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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

22
Out19

Estes dias que passam 335

d'oliveira

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Quousqe tandem...

mcr, 22.10.19 

 

(esdevens hereu

dels dies de l’odi

i del degovern.

Salvador Espriu, La pell de brau)

 

Permitam-me os leitores dar ao folhetim um título ciceroniano. É que, de facto, anda por aí um abuso desconforme da ingenuidade (ou do desconhecimento) dos leitores a quem são atirados manifestos, declarações, abaixo-assinados e (uma concessão à modernidade) fake news de todo o tipo.

Agora é a Catalunha que dá o mote.

Indignados lusitanos reabrem a polémica da odiosa Castela e das inocentes nacionalidades periféricas.

Antes do mais e a este respeito, conviria dizer que Galiza, País Basco e Catalunha são realidades geo-políticas absolutamente diferentes. A primeira foi efemeramente um reino em meados do século XI mas desapareceu rapidamente em benefício da monarquia leonesa por um lado e da separação de Portugal, por outro. O País Basco nunca foi independente mesmo se no seu extremo nordeste tivesse existido uma nação, a Navarra que, com várias interrupções existiu entre oos séculos XI e XV. A Catalunha fez parte do reino de Aragão e depois da Espanha com os Reis Católicos. De per si, nunca foi um reino independente.

A língua galega depois do período de esplendor poético galaico-português foi pouco a pouco perdendo o favor das elites a pontos de apenas ser usada durante séculos por camponeses e pescadores (“labregos e marinheiros”). Mesmo no século XX os principais escritores galegos (Cela, Torrente Bsllester ou o enorme Valle-Inclan) escreveram em espanhol dando-me mesmo o caso do último deles ter proibido a tradução das suas peças em galego porquanto os galeguismos que ele usava perderiam todo o seu efeito estilístico. È verdade que outros (Rosalia de Casto, Castelao, Celso Emílio Ferreiro ou Luís Seone) usaram preferentemente o galego mesmo se não desdenhassem o espanhol. No País Basco aconteceu o mesmo; só os mais pequenos e humildes se mantiveram fieis à língua nativa e, de resto, desconhecem-se até há bem pouco textos cultos em basco. Na Catalunha a sorte da língua foi diferente porquanto nunca foi totalmente abandonada pelas elites mesmo se, excepção feita à poesia, a grande maioria da sua literatura tenha sido escrita em espanhol. E vale a pena recordar que, fora da Catalunha, os seus escritores só tenham atraído a atenção quando os seus textos foram vertidos para espanhol (pessoalmente, e desde os anos sessenta, graças a Ricardo Salvat, comecei a ler e a apreciar o catalão mas, confesso que nunca vi nas bibliotecas dos meus amigos um único livro em catalão. E foi-me difícil encontrar fora da Catalunha livros na mesma língua. E mesmo lá, deparei-me, vezes sem conta, com edições bilingues ou. quando monolingues, em duplicado, catalão e espanhol...

2 A Espanha construi-se lentamente. À uma porque se trata de um grande território que se foi unificando contra os ocupantes árabes. Depois, porque, durante a “Reconquista” se formaram reinos (Astúrias, Castela, Leão, Navarra, Aragão e Portugal que com dificuldade se uniam esporadicamente. Foi com Fernando e Isabel, os Reis Católicos, que a Espanha se pode considerar unificada dado que ao mesmo tempo, acabou a presença política árabe na península. E, nesse momento, já Portugal era um reino independente com séculos de existência arduamente defendida e conseguida umas vezes pacificamente (D Dinis e o Tratado de Alcanices – onde se fixou praticamente toda a fronteira hispano portuguesa-) ou militarmente, Aljubarrota, que garantiu definitivamente a independência de Portugal (o facto de três Filipes terem reinado durante sessenta anos em Portugal não diminui em nada esta afirmação uma vez que se tratava de uma monarquia dual. Estes reis eram-no de Espanha e de Portugal. Ao contrário do que muito boa gente pensa Portugal não tinha um estatuto idêntico ao da Catalunha. Ainda, há poucos dias, vi um historiador fazer um paralelismo entre as duas situações o que é um absurdo político-jurídico e uma mentirola histórica. É verdade que D João IV foi ajudado pela insurreição catalã na medida em que Espanha teve de lutar em duas frentes. Todavia, a frente catalã era mais importante por se tratar claramente de uma tentativa francesa de agressão a Espanha mais perigosa sobretudo por haver entre a França e a Catalunha uma fronteira comum que permitia a entrada de reforços e armas. Portugal, isolado entre a Espanha e o mar oferecia, eventualmente menos dificuldades militares. De todo o modo a guerra prolongou-se durante quase trinta anos. Não foi pera doce e conquistámos a nossa liberdade de acção à custa de enormes sacrifícios e, muitas vezes, praticamente sós (os Holandeses, os franceses e os ingleses tentaram e conseguiram, nesse período expulsar-nos de territórios na Ásia. No Brasil e em Angola as campanhas portuguesas foram longas, custosas mas ,finalmente, vitoriosas.

3 A Catalunha reapareceu (diferente) politicamente durante o conturbado período da 2ª República espanhola. Conseguiu a autonomia e um governo próprio e, de certo modo, conservou-o graças quase exclusivamente ao proletariado catalão (onde não faltavam fortes concentrações de emigrantes de outros pontos de Espanha) que conseguiu conter a revolta dos generais facciosos. E conseguiu-o também contra boa parte da burguesia catalã que, mais tarde, receberia entusiasmada e de pata ao alto (e “Cara al Sol”) os contingentes franquistas que entraram na cidade. (Bem diferente foi a sorte de Madrid onde as forças da República levaram a cabo uma formidável resistência contra as colunas franquistas. Foi em Castela e Leão, na Estremadura e na Andaluzia que os combates foram mais duros mesmo se o País Basco (ao contrário da Navarra) tivesse, juntamente com as Astúrias, resistido durante algum tempo. E justiça seja feita à frente de Aragão onde populares e forças anarquistas se bateram com denodo. A Galiza, terra de Franco caiu rapidamente e a Catalunha só caiu no fim da guerra por ser a região mais afastada da frente. Aliás, a estratégia franquista passava pela conquista do eixo Madrid Valência justamente para evitar uma luta em várias frentes o que, de resto era lógico de todos os pontos de vista.

E durante boa parte do franquismo o nacionalismo catalão não teve especial actuação. Por um lado as circunstâncias não ajudavam e, por outro lado, grande parte das elites políticas e financeiras da Catalunha sentiram-se muito à vontade nesses anos fatais. Porém, também não deixa de ser verdadeiro que na Universidade Autónoma, nos sindicatos e em zonas populares (onde aliás predominavam emigrantes) o PSUC (partido socialista unificado da Catalunha) versão catalã do PCE registava aderentes. Das restantes correntes políticas, desde a Democracia Cristã até à Esquerra Republicana são débeis –ainda que existam –os sinais mesmo se no exterior subsistia um governo catalão no exílio tão isolado e impotente quanto o governo da república no exílio. Quem fazia frente (a frente possível) ao franquismo eram os partidos comunista e socialista e os restos da FAI, Frente Anarquista Ibérica e dos seus sindicalistas que tinham sobrevivido (primeiro às tchekas depois aos franquistas). Já nos anos 60 e primeiros 70 não houve na Catalunha um movimento revolucionário com o peso da ETA mesmo se haja notícia parca do “Terra Lliure” a partir de 1978. Facilmente destroçado pelas autoridades este grupo independentista desapareceu por completo meia dúzia de anos depois.

Os partidos que reapareceram ou apareceram depois da instalação da democracia (entre eles a tradicional Esquerra Republicana e o mais recente Convengência i Unió são réplicas de partidos menos ou mais conservadores mesmo se a Esquerra se intitule social democrata. No principio deste século a social democrata Esquerra arvorava um par de slogans xenófobos que porventura agradaram aos seus seguidores mas claramente demonstravam a sua aversão a árabes, a africanos e também a emigrantes de outras comunidades. Todavia, como acenava com a hipótese independentista essa característica odiosa passou despercebida ou foi esquecida.

3 o nacionalismo catalão é curioso. De facto, a Catalunha é a par da comunidade de Madrid a mais desenvolvid e rica região de Espanha, Exporta para toda a Península e atrai sobretudo do sul fortíssimas vagas de trabalhadores sem os quais não sobreviveria. Um conhecido e reputado jurista catalão confidenciou-me uma vez sem tentar ser irónico que a Catalunha era “a única metrópole que queria libertar-se das suas colónias”.

Isto, se não diz tudo, diz, de todo o modo, bastante.

O renovado independentismo catalão acompanhou de certo modo outros independentismos que tiveram o seu momento nos idos de 60, a Flandres, a Córsega, a Bretanha francesa, o Alto Ádige entre outros sem esquecer a Escócia. Em alguns casos desapareceram (a Bretanha) noutros conseguiram o seu fito (Kossovo) em vários são uma ameaça recorrente (a Padânia, outra metrópole que se quer libertar das suas colónias que no auge da unificação italiana, conquistou e explorou desalmadamente e que enriqueceu. Também ela, com a a desapiedada exploração do proletariado emigrado do Sul ao mesmo que o desprezava. O caso da Flandres é relativamente diferente na medida em que foi vítima da Valónia francófona e só emergiu graças ao aumento da sua população eà renovação do seu aparelho industrial que ultrapassou há muito as envelhecidas estruturas do sul belga.

De todo o modo, na Europa que tant bien que mal tenta unir-se, falar a uma só voz, estas tentativas não são bem vistas. A Catalunha apela para uma parede de silêncio que não lhe pode responder por receio de ver o exemplo do irredentismo multiplicar-se. Não restam dúvidas que, se alguma vez se desvinculasse de Espanha, teria dramáticos problemas ao não conseguir integrar-se na UE nem no vasto grupo de países ibero-americanos de língua espanhola. De resto, e ao contrário da Galiza, nunca lá teve comunidades emigrantes (como é o caso da Argentina ou de Cuba onde até Fidel de Castro era descendente de galegos).

Em Portugal, onde o catalão é mais desconhecido que o árabe, o que não é dizer pouco, parece haver agora uma “Catalanofilia” seguramente fruto dos velhos e persistentes ressentimentos anti Castela. De facto, entre certa esquerda chique depois do perdido amor pela ETA recentemente falecida, apareceu esta simpatia extrema por outra região periférica. Mesmo se tudo desconhecem daquela região, desde a geografia às artes, da história à gastronomia.

Na França dos anos sessenta havia políticos que afirmavam que o seu amor à Alemanha era tal que não lhes bastavam duas mas antes preferiam três, quatro ou mais. Várias, guerras perdidas outras só ganhas graças a aliados poderosos, oportunamente esquecidos ou renegados, explicam este sentimento que a necessidade histórica e a UE fizeram retrair mas não desaparecer totalmente

4 A Espanha tem uma Constituição, uma lei fundamental que. se reconhece e ampara as autonomias regionais conferindo-lhes poderes que regiões de outros países invejam, também estabelece limites e deveres a estas e aos cidadãos.

Ao tomar a iniciativa de activar os prolegómenos da declaração de independência, os dirigentes catalães (e basta ler o que então diziam e proclamavam – oh que maçada por cá ninguém lê a imprensa espanhola e muito menos a catalã!...- ) sabiam perfeitamente ao que se expunham, sabiam que. embora num grau reduzido, exprimiam uma opinião minoritária na cidadania catalã, mas persistiram escudando a desobediência à lei fundamental e às leis do país no facto de estarem a fazer política. Quando o Supremo Tribunal depois de um processo que respeitou todas os procedimentos legais condenou alguns dirigentes a duras penas logo se levantou o escândalo. “Judicialização da política” parecendo, em boa verdade que seria preferível uma sentença desconforme com a factualidade e com a lei aplicável ou seja uma “politização da justiça”.

É verdade que há um problema político. É verdade que o independentismo é três ou quatro pontos menor do que a manutenção do status quo. Também é verdade que um sistema hábil e lesivo dos direitos dos cidadãos permite uma oportuna divisão territorial em que há sub-representação de votos em zonas onde habitam cidadãos recentemente chegados e sobre-representação em círculos mais afins das aspirações catalanistas.

Também é verdade que o Governo espanhol tratou com sobranceria alguns dirigentes catalães e se recusou a ouvir as boas ou as más razões destes. Diga-se, aliás que esse mesmo Governo está (e esteve sempre) acossado pela opinião pública espanhola, isto é por mais de 80% dos cidadãos, que não aceita a postura catalã.

Parafraseando um velho título dos tempos irrespiráveis: estamos de novo face ao “Labirinto espanhol” mesmo se já passaram muitos anos sobre esse notável livro de Gerald Brennan. Os abaixo-assinantes do último patético manifesto pró-catalão poderiam dedicar um par de horas à leitura desta obra fascinante. Preferem porém, a indignação fácil, o ressentimento lusitano e a demagogia. E fica bem o nome no jornal...

Tanto tempo perdido....

 

Em memória de Ricardo Salvat que me deu as primeiras lições de catalá;

recordando Luís Seoane, um galego a quem devo muita da literatura do seu país

E com imensa e antiga ternura para Maria del Coro, basca que me mostrou a Madrid que ela amava (tão jovens que eramos..)

* Na gravura: "Els 4 Gats" aqui se beberam muitas e boas cervejas com o Ferrand, a Pilar, o Eugeni, o Xavier, a Marguerita, o Pere, a Montse e outros amigos catalães com quem fiz um par de cursos de Direito Comparado. Que estejam bem e a gozar uma doce velhice

 

07
Out19

estes dias que passam 334

d'oliveira

 

 

Lisboa, sempre, o Porto de vez em quando

(e os arredores excepcionalmente)

mcr 7-10-19

 

As eleições acabaram, o país respira de alívio, os comentadores gargantearam a preceito e a confusão estabeleceu-se quanto a vitórias e derrotas.

Quem ganhou?

O PS teve mais deputados e mais votos (120.000, números redondos). Ganhou, portanto. Todavia ficou aquém da maioria absoluta por que lutou denodadamente. E agora? Vai “gerigonciar”? Com quem? O “Livre” e o “PAN” não chegam, o PC não arrisca e o BE, guloso, vai querer um dote condigno.

Assim sendo, esta vitória sabe, “a poucochinho”. E, no entanto, tudo parecia correr sobre rodas, a conjuntura externa e o milagreiro Banco Central Europeu, a cordura sindical nas ruas, a patuleia instalada no PPD/PSD, as hordas de turistas sobre o país indefeso a permanente paciência dos portugueses face ao descalabro do SNS e de mais uma boa meia dúzia de serviços públicos. A quatro, cinco semanas das eleições a maioria absoluta estava “no papo”. Ontem andou ausente e em parte incerta.

No BE, ao que se via nas televisões, o ambiente parecia festivo. Sorrisos e palminhas, muitas palminhas. Celebrava-se o quê? Os 50.000 votos desaparecidos mesmo se o número de deputados se manteve? E para onde foram esses votos? Quiçá para o Livre, jamais par o PC e eventualmente para o PS. A ouvir os comentários (ai os comentários!...) a grande vitória do BE está no facto da maioria absoluta não ter sido atingida pelo PS. Como quem diz “com o mal dos outros posso eu bem”.

Ontem, alguém afirmava que o “Iniciativa Liberal” fora buscar a sua base de apoio aos “bairros chiques”. E o BE foi onde? Às zonas de exclusão, aos bairros da lata, aos cintrões industriais? Não me façam rir que tenho cieiro...

O PAN quadruplicou o su número de deputados. É obra! Sobretudo porque depois da absoluta mediocridade das prestações do seu líder, convenceu quase mais noventa mil eleitores. D repente, um número apreciável de portugueses acordou “ecologista” ou algo do mesmo género. A pergunta que se impõe para este súbito entusiasmo pelo planeta (num país desenfreadamente “plástico”, beatas na rua, cocó do cãozinho em todas as esquinas e abandono galopante de animais domésticos) pode ter alguma resposta no facto de nestas últimas e decisivas semanas se ter realizado a grande e anual discussão sobre os efeitos nefastos da actuação humana sobre o clima. Que o perigo é evidente e diário já se sabe mas que a sua discussão neste momento ajudou não me restam dúvidas. Todavia, a pergunta permanece: que vai o PAN propor sobre praticamente todos os grandes temas a que não respondeu ou respondeu mal durante a campanha?

Dentre os vencedores estão obviamente os três recém chegados ao parlamento. Curiosamente, as reacções divergiram. A chegado do “Livre” e do “Iniciativa Liberal” não causaram um décimo do alvoroço da entrada em cena do “Chega”. O “comentariado” estabelecido e com tabuleta para a rua, encheu o peito e uivou condenações. Pelos vistos as dezenas de milhares de eleitores que (outra vez em Lisboa) levaram o senhor Ventura ao parlamento são uns réprobos ou, no mínimo, uns imbecis catatónicos. Tudo pelas declarações cuidadosamente escolhidas daquela gentinha. Pessoalmente, dou tempo ao tempo e espero para ver, como no poker. Em toda a europa há gente bem pior, representada nos parlamentos e as instituições lá vão funcionando, às vezes bem melhor do que cá. Que eles se anunciam populistas não há quaisquer dúvidas mas ainda os não vi apregoar o partido único o lager ou o gulag, a polícia política, a limitação das liberdades públicas ou a proibição dos outros partidos.

O Chega é segregado por minorias localizadas idênticas ás que deram origem ao “Livre” ou até à “Iniciativa Liberal”.  

E se quisermos levar com rigor esta pesquisa a cabo verificaremos que excepção feita aos chamados partidos do “arco da governação”, até o PCP carece de uma implantação nacional equilibrada... para não falar no BE e no PAN que não saem de parte do litoral entre Porto e Setúbal...

Neste grupo de pequenas formações o caso mais inesperado é o da “IL” que ao fim de poucos meses consegue atrair o número necessário de portugueses para (batendo o Livre) entrar no parlamento. Ontem acusaram este novíssimo partido de ter gasto uma fortuna. Só pelos cartazes imaginativos valeu a pena.

Aliás, ontem, embevecido pela vitória, o coordenador do Livre afirmou que, entre outras virtudes, o partido só tinha gasto 10.000 euros. Deve esquecer-se da sua tribuna trissemanal no “Público”, das vezes que é entrevistado nas televisões e dos anos que passou no Parlamento Europeu, à boleia do BE, primeiro e como “independente” depois.

Passemos aos vencidos.

Do dr. Santana Lopes, esse cavalheiro que “anda, há anos, por aí” não vale a pena falar. A criatura no seu ziguezagueante percurso político apenas conseguiu ferir com alguma gravidade o PSD/PPD. Ainda ninguém percebeu porque saiu e ao que vem. O resultado foi o que se viu, nem 40.000 votos, apenas um pouco mais do que os amigo do sr. Tino de Rans!

Os restantes (incluindo o inefável MRPP que já tinha idade para ter juízo e direito à reforma por inteiro) são meros ajuntamentos de amigos de que não vale a pena fazer a destrinça. Desta vez faltou-nos o POUSque também já não comparecera em 2015. Curiosamente estes doze grupos averbam muito menos votos que o somatório de brancos e nulos. Ou seja, houve dumais de 200.000 portugueses que se deram ao trabalho de ir testemunhar nas urnas que se não queriam os grandes também não queriam os pequenos!

O CDS deu à costa como o S Macaio. Todavia, ao contrário daquele quase ninguém se salvou. Naufrágio completo com perda de pessoas e bens (de 18 deputados passa para 5 o que também resulta do facto de os seus eleitores estarem estarem dispersos por quase todo o país Se sofressem da mesma concentração do PC ou do BE poderia ter elegido mais 3 ou 4). Quase se diria que por pouco não morria na mesma semana do passamento do seu fundador. Este que teve um percurso pelo menos bizarro (até ministro de Sócrates foi!!!) vingou-se além túmulo do partido que mandou, despeitado mas com alguma razão, a sua fotografia para o Largo de Rato. Assunção Cristas teve o bom senso de se demitir que o caso não é para menos. Regressa o fantasma do táxi e, pior do que isso, tornaram-se mais opacos o programa e a ideologia deste partido.

O CDS entrou em modo de espera.

O PCP perde um terço dos seus deputados (incluindo aquele senhora Apolónia, verde por fora e vermelha por dentro) e quase um terço dos seus eleitores. A lei natural da vida estará, um pouco, na base desta perda. O “partido” não atrai jovens em número suficiente para colmatar a morte dos velhos e dedicados militantes. Parafraseando Churchill, isto “não é o princípio do fim mas o fim do princípio”. Todavia, mantém a sua máquina sindical, a rígida disciplina interna qua abafará as acusações ao apoio à geringonça e, se acaso se puser fora desta, tornará a rua insegura par o PS.

E o PPD/PSD?

As más línguas afirmam que teria perdido 500.000 votos. É não contar com os que vinham do CDs com ele coligado na PAF. Mais líquido é o facto de ter perdido 22 deputados, mesmo se este resultado não tem em linha de conta as perdas derivadas de não existir coligação alguma.

Rio, ontem, era um derrotado calmo ou mesmo “aliviado”. De facto há um mês o PSD andava a arrastar-se pelos 20% e acaba ultrapassando os 27%. Também é verdade que, mesmo sem o beliscarem muito, a Aliança, o Chega e a Iniciativa Liberal podem ter-lhe arrebatado entre 80 e 100.000 votos. A oposição interna pode ter desviado para a abstenção mais uma boa fatia de votantes habituais, enquanto o efeito Costa/Centeno terá arrebatado um númeo grande dos chamados eleitores “móveis” que não obedecem a nenhuma disciplina de voto. Até o PAN lhe pode ter retirado vozes.

O estado de guerra civil larvar no PSD/PPD não é uma novidade mas, desta feita, a verdade é que Rio só agora controla a frente parlamentar e poderá eventualmente enfrentar os seus numerosos (e nem sempre conhecidos) adversários internos com alguma vantagem. No meio da derrota pungente obteve uma vitória pírrica: tirou a maioria absoluta que esteve à mão de Costa. Esse mérito só a ele cabe. Nem o PCP, nem o BE nem a dr.ª Ana Gomes, sempre desassossegada, se podem gabar do mesmo. Os dois partidos perderam cerca de 150.000 votos de 2015 para 2019 pelo que a campanha por eles desencadeada contra a maioria absoluta morreu na praia. Foi Rio quem, perdendo votos, não perdeu os suficientes – como há um mês alguém previa – para assegurar a Costa o tapete vermelho. Neste capítulo, rio, ao perder ganha qualquer coisinha e torna a constituição do futuro Governo mais insegura, mais difícil e menos estável.

Eu nunca votei no dr. Rio fosse pra que cargo fosse. Aliás, não o conheço nem me apetece conhecê-lo. Porém, estando na mesma cidade, interessando-me pela poítica local e pela nacional, cedo percebi que a criatura tem uma qualidade: é “resiliente”, teimosa e violentamente “resiliente”. A primeira vítima disto foi o dr. Fernando Gomes que, depois de uma disparatada e inútil incursão ministerial a convite de Guterres, tentou regressar à Câmara Municipal do Porto. Na altura, um parceiro meu de bridge e militante desapaixonado do PPD informou-me sobre Rio. “O gajo é um chato, só arranjou complicações enquanto Secretário Geral, indispôs os militantes ou os sindicatos de militantes que tinham a mesma direcção postal e só apareciam como homens de mão para votar nas eleições partidárias internas”. E acrescentou: “no partido anda tudo entusiasmado com a candidatura à Câmara. O Gomes vi esmaga-lo e o rio deixa de chatear o indígena. E chega de política que estamos aqui para um bridge sossegado!”

Fernando Gomes regressou ao Porto e ao saber quem tinha pela frente terá pensado que nem valia a pena dedicar demasiado tempo à campanha. A Câmara era PS, estava lá, mesmo que zangado, um testa de ferro dele e os portuenses, pensava Gomes, na sua inocência de nativo de Vila do Conde, são pessoas agradecidas. Talvez sejam, digo eu, mas também gozam de uma memória de elefante. E, na cidade, caíra mal o abandono da Câmara e consequente ida para um ministério ridículo em Lisboa. E Rio ganhou (42 contra 38%) tornando-se assim Presidente da Câmara e obtendo depois maiorias absolutas. Ao sair, conseguiu eliminar da corrida, Luís Filipe Meneses vindo da Câmara de Gaia, mesmo que isso tivesse como consequência entregar a cidade a Rui Moreira (que também é Rui, é tripeiro e tem a frieza suficiente para, de certo modo, continuar o legado de Rio, resumindo, contas à moda do Porto).

Este longa excursão sobre um homem do Norte, que na política sempre preferiu um par de princípios aos jogos malabares, teimoso e chato como a espada de D Afonso Henriques, tido por bom gestor, pouco dado a salamaleques, não explicam tudo, porventura até muito pouco, mas tentam provar que Rio, ao contrário de muitos outros, anda por ali sabendo bem o que faz. E a prova provada foi a sua campanha que deixa a de Costa a milhas. Ao ponto de um comentador, dos encartados, afirmar que com mais quinze dias o PPD reduziria bastante a diferença com o PS. Eu não iria tão longe que do nariz de Cleópatra não me ocupo, mas faço parte da pequena tribo dos macacos de rabo pelado e nunca achei que, mesmo não simpatizando, se devia subestimar Rui Rio. Se vai ou não levar de novo o PPD/PSD à terra onde corre o leite o mel não sei pois, como ele, prudente e avisadamente, afirmou, em cima da realidade portuguesa, há a conjuntura internacional, o Brexit, as guerras comerciais EUA- China, e tudo o resto.

E no rol dos perdedores poderia constar aquele PS que sonhou – e com razão!- com a maioria absoluta. Isso era (é) a única maneira de governar sem estar dependente dos “humores” ou da chantagem dos parceiros daquela vaga frente popular. Governar “a la carte” pode significar ter de fazer acordos com os vencidos de ontem, umas vezes, e com o BE (e eventualmente com o PCP) . As experiências passadas (e o auge foi atingido com a coligação do queijo Limiano! ) não são entusiasmantes. Se a geringonça paralisou o país no que toca a investimento público não será agora que, de súbito, a bolsa do Estado se poderá dedicar às necessárias (aliás urgentes) tarefas que se anteveem.

Não é o impacto da entrada de meia dúzia de deputados dos pequenos partidos que torna a situação mais melindrosa. É a falta de uma maioria estável e robusta (e ousada!) que vai condicionar a nossa vida nos próximos quatro anos (ou dois se tivermos em linha de conta a enigmática frase de Costa, cuja explicação é imperiosa.

A ver vamos, como dizia o cego...

 

 

 

 

 

04
Out19

estes dias que passam 333

d'oliveira

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Morte, onde está a tua vitória?*

 

mcr 4-X-19

As televisões, por um momento subitamente graves, o Governo a proclamar um dia de luto oficial, os comentadores, unânimes, a louvarem um político morto bem antes de morrer, o súbito reconhecimento de que havia menos um “pai da democracia de Abril”, enterram, pela segunda vez, Diogo Freitas do Amaral.

Sob um aparente aluvião de louvores, está (estava) alguém que alguma vez afirmou “ter vivido no ostracismo”. Um jornal, o Público fala num “homem só”. Surgem, em catadupa, amigos que, pelos vistos (é ele que o diz ao falar de ostracismo), andaram por í ligeiramente esquecidos. Até os adversários curvam respeitosamente a cabeça e endereçam à família do finado as suas mais sentidas condolências.

Sob o manto pesado dos elogios, resta a solitária nudez de alguém politicamente morto desde há muito.

Resta a este comentador ocasional recordar, da sua experiência pessoal e política um que outro facto de que foi testemunha.

Comecemos, como dizia um imortal professor de Direito, pelo princípio. Em 1972, frequentava eu o 3º ciclo da Faculté Internationale pour l’Einsegnement du Droit Comparé quando ouvi, pela primeira vez o nome de Freitas do Amaral. E pelas piores razões: Frequentavam a mesma faculdade, se bem que noutros ciclos dois ou três estudantes de Lisboa que, ao saberem que DFA poderia vir a reger um curso logo se insurgiram contra a sua presença argumentando que era um fiel servidor do regime opressivo da Faculdade de Direito de Lisboa e um fascista. A alma da FIEDC, madame de Solá y Canizares convocou-me, por já me conhecer, para lhe prestar qualquer informaçãoo sobre a criatura. Lealmente respondi que o não conhecia, que nada sabia dele e por isso mesmo não tinha qualquer posição sobre o assunto. E, de passagem, lembrei que o Professor Marcello Caetano, na altura Chefe do Governo, era presença assídua na FIEDC o que punha um problema difícil.

De todo o modo, se porventura Freitas fora convidado, a verdade é que não apareceu.

Logo a seguir ao 25 de Abril, surgiu, à frente do CDS um partido que se reclamava da Democracia Cristã e onde se refugiaram muitos dos antigos seguidores do Estado Novo.

Num país que durante alguns anos viveu crispado, o CDS era um inimigo a abater muito mais do que os pequenos e efémeros grupos que se criaram e desfizeram à Direita. A coisa culminou com as violentíssimas manifestações contra o Congresso do CDS no Palácio de Cristal (Porto) organizadas pela extrema Esquerda (e com o apoio tácito de muita gente incluindo dirigentes regionais do PC e do PS). Desse grupo, destacou-se o MES que numa reunião tremenda se recusou a apoiar o cerco, o que valeu ao seu porta voz críticas duríssimas.

O percurso seguinte do CDS, sob a batuta de Freitas e com um extraordinário Adelino Amaro da Costa como principal estratego, levou o partido ao Governo quer com o PPD (Aliança Democrática) quer com o PS. De todo o modo, muito europeu ou não, muito “democrata-cristão” ou ainda menos, o CDS nunca conseguiu (sobretudo depois da trágica morte de amaro da Costa) deixar de ter na opinião pública a imagem de um partido de Direita, conservador e com fortes laivos de ligação ao anterior regime.

A disputa eleitoral com Mário Soares pela Presidência da República exacerbou em muitos a ideia de um DFA reaccionário e profundamente conservador. Seria útil ler as reportagens, as notícias eas declarações dele na altura para se poder aquilatar do que estava em causa e do que o diferenciava de Soares, um candidato, esse sim, da Esquerda Moderada e do Centro (lembremos que Soares evidenciara a sua posição durante a corrida à candidatura quando se confrontou com Maria de Lurdes Pintasilgo e com Salgado Zenha sem esquecer a presença constante do candidato comunista.

Há actualmente a tentação de considerar como clara e insofismável a situação de oposicionista ao Estado Novo de muitos que, por razões variadas, não juravam uma lealdade a 200% ao regime. Em boa verdade, desde que surdiu das trevas do 28 de Maio, o Estado Novo, segregou, dentre o seu quadrado de fieis, muitos oposicionistas tardios desde Henrique Galvão a Humberto Delgado ou Rolão Preto. Até Craveiro Lopes (e Botelho Moniz) acabaram por ser afastados por Salazar que, com alguma razão, duvidou da sua fidelidade.

É, agora e tarde, voz corrente que DFA recusou vários lugares durante o antigo regime mesmo se Marcello Caetano seu professor e, de certo modo, seu “maître a penser” (pelo menos enquanto jurista...) o tivesse insistentemente convidado. Daqui, inferiu-se que o futuro líder do CDS era um democrata e, eventualmente, um resistente!

Em boa verdade, mesmo nos anos agónicos do fim do Estado Novo, fora o pequeno grupo de oposicionistas de sempre, engrossado pela ex ala liberal (Sá Carneiro, Balsemão & amigos) e pelos católicos que, pouco a pouco, e bem timidamente, se vinham afastando da tradição de colaboração activa com o Estado Novo, a multidão democrata era reduzida e, genericamente, perseguida. Não estava na bicha para a mesa do Orçamento, não conseguia entrar na Função Pública a simples menção pela PIDE/DGS de “politicamente suspeito”, relegava muita gente para a periferia social e económica. O exemplo mais marcante era dado pela tropa. Os oficiais milicianos iam ou não para os palcos de guerra consoante as suas opiniões políticas ou a mera suspeita delas. E até nas armas se notava isso. Por exemplo, para a Marinha iam apenas ou quase só os juristas bem comportados ou, pequeníssima excepção, os com altas classificações na Universidade. Os suspeitos apanhavam com o “mato” onde a guerrilha era mais perigosa...

Ainda na mesma linha de exaltação da oposição democrática patente em DFA avulta o já citada recusa de cargos políticos. Convenhamos: ele terá terminado a universidade em 64. Depois teve de frequentar o 6º ano de Direito e começar o percurso de preparação do doutoramento que naquele tempo não era longo mas longuíssimo. Para quem quer seguir uma carreira universitária (e DFA seguramente queria-o) todo aquele tempo foi pouco e curto para se permitir devaneios políticos que, ainda por cima, e a fazer fé nos seus admiradores actuais, não eram especialmente entusiasmantes. Daí até se vislumbrar uma forte fé democrática e pronta a qualquer sacrifício vai um passo de gigante.

Todavia, também não de põe em dúvida que, com o advento da liberdade, muitas vocações latentes terão florido e entre elas a de Freitas do Amaral, porque não? Pode mesmo ter decidido por, um pouco, entre parêntesis a sua indubitável veia académica e querer participar na refundação de Portugal, no caminho para a Europa e na democracia cristã. Porém, e a história da 2ª metade do século XX bem que o prova, a “democracia cristã”, à moda italiana ou alemã, não era, nunca se posicionou, ao Centro mas claramente à Direita. Direita democrática, crente nas instituição republicanas, no Estado laico, nos Direitos Humanos mas Direita sempre, mais ou menos conservadora consoante os tempos e as modas. E foi isso que DFA foi ou pareceu ser mesmo se, como também agora se disse, a sua inabalável fé no “centrismo”. Num centrismo neutro, a meio caminho entre as duas opções que marcaram a história dos regimes democráticos. Aliás, o “centrismo”, tal qual o descrevem era, é, uma pura abstracção mesmo se as abstracções deste teor encontrem entre os juristas um campo de eleição para florir.

Convirá, porém, salientar que, se não foi um revolucionário, um resistente, sequer um conspirador também não foi nem de perto nem de longe o ogre fascista dos anos de brasa. Nem o reaccionário que muitos (e entre eles haverá alguns dos que agora esquecidos do que então disseram) garantiam que ele era. Era apenas um conservador inteligente e culto devorado pela política a quem cedo faltou o grande companheiro que com ele fundou o CDS: Adelino Amaro da Costa. (eu atrever-me-ia a dizer que, depois da morte de AAC no trágico acidente que também vitimou Sá Carneiro, o CDS ficou órfão de um ideólogo capaz de encontrar a formula de sucesso para um partido democrata cristão em Portugal)

As eleições para a Presidência da República, onde foi batido, por uma unha negra, por Soares, marcam o fim da carreira política de Freitas do Amaral. A partir daí nem no CDS (antes de Paulo Portas) que se ia transformando paulatinamente em “partido popular”, com dirigentes prestigiados (Lucas Pires ou Adriano Moreira) em que, apesar de tudo, as “bases” não se reviam ou com alguns aventureiros (por todos: Manuel Monteiro, uma espécie de salta pocinhas desgovernado) que nem sequer podem ser tomados por chefes de facção, nem fora dele, DFA “riscava” politicamente. Não era o ostracismo (como ele proclamou) mas apenas uma morte política a que tardava a certidão de óbito.

É verdade que, de longe em longe, DFA aparecia. E apareceu algumas vezes até surpreendentemente longe do berço centrista e democrata cristão o que aliás provocou a mesquinha vingança do envio da sua fotografia de fundador do CDS para o PS! Como Monteiro ou como Basílio Horta, outro candidato da Direita à Presidência da República e igualmente derrotado por Soares, que neste momento é presidente de uma Câmara com apoio do PS com que se congraçou no tempo de Sócrates, Freitas do Amaral percorreu ou pareceu percorrer um longo caminho das pedras até desembocar como compagnon de route do PS. Não creio, no entanto, que isso tenha servido muito a causa socialista ou a Esquerda em geral. Freitas era um general sem tropas e não D Sebastião emergindo do nevoeiro.

No momento do seu passamento, resta a figura de um intelectual dilacerado pelas vicissitudes de um país obrigado a transformar-se (se é que de facto se transformou), de um professor de Direito Administrativo que os alunos recordam com respeito, de um melómano cultoe de um autor multifacetado que tentou sem especial relevo dar a sua versão de parte da história de Portugal (biografias de Afonso Henriques e Afonso !!!, bem como um escrito sobre a Lusitânia).

De certo modo, é bem mais interessante a sua obra autobiográfica que fica como um testemunho interessante deste tempo que muitos de nós (aliás cada vez menos) vivemos.

(*Corintios 1-15)

na gravura: diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa

 

 

13
Set19

Estes dias que passam 332

d'oliveira

Salazar Rui Mello 6.jpg

Votos piedosos e medo de explicar o passado

 

mcr, sext feira, 13,  49 anos depois do óbito por mim mais desejado da segunda metade do sec- XX)

 

 

Parece que o Parlamento entendeu lavrar m voto contra o projecto do museu Salazar ou, mais exactamente, do Centro de Interpretação do Estado Novo. O voto terá sido aprovado por PS, PCP e BE & acólitos respectivos. O PPD e CDS ter-se-ão abstido. Segundo li no jornal trata-se de “impedir romarias ao local de (eventual) culto salazarista”

Claro que isto é o chamado fim de festa estival da AR, altura em que o Parlamento avia, a trouxe-mouche, dezenas de votos, moções e se desdobra em declarações para memória futura.

Pessoalmente, enquanto adversário do Estado Novo desde 1958, com largas dezenas de manifestações de permeio, duas crises académicas, quatro prisões e muita bordoada no lombo, para não falar em centenas de abaixo assinados, participação activa na única eleição em que a Oposição foi até às urnas (fui fiscal numa mesa eleitoral, um dos poucos, por sinal que se arriscaram), autor de dezenas de escritos, quase todos censurados em todo o tipo de publicações com destaque para a “Vértice” e para “O Comércio do Funchal”, o famoso e aguerrido “jornal cor de rosa”, lamento esta perdida oportunidade para verificar algo de que desconfio desde há muito: o dr. Salazar está “morto e apodrece” e poucos ainda sentirão o seu coraçãozinho e restantes vísceras vibrar ao ouvir o seu nome.

Vejamos. Salazar morreu há quarenta e nove anos mas estava afastado do poder há 51, graças a uma cadeira subversiva e bolchevista que, caindo, o arrastou na queda e lhe provocou danos irreparáveis na cabeça antiga e manhosa.

Assim sendo, os que ainda se lembram da criatura e, eventualmente, o veneram deverão andar pelos setenta anos, vá lá sessenta e cinco (para casos de grande precocidade política como depois de 74 já sucedeu, vejam-se os casos de Costa ou Louçã)

Convenhamos que não é especialmente crível que esta velharia a cair da tripeça se junte em ruidosa romaria e desande, todos os anos, ou todos os meses, para Santa Comba Dão para, comovida e “patrioticamente”, louvar o ex-Presidente do Conselho e ao mesmo tempo cantar o “Angola é nossa”, o Hino da Restauração ou o “... tronco em flor estende os ramos à mocidade que passa...”..

Seria aliás deliciosamente ridículo ver todas essas ruinas humanas com a velha farda de legionário ou, cereja no bolo, com a fardeta da Mocidade Portuguesa (que de resto, já não era obrigatória desde os primeiros anos 50) com o famoso cinto com S e tudo... E em rigoroso sentido, aos vivas ao velho ditador, à Pátria e ao Império que vai do Minho a Timor.

O salazarismo foi uma doença endémica misto de oportunismo, medo, sacanice e raras, raríssimas, fidelidades ideológicas. A partir da queda de Rolão Preto (1934) e das cisões verificadas no movimento nacional sindicalista, aquilo, a tentativa de génese de um verdadeiro movimento fascista em Portugal, desintegrou-se com meia dúzia de prisões por curto espaço de tempo mas com duradouras consequências. Rolão Preto, que, em 33, num famoso comício, se proclamara anti-salazarista acabou, muitos anos depois, por se juntar à Oposição Democrática, primeiro ao MUD, depois apoiando Quintão de Meireles e mais tarde Humberto Delgado. Esta trajectória comum a muitos outros servidores devotados do Estado Novo (lembremos, por todos Henrique Galvão ou Norton de Matos o putativo pai do “milagre de Tancos”) mostra bem como a política nacional andava naquela época.

Justamente por isso, para descortinar alguns fios condutores da moscambilha lusitana, talvez valesse a pena o tal Centro Interpretativo. De todo o modo, duvido que durasse muito que isto de estudar a história recente é pior do que “cavar em ruínas”, Camilo que me desculpe. Andamos desde há anos a celebrar bacocamente uma 1ª República sem fazer o mínimo esforço de separação do trigo e do joio. Andam por aí una livrinhos patuscos onde as glórias republicanas são exaltadas enquanto os atentados, a “formiga branca” a famosa “camionete dos assassinos” de Granjo e Machado dos Santos, o inacreditável número de governos mais de quarenta em dezasseis anos, os pronunciamentos, a “artilharia civil”, a perseguição encarniçada aos sindicatos e as centenas de mortos por violência política são silenciados, obliterados do mesmo modo que foi esquecida a diminuição para menos de metade dos insritos nos cadernos eleitorais vindos do fim da monarquia. Mas foi tudo isto, mais a dementada perseguição da Igreja e dos católicos em geral e o desastre económico que levou o país inteiro a assistir impávido ou cúmplice ao passeio militar de Gomes da Costa (um herói republicano que meteu Mendes Cabeçadas, outro que tal, na algibeira e lhe roubou o poder de que apressadamente se reclamava. Acabaram ambos na inexistência política, mesmo que o segundo tenha tentado sempre sem sucesso animar o “reviralho”)

Salazar governou todos aqueles anos por algum mérito próprio mas, sobretudo, por demérito profundo e absoluto de adversários. Foi a guerra nas colónias, uma longa guerra de usura e de baixa intensidade, que atirou o Estado Novo para as catacumbas. E foram os militares (os mesmos ou algo do mesmo género e substância dos de 1926) que, depois de terem trazido o cavalheiro de Santa Comba a S. Bento, retiraram o seu sucessor do quartel do Carmo. E, num ápice, entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, o país vestiu-se de vermelho e do nada surgiram multidões compactas de democratas

Não se sabe de onde surdiram tantos e tão devotados amigos da liberdade mas talvez valesse a pena tentar traçar-lhes o eventual rasto durante o último decénio de Estado Novo. Ora aí estaria uma excelente missão para o fantasmático “centro interpretativo”.

Quanto aos restantes argumentos da Câmara Municipal de Santa Comba Dão e especialmente o desejo de aumento de turismo graças ao Museu ou a algo do mesmo teor, estamos conversados. A documentação de Salazar está toda em Lisboa nos arquivos da Presidência do Conselho de Ministros, na Torre do Tombo. Bens pessoais, além de escassíssimos são absolutamente irrelevantes. Fotografias irrelevantes, um par de panelas alguns pratos duas camas desconjuntadas na velha e pobre casa do ditador. Eventualmente, o último par de botas com as solas em miserável estado. A criatura era pouco dada à acumulação de quaisquer bens e disso se fazem eco amigos e inimigos. Aquilo era um eremita cuja criada para todo o serviço criava galinhas no quintal de S. Bento. Está tudo dito.

O voto parlamentar é um tiro de pólvora seca, num jogo de batalha naval sem barcos. Uma só coisa me espanta: o voto do PPD e do CDS. Que significado político tem aquela abstenção? Haja quem me ilumine e me explique estes dias de “muito barulho para nada”.

(à margem: vários amigos que muito prezo enviaram-me mails com o convite para me abaixo-assinar contra o tal museu. Ser-me-ia fácil fazê-lo. Nada fiz por entender que aquilo não era guerra que valesse apena. Com dois deles vim à fala e, curiosamente, ambos me disseram que só tinham assinado por desfastio sem acharem que a ideia do museu valesse sequer a pena tanto mais que, desde sempre, se afirmara que nem um cêntimo dos dinheiros públicos iria para ali. Até por isso valia a pena ver o projecto tentar seguir em frente. Aposto dobado contra singelo que dos particulares também não viria dinheiro que se visse e muito menos o suficiente para criar sequer uma casa museu sobre as ruínas da actual casa que foi de Salazar. Em boa verdade, até aposto três contra um...)

* na gravura um fotografia de Rui de Melo sobre os despojos da casa de Salazar

 

10
Ago19

Estes dias que passam 331

d'oliveira

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Há aqui alguma coisa que não bate certo!

mcr 10.Ago.2019

 

Afinal quanto é que ganha um motorista que transporta matérias perigosas? Anda por aí uma informação que atira para os 1850 euros limpos o salário mensal desses profissionais. Será?

Ora vejamos como é que se chega a tal soma.

Salário base ........ € 600

diversos subsídios.... 400 (perigosidade -200; outros - 200)

ajudas de custo (contra factura ou recibo).... 850

Se assim é, e é assim, temos que para efeitos de subsídio de doença ou reforma o que conta é o salário base. O resto esvai-se com o fim da actividade.

Mas há mais: os miríficos 850 euros referentes a ajudas de custo (comidas e dormidas) são pagos contra recibo ou factura. É verdade que nisto anda genericamente muita marosca. Todos os que podem metem estas despesas para cálculo do IRS e similares. Vejo isso sempre que almoço ou janto com amigos que têm pequenas empresas. Mesmo se o encontro é a título meramente particular o meu almocinho junta-se ao deles para esse efeito nos impostos a pagar.

Mas há mais: essas ajudas de custos pagam-se a todos? E pagam-se dentro ou fora do país? É que uma coisa é almoçar num modesto restaurante cá e outra é fazer o mesmo em qualquer outro país. A mesma coisa ocorre com as dormidas.

E só a quem tem de comer ou dormir fora é que cabem estas abençoadas ajudas de custo ou há o hábito de as dar a todo e qualquer cavalheiro que pegue no volante do camião cisterna? Então para que servem s facturas ou os recibos exigidos?

O uso da soma de 1850 euros parece pois ser mais outra insidiosa arma de arremesso contra estes profissionais grevistas.

Em segundo lugar, sabe-se que para ser qualificado como motorista apto para este tipo de transportes há que fazer uma formação que dura no mínimo 150 horas (norma europeia) e que custa cerca de 700 euros. Quem paga esta formação? O condutor ou a empresa?

Mas, mais uma vez, ainda há mais: o Governo anuncia triunfante que deu uma formação a militares, polícias e guardas republicanos para substituir os eventuais grevistas. Pergunta ociosa: essa formação obedeceu às estrictas regras europeias?

O número de agentes da autoridade adiantado pelo Governo atinge as cinco centenas! Quinhentos? Quinhentos quando em todo o país ao longo de todos estes anos apenas há oitocentos detentores da tal formação?

Os sindicatos e a própria ANTRAM entendem que esta duvidosa e perigosa solução não deve ser utilizada. Sejam quais forem as razões, há a clara desconfiança e o evidente receio de que algo corra mal. Se assim for a quem atribuir as culpas? (a resposta mais óbvia será a de culpar os grevistas, claro mas parece duvidoso que alguém de bom senso a considere)

Uma terceira observação que atinge a argumentação do Governo, do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral e muita luminárias que a tem difundido:

Esta greve prejudica a população. Por isso deve ser limitada a quase nada através do reforço dos serviços mínimos, da requisição civil e da parafernália de argumentos que baseiam a declaração de cris energética

Peregrina opinião! Então as greves beneficiam alguém? Quais são as que não prejudicam ou os patrões (e essas quase só ocorrem no sector privado e são raras) ou a comunidade? Tomemos como exemplo as sempre louvadas greves dos transportes tão comuns que foram durante o anterior governo. Quando não há comboios, metropolitano e transporte rodoviários centenas de milhares de trabalhadores vem-se numa aflição: como chegar aos empregos à hora estipulada? O mesmo sucede com as greves dos transportes fluviais no que toca a Lisboa. Alguém viu os cavalheiros do PS, hoje governantes, a propor medidas eficazes para prevenir os efeitos de uma greve (capitaneada pela CGTP com a normal cumplicidade da UGT) que torna seus reféns os trabalhadores mais humildes e expulsos da cidade para os subúrbios cada vez mais distantes pela desenfreada corrida à especulação imobiliária que permite transformar bairros inteiros em hostels, quartos bnb e outras empresas de alojamento local ?

Então aqui já não há um claro ataque à comunidade, pelo menos a uma esmagadora parte dela, a mais pobre, a mais desfavorecida a mais dependente? Vi, ouvi, (ontem, sexta-feira) brevemente e enojado, um senhor professor de uma dessas múltiplas faculdades de Direito lisboetas a afirmar sem corar essa barbaridade. Uma coisa é a greve contra a comunidade (esta eventual dos motoristas) outra as boas e saudáveis greves que assolaram o país e trouxeram aos que as suportaram um rosário de dificuldades, aflição e sofrimento persistentes.

Eu não gosto do sr. dr. Pardal Henriques. Todavia, não culpo o sindicato por recorrer aos serviços dele. Ao fim e ao cabo, outros e mais poderosos sindicatos tem ao seu serviço poderosas organizações políticas e sindicais pejadas de juristas e com uma imprensa fiel às ordens.

Mas as organizações sindicais clássicas (e correias de transmissão de partidos políticos) são intocáveis. Pelo contrário, esta recente criação de dezenas de sindicatos que fogem a essa lógica político-sindical são olhadas com desconfiança e alvo de todo o género de ataques. Há que abatê-los depressa não vá o exemplo alastrar e mais e mais trabalhadores tomarem o seu destino nas suas mãos. É que em Portugal trabalhador só é aquele que tem o cartãozinho certo e que corresponde à “narrativa” cada vez menos hegemónica dum progressismo serôdio e cada vez mais desviado das suas reais e antigas e boas raízes.

Depois admiram-se de verem proliferar por todo o lado movimentos populistas. E por verem desaparecer os partidos tradicionais da Esquerda (veja-se apenas o que se passa em França onde o PC e o PS são meras pequeníssimas caricaturas do que ainda há uns anos foi um movimento que, com todos os seus defeitos, conseguia levar à Presidência da República o senhor François Mitterrand.

Hoje, e sempre no mesmo país, os antigos bastiões do PC são agora o viveiro farto e viçoso da extrema direita. Vejam onde é que a senhora Le Pen consegue os seus melhores resultados. Vejam e comparem com a geografia eleitoral de há 60, 50 ou 30 anos.

Onde é que andam o poderosíssimo PC italiano (o de Togliatti ou Berlinguer) ou o espanhol mesmo o de Carrillo). Que se passa com o SPD alemão, em queda livre e em risco de ser ultrapassado pela reaccionária “alternativa “ em número de votos?

Dir-se-á que, à falta destes partidos tradicionais, oriundos das IIª e IIIª Internacionais, isto é com mais de cem anos, apareceram os Siriza, os Podemos, o Bloco, ou o patético senhor Melenchon. Aparecer apareceram mas nada mais incerto do que o seu futuro. O Siriza naufragou dilacerado por dentro entre um programa maximalista e a horrenda realidade. Nos destroços ficou, entretanto, o PASOK, partido socialista grego hoje desaparecido em parte incerta, como ficaram também os dois irreconciliáveis inimigos que se disputavam o título PC. O Podemos prosperou onde antes existia o PCE e mantem-se (ainda que perdendo votos) numa Espanha onde os movimentos irredentistas retiram apoio aos partidos históricos. O PSOE é agora o primeiro partido muito graças à fractura que o VOX provocou na Direita clássica que já vinha sendo acossada pelo Ciudadanos. Por cá há muito que o PC estiola e defronta nas cidades grandes uma pequena minoria (sem base autárquica ou sindical) que ganha as simpatias de uma amálgama de movimentos provenientes de antigas dissidências e que, pelos vistos, parece atrair pela “novidade”. Curiosamente, é este partido o único que de forma elíptica e mais do que prudente não condenou os motoristas.

Finalmente, uma última nota: no momento em que escrevo (são dez da manhã) não se sabe se a greve é de manter ou se os plenários de trabalhadores a desconvocam. Seja qual for a decisão, a balança está desequilibrada. O Governo, a Justiça, a opinião pública, todo o patronato e as bos consciências onde se recrutam os famigerados comentadores televisivos já lançaram o seu anátema sobre esta acção. Que não é oportuna, diz-se porque é Verão, as férias no Algarve são sagradas, os emigrantes estão a chegar coitados e cheios de saudades, e há a peregrinação a Fátima (por acaso esta é a menor das três grandes que se realizam -Maio, Agosto e Outubro – Diga-se em boa verdade que Fátima, no que toca a deslocações de fieis, costuma ser notícia pelos milhares de católicos que fazem o caminho a pé. Desta feita devem vir de carro... E há o argumento final dos turistas que, enfeitiçados por Portugal, nos visitam. Lembro, porém, que esses se ficam sobretudo por Lisboa. Algarve, e Porto. Mas dá jeito vê-los a infestar todo o país e a espalhar pardaus por todas as terras de Basto...

*a ilustração: capa do grande (e perseguido) jornal A Batalha durante uma das muitas (e ferozmente reprimidas) greves durante a Iª República. Por essas e por outras razões nem um operário se levantou em armas contra o passeio militar (Braga-Lisboa) de Gomes da Costa a 28 de Maio

 

01
Ago19

Estes dias que passam 330

d'oliveira

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Trapalhadas, trapalhices e trapalhões

mcr 1/8/19

 

Comecemos pelo mimoso caso das golas anti incêndio. Primeiro, falou-se do perigo dessas protecções contra incêndios (melhor dito contra fumo) se incendiarem. O Governo, pela voz daquele cada vez mais surpreendente Ministro da Administração Interna, começou por desvalorizar. Perante a alarmada e desconfiada gritaria, Sª Exª deu um pinote de 180 graus e pediu um inquérito “urgente”. Esta famosa urgência sobretudo em Agosto põe a apresentação do mesmo lá para bem depois das eleições...

Depois, alguém veio afirmar que afinal as golas não se incendiavam. Apenas, e graças o calor, ficavam repletas de buracos. S.ª Ex.ª e apaniguados uivaram de alegria: Estão a ver? Não se incendeiam...

Pois não. Apenas permitem a entrada livre de fumos. Não se morre assado mas sufocado! É outro conforto...

E cmo é que apareceram estas máscaras milagreiras? Pois através de um assessor ministerial que depois de exercer ,supõe-se que meritoriamente, o ofício de padeiro se alçou a assessor. É o elevador social a funcionar a todo o vapor! O homem já foi, provavelmente para outra ocupação igualmente paga. E quem forneceu (sem concurso público!) as golas? Pois o marido de uma senhora autarca socialista. Depois de uma consulta a algumas empresas (duas delas juram a pés juntos que nunca ninguém as consultou...)

E o preço? Como foi uma grande quantidade, o fornecedor disse, sem corar, que isso aumentou o preço unitário!!! Que é superior a quaisquer outras golas não incendiáveis (grave defeito!) também no mercado.

 

2 Uma lei vinda do fundo dos tempos (quem se lembra do sr. Fernando Nogueira herdeiro de Cavaco na era pré Guterres, outro fantasma) proibia a familiares directos (cônjuges, pais, filhos ou irmãos) de membros do Governo fazer negócios com o Estado & assimilados. Pelos vistos, ninguém deu por ela durante estes sumptuosos trinta anos. Agora o Parlamento descobriu a coisa e emendou a mão. A nova lei aplicar-se-á dentro de poucos meses. Entretanto há uns tantos ou quantos familiares (um filho, um marido e não sei quem mais) de governantes que fizeram tais negócios. Se é verdade que uma demissão do governante tem pouco sentido não menos verdade é que o negocio é nulo. Um ilustre jurista, esposo amantíssimo de uma governante disse alto e bom som que se estava nas tintas e que continuaria a fazer os chorudos negócios. Ora toma! E é ele licenciado em Direito e permanente presença nos media sempre a arengar virtudes democráticas!

No meio disto tudo, o dr. Costa primeiríssimo ministro, pediu um parecer ao Conselho Superior de Magistratura. Quando o parecer aparecer já a nova lei estará em vigor. Alguém, por aí, falou em manobra dilatória?

 

O mesmíssimo e primeiríssimo dr. Costa perante o fogo de Mação veio lembrar que compete aos autarcas (aliás, ao autarca ppd de Mação) a primeira responsabilidade. Parece que essas criaturas são os responsáveis locais da protecção civil. Num momento de tragédia, S.ª Ex.ª sacode a água do capote e vira-se contra o único defensor daquela pequena e interiorizada vila. Ainda por cima, o plano de Mação andava pelas gavetas ministeriais à espera de aprovação. E mesmo que já estivesse aprovado, onde é que Mação tem meios, recursos e dinheiro para fazer mais do que faz?

As acções ficam com quem as pratica, sobretudo as feias. E esta nem feia é. É medonha e indecente. E, sobretudo, absoluta, e absurdamente, injustificada.

 

Há muitos, muitos, anos, um autarca chamado Rui Rio queixou-se da imprensa ao dr. Jorge Sampaio, na altura Presidente da República. Ainda hoje, ninguém percebe que é que um alto magistrado como este tem a ver com a Imprensa, os seus direitos e deveres, abusos incluídos. Rio queria uma nova censura?

A partir daí, tirei-lhe a bissectriz, escrevi um texto sobre o assunto (que deve andar publicado neste blog) e nunca mais me ocupei da criatura. Um escriba, mesmo este, tem o direito de não se incomodar nem incomodar os leitores com este tipo de mediocridades. Rio lá foi governando a cidade, um pouco à medida de Centeno. Tudo pelas finanças públicas, pouco pelo resto e quase nada pelo que pomposamente se chama “cultura”. Pelo caminho, zangou-se com Meneses (o tal que bramava contra os sulistas elitistas) e tapou-lhe o caminho para a Câmara do Porto. Às vezes as pequenas sacanices tem bons e inesperados resultados. Meneses perdeu fragorosamente as eleições autárquicas o que foi uma sorte paraos portuenses. Todavia, agora, estas duas luminárias reconciliaram-se numa escolha atabalhoada de candidatos às legislativas. Que pena Santana ter partido a loiça e saído. Com ele ficava completo um trio impossível de imaginar.

Costa pode dormir descansado. Com este adversário não precisa de mais nada. Estou cheio de pena da menina do Bloco e do dançarino de salão do PC. O verdadeiro parceiro de Costa é RR (Rui Rio não Rolls-Royce, claro). Nunca votei no PPD, nunca o apreciei mas custa ver um partido à deriva sem rei nem roque mas com Rui e com Rio. O que finalmte parece ser a mesma (e pouca) coisa.

02
Jul19

estes dias que passam 327

d'oliveira

 

as injustiças do ensino 

mcr (Junho 2019)

Uma comissão, mais uma, descobriu (oh pasmo tremendo! Oh surpresa inenarrável!!. Oh, Oh, oh, oh três vezes oh!!!) que os filhos dos mais instruídos tem mais possibilidades de frequentar cursos de prestígio do que os filhos das classes menos afortunadas do ponto de vista da instrucção!...

Ai, pobre de mim, que profeta em terra própria, descobri essa amarga verdade quando acabada a escola primária vi que apenas mais dois colegas iam comigo para o liceu e outros tantas para a Escola Comercial e Industrial. Os restante trinta e tal iriam engrossar as tripulações das bateiras, lanchas, traineiras, e arrastões que aquela praça armava. Isto significava que nós os três (2 filhos de médico, e 1 de industrial) nos destinávamos a uma profissão nobre (e mais bem paga) enquanto os da Escola teriam a sorte de ser empregados e comércio ou electricistas, carpinteiros ou marceneiros, de todo o modo um eventual progresso naquela população quase só feita de pesadores e mineiros.

Durante os quatro anos de primária já tinha descoberto que só na nossa casa havia livros, coisa tão natural como sapatos (também só na nossa casa) e uma empregada doméstica que na altura se chamava criada de servir. (a propósito, as criadas de servir da minha infância, eram quase da família e nós mantivemos com todas – já não resta nenhuma – laços de amizade e de certa familiaridade. Para várias, eu e o meu irmão fomos sempre “os meninos” tratados por tu como Deus manda sendo que uma, a saudosa Deolinda, ao visitar-me muitos, muitos, anos depois me disse Ai Marcelito como tu cresceste. Pudera não que a coisa ocorreu quando eu tinha já quarenta anos!).

Parece que a dita comissão descobriu que 68% dos filhos de médicos, advogados e engenheiros frequentavam cursos prestigiados na Universidade. Em contraponto outros tantos 60 ou 70% de filhos de cidadãos com instrução não universitária andariam no politécnicos e em cursos menos ribombantes!

A comoção que esta descoberta da pólvora seca provocou deu azo a discussão na televisão onde circunspectos cavalheiros e damas da nossa melhor inteligentsia progressista bramiram que faltava cumprir o 25 de Abril.

Por acaso, mero acaso, claro, foram estas mesmíssimas criaturas que aplaudiram com as duas mãos a baixa generalizada de propinas universitárias não cuidando de distinguir ricos de pobres. Com um pouco de imaginação poderiam antes ter criado mais e melhores bolsas para estudantes oriundos de meios menos favorecidos de modo a que estes pudessem enfrentar as despesas de uma universidade, sobretudo no domínio do alojamento. Com a mesma escassa imaginação poderiam pensar em seguir (desde os primeiros anos de escolaridade) os alunos que se distinguissem, fornecendo a estes meios especiais de vida para poderem competir com os meninos oriundos de famílias mais privilegiadas. Com mais uma pisca de imaginação poder-se-ia criar um sistema especial de bolsas para permitir que estudantes vindos de meios menos afortunados frequentassem os tais famosos colégios de elite que obviamente preparam os seus alunos para as melhores escolas nacionais e internacionais. Porque é no ensino dito secundário que a selecção ainda pode ter sucesso e permitir que o elevador funcione.

É evidente que, para se detectar com a maior rapidez e brevidade o talento, haverá que criar provas de aferição sérias que ultrapassem a trapaça do ensino actual onde o sucesso de todos, ou quase, esconde as diferenças e a ignorância e permite a injustiça que, depois, é alvo de queixume.

Também não deixa de ser evidente que entre uma casa onde há livros e outra sem eles o mais provável é que na segunda o nível da exigência familiar seja menor. E o da esperança num melhor destino, idem. Ou da ambição!

Enquanto houver ricos e pobres (ou ricos e menos ricos) haverá diferença no destino dos filhos. Provavelmente, porque são diferentes o meio cultural, a ambição, as relações familiares, a ideologia de classe, os preconceitos, os hábitos. Nada disto é redutível a qualquer espécie de igualdade natural ou forçada. Não o foi em nenhum regime pretensamente igualitário (nem vale a pena falar da utópica União Soviética onde a classe dirigente se governou e onde os aparatchiks guardaram ciosamente para si e para os seus todos os lugares valiosos. O elevador social nunca funcionou e nos casos raros em que pareceu ter importância, foi a ambição e o zelo partidário que deram a um escasso número de militantes fieis (e mais papistas do que o Papa) um lugar diferenciado do da maioria esmagadora da população e mesmo da maioria do Partido.

Nos EUA, as minorias só chegam às universidades mais prestigiadas graças fundamentalmente ao mérito desportivo e a quotas impostas. De longe a longe, alunos distintos do secundário conseguem o mesmo, obtendo bolsas de estudo dos próprios estabelecimentos universitários. Yale ou Harvard, para não citar uma vintena de outras grandes universidades, tem custos proibitivos e para um pobre mesmo com excelente preparação escolar a entrada é semelhante à da parábola bíblica do buraco da agulha. Aqui, entretanto, são os ricos que entram no “reino dos céus”.

As lacrimosas constatações da comissão e de um quarteirão de personalidades comentadoras e putativamente generosas esbarram num pequeno problema: soluções! Soluções simples, evidentes, democráticas. Soluções que garantam, após aferição séria, que os bons alunos conseguem, mesmo sem meios de fortuna, frequentar as melhores escolas (públicas ou privadas) e levar a cabo um percurso educativo valioso e libertador. Provavelmente, seria melhor criar condições para a existência de uma verdadeira classe média que extravase da que só é alimentada pela função pública (ela própria cada vez mais dependente do poder político e das simpatias partidárias) e que ultrapasse o funil das “jotas” partidárias que dividem os poderes fácticos e políticos todos.

Sem isso, tudo é conversa fiada, sentimentalismo bacoco e caridadezinha classista

02
Jul19

Estes dias que passam 326

d'oliveira

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Verão tímido, dias de preguiça

(e a morte ao longe)

mcr, Julho 2019

 

Já alguém deu pelo Verão? Estes dias de névoa matinal, temperaturas à volta dos vinte graus, sol raro desmentem o calendário. Quando era menino, nem um tempo destes me fazia perder a praia e o mar. Como se fosse (e era!) imune a estas temperaturas dúbias. Aliás o mar parecia mais quente (ou menos frio...) e a nós, os do grupo da “praia”, pouco se nos dava o mal humor do tempo. Férias eram férias, ponto final, parágrafo. E amanhã estará sol.

Será por ainda me lembrar desse “dolce far niente” que mesmo com vários textos escritos e prontos, nem um publiquei. Também é verdade que fui para Lisboa (este é um hábito mensal que consiste em visitar a minha excelente Mãe que, à beira de (per)fazer 97 anos está tão bem quanto lhe é possível. Perdeu (e isso é mais do que um desgosto, um autêntico drama) muita visão o que a impede de ler um dos seus prazeres e hábitos favoritos. Também ouve mal e anda com a ajuda de uma bengala. Mas a vivacidade está igual, mesmo quando se queixa, o humor e a auto-derisão continuam, vive sozinha (há uma empregada contratada para a acompanhar mesmo de noite mas, para já, a old lady mantem-na longe. ) e faz tudo. Só não sai de casa. Nós, os filhos, oferecemos-lhe uma cadeira de rodas com a vaga ideia de que assim poderia ir comer sardinhas assadas (e, no Inverno, cozido à portuguesa) onde isso se faz decentemente. Mas ela já não está para essas cavalarias. Vou tentar encontrar um restaurante perto onde em poucos minutos compre as sardinhas e as traga ainda quentes. Em casa ninguém consegue assar sardinhas na brasa. Nem os pimentos.

No resto, que ainda é muito, e para nós, filhos, netos e bisnetos, tudo, ela permanece. Como uma rocha!

 

E os textos no tinteiro, ou seja no computador, prontos a ser lidos por quem tiver paciência. Sairão hoje.

Mas antes, um pensamento, para o António Hespanha. Conheci-o em Coimbra, foi mesmo meu colega. Na altura não era exactamente, ou só, um militante católico. AH foi um dos rostos da Direita estudantil, fez parte das listas de Direita candidatas à direcção da AAC. Não foi o único a mudar de posição mas foi com certeza um dos que mudou com maior estrondo. Militou no PC uma boa dúzia de anos, o que, depois de Praga, do conflito sino-soviético, do gulag, de Maio de 68, é obra. Foi uma reviravolta de 180 graus.

Isso, todavia, não o impediu de criar uma obra histórica importante de exercer um mestrado de influência. O “Público” de hoje consagra-lhe duas inteiras páginas, com chamada e fotografia na primeira página e ele merece a homenagem. E não merece o apagamento biográfico e político discreto. Nós somos sempre tudo o que fizemos e pensámos. E isso nunca diminuiu ninguém.

Hespanha não foi o único intelectual de Esquerda vindo dessa Coimbra universitária de Direita dos anos sessenta. Bem pelo contrário, foram vários e relevantes os seus companheiros de percurso. Mesmo que lhes estranhemos a conversão tardia e depois de 69 (uns) ou de 74 (outros). Ou o recém-descoberto radicalismo que manifestaram. Também isso faz parte do mesmo processo de abandono de uma igreja por outra. Até se desvanecerem ambas. No meio do pântano onde tantos permaneceram, eles, pelo menos, tiveram a coragem das suas opiniões. E mais ainda, a coragem de as aabandonarem quando se deram conta da realidade.

*a gravura: casa de Curzio Malaparte, um escritor muito cá de casa, em Capri. CM é um exemplo do intelectual que mudou de opinião e disso deixou vivo e brilhante testemunho. A casa é um portento. pena não a poder mostrar melhor.

18
Jun19

estes dias que passam 325

d'oliveira

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Sim, mas...

mcr 18.06.19

 

Deve ser “esta a vez primeira” (oh recordação terna e antiquíssima dos meus companheiros de cela em Caxias, no longínquo ano de 61. A “charamba” era cantada pelo José Orlando Bretão, desaparecido demasiado cedo na sua Terceira natal deixando um punhado de excelentes estudos sobre o folclore da sua ilha) que chamo o PAN (Pessoas, Animais Natureza) à colação.

O PAN começou por parecer uma coisa simpática mesmo se para o público aquilo parecesse mais uma organização de bons sentimentos em relação aos animais domésticos. O resto, as pessoas e a natureza, era pouco visível quer nas palavras quer nas acções. De todo o modo, já se afirmava como um partido ecologista diferenciado daquela coisa chamada “os verdes” (cópia descarada de uma sigla internacional, sobretudo alemã) e que em Portugal só são verdes por fora. No resto não passa de um satélite menor do PC.

Todavia, a entrada no parlamento e a consciencialização crescente (e urgente!) de que há que dar uma volta às políticas ambientais e ao desenfreado ataque à natureza, fez emergir o PAN que obteve um bom resultado nas europeias. De certo modo, começa a ser olhado como um refúgio para os descontentes com a voracidade do PS, o conservadorismo do PC, a inércia da Direita e as farroncas do BE.

Ora o PAN desdobra-se esforçadamente em propostas às vezes irrecusáveis, outras utópicas mas sempre generosas. Dentre elas, destaca-se a da punição do descontrolado arremesso de “beatas” para a rua.

A ideia em si mesma é boa. Os restos de cigarros, mormente com filtro, demoram imenso tempo a desaparecer, atafulham sargetas, sujam praias e parques e poluem forte e feio. A propositura de multas pesadas (200€) para quem atire a beata para o chão deveria ser dissuasiva do gesto. Deveria, digo, mas não é. É que a multa depende de um agente da autoridade, seja ela qual for, que multe rapidamente o infrator. Isso pressupõe um exército (para já não falar no que generosamente chamarei de motivação. (Como a que levou umas criaturas do fisco a parar carros em rotundas para verificar se os proprietários tinham os impostos pagos...)

Eu ainda recordo um dos desportos favoritos do tempo do Estado Novo: o uso de isqueiro. Era obrigatória uma licença e obviamente, naqueles tempos insultuosos e difíceis, havia um grupo de criaturas que andavam à caça dos não licenciados.

Da mesma época, recordo também uma lei que previa multar as pessoas que atravessavam as ruas fora das passadeiras (uma inovação de finais dos anos cinquenta). E ainda uma outra disposição que obrigava as pessoas a circular calçadas. Na Figueira da minha infância as rijas peixeiras de Buarcos traziam uns tamancos (ou algo do mesmo género) atados ao pescoço e quando viam um polícia lá se calçavam. No resto do caminho voltavam ao pé andarilho e rapado.

Conviria explicar ao esforçado deputado do PAN que a multa, dissuade apenas quando está presente. Porém isso não inibe a tentação nem substitui a necessária consciência cívica que impõe respeito pelos outros, pela natureza e pela higiene (pessoal e pública).

Não deixou de ser curiosa a recepção da ideia. Houve mesmo um(a) parlamentar que achou exagerada a quantia a comparou à multa por circular acima do permitido nas vias públicas.

Recordaria ainda que vigora, desde há anos, a proibição de falar ao telefone enquanto se conduz. “Cadé” as multas ou, pelo menos, as multas pesadas e em número suficiente para fazer desaparecer essa prática criminosa?

E finalmente: se é verdade que as beatas incomodam e prejudicam, que dizer dos milhares de cães que donos devotados passeiam diariamente por todo o espaço público e que fazem o seu cocó tranquilamente? Haverá multas? Ou o respeito a outrance pelos fieis companheiros permite essa libertinagem excrementícia dado que o PAN dedica todo o seu carinho aos excelentes bichos?

A coisa (o desrespeito pelos outros peões e passeantes) é de tal ordem que quando se vê alguém apanhar o cocó do cãozinho pensa-se que estamos frente ao novo milagre das rosas. Para não ir mais longe: n zona onde moro há um jardim agradabilíssimo no meio dos prédios. A zona (classe média alta!) abunda em cães. Pois só uma vizinha nossa é que se dava ao trabalho de recolher as fezes dos seus bichos. Todos a achavam uma excêntrica!

De tudo o que venho dizendo só se retira uma conclusão: não é mais uma lei que vai modificar os (péssimos) hábitos dos indígenas. Quanto mais não seja porque está praticamente garantida a impunidade dos que desrespeitam. E as leis que se não cumprem levam ao incumprimento das outras. A uma cultura que começa nas pequenas (más) maneiras e acabam no escândalo da corrupção quase generalizada, exactamente essa que começa no desenfreado hábito da pequena cunha e acaba nos banqueiros que concedem generosas subvenções a arrivistas e bos autarcas que governam os municípios a seu bel prazer.

 

11
Jun19

Estes dias que passam 324

d'oliveira

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“l’autunno sará caldo” *

ou

As omeletas fazem-se com ovos 

mcr 11.06.19

 

(e um pouco de sal, manteiga ou óleo e, mesmo uma frigideira. Isto sem falar numa escumadeira para virar os ovos e dar-lhes forma).

Desculparão os leitores mais atentos este exórdio (bonita palavra!) mas eu só começo assim porque, se pudesse, era o que diria ao sr. Primeiro Ministro.

Eu sei que ele é um cozinheiro de mão cheia (é que a amantíssima esposo e os filhos extremosos afirmam) mas talvez com esta imagem culinária consigamos entender-nos. É que tudo isto vem a propósito dos transportes públicos que estão pelas ruas da amargura. Pode S.ª Exaª afirmar que “uma família de Sintra poupa em transportes mais de cem euros mês” coisa de que eu jamais me atreveria a duvidar pois os primeiros ministros nunca mentem. Todavia, e nisso há sempre a maçada de um “mas”, diabos levem conjunção adversativa.

Quando numa fanfarra triunfante e pré-eleitoral o Governo anunciou formidáveis descontos nos transportes, logo houve um coro de elogios e um arruído de protestos. Os pró governamentais salientavam a bondade da iniciativa e o profundo amor que ela revelava pelas classes laboriosas e periféricas. Os (obviamente invejosos) da oposição viram nisso uma pura e atempada manobra eleitoralista.

Raros foram os que saudando a ideia logo chamaram a atenção para o facto de uma descida de preços poder levar o caos a uma insuficiente rede de transportes que já rebentava pelas costuras. De facto, os comboios eram já escassos, as locomotivas e as carruagens padeciam dos males da idade avançada (avançadíssima!!!), da falta de manutenção e esta da falta de pessoal especializado há muito denunciada por sindicatos e administrações da CP.

Foi aquele extraordinário Marques (agora felizmente longe na Europa para futura vergonha nossa) quem anunciou o novo milagre das rosas. Nisto de anúncios bombásticos a criatura excedia-se, desdobrava-se, ultrapassava-se continuamente para regozijo de basbaques e aflição das oposições.

Pelos vistos ninguém fazia contas, a aritmética, terror da minha antiga escola primária, andava esquecida e as promessas valiam de per si. Os comboios hão de vir (virão?) daqui a uns anos se é que já foram contratados e encomendados. A manutenção essa depende da entrada imediata de uns centos de profissionais especializados (onde estarão? Como serão preparados e quanto tempo isso vai exigir?).

Também não há navios para a travessia do Tejo e quanto a autocarros, eléctricos ou metropolitano estamos na mesma: hão de vir como D Sebastião numa manhã sem nevoeiro mas inevitavelmente futura. E o futuro, este futuro mede-se em anos ou seja nem na próxima legislatura (cujas eleições provocaram este aluvião de novidades e de progresso) estarão por aí. O que está, é o novo preço! Indubitavelmente mais barato é verdade mas pelos vistos impraticável. Os comboios passam, cheios que nem um ovo e nem parar podem. Isto quanto aos que passam pois todos os dias as televisões anunciam supressões de composições. Prece que em Maio e só no Algarve houve 185 comboios a menos. O mesmo, com números semelhantes ou superiores, ocorreu nas linhas suburbanas de Lisboa. Quando algum chega eis que multidões desvairadas se lançam ao seu assalto. Ist parece Tóquio, o Tóquio antigo, em que cenas desse género também ocorriam e onde havia mesmo uma categoria de trabalhadores cuja missão era empurrar sem grande suavidade os candidatos a passageiros para dentro da “lata de sardinhas”.

O Metro, sempre inventivo anuncia a retirada de mais alguns assentos. De pé cabe sempre mais um. Os reis do apalpão rejubilam: agora é que vai ser um fartote!

O público viageiro e sempre ingrato protesta que as coisas pioraram e que chegar tarde ao emprego passa a ser a regra. Quando se chega, claro.

E nisto de chegar há uma linha férrea extraordinária: a do Oeste ou seja a que liga(va) a Figueira da Foz a Lisboa e servia, entre outros destinos, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Leiria. Servia, digo, e muito bem, porque agora já não serve ou só serve de quando em quando. Há estações desactivadas e há trafego ferroviário suspenso entre outras por vezes substituído por autocarros. De todo o modo, já não chega a Lisboa, ficando-se por Sintra e daí, se não houver muitas supressões (e isto é um voto pio mas fervoroso) , é aproveitar a “exemplar” linha de Sintra que, em funcionando, permitiria a cada família uma poupança (não de tempo) de cem euros por mês.

Ou seja: nesta omeleta faltam ingredientes mormente os ovos, as frigideiras são do tempo dos afonsinos e as escumadeiras não passam de uma saudade.

Isto mesmo foi dito pelo Governo que penosamente rezou uma espécie de acto de contrição e confessou alguns ligeiros pecadilhos mas que atribuiu a um finado governo anterior toda a responsabilidade!

Os governos anteriores, sobretudo se forem da oposição são muito úteis pelo menos para carregar com os pecados capitais (e mesmo com os veniais). Vamos lá a ver se o futuro Governo que se afigura da mesma cor e substância resolve as coisas. Aceitam-se apostas mesmo se a casa jogue cinco contra um na impossibilidade de, em quatro anos, se notarem melhorias. No fim logo se verá a quem se apontam as responsabilidades.

(hoje mesmo, 11 de Junho está em curso uma greve dos transportes rodoviários da margem sul. Um dirigente sindical afirmava eufórico que a paralisação estava a ser cumprida a 95% e que ninguém ou quase iria conseguir chegar o seu emprego em Lisboa. Ignoro se são transportes públicos ou privados mas relevo desde logo que uns e outros estão sob a mesma tabela e que se isso ocorre em empresas privadas bom seria perguntar ((mesmo se isso me parece pura retórica pois estou convencido de que não)) se os patrões já receberam do Estado a compensação pelo grande desconto que efectuam em cada viajem).

Uma medida pode ser boa em abstracto (e esta é-o) ms no concreto pode correr mal. É evidente que ao embaratecer visivelmente os preços dos transportes públicos, já se sabia que a procura deles iria aumentar fortemente. Conhecendo-se, igualmente, as disponibilidade da frota pública, dever-se-ia pensar que os operadores privados teriam maior número de passageiros. Como os preços novos significavam um custo acrescido dever-se-ia ter agilizado significativamente os pagamentos a estes operadores. E mesmo assim, dado o inevitável aumento da procura haveria que pensar como é que as frotas podem ser prontamente aumentadas. E isso significa também para qualquer privado uma despesa de investimento importante que pode não ser viável a curto prazo. Dizendo-o de outra maneira: o Estado deveria prever, avaliar e tomar medidas para responder prontamente a este brutal afluxo de modo a evitar o caos, e o desastre diário que se verifica.

Pelos vistos, e pelas desculpas esfarrapadas, que ora se ouvem, tal não aconteceu. “O Verão –mesmo com férias- e sobretudo o Outono serão quentes, muito quentes” como há cinquenta anos se gritava ameaçadoramente pelas ruas italianas.

* l’autunno sará caldo!” foi uma expressão cunhada em 1969 em Itália pela esquerda extra-parlamentar e pelos sindicatos e anunciou uma vaga crescente de greves e de manifestações sobretudo no norte industrial

** a imagem: o outono quente em Itália