Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Mar19

estes dias que passam 391

d'oliveira

 

 

Nós gostamos de viver

(anónima moçambicana)

 

mcr,  21/3/19

Não há palavras que consigam descrever com um mínimo de fiabilidade a tragédia que se abateu sobre o território de Sofala, desde a Beira até à fronteira com o Zimbabué. As imagens medonhas que a televisão nos oferece ficam sempre aquém da realidade.

De facto, o solo está empapado, quando não está completamente submerso. As chuvas violentas, as cheias dos rios (os casos do Pungué e do Búzi) a iminência de novas e fortes descargas nas barragens do outro lado da fronteira, ameaçam a sobrevivência dos sobreviventes (passe a expressão: é que quem ainda não morreu está em forte risco como se verá adiante).

E ameaçam por várias razões que se multiplicam umas às outras: as estradas estão cortadas; há pontes destruídas; o mar continua tempestuoso e as condições climatéricas desde o vento, às chuvas tornam ainda mais difícil a já de si penosa e escassa chegada de socorros.

Não há água! Ou melhor, não há água potável. Pior a água parada é um vector crítica da malária que, ninguém duvide, vem aí e em força.

Não há casas, ou quase: na Beira mais de dois terços do edificado está em ruínas. Mesmo a cidade do cimento, notem bem. Nem me atrevo a pensar nos imensos bairros periféricos, o “caniço” que acolhiam mais de 80% da população.

O ciclone levou tudo incluindo boa parte da resignada esperança: móveis, alfaias agrícolas, celeiros, excedentes – parcos, paupérrimos – agrícolas, economias, roupa, tudo. Dói ver a imagem de um homem carregando uma pobre cadeira de plástico (dessas que cá, à mínima esfoladela, ninguém quer e deita ao lixo. O nosso lixo é uma cornucópia de abundância naquelas terras devastadas.)

Seria fácil e tentador criticar os poderes públicos, a má governação, pela falta de meios, de manutenção, de cuidados de que a Beira sofre desde há décadas. Tudo isso é verdade mas nada disso importa agora. Sobretudo, porque as vítimas, e estamos a falar de centenas de milhares, de mais de um milhão, quiçá de vários, não são responsáveis pela desatenção, pela inépcia ou pelo desgoverno dos governantes. São, numa esmagadora maioria camponeses pobres, trabalhadores humildes na cidade que sempre tiveram pouco se é que alguma vez tiveram algo.

A urgência agora é enterrar os mortos e cuidar dos vivos, como diria o tirânico mas enérgico marquês. E até isso é difícil: ainda não foi possível encontrar todos os que morreram debaixo das casas, das árvores das ruínas, da água.

Os vivos, e nisso incluo os “ainda” vivos, aparecem nos noticiários em cima de telhados abatidos, de árvores, na bancada de um pequeno campo de futebol, errando por rios de lama e destroços, sem outro rumo do que uma possível   -mas longínqua (inalcançável?) – salvação.

Como essa mulher moçambicana que confidenciava à reportagem: “Precisamos de tudo, de uma manta, de comida que só comemos uma vez e não há nada para a noite. É que nós gostamos de viver... “

Mesmo no meio da mais profunda miséria, esta mulher, estas crianças, estes homens, este povo, gostam de viver. Mesmo se, aqui, essa vida pareça um longo e dramático caminho das pedras...

Eles não conhecem nada melhor e o pouquíssimo que tinham, mesmo se insuficiente, se injusto, era melhor do que nada. Vejam bem: a Beira e a sua região interior sobreviveram à guerra civil, às dezenas de milhares de minas terrestres que ainda há pouco matavam quase diariamente homens e bichos. Como a Gorongosa (que já foi um dos maiores e melhores parques de África e que, graças a um americano maluco e amante da África estava a renascer) onde o desastre ia cicatrizando...

Vivi em Moçambique entre o terceiro e o fim do quinto ano do liceu. Voltei lá por três vezes em férias longas de Verão. Aprendi alguns rudimentos (escassíssimos) das línguas vernáculas das zonas onde vivi. Na medida do possível tentei saber mais da história dessa sequência de terras que agora se chamam Moçambique. Tenho em casa alguns, muitos, centos de livros e revistas sobre a região. Em tempos longínquos, que não renego nem esqueço, tentei perceber melhor a situação colonial. Assinei, levantando as suspeições do costume, nas polícias do costume, algumas publicações legais (entre outras “O Brado Africano”) ou nem isso. Já aqui descrevi (testemunhando na medida do possível) a iniquidade dos sistemas de “contrato”, de culturas obrigatórias (sisal, copra, tabaco, algodão, sobretudo), da obrigatoriedade de identificação especial para se circular na cidade e de muitas outras que nem é preciso citar. Li com paixão (que mantenho) o Zé Craveirinha, a Noémia de Sousa ou o Rui Knopfi, sem esquecer o meu querido colega do liceu Salazar, Manuel Fernando Magalhães, autor de uma surpreendente novela “três vezes nove vinte e um”, sátira contra a militaragem em Moçambique (claro que foi preso).

 

A talho de foice, refiro outros dois autores moçambicanos: Luís Bernardo Honwana, autor de um exemplar conjunto de contos, “Nós matámos o cão tinhoso” (1964) e Luís Carlos Patraquim que, além de poeta, é jornalista e escreveu o que foi, para mim, a grande revelação da nova e arriscada ficção moçambicana: “A canção de Zeferias Sforza”, um retrato desconsolado de um país independente, de um partido na realidade único e uma concentração do poder (a todos os níveis) nos militantes mais obtusos mas mais obedientes.

 

Deixemos, porém, o domínio da escrita a que, em havendo tempo, voltarei, para nos concentrarmos no essencial: como ajudar? Como ajudar, já?

 

Basta ir ao multibanco em pagamentos, entidade 20999 e depois marcar 999 999 999 (nove noves, atenção) e doar o que puder. Claro que há muitas outras instituições (Cruz Vermelha, Caritas, Câmaras Municipais, corporações de bombeiros, o que se queira mas esta é simples e rápida. Por pouco que se dê, é muito para quem nada tem mas que “gosta de viver”.

Não estamos a ajudar um Estado ou um país mas tão ó um povo que não merece ser tão desventurado.

Não os deixemos morrer por incúria, indiferença, egoísmo ou preconceito que eles gostam de viver.

Kanimambu!, leitoras eleitores, kanimambu!, obrigado, kotchapela! Zikomo!, Kani! Bongile!, Eja! Assante!

*estas expressões tiradas de diferentes vernáculos moçambicanos querem todas dizer o mesmo : obrigado que é também moçambicano na medida em que o português é a língua oficial.

06
Mar19

Estes dias que passam 390

d'oliveira

Unknown.jpeg

E o raio do Carnaval que não chega (III)

 

Deus, Pátria e Família (ou quase)

 

Eu não queria falar dos variados laços familiares que ornamentam este Governo. É que, do ponto de vista de Sirius, receio ser preconceituoso mas, mais comezinhamente, do ponto de vista do cidadão comum que sou, parece-me um exagero: Marido e mulher (ou vice-versa, não vá ser acusado de machismo) pai e filha se é que não há por lá padrinhos e afilhados, primos, parentes longínquos, enfim toda a parafernália do que, eventualmente, poderia configurar um potencial caso de nepotismo, parecem-me um caso de imprudência política. Não vou dizer que um ou outro é incompetente, ou está ali apenas por ser familiar, mas a bem da democracia e da transparência (mais uma nova palavra a ser rapidamente gasta pelas esquinas da opinião pública) conviria que estes casos não ocorressem. Tudi isto, este cerrar de horizontes, dá a ideia de uma elite exausta, incapaz de procurar sangue novo fora dos limites da sua freguesia, do seu bairro ou da sua rua.

 

Ao que sei, e sei muito pouco, a dr.ª Mariana Vieira da Silva é licenciada em Sociologia e a partir de 2005 andou pelos ministérios. A ideia com que se fica é que, fora o trabalho político nunca teve contacto com a vida de todos os dias, as chatices de procurar um emprego, de ser mal paga, de aturar patrões chatos ou simplesmente exigentes.

Há quem afirme de modo mais ou menos genérico que a senhora é muito competente, coisa que, por cortesia, vou aceitar mesmo se valesse a pena ser provada com factos concretos. Não lhe invejo a sorte de suceder a uma Ministra competente, discreta e burramente empurrada para um segundo lugar na lista de candidatos a Bruxelas. Aqui, vai ter de mostrar se, além de filha querida, é também competente e capaz de fazer isto andar para a frente.

Ora, o seu primeiro assomo no Ministério parece ser a proposta de um dia de luto nacional pelas mulheres vítimas de violência doméstica. A ideia é, sejamos generosos, peregrina. Que efeitos se pretende com isso? Bandeirinhas a meia haste? Discursos e soluços de comoção na véspera do 8 de Março? Alguém espera ver o agressor que rebentou o tímpano à aterrorizada mulher, que anda espavorida a esconder-se por aí, a vir pela rua fora de baraço ao pescoço. Pés descalços e a cabeça coberta de cinza a bradar pecavi, pater pecavi, chorando baba e ranho?Ou, mais extraordinário ainda, será que um certo magistrado virá a terreiro afirmar que, volta e meia, sai da realidade e dispara mais depressa do que a própria sombra, como o excelente Lucky Luke que, aliás só maltratava bandidos horrorosos mas simpáticos pelo menos no que toca a mulheres pois não consta que batessem nas legítimas se é que as tinham?

Ou iremos ter direito em todos os noticiários a uma mão cheia de ministros e outras idênticas luminárias a solenemente garantir que agora sim, agora é que os violentadores domésticos vão saber com quantos paus se faz uma cruz?

Eu até poderia espera que o governo, ou então o Parido, propusesse uma lei a aumentar fortemente as penas contra esta indiscriminada perseguição das mulheres (mesmo das “adúlteras”, das “descaradas”, das que “provocam” o inocente macho lusitano, das “que o abandonam” (horribile dictu!) . Será difícil?

Dirão que não há tempo para concretizar a medida. Sem dúvida, mas também não há tempo (nem dinheiro) para concretizar os famosos 11.500 quartos em residências universitárias e andou por aí um secretário, ou Subsecretário, tanto faz, a anunciar isso como se a medida fosse para ontem e não para as calendas gregas.

Apetecia-me substituir-me ao extremoso pai e dizer comovido: “Marianinha, não seria melhor ir pôr um raminho de flores no túmulo da misera e mesquinha Inês de Castro?”. Ainda por cima fica em Alcobaça, aqui tão à mão e t\ao romântico.” (Bem sei que a bela Inês foi executada e que o crudelíssimo e desalmado Pedro – que só por chalaça é chamado de Justiceiro – não meteu para isso nem prego nem estopa. Se esta Inês não servir então recordem Maria Teles de Meneses, amante de um dos bastardos desse mesmo Pedro que, roído de ciúmes a matou também em Coimbra no palácio de Sub-Ripas, acicatado por Leonor Teles, irmã da assassinada e mestra eximia em malas-artes.

 

Da vida de estudante

E já que se falou nessa cornucópia de residências universitárias a vir numa manhã de glorioso sol, vale a pena analisar a conversão do ex-Ministério da Educação em residência. No meu peregrinar por Universidades estrangeiras tive a sorte de ser alojado, por cinco ocasiões em residências deste género: na Holanda (Amsterdam), na Itália (Trieste), na Alemanha (Berlin oeste), em Espanha (Madrid) e na Jugoslávia (Ljubliana). O programa era mais ou menos assim: Havia quartos que tinam uma pequena casa de banho, outros apenas com um lavatório, ficando os duches ao fim do corredor. As cozinhas comuns estavam também instaladas em cada andar e poderiam ser utilizadas por várias pessoas ao mesmo tempo. Duas dessas residências tinham mesmo cantinas no rés do chão o que era bastante prático. Isto, convém dizê-lo, entre os anos 60 e 70. Ou seja, há praticamente 50 anos! Conheci, ia-me esquecendo, uma residência portuguesa, em Lisboa, na Visconde de Valmor, se não erro com instalações modelares. Alojaram-me lá, por duas semanas enquanto esperava embarcar para Moçambique num programa de férias que, nós mesmos organizávamos a preços excelentes. Havia apenas o problema de só na véspera do dia de embarque sabermos se havia ou não vaga naquele avião. A residência era gerida pela Mocidade Portuguesa, organização com a qual não só não mantinha nenhum vinculo mas abominava. Todavia a ideia de dormir ao relento e de fazer jejum também não me agradava pelo que lá pedinchei um quarto prometendo pagar a hospedagem quando regressasse de férias. Não paguei mas ainda hoje encaro a ingratidão como uma falta. As dívidas pagam-se e a verdade é que nessa residência estivera alojado até semanas antes da minha chegada, o Joaquim Chissano, meu antigo colega no liceu de Lourenço Marques e posterior Presidente da República de Moçambique. (também ele deixou um calote que no caso tinha alguma forte desculpa. Não se “dava o salto” avisando da saída e pedindo a conta.)

Ora, um programa de residência estudantil implica pois um fartote de obras mesmo se o prédio lá está. Em poucas palavras aquilo, se tudo correr com celeridade, projecto, concurso, adjudicação, obras (e atrasos!...), irá demorar uns anos, três ou quatro, pelo menos. O mesmo se poderá dizer com todos os restantes prédios já identificados (adorei a ideia de umas cocheiras num palácio lisboeta!...).

Este anúncio, mesmo se feito com boa fé, peca por parecer mera propaganda eleitoral. Anuncia-se algo que este Governo não fará e que só com muita celeridade se irá concretizando na segunda metade da próxima legislatura...

Eu, velho do Restelo e mau patriota, estou nisto como o troiano ao ver o cavalo de Ulisses: Timeo Danaos et dona ferentes (ou seja: arreceio-me dos gregos mesmo quando dão presentes).

 

ADSE, um romance policial?

(entradas de leão...)

 

São cada vez mais patentes as desafinações nesta opereta em que a doutora Sofia Portela deveria representar o papel de casta diva e o coro dos maus ficava a cargo dos “privados” sejam eles quais forem. Foi exemplar (mas pediam-se mais três sessões) o programa da RTP 1 sobre a questão.

É que ainda não se sabem algumas coisas.

A saber: como é que se controlam as despesas apresentadas pelos “privados”? quantos desses privados abriram demasiadamente a boca (dez, vinte, noventa, como alguém adiantou)? Há nesse número de degenerados que “querem lucrar com a saúde dos portugueses” algum(s) dos grandes hospitais que, provavelmente arrebanharão a parte de leão dos actos médicos? Quais são os actos médicos que apresentam diferenças notáveis? E a quanto ascende cada diferença? Há algum acordo antigo entre a ADSE e as “piranhas” privadas sobre preços de todas e cada uma das intervenções que se efectuam? Como é que despesas de há três e quatro anos só agora são analisadas? É verdade que, ao invés de ver reforçados os seus quadros, a ADSE tem vindo a perder trabalhadores e, sobretudo, trabalhadores especializados na análise e controlo das despesas? Porque é que a ADSE não aceita mais utentes especialmente os provenientes da função pública? É verdade que, como foi afirmado na referida emissão da RTP, que o Estado tem guardado ao fresquinho um total de 500 milhões de euros do Instituto Público? Percebendo-se quea ADSE é só financiada pelos utentes, como é que aparecem nos seus órgãos entidades como autarquias, sindicatos etc? Qual é a hipótese de um utente como eu com mais de quarenta anos de desconto para a ADSE pode intervir, fazer perguntas, obter respostas, enfim ser ouvido com alguma atenção devida a quem mete ali 3,5% do seu salário ou da sua reforma? Deve o Conselho Directivo da ADSE ter membros não utentes? Etc., etc... (a lista de perguntas é infindável e pelos vistos, só agora, de supetão, é que se fazem.

E fazem-se porque estalou um conflito começado com a denúncia vaga de um excesso de 38 milhões de despesas cobradas sem justificação capaz que teve como primeira resposta uma ameaça de suspensão de prestação de serviços por parte de dois ou três grandes grupos hospitalares.

É verdade, como foi repetidamente afirmado na já citada sessão televisiva, que, ao contrário do que oficiosamente sai do Conselho Directivo, não há qualquer reunião oficial e/ou formal entre prestadores de serviços (e nesses os grandes grupos capitalistas, monopolistas e lesivos dos mais sagrados interesses do povo, dos utentes, do proletariado e da pátria sofredora) e a virginal direcção da ADSE?

Neste momento, começa a ser perceptível uma certa vontade de apaziguamento: declarações incendiárias de certos responsáveis da Saúde baixaram de tom ou, até mesmo, cessaram. De repente perante a iminência de corrida desenfreada aos hospitais do SNS, de quebra maciça de quotizações na ADSE, eis que uma certa calma parece surdir. Do lado dos privados, nomeadamente dos grupos hospitalares de grande dimensão, a ameaça d suspensão é, ao que parece, apenas algo que eventualmente poderia suceder mas que, para já está apenas no domínio dos cenários possíveis. Claro que a ninguém e sobretudo a estes prestadores convém uma quebra acentuada da procura de cuidados médicos. A saúde, ao contrário do que só os tontos asseveram, é também um negocio. Sempre foi, basta atentar que desde que há médicos há medicina privada. Aliás, até há bem pouco tempo, a grande maioria dos médicos exercia nos seus consultórios, em clínicas privadas. Só uns quantos estavam nos hospitais públicos que, de resto, sofriam a concorrência dos hospitais das Misericórdias mesmo em cidades tão importantes quanto o Porto. A expressão “direito à saúde” significa tão só que se entende que nenhum cidadão possa ficar privado de cuidados médicos sejam eles públicos (Centros de Saúde ou Hospitais Públicos ) ou convencionados. Neste último grupo é preponderante desde sempre a acção dos laboratórios de análises para onde o SNS encaminha praticamente todos os utentes não internados. Ou os dentistas, a fisioterapia e mais um quarteirão de especialidades a que, por diversas razões, os hospitais não podem dar resposta atempada.

Muitos dos pretensos salvadores do Estado providencial deveriam ter pensado nisto, ter-se lembrado disto em vez de subirem às trincheiras desguarnecidas da defesa a outrance do SNS. O SNS é uma boa ideia, vai funcionando e, para já, deveria ver os quadros hospitalares completos de médicos, enfermeiros e demais pessoal de saúde, auxiliar e administrativo. Deveria, urgentemente, melhorar as instalações que, em muitos casos, estão degradadas, reorganizar sob uma nova óptica centrada no doente muitos serviços, delimitar cuidadosa e prudentemente o estatuto do seu pessoal, impedindo a transumância que, ainda hoje, se verifica entre hospital público e medicina privada.

Quem padece só tem uma ideia: ser tratado bem e rapidamente, num ambiente digno, são e acolhedor. Tudo o resto é conversa fiada ou, pior, desconversa, propaganda, ideologia oca quando não mera estupidez.

Pede-se mais sensatez, mais inteligência e mais cidadania.

A todos e cada um.

 

20 anos 20

O Bloco fez vinte anos. Digamos que atingiu a maioridade. O primeiro sinal disso éos malabarismos e contorções com que se vai fazendo ao Poder. A sua direcção percebeu, há muito tempo, que quem quer atrepa até lá chegar.

A postura anti-sistema nunca deu frutos mesmo se salva as boas consciências, sobretudo as mais juvenis. Ainda por cima, o BE tenta caçar nos terrenos do PC (e de vários micro-grupos esquerdistas que nunca puderam, souberam ou quiseram um lugarzinho ao sol).

O PC que, aliás, nunca foi anti-sistema, guarda o seu campo cuidadosamente seja nas autarquias seja nos sindicatos seja nas múltiplas frentes de massas com que vai adubando a sua futura seara e criando alguns militantes e funcionários. Ao fim e ao cabo tem quase cem anos de experiência própria e alheia. É disciplinado, pouco dado a arroubos, não se envergonha com a companhia da Coreia do Norte, da China de capitalismo de Estado ou de Cuba mesmo se esta vai dando sinais de ferrugem (muito perto dos EUA e muito longe do fantasma da URSS).

O BE nasceu de um casamento surpreendente de três grupos com diversa tradição, formação e importância. De um lado os resquícios da UDP (ela mesma já resultado de fracções e re-arranjos de diferentes grupúsculos nascidos no fim dos anos 60 ou já post 25 Abril. Teve a sorte de eleger um deputado que manteve ao longo de várias eleições. Primeiro era um operário patusco e depois o inefável major Tomé, um militar que viu a luz durante os mais ásperos momentos do PREC). A presença destas criaturas no parlamento angariou-lhes uma pequena clientela que conseguiu eleger sempre por Lisboa um único mas miraculoso (e miraculado) representante. No resto do país a UDP era só paisagem. A seguir, temos a malta trotsquista (não todos claro que uma das características dos movimentos que se reclamam da IVª Internacional é nunca estarem todos de acordo no mesmo momento. De todo o modo havia um pequeno partido, a LCI e mais tarde o PSR que lá foi titubeando pelo áspero caminho do marxismo nacional (mas de inspiração francesa, até no nome) tendo de notável o facto de os seus militantes – ao contrário de muitos “maoístas” nunca terem estado dentro do PC. De resto, mais ainda do que os maoístas, foi na universidade e nos liceus que recrutou quase todos os seus militantes. Finalmente, o terceiro e mais reduzido dos grupos fundadores vinha directamente do PC, surgido do mal estar de muitos militantes com o conservadorismo de Cunhal e com a apática política cultural nele produzida ou teorizada. Não é bem a bela história de Jules et Jim e da extraordinária mulher que os acompanhou, longe disso mas é deste namoro a que aderiu Fernando Rosas (que percorreu toda a escala: foi do PC, da Esquerda Democrática Estudantil do MRPP e finalmente do PSR (agrupamento que o candidatou sem êxito ao parlamento) que finalmente sai o BE. Como cocktail político é mais um cacharolete dada a impossibilidade teórica (e historicamente comprovada) de se misturarem tantas e tão diferentes tendências que sempre se esmurraram (em todos os sentidos) voluptuosamente em defesa de minúsculas diferenças que eles consideravam maiúsculas.

Muita e boa gente previu um naufrágio iminente mas a verdade é que, mesmo com pequenas cisões internas e várias saídas abruptas, a coisa se manteve. É provável que para isso tenha contribuído o facto de, à falta de outras frentes, o Bloco ter conseguido aguentar e fazer crescer moderadamente um grupo parlamentar. Isso deu visibilidade, pelo menos nas grandes cidades e serviu de refúgio aos eleitores órfãos do PC e do PS que viam no voto BE um voto de protesto. Vi, mesmo gente que nada tinha a ver com qualquer brotoeja esquerdista fugir do PSD zangada e correr para votar no BE convicta de que assim também não apoiava o PS ou o PC.

A “geringonça” permitiu à direcção bloquista fazer as vezes de pagador de promessas e de farol das mais lídimas aspirações de uma certa burguesia educada e urbana. Se estivéssemos em França (onde aliás, volta e meia, aparecem fenómenos semelhantes) diria que o BE “est três tendance”. Traduzindo: está na berra, está na moda, é “bem” que se farta.

Todavia, por muto marxizante (enfim um marxismo muito sui generis) que se queira, o BE continua aflitivamente em busca de uma base social popular, trabalhadora (nem me atrevo a dizer proletária) e de polos significativos na esmagadora maioria das autarquias portuguesas. Na frente sindical vale menos do que o PS ou o PSD ou, até, provavelmente, do que o CDS. Dir-se-ia que subsiste em boa parte graças ao “ar do tempo”, ao “espírito do tempo”. E ao prodigioso equilibrismo da sua direcção política. A seu tempo tudo será “pesado, contado e dividido” se me é permitido citar, de cor, mesmo sem ser particularmente propenso a visões apocalípticas, o profeta Daniel.

Parece que o senhor juiz Neto de Moura vai atacar nos tribunais todos (ou alguns ) dos críticos que com mais ou menor felicidade e ironia lhe zurziram os fundamentos não jurídicos das sentenças em dois casos de violência doméstica. Como qualquer cidadão ele é livre de fazer o que lhe passa pela cabecinha pensadora. Todavia, sendo eu também um vago jurista (não praticante, graças a Deus) sempre, e em nome de algum resquício de solidariedade corporativa e, sobretudo temendo que a sua inusitada acção aumente uma já forte corrente anti magistrados, sempre lhe recomendaria mais discrição. Este processo vai ser a risota, melhor diria o escárnio da parte alegadamente ofendida, vai dar recursos de toda a ordem e, eventualmente acabará no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. E aí, aposto dez contra um, as pretensões do juiz ofendido não terão qualquer êxito que por aqueles lados vive-se já longe do “ancient regime” . E já, envergonhado enquanto português, imagino a chacota dos media europeus.

Ainda por cima, o caso Neto de Moura, torna-se ainda mais frágil porquanto este senhor juiz pediu ao STJ que o dispensassem do julgamento de caos de violência doméstica. Se bem percebo, fê-lo – e muito bem, por esta vez- porque se conhece e reconhece que a sua visão do mundo e da vida está em desconformidade com os tempos em que vivemos. Como se dissesse “eu sou assim, as minhas decisões nesta matéria vão ser alvo de crítica virulenta, de troça, de rancor e finalmente tudo isso irá recair sobre a generalidade dos juízes pelo que para prevenir tão medonhas situações seria porreirinho que me afectassem a outros julgamentos onde a mão, a perna, o corpo, o espírito de Eva (enviada pelo Maligno) sejam menos evidentes”.

O STJ recusou e isso condena o juiz ora desembargador a eventualmente tomar decisão inoportuna sobre algum eventual novo caso (e eles aparecem em catadupa...) .

Portanto, eu, no caso dele, teria fingido que nada era comigo e evitaria mais esta exposição pública seguramente desagradável.

 

 

O dr António Costa foi a um programa de televisão muito badalado (ou pelo menos, péssimo espectador que sou, muito visto). Eu não conhecia a apresentadora que, para meu gosto, se ri demais, tem uma voz que roça o desagradável e se veste de um modo bizarro (mas eu sou um velhadas e um conservador). Nesse programa entendeu fazer uma “cataplana” de peixe. A família que compareceu em peso (que bonito!) jura que ele é o cozinheiro da casa e que cozinha bem (melhor do que a mulher, como esta própria reconheceu. Ora aqui está uma bela aproximação ao “8 de Março). Fiquei comovido e com água na boca se bem que prefira uma boa caldeirada à pescador à algarvia cataplana.

Este acontecimento mediático-carnavalesco ocorreu em pleno Carnaval e foi, há que dizê-lo, bem menos imbecil e indigesto do que as longas reportagens sobre a miríade de carnavais que assola o país onde umas criaturas tentam provar ao pagode que cá também se samba. Não é verdade. Cá samba-se mediocremente, é uma péssima imitação do Brasil e o resto da folia é de uma pobreza imaginativa que brada aos céus. Então os pobres diabos que se vestem de mulher são de uma tristeza infinita. Vá lá que enquanto andam por aí a fazer tristes figuras não batem nas caras metades. Algum ganho se há de ter numa terra onde depois do futebol e do fado se afinfa forte e feio nas fêmeas (até há, uma santa, muito da minha devoção, que é a pafroeira das mulheres maltratadas pelos cônjuges – Santa Rita de Cássia, cuja procissão em Caminha é um festim para a boa disposição de qualquer ateu benevolente).

Bem fez o Presidente da República que desandou para Luanda e, mal chegou, foi ver o corso de lá. A criatura não perde pitada. E, desta feita, não houve selfies. Ficam para os próximos dias que os angolanos não perdem pela demora...

*na grvura: "caretos" de Podense, ou um carnaval português Ese... autêntico. 

26
Fev19

estes dias que passam 389

d'oliveira

images.jpeg

O Carnaval está próximo 2

 

mcr 26/2/19

 

Carlos, o bombo da festa

 

Não conheço o dr Carlos Costa de sítio nenhum e é bem provável que nunca me venha a cruzar com ele. Dele apenas sei o que sabe qualquer cidadão que tenta estar informado. E que tenha acompanhado, desde há um par de anos, a sua trajectória como Governador do Banco de Portugal. Cabelos brancos, ar cordato, fala afável e segura, perfil discreto são bons argumentos mesmo que não sejam suficientes para definir um cargo que, por força de lei (e mais ainda depois das regras adoptadas pelo Banco Central Europeu –BCE-) tem de tutelar prudente mas firmemente o sistema bancário português.

CC começou já há bastante tempo por ser acusado de “não ver” ou ver enviesadamente o que se passava em certos bancos, nomeadamente o Espírito Santo.

A carreira deste banqueiro que passou pela CGD durante um curto período – e não o pior e mais descarado- começou a ser contestada depois de Passos Coelho lhe ter confirmado o mandato para onde fora indicado pelo sr. Sócrates. Ou seja, para certa gente, ele era bom durante o “socratismo” mas mau logo que o passismo despontou! Bizarrias.

Costa foi acusado de nada ter lobrigado no cafarnaum do BES. Tal e qual como Constâncio cuja miopia bancário-política foi idêntica. Só que Constâncio foi para a Europa e Costa ficou por cá a ver o terramoto acontecer.

O segundo (nem falemos da mortal inimizade de Centeno) ataque (aliás pluripartidário) a CC consistiu em tentar embrulhá-lo em financiamentos medonhos da CGD a gente “acima de toda a suspeita”. Aliás, apenas a um visto que o grosso dos desvarios criminosos ocorreu posteriormente com os resultados que se conhecem (se é que já conhecemos tudo!...). Costa teria estado numa reunião alargada (ora toma: eis que a CGD, tal qual o comité central do PC tem também “reuniões alargadas, provavelmente com os mesmíssimos efeitos de encenação vagamente teatral e realmente sem qualquer importância...) E que nessa reunião se teria atribuído a um empreendimento algarvio uma forte soma sem atender ao risco, às garantias e a tudo o resto. Na versão de Costa o que houve foi tão só uma reunião onde sem se conhecer destinatário, se enunciaram princípios que justamente previam a existência necessária de um sindicato bancário e o escrupuloso acatamento do parecer da comissão encarregada de avaliar o risco. Posteriormente, já sem Costa, ma nova reunião mais estricta (ai não!) decidiu o financiamento.

Quando alguém é acusado de algo, compete ao acusador provar sem lugar a dúvidas a acusação. O acusado poderá depois defender-se. No caso de Costa, pelo que se vai sabendo, a versão dele parece ser a mais consistente enquanto a acusação não conseguiu até agora provar a sua participação na efectiva concessão desse mal paradíssimo crédito (lembremos que, na altura, era o dr. Constâncio o homem do BCP, o cuidadoso vigilante das tropelias bancárias...)

 

 

Vai em 19 o número de mulheres assassinadas por maridos, ex-maridos ou companheiros. E ainda não chegamos a Março. A tendência, pelos vistos, é que 2019 seja pior, muito pior que 2018.

Quem me atura a bílis escrita que por aqui vou deixando, recordará que ando nesta cruzada sem fim desde que comecei a colaborar no blog. Primeiro, acho que alei de Espanha onde, na época, era corriqueiro abater a companheira ingrata e insubmissa. Depois – e por cinco ou seis vezes (quase uma por ano) – fui referindo o caso português. Até que me cansei. Falar de violência doméstica extrema parecia-me chover no molhado. Mesmo numa altura em que havia muitos comentários os meus textos sobre esta questão não mereciam grande eco. Ou eu não tinha leitoras. Ou os meus leitores eram marialvas e zupavam nas cônjuges. Ou, finalmente, e mais acertado, eu usava argumentos pobres e uma escrita mais chata do que a espada do D Afonso Henriques o que fazia o mais esforçado/a leitor/a desistir.

Todavia, os casos repetem-se e os escândalos também. Notem que eu não estou a falar do senhor juiz Neto de Moura, criatura que nunca vi, que espero nunca ver, que, aliás, não quero sequer lobrigar mesmo de longe.

Espero que ele também me não leia. Sentir-me-ia ofendido se o fizesse. Não somos iguais apesar da minha licenciatura em Direito, apesar de sermos do mesmo género e termos a mesma cidadania. E vivermos, creio, na mesma cidade.

Nõ vou perder tempo e tinta com esse magistrado. Preferia falar do Maduro da Venezuela ou do lunático que esfaqueou um médico no hospital.

Porem, ainda hoje me soa a escárnio aquela decisão tomada à justa por um só voto –e qualificado!- de ter sido admoestado com repreensão registada!!! Oh que horror!

E gente houve, e muita, que até achou que assim se atacava a liberdade do juiz! A liberdade, a dignidade de uma mulher indefesa perante dois patifes que a atacam com uma moca de pregos não conta. Sorte teve ela, essa adúltera (que já não tinha relação alguma com qualquer dos dois criminosos “bem inseridos na sociedade”). Noutros tempos teria sido apedrejada até morrer, vá lá condenada a pena de cadeia e socialmente desprezada por toda a gentinha. Agora só levou umas pauladas... O mundo melhora não há dúvida.

Eu não sou feminista, Deus me livre. Também não sou machista. Desprezo os macholas que normalmente não passam de ejaculadores precoces e de asnos chapados.

Sou apenas um pobre homem de Buarcos nascido durante a 2ª guerra mundial. Vivi todos estes anos agarrado a um par de princípios (que de vez em quando terei esquecido) vi muita coisa, desde a guerra da Indochina até à do Vietnam, desde, a repressão de Budapeste até à “grande revolução cultural e proletária”, desde Delgado até ao 25 de Abril deste até ao ominoso PREC (de que ainda há saudosos mesmo entre os que não viveram esses anos alucinados). Vi macuas a apanhar com o kuekuero, vi outros a serem inspeccionados para irem para o “contrato”, vi brancos virtuosos, ingénuos e burros pra quem a cor bastava para acharem que todo o negro era um poço de bondade e todo o branco um SS do apartheid. Vi o mundo atrás das grades deuma cela em Caxias, a polícia a carregar sobre uma pequena multidão jovem (isso vi em Portugal, Espanha, França, Berlim e Itália e eu no meio a fugir como os outros, a insultar como os outros e apanhar no lombo como os outros. Vivi, bebi, amei loucamente, insensatamente, abandonei e fui abandonado mas, com uma que outra excepção, juro que tive (e fui tido por) as mulheres mais belas, mais inteligentes mais doces do mundo. Recordo-as todas, especialmente a uma que há sessenta anos me deu pelos meus anos “A Retirada dos 10.000”de Xenofonte na tradução, de Aquilino Ribeiro uma edição “ilustrada” e mais cara que lhe há de ter custado um balúrdio. Que esteja viva e bem, cercada de filhos e netos (quiçá algum bisneto) que arrodeiem de amor e respeito.

Por tudo isto, e muito mais, falar de um julgador português “de que não quero lembrar-me” (Pilar, Madrid, 1975 a oferecer-me uma edição gasta e belíssima do Quijote). Nunca ou. Vá lá, só quando o vir comparecer num tribunal comum que o há de julgar pelo uso que faz do Direito.

 

Pardaus vejo eu correr por Bruxelas

 

As eleições europeias já andam por aí. E a tolice também. O PS do Porto julga “humilhante” o 9º lugar prometido ao seu campeão mas não abre a mimosa boquinha sobre o extraordinário facto de ver Maria Manuel Leitão Marques ser preterida por um pobre diabo, também ele Marques, aliás, que só pode apresentar um currículo de promessas, uma actuação ministerial que nem os mínimos olímpicos cumpriu, enfim algo a que poderia chamar-se “um homem de mão” do grande e omnipresente patrão actual do PS, o tal que invoca a despropósito a cor da pele quando se vê ameaçado.

O PS Porto acha que as sucessivas derrotas do seu campeão, as derrotas do partido no distrito, mereciam um maior reconhecimento e um lugarzinho ao sol (e à luz da cornucópia de euros que um euro-deputado recebe) em Bruxelas.

 

Um cavalheiro de nome Marinho e Pinto vai recandidatar-se ao PE. Vai por um partido fantasma (criado por e para ele) e depois de ter dito cobras e lagartos a propósito do PE, do “escândalo” que era o ordenado e mais um par de balivérnias que dizem tudo sobre o abencerragem.

Ao ouvi-lo nunca esqueço um paupérrimo agricultor que afirmava detestar as fossas mas que corria sempre para elas quando lhe cheirava a merda, tão útil para o seu pequeno campo. O cheiro da trampa é como o do dinheiro: embriaga sempre os falsos moralistas.

 

 

20
Fev19

Estes dias que passam 387

d'oliveira

Unknown.jpeg

O Carnaval está próximo (I)

mcr, 20/I/19

 

No Parlamento vai votar-se uma moção de censura. Perdida à partida. Só o CDS e p PPD a votarão pelo que, se a matemática (aliás, simples aritmética) não falha a chamada geringonça derrotará a proposta do CDS. Um jornal usa a feliz expressão “o ppd aplaude de mãos nos bolsos”. De todo o modo, como Rui Rio disse, nunca poderiam abster-se mesmo se esta moção sirva apenas a Cristas. Ao contrário do que afirma um emproado comentarista dominical, a iniciativa não é “um tiro no pé”. Cristas está apenas a tentar manter a base galvanizada, e é aí e no universo dos possíveis votantes do seu partido que ela joga. Passa para a multidão a ideia de que se bate em todas as frentes contra a “frente de esquerda”. Não só não se arrisca a perder votos mas é bem possível que recolha mais alguns.

O PPD, ao invés do que sugeria o mesmíssimo comentarista dominical, nunca poderia abster-se. Ao votar favoravelmente a moção pode não ganhar votos mas evita perdê-los e afasta temporariamente a ideia de que é, implicitamente, “muleta” do Governo. E evita divisões nas baronias social-democratas que se digladiam por tudo e por nada. Numa altura de escolha de candidatos às europeias, Rio não está disposto a fornecer argumentos aos contestatários.

Do lado dos vitoriosos, só o PS ganha verdadeiramente. Primeiro a moção não derruba o Governo; segundo, obriga o PC e BE a votarem por ele. Mesmo se o façam com esfarrapadas desculpas de “não fazer o jogo da Direita”.

(não refiro os Verdes ou o PAN por não terem neste jogo dos quatro cantinhos qualquer importância. De qualquer modo, os Verdes votarão de certeza com o PC e o dos animaizinhos coitadinhos há de encontrar alguma razão para fazer o mesmo).

 

O PC vai avançar com uma série de propostas claramente de época eleitoral. Uma delas diz respeito à gratuidade de medicamentos para pessoas com mais de 65 anos. Desconheço se há algum filtro para avaliar quem pode ou não pode receber essa ajuda. Assim, sem mais, corre-se o risco de ver os ricos (os ricos portugueses que, no resto da Europa não passam de remediados) passarem a ter uma regalia de que em boa verdade não precisavam. É verdade que o PC refere que tal gratuidade diz apenas respeito ao genérico mais barato. Todavia, mantem-se a ideia de que, descontos cegos dão vantagem sempre a quem mais tem.

 

Parece que, à boleia de uma lei do tempo do PREC, se avoluma a ideia de “requisição civil” de unidades hospitalares privadas. Para um momento em que começa a esboçar-se a hipótese de negociação com tais entidades, conviria talvez não deitar gasolina nas chamas.

De resto, a guerra da ADSE/privados começa a deixar perceber que o Governo e os exaltados radicais (entre os quais se encontra a actual Ministra) não dispõe de nenhuma alternativa viável à saída dos privados (o hospital da Cruz Vermelha, os hospitais das Forças armadas e as Misericórdias não estão todos localizados onde é necessário nem dispõem dos mesmos meios técnicos e de pessoal suficiente para suportar o eventual afluxo de pacientes).

Aliás, a estouvada criaturinha da Saúde ainda não percebeu, ou não quer perceber, que muitos dos utentes (pagadores) da ADSE poderão abandonar o instituto público (mesmo que exclusivamente financiado por nós utentes) e fugir para seguros de saúde privados (no meu caso até talvez viesse a pagar menos do que actualmente pago). Assim se concretizaria o sonho maior dos coreano-albaneses lusitanos que sempre detestaram a ADSE em nome de uma utopia estatizante e estalinista.

Sobre o tema, um cavalheiro de seu nome Eugénio Rosa, “representante dos utentes” (quem é que o elegeu? E porquê? Será, sequer, utente?) veio, sem corar, afirmar que os 3 privados que ameaçaram cortar com a ADES apenas representavam 0,003% dos convencionados! A criatura compara três grandes grupos hospitalares com qualquer pequeno laboratório convencionado!!! Isto ou é burrice supina ou mera má fé. O que me admira é que na “votação” que o alcandorou ao lugarzinho sempre apetecível (quanto mais não fosse pelas possibilidades de tentar controlar o organismo) de vogal terem havido algumas abstenções e um voto contra.

 

O meu percurso no ensino secundário (oh!, há quanto tempo!) dividiu-se entre o sector público e o privado (no caso um colégio na cidade onde vivi parte do 5ª ano, e duas estadias em colégios no 7º ano por birra e teimosia de um avô encarregado de educação). Só tenho a dizer em de ambos os sistemas e que tive sempre boas ou muito boas classificações nos exames nacionais a que na altura todos se submetiam. Esses exames eram sempre feitos nos liceus, convém acrescentar.

Ora, saiu, recentemente, mais um “ranking” do ensino secundário. Os resultados são dramáticos. As duas melhores escolas públicas (Clara de Resende –Porto- e D. Maria –Coimbra) aparecem em 33 º e 34º lugares. É óbvio que os colégios arrebanham os filhos dos mais ricos e remediados e a escola pública tem de se haver com os alunos vindos de meios mais carenciados ou menos favorecidos. As duas escolas públicas referidas estão situadas em zonas de média e alta burguesia. Todavia, há escolas públicas em meios pobres que se saem muito bem.

Os “rankings” valem o que valem mas para alguma coisa, mesmo pouca, hão de servir. E neste caso nem sequer constam escolas ditas estrangeiras (Liceu Charles Lepierre restantes escolas francesas, Colégio Alemão ou as escolas inglesas.) Além destas, uma há –cara muito cara: St Julians, Oeiras – que tem resultados estrondosos: os seus alunos entram nas melhores universidades inglesas (Oxford, Cambridge, Imperial College, London University College, p.ex.) sem qualquer dificuldade.

Percebe-se que muitos pais queiram assegurar o futuro dos filhos matriculando-os em escolas deste tipo mas nada disso pode querer significar que o privado seja apenas para “betinhos” como asseverava a filha de um comentador do “Público”.

As duas já citadas escolas públicas, 33ª e 34ª do ranking tem, indubitavelmente, uma frequência proveniente do mesmo estrato social dos jovens que vão para os colégios e isso não significa que os alunos vivam numa “bolha” (sic) que os não prepara convenientemente para a vida futura, como realça o articulista. Os eventualmente futuros licenciados tem toda uma universidade para se homogeneizarem mesmo se vindos de situações muito diversas. Quanto mais não seja pelo facto de à universidade já só chegarem os que querem e podem lá chegar. A alegada falta de estudantes vindos dos meios mais desfavorecidos só se resolve mediante uma séria política social escolar (bolsas de estudo, residências, cantinas, empréstimos e outros incentivos). Tudo coisas que são exactamente o contrário da estúpida redução de propinas que acaba por aproveitar muito mais aos ricos do que aos pobres. As propinas são essenciais para as débeis finanças das Universidades e nem sequer são o principal custo do ensino superior.

Dir-se-á que tudo isto são meros acidentes de percurso no actual Governo de “geringonça”. Que há um futuro radioso mais adiante, bastando para isso olhar para as promessas de investimentos brutais que aí virão. Se vem ou não, já não é coisa para esta legislatura e a próxima sabe-se lá como será. O PS já esteve mais próximo de uma confortável maioria (ou mesmo da absoluta) e agora tem perdido algumas plumas. A remodelação de há dias mostra que Costa adoptou a táctica do “quadrado” e preenche as saídas com gente sua, cada vez mais sua. Ninguém acredita que a saída de Maria Manuel Leitão Marques para o Parlamento europeu fosse necessária (ainda por cima atrás de uma luminária que de saldo governamental apresenta um milhão de promessas e nada realizado. A aparente “esquerdização” tão apregoada pode tirar um par de votos ao BE, e pouco ou nada ao PC, cujos votantes descreem do chamado voto útil. Mas esse caminhar afasta o partido do abstracto “centro” que é onde tradicionalmente se ganham as eleições. Rio ainda não perdeu estas eleições (aliás, que me lembre já ganhou outras bem difíceis) e pode mesmo ficando atrás do PS causar mossa ao partido de Costa. Tudo poderá depender da abstenção e esta, em claro avanço desde há mais de vinte anos, prejudica sempre o “centrão”. Tudo depende da evolução da economia europeia já que a nossa regista resultados bem menos lisonjeiros do que Centeno apregoava. As promessas podem muito mas perdem eficácia quando são em demasia. E por cá não passa dia sem mais uma mão cheia delas. E disso, diz quem sabe, está o inferno cheio.

* a gravura: carnaval brasileiro claro. Os carnavais indígenas são tão clamorosamente pobres e desconsolados que nem um exaltado patriota consegue pô-lo em destaque. 

 

 

 

29
Jan19

Estes dias que passam 386

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

O desastre absoluto e os seus defensores

mcr 29-1.19

A Venezuela continua a ser notícia e nunca pelas boas razões. A proclamação de Guaidó (actual presidente do Parlamento) como presidente do país é apenas um fait divers na longa e dramática agonia daquele desgraçado país onde o “chavismo” sem Chavez (que já não era coisa que se cheirasse) apenas acentua o desastre que a chegada daquele anunciava.

Uma inflação incontrolável (1.500%, mil e quinhentos por cento!) reduziu a população a níveis de pobreza inauditos que fazem a Coreia do Norte passar por um paraíso. De facto, o ordenado mínimo mensal á para comprar (notem bem) três bananas e sete tomates. Convenhamos que para alimentar uma pessoa (ou até uma família) isto roça a infâmia. Uma costeleta ontem custava 1.500.000 bolivares (um milhão e meio de bolívares. A imagem era extraordinária porquanto o monte obsceno de notas parecia querer dizer que o papel de que eram feitas poderia valer mais do que o seu valor fiduciário.

Não obstante, por cá, subsistem -se bem que prudentemente calados- alguns amigalhaços do país de Maduro, entre eles um cavalheiro coimbrão que ainda há pouco tempo alardeava as virtudes do regime chavista-madurista. Isto já nem é cegueira ideológica é apenas má fé pura e simples.

No plano internacional, afirma-se que há dois grupos de países cuja posição em relação à Venezuela é antagónica. Não é bem assim. A Venezuela conta entre os seus defensores com uma escassa dúzia de países de que se citam a Rússia, a China, o México, a Bolívia, a Guatemala e a Turquia. Exceptuando o México que há pouco elegeu o senhor Lopez Obrador como presidente, os restantes são surpreendentes exemplos de falta absoluta de democracia, regimes tendencialmente de partido único.

Deixando de lado a Rússia e a China, cujos méritos democráticos são amplamente conhecidos, conviria lembrar que na Guatemala, governada com mão de ferro por um casal pouco exemplar, houve no ano que findou algumas (bastantes) centenas de mortos mormente entre estudantes contestatários, sindicalistas, intelectuais e gente miúda. A Bolívia na sua paupérrima insignificância pouco mais é do que uma colónia disfarçada da Petrobrás, empresa brasileira que explora o seu gás natural e o exporta através dos seus gasodutos. Todavia, o grupo político dirigente afirma-se nacionalista, anti-imperialista e progressista.

Finalmente, a Turquia. Bastaria lembrar que o seu actual líder representa, com o partido que o apoia a mais violenta contestação ao passado atarturquista e ao estado laico. É verdade que, durante muito tempo, esse regime foi monopolizado pela Direita mas havia conquistas sociais que, apesar de tudo, pareciam ser positivas e aproximavam o país da Europa, a cuja porta bate insistentemente. Com Erdogan, as coisas foram desandando cada vez mais e agora pouco mais é do que um Estado policial pró-islâmico que manda para a prisão ou para o exílio quem quer conteste a acentuada viragem religiosa a que se assiste. Nem vale a pena falar dos curdos e da repressão que sofrem desde sempre. É verdade que não puderam ser exterminados como os arménios (que eram muito menos numerosos e cristãos) mas o que se vai vendo no que toca às ambições turcas na Síria. Se é verdade que foram as milícias curdo-sírias quem expulsou os radicais islâmicos de extensos territórios no norte do país (amparadas, é verdade, pelo escudo norte-americano que dessa maneira poupou o seu limitado contingente à fúria dos combates e, agora pretende sair da região), não menos verdade é que a Turquia, como o Irão e, de certa maneira, o Iraque não aceitam sequer a autonomia curda seja em que território for. Sabem, perfeitamente, que isso seria o princípio da realização do velho sonho unificador de uma nação curda distribuída pelos quatro países.

Além disto, talvez valha a pena recordar que, depois do alegado golpe de Estado contra Erdogan, subsistem nas prisões mais de cinquenta mil presos políticos! Um record digno do Guiness a que se devem juntar mais de cem mil funcionários demitidos, o silenciamento da grande maioria dos jornais, rádios e televisões do país, aliás os mais respeitados meios de comunicação lá existentes. A Turquia, contudo, mantem-se graças ao facto de controlar os Estreitos, de pertencer à NATO, de não hostilizar Israel e de conter, a troco de fortes somas, o caudal migratório de refugiados sírios.

Estes são os até agora aliados da Venezuela madurista que, não exportando petróleo por ter deixado arruinarem-se, por incúria, as estruturas produtivas, expulsa milhões de cidadãos fugidos à miséria, à fome, à doença.

Ver, e ouvir, as delirantes declarações de Maduro sobre o estado do país é, apesar de tudo, menos alucinante do que ler o que dizem os seus escassos defensores que deveriam ser obrigados a partir para Caracas com urgência e a subsistir lá com o mesmo salário médio do infeliz cidadão venezuelano. Um mês, só um mês para ver se o entusiástico apoio aguentava aquele deletério e malsão ambiente político-social.

(O Eduardo Prado Coelho contava com o seu subtil humor uma história por ele testemunhada na falecida União Soviética: aos fins de semana viam-se algumas dezenas de automóveis com placa do Estado a abandonar Moscovo. Os alto funcionários do Comité Central e do Governo partiam para um repousado e merecido fim de semana nas suas datchas (atribuídas pelo mesmo Estado). Ao ver esta prazenteira migração, um intelectual comunista português dizia-lhe enternecido: “Vê lá, Eduardo, estes tipos até ao fim de semana trabalham!”

Entretanto o Zé Povinho local continuava a fazer bicha nos poucos sítios onde se vendiam bens de consumo imediatos, mormente alimentação.

O ingénuo (?) interlocutor de EPC via a realidade medonhamente arrogante da “nomenkatura” soviética com os óculos baços da sua ideologia cultivada e alimentada durante muitos anos de teimosa e desesperada resistência à ditadura do Estado Novo. Isto não o desculpe mas faz-nos percebê-lo. Todavia, isto passava-se no século passado, logo a seguir ao 25 A ainda antes da realidade nua e crua do mundo nos entrar portas adentro e antes, muito antes, de nos habituarmos a ver fria e racionalmente o que se passava à nossa volta ).

* Hoje mesmo, um dia depois deste texto estar escrito e pronto para ir para o éter, há a notícia de uma nova desvalorização da “nova” moeda venezuelana. Em boa verdade isto nem sequer é notícia.

 

27
Dez18

estes dias que passam 381

d'oliveira

images.jpeg

E agora o Joaquim Antero Romero de Magalhães?

mcr 27-12-2018

Alguém chamado Bruno Paixão chega de supetão à minha caixa de correio a agradecer um texto do Rui Namorado sobre o Joaquim Magalhães. O Inverno e os seus frios não trazem só a petisqueira nacional, os fumados que se hão de comer com uma roda de bons e velhos amigos, acompanhados pelo vinho novo e um bom fogo na lareira. O Inverno traz sempre más novidades que aos velhos leva-os o frio, as noites longas e pesadas, esta entranhada humidade (hoje, aqui, está a 100% se a meteorologia do telemóvel da CG não mente) e a muitos, a solidão.

Não era esse o caso do Antero Romero (a malta gostava de se meter com o nome do Magalhães) que nos últimos anos quando aqui aparecia (aliás, aparecia na esplanada) vinha sempre escoltado por vários antigos alunos dos quais apenas conheço o Luís Miguel Duarte, professor também de História na Faculdade de Letras da UP.

E era bom e reconfortante, para mim pelo menos, ver o velho professor rodeado por alunos gratos que o não esqueciam e, via-se a olho nu, o admiravam. Poucos se podem gabar de ir vida fora, com tão invejável companhia.

Lá nos abraçávamos como se deve a dois cavalheiros da mesma idade que se conheceram em Coimbra no longínquo ano de 1960 e enfrentaram sem se fazerem grandes perguntas o cerco odioso do Estado Novo. E que cada um no seu grupo de teatro (ele no TEUC, eu no CITAC) rivalizavam amavelmente unidos pelo mesmo amor à palavra sobre as tábuas numa noite escura e frente a uma plateia atenta, exigente e calorosa.

O Joaquim foi depois da greve de 1962 e consequente derrube da direcção da AAC (também já não restam muitos) eleito Presidente da Associação Académica. Na época, o governo para maior controlo das AA EE inventou para Coimbra um sistema de representação na Direcção Geral em que dava sempre alguns lugares à lista vencida (a lista deles, dos “fascistas”, dos monárquicos, dos conservadores, dos retintamente tradicionalistas, dos que faziam trupes e chateavam os pobres caloiros). A Direcção Geral legítima ficava com maiores problemas para acudir à gestão de uma grande Associação com dezenas de secções e chamada a intervir em muitos e variados capítulos. Isto claro, porque a todos parecia inaceitável distribuir pelouros por elementos vencidos democraticamente sem mandato nem direito para gerir a Academia tanto mais que quase não passavam – se é que passavam – de agentes do governo repressivo. Decorreu daí  a necessidade de criar uma estrutura associativa que estudasse e preparasse soluções para apoiar o dia a dia da Direcção Geral. Nasceu assim a “Comissão de Estudos Associativos” da qual, juntamente com o Zé Barros Moura, o António Lopes Dias, o Zé Tomás Baganha fiz parte.  De longe, mas não muito, o Eurico Figueiredo e o Manel Alegre, tutelavam este grupo de rapazolas ainda novos e com (demasiado) sangue na guelra.

(Acho que cumprimos decentemente a nossa função de “pessoal de gabinete” sombra onde, valha a verdade também nos divertimos. Como curiosidade, o apodo de “inteligente” (Barros Moura) foi inventado pelo Dias já citado (Didi) que pôs alcunhas aos restantes das quais só vingou a do Baganha (“abastado”). Quando leio nebulosas interpretações sobre o IBM não posso deixar de me rir à socapa.)

O Magalhães cumpriu decentemente a sua difícil tarefa mesmo se, na altura, lhe exprobássemos a notória prudência com que agia. Mais tarde, verifiquei quanta razão ele tinha e quanta habilidade teve de usar para manter a AAC a salvo. E, de facto, no ano seguinte, direcção de Octávio Ribeiro da Cunha, a coisa voltou a estoirar e a Associação esteve três longos anos sob o regime de “comissão administrativa”. Até 1968, para ser mais preciso.

O Joaquim Antero enveredou pela carreira académica depois de um curso notável e da publicação de uma tese de grande qualidade que viria a dar origem ao “Algarve económico, 1600-1733” que ainda hoje se lê com largo proveito. Depois foi a carreira que se sabe, comissão dos descobrimentos, deputado e tudo mais. Mas sempre, antes e por cima disso, havia o professor dedicado, o suscitador de paixões pela História, o intelectual lúcido e o homem culto que morria por livros. Tantas vezes nos encontrámos em alfarrabistas... A começar por aqui mesmo. Depois de uma hora na esplanada lá íamos para  a livraria Esquina em busca de um impossível graal. E dali se saia sempre com livros. O Magalhães e discípulos continuavam o seu dia numa almoçarada que, suponho, os ex-alunos ofereciam ao Mestre.

Morreu hoje, ou ontem, não percebi, bem pelo texto do Rui Namorado, outro desse tempo de vinho e rosas, de chumbo e escuridão. E o Rui deixou um texto recheado de ternura no seu blogue “ograndezoo”, algo que se deve frequentar amiúde pois o Rui não deixa nariz de cera por derreter nem tolice de pé. que nunca lhe faltem forças nem vontade!

À Luísa e aos filhos (“a minha progénie”, dizia o maroto do Antero Romero, como é que com um nome destes se tem humor é mistério gozoso mas grande) um beijo muito sentido e abraços a todos.