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Incursões

Instância de Retemperação.

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d'oliveira, 30.07.21

adenda a liberdade vigiada 91

Mãe Pobre

 

Terra Pátria serás nossa, 

Mais este sol que te cobre, 

Serás nossa, 

Mãe pobre de gente pobre. 

 

O vento da nossa fúria 

Queime as searas roubadas; 

E na noite dos ladrões 

Haja frio, morte e espadas. 

 

Terra Pátria serás nossa 

Mais os vinhedos e os milhos, 

Serás nossa, 

Mãe que não esquece os filhos. 

 

Com morte, espadas e frio, 

Se a vida te não remir, 

Faremos da nossa carne 

As searas do porvir. 

 

Terra Pátria serás nossa, 

Livre e descoberta enfim, 

Serás nossa, 

Ou este sangue o teu fim. 

 

E se a loucura da sorte 

assim nos quiser perder, 

Abre os teus braços de morte 

E deixa-nos aquecer.‎ 

 Carlos de Oliveira

 

boa parte dos que comigo cantaram  esta e outras cantigas de combate e de esperança já por cá não andam. Recordo, comovido e terno, alguns: 

António Manso Pinheiro, António Mendes de Abreu ,César Oliveira, Fernanda da Bernarda, Irene Namorado, João Amaral, João Bilhau. João Quintela, José Barros Moura, Luis Bgulho e Nénita )Mª Eugénia) Cochofel  Os que aqui não couveram estão obviamente, vivos ou mortos, no meu coração. Olá malta! 

 

liberdade vigiada 91

d'oliveira, 30.07.21

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liberdade vigiada 91

o pé na argola!

mcr, 30 de Julho

 

 

eu tenho de agradecer a três leitores que me juram a pés juntos que a minha queixa contra a Autoridade Tributária era injusta. Pelos vistos eu posso pagar por débito directo  ou obter com facilidade o montante da minha contribuição e, via multibanco, pagar atempadamente, sem receio de coima, o que devo.

Portanto, exª AT, as minhas desculpas.

Todavia, tenho um pequeno reparo a fazer. Ontem, quando pagava, queixei-me do processo, de não  poder as coisas com maior comodidade e simplicidade, em suma, evitar ir para a bicha chatíssima da Repartição de Finanças. A amável senhora que me atendeu ouviu-me compadecida, sorriu e nada me disse. Ignoraria ela estas hipóteses? Achou, porventura, que a minha avançada idade, as cãs, o ar aflito e perdido de quem se vê em frente do Fisco (e com o fisco estamos sempre assustados...), ou a minha culposa ignorância destes meandros, já não permitiam qualquer explicação capaz para o meu evidente fraco entendimento?

Portanto, caros três leitores, sábios e generosos, que me deram a dica, muito obrigado. Tenho a vaga e sorridente ideia de que nunca mais pelo popó pelo menos, porei o mimoso pé na repartição de finanças. Obrigado ó benfeitores. Se passarem aqui pela esplanada, há um café gratuito à vossa espera.

 

E já agora, uma eventual bicada no caso dos sacos de plástico. Hoje, quando fui por meia dúzia de laranjas e um punhado de cerejas, à D Rosa do “mercadinho do foco” (eu faço o que posso pelos comerciantes daqui. É provável que o supermercado venda mais barato mas a excelente criatura também tem de viver, o atendimento é o mais personalizado possível, já me trouxe coisas a casa,enfim, há que garantir-lhe clientela para isto não se transformar num deserto).

A D Rosa, perguntou-me se “eu queria saco”. Perguntei-lhe se ela achava que eu tinha mãos que chegassem, para o saco dos jornais (o saco era do Expresso e ainda não se paga!)as laranjas e as cerejas. Vencida pela evidência, informou-me pesarosa que “não podia oferecer-me um saco. Mas emprestava, caso eu quisesse. Estive para lhe perguntar se ela pensava mesmo que eu me iria lembrar de devolver o raio do invólucro mas contive-me. A D Rosa jurou que “estava proibida pelas autoridades de oferecer sacos”.

A mim espanta-me que um comerciante que pode fazer descontos, vender fiado, oferecer uma pequena lembrança a um comprador fiel, não possa por força de lei, oferecer a miséria de um saco.

Parece, portanto, que a campanha anti-plástico está a vigorar fortemente. Vi, entretanto, duas empregadas  mostrar os sacos que previdentemente já traziam.

Lembrei-me de umas viagens mais ou menos clandestinas pelos antigos países de leste. Toda a gente usava sacos, andava com sacos, normalmente vazios. Na altura fui informado por alguns detestáveis inimigos do povo, da revolução, do proletariado nacional e mundial, que aquilo, os sacos eram para usar se, e quando, algo estivesse à venra, sobretudo bens alimentares. quem ia passear o cão, visitar um enfermo, assistir a um comício, ou meramente passear, munia-se do saco e avançava intemerato pelas ruas dos amanhãs que deviam cantar mas não cantavam, para eventualmente comprar qualquer coisinha, fosse ela qual fosse que milagrosamente fosse posta à venda.

Aquilo era estranho, comovente, e temível. Mesmo com algum dinheiro, sempre pouco, as pessoas não tinham onde o gastar.

Uma segunda visão, desta feita capitalista, monopolista, exploradora do povo e etc., do saco como companhia, mesmo se disfarçado, tive-a num opíparo casamento de um amigo meu, em Fátima. eu não gosto de ir a casamentos, mesmo se já tenha a minha conta pessoal deles no cadastro.

Desta vez, fundo o lauto banquete, que era mesmo lauto, há que dizê-lo, na hora de levantar o dito cujo das cadeiras, assisti, com estes que a terra há de comer, ao rapinanço de tudo o que sobrava, sobretudo bolos. Foi empolgante ver senhoras devidamente vestidas para a cerimónia a sacar das carteiras, sacos e a saquear as mesas desertadas pela macharia que se escapulia para o ar livre. Um festim!

E soube, nessa altura, que o caso não era anormal. já que o casamento fora pago, as convidadas e as familiares dos nubentes, aproveitavam para fornecer-se do que sobrava.

A ideia seria: se há de ir para os porcos, antes para mim!

Portanto, estamos não exactamente em época de celebrações conjugais mas de luta contra o plástico.

O velocíssimo ministro do ambiente está de parabéns, o povo cumpre religiosamente sua ordem de não dar tréguas ao desperdício de sacos de plástico. Os oceanos, os rios, as ribeiras, os bueiros, as sargetas vão ter uma nova e reluzente vida. Sem “beatas”, sem papéis, sem sacos de plástico, a vida é já outra.

Porém, uma duvida pungente assalta-me a cabecinha sonhadora: uma parte importante do que anda a destruir os oceanos (já nem falo dos combustíveis usados, das lavagens em alto mar, das redes que se perdem, do que os barco lançam borda fora) resulta de desperdícios de aparelhos de pesca, rudo também em plástico ou, disseram-me de coisas feitas de esferovite muito usadas não sei bem em quê!

Não se pense que eu sou contra a despoluição, longe disso. Nem contra o ambiente. Eu separo o lixo, vou pô-lo no contentores adequado, ainda hoje lá foram quilos de jornais, de envelopes, de propaganda variada e inútil, tudo bem acondicionado em mais papel e pimba, contentor do papel. Uma criatura que passava até parou a ver-me solícito, cívico e amigo do ambiente a lutar contra a tampa do contentor.

Só que, talvez valesse a pena começar a inspecionar o que sai dos portos de pesca. E o que entra, A proibir cabazes de plástico que podem, como dantes, ser substituídos por matérias menos agressivas.

O Estado tem ao seu serviço uma imensa frota de carros velhos qu poluem que se fartam. Não seria melhor encosta-los, mandá-los para a sucata, e pôr ordem nessa incrível distribuição de viaturas de serviço tanto mais que algumas andam a 200 à hora, outras atropelam peões na auto-estrada ou provocam acidentes nas ruas mais movimentadas.

  1. já agora, mesmo que seja para pagar: porque não proibir simplesmente o uso de sacos de plástico que podem ser substituídos por papel?

Basta ver um filme americano para se perceber que lá, nesse país bárbaro, as compras de perecíveis vem sempre em sacos de papel.

Ainda hoje, na farmácia, disse isso à farmacêutica que me vendia meia dúzia de medicamentos. Ela meteu os que eu comprara num saco de plástico, explicou-me que eu devia pagar dez cêntimos e desejou-me um bom dia. E vim para casa com mais um saco! C

om o da D Rosa, já são dois! Aliás, quatro pois as laranjas estavam num saco de plástico leve, e não pago, e as cerejas, idem!

E aproveito para agradecer ao dr. Balsemão por não me levar nada pelo saco do Expresso, que serviu para albergar também , o Público, o Jornal de Letras e uma revista que eu já trazia e que não consigo acabar de ler...

 

PS: Carlos de Oliveira, poeta e romancista faria agora 100 anos. Morreu muito antes mas deixou-nos algumas obras que merecem ser lidas, tanto mais que ele reescreveu e melhorou sempre o já publicado. Deixo noutra folha o poema “Mãe Pobre” que foi uma das “canções heroicas” e que nos tempos longínquos da Resistência nós cantávamos. Até na prisão de Caxias em Maio de 62!

* a vinheta: Carlos de Oliveira, eventualmente a voz mais interessante do "neo-realismo"

  

    

liberdade vigiada 90

d'oliveira, 29.07.21

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Liberdade vigiada 90

o fisco, nós e a Europa

mcr,29 de Julho

 

Recebi há duas semanas uma carta do Fisco. Nela, naquele tom enigmático e confuso que a Autoridade Fiscal usa (e abusa) preveniam-me que eu poderia pedir uma audiência prévia a propósito de um IUC em débito.

Corri para as Finanças para perceber melhor do que se tratava mas. à porta, estava um aviso de que só com marcação prévia é que se admitia o pobre contribuinte (eu) que só queria pagar para não ter mais maçadas.

E indicavam um telefone. Anotei-o cuidadosamente numa das folhas do jornal (também ia munido de uma espessa revista, pois nestas coisas de fiscalidade é bom o paciente prevenir-se para aguentar o inevitável banho de cadeira que o espera). Na impossibilidade, pensava eu, de ser atendido fui para a habitual esplanada, tomar um café vingativo e vindicativo. Apareceu uma amiga antiquíssima que se propôs ouvir as minhas queixas a troco de um café. quando lhe disse o que se passava, olhou-me como quem olha um cordeiro acabado e nascer : “E tu pensas que alguém vai atender a tua chamada?” Eu, mais tonto que uma pescada melancólica, achei que sim, que se indicavam um telefone para alguma coisa seria.  minh sábia amigs, riu-se da minha candura e ordenou-me com rispidez que ligasse para o dito número. Obedeci. Nada. Aquilo tocava, tocava e tocava mas, do outro lado, como no soneto de Antero só “silencio e escuridão...”

“Vês?”, perguntou-me. “Estás a lidar com a burocracia nacional.”

entretanto, hoje, lembrei-me de voltar ao mesmo local para tentar pagar os selos dos carros meu e da CG que nunca se digna pôr lá os pés. ela lá sabe que tem um marido extremoso, um mordomo, um pau mandado.

quando cheguei à Repartição de Finanças, não vi ninguém à porta  de modo que me precipitei lá paa dentro sem dizer água vai. fui interceptado por uma jovem que me perguntou ao que vinha. “quero pagar os selos dos carros” murmurei. “Tem de marcar entrevista!” “Mas eu só quer pagar...” Nada feito. Ou melhor, perguntou-me o número de contribuinte, o telefone e, para meu espanto mandou-me para a tesouraria. tudo isto em cinco minutos.

Felicíssimo paguei o que devia e referi a tal carta das Finança. A diligente funcionária, já conhecida de vezes anteriores, informou-me que isso era uma eventual coima e que me não preocupasse. Se o Fisco entendesse que eu a deveria pagar (boa piada!) mandar-me-iam uma cartinha com a informação da quantia e os códigos multibanco para comodamente efectuar esse pagamento.

Cheio de atrevimento, perguntei corajosamente, porque é que nesse caso, o fisco me dava a possibilidade de pagar uma multa no multibanco e não fazia o mesmo com as importâncias dos selos. O Fisco sabe quanto devemos, em que altura, manda imensas mensagens, por exemplo o aviso de pagamento do IRS, poderia sem esforço maior fazer o mesmo com o selo do automóvel. Ela concordou mas não sabia responder-me.

Caros leitores: isto esta penosa (e no caso em apreço, com covid, marcações, entrevistas e o raio que para o Estado)ida por via de algo que poderia com facilidade ser pago no multibanco sem filas, sem gente a murmurar obscuras e obscenas ameaças aos funcionários que atrás dos balcões tem a maçada de introduzir o nosso número de contribuinte e um par de códigos para depois extraírem uma folhinha onde consta que o cidadão cumpridor entrou com os cacauzinhos do IUC, demonstra bem o estado da arte da colecta de impostos em vigor no torrãozinho de açúcar.

Aliás, poderia dar mais dez exemplos de penosos esforços para cumprir com deveres simples. Basta-me porém um exemplo.

Numa estadia em Paris em casa do meu amigo Luís Matias, este comunicou-me que tinha de ir à mairie da pequena cidade onde residia para tratar da transferência da propriedade do carro. O carro era do sogro e para evitar dificuldades na vinda para Portugal convinha que o Luís (ou a mulher dele) fosse o proprietário. E convidava-me para o acompanhar e, depois, para almoçar. Previ horas de espera, montes de papéis, enfim um martírio. Muni-me de um livro para enfrentar a espera e lá fui não tanto com a mira no almoço mas para o confortar naquilo que eu imaginava ser uma insuportável prova de resistência.

Demorámos 18 minutos Dezoito, nem mais um! quando me espantei e olhei para o calhamaço por uma vez inútil, o Luís disse-me com aquele ar malandro do emigrado com longos anos de Franças e Araganças: “isto é a europa, M! A Europa!”

E fomos para Paris, dar uma volta pelas livrarias, beber um café, fazer horas para um almocinho (um “coq au vin” maravilhoso ali para os lados de St Germain e um vinho que ainda hoje me comove.

Isto foi ainda nos anos 80. Consta que, entretanto, também nós portugas, chegámos à Europa. Para sacar o dinheiro, não tenho dúvidas, bastou-me ouvir Costa, perguntar se podia ir ao banco. Mas para ter a vida facilitada e retirar o segundo “r” à burocracia, ainda vão demorar anos. E não digo para recer dinheiro, mas apenas para o pagar!

Arre!