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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões à mesa

José Carlos Pereira, 15.06.22

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Após um longo interregno provocado pela pandemia, os editores do Incursões voltaram a encontrar-se à mesa, em Matosinhos, para um dos seus habituais convívios. A saúde e a covid-19 foram precisamente os primeiros motivos de conversa, entre garfadas de peixe (ou uma bela feijoada de legumes...), mas daí a pouco já se debatia a guerra na Ucrânia, a crise nas urgências hospitalares, as tiradas de Marcelo Rebelo de Sousa e a governação da cidade do Porto, de Rui Rio a Rui Moreira, entre outros temas.

Os incursionistas mostraram que continuam em forma e que é sempre com especial prazer que se encontram à mesa para conversarem sobre Portugal e o mundo.

Cavaco on the rocks

José Carlos Pereira, 04.06.22

Cavaco Silva regressou das trevas para acertar contas...com todos. Como habitualmente, envolto num registo de auto-elogio ao que fez há mais de 30 anos. E pronto a destratar o ainda presidente do PSD e a ocupar todo o palco na semana em que o partido elegeu Luís Montenegro como novo líder.

Diz-me, espelho meu, há alguém melhor que eu?!

Guerra e paz na Ucrânia

José Carlos Pereira, 01.06.22

Na edição online do jornal "A Verdade" , publiquei um texto de opinião acerca da situação de guerra na Ucrânia:

"A guerra na Ucrânia tem já mais de três meses e estamos longe de vislumbrar o fim dos combates. A Rússia acreditava que alcançaria com relativa facilidade os seus objectivos políticos e militares, que iam muito para lá da denominada região do Donbas, mas não contava certamente com a reacção enérgica dos ucranianos e com o apoio que os países ocidentais prontamente prestaram ao país agredido.

O exemplo de coragem e determinação que chegava da Ucrânia e as imagens devastadoras de morte e destruição provocaram um clamor emocional, fazendo com que as opiniões públicas pressionassem os governos e ajudassem a ultrapassar as reticências de alguns países no apoio financeiro e militar à Ucrânia.

Num curto período de tempo, Putin fez mais pelo reforço da NATO e pela escalada do investimento em meios de defesa dos países que integram a Aliança Atlântica do que anos e anos de discussão em torno dos fins e limites da NATO. Entre outros casos emblemáticos, vimos a Alemanha decidir reforçar o seu orçamento de defesa como nunca o fizera desde a II Guerra Mundial e assistimos aos pedidos urgentes de adesão à NATO de Finlândia e Suécia.

Nesta guerra não há lugar para meias palavras: a Rússia invadiu um estado soberano, matou, destruiu e pretende colocar sob sua jurisdição boa parte do território da Ucrânia, oito anos depois de já ter ocupado a península da Crimeia. Os que vêm dizendo que a NATO e os EUA contribuíram para esta situação com os seus avanços na Europa de Leste esquecem que nada justifica a invasão de um país por parte de outro. De resto, os acordos que vários países fizeram com a NATO ocorreram por livre determinação desses Estados, que assim se julgavam mais protegidos. A invasão perpetrada pela Rússia na Ucrânia só lhes veio dar razão.

Aqui chegados, o que fazer para encontrar a paz? A necessidade de encontrar resposta para esta questão começa a colocar-se com acuidade, uma vez que a guerra não pode prolongar-se indefinidamente. Seja pelas populações e pelos países envolvidos, seja pelos efeitos dramáticos que isso poderá provocar em vários cantos do globo, atendendo ao facto de Rússia e Ucrânia serem responsáveis pelo abastecimento de cereais essenciais a boa parte dos países menos desenvolvidos, particularmente em África.

O caminho da paz não é fácil de delinear e ninguém parece ter soluções capazes de sentar as partes à mesa. Aqueles que, por simpatia ou cinismo político, defendem que a Rússia terá de ganhar algo (Donbas?) para acabar com a guerra e que não pode sair humilhada parecem olvidar que isso seria beneficiar o infractor. Nesse caso, qualquer país que tivesse diferendos territoriais com outro ganharia um alento suplementar para novas investidas militares. Na Europa, na Ásia, em África…

Por outro lado, querer apoiar as posições da Ucrânia ao ponto de insistir no total restabelecimento do território soberano de 2013, com a reintegração da Crimeia, poderia até ser a solução mais justa, mas perpetuaria a guerra por quanto tempo? Estamos preparados para isso? O poderio militar da Rússia, embora mais frágil do que se imaginava, e o apoio ocidental à Ucrânia arrastariam o quadro actual muito para lá do que seria suportável pela comunidade internacional. 

Se fosse possível voltar atrás, a 2013, e realizar referendos de autodeterminação nas regiões ucranianas do Donbas e na Crimeia, poder-se-ia avaliar a vontade das populações e negociar politicamente um acordo entre a Ucrânia e a Rússia, atendendo aos convénios anteriormente estabelecidos e às ligações seculares entre ambos os países. Hoje, isso não é possível, desde logo por causa da “russificação” levada a cabo nesses territórios através de migrações forçadas de milhões de russos.

Quando um dos contendores da guerra revela um comportamento imprevisível e violador de todos os princípios do direito internacional, como sucede com Putin, é difícil esperar que o país vítima de ataque e as próprias organizações internacionais, como a ONU, consigam olhar para ele como um parceiro fiável e de confiança. Como também não se vislumbra que surja na Rússia um movimento capaz de derrotar e derrubar Putin, vejo com muito cepticismo a possibilidade de se poder encontrar uma via para a paz a breve prazo.

O que sei é que a solução não passará com certeza pelo envolvimento directo das forças da NATO no terreno, como alguns preconizam, pois isso significaria uma escalada no conflito que poderia levar a um confronto de proporções inauditas.

O tempo acabará, fatalmente, por gerar um ponto final para esta guerra hedionda. Infelizmente, já com um custo elevadíssimo de vítimas e cidades destruídas. Acredito que as consequências materiais do esforço de guerra vão inevitavelmente debilitar a Rússia, fragilizando a sua posição negocial, mas para isso convém que os países europeus se deixem de tibiezas, reforcem as sanções e diminuam o mais rápido possível a sua dependência energética face àquele país, deixando de alimentar os cofres da Rússia em pleno período de guerra. O acordo alcançado no Conselho Europeu desta semana foi mais um passo positivo nesse sentido. "

O Incursões faz 18 anos!

José Carlos Pereira, 18.05.22

O Incursões completa hoje 18 anos de vida, sendo a ocasião apropriada para evocar os colaboradores que contribuíram com os seus textos e reflexões desde 2004 e para agradecer a todos os nossos leitores, que totalizaram perto de 35.000 visualizações do blogue no último ano.

 

A título de recordação, fica aqui a primeira publicação do Incursões, efectuada por l.c., e que consistiu no belo poema "O Outro Nome da Terra", de Eugénio de Andrade:

"O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul."

O aborto nos EUA e...no Portugal dos anos 80

José Carlos Pereira, 10.05.22
A polémica gerada nos EUA, com a previsível (e retrógada) deliberação do Supremo Tribunal de anular a decisão que reconheceu, em 1973, o direito ao aborto, fez-me recuar até ao Portugal dos anos 80. De facto, só em 1984, com um governo suportado pela maioria PS/PSD, é que foi possível viabilizar a interrupção voluntária da gravidez (IVG), designadamente no caso de haver perigo de vida para a mulher, risco de lesão grave para a saúde da grávida, malformação do feto ou então em resultado de violação.

Foram tempos de discussão muito acesa entre defensores e oponentes da legislação que acabou por permitir a IVG. Lembro-me particularmente de uma sessão realizada na sede do CDS de Marco de Canaveses, para o qual fui convidado pelo meu saudoso amigo J.M. Coutinho Ribeiro, na qual me bati de forma acérrima em defesa da IVG contra Teresa da Costa Macedo, que tinha sido secretária de Estado da Família nos governos da AD e era uma das principais opositoras públicas da IVG. Aos 18 anos, somos donos do mundo e nada pára as nossas ideias...

Reeleito Reitor da Universidade do Porto

José Carlos Pereira, 06.05.22

O Reitor da Universidade do Porto foi hoje reeleito com...13 votos. Não creio que o modelo de eleição dos reitores universitários, restrito ao âmbito dos respectivos Conselhos Gerais, contribua para uma representatividade plena da academia e para a afirmação democrática de um cargo tão importante para a região e para o país.

A vitória de Macron e o os sinais que ficam

José Carlos Pereira, 11.04.22

As eleições presidenciais francesas têm sido terreno privilegiado, há muitos anos, para testar a evolução da extrema-direita na Europa e num dos seus países mais relevantes. Emmanuel Macron venceu a primeira volta de ontem e, tudo o indica, reunirá a maioria dos votos na segunda volta, daqui a duas semanas. Contudo, Marine Le Pen e o conjunto da extrema-direita cresceram em relação à primeira volta das anteriores eleições e isso não pode deixar de ser levado em conta nestas duas semanas e nos tempos que aí vêm, em França e não só. Sob pena de os franceses e os europeus se arrependerem mais tarde...

As balizas de Augusto Santos Silva no Parlamento

José Carlos Pereira, 30.03.22

 

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Augusto Santos Silva foi ontem eleito, com uma ampla maioria de apoio, como presidente da Assembleia da República. O seu excelente discurso no início do exercício do cargo foi uma bela amostra do que se pode esperar do seu mandato, traçando as balizas naquilo que entende dever ser o uso da palavra na casa da democracia.

Académico prestigiado, Augusto Santos Silva dedicou boa parte da vida à intervenção política e foi sendo requisitado pelos vários líderes do Partido Socialista para funções governativas de relevo. A sua eleição para segunda figura do Estado foi muito acertada e o significativo número de votos favoráveis que colheu em outras bancadas demonstra a forma como é reconhecido em diferentes quadrantes políticos.

Conheço Augusto Santos Silva há muitos anos, ainda ele não era figura pública, por via de amizades comuns, e retenho desde esses tempos o seu fino humor e a sua inteligência superior. Foi ao longo destes anos um dos mais bem preparados governantes portugueses e, estou certo, deixará uma marca indelével como presidente da Assembleia da República.

Jantar-debate sobre a guerra na Ucrânia

José Carlos Pereira, 27.03.22

Na noite da passada sexta-feira, participei em Matosinhos num jantar-debate muito interessante sobre a guerra na Ucrânia com a participação, entre outros, de actuais e antigos responsáveis políticos, a nível governamental e parlamentar, membros da Igreja, académicos, agentes do sector cultural, consultores, empresários e jornalistas.

Conversa fluida (atenta e preocupada) a partir do conhecimento de alguns dos presentes sobre aquela zona da Europa e as disputas geopolíticas que estiveram na origem da guerra.