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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

10
Ago19

Estes dias que passam 331

d'oliveira

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Há aqui alguma coisa que não bate certo!

mcr 10.Ago.2019

 

Afinal quanto é que ganha um motorista que transporta matérias perigosas? Anda por aí uma informação que atira para os 1850 euros limpos o salário mensal desses profissionais. Será?

Ora vejamos como é que se chega a tal soma.

Salário base ........ € 600

diversos subsídios.... 400 (perigosidade -200; outros - 200)

ajudas de custo (contra factura ou recibo).... 850

Se assim é, e é assim, temos que para efeitos de subsídio de doença ou reforma o que conta é o salário base. O resto esvai-se com o fim da actividade.

Mas há mais: os miríficos 850 euros referentes a ajudas de custo (comidas e dormidas) são pagos contra recibo ou factura. É verdade que nisto anda genericamente muita marosca. Todos os que podem metem estas despesas para cálculo do IRS e similares. Vejo isso sempre que almoço ou janto com amigos que têm pequenas empresas. Mesmo se o encontro é a título meramente particular o meu almocinho junta-se ao deles para esse efeito nos impostos a pagar.

Mas há mais: essas ajudas de custos pagam-se a todos? E pagam-se dentro ou fora do país? É que uma coisa é almoçar num modesto restaurante cá e outra é fazer o mesmo em qualquer outro país. A mesma coisa ocorre com as dormidas.

E só a quem tem de comer ou dormir fora é que cabem estas abençoadas ajudas de custo ou há o hábito de as dar a todo e qualquer cavalheiro que pegue no volante do camião cisterna? Então para que servem s facturas ou os recibos exigidos?

O uso da soma de 1850 euros parece pois ser mais outra insidiosa arma de arremesso contra estes profissionais grevistas.

Em segundo lugar, sabe-se que para ser qualificado como motorista apto para este tipo de transportes há que fazer uma formação que dura no mínimo 150 horas (norma europeia) e que custa cerca de 700 euros. Quem paga esta formação? O condutor ou a empresa?

Mas, mais uma vez, ainda há mais: o Governo anuncia triunfante que deu uma formação a militares, polícias e guardas republicanos para substituir os eventuais grevistas. Pergunta ociosa: essa formação obedeceu às estrictas regras europeias?

O número de agentes da autoridade adiantado pelo Governo atinge as cinco centenas! Quinhentos? Quinhentos quando em todo o país ao longo de todos estes anos apenas há oitocentos detentores da tal formação?

Os sindicatos e a própria ANTRAM entendem que esta duvidosa e perigosa solução não deve ser utilizada. Sejam quais forem as razões, há a clara desconfiança e o evidente receio de que algo corra mal. Se assim for a quem atribuir as culpas? (a resposta mais óbvia será a de culpar os grevistas, claro mas parece duvidoso que alguém de bom senso a considere)

Uma terceira observação que atinge a argumentação do Governo, do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral e muita luminárias que a tem difundido:

Esta greve prejudica a população. Por isso deve ser limitada a quase nada através do reforço dos serviços mínimos, da requisição civil e da parafernália de argumentos que baseiam a declaração de cris energética

Peregrina opinião! Então as greves beneficiam alguém? Quais são as que não prejudicam ou os patrões (e essas quase só ocorrem no sector privado e são raras) ou a comunidade? Tomemos como exemplo as sempre louvadas greves dos transportes tão comuns que foram durante o anterior governo. Quando não há comboios, metropolitano e transporte rodoviários centenas de milhares de trabalhadores vem-se numa aflição: como chegar aos empregos à hora estipulada? O mesmo sucede com as greves dos transportes fluviais no que toca a Lisboa. Alguém viu os cavalheiros do PS, hoje governantes, a propor medidas eficazes para prevenir os efeitos de uma greve (capitaneada pela CGTP com a normal cumplicidade da UGT) que torna seus reféns os trabalhadores mais humildes e expulsos da cidade para os subúrbios cada vez mais distantes pela desenfreada corrida à especulação imobiliária que permite transformar bairros inteiros em hostels, quartos bnb e outras empresas de alojamento local ?

Então aqui já não há um claro ataque à comunidade, pelo menos a uma esmagadora parte dela, a mais pobre, a mais desfavorecida a mais dependente? Vi, ouvi, (ontem, sexta-feira) brevemente e enojado, um senhor professor de uma dessas múltiplas faculdades de Direito lisboetas a afirmar sem corar essa barbaridade. Uma coisa é a greve contra a comunidade (esta eventual dos motoristas) outra as boas e saudáveis greves que assolaram o país e trouxeram aos que as suportaram um rosário de dificuldades, aflição e sofrimento persistentes.

Eu não gosto do sr. dr. Pardal Henriques. Todavia, não culpo o sindicato por recorrer aos serviços dele. Ao fim e ao cabo, outros e mais poderosos sindicatos tem ao seu serviço poderosas organizações políticas e sindicais pejadas de juristas e com uma imprensa fiel às ordens.

Mas as organizações sindicais clássicas (e correias de transmissão de partidos políticos) são intocáveis. Pelo contrário, esta recente criação de dezenas de sindicatos que fogem a essa lógica político-sindical são olhadas com desconfiança e alvo de todo o género de ataques. Há que abatê-los depressa não vá o exemplo alastrar e mais e mais trabalhadores tomarem o seu destino nas suas mãos. É que em Portugal trabalhador só é aquele que tem o cartãozinho certo e que corresponde à “narrativa” cada vez menos hegemónica dum progressismo serôdio e cada vez mais desviado das suas reais e antigas e boas raízes.

Depois admiram-se de verem proliferar por todo o lado movimentos populistas. E por verem desaparecer os partidos tradicionais da Esquerda (veja-se apenas o que se passa em França onde o PC e o PS são meras pequeníssimas caricaturas do que ainda há uns anos foi um movimento que, com todos os seus defeitos, conseguia levar à Presidência da República o senhor François Mitterrand.

Hoje, e sempre no mesmo país, os antigos bastiões do PC são agora o viveiro farto e viçoso da extrema direita. Vejam onde é que a senhora Le Pen consegue os seus melhores resultados. Vejam e comparem com a geografia eleitoral de há 60, 50 ou 30 anos.

Onde é que andam o poderosíssimo PC italiano (o de Togliatti ou Berlinguer) ou o espanhol mesmo o de Carrillo). Que se passa com o SPD alemão, em queda livre e em risco de ser ultrapassado pela reaccionária “alternativa “ em número de votos?

Dir-se-á que, à falta destes partidos tradicionais, oriundos das IIª e IIIª Internacionais, isto é com mais de cem anos, apareceram os Siriza, os Podemos, o Bloco, ou o patético senhor Melenchon. Aparecer apareceram mas nada mais incerto do que o seu futuro. O Siriza naufragou dilacerado por dentro entre um programa maximalista e a horrenda realidade. Nos destroços ficou, entretanto, o PASOK, partido socialista grego hoje desaparecido em parte incerta, como ficaram também os dois irreconciliáveis inimigos que se disputavam o título PC. O Podemos prosperou onde antes existia o PCE e mantem-se (ainda que perdendo votos) numa Espanha onde os movimentos irredentistas retiram apoio aos partidos históricos. O PSOE é agora o primeiro partido muito graças à fractura que o VOX provocou na Direita clássica que já vinha sendo acossada pelo Ciudadanos. Por cá há muito que o PC estiola e defronta nas cidades grandes uma pequena minoria (sem base autárquica ou sindical) que ganha as simpatias de uma amálgama de movimentos provenientes de antigas dissidências e que, pelos vistos, parece atrair pela “novidade”. Curiosamente, é este partido o único que de forma elíptica e mais do que prudente não condenou os motoristas.

Finalmente, uma última nota: no momento em que escrevo (são dez da manhã) não se sabe se a greve é de manter ou se os plenários de trabalhadores a desconvocam. Seja qual for a decisão, a balança está desequilibrada. O Governo, a Justiça, a opinião pública, todo o patronato e as bos consciências onde se recrutam os famigerados comentadores televisivos já lançaram o seu anátema sobre esta acção. Que não é oportuna, diz-se porque é Verão, as férias no Algarve são sagradas, os emigrantes estão a chegar coitados e cheios de saudades, e há a peregrinação a Fátima (por acaso esta é a menor das três grandes que se realizam -Maio, Agosto e Outubro – Diga-se em boa verdade que Fátima, no que toca a deslocações de fieis, costuma ser notícia pelos milhares de católicos que fazem o caminho a pé. Desta feita devem vir de carro... E há o argumento final dos turistas que, enfeitiçados por Portugal, nos visitam. Lembro, porém, que esses se ficam sobretudo por Lisboa. Algarve, e Porto. Mas dá jeito vê-los a infestar todo o país e a espalhar pardaus por todas as terras de Basto...

*a ilustração: capa do grande (e perseguido) jornal A Batalha durante uma das muitas (e ferozmente reprimidas) greves durante a Iª República. Por essas e por outras razões nem um operário se levantou em armas contra o passeio militar (Braga-Lisboa) de Gomes da Costa a 28 de Maio

 

01
Ago19

Estes dias que passam 330

d'oliveira

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Trapalhadas, trapalhices e trapalhões

mcr 1/8/19

 

Comecemos pelo mimoso caso das golas anti incêndio. Primeiro, falou-se do perigo dessas protecções contra incêndios (melhor dito contra fumo) se incendiarem. O Governo, pela voz daquele cada vez mais surpreendente Ministro da Administração Interna, começou por desvalorizar. Perante a alarmada e desconfiada gritaria, Sª Exª deu um pinote de 180 graus e pediu um inquérito “urgente”. Esta famosa urgência sobretudo em Agosto põe a apresentação do mesmo lá para bem depois das eleições...

Depois, alguém veio afirmar que afinal as golas não se incendiavam. Apenas, e graças o calor, ficavam repletas de buracos. S.ª Ex.ª e apaniguados uivaram de alegria: Estão a ver? Não se incendeiam...

Pois não. Apenas permitem a entrada livre de fumos. Não se morre assado mas sufocado! É outro conforto...

E cmo é que apareceram estas máscaras milagreiras? Pois através de um assessor ministerial que depois de exercer ,supõe-se que meritoriamente, o ofício de padeiro se alçou a assessor. É o elevador social a funcionar a todo o vapor! O homem já foi, provavelmente para outra ocupação igualmente paga. E quem forneceu (sem concurso público!) as golas? Pois o marido de uma senhora autarca socialista. Depois de uma consulta a algumas empresas (duas delas juram a pés juntos que nunca ninguém as consultou...)

E o preço? Como foi uma grande quantidade, o fornecedor disse, sem corar, que isso aumentou o preço unitário!!! Que é superior a quaisquer outras golas não incendiáveis (grave defeito!) também no mercado.

 

2 Uma lei vinda do fundo dos tempos (quem se lembra do sr. Fernando Nogueira herdeiro de Cavaco na era pré Guterres, outro fantasma) proibia a familiares directos (cônjuges, pais, filhos ou irmãos) de membros do Governo fazer negócios com o Estado & assimilados. Pelos vistos, ninguém deu por ela durante estes sumptuosos trinta anos. Agora o Parlamento descobriu a coisa e emendou a mão. A nova lei aplicar-se-á dentro de poucos meses. Entretanto há uns tantos ou quantos familiares (um filho, um marido e não sei quem mais) de governantes que fizeram tais negócios. Se é verdade que uma demissão do governante tem pouco sentido não menos verdade é que o negocio é nulo. Um ilustre jurista, esposo amantíssimo de uma governante disse alto e bom som que se estava nas tintas e que continuaria a fazer os chorudos negócios. Ora toma! E é ele licenciado em Direito e permanente presença nos media sempre a arengar virtudes democráticas!

No meio disto tudo, o dr. Costa primeiríssimo ministro, pediu um parecer ao Conselho Superior de Magistratura. Quando o parecer aparecer já a nova lei estará em vigor. Alguém, por aí, falou em manobra dilatória?

 

O mesmíssimo e primeiríssimo dr. Costa perante o fogo de Mação veio lembrar que compete aos autarcas (aliás, ao autarca ppd de Mação) a primeira responsabilidade. Parece que essas criaturas são os responsáveis locais da protecção civil. Num momento de tragédia, S.ª Ex.ª sacode a água do capote e vira-se contra o único defensor daquela pequena e interiorizada vila. Ainda por cima, o plano de Mação andava pelas gavetas ministeriais à espera de aprovação. E mesmo que já estivesse aprovado, onde é que Mação tem meios, recursos e dinheiro para fazer mais do que faz?

As acções ficam com quem as pratica, sobretudo as feias. E esta nem feia é. É medonha e indecente. E, sobretudo, absoluta, e absurdamente, injustificada.

 

Há muitos, muitos, anos, um autarca chamado Rui Rio queixou-se da imprensa ao dr. Jorge Sampaio, na altura Presidente da República. Ainda hoje, ninguém percebe que é que um alto magistrado como este tem a ver com a Imprensa, os seus direitos e deveres, abusos incluídos. Rio queria uma nova censura?

A partir daí, tirei-lhe a bissectriz, escrevi um texto sobre o assunto (que deve andar publicado neste blog) e nunca mais me ocupei da criatura. Um escriba, mesmo este, tem o direito de não se incomodar nem incomodar os leitores com este tipo de mediocridades. Rio lá foi governando a cidade, um pouco à medida de Centeno. Tudo pelas finanças públicas, pouco pelo resto e quase nada pelo que pomposamente se chama “cultura”. Pelo caminho, zangou-se com Meneses (o tal que bramava contra os sulistas elitistas) e tapou-lhe o caminho para a Câmara do Porto. Às vezes as pequenas sacanices tem bons e inesperados resultados. Meneses perdeu fragorosamente as eleições autárquicas o que foi uma sorte paraos portuenses. Todavia, agora, estas duas luminárias reconciliaram-se numa escolha atabalhoada de candidatos às legislativas. Que pena Santana ter partido a loiça e saído. Com ele ficava completo um trio impossível de imaginar.

Costa pode dormir descansado. Com este adversário não precisa de mais nada. Estou cheio de pena da menina do Bloco e do dançarino de salão do PC. O verdadeiro parceiro de Costa é RR (Rui Rio não Rolls-Royce, claro). Nunca votei no PPD, nunca o apreciei mas custa ver um partido à deriva sem rei nem roque mas com Rui e com Rio. O que finalmte parece ser a mesma (e pouca) coisa.

02
Jul19

estes dias que passam 327

d'oliveira

 

as injustiças do ensino 

mcr (Junho 2019)

Uma comissão, mais uma, descobriu (oh pasmo tremendo! Oh surpresa inenarrável!!. Oh, Oh, oh, oh três vezes oh!!!) que os filhos dos mais instruídos tem mais possibilidades de frequentar cursos de prestígio do que os filhos das classes menos afortunadas do ponto de vista da instrucção!...

Ai, pobre de mim, que profeta em terra própria, descobri essa amarga verdade quando acabada a escola primária vi que apenas mais dois colegas iam comigo para o liceu e outros tantas para a Escola Comercial e Industrial. Os restante trinta e tal iriam engrossar as tripulações das bateiras, lanchas, traineiras, e arrastões que aquela praça armava. Isto significava que nós os três (2 filhos de médico, e 1 de industrial) nos destinávamos a uma profissão nobre (e mais bem paga) enquanto os da Escola teriam a sorte de ser empregados e comércio ou electricistas, carpinteiros ou marceneiros, de todo o modo um eventual progresso naquela população quase só feita de pesadores e mineiros.

Durante os quatro anos de primária já tinha descoberto que só na nossa casa havia livros, coisa tão natural como sapatos (também só na nossa casa) e uma empregada doméstica que na altura se chamava criada de servir. (a propósito, as criadas de servir da minha infância, eram quase da família e nós mantivemos com todas – já não resta nenhuma – laços de amizade e de certa familiaridade. Para várias, eu e o meu irmão fomos sempre “os meninos” tratados por tu como Deus manda sendo que uma, a saudosa Deolinda, ao visitar-me muitos, muitos, anos depois me disse Ai Marcelito como tu cresceste. Pudera não que a coisa ocorreu quando eu tinha já quarenta anos!).

Parece que a dita comissão descobriu que 68% dos filhos de médicos, advogados e engenheiros frequentavam cursos prestigiados na Universidade. Em contraponto outros tantos 60 ou 70% de filhos de cidadãos com instrução não universitária andariam no politécnicos e em cursos menos ribombantes!

A comoção que esta descoberta da pólvora seca provocou deu azo a discussão na televisão onde circunspectos cavalheiros e damas da nossa melhor inteligentsia progressista bramiram que faltava cumprir o 25 de Abril.

Por acaso, mero acaso, claro, foram estas mesmíssimas criaturas que aplaudiram com as duas mãos a baixa generalizada de propinas universitárias não cuidando de distinguir ricos de pobres. Com um pouco de imaginação poderiam antes ter criado mais e melhores bolsas para estudantes oriundos de meios menos favorecidos de modo a que estes pudessem enfrentar as despesas de uma universidade, sobretudo no domínio do alojamento. Com a mesma escassa imaginação poderiam pensar em seguir (desde os primeiros anos de escolaridade) os alunos que se distinguissem, fornecendo a estes meios especiais de vida para poderem competir com os meninos oriundos de famílias mais privilegiadas. Com mais uma pisca de imaginação poder-se-ia criar um sistema especial de bolsas para permitir que estudantes vindos de meios menos afortunados frequentassem os tais famosos colégios de elite que obviamente preparam os seus alunos para as melhores escolas nacionais e internacionais. Porque é no ensino dito secundário que a selecção ainda pode ter sucesso e permitir que o elevador funcione.

É evidente que, para se detectar com a maior rapidez e brevidade o talento, haverá que criar provas de aferição sérias que ultrapassem a trapaça do ensino actual onde o sucesso de todos, ou quase, esconde as diferenças e a ignorância e permite a injustiça que, depois, é alvo de queixume.

Também não deixa de ser evidente que entre uma casa onde há livros e outra sem eles o mais provável é que na segunda o nível da exigência familiar seja menor. E o da esperança num melhor destino, idem. Ou da ambição!

Enquanto houver ricos e pobres (ou ricos e menos ricos) haverá diferença no destino dos filhos. Provavelmente, porque são diferentes o meio cultural, a ambição, as relações familiares, a ideologia de classe, os preconceitos, os hábitos. Nada disto é redutível a qualquer espécie de igualdade natural ou forçada. Não o foi em nenhum regime pretensamente igualitário (nem vale a pena falar da utópica União Soviética onde a classe dirigente se governou e onde os aparatchiks guardaram ciosamente para si e para os seus todos os lugares valiosos. O elevador social nunca funcionou e nos casos raros em que pareceu ter importância, foi a ambição e o zelo partidário que deram a um escasso número de militantes fieis (e mais papistas do que o Papa) um lugar diferenciado do da maioria esmagadora da população e mesmo da maioria do Partido.

Nos EUA, as minorias só chegam às universidades mais prestigiadas graças fundamentalmente ao mérito desportivo e a quotas impostas. De longe a longe, alunos distintos do secundário conseguem o mesmo, obtendo bolsas de estudo dos próprios estabelecimentos universitários. Yale ou Harvard, para não citar uma vintena de outras grandes universidades, tem custos proibitivos e para um pobre mesmo com excelente preparação escolar a entrada é semelhante à da parábola bíblica do buraco da agulha. Aqui, entretanto, são os ricos que entram no “reino dos céus”.

As lacrimosas constatações da comissão e de um quarteirão de personalidades comentadoras e putativamente generosas esbarram num pequeno problema: soluções! Soluções simples, evidentes, democráticas. Soluções que garantam, após aferição séria, que os bons alunos conseguem, mesmo sem meios de fortuna, frequentar as melhores escolas (públicas ou privadas) e levar a cabo um percurso educativo valioso e libertador. Provavelmente, seria melhor criar condições para a existência de uma verdadeira classe média que extravase da que só é alimentada pela função pública (ela própria cada vez mais dependente do poder político e das simpatias partidárias) e que ultrapasse o funil das “jotas” partidárias que dividem os poderes fácticos e políticos todos.

Sem isso, tudo é conversa fiada, sentimentalismo bacoco e caridadezinha classista

02
Jul19

Estes dias que passam 326

d'oliveira

Adalberto-LIbera-Curzio-Malaparte-Casa-Malaparte-C

 

Verão tímido, dias de preguiça

(e a morte ao longe)

mcr, Julho 2019

 

Já alguém deu pelo Verão? Estes dias de névoa matinal, temperaturas à volta dos vinte graus, sol raro desmentem o calendário. Quando era menino, nem um tempo destes me fazia perder a praia e o mar. Como se fosse (e era!) imune a estas temperaturas dúbias. Aliás o mar parecia mais quente (ou menos frio...) e a nós, os do grupo da “praia”, pouco se nos dava o mal humor do tempo. Férias eram férias, ponto final, parágrafo. E amanhã estará sol.

Será por ainda me lembrar desse “dolce far niente” que mesmo com vários textos escritos e prontos, nem um publiquei. Também é verdade que fui para Lisboa (este é um hábito mensal que consiste em visitar a minha excelente Mãe que, à beira de (per)fazer 97 anos está tão bem quanto lhe é possível. Perdeu (e isso é mais do que um desgosto, um autêntico drama) muita visão o que a impede de ler um dos seus prazeres e hábitos favoritos. Também ouve mal e anda com a ajuda de uma bengala. Mas a vivacidade está igual, mesmo quando se queixa, o humor e a auto-derisão continuam, vive sozinha (há uma empregada contratada para a acompanhar mesmo de noite mas, para já, a old lady mantem-na longe. ) e faz tudo. Só não sai de casa. Nós, os filhos, oferecemos-lhe uma cadeira de rodas com a vaga ideia de que assim poderia ir comer sardinhas assadas (e, no Inverno, cozido à portuguesa) onde isso se faz decentemente. Mas ela já não está para essas cavalarias. Vou tentar encontrar um restaurante perto onde em poucos minutos compre as sardinhas e as traga ainda quentes. Em casa ninguém consegue assar sardinhas na brasa. Nem os pimentos.

No resto, que ainda é muito, e para nós, filhos, netos e bisnetos, tudo, ela permanece. Como uma rocha!

 

E os textos no tinteiro, ou seja no computador, prontos a ser lidos por quem tiver paciência. Sairão hoje.

Mas antes, um pensamento, para o António Hespanha. Conheci-o em Coimbra, foi mesmo meu colega. Na altura não era exactamente, ou só, um militante católico. AH foi um dos rostos da Direita estudantil, fez parte das listas de Direita candidatas à direcção da AAC. Não foi o único a mudar de posição mas foi com certeza um dos que mudou com maior estrondo. Militou no PC uma boa dúzia de anos, o que, depois de Praga, do conflito sino-soviético, do gulag, de Maio de 68, é obra. Foi uma reviravolta de 180 graus.

Isso, todavia, não o impediu de criar uma obra histórica importante de exercer um mestrado de influência. O “Público” de hoje consagra-lhe duas inteiras páginas, com chamada e fotografia na primeira página e ele merece a homenagem. E não merece o apagamento biográfico e político discreto. Nós somos sempre tudo o que fizemos e pensámos. E isso nunca diminuiu ninguém.

Hespanha não foi o único intelectual de Esquerda vindo dessa Coimbra universitária de Direita dos anos sessenta. Bem pelo contrário, foram vários e relevantes os seus companheiros de percurso. Mesmo que lhes estranhemos a conversão tardia e depois de 69 (uns) ou de 74 (outros). Ou o recém-descoberto radicalismo que manifestaram. Também isso faz parte do mesmo processo de abandono de uma igreja por outra. Até se desvanecerem ambas. No meio do pântano onde tantos permaneceram, eles, pelo menos, tiveram a coragem das suas opiniões. E mais ainda, a coragem de as aabandonarem quando se deram conta da realidade.

*a gravura: casa de Curzio Malaparte, um escritor muito cá de casa, em Capri. CM é um exemplo do intelectual que mudou de opinião e disso deixou vivo e brilhante testemunho. A casa é um portento. pena não a poder mostrar melhor.

18
Jun19

estes dias que passam 325

d'oliveira

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Sim, mas...

mcr 18.06.19

 

Deve ser “esta a vez primeira” (oh recordação terna e antiquíssima dos meus companheiros de cela em Caxias, no longínquo ano de 61. A “charamba” era cantada pelo José Orlando Bretão, desaparecido demasiado cedo na sua Terceira natal deixando um punhado de excelentes estudos sobre o folclore da sua ilha) que chamo o PAN (Pessoas, Animais Natureza) à colação.

O PAN começou por parecer uma coisa simpática mesmo se para o público aquilo parecesse mais uma organização de bons sentimentos em relação aos animais domésticos. O resto, as pessoas e a natureza, era pouco visível quer nas palavras quer nas acções. De todo o modo, já se afirmava como um partido ecologista diferenciado daquela coisa chamada “os verdes” (cópia descarada de uma sigla internacional, sobretudo alemã) e que em Portugal só são verdes por fora. No resto não passa de um satélite menor do PC.

Todavia, a entrada no parlamento e a consciencialização crescente (e urgente!) de que há que dar uma volta às políticas ambientais e ao desenfreado ataque à natureza, fez emergir o PAN que obteve um bom resultado nas europeias. De certo modo, começa a ser olhado como um refúgio para os descontentes com a voracidade do PS, o conservadorismo do PC, a inércia da Direita e as farroncas do BE.

Ora o PAN desdobra-se esforçadamente em propostas às vezes irrecusáveis, outras utópicas mas sempre generosas. Dentre elas, destaca-se a da punição do descontrolado arremesso de “beatas” para a rua.

A ideia em si mesma é boa. Os restos de cigarros, mormente com filtro, demoram imenso tempo a desaparecer, atafulham sargetas, sujam praias e parques e poluem forte e feio. A propositura de multas pesadas (200€) para quem atire a beata para o chão deveria ser dissuasiva do gesto. Deveria, digo, mas não é. É que a multa depende de um agente da autoridade, seja ela qual for, que multe rapidamente o infrator. Isso pressupõe um exército (para já não falar no que generosamente chamarei de motivação. (Como a que levou umas criaturas do fisco a parar carros em rotundas para verificar se os proprietários tinham os impostos pagos...)

Eu ainda recordo um dos desportos favoritos do tempo do Estado Novo: o uso de isqueiro. Era obrigatória uma licença e obviamente, naqueles tempos insultuosos e difíceis, havia um grupo de criaturas que andavam à caça dos não licenciados.

Da mesma época, recordo também uma lei que previa multar as pessoas que atravessavam as ruas fora das passadeiras (uma inovação de finais dos anos cinquenta). E ainda uma outra disposição que obrigava as pessoas a circular calçadas. Na Figueira da minha infância as rijas peixeiras de Buarcos traziam uns tamancos (ou algo do mesmo género) atados ao pescoço e quando viam um polícia lá se calçavam. No resto do caminho voltavam ao pé andarilho e rapado.

Conviria explicar ao esforçado deputado do PAN que a multa, dissuade apenas quando está presente. Porém isso não inibe a tentação nem substitui a necessária consciência cívica que impõe respeito pelos outros, pela natureza e pela higiene (pessoal e pública).

Não deixou de ser curiosa a recepção da ideia. Houve mesmo um(a) parlamentar que achou exagerada a quantia a comparou à multa por circular acima do permitido nas vias públicas.

Recordaria ainda que vigora, desde há anos, a proibição de falar ao telefone enquanto se conduz. “Cadé” as multas ou, pelo menos, as multas pesadas e em número suficiente para fazer desaparecer essa prática criminosa?

E finalmente: se é verdade que as beatas incomodam e prejudicam, que dizer dos milhares de cães que donos devotados passeiam diariamente por todo o espaço público e que fazem o seu cocó tranquilamente? Haverá multas? Ou o respeito a outrance pelos fieis companheiros permite essa libertinagem excrementícia dado que o PAN dedica todo o seu carinho aos excelentes bichos?

A coisa (o desrespeito pelos outros peões e passeantes) é de tal ordem que quando se vê alguém apanhar o cocó do cãozinho pensa-se que estamos frente ao novo milagre das rosas. Para não ir mais longe: n zona onde moro há um jardim agradabilíssimo no meio dos prédios. A zona (classe média alta!) abunda em cães. Pois só uma vizinha nossa é que se dava ao trabalho de recolher as fezes dos seus bichos. Todos a achavam uma excêntrica!

De tudo o que venho dizendo só se retira uma conclusão: não é mais uma lei que vai modificar os (péssimos) hábitos dos indígenas. Quanto mais não seja porque está praticamente garantida a impunidade dos que desrespeitam. E as leis que se não cumprem levam ao incumprimento das outras. A uma cultura que começa nas pequenas (más) maneiras e acabam no escândalo da corrupção quase generalizada, exactamente essa que começa no desenfreado hábito da pequena cunha e acaba nos banqueiros que concedem generosas subvenções a arrivistas e bos autarcas que governam os municípios a seu bel prazer.

 

11
Jun19

Estes dias que passam 324

d'oliveira

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“l’autunno sará caldo” *

ou

As omeletas fazem-se com ovos 

mcr 11.06.19

 

(e um pouco de sal, manteiga ou óleo e, mesmo uma frigideira. Isto sem falar numa escumadeira para virar os ovos e dar-lhes forma).

Desculparão os leitores mais atentos este exórdio (bonita palavra!) mas eu só começo assim porque, se pudesse, era o que diria ao sr. Primeiro Ministro.

Eu sei que ele é um cozinheiro de mão cheia (é que a amantíssima esposo e os filhos extremosos afirmam) mas talvez com esta imagem culinária consigamos entender-nos. É que tudo isto vem a propósito dos transportes públicos que estão pelas ruas da amargura. Pode S.ª Exaª afirmar que “uma família de Sintra poupa em transportes mais de cem euros mês” coisa de que eu jamais me atreveria a duvidar pois os primeiros ministros nunca mentem. Todavia, e nisso há sempre a maçada de um “mas”, diabos levem conjunção adversativa.

Quando numa fanfarra triunfante e pré-eleitoral o Governo anunciou formidáveis descontos nos transportes, logo houve um coro de elogios e um arruído de protestos. Os pró governamentais salientavam a bondade da iniciativa e o profundo amor que ela revelava pelas classes laboriosas e periféricas. Os (obviamente invejosos) da oposição viram nisso uma pura e atempada manobra eleitoralista.

Raros foram os que saudando a ideia logo chamaram a atenção para o facto de uma descida de preços poder levar o caos a uma insuficiente rede de transportes que já rebentava pelas costuras. De facto, os comboios eram já escassos, as locomotivas e as carruagens padeciam dos males da idade avançada (avançadíssima!!!), da falta de manutenção e esta da falta de pessoal especializado há muito denunciada por sindicatos e administrações da CP.

Foi aquele extraordinário Marques (agora felizmente longe na Europa para futura vergonha nossa) quem anunciou o novo milagre das rosas. Nisto de anúncios bombásticos a criatura excedia-se, desdobrava-se, ultrapassava-se continuamente para regozijo de basbaques e aflição das oposições.

Pelos vistos ninguém fazia contas, a aritmética, terror da minha antiga escola primária, andava esquecida e as promessas valiam de per si. Os comboios hão de vir (virão?) daqui a uns anos se é que já foram contratados e encomendados. A manutenção essa depende da entrada imediata de uns centos de profissionais especializados (onde estarão? Como serão preparados e quanto tempo isso vai exigir?).

Também não há navios para a travessia do Tejo e quanto a autocarros, eléctricos ou metropolitano estamos na mesma: hão de vir como D Sebastião numa manhã sem nevoeiro mas inevitavelmente futura. E o futuro, este futuro mede-se em anos ou seja nem na próxima legislatura (cujas eleições provocaram este aluvião de novidades e de progresso) estarão por aí. O que está, é o novo preço! Indubitavelmente mais barato é verdade mas pelos vistos impraticável. Os comboios passam, cheios que nem um ovo e nem parar podem. Isto quanto aos que passam pois todos os dias as televisões anunciam supressões de composições. Prece que em Maio e só no Algarve houve 185 comboios a menos. O mesmo, com números semelhantes ou superiores, ocorreu nas linhas suburbanas de Lisboa. Quando algum chega eis que multidões desvairadas se lançam ao seu assalto. Ist parece Tóquio, o Tóquio antigo, em que cenas desse género também ocorriam e onde havia mesmo uma categoria de trabalhadores cuja missão era empurrar sem grande suavidade os candidatos a passageiros para dentro da “lata de sardinhas”.

O Metro, sempre inventivo anuncia a retirada de mais alguns assentos. De pé cabe sempre mais um. Os reis do apalpão rejubilam: agora é que vai ser um fartote!

O público viageiro e sempre ingrato protesta que as coisas pioraram e que chegar tarde ao emprego passa a ser a regra. Quando se chega, claro.

E nisto de chegar há uma linha férrea extraordinária: a do Oeste ou seja a que liga(va) a Figueira da Foz a Lisboa e servia, entre outros destinos, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Leiria. Servia, digo, e muito bem, porque agora já não serve ou só serve de quando em quando. Há estações desactivadas e há trafego ferroviário suspenso entre outras por vezes substituído por autocarros. De todo o modo, já não chega a Lisboa, ficando-se por Sintra e daí, se não houver muitas supressões (e isto é um voto pio mas fervoroso) , é aproveitar a “exemplar” linha de Sintra que, em funcionando, permitiria a cada família uma poupança (não de tempo) de cem euros por mês.

Ou seja: nesta omeleta faltam ingredientes mormente os ovos, as frigideiras são do tempo dos afonsinos e as escumadeiras não passam de uma saudade.

Isto mesmo foi dito pelo Governo que penosamente rezou uma espécie de acto de contrição e confessou alguns ligeiros pecadilhos mas que atribuiu a um finado governo anterior toda a responsabilidade!

Os governos anteriores, sobretudo se forem da oposição são muito úteis pelo menos para carregar com os pecados capitais (e mesmo com os veniais). Vamos lá a ver se o futuro Governo que se afigura da mesma cor e substância resolve as coisas. Aceitam-se apostas mesmo se a casa jogue cinco contra um na impossibilidade de, em quatro anos, se notarem melhorias. No fim logo se verá a quem se apontam as responsabilidades.

(hoje mesmo, 11 de Junho está em curso uma greve dos transportes rodoviários da margem sul. Um dirigente sindical afirmava eufórico que a paralisação estava a ser cumprida a 95% e que ninguém ou quase iria conseguir chegar o seu emprego em Lisboa. Ignoro se são transportes públicos ou privados mas relevo desde logo que uns e outros estão sob a mesma tabela e que se isso ocorre em empresas privadas bom seria perguntar ((mesmo se isso me parece pura retórica pois estou convencido de que não)) se os patrões já receberam do Estado a compensação pelo grande desconto que efectuam em cada viajem).

Uma medida pode ser boa em abstracto (e esta é-o) ms no concreto pode correr mal. É evidente que ao embaratecer visivelmente os preços dos transportes públicos, já se sabia que a procura deles iria aumentar fortemente. Conhecendo-se, igualmente, as disponibilidade da frota pública, dever-se-ia pensar que os operadores privados teriam maior número de passageiros. Como os preços novos significavam um custo acrescido dever-se-ia ter agilizado significativamente os pagamentos a estes operadores. E mesmo assim, dado o inevitável aumento da procura haveria que pensar como é que as frotas podem ser prontamente aumentadas. E isso significa também para qualquer privado uma despesa de investimento importante que pode não ser viável a curto prazo. Dizendo-o de outra maneira: o Estado deveria prever, avaliar e tomar medidas para responder prontamente a este brutal afluxo de modo a evitar o caos, e o desastre diário que se verifica.

Pelos vistos, e pelas desculpas esfarrapadas, que ora se ouvem, tal não aconteceu. “O Verão –mesmo com férias- e sobretudo o Outono serão quentes, muito quentes” como há cinquenta anos se gritava ameaçadoramente pelas ruas italianas.

* l’autunno sará caldo!” foi uma expressão cunhada em 1969 em Itália pela esquerda extra-parlamentar e pelos sindicatos e anunciou uma vaga crescente de greves e de manifestações sobretudo no norte industrial

** a imagem: o outono quente em Itália

 

 

03
Mai19

Estes dias que passam 323

d'oliveira

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Andam a brincar aos orçamentos?

mcr 03.05.19

 

Uma extraordinária coligação (PC, BE, PSD e CDS-PP) votou ontem algo também extraordinário: a devolução do tempo total de serviço aos professores.

Resulta deste voto (e já iremos ver o resto) que o PS sofreu uma pesada e humilhante derrota.

Aliás, a vaga e infantil ameaça do sr. Carlos César (uma mediocridade importada dos Açores...) de demissão do Governo traz a esta aliança contra-natura um pouco de pilhéria que, infelizmente, só provoca sorrisos forçados e aumenta o descrédito na personagem e no partido que ela, pelos vistos, representa.

Vamos por partes:

Alguma vez, in illo tempore, o PS foi favorável a tal medida?

Parece que sim, que isso decorre de promessas eleitorais e (antes) de declarações contra o anterior Governo de Passos Coelho. Na altura, o PS não se coibia de fazer fogo com tudo o que lhe vinha à mão. E durante todo o tempo passado após a sua miraculosa subida o Governo amparado pela mão ardilosamente generosa do PC, também não houve especial cuidado em definir com precisão e cuidado quais os limites à pretensão dos sindicatos de professores. Porém, a promessa de pagar 2 anos, nove meses e alguns dias já abria uma brecha nas famigeradas “boas contas” de Centeno. Pior: ninguém percebia como é que se chegara a este número e não a qualquer outro, igualmente aleatório.

Seria bom recordar que o PSD e o CDS nunca foram, durante anos, adeptos desta medida mesmo se não recaia sobre eles o alegado (e real) roubo de tempo de serviço. Ao aceitarem juntar os seus votos aos do PC e do BE demonstraram estar nisto com o mesmo espírito de chicana com que os restantes se governaram.

São as eleições vizinhas que impõem esta declaração de guerra ao PS? Sem dúvida. É o PS inocente e prudentes nesta questão? De modo algum: o PS sabia, sempre soube, desde o primeiro dia, que PC e BE lhe iriam passar esta factura. Esta e outras como, por exemplo, a irresponsável reversão do IVA sobre a restauração ou as 35 horas na função pública que introduziu, ou fortaleceu ainda mais, o caos nos hospitais.

Aliás, o PS, desprovido há muito de qualquer sistema ideológico coerente, andou nestes últimos tempos num desnorte absoluto. Veja-se, apenas, e como exemplo, o caso da nova lei de bases da saúde. Dando de barato que uma nova lei era necessária (e nada o prova) eis que a sua desastrada e desastrosa Ministra da Saúde entendeu comprometer-se com o BE com “propostas de trabalho” em que dava mis uma machadada nos tenebrosos privados. Claro que o BE não se coibiu de trazer à duvidosa luz do dia este compromisso que pôs uma forte maioria do PS aos uivos.

Vai daí, o PS retratou-se afirmando que aquilo (a sua triste proposta) era apenas um documento de trabalho (como se este género de documento não configurasse algo de fartamente real e mais que comprovado pela sanha da Ministra que, em vez de acudir ao urgente, se entretém a tentar rebaixar a Bastonária dos enfermeiros (que aliás se põe sem rebuço, nem prudência, nem bom senso,) a jeito atirando-lhe às canelas uma sindicância que faz lembrar os velhos tempos do Estado Novo.

(é verdade é que esta Ministra é imprestável, disfarçando com o seu ar azougado a impreparação para o cargo e a falta de visão para os formidáveis desafios que aí vem se é que ainda cá não estão. De todo o modo, esta senhora, inquestionável prova do imortal principio de Peter, está a prazo e aposta-se singelo contra dobrado que não fará parte do próximo elenco governativo caso o PS vença as eleições. E digo “caso” porque com estas sucessivas “argoladas” Costa esbanja alegremente os trunfos que ainda tem.)

Todavia, e a favor de Costa estão também os partidos da Oposição. O CDS ainda se percebe: nada tem a perder e a sr.ª Cristas acha que tudo lhe serve para minar o terreno do PPD. Porém, este também não faz a coisa por menos. Supondo que ganhasse as eleições como é que resolvia o imbroglio dos professores sobretudo se, na mesma trincheira, e à espreita, estão os militares, as polícias, a GNR, os guardas prisionais e tutti quanti que também sofreram cortes similares na carreira e nos ordenados?

Quanto aos aliados nesta vaga “frente popular” há que distinguir o PC (e o seu acólito verdinho) do BE. O primeiro tem uma estratégia definida desde há muito tempo e, por mais sobressaltos que o comunismo tenha sofrido, mantem-se fiel a um programa e aos seus apoiantes. Estes podem estar envelhecidos –e estão – mas votam sem a menor sombra de dúvida no que o Partido propuser. As notícias sobre revoltas dentro do “aparelho” e em certos núcleos de militantes são (como o PC afirma, aliás) mais atoardas do que ameaças sérias. Mesmo que existam aqui e ali alguns dissidentes, a verdade éque o “centralismo democrático” reduzirá a ferida a uma coisa pouca. À cautela, já se procedeu a um par de exclusões e ao afastamento de outros tantos elementos duvidosos.

E o BE? Aqui o problema é diferente. Primeiro, porque os bloquistas andaram todo este tempo a tentar tornar-se úteis senão imprescindíveis ao PS. Eles (e não é por acaso que naquele albergue espanhol se acolhem bastantes trotskistas) apostaram no “entrismo” mesmo se, de quando em quando, alguém mandatado para isso manifestasse oposição ao PS. Só que, sem a poderosa disciplina interna do PC, há, naquele bloco mal fissurado, algumas tribos mais puristas que se fartaram de ver a Direcção a assobiar para o lado. O PS, por seu lado, nunca teve grande confiança no BE tanto mais que este não representa uma força eleitoral significativa. Atrai os votos de massas urbanas educadas mas falha nas frentes sindical e autárquica. E está mais permeável a modas culturais e políticas que o conservadorismo inato do PS rejeita e desconfia. Mais, o PS atirou recentemente para a frente um par de “esquerdistas” que poderão atrair bloquistas mais interessados na governação e na influência que um lugar nos gabinetes oferece.

O BE está pois dividido entre duas alternativas: ou manter-se como grupo reivindicativo e anti-sistema, agregador de minorias activas com alguma influencia nas classes urbanas jovens e educadas sempre prontas a abraçar a última novidade ou começar o seu caminho de Damasco de ingresso no PS e na área de poder. Pese as enormes diferenças há um exemplo esquecido, o MES que, nos anos oitenta depois de se ter auto-subvertido, viu boa parte da sua ala esquerda acorrer ao PS que, entretanto já tinha fagocitado o grupo dos ex-GIS, primeira grande dissensão (“à direita”) do mesmo partido.

(não que eu queira comparar os militantes da extinta Esquerda Socialista vindos quase todos das lutas académicas e políticas dos anos 60 e 70, da resistência católica ou do sindicalismo da mesma época com, por exemplo, os elementos mais em vista do BE, mormente as irmãs Mortágua, Catarina Martins, Marisa Matias ou Pedro Filipe Soares chegadas à política muito depois do 25 de Abril, do PREC e dos anos subsequentes. O facto de notoriamente serem da geração dos filhos dos primeiros não deve ser considerado uma capitis deminutio mas evidencia apenas experiências políticas (e assunção dos riscos inerentes) muito diferentes.)

Todavia, nada disto justifica o ardor com que alguns bloquistas parecem querer queimar os barcos em que chegaram e tornar impraticável qualquer exercício orçamental para os próximos anos. Isto se o seu objectivo for um país democrático e inserido na UE. Caso tenham como objectivo um paraíso à Kim Jong-Un (já que nunca conheceram a Albânia socialista) então estão no bom caminho. Resta saber se os portugueses estão de acordo.

16
Abr19

estes dias que passam 392

d'oliveira

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Esmeralda e Quasimodo choram a sua catedral coberta de cinzas.

E eu, leitor de Hugo (e de tantos outros), parisiense de Buarcos choro com eles.

Esta igreja já ardeu uma vez. Foi alvo de tratos de polé durante as revoluções. Foi reconstruída com acrescentos (a flecha) e assiste desde há oitocentos anos ao grande teatro do mundo.

Se todos quisermos, regressará outra vez mais tão bela e tão nossa como sempre.

23
Mar19

estes dias que passam 391

d'oliveira

 

 

Nós gostamos de viver

(anónima moçambicana)

 

mcr,  21/3/19

Não há palavras que consigam descrever com um mínimo de fiabilidade a tragédia que se abateu sobre o território de Sofala, desde a Beira até à fronteira com o Zimbabué. As imagens medonhas que a televisão nos oferece ficam sempre aquém da realidade.

De facto, o solo está empapado, quando não está completamente submerso. As chuvas violentas, as cheias dos rios (os casos do Pungué e do Búzi) a iminência de novas e fortes descargas nas barragens do outro lado da fronteira, ameaçam a sobrevivência dos sobreviventes (passe a expressão: é que quem ainda não morreu está em forte risco como se verá adiante).

E ameaçam por várias razões que se multiplicam umas às outras: as estradas estão cortadas; há pontes destruídas; o mar continua tempestuoso e as condições climatéricas desde o vento, às chuvas tornam ainda mais difícil a já de si penosa e escassa chegada de socorros.

Não há água! Ou melhor, não há água potável. Pior a água parada é um vector crítica da malária que, ninguém duvide, vem aí e em força.

Não há casas, ou quase: na Beira mais de dois terços do edificado está em ruínas. Mesmo a cidade do cimento, notem bem. Nem me atrevo a pensar nos imensos bairros periféricos, o “caniço” que acolhiam mais de 80% da população.

O ciclone levou tudo incluindo boa parte da resignada esperança: móveis, alfaias agrícolas, celeiros, excedentes – parcos, paupérrimos – agrícolas, economias, roupa, tudo. Dói ver a imagem de um homem carregando uma pobre cadeira de plástico (dessas que cá, à mínima esfoladela, ninguém quer e deita ao lixo. O nosso lixo é uma cornucópia de abundância naquelas terras devastadas.)

Seria fácil e tentador criticar os poderes públicos, a má governação, pela falta de meios, de manutenção, de cuidados de que a Beira sofre desde há décadas. Tudo isso é verdade mas nada disso importa agora. Sobretudo, porque as vítimas, e estamos a falar de centenas de milhares, de mais de um milhão, quiçá de vários, não são responsáveis pela desatenção, pela inépcia ou pelo desgoverno dos governantes. São, numa esmagadora maioria camponeses pobres, trabalhadores humildes na cidade que sempre tiveram pouco se é que alguma vez tiveram algo.

A urgência agora é enterrar os mortos e cuidar dos vivos, como diria o tirânico mas enérgico marquês. E até isso é difícil: ainda não foi possível encontrar todos os que morreram debaixo das casas, das árvores das ruínas, da água.

Os vivos, e nisso incluo os “ainda” vivos, aparecem nos noticiários em cima de telhados abatidos, de árvores, na bancada de um pequeno campo de futebol, errando por rios de lama e destroços, sem outro rumo do que uma possível   -mas longínqua (inalcançável?) – salvação.

Como essa mulher moçambicana que confidenciava à reportagem: “Precisamos de tudo, de uma manta, de comida que só comemos uma vez e não há nada para a noite. É que nós gostamos de viver... “

Mesmo no meio da mais profunda miséria, esta mulher, estas crianças, estes homens, este povo, gostam de viver. Mesmo se, aqui, essa vida pareça um longo e dramático caminho das pedras...

Eles não conhecem nada melhor e o pouquíssimo que tinham, mesmo se insuficiente, se injusto, era melhor do que nada. Vejam bem: a Beira e a sua região interior sobreviveram à guerra civil, às dezenas de milhares de minas terrestres que ainda há pouco matavam quase diariamente homens e bichos. Como a Gorongosa (que já foi um dos maiores e melhores parques de África e que, graças a um americano maluco e amante da África estava a renascer) onde o desastre ia cicatrizando...

Vivi em Moçambique entre o terceiro e o fim do quinto ano do liceu. Voltei lá por três vezes em férias longas de Verão. Aprendi alguns rudimentos (escassíssimos) das línguas vernáculas das zonas onde vivi. Na medida do possível tentei saber mais da história dessa sequência de terras que agora se chamam Moçambique. Tenho em casa alguns, muitos, centos de livros e revistas sobre a região. Em tempos longínquos, que não renego nem esqueço, tentei perceber melhor a situação colonial. Assinei, levantando as suspeições do costume, nas polícias do costume, algumas publicações legais (entre outras “O Brado Africano”) ou nem isso. Já aqui descrevi (testemunhando na medida do possível) a iniquidade dos sistemas de “contrato”, de culturas obrigatórias (sisal, copra, tabaco, algodão, sobretudo), da obrigatoriedade de identificação especial para se circular na cidade e de muitas outras que nem é preciso citar. Li com paixão (que mantenho) o Zé Craveirinha, a Noémia de Sousa ou o Rui Knopfi, sem esquecer o meu querido colega do liceu Salazar, Manuel Fernando Magalhães, autor de uma surpreendente novela “três vezes nove vinte e um”, sátira contra a militaragem em Moçambique (claro que foi preso).

 

A talho de foice, refiro outros dois autores moçambicanos: Luís Bernardo Honwana, autor de um exemplar conjunto de contos, “Nós matámos o cão tinhoso” (1964) e Luís Carlos Patraquim que, além de poeta, é jornalista e escreveu o que foi, para mim, a grande revelação da nova e arriscada ficção moçambicana: “A canção de Zeferias Sforza”, um retrato desconsolado de um país independente, de um partido na realidade único e uma concentração do poder (a todos os níveis) nos militantes mais obtusos mas mais obedientes.

 

Deixemos, porém, o domínio da escrita a que, em havendo tempo, voltarei, para nos concentrarmos no essencial: como ajudar? Como ajudar, já?

 

Basta ir ao multibanco em pagamentos, entidade 20999 e depois marcar 999 999 999 (nove noves, atenção) e doar o que puder. Claro que há muitas outras instituições (Cruz Vermelha, Caritas, Câmaras Municipais, corporações de bombeiros, o que se queira mas esta é simples e rápida. Por pouco que se dê, é muito para quem nada tem mas que “gosta de viver”.

Não estamos a ajudar um Estado ou um país mas tão ó um povo que não merece ser tão desventurado.

Não os deixemos morrer por incúria, indiferença, egoísmo ou preconceito que eles gostam de viver.

Kanimambu!, leitoras eleitores, kanimambu!, obrigado, kotchapela! Zikomo!, Kani! Bongile!, Eja! Assante!

*estas expressões tiradas de diferentes vernáculos moçambicanos querem todas dizer o mesmo : obrigado que é também moçambicano na medida em que o português é a língua oficial.

06
Mar19

Estes dias que passam 390

d'oliveira

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E o raio do Carnaval que não chega (III)

 

Deus, Pátria e Família (ou quase)

 

Eu não queria falar dos variados laços familiares que ornamentam este Governo. É que, do ponto de vista de Sirius, receio ser preconceituoso mas, mais comezinhamente, do ponto de vista do cidadão comum que sou, parece-me um exagero: Marido e mulher (ou vice-versa, não vá ser acusado de machismo) pai e filha se é que não há por lá padrinhos e afilhados, primos, parentes longínquos, enfim toda a parafernália do que, eventualmente, poderia configurar um potencial caso de nepotismo, parecem-me um caso de imprudência política. Não vou dizer que um ou outro é incompetente, ou está ali apenas por ser familiar, mas a bem da democracia e da transparência (mais uma nova palavra a ser rapidamente gasta pelas esquinas da opinião pública) conviria que estes casos não ocorressem. Tudi isto, este cerrar de horizontes, dá a ideia de uma elite exausta, incapaz de procurar sangue novo fora dos limites da sua freguesia, do seu bairro ou da sua rua.

 

Ao que sei, e sei muito pouco, a dr.ª Mariana Vieira da Silva é licenciada em Sociologia e a partir de 2005 andou pelos ministérios. A ideia com que se fica é que, fora o trabalho político nunca teve contacto com a vida de todos os dias, as chatices de procurar um emprego, de ser mal paga, de aturar patrões chatos ou simplesmente exigentes.

Há quem afirme de modo mais ou menos genérico que a senhora é muito competente, coisa que, por cortesia, vou aceitar mesmo se valesse a pena ser provada com factos concretos. Não lhe invejo a sorte de suceder a uma Ministra competente, discreta e burramente empurrada para um segundo lugar na lista de candidatos a Bruxelas. Aqui, vai ter de mostrar se, além de filha querida, é também competente e capaz de fazer isto andar para a frente.

Ora, o seu primeiro assomo no Ministério parece ser a proposta de um dia de luto nacional pelas mulheres vítimas de violência doméstica. A ideia é, sejamos generosos, peregrina. Que efeitos se pretende com isso? Bandeirinhas a meia haste? Discursos e soluços de comoção na véspera do 8 de Março? Alguém espera ver o agressor que rebentou o tímpano à aterrorizada mulher, que anda espavorida a esconder-se por aí, a vir pela rua fora de baraço ao pescoço. Pés descalços e a cabeça coberta de cinza a bradar pecavi, pater pecavi, chorando baba e ranho?Ou, mais extraordinário ainda, será que um certo magistrado virá a terreiro afirmar que, volta e meia, sai da realidade e dispara mais depressa do que a própria sombra, como o excelente Lucky Luke que, aliás só maltratava bandidos horrorosos mas simpáticos pelo menos no que toca a mulheres pois não consta que batessem nas legítimas se é que as tinham?

Ou iremos ter direito em todos os noticiários a uma mão cheia de ministros e outras idênticas luminárias a solenemente garantir que agora sim, agora é que os violentadores domésticos vão saber com quantos paus se faz uma cruz?

Eu até poderia espera que o governo, ou então o Parido, propusesse uma lei a aumentar fortemente as penas contra esta indiscriminada perseguição das mulheres (mesmo das “adúlteras”, das “descaradas”, das que “provocam” o inocente macho lusitano, das “que o abandonam” (horribile dictu!) . Será difícil?

Dirão que não há tempo para concretizar a medida. Sem dúvida, mas também não há tempo (nem dinheiro) para concretizar os famosos 11.500 quartos em residências universitárias e andou por aí um secretário, ou Subsecretário, tanto faz, a anunciar isso como se a medida fosse para ontem e não para as calendas gregas.

Apetecia-me substituir-me ao extremoso pai e dizer comovido: “Marianinha, não seria melhor ir pôr um raminho de flores no túmulo da misera e mesquinha Inês de Castro?”. Ainda por cima fica em Alcobaça, aqui tão à mão e t\ao romântico.” (Bem sei que a bela Inês foi executada e que o crudelíssimo e desalmado Pedro – que só por chalaça é chamado de Justiceiro – não meteu para isso nem prego nem estopa. Se esta Inês não servir então recordem Maria Teles de Meneses, amante de um dos bastardos desse mesmo Pedro que, roído de ciúmes a matou também em Coimbra no palácio de Sub-Ripas, acicatado por Leonor Teles, irmã da assassinada e mestra eximia em malas-artes.

 

Da vida de estudante

E já que se falou nessa cornucópia de residências universitárias a vir numa manhã de glorioso sol, vale a pena analisar a conversão do ex-Ministério da Educação em residência. No meu peregrinar por Universidades estrangeiras tive a sorte de ser alojado, por cinco ocasiões em residências deste género: na Holanda (Amsterdam), na Itália (Trieste), na Alemanha (Berlin oeste), em Espanha (Madrid) e na Jugoslávia (Ljubliana). O programa era mais ou menos assim: Havia quartos que tinam uma pequena casa de banho, outros apenas com um lavatório, ficando os duches ao fim do corredor. As cozinhas comuns estavam também instaladas em cada andar e poderiam ser utilizadas por várias pessoas ao mesmo tempo. Duas dessas residências tinham mesmo cantinas no rés do chão o que era bastante prático. Isto, convém dizê-lo, entre os anos 60 e 70. Ou seja, há praticamente 50 anos! Conheci, ia-me esquecendo, uma residência portuguesa, em Lisboa, na Visconde de Valmor, se não erro com instalações modelares. Alojaram-me lá, por duas semanas enquanto esperava embarcar para Moçambique num programa de férias que, nós mesmos organizávamos a preços excelentes. Havia apenas o problema de só na véspera do dia de embarque sabermos se havia ou não vaga naquele avião. A residência era gerida pela Mocidade Portuguesa, organização com a qual não só não mantinha nenhum vinculo mas abominava. Todavia a ideia de dormir ao relento e de fazer jejum também não me agradava pelo que lá pedinchei um quarto prometendo pagar a hospedagem quando regressasse de férias. Não paguei mas ainda hoje encaro a ingratidão como uma falta. As dívidas pagam-se e a verdade é que nessa residência estivera alojado até semanas antes da minha chegada, o Joaquim Chissano, meu antigo colega no liceu de Lourenço Marques e posterior Presidente da República de Moçambique. (também ele deixou um calote que no caso tinha alguma forte desculpa. Não se “dava o salto” avisando da saída e pedindo a conta.)

Ora, um programa de residência estudantil implica pois um fartote de obras mesmo se o prédio lá está. Em poucas palavras aquilo, se tudo correr com celeridade, projecto, concurso, adjudicação, obras (e atrasos!...), irá demorar uns anos, três ou quatro, pelo menos. O mesmo se poderá dizer com todos os restantes prédios já identificados (adorei a ideia de umas cocheiras num palácio lisboeta!...).

Este anúncio, mesmo se feito com boa fé, peca por parecer mera propaganda eleitoral. Anuncia-se algo que este Governo não fará e que só com muita celeridade se irá concretizando na segunda metade da próxima legislatura...

Eu, velho do Restelo e mau patriota, estou nisto como o troiano ao ver o cavalo de Ulisses: Timeo Danaos et dona ferentes (ou seja: arreceio-me dos gregos mesmo quando dão presentes).

 

ADSE, um romance policial?

(entradas de leão...)

 

São cada vez mais patentes as desafinações nesta opereta em que a doutora Sofia Portela deveria representar o papel de casta diva e o coro dos maus ficava a cargo dos “privados” sejam eles quais forem. Foi exemplar (mas pediam-se mais três sessões) o programa da RTP 1 sobre a questão.

É que ainda não se sabem algumas coisas.

A saber: como é que se controlam as despesas apresentadas pelos “privados”? quantos desses privados abriram demasiadamente a boca (dez, vinte, noventa, como alguém adiantou)? Há nesse número de degenerados que “querem lucrar com a saúde dos portugueses” algum(s) dos grandes hospitais que, provavelmente arrebanharão a parte de leão dos actos médicos? Quais são os actos médicos que apresentam diferenças notáveis? E a quanto ascende cada diferença? Há algum acordo antigo entre a ADSE e as “piranhas” privadas sobre preços de todas e cada uma das intervenções que se efectuam? Como é que despesas de há três e quatro anos só agora são analisadas? É verdade que, ao invés de ver reforçados os seus quadros, a ADSE tem vindo a perder trabalhadores e, sobretudo, trabalhadores especializados na análise e controlo das despesas? Porque é que a ADSE não aceita mais utentes especialmente os provenientes da função pública? É verdade que, como foi afirmado na referida emissão da RTP, que o Estado tem guardado ao fresquinho um total de 500 milhões de euros do Instituto Público? Percebendo-se quea ADSE é só financiada pelos utentes, como é que aparecem nos seus órgãos entidades como autarquias, sindicatos etc? Qual é a hipótese de um utente como eu com mais de quarenta anos de desconto para a ADSE pode intervir, fazer perguntas, obter respostas, enfim ser ouvido com alguma atenção devida a quem mete ali 3,5% do seu salário ou da sua reforma? Deve o Conselho Directivo da ADSE ter membros não utentes? Etc., etc... (a lista de perguntas é infindável e pelos vistos, só agora, de supetão, é que se fazem.

E fazem-se porque estalou um conflito começado com a denúncia vaga de um excesso de 38 milhões de despesas cobradas sem justificação capaz que teve como primeira resposta uma ameaça de suspensão de prestação de serviços por parte de dois ou três grandes grupos hospitalares.

É verdade, como foi repetidamente afirmado na já citada sessão televisiva, que, ao contrário do que oficiosamente sai do Conselho Directivo, não há qualquer reunião oficial e/ou formal entre prestadores de serviços (e nesses os grandes grupos capitalistas, monopolistas e lesivos dos mais sagrados interesses do povo, dos utentes, do proletariado e da pátria sofredora) e a virginal direcção da ADSE?

Neste momento, começa a ser perceptível uma certa vontade de apaziguamento: declarações incendiárias de certos responsáveis da Saúde baixaram de tom ou, até mesmo, cessaram. De repente perante a iminência de corrida desenfreada aos hospitais do SNS, de quebra maciça de quotizações na ADSE, eis que uma certa calma parece surdir. Do lado dos privados, nomeadamente dos grupos hospitalares de grande dimensão, a ameaça d suspensão é, ao que parece, apenas algo que eventualmente poderia suceder mas que, para já está apenas no domínio dos cenários possíveis. Claro que a ninguém e sobretudo a estes prestadores convém uma quebra acentuada da procura de cuidados médicos. A saúde, ao contrário do que só os tontos asseveram, é também um negocio. Sempre foi, basta atentar que desde que há médicos há medicina privada. Aliás, até há bem pouco tempo, a grande maioria dos médicos exercia nos seus consultórios, em clínicas privadas. Só uns quantos estavam nos hospitais públicos que, de resto, sofriam a concorrência dos hospitais das Misericórdias mesmo em cidades tão importantes quanto o Porto. A expressão “direito à saúde” significa tão só que se entende que nenhum cidadão possa ficar privado de cuidados médicos sejam eles públicos (Centros de Saúde ou Hospitais Públicos ) ou convencionados. Neste último grupo é preponderante desde sempre a acção dos laboratórios de análises para onde o SNS encaminha praticamente todos os utentes não internados. Ou os dentistas, a fisioterapia e mais um quarteirão de especialidades a que, por diversas razões, os hospitais não podem dar resposta atempada.

Muitos dos pretensos salvadores do Estado providencial deveriam ter pensado nisto, ter-se lembrado disto em vez de subirem às trincheiras desguarnecidas da defesa a outrance do SNS. O SNS é uma boa ideia, vai funcionando e, para já, deveria ver os quadros hospitalares completos de médicos, enfermeiros e demais pessoal de saúde, auxiliar e administrativo. Deveria, urgentemente, melhorar as instalações que, em muitos casos, estão degradadas, reorganizar sob uma nova óptica centrada no doente muitos serviços, delimitar cuidadosa e prudentemente o estatuto do seu pessoal, impedindo a transumância que, ainda hoje, se verifica entre hospital público e medicina privada.

Quem padece só tem uma ideia: ser tratado bem e rapidamente, num ambiente digno, são e acolhedor. Tudo o resto é conversa fiada ou, pior, desconversa, propaganda, ideologia oca quando não mera estupidez.

Pede-se mais sensatez, mais inteligência e mais cidadania.

A todos e cada um.

 

20 anos 20

O Bloco fez vinte anos. Digamos que atingiu a maioridade. O primeiro sinal disso éos malabarismos e contorções com que se vai fazendo ao Poder. A sua direcção percebeu, há muito tempo, que quem quer atrepa até lá chegar.

A postura anti-sistema nunca deu frutos mesmo se salva as boas consciências, sobretudo as mais juvenis. Ainda por cima, o BE tenta caçar nos terrenos do PC (e de vários micro-grupos esquerdistas que nunca puderam, souberam ou quiseram um lugarzinho ao sol).

O PC que, aliás, nunca foi anti-sistema, guarda o seu campo cuidadosamente seja nas autarquias seja nos sindicatos seja nas múltiplas frentes de massas com que vai adubando a sua futura seara e criando alguns militantes e funcionários. Ao fim e ao cabo tem quase cem anos de experiência própria e alheia. É disciplinado, pouco dado a arroubos, não se envergonha com a companhia da Coreia do Norte, da China de capitalismo de Estado ou de Cuba mesmo se esta vai dando sinais de ferrugem (muito perto dos EUA e muito longe do fantasma da URSS).

O BE nasceu de um casamento surpreendente de três grupos com diversa tradição, formação e importância. De um lado os resquícios da UDP (ela mesma já resultado de fracções e re-arranjos de diferentes grupúsculos nascidos no fim dos anos 60 ou já post 25 Abril. Teve a sorte de eleger um deputado que manteve ao longo de várias eleições. Primeiro era um operário patusco e depois o inefável major Tomé, um militar que viu a luz durante os mais ásperos momentos do PREC). A presença destas criaturas no parlamento angariou-lhes uma pequena clientela que conseguiu eleger sempre por Lisboa um único mas miraculoso (e miraculado) representante. No resto do país a UDP era só paisagem. A seguir, temos a malta trotsquista (não todos claro que uma das características dos movimentos que se reclamam da IVª Internacional é nunca estarem todos de acordo no mesmo momento. De todo o modo havia um pequeno partido, a LCI e mais tarde o PSR que lá foi titubeando pelo áspero caminho do marxismo nacional (mas de inspiração francesa, até no nome) tendo de notável o facto de os seus militantes – ao contrário de muitos “maoístas” nunca terem estado dentro do PC. De resto, mais ainda do que os maoístas, foi na universidade e nos liceus que recrutou quase todos os seus militantes. Finalmente, o terceiro e mais reduzido dos grupos fundadores vinha directamente do PC, surgido do mal estar de muitos militantes com o conservadorismo de Cunhal e com a apática política cultural nele produzida ou teorizada. Não é bem a bela história de Jules et Jim e da extraordinária mulher que os acompanhou, longe disso mas é deste namoro a que aderiu Fernando Rosas (que percorreu toda a escala: foi do PC, da Esquerda Democrática Estudantil do MRPP e finalmente do PSR (agrupamento que o candidatou sem êxito ao parlamento) que finalmente sai o BE. Como cocktail político é mais um cacharolete dada a impossibilidade teórica (e historicamente comprovada) de se misturarem tantas e tão diferentes tendências que sempre se esmurraram (em todos os sentidos) voluptuosamente em defesa de minúsculas diferenças que eles consideravam maiúsculas.

Muita e boa gente previu um naufrágio iminente mas a verdade é que, mesmo com pequenas cisões internas e várias saídas abruptas, a coisa se manteve. É provável que para isso tenha contribuído o facto de, à falta de outras frentes, o Bloco ter conseguido aguentar e fazer crescer moderadamente um grupo parlamentar. Isso deu visibilidade, pelo menos nas grandes cidades e serviu de refúgio aos eleitores órfãos do PC e do PS que viam no voto BE um voto de protesto. Vi, mesmo gente que nada tinha a ver com qualquer brotoeja esquerdista fugir do PSD zangada e correr para votar no BE convicta de que assim também não apoiava o PS ou o PC.

A “geringonça” permitiu à direcção bloquista fazer as vezes de pagador de promessas e de farol das mais lídimas aspirações de uma certa burguesia educada e urbana. Se estivéssemos em França (onde aliás, volta e meia, aparecem fenómenos semelhantes) diria que o BE “est três tendance”. Traduzindo: está na berra, está na moda, é “bem” que se farta.

Todavia, por muto marxizante (enfim um marxismo muito sui generis) que se queira, o BE continua aflitivamente em busca de uma base social popular, trabalhadora (nem me atrevo a dizer proletária) e de polos significativos na esmagadora maioria das autarquias portuguesas. Na frente sindical vale menos do que o PS ou o PSD ou, até, provavelmente, do que o CDS. Dir-se-ia que subsiste em boa parte graças ao “ar do tempo”, ao “espírito do tempo”. E ao prodigioso equilibrismo da sua direcção política. A seu tempo tudo será “pesado, contado e dividido” se me é permitido citar, de cor, mesmo sem ser particularmente propenso a visões apocalípticas, o profeta Daniel.

Parece que o senhor juiz Neto de Moura vai atacar nos tribunais todos (ou alguns ) dos críticos que com mais ou menor felicidade e ironia lhe zurziram os fundamentos não jurídicos das sentenças em dois casos de violência doméstica. Como qualquer cidadão ele é livre de fazer o que lhe passa pela cabecinha pensadora. Todavia, sendo eu também um vago jurista (não praticante, graças a Deus) sempre, e em nome de algum resquício de solidariedade corporativa e, sobretudo temendo que a sua inusitada acção aumente uma já forte corrente anti magistrados, sempre lhe recomendaria mais discrição. Este processo vai ser a risota, melhor diria o escárnio da parte alegadamente ofendida, vai dar recursos de toda a ordem e, eventualmente acabará no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. E aí, aposto dez contra um, as pretensões do juiz ofendido não terão qualquer êxito que por aqueles lados vive-se já longe do “ancient regime” . E já, envergonhado enquanto português, imagino a chacota dos media europeus.

Ainda por cima, o caso Neto de Moura, torna-se ainda mais frágil porquanto este senhor juiz pediu ao STJ que o dispensassem do julgamento de caos de violência doméstica. Se bem percebo, fê-lo – e muito bem, por esta vez- porque se conhece e reconhece que a sua visão do mundo e da vida está em desconformidade com os tempos em que vivemos. Como se dissesse “eu sou assim, as minhas decisões nesta matéria vão ser alvo de crítica virulenta, de troça, de rancor e finalmente tudo isso irá recair sobre a generalidade dos juízes pelo que para prevenir tão medonhas situações seria porreirinho que me afectassem a outros julgamentos onde a mão, a perna, o corpo, o espírito de Eva (enviada pelo Maligno) sejam menos evidentes”.

O STJ recusou e isso condena o juiz ora desembargador a eventualmente tomar decisão inoportuna sobre algum eventual novo caso (e eles aparecem em catadupa...) .

Portanto, eu, no caso dele, teria fingido que nada era comigo e evitaria mais esta exposição pública seguramente desagradável.

 

 

O dr António Costa foi a um programa de televisão muito badalado (ou pelo menos, péssimo espectador que sou, muito visto). Eu não conhecia a apresentadora que, para meu gosto, se ri demais, tem uma voz que roça o desagradável e se veste de um modo bizarro (mas eu sou um velhadas e um conservador). Nesse programa entendeu fazer uma “cataplana” de peixe. A família que compareceu em peso (que bonito!) jura que ele é o cozinheiro da casa e que cozinha bem (melhor do que a mulher, como esta própria reconheceu. Ora aqui está uma bela aproximação ao “8 de Março). Fiquei comovido e com água na boca se bem que prefira uma boa caldeirada à pescador à algarvia cataplana.

Este acontecimento mediático-carnavalesco ocorreu em pleno Carnaval e foi, há que dizê-lo, bem menos imbecil e indigesto do que as longas reportagens sobre a miríade de carnavais que assola o país onde umas criaturas tentam provar ao pagode que cá também se samba. Não é verdade. Cá samba-se mediocremente, é uma péssima imitação do Brasil e o resto da folia é de uma pobreza imaginativa que brada aos céus. Então os pobres diabos que se vestem de mulher são de uma tristeza infinita. Vá lá que enquanto andam por aí a fazer tristes figuras não batem nas caras metades. Algum ganho se há de ter numa terra onde depois do futebol e do fado se afinfa forte e feio nas fêmeas (até há, uma santa, muito da minha devoção, que é a pafroeira das mulheres maltratadas pelos cônjuges – Santa Rita de Cássia, cuja procissão em Caminha é um festim para a boa disposição de qualquer ateu benevolente).

Bem fez o Presidente da República que desandou para Luanda e, mal chegou, foi ver o corso de lá. A criatura não perde pitada. E, desta feita, não houve selfies. Ficam para os próximos dias que os angolanos não perdem pela demora...

*na grvura: "caretos" de Podense, ou um carnaval português Ese... autêntico.