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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

02
Nov18

A "première" de Jair Bolsonaro

José Carlos Pereira

primeira entrevista (à televisão da Igreja Universal do Reino de Deus) do presidente brasileiro eleito Jair Bolsonaro não esteve nada mal. Acesso generalizado às armas, vistas como garantia de liberdade pessoal, aos maiores de 21 anos. Maioridade penal aos 14 anos. Deslumbramento com Donald Trump. Ditadura militar? Nunca existiu.

12
Out18

"Um canalha à porta do Planalto"

José Carlos Pereira

Francisco Assis escreveu um texto incisivo no "Público" sobre as eleições presidenciais no Brasil, no qual retrata Bolsonaro como um “canalha em estado puro”, defende que não há forma de equiparar Haddad a Bolsonaro e, como corolário, desafia o antigo presidente Fernando Henrique Cardoso a vir apoiar Haddad, de modo a fazer justiça ao seu papel histórico.

Uma tomada de posição firme e corajosa de um eurodeputado que tem tido especiais responsabilidades na relação do Parlamento Europeu com a América Latina. Com atitudes como esta, posso reafirmar o orgulho de ter sido mandatário em Marco de Canaveses da lista que Francisco Assis liderou ao Parlamento Europeu em 2014.

06
Dez16

O pós-referendo em Itália

José Carlos Pereira

Os mercados não penalizaram tanto como era esperado o resultado do referendo em Itália. Ainda bem. Espera-se agora que os principais responsáveis italianos, das mais importantes instituições aos partidos políticos, saibam reagir convenientemente. Um país com uma dívida pública das mais elevadas da zona euro e com problemas graves no seu sistema financeiro precisa de tudo menos de cair nas mãos de políticos populistas e extremistas, que cavalgam a vaga anti-UE e anti-sistema. E os parceiros da UE têm de agir com moderação, compreendendo que de nada adianta encostar os italianos à parede.

16
Nov16

As reflexões de Jorge Sampaio e Augusto Santos Silva

José Carlos Pereira

Nestes tempos algo incertos que se seguem ao choque provocado pelo resultado das eleições nos EUA, os textos publicados no jornal "Público" por Jorge SampaioAugusto Santos Silva ajudam-nos a reflectir sobre o futuro próximo e a maneira de defender a União Europeia e as democracias liberais e sociais construídas no pós-guerra.

09
Nov16

O elefante (republicano) destruiu a sala

José Carlos Pereira

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vitória de Donald Trump surpreendeu o mundo inteiro, já que poucos consideravam verosímil que o magnata do imobiliário conseguisse ser o candidato nomeado pelos republicanos, primeiro, e vencer as eleições presidenciais depois, mesmo sem o apoio de algumas elites do Partido Republicano.

Com efeito, acabou por impor-se mais alto a verborreia de Donald Trump, as setas apontadas contra tudo e contra todos – os imigrantes, os estrangeiros, as minorias, os políticos, as políticas saúde, com o "Obamacare" à cabeça, o ambiente, os tratados internacionais – apostando numa América voltada para dentro, para os seus, à procura de assim recuperar o fulgor económico e industrial de tempos passados. Um discurso que tem mais de extremista do que de conservador e que já víramos medrar em outras paragens, particularmente na Europa. Não foi por acaso que a Aurora Dourada, a Frente Nacional e outros partidos radicais do espaço europeu logo se apressaram a congratular-se com a vitória de Trump e a identificar-se com as suas ideias.

Quem pôde acompanhar os relatos oriundos dos EUA via como uma parte significativa do país se identificava com o discurso de Trump, do mesmo modo que nunca se sentiu uma adesão significativa à campanha de Hillary Clinton. A experiente candidata democrata não foi capaz de descolar da imagem de lídima representante do status quo político, dos grandes interesses, da elite que governa a pensar mais em si própria do que nos cidadãos. Os incidentes com o uso do seu email pessoal enquanto secretária de Estado só vieram agravar a desconfiança já latente em muitos norte-americanos.

As promessas de Donald Trump, com mais indústria e mais emprego à cabeça, cativaram o eleitorado menos qualificado e com menos poder económico, que normalmente vota nos democratas, o que acabou por ter um peso determinante no desfecho eleitoral, designadamente na designada cintura industrial. Mais do que o exemplo de empresário de Donald Trump, implicado em vários negócios duvidosos, fuga aos impostos e outras trapalhadas, o que terá motivado muitos americanos foi o seu tom desafiador perante os privilegiados do meio político e financeiro e a promessa de retoma económica. Que, pelo caminho, Trump pretenda descer abruptamente os impostos, com o consequente recuo dos serviços públicos prestados aos mais débeis, é algo que esses apoiantes só sentirão na pele mais tarde.

O que será a presidência de Donald Trump? As suas promessas serão para cumprir? Creio que neste momento ninguém estará em condições de prognosticar. Continuará o presidente eleito a ser capaz de submeter o Partido Republicano aos seus propósitos ou, pelo contrário será a máquina republicana, que contará com a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes, a tomar os destinos da Casa Branca e da acção legislativa e executiva? Algum domínio sobre a “espontaneidade” de Donald Trump não traria mal nenhum…

06
Out16

António Guterres na ONU

José Carlos Pereira

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 O Conselho de Segurança da ONU aprovou hoje, por aclamação, a indicação do nome de António Guterres para secretário-geral da organização. A sua eleição pela Assembleia Geral da ONU deverá ocorrer na próxima semana. Caminha assim para o fim um longo processo, de inédita transparência, que António Guterres liderou em todas as votações intercalares. Os países que integram o Conselho de Segurança concluíram que o curriculum e as provas dadas pelo antigo primeiro-ministro português faziam dele o candidato mais bem preparado para a função.

É certamente a vitória dos enormes méritos pessoais de António Guterres, que tirou partido da projecção internacional que alcançou ao longo dos anos, como primeiro-ministro e presidente da Internacional Socialista, e do seu desempenho no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), mas também a vitória da diplomacia portuguesa, liderada pelo ministro Augusto Santos Silva. As jogadas de bastidores mais ou menos evidentes que uniram certa direita europeia e norte-americana, bem como algumas declarações menos felizes do actual secretário-geral, não foram suficientes para o derrotar.

Ver António Guterres como secretário-geral da ONU é motivo de orgulho para a maioria dos portugueses e particularmente para aqueles que se habituaram a constatar as suas invulgares capacidades políticas. Tive oportunidade de testemunhar, por diversas ocasiões, o enorme apreço que o então primeiro-ministro gerava mesmo entre aqueles que não eram da sua família política. A presidência portuguesa da União Europeia em 2000 foi um caso paradigmático. Os seus governos ficaram marcados pela sensibilidade social que caracteriza António Guterres desde a sua juventude. A educação, a cultura, a ciência, as questões sociais, as pessoas em suma, foram uma prioridade dos seus executivos. A mesma prioridade que o conduziu no ACNUR e que o guiará na ONU.

O homem que levou Portugal à moeda única não conseguiu alcançar a maioria absoluta em 1999, o que o marcou profundamente, permitindo depois que o seu segundo governo minoritário acabasse vítima do final antecipado de um ciclo político. Agora na ONU, pelo contrário, é um novo ciclo estimulante que se inicia, os seus desafios serão à escala global, as suas capacidades de diálogo e de persuasão serão fundamentais para gerir os equilíbrios entre os principais contribuintes da ONU e intervir nos conflitos internacionais em aberto, sem perder de vista a necessidade de reformar a organização e a sua capacidade de actuação. Acredito convictamente que António Guterres será um grande secretário-geral da ONU.

31
Mar16

A justiça que não se faz (por cá e por lá)

José Carlos Pereira

Decidi há muito não me pronunciar sobre o que vem a público da investigação que envolve o antigo primeiro-ministro, José Sócrates. Prefiro esperar para ver em que resulta essa investigação e os dados que vão, presumivelmente, suportar a acusação. Isso não impede, contudo, que vá fazendo os meus juízos de valor sobre o trabalho desenvolvido pela investigação, os respectivos timings, as fugas de informação e a cruzada de singulares assistentes do processo.

Soube-se entretanto que a investigação reclamou um prazo de mais meio ano para formular a acusação a José Sócrates. Prazo esse que poderá, eventualmente, vir a ser prorrogado em caso de justificada necessidade. Facilmente se percebe que uma investigação que se prolonga por mais de três anos nunca fará justiça em tempo útil a nenhum cidadão, muito menos a alguém que exerceu funções tão relevantes como as de primeiro-ministro.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil está em chamas, com o derrube da presidente Dilma Rousseff na mira de vários sectores políticos e económicos. A recente divulgação das escutas telefónicas envolvendo a presidente e o ex-presidente Lula da Silva foi um dos elementos marcantes do processo em torno do impeachment da presidente, da investigação sobre Lula da Silva e da sua nomeação como ministro.

Perante a repercussão pública dessas escutas telefónicas, o juiz que as revelou veio agora apresentar um pedido de desculpas (!) ao Supremo Tribunal brasileiro. Diz o juiz que não teve motivações político-partidárias. Pois não. Isto depois de já termos sabido que o juiz que suspendeu a tomada de posse de Lula como ministro foi um participante activo nas manifestações políticas contra a presidente Dilma Rousseff…

Cada país tem o seu sistema e as suas regras. Como cada país tem o seu povo e os seus políticos. Mas, cá como lá, é evidente que o comportamento da justiça deixa muito a desejar com estes exemplos e esta conduta.

15
Dez15

O combate à Frente Nacional

José Carlos Pereira

Os resultados da segunda volta das eleições regionais em França acabaram por travar a ascensão da Frente Nacional (FN), impedindo o partido de extrema-direita de chegar ao poder mesmo nas regiões em que tinha conquistado uma fortíssima votação na primeira volta, com mais de 40% dos votos, e onde se apresentavam a líder Marine Le Pen e a sobrinha Marion Maréchal-Le Pen. Uma maior participação eleitoral e o voto útil, sobretudo dos socialistas, acabaram por dar uma boa notícia a todos os democratas na noite de domingo. Destaca-se aqui a decisão corajosa do Partido Socialista Francês, que preferiu retirar-se da eleição em quase todos os locais em que tinha sido a terceira força política, prescindindo de ter representantes em alguns parlamentos regionais, em benefício do voto útil na direita republicana.
A votação conseguida pela FN, com mais de 6,8 milhões de eleitores, fez triplicar o número de deputados nos parlamentos regionais e disseminar a sua presença pelo país. É uma presença que está para durar no meio político francês e que, aliás, se tem vindo a consolidar com a liderança de Marine Le Pen, que soube amaciar o discurso político em relação ao que praticava o seu pai. A FN quer ganhar legitimidade democrática e os tempos que correm estão propícios para a sua acção: a crise económica e social; o desemprego; a conflitualidade social; os refugiados; os atentados terroristas; a falta de liderança firme em França e na Europa. Este contexto favorece um discurso nacionalista, dirigido aos que perdem o pouco que têm e não vêem os poderes públicos resolverem os seus problemas e os das suas comunidades. Aliás, Sarkozy acabou por vencer as eleições porque se aproximou bastante deste discurso populista.
Os partidos ditos republicanos, com as lideranças fragilizadas de Sarkozy e Hollande e a reputação muito abalada, devem aprender com os erros e colocar os seus olhos mais adiante, pois Marine Le Pen já tem o seu foco nas presidenciais de 2017. Só a regeneração desses partidos e das suas lideranças, centrando-se nos problemas concretos dos franceses e recuperando o papel central que a França já teve na implementação de políticas económicas e sociais na Europa, serve o propósito de travar a ascensão da Frente Nacional. É o que se exige dessas forças políticas no país da liberdade, igualdade e fraternidade.

15
Set15

Nova liderança nos trabalhistas ingleses

José Carlos Pereira

A Europa prosseguiu nos últimos anos uma caminhada asssente numa política de sentido único, sem ponderar alternativas. O controlo férreo da dívida e do défice dos estados membros, a austeridade sem freio, com o reverso do desemprego e da degradação dos serviços públicos, entre outros aspectos fulcrais para a vida das pessoas, fez esquecer que a sociedade não é monolítica e acaba por encontrar formas de manifestar o seu "desvio à norma". Em termos políticos, já tivemos a emergência do Syriza, na Grécia, do Podemos e do Ciudadanos, em Espanha, e de outras forças mais extremistas em vários países.
eleição no passado fim de semana de Jeremy Corbyn para a liderança dos trabalhistas ingleses, com o programa mais à esquerda que este partido conheceu nas últimas décadas, é só mais um sinal de que os cidadãos eleitores estão fartos de que lhes ofereçam mais do mesmo e procuram vias alternativas, que assumam as rupturas no discurso e na acção.

03
Set15

Europa?

José Carlos Pereira

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As imagens chocantes do menino sírio que deu à costa numa praia da Turquia, e que ontem dominaram os meios de comunicação e as redes sociais, colocam-nos, a nós europeus, perante um imperativo: o de não poder desviar os olhos de uma realidade que nos bate diariamente à porta. Estiveram bem os jornais, como o ”Público”, que não hesitaram em trazer as fotografias contundentes e impressivas para as primeiras páginas.
Acostumados que estamos a ver imagens de migrantes que atravessam o Mediterrâneo e a Europa à procura de um abrigo seguro, temos dificuldade em alcançar os muitos milhares que ficam pelo caminho, mortos. A imagem do pequeno Aylan traz-nos de volta a essa realidade, da pior maneira possível.
Seguir-se-ão agora as cadeias de solidariedade habituais nestas situações, mas a família do pequeno Aylan e as de muitos outros milhares de crianças nunca se poderão reagrupar num local onde possam ambicionar ter paz, trabalho, casa, enfim, uma vida com um mínimo de dignidade e de segurança.
A Europa reagiu tarde e mal a esta vaga de migrantes, assim como tinha gerido mal a sua intervenção política e militar (e económica) nos países de onde provêm estes milhares de refugiados. Angela Merkel, como escrevi há dias, tem surpreendido positivamente ao liderar os esforços para colocar de pé uma resposta europeia, dando mostras de valores e de uma sensibilidade social ímpar entre os líderes europeus. Resquícios do que viveu e sentiu na sua Alemanha de Leste?
Os chefes de estado e de governo europeus devem, por ora, dar um pouco de descanso às matérias do défice e da dívida, concentrando os seus esforços em tentar estancar a emergência social e humanitária que rebentou às portas da Europa. Do investimento e das políticas a seguir em África e no Médio Oriente ao acolhimento condigno e solidário dos refugiados.