Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 48

d'oliveira, 29.05.21

bielorussia.PNG

Liberdade vigiada 26

Vale tudo? Claro que sim!

mcr, 29 de Maio

 

Juro que não tencionava voltar ao tema “Bielorússia” e, muito menos ao sequestro de um avião para dele extrair um jornalista opositor do regime.

A coisa parecia-me tão vil, tão obra de gangsters dos anos vinte/trinta que, inocentemente tinha por certo que, por cá, ninguém deixaria de a condenar.

Pelos vistos, enganei-me redondamente, porquanto uma senhora autarca do pcp entendeu que o desvio em si era algo sem grave significado. Importante, para a criatura, era o facto de haver fortes suspeitas sobre o jornalista entretanto preso depois de o avião ter sido forçado a aterrar.

A pobre e desvairada criatura parece acreditar que para prender um direitista, um perigoso direitista de vinte e seis anos, um fascista(?) notório tudo se deveria fazer.

Os fins, pelos vistos, justificam os meios, teoria que, de resto, sempre prevaleceu no antigo regime soviético de que Lukashenko, como Putin, foi um fiel apoiante como membro activo do partido comunista soviético. A sua carreira, logo que se iniciou no cursus honorum próprio da nomenclatura soviética, passou pela direcção de uma fazenda colectiva e depois do desmoronamento da URSS  rapidamente se reconverteu em defensor de uma nova ordem, idêntica à antiga e resolutamente anti reformas de Gorbatchev. O nacional populismo, tintado de forte autoritarismo, teve nele o candidato ideal às eleições presidenciais que ganhou embora sob a acusação de fraude eleitoral. E a partir daí é o que se sabe: presidente eterno e amador de oncursos de beleza que, embora casado, lhe tem rendido “amigas” íntimas, uma das quais até foi promovida a deputada.

Ora, uma fervorosa militante comunista, nossa, nacional, entendeu que contra este estadista de alto gabarito só “fascistas” ou loucos se podiam pronunciar. A Bielorússia da velha URSS só imita o estilo autocrático e anti-popular. Desconhece-se a existência de um partido guia de recorte leninista e de ambições “progressistas”. O país está empobrecido, vive de migalhas russas porquanto Putin nunca escondeu, sobretudo nos últimos anos, a ideia de ver esta vasta nação regressar ao seio da mãe pátria.

Mas, admitindo mesmo isto, essa tentativa de acabar com o irredentismo de Minsk, não se percebe o acirrado amor da surpreendente autarca comunista. Putin, antigo membro dos serviços secretos soviéticos onde terá, se não erro, chegado a altos cargos dedirecção, faz parte daquela geração que sem mudar praticamente nada passou de fiel servidor do internacionalismo proletário a fiel defensor do actual autoritarismo russo (ou pan-russo). Os métodos de governação são mais ou menos os mesmos, mas a ideologia do regime actual em pouco se baseia no marxismo-leninismo se é que dirigentes como Stalin, Krutchov ou os desastrados sucessores sucessores alguma vez acreditaram verdadeiramente em algo tão pouco evidente. Só mesmo com muito boa vontade pode alguém misturar o marxismo com o desvio leninista  que acaba por ser a sua negação mais rotunda.

Não é a primeira vez, e não será a última, que uma militante devotada aparece subitamente a louvar a antiga situação soviética, os seus desconhecidos méritos, o centralismo democrático, a infalibilidade das suas teses económicas, a sujeição de todos a um partido único que, aliás, soube perfeitamente levar a cabo o seu plano de sujeição da sociedade aos extremos que se conhecem. E convenhamos: de proletáios na elite dirigente soviética sabe-se de raros exemplares que aliás nunca foram importantes nem deixaram rasto político que se conheça. 

Que, apesar de tudo, este género de militantes portuguesas tenham um desconhecimento tão evidente, tão profundo não só da história mas também do pensamento marxista é que surpreende qualquer um.

Dir-se-á que da antiga fé no “sol da terra” resta apenas uma saudade geográfica que faz do extremo leste europeu, um solo de mártires e heróis que em nome da classe operária e da futura sociedade sem classes, reduziram a população a um pobre modo de viver sem luz nem, e é o mais importante, esperança. Como se sabe, o regime caiu praticamente sem um tiro, desagregando primeiro os países satélites um a um e depois a URSS que perdeu todas as repúblicas agregadas, desde os bálticos até aos povos turcos da Asia central. Nem a Georgia, pátria do imortal e nunca assaz chorado José Djugashvili que no século usou o nome de Stalin, permaneceu fiel a Moscovo (uma afronta que vai pagando paulatinamente graças às sucessivas intervenções russas no seu território que vai sendo amputado por pretensas repúblicas “libertadas” graças ao “grande irmão” russo).

Ora, mesmo assim, permanece no imaginário comunista português, incluindo jovens que provavelmente nasceram depois do fim do império soviético, uma espécie de sebastianismo “progressista” (seria demasiado chamá-lo “revolucionário”)  que faz com que defendam com unhas e dentes o statu quo russo ou pan russo. Assim, o desvio do avião, acto internacionalmente condenado, é apenas um fait-divers justificado pela captura de um conspirador “direitista”.

Não há pachorra!    

 

 

homem ao mar 46

d'oliveira, 27.05.21

Liberdade vigiada 24

“Este parte, aquele parte...”

mcr, 27 de Maio

 

Seja-me permitido roubar o título a um poema de Rosalia de Castro, galega insigne que, curiosamente, teve direito a um pequeno jardim e estátua aqui no Porto. 

Algum direito tenho porquanto, num longínquo ano ainda da década dourada, trabalhei como uma espécie de assistente de Ricardo Salvat na preparação de uma peça que se chamaria “Castelao e a sua época”. O espectáculo seria montado com poemas, canções e textos do grande galego e, ao mesmo tempo, juntar-se-iam canções catalãs de um anterior trabalho de Salvat sobre catalães do fim do sec. XIX. Era nessa parte que eu entrava como tradutor, imagine-se!, do catalão. Confesso que só a loucura do Ricardo e a minha imprudente ousadia permitiam isto mas, verdade seja dita, lá levei o encargo a bom termo. Valia-me o facto de já ter na minha incipiente biblioteca alguns livros de poetas catalães, tudo edições bilingues que lera com atenção, entusiasmo e algum fervor.

Com a ajuda do Zé Nisa e do Adriano Correia de Oliveira, musicaram-se os poemas galegos e era a Maria João Delgado, minha ex-mulher e querida amiga, quem cantava o poema que dá título ao folhetim.

Obviamente, a peça esquerdava tanto quanto possível, coisa que a Censura percebeu e proibiu. Ficaram as canções que durante a crise de 69 animaram vários saraus de greve e, finalmente, levaram o Adriano a começar a cantá-las em público. Acho que há por aí algures um disco mas a preguiça, companheira de todas as horas, aconselha-me a ficar sentado sem o procurar. 

 Todavia, desta feita, não é das minhas modestas aventuras teatrais que quero falar mas de algo, infelizmente, mais triste: A morte de amigos.

Já vai longo o rosário de companheiros desaparecidos (ainda ontem recordei o Manuel Sousa Pereira, um escultor culto, maluco por música e cinema e que jamais perdia os westerns do Sergio Leone. E ontem, dava, outra vez, “O bom o mau e o vilão”, uma fita que outro amigo nosso, arquitecto de renome, nunca conseguiu ver até ao fim. O iconoclasta cinematográfico adormecia1... O MSP insultava-o longa e viciosamente mas o outro ficava impávido. “Tu já viste este anormaaaal?”, perguntava o escultor. E eu acenava alegremente só de ouvir o qualificativo. 

Agora o MSP já só é uma saudade que nunca perdoarei ao covid, filho da puta, três vezes filho da grandessíssima puta.

E hoje, aliás ontem, outra notícia maldita. Morreu o Acácio Barata Lima, outro da leva de 40. Oitenta e um anos e uma vida aventurosa, dura, combativa.

Eu conheci o ABL no “Mandarim” em Coimbra, café de conspiradores e de agentes da polícia que ali vinham à pesca. Ora, já depois de o conhecer razoavelmente, isto é um par de anos passados, ouvi-o anunciar que uma nova organização revolucionária dava os seus primeiros passos, prometendo novidades sensacionais.

Tratava-se da FAP (frente de acção popular) u grupo dissidente do PCP, criada por Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Espiney. 

Suponho que desses três apenas conheceria de raspão o Rui, velho militante das pro-associações estudantis lisboetas. 

De todo o modo, fiquei em pulgas, o que é sempre um péssimo sinal pois a curiosidade oblitera a razão. Não tardou muito em começar a militar naquela organização frentista que parecia renovar a luta contra o Estado Novo. 

Anos passaram, e oAcácio foi preso quando se dirigia para um encontro clandestino com o Francisco Martins Rodrigues, mostrando que as boas intenções e a diferença propagandeada não eram acompanhadas por medidas de prudência conspirativa exemplares. A FAP entretanto eliminara um infiltrado da pide e isso desencadeara uma caça ao homem sem precedentes. 

Mesmo sem sangue nas mãos, o Acácio foi identificado, discretamente vigiado e seguido. E apanhado. 

Julgamento no Plenário e prisão já não sei se em Caxias se em Peniche. 

Entretanto, um corajoso bastonário da Ordem dos Engenheiros conseguiu mobilizar a classe e lançar uma campanha pela libertação dos engenheiros presos políticos. A campanha teve êxito e ABL foi libertado juntamente com um elemento do PCP (Bianchi Teixeira?)

Depois do 25 A, o Acácio, sempre generoso entendeu ir ajudar Moçambique como cooperante. E por lá andou uns anos até se convencer que a FRELIMO tinha os cooperantes em muito pouca conta, sobretudo se eles se mostravam eficazes, competentes e... críticos, o costume.

Regressou a Portugal, sempre activo e entusiástico se bem que curado e ressacado pelos infortúnios revolucionários. Como era de uma competência a toda a prova, empregos nunca lhe faltaram. Alguns bem enganadores como aqueles em que, para além de um ordenado sem nada de especial se juntam prebendas que, uma vez terminado o contrato se esfumam sem deixar rasto. Ms o Acácio ria-se disso. Habituara-se a viver com pouco e com pouco se contentava. Dizia que a burrice de não perceber esses contratos era só dele e prova provada que nunca entenderia o capitalismo. Eu objectava-lhe que outros da mesma geração e passados semelhantes ao dele, estavam bem da vida ao que ele retorquia “e da consciência?”. E ria-se alto e bom som aquele amigo da vida, das pândegas com amigos, das longas conversas e da política inteligente. 

E fomo-nos encontrando frequentemente, comentando cada vez mais acidamente as “estrepolias” do processo revolucionário português que, mesmo depois da pungente derrota do PREC, teimava em remar contra acorrente e contra o bom senso, a razoabilidade, a Europa. 

Há uns anos, já reformado, foi adoecendo paulatinamente. Corpo gasto, mente sã mas desiludida. Morreu há uns meses,sigilosamente, como morreram tantos outros mesmo sem covid. Em tempos de pandemia a morte passou à clandestinidade, tornou-se um segredo que nem amigos conseguiam romper. 

Agora, um sobrinho, a quem pedi notícias, deu-me mais esta triste novidade. A que se juntou, ontem mesmo, outra morte, mais inesperada. Desta vez foi o Sérgio, conhecido relativamente recente, apreciador de bons vinhos e melhores petiscos. Não nos encontrávamos muito nem se pode dizer que fôssemos íntimos. Mas era um tipo amável, bom companheiro, sempre pronto a ajudar. Há meses que sofria uma fortíssima depressão a que, um mal nunca vem só, se juntaram de má fé, uma pneumonia violentíssima e uma bactéria dessas fulminantes. Tínhamos aprazado um almocinho à base de lampreia. Adiado no ano passado, novamente postergado este ano, nem por isso a ideia morrera inteiramente. Atrás de maus dias melhores virão. Não vieram. Isto de estar vivo é, de facto, uma lotaria ou, pior, um gracejo de mau gosto. 

Pelo menos disso o Sérgio e o Acácio já estão livres.          

 

 

homem ao mar 45

d'oliveira, 26.05.21

Liberdade vigiada 23

“Armar-se em carapau de corrida”

mcr, 26 de Maio

 

 

O Sr. Secretário de Estado da Saúde entendeu fazer uma declaração sobre o problema epidemiológico de Lisboa. 

Pelos vistos, as infecções na cidade aumentam de forma alarmante e consistente. Prevendo-se mesmo que possa haver um retrocesso no desconfinamento lisboeta.

Ou melhor, e corrigindo: previa-se um retrocesso mas, que diabo!, estamos a falar de Lisboa e não de uma qualquer Odemira, Braga ou vilar de Perdizes.

Em Lisboa, não pode haver retrocesso. Nem com outro terramoto. Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. 

Por isso, S.ª Ex.ª veio declarar solenemente que “como a vacinação em Lisboa estava atrasada em relação ao resto do país” ia desencadear-se um esforço especial para vacinar os menores de cinquenta e de quarenta anos a partir do próximo mês.

Agora, o Sr. Vice almirante Gouveia e Melo, cujo trabalho nunca é demais enaltecer, veio afirmar que esses prazos já tinham sido agendados pela “task force” e que ele, almirante, não era pessoa para andar a dividir o país em regiões A, B ou .

De facto, essa declaração já tinha sido adiantada há dias e amplamente difundida pelos jornais, pelo que das duas uma:

 ou o Senhor Secretário de Estado tem problemas de memória ou ninguém lhe liga nenhuma pelo que S.ª Ex.ª vive numa bolha de espesso nevoeiro e nem sequer vê televisão, lê os jornais ou ouve a rádio!

Ou, hipótese mais prometedora: A criatura sabia perfeitamente o que se passava, mas entendeu fazer peito e armar em carapau de corrida para se mostrar ao país boquiaberto e aos lisboetas alarmados. 

Entretanto, verifica-se que, sempre no domínio da informação sobre percentagens de vacinação, Lisboa difere do Porto por uns meros 2% (32 e 34) enquanto que noutras zonas, por terem população mais velha e deficit de população mais nova, a taxas de vacinação eram naturalmente mais elevadas (regiõs pouco povoadas e com muitos velhos, estariam sempre à frente, mas isso é areia demais para a camioneta do Sr.  Moreira Sales.

Lisboa estará, hoje, com 141 infectados por 100.000 habitantes e julga-se que o primeiro número aumentará, e bastante, nas próximas semanas. De todo o modo, tudo leva a crer que a “capitalidade” tem um efeito especial: nunca ira recuar um passo que seja no desconfinamento. 

Até o Sr. Presidente da República o admite implicitamente quando agora vem declarar que o “estado de emergência” estava fora de questão. Deus o queira, Deus o queira mas já ouvi coisas idênticas e depois foi o que se viu. 

Claro que, agora, com a vacinação a correr a todo o vapor, começa a ser plausível que desta já escapámos ou, pelo menos, não regressaremos aos dias negros do início do ano.

 

 

Conexo com este esforço de vacinação está uma questão dramática e de alcance mundial. São os países ricos, do Ocidente, europeus e americanos, por um lado e os “tigres” asiáticos (Taiwan, Singapura, Correia do Sul, Malásia) bem como o Japão por outro. Da Oceânia emergem, como também era espectável, A Austrália e a Nova Zelândia. O resto é o diabo!

Ora, anda por aí, uma campanha a pedir que estes países ricos e privilegiados cedam parte das vacinas que compraram aos países pobres. Nada mais generoso na aparência mas que tem um escolho formidável pela frente: será que algum povo ocidental está disposto a deixar parte da sua população indefesa para ir numa corrida auxiliar outros? 

Terá algum Governo, mormente os da Europa, condições políticas para enfrentar uma opinião pública que também sofreu as violências pandémicas, o confinamento, as mortes, as dificuldades económicas e arriscar o pelourinho da contestação violenta a uma política certamente humanitária mas, no caso, vista como de abandono de populações, mesmo pequenas?

Aliás, a Europa já esta a enviar doses (claramente insuficientes mas doses apesar de tudo) gratuitamente para países pobres. Por cá, fala-se em enviar os excedentes da Astra Zeneka, para os palops. Tenho a convicção que S Tomé ou Cabo Verde pela pequena ppulação que têm ficariam com uma taxa de vacinação apreciável só com o que, de um modo um tanto ou quanto tolo, aqui se recusa ou se teme. 

Como de costume, nenhum dos generosos benfeitores da gumanidade que por cá pululam refere ou, pelo menos, se interroga sobre idênticas disposições humanitárias por parte da Rússia ou da China. Confesso que desconheço em absoluto se nesses dois gigantes produtores de vacinas há (ou não)  alguma política de socorro A África ou à América central.

No que diz respeito á Índia, que é ou era um gigantesco fabricante de vacinas a coisa está como se sabe. E, em boa verdade, o que por lá se passa, era previsível. Densidade populacional desmesurada nas cidades, abandono total do campo onde falta tudo (e quando se diz tudo, é tudo mesmo.), permissão de grandes festivais religiosos que reuniram dezenas de milhões de hindus. Para já não falar numa anedótica mas trágica seita que considera que basta besuntar o corpo com estrume de vaca para estar a salvo do vírus. 

A maior democracia (iliberal e cada vez mais autocrática) do mundo não estava preparada para a catástrofe, não se preparou, não tenta  defender-se (basta ver o que o Governo federal diz do confinamento) de uma pandemia que tem, no subcontinente indiano, belos dias à sua frente.

A União Indiana tem a bomba atómica mas não tem hospitais seguros nas cidades e ainda menos (ou seja nada) nas zonas rurais.  Em contrapartida tem castas a mais e mostra-se cada vez mais violenta contra a minoria (150 milhões!) muçulmana que provavelmente também estará a pagar uma factura importante no capítulo infecções e mortes.

Não é só o Sr. Sales que arma ao pingarelho. O cavalheiro Modi não lhe fica atrás e com muito piores consequências.  

O mundo é pequeno!

  

 

homem ao mar 44

d'oliveira, 25.05.21

original.jpeg

Liberdade vigiada 22

Arrombar portas escancaradas

mcr, 25 de Maio

 

Comecemos por um pedido de desculpas. Ontem, quando referi os jovens ocupantes da via pública que exigiam mais ferrovia e menos aviões, não transpus bem o texto (já explico)e faltou-me um parágrafo.

Eu escrevo estas crónicas num rascunho que normalmente, com mais ou menos uma vírgula é rigorosamente idêntico ao texto que depois entra para o blog. Faço-o apenas para não acontecer, como já por várias vezes sucedeu, perder o texto numa das pirotécnicas habilidades computacionais.  Quem, com esforço desmedido e infinita paciência me acompanha desde o início aqui, sabe  como é que um um info-ignorante aqui entrou e por que ínvios caminhos passou. Um desastre devido a ter chegado tarde a este meio e ser de uma repelente preguiça, pecado mortal que cultivo com cuidadosa e fiel observância.

Portanto não perguntem que eu não respondo. Por absoluta ignorância, devo acrescentar.

E o parágrafo era este. “Vir para a rua protestar contra o transporte aéreo quando este é escasso e, sobretudo, quando, finalmente se antevê (e se assiste, já) a um incremento na ferrovia, é um arrobar de porta escancaradas. Até o plano (enfim aquilo a que chamam plano) de gastar o cacau da bazuka afirma, preto no branco (ou africano no europeu...) que se prevê o fim muito próximo de voos com menos de 600 quilómetros”.

E acrescentava “é verdade que não se deve tomar por palavra de bronze a promessa do Governo mas aqui, até o mais acirrado defensor da TAP esbarra numa evidência. É a Europa que vai ditar o fim dos voos de curto alcance. E, será o futuro desenvolvimento do turismo que ditará o local do eventual futuro aeroporto se este se vier a revelar necessário. De todo o modo, e já que Governo, restauradores, operadores turísticos, hoteleiros, rapaziada do tuk-tuk e das lohas de recordações insistem na dependência do turismo, parece que a cruzada desta juventude vai ter um fim idêntico à cruzada das crianças (esc XIII)que, como se sabe culminou na morte de muitas vítimas e na venda das restantes como escravos.

Eu não quero tão tenebrosa sorte para esta rala centena de mancebos tocados pela graça ambiental mas tenho por mim que , causa por causa, poderiam ter ido até às zonas suburbanas onde largos centos de imigrantes sofrem os mesmos tratos de polé que os de Odemira. Claro que teriam de andar mais um pouco mas que era bonito, era.”

 

Feita a retificação, passemos a outro assunto, bem mais grave e mais importante: na Bielorússia, um governo criminoso, autocrático e batoteiro de um punhado de gangsters de alto gabarito, entendeu poder desviar um avião estrangeiro partido de um aeroporto estrangeiro e com destino também noutro de outro país.

A finalidade desta manobra que poderia ter terminado em tragédia, caso o piloto do avião pirateado se recusasse a obedecer às ordens da aviação militar bielorussa, era prender um passageiro que se notabilizara pela resistência ao criminoso e ilegal regime de Lukaschenko. O que foi conseguido com um prémio extra. Prenderam também a namorada do jornalista perseguido que enfrenta todo o tipo de ameaças à sua vida, segurança e liberdade.

Tudo isto pode ocorrer num país limitado pela Ucrania, Polónia russio e pels estados bálticos. Vejamos: a Ucrânia já tem problemas que lhe bastem com a Rússia. Os Bálticos são pequenos países que, mesmo se corajosos, não tem meios de se opor à Bielorussia, estado acossado e capaz de tudo. A Polónia, democracia cada vez mais iliberal se bem que tenha protestado não vê com olhos demasiadamente severos o tiranete de Minsk. à Rússia basta um pretexto para intervir a favor do déspota.

Eu não sei o que vai sair da reunião da União europeia, agora em curso. Claro que poderão reforçar algumas medidas, proibir os voos da aviação civil bielorussa, , vetar a presença de eminentes membros da nomenclatura local n Europa ou cortar-lhe eventuais fundos. Tudo isso não me parece suficiente para libertar o jornalista, sequer a amiga mesmo se esta puder ser usada um pouco como moeda de troca. Temo pela vida do infeliz oponente  e suponho que à Bielorússia de pouco importe que a aviação civil europeia evite o seu espaço aéreo. Enquanto o amigo russo estiver atento, Lukashenco tem o lugar seguro E mesmo se tiver de ser removido, os russos manter-se-ão senhores da situação.

As tiranias, veja-se o exemplo da Birmânia (ou Myamar se preferirem) que ainda agora se deuao luxo de mostrar Suu Khi a detida primeira ministra apeada. Dizem os jornais que a senhora, que governou com demasiada prudência e cuidado para não irritar a irritável Junta militar, arrisca uma pena de prisão longa.

Não vale a pena tentar viajar para outas latitudes, por exemplo a Arábia Saudita cujo governo raptou e eliminou em solo turco um outro opositor. Aliás a Turquia é um bom local para tiranos com se vê desde há anos. E por aí fora. Até no seio ca pretensa comunidade lusófona há um país a Guiné Equatorial onde qualquer ideia de democracia é apenas um sarcasmo.

Fique todavia, registado o protesto deste escriba que é cada vez mais incrédulo quanto à eficácia da opinião pública mundial neste género de questões.

Entretanto, Lisboa contabiliza cada vez mais infecções, Braga (também campeã mas mais moderada) idem. Sempre quero ver se a DGS se atreve a fazer Lisboa recuar no desconfinamento. Vai uma apostinha?

* na vinheta: manifestação em Mnsk     

Homem ao mar 43

d'oliveira, 24.05.21

Liberdade vigiada 21

Paisagem depois da batalha

mcr, 24 de maio de 21

 

 

“Em quatro meses foram identificados 129 lares ilegais e encerrados 31”, eis o título principal de 1ª página do “Público”. Só depois há a fotografia da vitória do Braga e a notícia de um programa de testagem em massa para a zona de Lisboa.

Interessam-me o primeiro e o último destes itens porque dizem muito de um Portugal fiel a si próprio que, depois de roubado p-põe trancas à porta.

Os lares ilegais são uma verdade conhecida desde há muitos anos. Razões não faltam, aliás. em primeiro lugar há poucos lares para uma cada vez maior procura, mesmo contando com a rede de lares das Misericórdias onde sucedeu o que se sabe.

Não vou, à cabeça, condenar estes lares ou as suas direcções mesmo se julgue que a imprudência foi e é uma constante. Ninguém estava preparado, ninguém foi convenientemente bem informado e a intervenção do Estado foi tardia já a procissão ia no adro, De todo o modo, sem as Misericórdias, as coisas seriam bem mais dramáticas. Não sei exactamente quantos lares destes há ms andarão pelas centenas, largas centenas. Ao longo dos últimos 20/30 anos houve um enorme esforço das instituições e da sociedade civil no sentido de criar ou remodelar lares de modo a torna-los um pouco (ou bastante, consoante) confortáveis. Em boa verdade, todos auferem de ajudas estatais mesmo se, com o correr dos anos elas sejam cada vez menos importantes na economia destas instituições. Aumentou extraordinariamente o número de pessoas a necessitar destes estabelecimentos, as suas reformas são no mínimo miseráveis e as despesas aumentam. Por mais ajudas que recebam da sociedade civil, a verdade é que não são suficientes.

Tive, profissionalmente a experiência directa de intervenção num lar com instalações de excelente qualidade, amplos espaços exteriores e numerosas ajudas externas, sem falar nas do Estado. Todavia, as duas pessoas que me ajudaram na tarefa de recuperar esse lar, cedo verificaram que sem a ajuda do Banco Alimentar (abençoado seja!) as coisas não singrariam.

Diga-se que, num ápice esse lar, intervencionado pela Segurança Social, com o apoio do Tribunal local e do Bispado, ficou com a lotação completa e uma lista de espera do tamanho da légua da Póvoa.

O envelhecimento acelerado da população, a impossibilidade de numerosas famílias poderem, com um mínimo de dignidade, apoiar em casa os seus familiares mais velhos, mais doentes, mais dependentes, fez disparar a procura.

Do lado do sector privado surgiram duas respostas qualitativa e quantitativamente diferentes. De um lado, lares “de luxo”, bem organizados, com pessoal à altura, nas cidades, que porém pedem mensalidades fora do alcance da gigantesca maioria da população. Tomei conhecimento disso, quando a minha Mãe resolveu, sem dar cavaco a ninguém, procurar um lar. Os preços eram desmedidos mesmo se ela os pudesse pagar. Todavia, e já lá vão vinte anos, ela lá se convenceu a permanecer em sua casa, com pessoal suficiente e a constante presença do meu irmão. Está bem, muito melhor do que em qualquer dessas mansões caríssimas e onde o seu espaço privativo seria muito menor. E a despesa é notoriamente inferior. E a liberdade que ela usufrui é absolutamente maior! Eu mesmo lhe disse que “só por cima do meu cadáver” é que ela iria para um lar pois a minha casa seria de certeza muito melhor abrigo. O mesmo aliás foi dito pelo meu irmão que diariamente vem lanchar e estar com ela durante um par de horas. E até à data, a excelente senhora, está no seu sítio e nele celebrará muito brevemente 99 cumpridas primaveras.

Todavia, o nosso exemplo, não é deve ser especialmente considerado. Somos uma família da classe média-alta,  fortemente solidária e isso também conta.

O problema, como asseverava Sartre é  “os outros”. E esses são dezenas de milhares, se não forem centenas. Faltam lares como faltam instituições de cuidados continuados. O  problema será cada vez mais premente e as soluções tardam.

É por isso que surgem (surgiram) os lares ilegais. À uma abrem vagas, Muitas vezes essas vagas são mais baratas. Claro que as condições variam muito mas, genericamente, são piores (eu digo piores e “não menos boas”) do que os lares que a Segurança Social no final de uma maratona de exigências, nem sempre totalmente compreensíveis, autoriza ou valida.

Há de tudo neste ramo que, de qualquer forma, aaba por ser lucrativo. E é-o desde logo porque cada vez mais a sua localização aumenta em zonas interiores, menos fiscalizáveis, mais baratas quer no preço do aluguer das casas, quer nos salários pedidos pelo pessoal menos (ou nada) especializado que mobilizam.

A Segurança social investiga, fundamentalmente sob denúncia, e encerra o que pode. Mas nem sempre encerra porque, depois, fica com dezenas, centenas de idosos nos braços. E assim se vai entretecendo uma rede de clandestinidades, semi-clandestinidades, enfim de cedências em nome de uma falha maior do Estado. Este não protege os seus cidadãos mais idosos. As famílias também não: por falta de meios económicos ou, eventualmente, por egísmo. As casa não estão feitas, ou já não estão preparadas para famílias não nucleares. E os velhos exigem cuidados específicos e/ou especiais. Faltam cuidadores, falta uma política que os fiscalize, prepare e defenda. Falta tudo.

E, por isso vai continuar a florescer uma rede clandestina e ampla de lares ilegais. E por isso vai continuar a ser visível a fragilidade de milhares de cidadãos depositados em mortórios a aguardar que a morte, misericordiosamente, venha e os leve. À vista de todos, inclusive dos rapazinhos e rapariguinhas que ontem ou anteontem protestavam contra a poluição aérea, enquanto os mentores ficavam prudente e confortavelmente em casa.

Não consegui arranjar quem contra mim apostasse nesta coisa simplicíssima: eu afirmava que depois do protesto e da detenção de uma trintena de heroicos e vociferantes defensores do ar puro haveria a habitual queixa de maus tratos policiais. Ninguém aceitou arrisca cinquenta cêntimos na hipóteses contrária. Vê-se que neste campo, já toda a gente sabe do que a casa e a causa humanitária gastam em argumentário anti autoritário.

 

 

No que toca às festividades sportinguistas parece que, pressionada por todos os lados e pela evidência escandalosa, a DGS já aceita que algumas dezenas de infecções tenham surgido depois da vitória que demorou os 19 anos da história conhecida do clube. Eu arriscaria apostar outra vez que daqui a dias esses casos ultrapassarão a centena mas como de costume ninguém quererá apostar. E depois, ninguém, dentre os responsáveis quererá corroborar o o que as mais simples suspeitas começam a revelar.

E já agora: ontem a televisão mostrou imagens do Bairro Alto e do Miradouro de S Pedro de Alcântara povoados por uma multidão de turistas e de nacionais sem máscara e em alegre convívio. Eu não posso andar sem máscara pela rua que logo serei interpelado por um prestimosos agente policial. Ali, polícias municipais e da PSP deambulavam por entre os desmascarados sem dizer água vai...

Arre!

 

 

 

ng5739577.JPG

 

homem ao mar 42

d'oliveira, 23.05.21

1566627.jpeg

Liberdade vigiada 20

Variações sobre o “bicho”

mcr, 23 de Maio

 

 

Como quase toda a gente previa, em Lisboa (concelho de Lisboa, notem, zona centro) há mais casos de infecções por covid. Por muito que se faça de conta, os festejos sportinguistas são apontados a dedo outra vez por quase toda a gente.

Este quase distingue o pasmoso silêncio da DGS e o assobiar para o lado da Câmara Municipal. Sabe-se que há um relatório do MAI (sempre os domínios do “competentíssimo” dr. Cabrita!) mas, pelos vistos, é secreto. Aliás, sempre que um facto ou uma situação não são do agrado das autoridades, o(s) relatório(s) viajam para plagas desconhecidas, passam à clandestinidade, perdem-se sabe-se lá onde. Foi assim que um mail da Direcção Nacional da PSP andou perdido nos labirínticos corredores da CML. Nele, a polícia advertia contra os ajuntamentos junto do estádio, contra a colocação de ecrã gigante e contra um passeio de autocarro. Alguém, mais tarde, ainda veio dizer com desplante infinito que o mail deveria ter sido substituído por um telefonema como se não se soubesse que as linhas “caem”, os destinatários podem ter um momentâneo ataque de surdez ou, pura e simplesmente esquecerem-se do recado...

“Estava na cara” que aqueles milhares de adeptos que esperaram meia vida por um título e que deram largas à sua alegria de cara destapada muito juntinhos, muito abraçados, estariam a preparar-se para uma transmissão grupal do “bicho mau”. Provavelmente, pensavam que os vírus não frequentam os meios desportivos, as imediações dos estádios nem fogem a sete pés de festejos histéricos...

E agora é o que se vê. Só não vê quem não quer. Ou quem não dá o braço a torcer nem que só seja por uma vez.

 

No parque ZMAR estão agora 40 criaturas. Saudáveis, gá que dizê-lo para tranquilizar os residentes das casas de férias próximas. Todavia, parece que há um problema: o ZMAR fica à “desamão” das estufas. Não dá jeito nenhum pôr os trabalhadores longe do seu posto de trabalho mas que querem? O ministro ou quem o representa tem por força de ter razão.

 

No Algarve desembarcam multidões de turistas. Vem da loira Albion e estão sedento por sol, sal e sul. E por muita e bem regada bebida alcoólica. Azar deles: os bares ainda estão encerrados. Sorte deles: apareceram logo, como moscas num cão morto, dezenas de pequenos comércios de venda de bebidas que, obviamente, serão consumidas na rua. As autoridades, com uma momentânea falta de visão, não dão pela coisa. Os adeptos do turismo barato rejubilam. Só há um senão: falta mão de obra nos hotéis, nos restaurantes, nas praias e mesmo nas ruas para varrer  o lixo das folias nocturnas. Importam-se mais umas carradas de imigrantes. Brasileiros de preferência para trazerem um ar da saudável pátria bolsonárica...

A enxurrada turística vem de todo  olado incluindo países do Leste. Parece que Portugal é o terceiro destino turístico mais barato da Europa. Assim se vê como cada vez mais nos colocamos na cauda da Europa no que toca a rendimento per capita. Estamos baratos para quase toda a gente excepto para os indígenas, para a lusitangem, para os felizes habitantes do “torrãozinho de açúca”. E vamos continuar a apostar no turismo (barato) esquecendo que o turismo mesmo a preços de saldo é uma moda que muda muito e depressa. É só dar tempo ao tempo.

Neste frenesi de chegadas ao aeroporto só não se vê a TAP. Ou vê-se muito pouco, quase nada. Segundo as reportagens, de Inglaterra as pessoas vem em quatro ou cinco companhias (Ryanair, Easyjet ou outras) mas não pela TAP. Parece que os preços desta naufragada empresa são muito mais caros que a concorrência. “Morrer sim mas devagar!” E em grande estilo. E com preços dignos!

 

Há uns tempos atrás dizia-se que, depois da pandemia, nada seria como dantes. Erro fatal. Vai ser tudo igual mas mais pobrete e alegrete. A pandemia matou uns milhares de velhos, inúteis, aliás, e fez o Estado poupar em outros tantos milhares de reformas. Eram pequenas? Claro! Mas muitos tostões fazem milhões...

Agora morre-se menos, quase nada e, provavelmente, noutras faixas de idade. De todo o modo o combate à pandemia, melhor dizendo a vacinação, corre bem, corre célere, a toque de caixa.

O marinheiro (não só ele, evidentemente, mas também ele e a sua equipa, e todos sabemos que uma equipa precisa de um bom comandante) faz-nos esquecer aquele emplastro pomposo e saltitante de lugar em lugar de prestígio no Estado que, por má sorte ainda por lá andou uns tempos. Saiu sem uma saudade, sem um piedosa salva de palmas e no meio de um indisfarçado júbilo de quem le adivinhava a desastrada competência.

E tudo mudou em menos de uma semana. Tudo mudou e tudo continua não direi a mudar mas a transformar-se, a melhorar-se, a ultrapassar-se. Então estamos quase a assistir à mobilização dos maiores de quarente e mesmo de trinta anos. O almirante pede que as pessoas se inscrevam, se candidatem à picadinha. E assim nunca haverá seringas a perder-se, doses por inocular. As bolsas eventuais de pessoas mais velhas que por algum motivo faltaram à chamada serão reabsorvidas. Se tudo correr como até agora, em Agosto poderemos ter a tal imunidade de grupo.

Claro que neste lote de pequenas mas gloriosas vitórias há que incluir a malta da saúde, enfermeiros, administrativos, gente da logística que tem dado o litro sem espalhafato mas com entusiasmo.

Os hospitais tem pouco mais de 200 internados com o bicho horrendo e começam a tentar recuperar um milhão de consultas, quase duzentas mil intervenções cirúrgicas. Cá por casa, vai um rodopio. A CG entendeu consultar quatro ou cinco especialistas pois andava um tanto ou quanto arrombada e... amedrontada.     

Mas há outros heróis: todos quantos continuaram a fazer as suas tarefas, todos quanto nos permitiram comer o pão nosso de cada dia, todos os que transportaram os primeiros, todos os que mantiveram muitas empresas a funcionar. Uma multidãoo de gente humilde mas corajosa. É verdade que se não trabalhassem as coisas não lhes correriam bem sobretudo porque dependem de salários que só por pudor consideramos apenas baixos. Mas a verdade verdadeira é que mesmo que resignados e fatalistas, cerraram os punhos e foram à luta. Ou à labuta. Mantiveram isto a navegar. Essa é a saga do povo miúdo, dos que teimam, dos que não desistem por dá cá aquela palha. Esta foi a gente que embarcou nas naus, à aventura, com medo mas com a esperança de um dia ter melhor passadio. Agora que, muitos rapazolas e raparigolas andam por aí a tentar reescrever a história, é bom lembrar que esta gente fez o Brasil, os restantes palops, se mestiçou. Ainda há vinte anos, chegou-me às mãos uma lista de nomes de altos responsáveis políticos da União Indiana. Querem acreditar que li com espanto uma boa dúzia de nomes portugueses?

Não somos um povo de santos e mártires e heróis mas também não criámos apenas um mundo de miseráveis escravizados e humilhados, de escroques, de ladrões. Esses ficaram por cá e agora aparecem nos noticiários como grandes devedores desmemoriados. E há quem lhes aperte a mão, quem os respeite, quem os vote, quem ainda lhes conceda crédito...

Eu como, para minha má sorte, tenho formação jurídica, ainda advoguei, não gosto de julgamentos populares ou da rua, porém, ao ouvir incrédulo este bando de criaturas, subiram-me os humores coléricos e rompi em boas e escolhidas injúrias das antigas de Buarcos. E, muito de mansinho, desejei-lhes uma noite de São Bartolomeu. E vi-me a olhar para o lado, a assobiar para o lado enquanto os justiceiros lhes acertavam as contas e os lombos.

Hoje, mesmo, li que um gestor bancário, inominável, está quase a conseguir furtar-se a uma multa milionária. Por prescrição!!! O homenzinho recorre, volta a recorrer e a multa está por um fio. Que diabo de lei é esta que tal permite?

Façam o favor de ter um boa semana.   

homem ao mar 41

d'oliveira, 22.05.21

Unknown.jpeg

Liberdade vigiada 19

"a escola risonha e franca"?

mcr, 22 de Maio

 

Pela vigésima vez, o Publico publicou o ranking das escolas. Sem surpresa verifica-se que nas primeiras 50 apenas há três escolas públicas. O Ministério da Educação, a FENPROF e a rapaziada do “eduquês”, também sem surpresa, voltaram a mostrar-se inflamadamente indignados.

Que as escolas públicas não podem ser comparadas às privadas: que numas não se escolhem os alunos e noutras sim (o que nem sequer é absolutamente verdade: para entrar numa privada é preciso fundamentalmente dinheiro ainda que seja possível mas não habitual mandar embora o aluno relapso)

Que o interior e as zonas periféricas das cidades tem um deficit de meios e de população alfabetizada que condiciona as crianças pobres que chegam à escola. ´É verdade mas isso é sabido desde sempre, desde os tempos em que a escola começou a ser frequentada. Ora, pelos vistos, nada se fez para remediar essasituação. E nada se faz, ou faz-se a conta gotas. Nem pressionado pela pandemia o Governo já entregou as dezenas de milhares de computadores a que se comprometeu.

E que entregasse. É que a máquina precisa de rede e de eletricidade. E isso custa dinheiro. E nem sempre as famílias necessitadas o têm para custear esse pequeno esforço. Ou tendo-o não há acesso. A televisão mostrou crianças a irem para o monte para apanhar rede...

Mas há mais: a promoção da igualdade tem, por vezes, efeitos tremendos: as escolas (ou algumas, ou muitas) não promovem qualquer espécie de meritocracia quer entre professores quer entre alunos. Parece mal premiar o bom mestre e parece péssimo ver os meninos em sabatinas para provar qual é o melhor.

Também no que respeita a bolsas de estudos estamos no grau zero, vá lá no 1, no 2, quiçá no 5 numa escala de 20 se não for de 100.

Durante a pandemia viram-se várias, bastantes, escolas com as cantinas em serviço apenas para alimentarem com uma refeição quente e eventualmente decente centenas se não milhares de crianças.

As escolas públicas estão regra geral sub-equipadas mesmo as que beneficiaram do bolo das obras no tempo de Sócrates onde todos os excesso, todas as burrices, foram exaltados. Obras por vezes sumptuárias, ultrapassando todos os custos previstos, ao lado de escolas que não viram sequer um prego ou uma pá de cal. Escolas sobrelotadas quando, por vezes, há escolas novas vazias (o caso do local onde fui vacinado: uma escola que me pareceu ter todas as condições está sem alunos há um par de anos. As instalações parecera-me boas, centrais, de acesso fácil. Não há crianças? Não há professores? Então não anda toda a gente a protestar contra o tamanho das turmas?

A pandemia, sempre ela, mostrou ainda a gritante falta de auxiliares, de pessoal não docente para enquadrar, auxiliar as crianças. De repente, contrataram-se uns centos de pessoas porque a necessidade era de tal modo urgente que nao houve outro remédio.

Eu nem vou referir a queixa de todos (todos, sem excepção) os professores meus amigos (e são muitos, ou melhor eram muitos, porque alguns logo que puderam fugiram daquilo mesmo com violentos descontos nas pensões. Já não aguentavam...) que além de ensinar, eram, são obrigados, a longas, repetitivas, fastidiosas reuniões por dá cá aquela palha, tempo obviamente roubado à preparação de aulas, ao melhoramente de conhecimentos.

Também não vale a pena referir que nos momentos mortos entre aulas – e há-os sempre os professores são atirados para salas repletas de outros professores o que impossibilita os mais diligentes de trabalhar com sossego e proveito.

Comparem essa realidade com as escolas privadas. Comparem as possibilidades oferecidas aos alunos, a responsabilização dos professores, provavelmente até os ordenados auferidos. E as instalações. E as actividades extra-curriculares oferecidas aos alunos.

Um comentador que se orgulha de ter os quatro filhos na escola pública, lembra um ponto relevantíssimo. Desde que o anking existe, o número de escolas públicas nos primeiros 50 lugares baixa inexoravelmente todos os anos. Num primeiro tempo, a relação privado-público era de 27 23. Hoje, vinte anos passados é de 47 3 !!! E nas três que resistem, cada vez mais abaixo na tabela, duas escolas são as mesmas de sempre!  (entre elas a Infanta D Maria de Coimbra).

Eu, que não sou exemplo de coisa alguma, tanto mais que no meu tempo, o ensino a partir da escola primária estava fortemente condicionado pelos meios económicos das famílias e pela oferta de emprego a quem, pelo menos soubesse ler escrever e contar, frequentei o liceu (e já aqui havia uma escolha, porquanto as Escolas Comerciais e Industriais, pediam propinas menores, garantiam saídas profissionais mais cedo mesmo quando como ocorria se poderia continuar os estudos nos Institutos Comerciais e Industrias e até mais além) e por duas vezes durante o curso liceal tive que frequentar escolas privadas. A primeira vez foi em Nampula no 5º ano. Em Moçambique apenas existiam 2 liceus, um em Lourenço Marques e outro na Beira, pelo que nas restante cidades onde havia oferta de ensino secundário (e normalmente só até ao 5º ano!) recorria-se a colégios normalmente religiosos. Na altura dos exames, 2º e 5º anos, equipas de professores vindos dos liceus partiam para toda a colónia para corrigir as provas escritas  -iguais para todos – e fazer os exames orais. Suponho, aliás que o Estado subsidiava esses estabelecimentos que, porém, tinham absoluta autonomia no que respeita à contratação de professores.

A 2ª vez que estive em colégios foi no 7º ano. Ai percebia-se um pouco, sobretudo na minha área de estudos, como havia possibilidades de dar ao aluno uma melhor preparação. É     que éramos muito poucos, nunca sequer uma dezena. O que significava que os professores tinham um muito maior controlo sobre os conhecimentos dos alunos para além, de nos casos de internato e semi-internato, haver uma rigorosa obrigatoriedade de permanência em salões de estudo sob a vigilância de prefeitos que não brincavam em serviço. A ciência  era-nos metida na cachimónia quase a martelo. De resto, nos colégios mais conhecidos e com melhor reputação, se um aluno era cábula ou o afastavam ou recomendavam à família que o levasse a exame sob responsabilidade própria. O colégio só candidatava alunos que, na sua óptica, pudessem ter êxito nos exames nacionais.

E nesse capítulo, devo acrescentar que era relativamente fácil ter boas classificações. Vínhamos de um regime de estudos que não facilitava as baldas e nos obrigava ao fim e ao cabo a estudar, mesmo de má vontade.

Claro que tudo isto mudou abissalmente. O ensino massificou-se, as escolas multiplicaram-se, o ensino obrigatório é hoje em dia de doze anos. E as necessidades dos empregadores são tais que o ensino secundário, as mais as vezes, não garante acesso a um emprego interessante ou bem remunerado.

Nem a Universidade, aliás. Hoje entra-se numa farmácia e quem nos avia uma receita ou nos vende uma escova de dentes é uma licenciada em farmácia. Os bancos tem nas caixas licenciados em Economia, e as inúmeras sociedades de advogados contratam licenciados a quem pagam salários miseráveis.

As escolas privadas gabam-se  (as mais afamadas) de ter listas de espera com anos e anos de antecedência. O meu neto, com três anos e meio já está inscrito no N.ª Srª do Rosário no Porto. Aliás para entrar no infantário também já havia uma lista! As famílias, quando podem, não hesitam um minuto: querem para os seus um ensino de excelência e estão dispostas a pagá-lo. E também é verdade que, até hoje, os alunos saídos dessas escolas tem obtido resultados à altura. 

Uma familiar minha, andou num colégio inglês de Oeiras ou Cascais. O seu programa de estudos era mais pesado que o da escola pública e tinha ainda ao seu dispor (mas fortemente recomendado) mais actividades extra-curriculares. Claro que, quando quis ir para uma Universidade inglesa fez os testes duros e obrigatórios e alcançou resultados que lhe permitiam inscrever-se nas melhores universidades, com excepção do Imperial College (para onde nem sequer queria ir) onde ficou a 1 ponto da admissão. Por causa da Química, disciplina que ela nem sequer estava interessada.  Tem duas licenciaturas mas, preferiu trabalhar em Computação.

É evidente que, neste caso, tinha um background familiar. Pais licenciados, interessados, cultos e com os meios suficientes para lhe assegurarem os estudos.

Ora,  e voltando à vaca fria, a questão de base é donde se parte. A escola não substitui a família, mesmo se pode atenuar o deficit cultural e educacional dos parentes. Um aluno preciso de meios para estudar e não é só o computador ou sequer uma alimentação decente e saudável. É o resto, que é muito. As espectativas familiares e as dele mesmo; o ambiente cultural; uma família estruturada; uma habitação acolhedora, pais e familiares que o entusiasmem.

E depois, na escola: professores competentes, turmas onde o esforço de cada um possa ser notado; o elogio do esforço e do mérito. A escola e os professores não podem ser algo que “facilite”, que “desculpe” que irresponsabilize o estudante. O mundo cá fora não premeia o pobre aluno que “não foi retido” mesmo se,por vezes essa fosse a solução mais adequada e mais justa para o seu percurso escolar. Ninguém quer professores tiranos, de refinada exigência mas apenas de pedagogos que apostem em cada aluno que o ensinem o guiem e lhe fortaleçam a constância e a responsabilidade.

As bolsas de estudo devem, além de ajudar, premiar o esforço. Nada impede o Estado de com bolsas permitir a alunos a frequência de escolas de excelência, ou melhor ainda, de entusiasmar as escolas privadas a admitir estudantes que se distingam e a fornecer-lhes mediante uma qualquer contrapartida uma bolsa. Às escolas privadas convém-lhes ter alunos de excepção, de mérito sobretudo se oriundos de classes menos afortunadas. Em muitos países, as melhores universidades (e no caso inglês as public schools secundárias) arregimentam estudantes vindos de meios não afortunados mas que se distinguem como alunos. O elevador social também aqui pode funcionar. Isto não é revolucionário? Em minha opinião talvez seja: é uma maneira de criar elites que não o sejam apenas pelo dinheiro. Que é o que, até agora, no meio dos suspiros gerais sobre os rankings, acontece

Eu sei que os maximalistas mais empedernidos (cultural, social e mentalmente) jurarão que isto é apenas um meio de aumentar a burguesia e, por isso, perpetuar o estado vegetativo (já não dos proletários que cada vez são menos, menos revolucionários e desafectos aos iluminados da Revolução, ão, ão) das classes oprimidas que, de resto, como não é difícil verificar não primam por dar o seu voto ao “progressismo” auto proclamado.

Não são os rankings (de resto importantes durante uma semana) que são maus. Mau é não retirar do pouco que eles significam todas as consequências. É tempo das avestruzes do costume (desde o Ministro à Fenprof e aos evangelistas do eduquês) tirarem a cabecinha da areia e tentarem ver qualquer coisinha...      

   

homem ao mar 40

d'oliveira, 21.05.21

Unknown.jpeg

Liberdade vigiada 18

Não há direitos sem deveres

mcr, 21 de Maio

 

Leio em titulares grandes no jornal que o PAN quer inscrever na Constituição, nesta nossa repolhuda constituição, os “direitos dos animais”.

A constituição portuguesa é uma espécie de albergue espanhol onde entram tudo e todos com a excepção de algumas questões de bom senso.

O PAN começa por fazer notar que há umas centenas de milhar de votos “perdidos” que, presumo, sejam os votos em pequeníssimos partidos que não conseguem eleger um só deputado e, eventualmente, os votos a mais mas igualmente perdidos nos círculos onde vários partidos, e o PAN não conseguem eleger quem quer que seja.

Seria bom lembrar à senhora que agora gere os destinos deste surpreendente ajuntamento  que, na minha humilde perspectiva, junta alhos a bugalhos não é uma prática aconselhável. E nisso vai a ideia de gravar no  documento constitucional os direitos dos animais.

Eu, sou hospedeiro de duas gatas e de mais seria caso vivesse numa casa com algum terreno à volta onde um cão pudesse dar largas à sua energia. Se porventura o terreno tivesse a dimensão suficiente deixaria uma parta às giestas, murtas, rosmaninhos e outras plantas selvagens que dessem conforto às abelhas. Se vivesse no Alentejo gostaria de ter um montado com tudo o que isso implica de forte componente ambiental,, liberdade para animais selvagens e aves de passagem e, obviamente, interdição absoluta de caça em terras minhas.

Também não teria animais acorrentados, presumo que o PAN se refere a cães mas eu lembraria que anda por aí um clube com uma águia prisioneira. Vá lá que ninguém se lembrou de acorrentar um leão ou inventar um dragão para efeitos semelhantes. Mas se persistirem nessa ideia do dragão importem um de Komodo e talvez o amável bicho morda alguns dirigentes e apoiantes que precisariam de tratamento definitivo...

Já há um par de leis contra maltrato a animais sem que a pobre e obesa constituição seja para aqui chamada. A caça e a pesca “desportiva” não podem ser evacuadas de hábitos ancestrais assim sem mais. Eu não caço, não consumo caça, e apenas pesco no prato mas lembraria no caso da primeira dessas práticas a hipótese de assim se poder limitar algumas espécies, por exemplo o javali que, pelos vistos, causa alguma, bastante, preocupação à agricultura.

Em muitas dezenas de anos de vida, fui uma vez, em pequeno, a uma tourada e detestei. Todavia, e pelos vistos, há no país uma maioritária opinião favorável à tourada. De modo que prporia ao PAN que suscitasse, tendo para isso o apoio das multidões que congrega, um referendo para, de uma vez por todas, resolver essa questão. Agora, usar o parlamento como uma espécie de “secretaria” para eludir o problema é que me parece batota.

Depois, como o título indica, o reconhecimento de direitos implica regra geral um dever que no caso dos indefesos bichos, parece de difícil aplicação. Por exemplo será possível obrigar  um cão a não morder um transeunte com quem se cruze? Uma galinha, no galinheiro é uma prisioneira? Tirar-lhe os ovos para os comer mexidos com chouriço será ainda lícito?

O PAN não se arvora em intransigente defensor das mais acirradas propostas vegetarianas mas... para lá caminha.

Confesso que consumo pouca carne, exceptuando umas fatias de fiambre ao pequeno almoço, um que outro salpicão de Vinhais ou outros fumados de origem insuspeita. Todavia, tenho caninos e só quando me garantirem que a nossa cansada espécie os deixa de ter é que me converterei ao regime vegetariano no pressuposto que o meu sistema interno comportará órgãos diferenciados para, como uma simpática vaca, das felizes, como as avistadas pelo Sr. Professor Cavaco Silva, poder pacientemente ocupar nove décimos do meu tempo a ruminar essa pobre alimentação.

Deixemos estas observações  que acabam por ser quase tão primárias quanto as propostas do PAN e passemos, para terminar, a um outro tema já, aliás, tratado acima. O dos votos perdidos.

Para que se não percam o PAN propõe uma drástica redução dos círculos eleitorais que poderão mesmo ser apenas dois, um para o território e outro para a emigração. Ora, quando se critica o distanciamento entre eleitores e eleitos, a incapacidade dos primeiros em premiar ou castigar os seus representantes, eis que o PAN a aumenta infinitamente ou quase. Um círculo único seria o paraíso dos aparelhos partidários, a escolha cuidadosa de meros testas testas de ferro, homens de palha capazes de se curvar a 180 graus para agradar a quem nomeia os felizes candidatos.

O PAN, que se pretende um partido verde, tomou, no contexto político actual uma certa relevância por ser uma espécie de partido refúgio para quem se sente mal com os tradicionais partidos.

Por isso afirma que a distinção esquerda direita já não faz sentido. Assim recolhe desiludidos de toda a parte e cumpre a sua missão de carro vassoura eleitoral. Claro que disso também  recolhe com mais uns votos todas as incongruências políticas que, graças ao analfabetismo político endémico, florescem em Portugal. Faltam ao PAN dois partidos irmãos: o dos Inadiáveis Maximalistas e o dos Unidos na moderação. Com eles poderia criar-se uma frente eleitoral com um nome que é um programa: PIM PAN PUM.   

homem ao mar 39

d'oliveira, 20.05.21

images.jpeg

Liberdade vigiada 17

Os “desastres” de Costa

mcr, 20 de Maio

 

Presumo que a maioria dos leitores (a menos que sejam “arqueológicos” como eu próprio) não conhecerá a sr.ª condessa de Ségur, aristocrata russa tornada francesa pelo casamento com o conde de Ségur, mari volage que, apesar disso lhe terá feito oito filhos. A referida senhora, deu em escritora já tardiamente e os seus livros foram considerados muito educativos mesmo se nem sempre a perversidade esteja ausente dessas páginas em que Sofia foi a heroína preferida. De todo o modo, “os desastres de Sofia” tiveram uma longa vida e, era eu rapaz, ainda se vendiam bem.

Dito isto, passemos ao nosso Costa, homem hábil e inteligente que, porém, como muitos da sua igualha, não se sabe rodear senão de cortesãos. Estes, além de terem uma espinha demasiado flexível, não são conhecidos por especial discernimento mas antes por acreditarem piamente na vulgata ideológica fornecida pela Jota, ou pelas jotas concorrentes.

E foi assim que, sem perceber por que ínvios caminhos se iria meter, que costa embarcou em dois elefantes brancos, a TAP e a saga do BES.

Comecemos pela primeira, uma herança pesada e pomposa que só teve razão de ser durante o Estado Novo mais exactamente durante o período colonial que vai de 1950 a 1974. Sobretudo nos últimos anos, quando boa parte do espaço aéreo estava vedado a Portugal, a TAP era o modo mais rápido de ligar a “Metrópole” às colónias africanas, sobretudo Angola, Moçambique e Guiné.

Com o fim do “Império” boa parte da razão de ser da TAP desapareceu. Claro que houve logo quem, apressadamente, se lembrasse das “comunidades” portuguesas, da diáspora lusitana. Seria bom recordar que, no caso das comunidades na Europa, todos os anos, pelas férias de Verão se assiste a uma gigantesca ponte automobilística entre a Suíça, França, Alemanha, Benelux e a pátria. O avião, e nesse capítulo, a TAP competia – desfavoravelmente – com outras companhias europeias. Quanto à diáspora extra-europeia (Brasil, Venezuela, EUA ou PALOPS) convenhamos que, mesmo aí, o papel da TAP antes da privatização era menor, para não dizer mínimo.

A mediocridade que se pretendia progressista entendeu que a TAP devia ser nacional, nacionalizada, nossa. O resultado foi o que se viu. O accionista principal saiu com uma centena de milhões e o homenzinho português que só lá estava como adorno ficou por puro “patriotismo”. E veio a derrocada que a pandemia ampliou descomunalmente. Porém, a derrocada era evidente, iminente mesmo antes. Agora, o Tribunal Europeu ou algo do mesmo género, considera que os cacaus entregues à TAP não são exactamente legais. E mandou, pediu, solicitou (usem o que mais vos convier) informações que permitam validar tais adiantamentos. Por cá, finge-se que a coisa é com a Comissão Europeia e que se trata de uma mera formalidade. Não é, como se irá ver brevemente mesmo se esta ajuda possa passar como o camelo pelo buraco da agulha.

 

O 2º desastre tem a ver com a saga BES. Só que este caso é indissociável de uma situação muito mais ampla e com fortes repercussões políticas. Tomemos o exemplo do BP. Já alguém pôs em causa algum outro Governador que não fosse o dr. Carlos Costa. Mas este só exerceu dois mandatos, E antes, quem era? Quem foi o Governador do Banco de Portugal a partir, digamos de 2000? Eu não quero maltratar o dr. Constâncio mas recordo-me, ah memória malvada!, de já nessa altura haver quem o achasse demasiado obsequioso com a família Espírito Santo. Mas não só Já antes de 2010 havia, na banca portuguesa, um largo par de flibusteiros que se movimentava com um à vontade excessivo (e pelos vistos criminoso). Gente que comprava acções com empréstimo do próprio Banco, gente que obtinha empréstimos sem prestar as garantias necessárias e suficientes, gente que chegava às administrações de outros bancos ( o caso da CGD é paradigmático) sem saber ler nem escrever. E por í fora.

O dr. Constâncio foi para a Europa e a herança dele caiu em cima do dr. Costa (Carlos). O dr. Costa desandou mas o negocio da venda do BES, do banco bom e do mau (e ninguém fala do péssimo que, por coincidência e graçola, é chamado “bom” também teve o actual Governador na altura na pele de ministro das Finanças.

De toda esta fossa comum os portugueses só sabem que a coisa já custou cerca de quatro mil milhões. E que vai inexoravelmente custar mais.

O dr. Costa jura a pés juntos que esse dinheiro é de um Fundo de Resolução e não dinheiro dos contribuintes. Eu, que não percebo nada disto, mas que já vi muito, tenho uma certeza. Quem vai pagar a factura é o mexilhão. E esse chama-se povo português. Aliás, nesta comissão de inquérito que tem ouvido uma série de grandes devedores com falta de memória (ou de escrúpulos?) houve um cavalheiro que afirmou que o dinheiro do dito fundo era, e cito, “público”!

Os leitores que aqui esforçadamente chegaram perguntarão se isto, estas historietas mal contadas chegam para abater um Govrno. Num país normal chegariam mas não estamos num país normal. Estamos na terra dos Cabritas, dos Galambas e uma pobre deputada que foi ministra e acha que Cravinho está “tótó” (Melhor dizendo, talvez não ache mas, à cautela, deixa, a ideia no ar... )

Este Governo aguenta-se por duas razões: uma chama-se Rui Rio e o seu PSD. Outra chama-se “geringonça”. Esta acha detestável Costa e a política “de direita” do PS mas na altura devida, ampara o homem e permite-lhe governar. Por duas razões: está em perda declarada de eleitores e precisa desesperadamente de os reconquistar. Ora isso só é possível com Costa a aceitar dar mais uns bónus ditos sociais que os outros reivindicarão como seus. Costa, que, é inteligente, também sabe que se isso trava ligeiramente a queda dos aliados também lhe traz para o regaço mais eleitores.

Ao contrario daquele slogan (anti mpla?)”de vitória em vitória até à derrota final”, Costa ensaia um outro: “de desastre em desastre até à vitória eleitoral”

Esta é, pelo menos, e de momento, a minha tese. Mas não ponho a mão no fogo por ela. E isto é apenas um blog...

 

 

homem ao mar 38

d'oliveira, 19.05.21

rs_1200x1200-201230095644-1200x1200.bridgerton-reg

Liberdade vigiada 16

“escavando em ruínas”

mcr,19 de Maio

 

Ai caros leitores, a preguiça é o meu fado mais funesto. Hoje, por razões que não consigo vislumbrar, deu-me para procurar um título com a palavra preto. E, vejam lá, acertei numa coisa, aliás duas, escrita no ano de 98 (era eu quase um menino!...) sobre um cavalheiro de origem africana e uma Secretária de Estado, indubitavelmente caucasiana. Os tempos eram também de governo socialista mas isso é apenas circunstancial.

Que fazer com esta súbita nesga do meu passado pre-bloguista, mesmo se os textos que me saíam do primeiro e saudoso computador que tive, eram também enviados a uma dúzia de amigos que me aturavam os maus fígados?

Ora, logo hoje, eu e a CG fomos ao dentista, onde a minha cônjuge entendeu demorar não só a tratar da dentição que já começou, como a minha, a ser duvidosa e precária, mas também a pôr em dia com a dentista as novidades, sempre muitas.

Aproveitámos o dia para almoçar numa esplanada onde ela, para verificar a eficácia do tratamento dentário, se atirou a uma açorda de gambas. Não que desconfiasse da médica mas apenas porque não resiste a açordas...

Depois, meteram-se mais uns afazeres e eis que me sentei aqui quase pelas seis da tarde. Foi aí que o miserável, perverso e infame pecado mortal se interpôs entre mim e o ecrã do computador. Resultado, optei por publicar com 23 anos de atraso essas croniquetas.

Como acredito que as pessoas tem direito ao esquecimento, optei por apelidar XXX a Secretária de Estado visada e, na medida do possível, ocultar nomes de pessoas que também entravam no enredo verdadeiro.

O título, do post é uma homenagem ao “cavar em ruinas” de Mestre Camilo que gostava de dar umas bengaladas nos poderosos (na altura sempre homens com excepção da Srª  Ratazzi a quem o pérfido cavalheiro de S Miguel de Seide, atacou com um panfleto que, para amigos, se chamava “Portugal a voo de rata”) 

 

 

A mulher e o preto 1

 

 

Segundo um jornal de mexericos  a senhora Secretária de Estado do Equipamento Social empresta a um amigo o carro que lhe foi atribuído pelo Instituto das Comunicações de Portugal (que, enquanto governante, a referida senhora tutela) .

 

O feliz contemplado pela secretariante generosidade usa o veículo  para, com mais comodidade, “bater” as boites da 24 de Julho quando resolve beber um copito. Antes assim, dirão alguns para quem este inócuo desiderato  parece preferível aqueloutro que consistiria em usar a viatura como táxi.

 

Infelizmente o jornal denunciante acrescenta que o cidadão alvo da amabilidade da senhora Secretária de Estado é procurado em Cabo Verde  pelos tribunais para responder a um par de acusações  constando ainda que, mesmo em Portugal, haverá alguma autoridade que gostaria de conseguir um “tête-à-tête”  com o noctívago.

 

Confrontada com estes dados, cuja pertinácia, parece não contestar, a senhora Secretária de Estado terá dito: “Vocês fazem-me isto porque eu sou mulher e ele é preto”.  E o gabinete da referida senhora veio gravemente enunciar que o carro emprestado não pertence à frota do Estado mas apenas à de um Instituto Público. Presume-se que para a fosforescente inteligência que elucubrou este comunicado a senhora dr.ª XXX não tem que prestar contas quanto ao uso desta viatura visto não ser aquela que usa enquanto Secretária de Estado.

 

Perguntinha impertinente: teria a referida cidadã possibilidade de usar o “pópó” do comunicacional instituto se, acaso, não fosse Secretária de Estado? Mais: ainda que, por atrevida generosidade do ICP,  o carro pudesse ser usado pela senhora mesmo apeada de toda e qualquer responsabilidade governativa e política, seria curial que a beneficiária o emprestasse a um amigo para a grave e dificultosa tarefa de ir aviar um ou dois whiskies a um bar da moda?

 

Estará a cândida Secretária de Estado convicta que se o motorista fosse “branco” o jornal silenciaria o empréstimo? Pensará a inocente personagem que uma sua atempada mudança de sexo inibiria a curiosidade malsã do jornalista?  Entenderá a responsável do Equipamento Social que aos cidadãos palops deve ser  concedido o uso e abuso de bens “móveis”  de empresas e institutos públicos portugueses para que nos perdoem séculos de ignominiosa colonização?

 

Não parecerá a S.ª Ex.ª que a notinha de imprensa oriunda do seu gabinete soa a grosseira mistificação da opinião pública?

 

E não há, no governo ou, pelo menos no ministério,  do sr YYYY uma alma caridosa que lhe explique cuidadosamente que à mulher de César não basta ser séria?  Ou estarão todos tolhidos pelo voluntarioso feminismo da defesa ataque da senhora Secretária de Estado?

Porto, 12/13 Março, 1998, dias do Beato António, santo preto e de Stª Eufrásia, virgem.

 

2

A mulher e o preto bis ou

quem fala assim não é gago

 

 

 

A Sr.ª procuradora Dr.ª WWW deu a conhecer as razões pelas quais o incómodo caso do empréstimo de carro oficial feito por uma Secretária de Estado ao falecido cidadão “Xico Tchan” foi arquivado. Contas feitas e resumindo, o utente abusivo da viatura morreu (assassinado num casino clandestino, ouso acrescentar), há insuficiência de indiciação da prática do crime de peculato, e não parece haver crime de furto visto que quem poderia apresentar queixa  (o Instituto das Comunicações de Portugal e a senhora Secretária de Estado que o tutela...) entendeu não a dever fazer.

 

Lamentando embora o passamento do cidadão Francisco  ocorre dizer que nem por isso se deve fazer vista grossa a três ou quatro factos. A saber:

 o cidadão em questão usou, e por várias vezes, a viatura sem  conhecimento prévio e autorização da senhora governante;

as viaturas cedidas ao senhores membros do governo não devem, em boa doutrina, ser por estes emprestadas a criaturas que, apenas conhecem e  que, para as usar, carecem de qualquer legitimidade;

invocar para um destes usos, previamente conhecido ou não, a doença de uma irmã doente do condutor abusivo é, como desculpa, de bradar aos céus;

responder a um inquérito da PGA que, se não foi pedido antes foi calorosamente aceite para calar a indignação cidadã, com o atraso de um mês e dez dias mereceria, só de per si, um longo rosário de considerações pouco abonatórias. É que foi a senhora Secretária de Estado que, envolta, numa espessa túnica de virtudes cívicas e republicanas, entendeu dizer que queria e merecia justiça rápida. Se no despacho diário do seu gabinete usa desta mesma presteza, estamos governados.

 

Convém recordar que ninguém está interessado em punir a Sr.ª D. XXX por questões que só dizem respeito à sua vida privada. A Portugal ainda não chegou o zelo persecutório do senhor Kenneth Starr !

 

Todavia, já todos nós, cidadãos entendemos que os bens do Estado têm de ser usados segundo a letra e o espírito da lei. Se porventura a senhora governante não tivesse tido a arrogância de declarar que era perseguida por ser mulher e por o seu amigo ser preto talvez as pessoas achassem suficiente  esclarecer  a senhora dos limites objectivos do poder com que foi investida.

 

Mas isso não ocorreu e as sucessivas declarações feitas pela Secretária de Estado e pelo Instituto das Comunicações de Portugal (que dela depende...) foram de uma inabilidade patética, de uma insensatez parola tais que exigiam um desenlace menos tristonho para este processo.

 

Os cidadãos que se deram ao trabalho de ler os jornais diários de 16 de Setembro terão tido sérias dificuldades em entender que o arquivamento jurídico do processo parece significar o arquivamento total deste caso caricato.

 

É que, por vezes, o direito serve mal a justiça e pior a política. E é de política que se tratava e que, daqui em diante se tratará: só que, desta vez, será a baixa política que vingará. Com descrédito e desprestígio para todos...

 

16.9.98, dia de S Cipriano bispo

 

* na vinheta: um "csal romântico" à conquista da América, numa série da Netflix que parece ter muita procura