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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

27
Jan20

"Football Leaks" vs. "Luanda Leaks"

José Carlos Pereira

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Todos temos visto a catadupa de acontecimentos que se sucederam à revelação dos "Luanda Leaks", seja em Portugal ou em Angola. Pois bem, sabe-se agora que foi Rui Pinto que disponibilizou à plataforma internacional de jornalistas os 715.000 documentos que estiveram na origem das investigações tão seguidas e aplaudidas.

O mesmo Rui Pinto que está preso em Portugal por causa dos "Football Leaks", que já provocaram consequências em alguns países, sobretudo por razões de natureza fiscal, mas que em Portugal continuam a ver muito limitadas as consequências desportivas e judiciais das suas revelações. Em Portugal, o foco é sobretudo sobre o mensageiro e não tanto sobre a mensagem. Percebe-se...

22
Jan20

Luanda Leaks

José Carlos Pereira

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Sucedem-se nos últimos dias as revelações sobre a acumulação de riqueza de Isabel dos Santos a partir da subtracção de avultadas quantias do erário público angolano. É caso para dizer que o jornalismo se prestigia quando investiga casos de grande relevo público e acaba a pressionar reguladores e elites empresariais e políticas, que agora se deparam com o que sempre esteve à vista de todos.

Muitos cooperaram com o regime angolano e com a nomenclatura Dos Santos, fechando os olhos ao que era evidente. Um dos casos paradigmáticos foi a prontidão e a lisonja com que a Câmara Municipal do Porto entregou a medalha de ouro da cidade a Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, em troca de uma exposição de arte contemporânea africana e da prometida instalação de uma fundação...de que agora se perdeu o rasto.

02
Nov18

A "première" de Jair Bolsonaro

José Carlos Pereira

primeira entrevista (à televisão da Igreja Universal do Reino de Deus) do presidente brasileiro eleito Jair Bolsonaro não esteve nada mal. Acesso generalizado às armas, vistas como garantia de liberdade pessoal, aos maiores de 21 anos. Maioridade penal aos 14 anos. Deslumbramento com Donald Trump. Ditadura militar? Nunca existiu.

12
Out18

"Um canalha à porta do Planalto"

José Carlos Pereira

Francisco Assis escreveu um texto incisivo no "Público" sobre as eleições presidenciais no Brasil, no qual retrata Bolsonaro como um “canalha em estado puro”, defende que não há forma de equiparar Haddad a Bolsonaro e, como corolário, desafia o antigo presidente Fernando Henrique Cardoso a vir apoiar Haddad, de modo a fazer justiça ao seu papel histórico.

Uma tomada de posição firme e corajosa de um eurodeputado que tem tido especiais responsabilidades na relação do Parlamento Europeu com a América Latina. Com atitudes como esta, posso reafirmar o orgulho de ter sido mandatário em Marco de Canaveses da lista que Francisco Assis liderou ao Parlamento Europeu em 2014.

06
Dez16

O pós-referendo em Itália

José Carlos Pereira

Os mercados não penalizaram tanto como era esperado o resultado do referendo em Itália. Ainda bem. Espera-se agora que os principais responsáveis italianos, das mais importantes instituições aos partidos políticos, saibam reagir convenientemente. Um país com uma dívida pública das mais elevadas da zona euro e com problemas graves no seu sistema financeiro precisa de tudo menos de cair nas mãos de políticos populistas e extremistas, que cavalgam a vaga anti-UE e anti-sistema. E os parceiros da UE têm de agir com moderação, compreendendo que de nada adianta encostar os italianos à parede.

16
Nov16

As reflexões de Jorge Sampaio e Augusto Santos Silva

José Carlos Pereira

Nestes tempos algo incertos que se seguem ao choque provocado pelo resultado das eleições nos EUA, os textos publicados no jornal "Público" por Jorge SampaioAugusto Santos Silva ajudam-nos a reflectir sobre o futuro próximo e a maneira de defender a União Europeia e as democracias liberais e sociais construídas no pós-guerra.

09
Nov16

O elefante (republicano) destruiu a sala

José Carlos Pereira

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vitória de Donald Trump surpreendeu o mundo inteiro, já que poucos consideravam verosímil que o magnata do imobiliário conseguisse ser o candidato nomeado pelos republicanos, primeiro, e vencer as eleições presidenciais depois, mesmo sem o apoio de algumas elites do Partido Republicano.

Com efeito, acabou por impor-se mais alto a verborreia de Donald Trump, as setas apontadas contra tudo e contra todos – os imigrantes, os estrangeiros, as minorias, os políticos, as políticas saúde, com o "Obamacare" à cabeça, o ambiente, os tratados internacionais – apostando numa América voltada para dentro, para os seus, à procura de assim recuperar o fulgor económico e industrial de tempos passados. Um discurso que tem mais de extremista do que de conservador e que já víramos medrar em outras paragens, particularmente na Europa. Não foi por acaso que a Aurora Dourada, a Frente Nacional e outros partidos radicais do espaço europeu logo se apressaram a congratular-se com a vitória de Trump e a identificar-se com as suas ideias.

Quem pôde acompanhar os relatos oriundos dos EUA via como uma parte significativa do país se identificava com o discurso de Trump, do mesmo modo que nunca se sentiu uma adesão significativa à campanha de Hillary Clinton. A experiente candidata democrata não foi capaz de descolar da imagem de lídima representante do status quo político, dos grandes interesses, da elite que governa a pensar mais em si própria do que nos cidadãos. Os incidentes com o uso do seu email pessoal enquanto secretária de Estado só vieram agravar a desconfiança já latente em muitos norte-americanos.

As promessas de Donald Trump, com mais indústria e mais emprego à cabeça, cativaram o eleitorado menos qualificado e com menos poder económico, que normalmente vota nos democratas, o que acabou por ter um peso determinante no desfecho eleitoral, designadamente na designada cintura industrial. Mais do que o exemplo de empresário de Donald Trump, implicado em vários negócios duvidosos, fuga aos impostos e outras trapalhadas, o que terá motivado muitos americanos foi o seu tom desafiador perante os privilegiados do meio político e financeiro e a promessa de retoma económica. Que, pelo caminho, Trump pretenda descer abruptamente os impostos, com o consequente recuo dos serviços públicos prestados aos mais débeis, é algo que esses apoiantes só sentirão na pele mais tarde.

O que será a presidência de Donald Trump? As suas promessas serão para cumprir? Creio que neste momento ninguém estará em condições de prognosticar. Continuará o presidente eleito a ser capaz de submeter o Partido Republicano aos seus propósitos ou, pelo contrário será a máquina republicana, que contará com a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes, a tomar os destinos da Casa Branca e da acção legislativa e executiva? Algum domínio sobre a “espontaneidade” de Donald Trump não traria mal nenhum…

06
Out16

António Guterres na ONU

José Carlos Pereira

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 O Conselho de Segurança da ONU aprovou hoje, por aclamação, a indicação do nome de António Guterres para secretário-geral da organização. A sua eleição pela Assembleia Geral da ONU deverá ocorrer na próxima semana. Caminha assim para o fim um longo processo, de inédita transparência, que António Guterres liderou em todas as votações intercalares. Os países que integram o Conselho de Segurança concluíram que o curriculum e as provas dadas pelo antigo primeiro-ministro português faziam dele o candidato mais bem preparado para a função.

É certamente a vitória dos enormes méritos pessoais de António Guterres, que tirou partido da projecção internacional que alcançou ao longo dos anos, como primeiro-ministro e presidente da Internacional Socialista, e do seu desempenho no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), mas também a vitória da diplomacia portuguesa, liderada pelo ministro Augusto Santos Silva. As jogadas de bastidores mais ou menos evidentes que uniram certa direita europeia e norte-americana, bem como algumas declarações menos felizes do actual secretário-geral, não foram suficientes para o derrotar.

Ver António Guterres como secretário-geral da ONU é motivo de orgulho para a maioria dos portugueses e particularmente para aqueles que se habituaram a constatar as suas invulgares capacidades políticas. Tive oportunidade de testemunhar, por diversas ocasiões, o enorme apreço que o então primeiro-ministro gerava mesmo entre aqueles que não eram da sua família política. A presidência portuguesa da União Europeia em 2000 foi um caso paradigmático. Os seus governos ficaram marcados pela sensibilidade social que caracteriza António Guterres desde a sua juventude. A educação, a cultura, a ciência, as questões sociais, as pessoas em suma, foram uma prioridade dos seus executivos. A mesma prioridade que o conduziu no ACNUR e que o guiará na ONU.

O homem que levou Portugal à moeda única não conseguiu alcançar a maioria absoluta em 1999, o que o marcou profundamente, permitindo depois que o seu segundo governo minoritário acabasse vítima do final antecipado de um ciclo político. Agora na ONU, pelo contrário, é um novo ciclo estimulante que se inicia, os seus desafios serão à escala global, as suas capacidades de diálogo e de persuasão serão fundamentais para gerir os equilíbrios entre os principais contribuintes da ONU e intervir nos conflitos internacionais em aberto, sem perder de vista a necessidade de reformar a organização e a sua capacidade de actuação. Acredito convictamente que António Guterres será um grande secretário-geral da ONU.

31
Mar16

A justiça que não se faz (por cá e por lá)

José Carlos Pereira

Decidi há muito não me pronunciar sobre o que vem a público da investigação que envolve o antigo primeiro-ministro, José Sócrates. Prefiro esperar para ver em que resulta essa investigação e os dados que vão, presumivelmente, suportar a acusação. Isso não impede, contudo, que vá fazendo os meus juízos de valor sobre o trabalho desenvolvido pela investigação, os respectivos timings, as fugas de informação e a cruzada de singulares assistentes do processo.

Soube-se entretanto que a investigação reclamou um prazo de mais meio ano para formular a acusação a José Sócrates. Prazo esse que poderá, eventualmente, vir a ser prorrogado em caso de justificada necessidade. Facilmente se percebe que uma investigação que se prolonga por mais de três anos nunca fará justiça em tempo útil a nenhum cidadão, muito menos a alguém que exerceu funções tão relevantes como as de primeiro-ministro.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil está em chamas, com o derrube da presidente Dilma Rousseff na mira de vários sectores políticos e económicos. A recente divulgação das escutas telefónicas envolvendo a presidente e o ex-presidente Lula da Silva foi um dos elementos marcantes do processo em torno do impeachment da presidente, da investigação sobre Lula da Silva e da sua nomeação como ministro.

Perante a repercussão pública dessas escutas telefónicas, o juiz que as revelou veio agora apresentar um pedido de desculpas (!) ao Supremo Tribunal brasileiro. Diz o juiz que não teve motivações político-partidárias. Pois não. Isto depois de já termos sabido que o juiz que suspendeu a tomada de posse de Lula como ministro foi um participante activo nas manifestações políticas contra a presidente Dilma Rousseff…

Cada país tem o seu sistema e as suas regras. Como cada país tem o seu povo e os seus políticos. Mas, cá como lá, é evidente que o comportamento da justiça deixa muito a desejar com estes exemplos e esta conduta.