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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

A natureza do Bloco de Esquerda

José Carlos Pereira, 26.10.20

Sem surpresa face às últimas proclamações, o Bloco decidiu votar contra a proposta de Orçamento do Estado na generalidade. Aqueles que, no seio do PS, almejam uma união de esforços e uma aproximação maior ao Bloco tiveram a demonstração de que este partido não se livra da fábula do escorpião. Está na sua natureza, como o demonstrou à saciedade em 2011.

A lição da direita espanhola

José Carlos Pereira, 26.10.20

Na passada semana, o Partido Popular espanhol, a principal força de direita do país vizinho, votou contra a moção de censura ao governo proposta pela extrema-direita, tendo o seu líder, Pablo Casado, condenado, num discurso contundente, a prática política, o "ódio, fúria e barulho" do Vox.

O Partido Popular sempre foi extremamente crítico dos executivos socialistas e do governo de Pedro Sánchez em particular, num tom a que não estamos habituados em Portugal, mas isso não o levou a ultrapassar neste caso a linha que separa as legítimas diferenças entre adversários em democracia das posições extremistas de tiranetes que apenas sabem alimentar campanhas de ódio, divisionismo e xenofobia. É certo que há coligações que juntam o PP e o Vox em algumas soluções de governo regional e municipal, mas isso não foi transposto para a realidade nacional.

Esta é uma lição para todos os que, em Portugal, vão defendendo que se deve trazer o Chega para as contas e os alinhamentos necessários ao regresso da direita ao poder. A situação criada nos Açores com o resultado eleitoral de ontem será o primeiro momento em que a direita democrática vai ter de decidir se vale tudo para atingir o poder, contando com o Chega para uma nova maioria parlamentar, ou se prefere manter o partido de extrema-direita isolado no seu reduto, agarrado a princípios e valores de cidadania que devem repugnar todos os democratas.

Nós, os políticos, a justiça e a Europa

José Carlos Pereira, 22.10.20

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Dados recentes do Eurobarómetro, publicados no "Expresso", revelam que os portugueses se posicionam acima da média da União Europeia (UE) quando chamados a avaliar a satisfação com a democracia no seu país (61% em Portugal para uma média na UE de 56%), a confiança no Governo (46% para 34%), no Parlamento (39% para 34%), nos partidos políticos (22% para 19%) e no Parlamento Europeu (60% para 54%)

Estes números podem surpreender aqueles que estão permanentemente a depreciar os nossos agentes políticos. Quando se constata nesta sondagem que a percepção global dos portugueses sobre o sistema político e os seus protagonistas acaba por ser bem mais positiva do que na média dos países da UE, isso quererá dizer que, afinal, não temos os piores políticos do mundo, como às vezes o populismo muito presente nas redes sociais parece fazer crer.

Coisa diferente sucede quando é avaliada a justiça e a corrupção, domínios em que nos encontramos pior que a média da UE. A independência da justiça tem uma avaliação de 42% em Portugal para 54% na UE e a disseminação da corrupção é percepcionada por 94% dos inquiridos em Portugal e por 71% na UE. Justiça e corrupção são temas intimamente relacionados - quem administra a justiça tem o dever de perseguir e condenar em tempo útil os agentes de corrupção activa e passiva.

Enquanto órgão de soberania, os Tribunais têm somado descrédito com alguns dos casos mais recentes, que envolveram actos de corrupção no seio da própria magistratura. Também a forma como a investigação do Ministério Público tem decorrido em alguns processos mais mediáticos, arrastando-se penosamente no tempo sem que as acusações sejam produzidas, acaba por reforçar a ideia de que não é feita justiça em tempo útil, minando os alicerces do regime democrático.

Se na política e na governação há sempre caminho a percorrer visando o reforço da ética e do compromisso com o mandato conferido pelos eleitores, na justiça exige-se que os seus agentes sejam exemplo permanente de determinação, acção, rigor e imparcialidade no serviço ao país.

A máscara e a StayWay Covid

José Carlos Pereira, 16.10.20
Os efeitos da pandemia provocada pela covid-19 agravam-se e não resta alternativa que não seja a implementação de novas medidas de convivência social. Não sendo um apaixonado pelo uso de máscara, que utilizava até aqui em espaços públicos fechados, reconheço que o seu uso ao ar livre em locais muito frequentados pode ajudar a travar a propagação da covid-19.

Já quanto à app StayAway Covid, que desde o início instalei no meu smartphone, confio plenamente no trabalho do INESC TEC, cujos projectos acompanho há muitos anos, bem como na confiabilidade e no potencial da aplicação. Aliás, acredito que muitos dos preocupados com a segurança e a privacidade da app, devem ter os seus smartphones com inúmeras aplicações de proveniência bem mais duvidosa...

Os impostos que Trump não paga

José Carlos Pereira, 28.09.20

"The New York Times" faz serviço público. A revelação das declarações fiscais de Donald Trump, que este sempre escondeu, pode ser a machadada que faltava para obstar à sua reeleição. Oxalá Joe Biden saiba tirar partido desta bomba na sua campanha, começando já pelo debate televisivo de amanhã.

Marcelo e os ares do Porto

José Carlos Pereira, 24.09.20

As vindas ao Porto obnubilam as ideias do Presidente da República. Há semanas, na Feira do Livro, aconselhou uma manifestante descontente com o Governo a votar nos partidos da oposição. Ontem, à porta da Torre dos Clérigos, ditou aos deputados como devem votar na aprovação do Orçamento do Estado, como se lhe coubesse comandar a Assembleia da República.

Marcelo Rebelo de Sousa parece saudoso dos tempos idos em que Belém centralizava os fios do poder...

O prólogo das presidenciais

José Carlos Pereira, 18.09.20

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As eleições presidenciais do início do próximo ano contam já com várias cartas lançadas, muito embora se continue a aguardar pelos trunfos que vão marcar o desfecho do "jogo": a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a sua recandidatura e a deliberação dos órgãos nacionais do PS acerca do envolvimento do partido nas eleições.

Não se esperam, a este propósito, quaisquer surpresas: Marcelo concorrerá ao segundo mandato e o PS, com maior ou menor consenso, decidirá não apoiar formalmente nenhum dos candidatos anunciados, como já sucedeu em 2016. Só não me refiro às decisões que PSD e CDS irão tomar sobre as presidenciais porque é inevitável que venham a conceder o seu apoio a Marcelo Rebelo de Sousa.

O actual presidente terá pela frente uma caminhada sem um adversário que verdadeiramente lhe dispute a vitória, cabendo-lhe enfrentar candidatos que, na sua maioria, procuram preencher e ampliar as respectivas trincheiras partidárias, como sucede com Marisa Matias, João Ferreira e André Ventura.

Já a socialista Ana Gomes tem um perfil diferente e poderá acabar por ser o principal challenger de Marcelo. O seu discurso tonitruante anti-corrupção, e quase anti-sistema, como se pode ver na forma como defende o denunciante Rui Pinto face ao sistema judicial, colhe simpatias populares em largos espectros. Na linha do que fizeram nas anteriores presidenciais Henrique Neto e Paulo de Morais, com quem tem afinidades, Ana Gomes assume um discurso populista, de verbo fácil e setas apontadas aos ditos poderosos e corruptos, pouco se importando em reunir meia dúzia de provas no sentido de incriminar este ou aquele suspeito.

A antiga eurodeputada reunirá apoios de várias frentes: de uma esquerda menos militante nos partidos do sistema, como se vê com a adesão de dirigentes do Livre, das franjas socialistas descontentes com António Costa e apreciadores das suas causas, num espectro que vai de Francisco Assis a Vera Jardim, e dos movimentos que se animam com as campanhas populistas das redes sociais.

As críticas que Ana Gomes lançou ao PS no momento da sua apresentação pública são desprovidas de sentido, já que, no meu entender, não cabia ao PS estar a promover uma candidatura presidencial. Aliás, se nos detivermos apenas nos principais candidatos, vemos que desde 1986 têm sido os candidatos a imporem-se aos partidos e não estes a gerarem candidaturas. Foi assim com Mário Soares, Freitas do Amaral, Jorge Sampaio, Cavaco Silva, Manuel Alegre, Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Candidaturas partidárias neste período apenas houve as de Basílio Horta e Ferreira do Amaral, nas recandidaturas de Soares, em 1991, e de Sampaio, em 2001, que não pretendiam mais do que fixar o eleitorado do centro-direita.

O contexto de grave crise económica e social em que vivemos deve concorrer para que o partido que governa esteja sobretudo focado na acção executiva e na recuperação do país. É um facto que as eleições presidenciais são importantes, nomeadamente numa altura em que vemos crescer o espaço extremista, mas caberá aos candidatos do espaço democrático que se apresentem a eleições conter e desmontar os argumentos vazios daqueles que, por muito barulho que façam, nada têm para acrescentar ao que o país precisa.

Benfica, Vieira & Poder, Lda.

José Carlos Pereira, 15.09.20

O artigo de opinião "O que é o Benfica? Dinheiro sem mística", da autoria de um benfiquista que pensa para além da espuma dos dias, é para ler e reflectir. A estratégia do presidente do SL Benfica, Luís Filipe Vieira, sempre assentou em capturar o poder para a sua trincheira. Quem não perceber isso...

O que fazer com a extrema-direita?

José Carlos Pereira, 04.09.20

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A extrema-direita em Portugal não nasceu com André Ventura e com o Chega. Muitas das suas bandeiras eram há muito esgrimidas em alguns sectores da sociedade portuguesa. O preconceito perante os imigrantes e os refugiados, a discriminação face aos ciganos, o racismo ou a defesa da pena de morte andavam na boca de muita gente. E as redes sociais acabaram por catapultar esses desabafos de café para a esfera pública.

Se a isto se juntar a situação económica difícil de milhares de pessoas, a desconfiança latente em relação aos poderes públicos e o sentimento de injustiça (ou inveja, vá...) perante a situação privilegiada de algumas classes sociais e profissionais, está encontrado o caldo que levou  André Ventura para a Assembleia da República (AR) e lhe proporcionará um resultado significativo nas próximas eleições presidenciais.

Aqui chegados, os partidos do sistema e os analistas políticos interrogam-se sobre a melhor forma de lidar com o populismo de Ventura. Deixá-lo a falar sozinho, desvalorizando-o? Ou combater a sério as suas propostas, não lhe facilitando o caminho? Dúvidas que já se colocaram em muitos países por essa Europa fora.

André Ventura é um oportunista, que diz tudo e o seu contrário para alcançar a notoriedade que pretende. Já vimos as enormes diferenças de valores e princípios entre o que defendia nos seus papers académicos e o que agora preconiza no Chega. Em 2017, era candidato a presidente de uma importante autarquia da área metropolitana de Lisboa por um partido com os valores do PSD, mas dois anos depois estava a ser eleito para a AR com bandeiras xenófobas e racistas. Emergiu como comentador futebolístico, mas nunca interveio para denunciar as práticas criminosas sob investigação no seu clube, logo ele que está sempre de mira apontada a tudo e a todos.

Até agora, o Chega tem-se praticamente esgotado em André Ventura e espera-se que novos dirigentes dêem a cara para que se conheça bem o que os motiva e a massa de que são feitos. Tal como os empresários que têm apoiado financeiramente e incentivado André Ventura.

O que fazer com a extrema-direita e com o Chega em particular? Não transigir, denunciar, apontar, desmascarar sempre! Um partido com os valores do Chega não se pode sentar à mesa para negociar com gente decente. André Ventura pode conversar com os grupos violentos de extrema-direita que já têm histórico de crimes e até de mortes, mas nunca poderá ser visto como um parceiro confiável por partidos estruturantes da nossa democracia como o PSD ou o CDS. Se há linhas vermelhas em política, esta é uma delas. Convém lembrar Rui Rio disso mesmo, pois não há moderação que salve o Chega.

À direita, há quem defenda que, se o PS pode negociar com PCP e Bloco, também os partidos de direita podem conversar com o Chega. Ora, uma coisa nada tem a ver com a outra. Ainda que, neste ou naquele dirigente, possa haver uma simpatia mal disfarçada por regimes ditatoriais e anacrónicos como Cuba ou Venezuela, isso deve ser levado à conta de...comunhão histórica. Na prática do dia-a-dia, nos valores enunciados e nas políticas defendidas, nunca vimos nos partidos de esquerda o desprezo pelos valores dos direitos humanos. Pelo contrário, estamos habituados a vê-los pugnar sempre pelos direitos dos mais desprotegidos, por melhores salários e condições de vida, por mais investimento público na saúde ou na educação. Por mais igualdade e oportunidades.

Por último, constata-se que o crescimento do Chega veio dar força e coragem a alguns movimentos racistas e xenófobos, que saíram do armário e se sentem legitimados para manifestações como a que recentemente evocou o hediondo "KKK". Uma realidade lastimável para o Portugal do séc. XXI e que nos obriga a estar permanentemente atentos e vigilantes. Sem qualquer moderação.

Um Verão algo diferente

José Carlos Pereira, 24.08.20

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Terminaram as férias de Verão, este ano com as limitações e os constrangimentos impostos pela pandemia. Deu para viver um Algarve com bastante menos afluência no início de Agosto, crescendo paulatinamente o número de turistas à medida que o mês avançava, com hotéis encerrados e outros a abrirem portas em Agosto ou poucas semanas antes e restaurantes a viverem dos clientes portugueses e a fazerem recurso de novas esplanadas no exterior.

A subir a costa vicentina e alentejana, já era notório um maior número de turistas estrangeiros, sobretudo dos apaixonados pelo surf e pelo auto-caravanismo. Um turismo diferente, à procura de aventura e de experiências mais ousadas.

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Mais a Norte, uns dias a usufruir da beleza natural de Marco de Canaveses reconciliam-nos com a tranquilidade, o calor de Verão e a excelente gastronomia. Aparentemente, com menos emigrantes do que habitualmente. E também com menos turistas do que seria merecido pelo Tâmega e pelo Douro, pelas serras e pelo património.

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No Centro, o apelo do leitão da Bairrada justificou (mais do que) uma incursão que culminou com uma visita, ao fim de muitos anos, à Praia da Costa Nova e aos seus palheiros característicos.

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A terminar estes dias de férias, um mergulho no Minho profundo para um convívio com amigos em torno da mesa. O que queremos mais?

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Família, amigos, sol, praia, mar, rios, gastronomia, convívio, num Verão diferente, mas sempre retemperador.