

O mesmo farmacêutico (corroborado por dois outros colegas em duas outra farmácias) explicou-me que decuplicou o número de pessoas que tentaram já inscrever-se para a vacina.

Razões são várias mas sobretudo esta: as pessoas não confiam nos centros de saúde, na sua eficácia, basta lembrar o trabalho inglório que se tem ao tentar telefonar para lá. Não atendem e não devolvem as chamadas. Eu próprio já verifiquei isso quando quis avisar uma senhora enfermeira que me enviou um mail justamente sobre vacinas. Por três vezes tentei dizer-lhe que tinha tido essa cautela. Nada feito.

Agora, depois de saírem notícias sobre surtos em clínicas e hospitais, ainda é maior o receio, justificado ou não, dos utentes. Sobretudo porque, ao ouvir as televisões ninguém consegue ver onde está a razão e onde ela falece. A DGS tem posições tão sinuosas, tão dispares no tempo que o seu crédito se reduz dia a dia.

E o covid sempre presente. E a gripe a chegar. A gripe que, ainda há meses para afastar o espantalho do covid era, dizia-se, muito mais mortífera! Quem semeia medos recolhe pânicos!

Ao lado desta injustificada falta de vacinas no sector farmacêutico, junta-se entretanto a ideia difusa mas repetida que o monopólio estatal garante gordas comissões a criaturas ao serviço conjugado do Estado e delas próprias. Convenhamos que, perante o espectáculo dos inúmeros altos servidores públicos acusados e em via de julgamento, a ideia da corrupção nesta distribuição não deixa de ter pés para andar.

O senhor secretário de Estado veio ontem, num discurso confuso e aos tropeções dizer que a partir da terceira semana de Outubro haverá eventualmente vacinas para fornecer às farmácias. Todavia, há que reconhecer amarguradamente que palavras de altos responsáveis da saúde valem o que valem e é pouco.

Alguém diz que isto se deve a trapalhadas de trapalhões que demoraram demasiado tempo a requisitar para o país um número decente de vacinas. Não custa nada a acreditar dada a situação em que o covid nos apanhou: de calças na mão mesmo depois de termos visto a pandemia cevar-se noutros lugares. A costumeira displicência portuguesa de que este povo, sobretudo o que não manda, não tem, não é ouvido, é vítima.

Portanto, leitoras e leitores, preparem-se. A vacina da gripe virá (ou não) daqui a três semanas. Com a gripe já perto ou já cá dentro. Com o covid à espreita. Com o SNS a espernear para chegar a todos. Com dezenas, centenas de milhares de consultas, cirurgias e outros actos médicos atrasados ou perdidos. E com o povo embalado pelas futuras presidenciais ou pela surpreendente discussão à volta do Orçamento. J´ninguém percebe nada: o PS jura que se perde de amores pela Geringonça a três ou a dois. P PC rosna que não vai a jogo, o BE faz finca pé nas suas exigências. O Presidente da República a mandar recados sobretudo ao PPD que, até à data, não é parte neste cozinhado. Ou seja, o sr. Presidente entende que o seu antigo partido tem o dever de ser uma tábua de salvação caso o tempestuoso namoro PS/BE falhe. Não se descortina como isso é possível dada a claríssima divergência programática entre os dois partidos maiores. Mesmo quando o sr Presidente se desdobra numa versão pessoalíssima da sua mais que apagada liderança do PPD e dos favores que terá feito a Guterres não se consegue perceber como é que agora isso se poderia repetir sem atirar o PPD ou os seus votantes para os insondáveis abismo de uma Direita ultramontana que quer replicar em Portugal os êxitos obtidos em França, Itália ou Espanha. Quer e, eventualmente, pode: basta que as alternativas desapareçam. Hitler subiu ao poder, por eleições livres dessa maneira. As esquerdas (PC e PS) não se entenderam, aliás combateram-se violentamente nas ruas através de milícias próprias, o Centro implodiu e os nazis foram tranquilamente ganhando eleição após eleição (A Prússia já era governada por eles antes de deitarem a mão ao resto da Alemanha). O que fizeram sem demasiado esforço e com a brutalidade congénita que os unia. Brutalidade, aliás, que se generalizava a outros estractos políticos e sociais, convém acrescentar antes que me acusem de fazer a culpa morrer solteira...

Não estou a traçar nenhum cenário especialmente previsível mas apenas quero ressaltar que a História recente (ainda não passaram cem anos) fornece algumas lições e sugere algumas cautelas.

Dançar à beira do vulcão não é exactamente o melhor remédio.

na vinheta: gravura, uma entre centenas de uma grande aventura cultural e científica paortuguesa: as viagens philosophicas (finais do sec XVIII). Desta feit, é a levada a cabo no Brasil. Já, por várias vezes, aqui referi o esforço desses exploradores naturalistas mandados para todos os cantos do Império colonial. No caso é a do dr Rodrigues Ferreira que percorreu a amazónia e o Mranhão durante dez longos anos, reunindo um espólio fabuloso que enviou para Portugal. Dessa soma impressionante de documentos de toda a ordem, ainda restam muitos embora a maior parte tenha sido saqueada pelos franceses de Junot e esteja hoje em Paris no chamado "cabinet de Lisbonne". Ferreira, claro é mais desconhecido ilustre da nossa História mas isso é o destino natural de muitos outros nacionais. 

 

estes dias que passam 490

d'oliveira, 18.09.20

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Despedido com justa causa

mcr, 18 de Seembro

 

O sr Costa, o cidadão, não o político, foi enxotado da pícara comissão de honra do sr Vieira sem viso prévio nem toma lá que já bebes. Atirado borda fora daquela nau que não navega em mares especialmente bonançosos.

Vieira, ou alguém por ele, seguramente alguém por ele, percebeu que Costa era um fundo tóxico num momento delicado para “o glorioso”. Já basta o desastre da Grécia!

A notícia caiu como um raio momentos antes de Costa ter um tête a tête com o Presidente da República que já avisara que chamaria a buliçosa intervenção clubista do 1º Ministro à colação.

Não sei se Costa se surpreendeu tanto quanto a sua camarada Jamila, defenestrada pela temível senhora Temido que, neste capitulo de noite de facas longas, já mostrou não ter nada a aprender. Assim aprendesse a ser Ministra da Saúde mas isso é pedir de mais.

A decisão de Vieira foi acompanhada de um texto em que, como de costume, se acusa a comunicação social de todos os malefícios. Há mesmo uma teoria da conspiração monstruosa anti benfiquista em que espero me incluam. Ser anti benfiquista é ainda pior do que ser anti-comunista na versão suicidaria e lacrimosa do PC.

Com Costa vai o resto dos políticos que se apresentavam como garantes das virtudes cívicas, morais, desportivas e administrativas do sr Vieira.

Estaremos perante o início do fim da intervenção política no futebol? Estaremos igualmente a caminhar para o fim da intervenção do futebol na política?

Nada menos seguro. Isto, infelizmente, é apenas um gesto cauteloso de Vieira, ou de quem o assessora, não tanto em relação ao Benfica mas às complicações judiciais   que se preveem.

Ou seja, Vieira tem melhores conselheiros que Costa que averba de uma só penada duas derrotas: a do gesto irreflectido e a da escovadela para fora da comissão. Há ainda uma terceira: o ridículo. E disso Costa não se vai livrar tão depressa.

 

 

estes dias que passam 489

d'oliveira, 16.09.20

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Uma vitória e uma derrota

mcr, 16 de Setembro

 

 

Estejam descansados os leitores. Não vou falar de futebol, assunto, aliás.de que não percebo patavina. A menos que se trate de futebol na praia, o dos meninos que corriam com cachorros alucinados pela extensa praia da Figueira, ali entre o viso e o “ferro de engomar”. Aí nesse território sagrado da infância feliz e exaltante, o futebol ocorria duas vezes ao dia. De manhã, antes do primeiro mergulho e de tarde antes da “bolacha americana” que era o que se usava nas décadas de 40 e 50. Era o Xico Neves quem organizava as infindáveis partidas que metiam também equipas locais de Buarcos capitaneadas pelo João “Mantana”, aliás João São Marcos que, espero, estará ainda vivo e a gozar de uma merecida reforma depois de muitos anos de desenhador e mestre de trabalhos manuais. O João era colega de escola, protestante, refilão e um admirável amigo.

Fora isso, o futebol para mim é uma solene chatice agora cercada de uma rede de interesses inconfessáveis e mafiosos. E digo mafiosos só por raríssimas vezes ter parado num dos canis onde pululam comentadores encarniçados, aos gritos e impropérios defendendo o indefensável, o clube, as manigâncias, os capos da seita, enfim tudo o que de pior a televisão tem, usa e abusa.

Resolvida esta questão, vamos ao que interessa. E o que interessa são duas quase novidades, um pouco antigas que se ainda não tem barba já ostentam buço viçoso. A primeira é uma triste notícia. A editora Cotovia fecha portas no fim do ano.

Esta editora que, em indo a Lisboa, frequento com prazer, todos os meses fica situada na rua da Trindade, quase a chegar ao largo Trindade Coelho ou da Misericórdia e paredes meias com uma sex shop.

Neste local, existiu durante anos a Livraria Opinião, um baluarte do livre pensamento, das tertúlias estúrdias e bem humoradas, uma loja de livros de três andares onde conheci dezenas de autores (entre todos o Al Berto que lançava um primeiro (ou quase) livro que já deixava adivinhar a sua força, o seu talento e a sua especial língua). Acho que já, por aqui, contei episódios vários ligados a essa assembleia de gente culta e livre e talentosa. A Opinião fechou depois do Hipólito Clemente ter decidido ir fazer outras coisas, entre elas licenciar-se, ganda maluco. Do Hipólito basta dizer como o Luís Pacheco: era um livreiro de mão chia capaz de vender a Belzebu, um inteiro catecismo católico!

Já está do outro lado, como o Assis Pacheco, o outro Pacheco, o Cabeça de Vaca et alia.

Agora é a vez da “Cotovia”. obra de um André Jorge, que também já não frequenta este mundo de merda e covid, fechar a porta. Demasiada boa literatura, uma escolha impecável de títulos, colecções primorosas de poesia e teatro (o Brech, o Ibsen e quantos mais!), uma série de livrinhos que traziam os brasileiros até nós, enfim um regalo. Pelos vistos nenhum dos grandes grupos livreiros tentou adquiri-la. Ou então foram os da Cotovia que não quiseram abastardar a sua herança, sei lá. Mas vai fazer falta, malta. Vai fazer muita falta.

 

A vitória é a doação de todos os arquivos do grande arquitecto Paulo Mendes da Rocha, Pritzker (o nobel dos arquitectos), Leão de Ouro de Veneza, etc., etc.. , à Casa da Arquitectura (Matosinhos). Mendes da Rocha é brasileiro mas tem trabalhos em todo o mundo. Por cá é autor do novo Museu dos Coches e só isso basta para ver quão bom o homem é.

Parece que no Brasil e na faculdade onde ensinou vai um murmúrio grosso e a engrossar de tristeza. Aguentem, amigos brasileiros, vocês tem aí a espantosa Biblioteca Real levada por d João VI e por cá não se ouvem queixas. Por duas ou três razões: porque ninguém sabe: porque ninguém se interessa; porque se entendeu respeitar a vontade desse rei que só vale a pena conhecer porque fugiu, e bem, aos franceses para evitar a triste sorte do colega espanhol que mais não foi do que um capacho de Napoleão. Claro que o, na altura, regente poderia ter mandado resistir às tropas de Junot que entraram no país famintas, doentes, cansadas e facilmente derrotáveis por um par de regimentos de linha portugueses. Não foi assim e Junot instalou-se em Lisboa, apanhou o título de duque de Abrantes que a viúva fartamente usou nas “memórias” que escreveu. Junot , uma vez chegado à capital entregou-se aos prazeres de Cápua, dentre os quais sobressai a notória ligação com a condessa da Ega, justamente conhecida em toda a Lisboa como a “égua do Jinote”. Fora dessas tropelias amorosas, Junot roubou quanto pode, deixou roubar e quando vencido seguiu para França, os ingleses permitiram que levasse um saque imenso de preciosodades incluindo um gigantesco espólio científico organizado pelo dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o homem da “viajem filosófica” à Amazónia, de onde em dez anos fez chegar a Portugal uma incrível e extraordinária colecção naturalista e iconográfica e etnológica.

Aliás, ARF, português nascido na Baía, licenciado em Coimbra e emérito explorador é sobretudo conhecido e reverenciado no Brasil onde se sucedem as edições da sua “viagem philosóphica”. Aponte-se o nome da editora que graças à Odebrecht, presumível corruptora nos dois continentes, editou, e bem, não só Ferreira mas toda uma série de textos holandeses do tempo da ocupação do norte do Brasil por Mauricio de Nassau: Kapa editora.

Is leitores ter-se-ão apercebido qu o texto como de costume se afastou do seu propósito inicial para acabar nas invasões francesas. Se é verdade que, alguns portugueses se terão sentido órfãos, não menos verdade é que os franceses forem recebidos pelos proto-liberais em salvadores, em enviados da Revolução. Dí à colaboração foi um pequeno passo alegremente dado. Quando o Portugal ultramontano, e sobretudo o Portugl profundo, se ergueu contra os ocupantes, não admira que muitos “pedreiros livres” teham sido perseguidos. Daí até ao caso Gomes Freire de andrade que combateu em nome da França foi só um pequeno passo que Beresford não hesitou em dar. Ou dito de outro modo, na história dos acontecimentos de 1820 nem tudo são rosas. A começar pelo Brasil que os pais do vintismo queriam de novo reduzir a uma mera colónia. A liberdade não estava propriamente prevista para todos. A independência do Brasil, a reacção absolutista, as guerras civis tem um tronco comum e tudo a ver com os anos 20 E até com os primórdios da invasão francesa.

Ou de como a mancebia com a belíssima condessa da Ega não causou especial repulsa patriótica nem fez cair a “honra” do conde cornudo nas sargetas de Lisboa. Não fora o regente e futuro rei que ordenara que se recebesse “bem” os franceses? Não o exigia também a nova ideologia nascida à sombra da Revolução que fizer de Napoleão, 1º Cônsul? Que ele, depois, se tenha coroado Imperador e criado uma série de pequenos reinos para os seus familiares não horrorizou especialmente os franceses, mesmo os mais assanhadamente democratas. Dessa tentativa de criar reis subsiste, intacta, a monarquia sueca ganha pelo geral Bernardotte.

Provavelmente, em boa hora!

 

Na vinheta: Museu dos Coches, projecto de Paulo Mendes da Rocha

 

 

estes dias que passam 488

d'oliveira, 16.09.20

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O dr. Costa anda perdido...

mcr, 16 de Setembro

 

 

Perdido, confundido, enganado, esgrouviado, enfim um desastre.

Eu, fazendo um esforço hercúleo (de Hercule Poirot) para activar as minhas pequenas células cinzentas até percebo os delírios a que a paixão clubistas pode levar.

Por defeito meu, e por ser marxista tendência Groucho, nunca fui capaz de permanecer num clube que me aceitasse. Até para o bridge, essa paixão antiquíssima. Eu explico: há nesta invicta cidade, vários locais eminentemente respeitáveis onde se joga bridge. O lógico seria que eu me fizesse sócio para poder, sem necessidade de andar desesperado à procura de parceiros, encontrar um trio de almas gémeas para psaasr um par de horas amenamente divertido. Foi por isso que fui sócio do Ateneu, do Clube de bridge e de um outro amável local situado na Gandra, ali mesmo ao pé de Miramar. Nada feito, pagava as quotas e nunca lá punha o mimoso pé. Até em Moledo me associei a um clube fartamente exclusivo. Durante anos fui lá uma vez por ano. Pagava as quotas e bebia uma bica. Mais nada. Alguma vez, entrei em torneios e, tirante uns que se passavam em Espanha, onde havia prémios simpáticos em boas pesetas, que davam para a viajem, estadia e para um largo par de livros comprados na volta, nunca mais participei em torneios.

Minto, ainda participei num, por equipas que começou da melhor maneira: ao fim do primeiro dia estávamos em primeiro lugar. O pior foi que um dos parceiros ficou tão eufórico que se embebedou miseravelmente. A segunda jornada foi homérica e absolutamente inesquecível. Alcácer \Quibir multiplicado por dez!

Ao clube da Granja nunca fui. Do Ateneu desisti rapidamente porquanto (e isto passava-se no tempo da outra senhora) vi-me metido sem saber numa lista maçónica e da oposicrática que ainda por cima ganhou as eleições. Ora eu, por muito que a oposicrática me agradasse nunca me revi vestido de avental. Até costumava dizer que os únicos aventais que suportava eram os das peixeiras de Buarcos que, nas festas, ostentavam aventais lindíssimos. Eu, para sociedades secretas nunca dei. Lá tive de no próprio dia da comemoração da vitória pedir a demissão do clube. Houve quem levasse a mal...

No capítulo desportivo, a minha simpatia vai para a Associação Naval 1º de Maio, da Figueira. Fora os jogos a que assisti em miúdo levado pelo meu pai nunca mais soube nada do Clube que agora navega numa obscura divisão distrital. Aliás, a minha simpatia deriva disso mesmo. De nada saber da vida associativa, e em homenagem ao meu pai que durante anos presidiu à Naval. Acumulava com as funções de médico pro bono e houve mesmo uma época em que terá conduzido um enorme automóvel onde se amontoava metade da direcção e da equipa. O último jogo de futebol que vi foi uma final da Taça de Portugal entre o Benfica e a Académica no ano da crise. Em boa verdade, a malta ia manifestar-se o que aconteceu (com a cumplicidade de alguns benfiquistas). Aterrado com os possíveis desenvolvimentos, o Presidente da República nem lá pôs os pés. Perdemos o jogo mas isso era o que menos interessava.

Portanto, não frequento estádios há 50 anos, aliás 51...

Tenho dos grandes clubes, enfim, os “nossos” grandes, a pior das impressões. Adeptos e direcções fazem-me pele de galinha. Tenho, dessa gentinha uma ideia que não me atrevo a revelar para não ser alvo de procedimento criminal.

Por isso, a ideia excelsa de Costa fazer parte de uma enorme comissão de honra da candidatura o homenzinho tonitruante que governa o Benfica, conseguiu surpreender-me. Ao fim e ao cabo, tinha do político uma ideia pelos vistos mais elevada (e estou a falar de baixas altitudes, convém avisar)do que a que, na realidade, se fica. A tal comissão tem, dizem-me centenas de criaturas, o que torna a presença de costa ainda mais vulgar do que aquela que eu, mal ou bem, sempre lhe atribuí.

Eu, sobre o futebol pátrio, apenas sei que enche as televisões de criaturas vociferantes que, dias a fio, se insultam, interpelam, interrompem num espectáculo grotesco onde ninguém se salva. Não que eu seja um assíduo, sequer ocasional, telespectador mas os acasos do zapping conseguem dar uma ideia da mediocridade obscena daquilo.

Ver o Primeiro Ministro associado aquela gentinha, e, mesmo se nunca o tenha tido no meu coração, foi algo de extremamente deprimente.

Eu não quereria juntar-me ao coro de condenações tanto mais que muitas delas me cheiram a esturro. Mas a coisa que parece consistir numa espécie de homenagem a uma criatura devedora de milhões ao BES e acusada de uma série de traficâncias que pelos vistos vão brevemente a julgamento.

A explicação mais óbvia seria a de um acesso de loucura do dr. Costa mas as suas posteriores desculpas, arrogantes desculpas!, raiam os limites do bom senso. Ou então, a criatura julga-se o DDT nova versão. O PS tem dado sinais superlativos de arrogância provavelmente porque se vê a dois passos do poder. Só essa hipótese traz-me náuseas.

E por aqui me fico que não vale a pena gastar mais cera com tão ruins defuntos

 

Vamos antes referir a espantosa doação da biblioteca de Alberto Manguel à cidade de Lisboa. Não sejamos avaros de palavras: trata-se de uma doação importantíssima, de importância internacional manifesta. É um acervo de 40.000 volumes de enorme qualidade. Lisboa, Portugal, os leitores estão de parabéns.

Não conheço o palácio onde a biblioteca vai ficar instalada mas dizem-me que é um local excelente e um bom aproveitamento de um edifício vazioe em risco de se degradar.

A ideia de se criar um Centro de Estudos sobre a História da Leitura, cuja direcção caberá a Manguel é outra boa notícia. Eu, leitor empedernido, conheço alguns livros de Manguel e só posso dizer bem. Eis alguém que fala do que sabe e sabe do que fala. Não foi por acaso que ele foi leitor desse fabuloso Jorge Luís Borges!

A vinda deste extraordinário espólio literaário para Lisboa não salva Medina da imitação burra do seu colega portuense: ambos curvam a cerviz aos pod(e)res futeboleiros das respectivas cidades, mesmo se apenas sejam autarcas. Bastaria lembrar a estas luminárias que as respectivas cidades tem mais clubes de virtude igualmente controvertida. E sobretudo que o turvo reino da bola está inçado de casos e de suspeições pouco sadios. De todo o modo, mesmo se uma mão não apaga o que a outra fez, posso atrever-me a dizer que isto é um ponto a favor de Medina. Se foi ele, ou alguém por ele, a ter a ideia de trazer Manguel, interessa-me poico. Mal estaria a democracia se só exigisse aos autarcas a ideia de tudo o que de bom fazem. Acolher sugestões inteligentes é também uma boa virtude.

Assim o senhor Costa ouvisse quem o pressiona para renunciar à mais que duvidosa honra de pertencer a uma lista ridícula de apoio a uma homenzinho como o sr Vieira.

estes dias que passam 487

d'oliveira, 08.09.20

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Previsível, caro Watson, previsível

mcr, 8 de Setembro

 

 

 

Não é preciso chamarmo-nos Holmes, Sherlock Holmes, para ver na candidatura da dr.ª Ana Gomes, algo que nunca foi novidade. Nem sequer, convenhamos, se revestiu de especial habilidade. A dr.ª Gomes sempre foi candidata, cultivou mediocremente o pretenso mistério da sua “reflexão”, deixou que aparecessem uns escassos apelos à sua apresentação, enfim fez o que pode, mas pode pouco.

Começa a desenhar-se um cenário semelhante ao de há alguns anos. De um lado o dr. Rebelo de Sousa (que também anda a “reflectir” esforçadamente). Do outro o cavalheiro do Chega que é meio candidato porquanto apenas pretende ganhar espaço e publicidade, bem como contar as suas tropas, a dr.ª Marisa Matias, recandidata não se sabe bem a wue propósito. A srª Gomes a reunir os socialistas descontentes, o candidato do PCP, cuja candidatura nem precisa de rosto pois na verdade não o tem, seja qual for a apagada figura proposta e, eventualmente mais alguns personagens secundários político-anedóticos.

Resumindo: uma fraca salada de frutas ou, melhor dizendo, uma pessegada! Estas criaturas vão dividir o espaço mediático com algum réu importante num desses processos que prometem muito e se arrastam ainda mais tempo.

Isto nem sequer distrai do covid, muito menos da infâmia persistente dos “lares” onde há dezenas de surtos, pesem embora as esfarrapadas desculpas do senhor padre Maia e do dr. Manuel de Lemos, homem forte e eterno das Misericórdias.

Sobre isto, esta tragédia barata que se abateu sobre as antecâmaras da morte, já nem vale a pena dizer seja o que for.

Por uma vez, sem exemplo, o dr. Ferro Rodrigues que se tem ilustrado como uma das figuras representativas do sono da razão de Goya, disse algo que vale a pena sublinhar. Perguntava o distinto ancião por que razão não havia inspecções sistemáticas aos lares com colheitas sistemáticas para prevenir os surtos. Pelos vistos, só ha testes quando surge um infectado. O resultado é esta avalanche de casos que, crescentemente, dizimam os indefesos velhos e atacam também funcionários.

“Casa roubada, trancas à porta” parece ser o leit-motiv da DGS quanto a este trágico assunto. Sobre esta instituição começam a levantar-se as mais dramáticas dúvidas. Foi o caso da festa do Avante, cujo relatório só saiu a fórceps e que, mesmo assim, não se entende de todo. Foia história miserável e aviltante da retenção em quarentena das crianças retiradas às famílias. Já não bastava esse trauma mas ainda se impunha uma quarentena repelente!

De repente, começa a ouvir-se, de todo o lado, a queixa de que a DGS, ou a sua dirigente mais visível já esgotou o seu prazo de validade. Como é que uma senhora com boa reputação se foi deixando levar na corrente, canhestramente, incapaz de perceber coisas simples, sobretudo coisas que tocam a mera humanidade, como o caso dos miúdos?

Ai “as crianças, Senhor! Porque lhes dais tanta dor?... (Augusto Gil, outro poeta celebrado e esquecido). Agora, duas, de Famalicão estão no “olho do furacão”. Tudo por causa de uma dessas inutilidades do luso “eduquês” que, depois da “Religião e Moral” ou da “Organização Política e Administrativa da Nação” salazaristas, tira tempo e dinheiro às pessoas e aos cofres do Estado.

Eu nada tenho cotra o facto de se ensinarem nas Escolas as Declarações dos Direitos do Homem, da Criança e mais três ou quatro princípios que deveriam, mais do que enformar as Constituições, enformar e informar o quotidiano das gentes.

Todavia, estas disciplinas deveriam ter bem presentes as críticas que, in illo tempore, se formularam às anteriores tentativas de enquadramento ideológico das pobres criancinhas, vítimas sem voz dos iluminados do Ministério da Educação.

A história é simples e conta-se em duas linhas: uns pais extremosos , eventualmente ultramontanos, não permitiram que os abencerragens fossem às tais aulas de cidadania. Em boa lógica mandava-se um cabo de esquadra à casa dos ditos progenitores para os levar à esquadra mais próxima e, eventualmente, entrega-los a um tribunal expedito. Mas o Ministério (mal chamado) da Educação preferiu outra via, mais fria e mais imbecil: chumbar rectroactivamente os garotos! Depois, um Tribunal veio emendar a mão grotesca do departamento estatal. Agora andam por aí à compita uns abaixo assinados que juntam personalidades, luminárias e gente que adora aparecer neste género de comédia bufa. Provavelmente, a maioria dos abaixo-assinantes não tem duas ideias capazes sobre cidadania e menos ainda sobre educação. Mas, em vendo um papelucho a circular, aí vai disto!

Às vezes suspeito que o covid ataca as cabecinhas de muita gente. A coisa não mata, é assintomática e, como o cigarrinho, dois copitos ou mesmo uma passa, acaba por ser socialmente aceite.

Mas os mistérios da Escola não acabam aqui. Neste momento, a discussão centra-se na abertura das aulas. Uma das questões tem a ver com a “Educação Física”. Como irão ser as aulas? Em ginásio ou ao ar livre? E no caso deste último como é que se impede que ande tudo ao molho?

Ninguém perguntou se, numa hipótese de piorar a situação, se poderia suspender estas aulas e focar as atenções nas matérias de facto imprescindíveis.

A coisa lembra-me Churchill que, interrogado, durante a guerra, sobre qual a maior influência nos seus carácter e determinação, respondeu que devia tudo à ginástica. “À ginástica? Como?”, perguntou o estupefacto repórter. –“Nunca a fiz”, respondeu o velho e indomável leão enquanto acendia um charuto para acompanhar um whisky...

Entretanto, a Fenprof já veio contradizer o Ministério, os directores das escolas e as federações de pais. Pelos vistos nada vai bem nos preparativos para a reabertura das aulas. Nem sequer a contratação de mais professores e mais auxiliares. Provavelmente a Fenprof entende que mais valia pôr de novo em pousio a educação, ideia que desde sempre parece defender...

“Mas as crianças, Senhor! Porque lhes dais tanta dor?”

 

Quanto aos adultos, sobretudo os mais velhos, os “idosos”, os “seniores”, um conselho: pouca letra e bico calado. Aguentem que é serviço. E tomem lá os candidatos à Presidência. Com a telenovela, as discussões sobre o futebol na tv (agora sem o ventura!...) e os reality shows, está o país servido.

“Esta é a ditosa pátria minha amada”

estes dias que passam 486

d'oliveira, 01.09.20

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Um homem bom, decente, corajoso, culto

e um grande amigo

mcr, 1 de Setembro de 2020

Morreu hoje, o António Taborda. O nome pouco dirá às novas gerações mas diz muito, muitíssimo, à minha. O António conheci-o em Coimbra, logo em fins de sessenta, era eu caloiro e ele já por lá andava há muito. E andou ainda alguns anos, metido em tudo o que era teatro actividades culturais e associativas. Em 61/2 fez parte da Direcção Geral da Associação Aadémica e por isso foi expulso  de todas as Universidades por dezoito meses (dois anos lectivos!!!) por na, qualidade de membro da DG , ter sido um dos orgnizadores do 1º Encontro Nacional de Estudantes, em Coimbra e, mas  não era explicitamente dito, por, na mesma qualidade, ter sido um dos dirigentes da crise académica de 1962 em Coimbra.

Voltou à Universidade e ao convívio dos seus muitos amigos e voltou ao Teatro Universitário tendo sido meu companheiro no CITAC . Encontrei-o, mais tarde, no Porto já advogado e muito lhe devo em bons e leais conselhos quando comecei a advocacia. Fomos companheiros em tudo o que mexia na defesa de presos políticos, de estudantes acusados de participar nas crises que sacudiam periodicamente a niversidade do Porto, a partir de 70.

E estivemos juntos antes do 25 de Abril, quando isso era dificil e solitário, na resistência ao Estado Novo. Depois, cada um seguiu o seu caminho mas sempre amigos e solidários no projecto de defender a Democracia e a Liberdade mesmo se de pontos de vista diferentes mas nunca antagónicos. 

Ainda há alguns anos, tive a possibilidade de moderar  uma evocação das lutas estudantis em que ambos participamos sendo ele o encarregado de falar de 62 em Coimbra. A vida, o facto de vivermos em zonas distantes um do outro, não nos deram muitas hipóteses de nos reunirmos com a frequência que eu desejaria e que, tenho a certeza, também ele gostaria. 

A lei da vida, e da morte!, separa as pessoas mesmo que elas o não queiram. Agora, só a recordação dele me acompanhará. Uma boa e terna recordação de alguém a quem por brincadeira eu chamava Tarzan, porquanto havia nesses anos da nossa comum mocidade, um atleta de luta livre que era chamado "Tarzan" Taborda. Ora o António, mais que duvidoso amante do desporto, era também ele grande, daí o apodo.

Para a filha e, sobretudo, para a minha muito querida amiga Fernanda, um beijo, muitos beijos. E a certeza que que o António deixa um exemplo de integridade, de boa disposição e de dignidade que perdurarão.   

estes dias que passam 485

d'oliveira, 19.08.20

no Minho 

mcr, 19 de Agosto

 

No coração do Minho Entre Barcelos e Ponte do Lima, sob a chuva e com vista para um mar de milho. Não será à sombra deste, que está verde, muito verde, que namorarei alguma cachopa. A CG desespera com este inverno no meio do Verão que, aliás já se anunciava, ontem, no Porto, quando partimos. A minha vontade secreta seria atribuir ao Covid, à sr.ª ministra da Segurança Social, ou ao “camarada” Lukaschenko este arreganho invernoso que se já é difícil de suportar quando estamos em casa, é pior em férias. A minha enteada, sempre prática, corrige: trata-se de uma depressão, a depressão Helena e amanhã já estará longe. Estará? Eu, nas previsões meteorológicas, estou como os sábios sobre o Covis: sim, não, oh quem dera. De todo o modo, preveni-me, Vim armado de computador, digo de computadores. Este e um antiquíssimo i-book G-4 onde jogo bridge. Esta é uma história antiga e surpreendente. Há muitos anos (25 talvez) encontrei o “microbridge companion (Bridge Baron) que ainda se vendia em cassetes. Instalei-o em apples compatíveis e perdi o diabo da cassete. Nunca mais encontrei uma versão seguinte e melhorada do jogo e, por isso, conservo os computadores onde ela foi instalada pois, por razões misteriosas, não é possível transferir o jogo para computadores mais recentes. O que me apareceu (e comprei em Paris, no Club de Bridge Français) foi o Bridge Baron 25 (instalado neste computador, mas pouco usado que, francamente, é inferior à versão qantiga muito mais fácil de usar ecom mais alternativas e possibilidades). Por esta razão ainda transporto o matacão do i-book, coisa que arrepela o sr. Rui Silva meu competente salva-vidas de computadores: “ Senhor dr., isto é do século passado!” –“Também eu!”

Com isto, aguento quaisquer férias perdidas pela chuva. Vieram, também, meia dúzia de livros, uma mão cheia de folhas manuscritas do inventário de cds para passar a limpo. Com isto, não vento nem chuva que me desanimem, Nem a ausência do “Público” no café onde hoje fui por uma bica, Havia sete ou oito títulos mas o “Público” não chega aqui. Paciência... que estamos em férias...

estes dias que passam 484

d'oliveira, 17.08.20

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Os dias da peste

Jornada 150

The end

mcr,17 de Agosto

 

this is the end...

... the end of laughter and soft lies

the end of nights we tried to die

this is the end.

 

Chega ao fim esta série de textos que foi diária durante praticamente cinco meses e que constitui, também ela, um quase diário meu que nunca fui pessoa de escrever um diário. A preguiça, esse feio pecado capital, nunca foi vencida e grande espanto é ter, durante cento e cinquenta dias, aguentado este fardo que por vezes, não muitas, foi difícil de levar.

Agora, quando o tempo está insuportável quase invernoso, vou para férias. Não para as que projectara mas para as possíveis, no interior (logo eu que sou da praia!), numa casa que me garantem agradável, com ar condicionado, wifi, piscina, paisagem idílica no meio do verde Minho, perto de tudo o que preciso, desde jornais a um café decente. E com a família mais chegada que agora gira à volta do Nuno Maria que está que ferve. Pelos vistos, agarrou em toda a sua roupa, meteu-a numa mala que apanhou a jeito e passeia essa pesada bagagem pela casa dizendo que vai para férias. Temo que, na descrição haja algum exagero que um petiz de dois anos e meio não é assim tão desenvolto. Se a família lê isto, estou frito!

As férias, mesmo estas, são um bom pretexto para cessar essa tarefa diária, fundada longinquamente no senhor Bocácio que da peste de Florença tirou um dos grandes livros de sempre. Fique claro que não me comparo seja de que maneira for a esse príncipe das letras. A única parecença é eu ter imitado o sub-título “jornada” que achei mais do que adequado ao dia a dia que vivi tentando chegar a um par de leitores. E foram bem generosos alguns deles que além de terem tido a trabalheira de me lerem, me escreveram simpaticamente. Bem hajam!

Para este último texto eu gostaria de ter coisas interessantes a relatar mas a realidade pode muito e não é assim tão gentil. A começar pelas estatísticas sobre o SNS tão falado pelos seus entusiastas mais fanáticos. Se é verdade que o SNS é uma boa, muito boa, ideia, também não deixa de ser verdade que, para acudir à emergência covid, muito ficou por fazer, O “Público” de hoje noticia que há mais de cem mil utentes que já esperam (e desesperam) há mais de um ano por consulta e, pior, por uma intervenção médica. Há zonas do país onde, pura e simplesmente os atrasos se medem em anos, mesmo se, por serem zonas do interior, não seja enorme o número de utentes afectados. Todavia, são portugueses, como eu , como vocês leitores eventualmente citadinos e do litoral. E são cidadãos mais desprotegidos, mais frágeis, mais pobres, mais abandonados.

Por outro lado, houve, e já está provado, um forte aumento de mortes (extra-covid) em relação a períodos idênticos do ano passado. A coisa andará pelos quatro mil o que não é despiciendo. Porém, o mais intolerável é a afirmação da certas “autoridades” da saúde (incluindo ministeriais) que atiram para o calor excessivo o aumento da mortalidade. Só que quatro mil mortos de calor é numero em que ninguém honrado acredita. É uma mentirola que, ainda por cima, tenta fazer de nós todos uns parvos, uns trouxas, uma espécie de sub-gente!!! Irra que assim é de mais!

A segunda notícia com foros de escândalo é o discurso do sr. Jerónimo de Sousa, abundantemente visto nas televisões. Já nem refiro a arrogância mas tão só a esfarrapada desculpa de que aquilo, a “festa” é, fundamentalmente, um acto político que por isso mesmo não pode ser condicionado pelas medidas de prevenção sanitária em curso. A segunda intrujice é a de que a “festa” não tem nada a ver com a recolha de fundos para o “partido”. Por pouco, ainda diriam que, coitados, até perdem dinheiro... A terceira que seria cómica se não fosse cínica é a ideia de que a festa é feita para transmitir esperança!

A quarta é insistir que este ajuntamento (já reduzido a 30.000 pessoas) se realizará com distanciamento social como se fosse possível – mesmo que formalmente se façam no chão divisórias pintadas- evitar que as pessoas se juntem e confraternizem.

Depois, o PC (e Jerónimo) voltam à velha técnica de serem perseguidos por todos quantos entendem a situação irresponsável. Querem homiziar o PC! Querem confiná-lo!

E falam nos “festivais” que, entretanto, se estariam a realizar. Onde? Quando? Com que participantes?

E nas praias que, “e muito bem” (sic) estariam demasiado cheias. Eu ainda não vi nenhuma praia cheia. A televisão, sempre atenta ainda não deu sinal de tal escândalo mesmo se, é legítimo suspeitar que, alguma(s) vez(es) uma que outra praia possa ter tido, momentaneamente, mais gente do que seria razoável. Só que, nesses casos, se os houve, trata-se de movimentos desorganizados de pessoas e não de algo tão disciplinado quanto os futuros festejadores da Atalaia.

Há quem diga que esta atitude de continuado desafio serve para, no momento preciso, o PC poder denunciar mais um atentado à democracia e à liberdade de que ele, como é sabido, é o único e vero campeão.

Outros afirmam que este tipo de declarações tonitruantes são apenas uma dura pressão, diga-se uma chantagem, sobre a DGS e restante comandita.

Ou ainda, uma maneira de descolar da geringonça ou de tornar mais caro o acordo que Costa quer.

A única coisa que o PC não pode dizer é que o estão a isolar. É o PC que se está a isolar e de que maneira! É provável que o autismo dominante nessa organização não permita dar por isso mas esse é um problema deles e não do país e dos milhões de pessoas que, sem vontade, com pouca ou nenhuma alegria e rara esperança, vão cumprindo as regras de distanciamento, aturando as máscaras e o mais que aí vem.

* a citação é, obviamente, de "the end" de Jim Morrisson (e um pouco) dos Doors, cantor e grupo míticos e da minha geração. 

** a vinheta: é um quadro de John Waterhouse e, há que dizê-lo, não está à altura da obra de Bocácio. Teria sido preferível uma imagem do filme (da extraordinária trilogia de Pasolini, claro) mas não encontrei nenhuma a meu gosto. 

 

Alguém entendeu pôr um desconchavo imbecil e ultra-reaccionário no meu texto 479! Eu respondo a tudo mas tem de ser a algo que diga respeito ao que escrevo. O que não é o caso. Portanto, recuso o texto mais por cretino do que por reaccionário. E por ininteligével e mal escrito. 

estes dias que passam 48'3

d'oliveira, 16.08.20

Os dias da peste

Jornada 149

Os relatórios são meros papéis

mcr, 16 de Agosto

 

 

Não conheço a Sr.ª Ministra da Segurança Social de lado nenhum e, até há pouco tempo, nunca tinha ouvido falar dela nem da sua carreira na área do turismo. A nomeação para ministra não me surpreendeu pois, de há muito, que me habituei a este género de malabarismos em que alguém com conhecimentos fortes num sector vai para outro que não parecia ser a sua chávena de chá.

Eu não sou dos que entendem que para ser ministro de um determinado sector se deva ter uma forte preparação nesse campo mas não tenho nada contra a escolha de técnicos capazes e conhecedoras para tutelar uma área em que sejam especialistas.

Parece, porém, que a escolha da dr.ª Godinho para um ministério tão sensível como este se deve mais a razões políticas e ao facto de Costa querer ter aí alguém em que ele possa mandar. Será assim?

De todo o modo, a dr.ª Godinho lá foi regendo discretamente o seu ministério que, nos tempos próximos passados, registava um digno torpor próprio dos anos sem grandes problemas imediatos. Que eu visse, o Ministério, não sofreu nenhuma transformação importante mas, também isso, se tudo continuasse a correr de feição, podia esperar. Uma ministra novata deve ter cuidados extremos que aquilo, o labirinto da Segurança Social, tem muito que se lhe diga. Nem vale a pena falar dos interesses instalados, da pressão sindical, das guerras corporativas travadas por diferentes sectores de funcionários. Só isso dava para três crónicas...

Todavia, o vírus, sempre ele, veio interromper o meigo ronronar do Ministério e interpelar violentamente os seus deveres de tutela, mormente nos lares de idosos.

Não gostaria de falar da minha experiência neste assunto, porquanto ela limitou-se a um breve período de alguns meses em que, tive de intervir numa Misericórdia e, por arrastamento. no lar por ela (mal) gerido. Foi, de certa maneira, o último desafio, não mais complicado que outros, mas com maiores implicações na vida de pessoas. Não digo que a pequena batalha, mais guerra de guerrilha continuada, tivesse sido sempre fácil, não foi, mas consegui ganhar alguns apoios desde a autarquia até aos poderes eclesiásticos e ter um vago apoio de muitos “irmãos” afastados violentamente pela Direcção que se apoderara da Instituição.

Nunca respondi aos desafios dos titulares da Misericórdia que, freneticamente, se esforçavam para me encontrar e, eventualmente, enredar num conflito que não era meu, não era dos utentes nem do interesse público. A ideia era isolar essa Direcção que aliás fazia tudo para isso, e depois, com rapidez e segurança e respeito pelos internados no lar, varrê-la definitivamente. O que foi feito para gáudio dos jornais locais e nacionais e da televisão que me imortalizou trepado a um muro a discursar às massas.

Não vou dizer o que encontrei pois não encontrei nada. Dinheiro evaporado, vendas de bens imóveis sem qualquer autorização, actas desaparecidas, pessoal sem contratos, uma necessidade extrema de recorrer ao Banco alimentar. Felizmente, terei caído no goto dos poderes locais e de alguns filantropos de modo que, dois dias depois, de ter expulsado a anterior direcção, já exonerada pelo bispo (que tardou mas lá se resolveu), já tinha em meu poder uns bons milhares de contos (dos antigos, pré euro) e pude ir-me embora, regressar à minha instituição de origem, a Segurança Social. Tudo isto depois de ter entregue no Tribunal que me nomeara um relatório final. A breve fama adquirida, alguns louvores da autarquia e de personalidades da terra bem como do Tribunal granjearam-me a sólida desafeição do pobre diabo que geria a minha instituição. Foi o momento em que decidi que o que era demais, era demais e preparei a minha saída daquele mundillo mesquinho.

Na minha vida, bati várias vezes com a porta e não me arrependo de nenhuma. Os tempos foram-me dando razão, o meu número de amigos aumentou, continuei a dormir bem só me faltou enriquecer.

Portanto, ao recordar o mau passo da ministra que não lê relatórios sei do que falo se isso refere lares de idosos, designação simpática de depósito de cadáveres adiados.

(parece que agora a afirmação da ministra – não tinha (ainda) lido um relatório da Ordem dos Médicos sobre um lar onde pereceram, até ao momento. dezanove pessoas, está agora a ser modificada. Que a publicação onde isso foi tornado publico, “descontextualizou” o brilhante depoimento ministerial, enfim o costume. Em Portugal, descontextualiza-se à fartazana, um horror, um hooorroooor!!!

Curiosamente, nunca nenhuma das vitimas da descontextualização entendeu pregar com um processo nas ventas do agente malvado que a pôs, sem mais nem menos, inocentemente, a descontextualizar... Mistérios da política nacional...

Esta tempestade, em plena silly season, pode ser de curta duração. O futebol (ai aqueles 8 a 2 contra o Barça!!!, o que os de Madrid se devem rir, mesmo se nem a este estádio da Champions chegaram), a façanha (e digo-o, uma vez sem exemplo, com respeito, simpatia e admiração) do nadador salvador Marcelo Rebelo de Sousa (MRS é o 2º Marcelo a salvar alguém no mar. Este modesto Marcelo, vai para sessenta e tal anos, salvou na praia da Figueira uma jovem que era a namorada do grande ciclista Alves Barbosa. E tive a honra insigne de ser abraçado por ele – teria preferido a namorada. Mas enfim...- e de durante muito tempo ter tido o privilégio de usar as bicicletas do estabelecimento de aluguer das mesmas, do seu pai, à borla! Bem que me aproveitei!)

Convenhamos, já que estamos de regresso à leitura do relatório que da afirmação só uma coisa se salva: o facto da confissão. Todavia, isso, não chega, que raios! Morreram dezoito ou dezanove criaturas, provavelmente à beira do passamento, seguramente doentes, porventura imprestáveis e já sem vontade de votar, mas sempre eram 18 ou 19 almas de Deus, tinham filhos, netos, parentes que agora, desconsolados, verificam que a ministra da tutela nm concedeu aos seus tempo de leitura, meia hora, uma, talvez.

Há partidos que pedem a cabeça da dr.ª Godinho. Não conseguirão nada. Costa só empandeira alguém quando corre o risco de ser devorado na voragem. A dr.ª Godinho não deve ser do género daqueles antigos políticos que entendiam um gesto de demissão como uma prova de honradez e de arrependimento. Ela, coitada, não leu. E pronto.

E, provavelmente, voltará a não ler só que da próxima terá o cuidado de o omitir.

“ler é maçada, estudar é nada”. Se Fernando Pessoa o disse que há de uma ministra acrescentar, mesmo que nunca o tenha lido – como ele implicitamente- aconselha?

Basta-lhe ser Ministra. E enterrar os mortos. E cuidar dos vivos como mandava o sr. Marquês de Pombal.