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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

08
Fev19

Au bonheur des dames 472

d'oliveira

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Isto é como as cerejas

mcr 7/8 de Fevereiro 

O Sr. Presidente da República foi ao bairro Jamaica porque a) é o presidente de todos os portugueses; b) não pede o cadastro criminal a quem o abraça e se fotografa com ele.

Nada a opor. Nada é um modo de dizer. Corre nos meios próprios um processo sobre o que realmente se passou durante uma intervenção policial. Tudo indica que alguns moradores, mormente uma família jubilosamente fotografada com o mais alto magistrado da Nação, se envolveram num confronto duro com agentes policiais. Segundo uma testemunha do mesmo bairro foi “natural que um dos agressores civis tivesse atacado um ou vários policiais porquanto um (ou vários) destes estariam a agredir um familiar”. Isto passou vezes sem conta na televisão e as imagens não permitem verificar quem começou o confronto. Verdade se diga que essas imagens vem de um habitante local e não é garantido que não tenham sido manipuladas antes de serem dadas à publicidade por alguém.

O sindicato dos polícias terá reagido duramente afirmando que o presidente tomou partido por uma das partes ao mesmo tempo que se tem sistematicamente negado a verificar as condições a que os agentes estão submetidos (desde a miserável situação de muitas esquadras onde não há condições de qualquer espécie até à falta de meios. O sindicato acrescenta que a exígua força policial em causa foi chamada ao bairro para pôr fim a uma zaragata; que qualquer entrada em muitos bairros degradados se torna sempre problemática devido à hostilidade dos residentes; finalmente, que estas situações de embate e confronto resultam sempre em violência bilateral porquanto a polícia, na eminência de uma agressão, reage com violência igual ou superior à usada contra ela.

É perante este cenário complexo que a visita particular do Senhor Presidente não pode ser considerada especialmente oportuna e, muito menos, a fotografia festiva com a família envolvida nos acontecimentos. Provavelmente, houve mais selfies (o Senhor Presidente não é exactamente avaro desse tipo de manifestações conviviais a pontos de eu chegar a pensar que sou o último português a não estar no álbum de selfies presidenciais) com outros moradores mas a que chegou a todas as redacções foi esta. Dir-se-á que nada disto coloca o PR no pelourinho mas também não deixa de ser compreensível a indignação dos polícias. Claro que, mais dia, menos dia, S.ª Ex.ª visitará de surpresa uma esquadra degrada e aí haverá outro festival fotográfico provavelmente sem abraços que os agentes não são exactamente civis mas que poderá ser brandido como resposta a esta pequena querela que, de todo o modo, é significativa da onda populista que o Dr. Rebelo de Sousa, por fas ou por nefas, inaugurou.

Ninguém quer um “presidente ensimesmado em Belém” (sic, Amílcar Correia, Público de 6.2.19) mesmo se a frenética actividade de MRS pareça um tanto ou quanto desajustada da função presidencial, mormente a sua deslocação ao Panamá (oficial ou privada?) por ocasião das jornadas mundiais da juventude católica. O Senhor Presidente de jovem já não tem nada, excepto os netos, a República é laica mesmo se qualquer pessoa de bom senso reconheça que a Igreja Católica tem por cá bastante peso e, sem favor, se posa considerar um dos factores estruturantes de Portugal. Basta lembrar que D Afonso Henriques não descansou enquanto não obteve – a troco de grossa soma de morabitinos ou moeda semelhante – o reconhecimento papal do Reino.

Acho muito bem que MRS dê público testemunho da sua fé, que entre em procissões religiosas ou que comungue amiúde. A religião de cada um é um assunto de cada um e, enquanto isso não importunar a dos outros ou o ateísmo de alguns, parece bem que exista e cresça num clima de liberdade e sadia concorrência com todas as restantes fés religiosas e com a liberdade pessoal de todos e cada um em geral.

Todavia, e para terminar, conviria lembrar ao Senhor Presidente a frase latina (sempre útil e particularmente adequada ao momento) “est modus in rebus”.

 

2 (a cor do rosto)

Num debate pouco pacífico, sempre sobre o Jamaica (o bairro e não a ilha do Caribe onde músicos geniais e corredores de velocidade pura parecem pulular) o senhor Primeiro Ministro respondeu a uma reiterada pergunta da senhor deputada Assunção Cristas que ela ao questioná-lo sobre se condenava ou não as violências ocorridas no bairro, entendeu chamar à colação a cor da sua pele numa (pouco) subtil acusação de racismo da oponente. Cristas ficou espantada, a Assembleia pasmou e Ferro Rodrigues teve mesmo de chamar a atenção do beligerante Costa para a irremediável tolice proferida.

Fora um que outro motorista de táxi, nunca ouvi ninguém chamar a Costa “preto” ou “monhé”. Houve, é certo uma campanha eleitoral em que Costa aparecia rosadinho como um leitão antes de ir ao forno mas isso foi uma burrice do fotoshop partidário que terá entendido não dever mostrar alguém com ligeiros traços de mistura de raças. A cor da pele, em Portugal só é acusação quando o seu portador é pobre (ou cigano, claro mas mesmo aí a coisa não é generalizada). Chineses e indianos (ou nepaleses que agora são muitos) passam despercebidos nesta guerra de cores.

Que bizarra razão terá impelido Costa para vir a terreiro com a sua cor quando há na Assembleia, no governo e nas elites nacionais, várias pessoas “de cor”. Mais: o partido da senhora Cristas teve – e tem – vários cavalheiros de origem indiana, de nomes até indianos, de religião hindu para não falar de mestiços de origem africana. Provavelmente mais, em proporção ou mesmo absolutamente do que o PS (ou o PC ou o BE).

Alguns (míopes) adeptos de Costa juram que Cristas o provocou. Não sou dessa opinião mas, mesmo que isso tivesse ocorrido, um político frio como Costa poderia (e deveria) manter-se impassível e não abrir esta estúpida, inútil e perigosa guerra das cores.

O desnorte da sua resposta deixa-me (e deveria deixar-nos a todos) inquieto. Muito inquieto.

 

Sapateiro, não passes da sandália!

 

O sr. Ministro Matos Fernandes, além de usar barba, é uma pessoa simpática. E tinha, até à data, dado mostras de bom senso e ponderação, qualidades inestimáveis (e pouco frequentes) num político indígena.

Todavia, embalado pela razoável aceitação do pópulo lusitano, entendeu falar do que não sabe nem, aliás, necessita de saber. A saber (perdoem a duplicação): o fim dos motores a diesel.

Disse S.ª Senhoria em tom professoral que os compradores de veículos a diesel deveriam ter juízo e pensar que daqui a cinco anos o valor de troca dos seus veículos seria bem menos razoável do que o que esperariam. Ou seja, o senhor Ministro passou a certidão de óbito destes motores de explosão. “Vem aí o eléctrico”, terá acrescentado.

S.ª Ex.ª exagerou ligeiramente. Quer no futurar, quer na análise do presente. Vejamos:

Em Portugal o peso dos veículos eléctricos é de 1,8% e daqui a um lustro (ai que bela oportunidade para usar esta esquecida palavra!) andará, se o preço baixar muito (muitíssimo) e se a bolsa dos portugueses engordar significativamente, pelos 30/40%. Estes dois “SE” são , há que convir, bastante incertos sobretudo se os quisermos juntos. Digamos, para abreviar, que isso seria a cereja em cima do bolo (estão a ver a pouco subtil referencia ao título do presente folhetim?) mas que os tempos não são assim tão promissores para dar a coisa por favas contadas.

As grandes marcas internacionais não parecem tão seguras. Provavelmente, não tem as luzes proféticas do senhor ministro. Nem a sua presciência... O prazo para as coisas serem como o Ministro Matos Fernandes prediz é, segundo as marcas, mais do dobro.

Mas há mais: ao contrário do que alguns mal avisados seguidores do senhor Ministro afirmam, num arroubo beato de admiração, neste momento a venda de diesel é ainda superior à dos veículos a gasolina. Os “SUV” estarão na base desta escolha mesmo se, de facto, um carro a diesel só seja rentável a partir dos 30.000 km/ano. Porém, uma coisa é economia, outra o gosto pessoal. E a malta anda entusiasmada com os SUV. Não há volta a dar-lhe...

E volta a haver mais, muito mais: o preço (oh medonha palavra!) dos veículos eléctricos!

Mudei, recentemente, de carro. Tenho o péssimo hábito de pagar a pronto (Horroriza-me andar anos a dever dinheiro). E, contas feitas , saio a ganhar.

Ora o carro eléctrico (e não falo dos Tesla ou do Jaguar I Pace, é sempre acima dos € 50.000) como o “modesto” Nissan leaf que andará à volta dos 35.000. Ou seja: estes veículos custam uma pancada de euros. São caros para 98% dos portugueses. Ponto, parágrafo!

E outra vez mais, que isto não para. A autonomia. Os melhores modelos não ultrapassam os 500 km. Ou seja nem para uma ida e volta de Lisboa ao Algarve! Mas, diria o melífluo ministro, há postos de recarregamento!

Há, de facto umas escassas dezenas dessas coisas num par de auto-estradas (A 1 e A 2). Mesmo se estiverem todas em condições (o que não é de todo em todo seguro) há que contar com dois factores: haver um posto livre e aguentar o tempo de carga que é sempre superior a uma boa meia hora (e estou a ser generoso).

A segunda opção (ter um posto de carregamento rápido em casa) também não é exactamente barata, bem pelo contrário.

Ou seja, e resumindo, o automóvel eléctrico ainda tem muito que penar para ser uma alternativa credível.

Continuando: o sr Ministro parece esquecer alguns factos óbvios:

Há em Portugal e em circulação 700.000 (setecentos mil veículos com mais de vinte (20) anos. Para isso concorre a compra anual de usados que chega aos quarenta e muitos mil cada ano.

As novas disposições da UE referentes ao diesel (e aplicáveis já há dois anos) tornam esta opção bem mais limpa do que aquela a que S.ª Ex.ª se referia.

Os transportes públicos ainda não fizeram, cá, pelo menos, a mudança para fontes mais limpas. Pior: abandonaram-se ( no Porto e em Coimbra) os trolleys que nos anos 50, 60 e 70 já eram eléctricos... Os transportes de longo curso idem, aspas.

A alternativa ferroviária foi absolutamente desprezada mesmo se agora, num descarado esforço propagandístico, se anunciem milhões e milhões de compras de comboios que chegarão -se chegarem - daqui a 5, 10 ou mais, anos. Até umas miseráveis automotoras a diesel e alugadas à Espanha vão demorar meses e meses.

Um pai ou mãe de família com filhos em idade escolar não vão seguramente recorrer aos transportes públicos para levar as crianças às diferentes escolas.

Finalmente, e neste capítulo, o carro individual ainda é uma marca de ascensão social e isso demorará uns tempos largos a ultrapassar pese embora a ingénua e escoteira percepção da realidade do senhor Ministro. Digamos, piedosamente, que S.ª Ex.ª falou mais com a ideologia do que com uma ideia mais próxima da realidade.

Parece que há, neste país, uma central eléctrica a carvão. Saberá S.ª Ex.ª que essa central polui tanto como 45 milhões de automóveis?

Por mera cortesia não vou falar na frota automóvel do Estado que está velha e cuja substituição se pauta pela lentidão do caracol. O ministro que tanto filosofa sobre o diesel dos carros particulares (e dos outros de transporte de passageiros ou mercadorias...) não vê os telhados de vidro da sua própria casa. Devem estar sujos pela contínua emissão de partículas produzida pelas viaturas oficiais.

 

Merece parágrafo especial a afirmação do Secretário de Estado João Galamba quando revela que a substituição do diesel não está nos planos do Governo. Já se sabia que no Governo há filhos e afilhados mas não deixa de ser brutal um desmentido feito por um Secretário de Estado sobre as afirmações de um Ministro. Que este fica fragilizado não deixa dúvidas sequer a um menino do jardim escola a aprender as primeiras letras. No PS actual há os que mandam e os que lá vão fazendo aquilo que lhes deixam. Matos Fernandes que, intelectualmente, me parece bem melhor que Galamba, deu um tiro no mimoso pé.

 

Parece que o Ministro da Propaganda, vulgo do Planeamento, será quem encabeçará a lista socialista ao Parlamento Europeu. Merece essa reforma gozosa: andou estes anos todos a prometer obras e obras, investimentos de toda a espécie que só o futuro (problemático) mostrará se tem pés para andar. O indígena paciente já se contentaria se a ferrovia melhorasse como se previa há vinte anos, se a descentralização avançasse com pernas para andar, enfim se 10, 20 ou 30% dos projectos realmente vissem a luz. A europa que aguente mais esta extraordinária contribuição do génio lusitano que não parece deixar saudades por cá. Lembremos que a taxa de realização do anterior plani de investimentos públicos não ultrapassou –até ao momento- 0s 35%! Mesmo assim, já foi anunciado um outro plano ainda mais ambicioso que começará um pouco depois das eleições. Que conveniente!

 

 

PS: descobri, maravilhado, um disco duplo com inéditos do Zé Mário Branco, velho, velhíssimo amigo. Parte das canções ouvi-as, entusiasmado e comovido, num pequeno bar de Paris (onde o CITAC ia representar - no Théatre de l’ Odéon, se faz favor!!!- nos princípios de 68. Tão jovens que éramos. E tão esperançados.

Vai sair um disco com inéditos do Zeca Afonso, outro velho amigo da mesma época. Creio que parte desses inéditos consiste numa gravação de um espectáculo durante a Queima da Fitas de 1968 ( o mesmo ano, outra vez!). Se sim, eu estava lá e bati palmas até as mãos me deixarem de doer. Comigo, o antigo incursionista António Lopes Dias, poeta e amigo, que depois, durante horas discutiu o que então pareceu ser uma (boa, exaltante) inflexão na poesia do Zeca. Durante esse ano e no seguinte, JA veio várias vezes a Coimbra, solidário e generoso. Também ele, indirecta mas firmemente, fez a grande greve de 69 (deixemos nesta breve notícia uma lembrança terna para o António Mendes de Abreu, cedo desaparecido, e um abraço para o João Nazaré, onde quer que esteja. E que esteja bem! Muito bem! E que dê sinal de vida, porra!).

* Vai a crónica, também, para lembrar a Isabel Alves Costa, na altura casada com o Zé Mário. Militante cultural, a ela se deveu o Festival Internacional de Marionetas do Porto. Morreu cedo, demasiado cedo e alguns de nós recordam-na com uma lágrima e muita alegria.

 

 

23
Jan19

Estes dias que passam 385

d'oliveira

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E a Caixa?

 mcr aos 21/1/19

(não sou especial fã dos CTT – nem na nova forma nem na antiga –vivo numa zona onde não faltam agências -parece que agora se chamam lojas-, uso a empresa apenas para cartas registadas ou envio de embrulhos, o que significa um uso muito marginal. Não conheço nenhum dos figurões que o dirigem nem me apetece conhecê-los. Sou, tanto quanto me parece, relativamente neutral nesta questão que subitamente parece levantar-se ou agravar-se).

A nova empresa CTT tem, segundo testemunhos razoáveis e críveis, diminuído o número de postos (ou estações). Por seu lado o Conselho de Administração da empresa jura que aumentou o número de locais onde os usuários dos correios podem ser atendidos.

Neste ponto, conviria perguntar se esse aumento colmata a falta que o encerramento do anterior posto criou. Isto é, se a população órfã de serviço de correios, tem com igual comodidade acesso a outro idêntico ou melhor. A pergunta é legítima porquanto o novo local pode ser em zonas já com serviço de correios deixando sem ele outras que correspondiam ao posto encerrado. Não é a mesma coisa abrir loja em Lisboa para substituir a que se fechou em Carrazede do Meio.

Em segundo lugar, seria bom e útil saber quais os serviços que deixaram de ser prestados nas zonas ora desertadas. Duvido bem que seja a recepção ou envio de correspondência. Não por estes terem sido substituídos pela internet mas apenas pela singela razão de nos meios envelhecidos e rurais não só subsistir algum analfabetismo mas também não ser normal a troca de correspondência. Já o caso dos vales de correio com a magra reforma e uma que outra encomenda poderá efectivamente tornar-se um problema mais sério.

Em terceiro lugar, poderia pensar-se no serviço de telefone fixo muito embora o mesmo agora possa ser processado por várias empresas que retiraram aos CTT esse monopólio e, desse modo, deixaram ainda mais abalado o nome da empresa. Nem telefones e pouco ou nada de telégrafos...

 

Conviria, porém, atentar neste facto: Há um outro serviço dito público, dito de medonha importância para os cidadãos que também tem vindo a desaparecer aceleradamente do interior: A Caixa Geral de Depósitos, o tal banco “público” que já nos custou uma fortuna e que encerra balcões com uma velocidade que se mede com a usada pelos CTT (também ele, agora, banco) . Permitir que aquela em nome do interesse público e da economia feche balcões ao mesmo tempo que se ruge contra idêntica atitude dos CTT parece-me ser mais um apelo ao uso de língua bífida do que crítica razoável. Tanto mais que a Caixa também era o mealheiro dos mais pobres, o local onde se descontavam as magras pensões de reformados vivendo no interior e que também recorriam à famosa “caderneta” onde constavam as suas escassas poupanças.

O jornal Público traz na edição de hoje (23/1/19), e em páginas centrais, um resumo da escandalosa lista de empréstimos de alto risco a personalidades e empresas portuguesas de onde até à data já resultaram largas centenas de milhões de euros de prejuízo. Na impossibilidade de “nacionalizar” a Caixa só se vê a hipóteses de a privatizar!... Isto para usar do medicamento “reversor” que agora está na moda.

Convém lembrar aos mais assanhados “renacionalizadores” que retirar os CTT da esfera privada poderá ser um excelente negocio para os accionistas que viram a empresa perder mais de 50% do seu valor de venda.

A ideia peregrina de defender o “serviço postal universal” coitadinho é de “ir às lágrimas”. Está-se a defender algo que, se não está morto, está já moribundo e pronto a receber os santos óleos. Não sei se ainda existem os “postais” da minha juventude (pois não os vejo à venda em parte alguma) ou se ainda se troque correspondência em papel. Pelo fraco movimento de venda de selos nos quiosques adivinha-se o cada vez mais reduzido uso deste meio de comunicação. Isto, nos quiosques onde ainda é possível encontrar selos. E a razão é simples: o correio electrónico é gratuito ou, melhor faz parte de um pacote onde também entram a televisão, os restantes serviços de internet e o telemóvel. E se é verdade que, subsistem muitas dezenas de milhares de portugueses info-escluídos, também não é menos verdade que é nessa categoria que se encontram os grupos que menos consumo fazem de produtos dos CTT.

Provavelmente, com certa ironia, um jornalista do citado Público afirma que com a reversão dos CTT só há um ganhador: o grupo privado accionista dos CTT que se livre dos incómodos e fica com a parte boa, o Banco CTT que, à luz das regras da UE, não é nacionalizável.

Depois, se verá se reabrem as lojas fechadas e/ou substituídas por postos nas sedes das juntas de freguesia. E no, improvável caso de serem reabertas, se funcionam com o mesmo número de trabalhadores ou com outro bem superior (relembremos a famigerada passagem das 40 para as 35 horas de trabalho). E se o reactivado serviço universal postal miraculosamente faz surgir cartas às centenas ou aos milhares par justificar as ânsias reversoras de algum PS (que espera votos e postos de trabalho) e da generalidade dos seus aliados a quem a ideologia nacionalizadora cega até à demência. E se tudo isso leva à famosa revitalização do interior, à criação de empresas e de indústrias que mobilizem os escassos recursos humanos locais e exijam uma nova corrida de gente a estas regiões. E, já agora, se obrigam a CGD, tão pública e tão amiga dos desfavorecidos, a reabrir os balcões entretanto fechados.... Sonhar é, sempre, fácil –já agora seria interessante ver responsabilizados os gestores que, contra todas as boas regras do negocio bancário, ofereceram um bodo a uns quantos influentes (e eventualmente receberam uma gorda gorjeta pelos bons serviços prestados). E nessa responsabilização seria bom ver implicados os governantes que indicaram, impuseram e nomearam essas administrações que só lá foram colocadas para servir amigos, amigalhaços, afilhados políticos e outros espécimes de má frequentação. É verdade que a cadeia de Évora está superlotada mas com uns módulos a mais (como no caso dos contentores da pediatria do Hospital S João) acolher-se-iam uns quantos “cavalheiros de indústria” que tem sangrado o país e a Fazenda Pública desaforadamente. Se os contentores podem acolher crianças durante décadas também poderão dar guarida a adultos ladrões. Poder-se-ia mesmo, instalar lá uma estação de correios mesmo que se duvide que os nela instalados sejam capazes de escrever sem erros...

* na ilustração: a medonha mastaba que se vê é a sede da CGD em Lisboa. Mais do que um susto! A pedir um terramoto ali mesmo localizado a bem do bom gosto  (e do bom senso).

18
Jan19

Au bonheur des dames 471

d'oliveira

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Cumprindo a tradição

mcr 18-1-18

Os incursionistas lá se juntaram uma vez mais sob a batuta gastronómica de JVC. Perito nas artes de bem comer e ex-fumador de enormes charutos cubanos (o juízo e a idade   - ah, a p.d.i.!!!-foram mais fortes do que a frenética procura do prazer...) que, desta feita propôs a “Casa Nanda” que mantem jus ao bom nome adquirido. Presentes os resistentes e já lá vão mais de treze anos desta incursão nos misteriosos domínios da cloud e de outras coisas que nunca percebi.

Ao todo éramos cinco, (“mocho atento, que jura que vai voltar a escrever, “o meu olhar”, idem, aspas, aspas e JCM. d’Oliveira fez-se representar por mim, para alguma coisa servem os compadres, presume-se que ele ande por aí (como o dr Santana Lopes, mas sem projecto político que se conheça) pelo que talvez possamos afirmar que o grupo era não de cinco mas de 5+1, sendo este último algo de evanescente um pouco como o fantasma de Canterville (saravah Oscar Wilde).

Para não fugir à regra estivemos de acordo que continuamos em desacordo mas que isso, como nas boas e antigas democracias não impede a convivência, a conversa franca e o companheirismo. Remamos todos na mesma galé e a barca lá avança entre ondas agitadas e ventos nem sempre propícios. Mas lá vamos que o caminho faz-se caminhando (olá, António Machado, velho senhor).

E lembrámos com saudade (muita) o “Carteiro” que se fosse vivo teria acabado de ser avô e todos os camaradas que andam noutra. Que tudo lhes seja propício e que, em querendo, deem aqui notícias dos seus afazeres e prazeres. A casa foi vossa, é vossa, a mesa está posta com mais alguns pratos e talheres.

Não nos esquecemos de muitos amigos e leitores que nos honraram e honram com a sua discreta e amiga companhia. Saravah, malta conhecida e desconhecida, saravah, bloggers conhecidos e desconhecidos, esta nossa campanha não é o facebook onde anda tudo a likes e amigos, muitos, uma multidão e fake news. Aqui a malta diz o que pensa, como quer e quando quer, não likamos envergonhadamente mas explicamos porquê, como e o quê.

Como também é tradição fomos os últimos a sair do restaurante para a noite fria (raios que estavam 5 graus, brrr, eu não me posso queixar que para estas noites luso-siberianas tenho um sólido capote alentejano, com uma imensa gola de raposa legítima, ai Jesus que aí vem o gajo do PAN, oh que medo!... em entrando a invernia, abafo-me, avinho-me (moderadamente) e abifo-me (no caso apeixo-me (como ontem com uma bela posta de rodovalho, peixe nobre que marchou com duas batatinhas, grelos excelentes e um molho que nem vos digo nem vos conto). Os líquidos acompanhantes tinham a chancela de JCP, gourmet e escanção amador de alto gabarito.

Lá para Maio, época de aniversário do blog lá nos veremos de novo, especialmente primaveris mesmo se em questão de Primavera nenhum de nós (exceptuando “o meu olhar”, claro) seja uma especial novidade. Eu mesmo só por boa vontade me intitulo outonal que setenta e sete anos feitos (e perfeitos) já cá cantam bem desafinados.

(nunca percebi como é que gostando tanto de música, ópera, clássica, jazz, soul, rock, etc..., sou tão duro de ouvido. Que ninguém me mande sequer cantar o “dó, ré, mi” que eu até nisso meto a pata. Arre!

Quando éramos novos, cantávamos. Ou melhor os outros cantavam e eu metia a a argolada do costume. Lembro-me duma canção do Pete Seeger em que só me era permitido iniciar o refrão “a wheema whe...( (the lion sleeps tonight que na realidade é uma bela música zulu com o titulo de “Mbube”)). Mas aos negros sul africanos tudo foi tirado até esta música...). Era o meu único e irrepetível momento de glória).

Isto, hoje vai mais em tom intimista mas que querem, eu até preferia este género de temas mas a realidade é dolorosamente outra e alguém tem de se indignar para provar a si próprio que ainda está vivo. Mas os amigos, a lembrança do Carteiro, o jantarinho e o frio de Janeiro puxaram-me para esta “furtiva lágrima” (Viva Donizetti e o seu belíssimo Elixir de Amor).

Uma nota final: a ilustração (uma belíssima gravura estilo “shunga” do grande Utamaro é uma homenagem ao casal Guilhermina e Joaquim que tem um filho no Japão)

 

 

17
Jan19

Au bonheur des dames 470

d'oliveira

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É Pessoa (Fernando) que assassinam

mcr 16-1-19

 

Em vida, Fernando Pessoa teve pouca sorte. Viu os seus muitos e melhores poemas serem ignorados, troçados ou vigorosamente criticados e sempre pelas más razões. Concorreu a um único prémio e a sua excelente “Mensagem” ficou atrás de um livrinho tosco, desinspirado mas “amigo” das entidades premiantes ou de quem elas dependiam. A sua vida privada foi, também ela, banal e nem a paixão pela bela Ofélia o salvou do celibato. E bebia demais mesmo se isso eventualmente afectasse menos o seu emprego do que o facto de fazer versos. A sua glória é toda póstuma e isso deve-se a muitos e desinteressados esforços desde Luís de Montalvor a João Gaspar Simões. A partir de finais de quarenta a sua estrela começou a agigantar-se e nos anos sessenta era consensual considerarem-no o maio poeta do século XX que, apesar de tudo, ainda tinha muitos anos que percorrer.

Depois caiu nas mãos de pessoanos apaixonados que, se vasculharam laboriosamente a sua mítica arca, também produziram muita prosa obnóxia nem sempre boa e poucas vezes excelente. O seu túmulo acabou nos Jerónimos (antes isso que o Panteão Nacional), o seu mais famoso retrato deixou os “Irmãos Unidos”, ali, no Rossio perto da “Suíça” (também desaparecida) e praticamente em frente do “Nicola”, poiso de Bocage e que ainda (por quanto tempo?) resiste. No Chiado, em plena esplanada de “A Brasileira” lá está a sua estátua, sentado a um mesa de botequim, o inevitável chapéu de aba larga, os óculos e uma densa mas discreta melancolia. Agora, aquilo é pascigo de turistas que, aos milhares, se fotografam a seu lado sem sequer saberem quem é que ali está e, muito menos, sem terem lido um único verso do poeta.

Há pouco tempo, os jornais exaltaram-se com a notícia de Lobo Antunes entrar para a gloriosa colecção “Pleiade” (uma (aliás, uma das 165) das razões da minha permanente impecuniosidade). Pessoa anda por lá há anos e não recordo que, na altura, tenha havido alarido semelhante. A “Pleiade” é os Jerónimos vivo e imortal de alguma da melhor literatura mundial. Ainda por cima, trata-se de uma colecção belíssima, cuidadosa, bem apresentada, melhor documentada. Os livros valem os preços pedidos (actualmente aquilo anda entre os 55 e os 65 euros por volume, mas na Internet, na Feira dos Alfarrabistas da Rª Anchieta, ou nos “bouquinistes” dos cais do Sena arranjam-se por preços bem mais módicos. Há mesmo algumas boas e antigas livrarias parisienses que vendem alguns volumes com preços mais baixos e, normalmente, em bom ou muito bom estado. Cito as Gibert (Bd St Michel ou na place St Michel – são diferentes- onde há farta escolha)

Tudo isto para fazer ressaltar a extraordinária notícia de uma edição escolar que apresenta a belíssima “Ode Triunfal” com três versos escondidos sobre um pouco –mas imbecil e canalha – manto de asteriscos.

Eis, a negrito, os versos lapidados pelos lusos talibans acoitados na Porto Editora:

...Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas

...(Ah a gente ordinária e suja que parece sempre a mesma,

que emprega palavrões palavrões como palavras usuais

cujos filhos roubam à porta das mercearias)

e cujas filhas aos oito anos –e eu acho isto belo e amo-o-

masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

 

As criaturas que organizaram a edição e a própria editora ou ignoram os mais elementares princípios de respeito por uma obra literária ou foge-lhes a mãozinha censória para o “antigamente” rural e sacripanta que, em defesa dos bons costumes, do decoro e da moral varriam para debaixo do tapete ou para trás das grades ( ou as duas coisas) tudo o que as incomodava (a elas ou à “ordem estabelecida”). No caso em apreço, a coisa agrava-se com as declarações imbecis com que defendem o indefensável (no caso a amputação a frio de três versos. À uma afirma-se que a mesma editora (a Porto editora) tem o mesmíssimo poema editado na totalidade; depois pretende-se que esta acção de trucidar um poema dá aos professores a possibilidade de repor a verdade dele, explicando aos alunos as partes em falta dentro do “devido contexto”!

Estamos todos a ver o angelical quadro do “sotor” ou a “sotora” a pontificar sobre pândegos e putas ou ainda melhor a condenar energicamente a referencia pedófila às meninas que masturbam cavalheiros (provavelmente pagantes ou meros familiares) nos vãos de escada. Estou mesmo a pensar no educador que previne os adolescentes de 17/18 anos sobre as maleitas do onanismo (que enfraquece; que conduz à surdez; que isto e que aquilo, não esquecendo que se trata de um feio acto, pouco higiénico e que, como as drogas ligeiras é o caminho certo para actos sexuais mais graves... E por aí fora.)

Ah, como a escola pode ser risonha e franca!

Nada disto é especialmente novo pois recordo o meu longínquo 3º ciclo dos liceus em que Gil Vicente, esse arruaceiro, usava injúrias deliciosas como “fideputa”. A pudica senhora doutora (naquele tempo havia respeitinho) não chegava à rase, antes a saltava e procedia do mesmo modo com partes do Canto Nono que, obviamente, era a única parte dos Lusíadas que líamos. E com a vantagem de ninguém nos mandar “dividir as orações” coisa que ocorria com todo o resto do imortal poema e que provocou em milhares de inocentes uma azia definitiva a Camões.

A notícia que li não traz –como devia – menção aos coordenadores da edição. Se são professores do ensino secundário –e é quase certo que o sejam – pergunta-se como é que esta gentinha obteve o diploma e quem é que lhes entregou a responsabilidade de citar ou propor Pessoa.

É verdade que algumas vozes se fizeram ouvir e, entre elas, as de representantes da Associação de Professores de Português. Estranhamente, o Sindicato está mudo e quedo. Se calhar, entende que isto não lhe diz respeito. Literalmente, não mas os professores e a sua famosa luta pelos nove anos quatro meses e não sei quantos dias só tem razão de ser se a classe docente, for tida como competente, culta e ao serviço da educação. O silêncio perante esta burrice supina não ajuda, bem pelo contrário.

Há neste jardim (ou “torrãozinho de açúcar”), além a Portuguesa de Escritores, uma associação que protege os direitos autorais. Pelos vistos essa protecção cessa ao fim de umas dezenas de anos. Cessa, de facto, quanto a dinheiros a receber mas deveria permanecer quanto à defesa d integridade da obra escrita, para não referir outras.Pessoa caiu no pântano do domínio público mas merecia ser respeitado e defendido. Publiquem-no, ganhem dinheiro com ele (o dinheiro que ele nunca ganhou) mas defendam a obra. Defendam aquela parcela de património imaterial da Humanidade e sobretudo de Portugal e da língua portuguesa!

(curiosamente o grande opinante nacional ainda não disse nada sobre o assunto. Também não é preciso e, já agora, saúda-se esse silêncio cada vez mais raro .Também são de saudar os respeitáveis silêncios de dois ministros, o da Educação e a a da Cultura. No 1º caso, S.ª Ex.ª teria de explicar ao pópulo a persistência anti económica – e pelos vistos –anti educativa – de, no mesmo exíguo país existirem tantos e tão (na aparência) diversos manuais escolares. Serão todos bons? Será apenas fruto da ganância de editores e de autores?

No caso seguinte, já não se espera da Sr.ª Ministra opinião fundamentada em algo mais do que o seu pessoalíssimo gosto sobre qualquer matéria.)

Na imagem: retrato de Pessoa (Almada) que esteve em anos saudosos nos "Irmãos Unidos". Muitas bicas bebi com o tio Quim à sombra amada e amável do poeta. Acho que, por minutos, nos sentíamos membros do grupo do Orfe, ou pelo menos seus leitores imediatos e contemporâneos.

08
Jan19

Estes dias que passam 384

d'oliveira

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Indo por partes

mcr 7/8 Jan 19

 

O país, algum país, provavelmente apenas uma pequena parte, está comovido, exaltado, indignado ou, simplesmente, excitado. A causa tremenda é conhecida: um pobre diabo, um indivíduo sem a mínima representatividade (política, moral, social) apareceu num programa da manhã a responder a uma questão (também ela) pouco interessante. Tratava-se, ao que li e agora estou farto de ouvir, de saber se Salazar, enfim o seu impertinente fantasma, estava vivo (como o de Stalin nos corações progressistas de uns centos de criaturas “m-l” que ainda hoje rodam por aí dentro de partidos legais ou de frentes partidárias assumidas e com responsabilidades) e se seria necessário o seu regresso. Convenhamos que a pergunta não era do mais inteligente e que denotava falta dolorosa de tema para uma televisão ou para um programa (ou para um mero apresentador).

Todavia, um tal Manuel Machado, assanhado cabeça rapada, foi ao dito programa dado, pelos vistos, ter “opiniões polémicas”. No caso polémico deve significar burro (e não me refiro só ao entrevistado...).

Na questão de polémicas ficou-se por pouco. Regougou umas frases com escasso sentido e pior gramática, afirmou que não era contra os homossexuais nem contra os pretos e deixou no ar – ao que consigo perceber dos relatos confusos mas palavrosos que vão chegando – a ideia de que com uma extrema direita daquele género podemos nós, sem sequer erguer um pé para uma canelada. A coisa foi, e estou a ser generoso, risível. Direi mesmo que convinha repetir o programa duas, dez, vinte vezes para que o público português percebesse que se o perigo é aquilo então poderemos dormir descansados. Um pouco como a prestação da senhora Le Pen frente a Macron: um desastre e uma goleada do actual presidente francês.

Uma segunda constatação, também prévia decorre da personagem entrevistada. A criatura tem antecedentes criminais e não poucos inimigos no meio onde vegeta. Foi condenada e esteve na cadeia largos anos pelo que, nesse domínio, pagou à sociedade as suas malfeitorias. E pagou-as pesadamente, ao contrário de algumas “personalidades” que, volta que não volta, se pavoneiam nas televisões indígenas e que tem nas mãos o sangue inocente de umas quantas “vítimas colaterais”. Não consta que tenham sido julgadas e condenadas e, pelos vistos, aquilo, aquela autoria moral descabelada, parece ter sido um pecado venial, umas dores do parto da democracia, uns pequenos excessos perdoáveis pela opinião pública já esquecida (ou apenas conformada com uma justiça a várias velocidades e com a conveniente amnésia política da nomenkatura).

Portanto, vir agora, relembrar o passado prisional do tal Machado parece-me uma segunda tentativa de condenação por factos já julgados e punidos.

Porém, o pior disto tudo, desta gritaria escandalizada de filisteus é confundir uma burrice televisiva com um golpe de Munique, com uma marcha sobre Roma, com um 28 de Maio, com a “cruzada” do Franco, para já não falar do tropical Jair que arrota postas de pescada num português lamentável diante da impassível e fraterna testemunha que de Portugal lá foi para defender a CPLP, a “amizade” luso-brasileira, os restos de uma colónia de portugueses em terceira geração que, eventualmente, terão aplaudido o capitão “mito” com ambas as mãos.

Hoje os jornais noticiam que mais de trezentas “personalidades” e um quarteirão de pessoas colectivas (de que pouca gente ouviu falar, cuja actividade era até agora desconhecida ou mínima) escreveram uma “carta aberta” que, francamente, também não demonstra que os redactores tenham inventado a pólvora. Nos últimos dias o sindicato dos jornalistas, uma alta autoridade que tutela a imprensa, vários jornalistas e comentadores com tabuleta na última página de um jornal de “referência”, enfim todos, ou quase, ou seja, os do costume, vieram subscrever-se no politicamente correcto em bicos de pés, “também eu, também eu”... Deprimente!

Contra a corrente, só li Pacheco Pereira, honra lhe seja, que marcou com segurança as fronteiras desta nova guerra do alecrim e da manjerona.

Entre os indignados sobressai a baça figura do senhor Ministro da Defesa que num tweet alardeou duas considerações de fraca qualidade e uma imagem de florestas a arder para agradar a incendiários. S.ª Ex.ª ministro da “grande silenciosa” (as forças armadas) deveria ter reflectido cinco minutos andes de se esganiçar contra a estação de televisão onde os factos horrendos se passaram. É que poderia alguém, de má fé, claro!, pensar que na declaração do cidadão que, aliás, é ministro e não dos menores, perpassava a sombra de uma coação. Claro que S.ª Ex.ª nunca, de nenhum modo, sequer em sonhos, quis dar essa penosa impressão. Não quis mas deu.

Do senhor ministro espero com intranquila ansiedade algo sobre a merda de Tancos e sobre os que sabiam do que se tratava. Falo de militares e de civis e dos importantes. Até à data, nada, zero, raspas de raspas... Como se, cada vez mais, o rol de culpados e conhecedores alastrasse qual mancha de azeite e fosse paulatinamente atingindo muita gente acima de toda a suspeita (se é que se lembram de um filme italiano de Elio Petri: “indagine sul un citadino al di sopra di ogni sospetto” (1970, um grande filme político)

S.ª Ex.ª tem o direito de cidadania como é evidente. No entanto, é ministro. E um ministro tem de saber que tudo o que faz ou diz é escrutinado pelos cidadãos, amigos ou adversários, como já ocorreu um par de vezes com outros membros do actual executivo, mormente a senhora Fonseca, ou, antes, o senhor João Soares o “esbofeteador” e aquela senhora ministra da Administração Interna de que já nem o nome recordo. Aos senhores ministros pede-se trabalho, zelo, competência e que despachem as matérias que lhes competem com brevidade e sensatez. Não precisam, como Tartufo, de vir para arena bater três vezes com a mão no peito. A gente sabe que o senhor ministro é democrata, dos quatro costados. Se quiser adversários escolha um à sua altura melhor que um rapazola já entrado em anos, de suástica no braço e poucas ideias na cabecinha sonhadora.

Não quero com isto dizer que me não preocupam os assomos autoritários de governantes seja cá seja no Brasil, na Venezuela, na Guatemala, na Coreia do Norte ou na China. Ou no leste europeu onde perpassa um cavalheiro húngaro que também foi fraternamente abraçar o Bolsonaro. Vivi trinta e três anos da minha vida sob um poder rural, católicão, gangrenado por dentro, incapaz de pensar o mundo exterior e de perceber a sociedade portuguesa. Não me conformei e recusei-me a ser súbdito dessa gente. E lá marchei para cadeias variadas. O melhor da minha vida passou-se nesse universo cinzento, pesado e triste. Apesar de tudo tive sorte, porquanto alguns centos de portugueses tiveram pior estadia nas cadeias e por mais tempo. Talvez a minha juventude me tivesse salvo de horrores piores. Duma coisa estou certo. Esses anos e os primeiros da democracia curaram-me de várias coisas, entre elas do hábito de gritar pelo lobo mesmo se apenas se avista um pobre cão. E de ver o mundo a preto e branco. Dum lado os atentados à liberdade pessoal são monstruosos do outro, simétrico, são louváveis esforços de construir o futuro. Não são. Ponto, parágrafo.

Se, e quando, o autoritarismo anti libertário vier, não terá o Machado como anjo anunciador, podem estar certos. Espero que, nessa altura, os que se apressam a ver a floresta a arder mesmo quando a luz que se avista seja apenas a de um pirilampo à procura de fêmea, se exaltem e se disponham a agir. A agir. A impedir. A dizer, alto e bom som, NÃO.

Até lá, bom ano.

* Na gravura: o ovo da serpente (filme de Ingmar Bergman)

02
Jan19

estes dias que passam 383

d'oliveira

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Novo ano. Ano novo?

mcr 2.1.19

 

Arre que esta já passou! Refiro-me à noite de “ano bom” que para muitos, eu incluído, é uma valente estopada. Mesmo em família (e a que me caiu na rifa é óptima) as coisas são sempre complicadas. Comecemos pelo jantar. Mas antes uma referência ~2ª em 12 meses! - ao inevitável Nuno Maria que com uns meros 13 meses está que ferve. O catraio aprendeu a andar, anda sozinho, com uma que outra aflição, cai e levanta-se sem se dar por vencido e, sobretudo, para a sua pequena figura parece ser dotado de uma energia imparável. As pessoas cansam-se só de o ver no espaço que se criou em ambas as casas (nossa e dos pais dele), mcerca de 5 ou 6 metros quadrados (mais ou menos o mesmo espaço que me era dado em Caxias nos tempos nunca saudosos da “outra senhora”) fechados por sofás e cadeirões. Incansável e bem disposto, deve ter pensado que aquela era a sua particular corrida de S Silvestre e levou a peito ganhá-la. Só interrompia o passeio para se apoderar dos telemóveis da mãe ou da avó que a criançada desta leva já nasce com o dedinho espetado para a electrónica. Aguentou a pé firme até tarde, demasiado tarde, e foi para a cama contrariado. Estava claramente possuído pelo espírito festivo dos mais alucinados adeptos dos “reveillon”!

E voltemos ao jantar: A minha enteada (melhor filha não podia eu ter tido) acha que um jantar para tão pouca gente há de dar para três vezes (e estou a ser modesto) mais pessoas que as presentes. Com as entradas , entre marisco, enchidos, queijos vários, teríamos todos ficado mais que bem comidos. Sobretudo porque havia uma infinidade de sobremesas, entre elas um queijo da Serra que  ficou a rir-se de mim... Mas a Ana não pactua (pactuar e não “compactuar” , alarvice agora em uso nos ignorantes de português) com essas modernices e vá de arranjar uma sólida “piéce de resistance”, no caso um excelente bacalhau disfarçado que já só provei por falta de espaço.

É uma dor de alma o que fica por comer mas eu já não estou na primeira, segunda ou terceira mocidade.

Depois, há aquela coisa chamada televisão portuguesa e os seus programas para a data. Medonho, horrendo, inqualificável ou abaixo de cão, escolham vocês a expressão mais adequada. Em boa verdade, durante grande parte do tempo, o que se via era a “baby tv” para uso da criancinha aguerrida que aliás, se estava nas tintas. De resto, cá em casa ele vê com a mesma atenção o “Mezzo”. Já ouviu ópera, jazz, concertos vários e até bailado. Desde que haja música e umas figuras a adejar, ei-lo atento durante um período máximo de dez minutos que, depois, vira-se para os telemóveis, os computadores ou os comandos da aparelhagem. Suspeito que são os pais os principais admiradores da tal “baby tv”.

Como ia dizendo assistimos, em paga dos pecados veniais e capitais que teremos cometido ao longo de 2018, ao desbragado programa com a tv portuguesa entendeu brindar a lusa gente. Um desastre, Alcáçer Quibir redobrado. Se se resiste aquilo, então resiste-se a tudo durante o ano que entra.

No dia 1, ao fugir de outros desmandos televisivos, caí, num programa da orquestra de André Rieu, no caso um concerto na praça principal de Maastrich em pleno Verão. Coisa mais ou menos ligeira mas cheia de energia e de comunicação inteligente com um público holandês mais do que entusiasta. Eu tenho, de outros tempos, a recordação (excelente) de três meses nas terras batavas e não recordava o facto daquela malta ser capaz de se divertir assim. E também já não me lembrava de eu mesmo ser capaz de aguentar três horas a ouvir valsas, sucessos musicais antiquíssimos (“Granada”, “Marina”- do Marino Marini, oh imensa saudade, ou o “nel blu dipinto di blu”  do Modugno, coisas da minha verdadeira e perdida adolescência). Isto, esta música relativamente passável mas alegre e tocada com brio profissional, valia uma tonelada de programas nacionais, nossos. E dizemos nós, num mais que ledo engano, que os povos do sul é que são animados! O Tanas e o Badanas! Ou mais europa do norte: o Tanhäuser e o Badanauser!

Do resto do dia primeiro apenas vi o nosso inimitável 4º pastorinho no Brasil para assistir à posse de Bolsonaro. Não vejo qual a necessidade. Laços especiais, dizem-me. Nem laços nem laçarotes. Se ao menos fosse lá para enterrar o miserável “acordo ortográfico”...

Esta ida só legitima o recém chegado presidente e parece ir ao arrepio do resto da União Europeia. É bem verdade que aquele sacripanta da Hungria estava presente mas, convenhamos que para companhia, antes o fantasma de D Sebastião.

E já agora bolsonemos: Bolsonaro foi eleito por uma confortável maioria e não houve notícia de fraudes eleitorais. Por muito que isso custe, foi democraticamente escolhido pelo povo brasileiro. Agora é que se vai ver o que fará tanto mais que o Congresso tem cerca de trinta partidos e que o mais numeroso deles é o PT. Estou para ver o que é que infrequentável evangelista vai poder fazer. Como chegou lá, já sabemos. Chegou porque, antes, a corrupção, o crime (63.000 homicídios/ano!) a troca de favores e o desastre económico prepararam a opinião pública.

Curiosamente, Bolsonaro, nestas últimas semanas, quase apagou os desmandos, esses sim cada vez mais patentes, mais perigosos, mais infames, dos senhores Maduro e Ortega. Nessas zonas tão próximas do Brasil, morre-se à míngua, de fome de falta de medicamentos, de morte matada de tudo o que é opositor. Por cá alguns antipatizantes (permitam-me o neologismo) de Bolsonaro calam-se como ostras quando a Venezuela ou a Nicarágua interrompem a conversa.

Pela parte que me toca, vou seguindo o que oiço de Fernando Henrique Cardoso, o melhor presidente que o Brasil teve desde que me lembro e lembro-me bem dos Café Filho, Juscelino e posteriores, generalagem incluída. Ver para crer. Estar atento (muito atento) aos desmandos do tal Jair mas enquanto as coisas não passarem disso, de palavreado imbecil, não me comover demasiadamente.

De todo o modo, ver S.ª Ex.ª, o Presidente a cumprimentar aquela criatura não me alegrou, não compreendi, antes me envergonhou. Est modus in rebus que não há comunidade linguística que tudo justifique.

Para começo de ano, basta o frio, a bolsa em queda, bastam as greves caseiras e os maus programas de televisão.

 

*na gravura: A Nicarágua do heroico Ortega

28
Dez18

Estes dias que passam 382

d'oliveira

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Alguém mente

mcr 28.12.2018

A Sr.ª Ministra da Saúde veio para os jornais afirmar que, no caso da Maternidade Alfredo da Costa, não houve anestesistas nem a 500 euros por hora.

Por hora? Quinhentos euros? Exactamente, disse e repetiu a azougada senhora. A Ordem dos Médicos veio dizer que S.ª Ex.ª não dissera a verdade. Por outras palavras: que mentira. E mentira à barba longa. Hoje, uma empresa das que fornece médicos veio dizer que o máximo permitido por lei era cerca de 39 euros. Isto é doze vezes menos do que o número da Ministra. Doze vezes! Arre!

Também é verdade que, já que se vai mentir, ao menos que se minta em força. Mentir por ninharias nem vale a pena.

A Sr.ª Ministra, entretanto, parece desconhecer que só em Lisboa faltam quarenta (40!) anestesistas. Sabendo-se que os hospitais preparam cerca de cem anestesistas por ano, e que o país vai ligeiramente além de Lisboa, fácil é de concluir que não é para amanhã a solução deste problema.

Alguns comentadores afirmam que os anestesistas preferem trabalhar no “privado”. Será? E, se assim for, qual a razão?

O “privado”, dizia uma política tão demagógica quão ignorante (e de má fé, acrescento eu) vive à custa de sangrar o SNS mercê do facto de os utentes da ADSE irem de roldão para os hospitais privados onde são atendidos com rapidez. Conviria lembrar à estulta criaturinha que a ADSE é integralmente paga pelos seus utentes que vêm os seus ordenados ou pensões mensalmente sangrados em 3,5%. Três e meio por cento é muito no bolso de qualquer um mas, no momento da verdade, quando a urgência em saber o que temos e como resolveremos o nosso problema de saúde, até se reza de contentamento.

Nada tenho contra o SNS. Aliás pago para ele, visto pagar impostos, todos os impostos (o que no caso do IRS só ocorre com um terço dos portugueses, os que, pelos vistos, serão ricos). Gostaria, contudo, que o SNS funcionasse bem. Que não houvesse falta de médicos, de enfermeiros, de pessoal auxiliar. Que no caso do “ H. S. João” no Porto as crianças tivessem instalações condignas, o que não sucede. Que na “urgência” de um hospital, cujo nome não citarei a menos que me apontem um facalhão ao pescoço. não se passeiem ratos na incómoda sala de espera dos acompanhantes, que no bar (se aquilo, aquela estrumeira, se pode considerar um bar, os produtos não tivessem o ar de coisas abandonadas à má sorte, velhas e rançosas. Que, em tantos estabelecimentos públicos, não se acumulassem doentes em macas nos corredores! Que os funcionários que nos atendem não tivessem um aspecto de homens do lixo depois de uma noite de trabalho intenso. Que o Infarmed não protelasse indefinidamente a autorização para os cerca de 300 novos medicamentos propostos. Parece que os preços são salgados, salgadíssimos. Também o eram para a hepatite e bastou o escândalo de um doente em alta grita para subitamente o Estado encontrar meios de se entender com a empresa fornecedora e começar a curar centenas de criaturas. Há quem diz que, nesse caso, as vítimas pertenciam a grupos de pressão muito fortes com acesso aos meios de comunicação mercê de ligações ao mundo artístico. Desconheço se é verdade mas que houve pressa na procura de um acordo, houve. E que o acordo se fez. Claro que, na altura, o Governo era “fascista” ou quase, isto é liberal. Agora com um Governo do Povo, pelo Povo e para a o Povo, as coisas serão diferentes. E os doentes, neste caso, são apenas meros cancerosos...E não pertencem a nenhum lobby, artístico ou de especial orientação sexual.

Mas voltemos ao mistério dos quinhentos euros. Alguém, da entourage da Ministra, sussurrou para um meio de comunicação simpático que a coisa eventualmente se passara entre um único provedor de serviços de saúde e as autoridades. E que só um profissional teria sugerido aquela tremenda soma. E que não se sabia se a sugestão era a sério ou se o número avançado apenas sugeria que ninguém estava disponível no dia de Natal.

Mesmo assim, seja por chalaça (estúpida), por ironia (cretina), ou só como desabafo (idiota). a coisa parece pouco crível. Tanto mais que nunca se identificaram quer o anestesista (se ele existe) ou a organização (se ela tem tabuleta para a rua). Em suma, no caso estou como S. Tomé, ver para crer.

Todavia, se nenhuma pista for encontrada, ficamos com a ministerial afirmação.  E com a violenta reacção da Ordem dos Médicos (que deve ser do mais reaccionário que há...). E assim, a dúvida (que no caso da Ministra actual, começa a ser metódica) permite pensar que a Senhora está a mais naquele poleiro a que a alcandoraram. Que, como no “princípio de Peter”, ultrapassou o seu limiar de eficiência e não presta para o Governo, este ou outro, seja o do Cazaquistão seja o da Coreia do Norte, seja o da freguesia de aldeia Velha de Sensaborões, sobretudo este último, mais próximo.

Não basta ser temido, muito menos destemido em palavras, importa sim não ter mentido.

27
Dez18

au bonheur des dames 468

d'oliveira

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Rui

mcr 27.12.2018

 

É a segunda vez que tenho o Natal ensombrado pela morte de alguém de quem gosto. Da primeira vez, foi a avó Aldina, a Velha Senhora, que os 97 morreu. Já esperávamos o desfecho mas não tão depressa e, sobretudo, nunca na véspera do Natal. A Velha Senhora, acamara um ano antes. De todo o modo, mantivera o sorriso e a boa disposiçãoo. Ela passara por tantas, em tantos remotos lugares, que estar de cama não a impressionava. Nem a ela nem à minha sobrinha Sara que ao ver a bisavó ali deitada à mercê de qualquer um, mesmo de uma catraia que lhe herdara o riso fácil e a alegria comunicativa, agarrou pela mão a Margarida, irmãzinha mais nova, e dirigindo-se à anciã disse-lhe mais ao menos isto: “Avó, antes que morras tens de contar à Margarida aquelas histórias que contaste a todos os netos e vários bisnetos...”

A Velha Senhora não se impressionou e apenas as mandou sentarem na borda da Cama e aí vai disto: duas ou três largas horas de histórias espantosas, contadas como só ela sabia contar. Morreu um ano depois, mergulhando-nos numa afliçãoo mesmo se sabíamos que ela estava por um fio. É que a Velha Senhora queria ainda conhecer uns trinetos nascidos longe e, se possível, vê-los crescer e vigiar naoros futuros, que ela também era muito casamenteira.

Desta feita, foi o Rui. O Rui Martiniano. Alfarrabista culto sempre com uma novidade escondida na banca que, jurava-me, estava guardada à minha espera! E apostrofava-me vigorosamente. “Você tem de ler este gajo que é dos melhores”. E, valha a verdade, quase sempre era. Mas eu resistia. Que o livro era grande e já não tinha pachorra, que cada vez – e é verdade – me interessava a ficção; que tinha um imensa pilha à espera de vez... E por aí fora. Só não repontava com o preço. Uma vez que o fiz, o Rui, truculento e generoso, disse-me: ofereço-lhe. E eu não tinha coragem para recusar e numa breve luta lá pagava o livro por um preço mais de saldo ainda.

Conheci o Rui Martiniano quando, graças ao meu tio Quim, companheiro de dezenas de anos de leituras e peregrinação por Lisboa, comecei a frequentar a feira dos alfarrabistas (todos os sábados, na rua Anchieta ali em pleno coração do Chiado). Na época, a feira ainda era no largo de S Carlos (suponho que é esse o nome) e, no Verão eu maldizia da calorina que ali se sofria. E lembrava o Eça, sempre ele, a afirmar diante do Fradique que o calor estava “de derreter os untos”.

Graças a Deus, a feira emigrou para o actual poiso, a poucos metros da Benard meu poiso para os cafés da manhã, e vagamente resguardado dos músicos de rua que exercem diante da Brasileira e, felizmente, longe da turistagem que se atravanca para a fotografia junto do Pessoa. Não que eles saibam quem é (como ainda menos saberão quem foi o Chiado ali recordado em estátua, ou sequer o Camões, também vizinho ou, ainda, o Eça um pouco mais abaixo na rua do Alecrim). Basta-lhes um cavalheiro sentado a uma mesa com uma cadeira disponível ao lado. E vá de se fotografarem impantes. Mais uma prova que passaram por ali onde, de resto, tiraram mais vinte ou trinta fotografias que, provavelmente nunca mais verão.

Mas eu falava do Rui. De um ex-editor que na “Hiena” (este nome só ele...) publicara umas dezenas de livros quase sempre imprescindíveis na biblioteca de quem gosta de ler e depois passara a vendedor de livros velhos. Foi, justamente, por reparar na pilha dos livrinhos da “Hiena” que chegamos à fala. A “Hiena” foi a editora de “A musa irregular”, do Fernando Assis Pacheco. Este livro, absolutamente essencial para quem queira saber da poesia portuguesa na segunda metade do século XX, deu azo a que nos descobríssemos editores ambos (eu através da Centelha) do FAP, que, por coincidência, também morreu de morte súbita vitimado por um aneurisma filho da puta. E também num Dezembro de má memória...

A partir desse dia, foi sempre a rolar. Nestes já largos anos em que por lá vou, sempre perto do fim do mês, a primeira visita era para Rui só para dizer bom dia. Depois, ia até ao princípio da fila das mesas e começava a explorar com cuidado, minúcia e alguma alegria as ofertas expostas. Em mais de uma centena de vezes, raramente saí da feira sem compras. Fiquei a estimar muitos daqueles alfarrabistas feirantes, sou mesmo amigo de alguns e, claro, amigo certo do Rui.

Conversávamos à rédea solta durante bastante tempo, ou seja até eu ter de arrancar para o almoço. Ajoujado de livros e com a carteira –sempre magra- bem mais leve. Partilhávamos um bom par de autores, lembro-me do Nicanor Parra que, agora descobri através da notícia necrológica de Luís Miguel Queirós (Público 23.12.18), ia directo ao coração de um misterioso Rui André Delídia, poeta com que nunca tropecei senão por via indirecta. Afinal era o pseudónimo do Rui. Irei procura-lo numa última homenagem ao amigo que, sexta passada, por volta do meio dia ainda me vendeu dois livros. Sábado, logo à chegada, um dos seus colegas, na primeira banca logo me deu a “triste notícia”. E a partir daí, todos os restantes colegas, de semblante carregado lamentavam aquele desaparecimento tão a destempo. Com eles, ficamos nós, os leitores e frequentadores da feira, mais sós, muito mais sós. Sessenta e quatro anos. Ao contrário da velha e belíssima canção dos Beatles, ninguém poderá contar com o Rui. O prazo dele esgotou-se.  

19
Dez18

Au bonheur des dames 467

d'oliveira

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O direito à greve não é para todos

(ou do direito ao bom uso de “fake news”)

mcr 19.12.18

O país assiste, com a resignação que o caracteriza, a um mês de Natal em que se cumprirão 47 greves se a matemática não me falha. É verdade que alguns dos pr´-avisos de greve dizem respeito à mesma classe profissional que vai cirurgicamente marcando dia sobe dias e greve sempre perto de feriados ou fins de semana para tornar mais atrativas as faltas ao trabalho e mais difícil a vida a quem usa transportes públicos, tem ir a uma consulta médica, fazer uma operação viajar enfim tratar de assuntos burocráticos numa repartição. Boa parte e mais dramática destas paragens de trabalho e de serviços diz respeito a funções tuteladas pelo Estado como é habitual. No comércio, na indústria, no ensino e saúde privados, nos serviços igualmente privados parece que não existe a famosa “consciência de classe”. Os trabalhadores destes sectores devem ser todos “lumpen Proletariat”, uma gentuça sem princípios, sem coragem, sem consciência da “brutal exploração” a que o “capitalismo monopolista” os sujeita. Não leram Marx (aliás. do lado dos revolucionários grevistas também não consta leituras do mesmo sujeito. Demasiadas barbas, demasiada prosa difícil, conceitos obscenamente abstractos e desnecessários. Felizmente existiram Politzer e Marta Harneker primeiro simplificadores. Depois, vieram os jornais partidários, hoje uma sombra do risível que já foram, que ainda simplificaram mais. E inventou-se uma coisa chamada “marxismo-leninismo” que já teve uma fase marxismo-leninismo-stalinismo e uma outra ainda mais vermelha a que se acrescentava o maoísmo e que até tinha um caderninho vermelho de bolso recheado de deliciosos pensamentos da autoria de um “grande timoneiro” (em Portugal, pais sempre de vanguarda, tivemos o pensamento imortal de um rapazola chamado Arnaldo de Matos que modestamente era apelidado “grande educador da classe operária”).

Durante o PREC apareceram mais alguns profetas do mesmo género, mas menores, e mesmo um militar que se pensou uma espécie e Fidel de Castro sem barbas nem carisma.

Nesses conturbados tempos, a União Soviética era o sol da terra (e talvez também o sal) segundo o dr. Álvaro Cunhal falecido em estado de santidade marxista leninista. E havia uns pândegos que em nome da “revolução”, da “luta final”, se entretiveram durante um par de anos a assaltar bancos (perdão, a recuperar meios de financiar a justa luta) ou a abater uns tristes, vítimas colaterais da luta contra o imperialismo.

É destes anos que datam as duas centrais sindicais, a “boa”, a “verdadeira” e a amarela. Esta demorou a afirmar-se, foi acusada de criar sindicatos paralelos, de servir os interesses estratégicos do patronato. Hoje, se não reina propriamente a harmonia já são raras as acusações mais virulentas. Também é verdade que apareceram ainda mais sindicatos ditos independentes mesmo se, globalmente, tenha baixado fortemente a taxa de sindicalização.

De todo o modo, há sectores onde o peso dos sindicatos é visível. O caso do Estado e das empresas públicas é o mais notório. Se uma greve de funcionários públicos da Administração central pouco ou nada prejudica o público em geral, já certos corpos especiais conseguem grande impacto público devido ao facto das suas greves afectarem a vida dos cidadãos. Os casos mais evidentes são os dos transportes. Autocarros, eléctricos, metro, ferrovia barcos da travessia do Tejo transtornam dramaticamente a vida de quem a eles tem de recorrer. E são sempre os mais pobres, os mais fracos, evidentemente.

E, assim, chegamos à grande controvérsia do momento: a greve cirúrgica dos enfermeiros.

A primeira questão que se põe, e foi a ministra quem primeiro tentou desqualificar a greve falando de crueldade, é a que decorre dos efeitos doa adiamentos de cirurgias, de tratamentos que obviamente terão efeitos prolongados. Uma operação que se adia demorará sempre algum tempo a efectuar-se. Durante esse período é fácil imaginar, a angústia do paciente, dos seus familiares e mesmo, o risco de consequências dificilmente imagináveis para a saúde do “adiado”, morte incluída.

Claro que conviria lembrar que a recente redução do horário de trabalho da função pública (de 40 para 35 horas) que entusiasticamente, e sem medir consequências imediatas ou mediatas, o partido da mesmíssima ministra levou a cabo sem sem que tivesse havido um aumento dos quadros nos hospitais (que, de esto, já pareciam insuficientes) tornou a assistência hospitalar pública (SNS) mais precária e problemática.

(à margem: mesmo sabendo isto, grupos políticos há que propõem um ataque em regra à medicina e aos hospitais privados. Mesmo que a pretendida eliminação da concorrência privada e social não seja a curto prazo, subsistirão dois graves problemas. Uma súbita enchente afogará o SNS e mais se afirmará a diferença entre uma assistência para ricos (privada e rápida) e outra para pobres que já é de uma lentidão escandalosa).

Todavia, o problema suscitado por esta greve é (também) outro. A começar pelas vozes que insistem em tentar negar aos enfermeiros um direito inscrito na constituição. Isto no exacto momento em que o Ministério Público e os Juízes insistem em recorrer a ele.

Depois, o “escândalo”: os sindicatos enfermeiros lançaram uma inédita e pública recolha de fundos para sustentar a greve. Vozes indignadas vieram a terreiro avisar gravemente que esse não é um bom processo. Parece que um grevista português deve sofrer sede e fome até obter ganho de causa. Ora, sempre houve meios de ajudar os grevistas a começar pelos fundos de greve, oficiais ou não, dos sindicatos.

Porém, o pior estava para vir: o fundo de greve dos enfermeiros por subscrição pública pode “eventualmente” ser pago, no todo ou em parte, pelas empresas de saúde privadas com o sinistro fim de prejudicar o SNS. Isto saiu da pena de várias criaturas escreventes nos principais jornais e foi badalado nas televisões e nos facebook e twiter.

Note-se que ninguém identifica os grupos privados que manhosamente auxiliam os enfermeiros. Basta sugerir essa possibilidade, tanto mais que o fundo se alimenta de entregas voluntárias e “não transparentes”.

Eis que os enfermeiros “cruéis”, segundo a nova ministra da Saúde, que, pouco a pouco mas seguramente ,disputa a taça da tolice à sua colega da Cultura, andam afinal a reboque dos hospitais privados. E do mais hediondo “capital”! Aliás, acrescenta-se outra tremenda prova: a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, é uma militante do PSD ou pelo menos uma colaboradora de antigos dirigentes desse partido. Ora, é sabido, que o PSD – e já agora o CDS – sendo um partido “burguês” (ou quase “fascista” e sempre, sempre, “reaccionário”) não tem direito algum a ter peso sindical. Isso estaria reservado aos verdadeiros representantes dos trabalhadores ou seja, prima facie, ao PCP e, vá lá ao BE. A la rigueur, talvez o PS ainda caiba nesse exclusivo clube, mesmo se, e cito uma boa porção de porta vozes comunistas e bloquistas, o PS tenha sempre um fatacaz pela Direita e pela política anti-popular e anti-operária.

Aqui chegados, como diria o inefável dr. Marques Mendes, temos que a greve da enfermagem enferma de graves pecados, todos capitais: é cruel, é, ou pode ser, paga pelos inimigos do povo e é impulsionada por partidos que não devem, não podem e não merecem defender greves mas apenas “lock-outs”.

(declaração de interesses: não conheço nenhum dirigente da Ordem ou de qualquer sindicato de enfermeiros, por junto sou sobrinho por afinidade de uma enfermeira aposentadíssima e cunhado de outra que apenas dá aulas a futuras enfermeiras. Desconheço, de resto, o que é que ambas pensam da greve, coisa que pouco me importa. Estou solidário com todo e qualquer paciente que tem de recorrer aos hospitais públicos e vê as suas legítimas espectativas de ser bem atendido goradas. Sei, porém, igualmente, as razões de uma luta que vem de há anos e que começa no menosprezo do Poder pelos que trabalham na enfermagem, que continua na falta de pessoal, na dureza das horas extra, no desdém pela qualificação profissional de toda uma classe que é, a par dos médicos, a base do SNS.)

 

12
Dez18

Au bonheur des dames 466

d'oliveira

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Não é com alegria que registo ter tido razão

 

Há um par de anos, escrevi aqui, que em Portugal havia a moda de erigir fundações sem dinheiro. Ou, de outra maneira: simplisticamente, uma fundação é um conjunto de bens auto-suficiente que se emprega ou que procura um fim (normalmente útil, moral, social ou economicamente).

Sem dinheiro, de preferência vivo e abundante não há fundação que resista.

Confiar na generosidade alheia, no mecenato de pessoas, instituições ou empresas para custear o funcionamento de uma fundação é mais do que uma imprudência, um erro que se revela trágico ao fim de algum tempo.

No campo da “cultura”, que venho frequentando há largas dezenas de anos, existe a ideia de que a simples vontade, algum talento, outro tanto de trabalho e muito entusiasmo, conseguem milagres. Falso!

Estou à vontade para o afirmar, tanto mais que participei numa boa dúzia de tentativas de criação de instituições culturais (revistas, livrarias, editoras, cine-clubes, etc.).

Em meu abono, apenas posso dizer que sempre puxei pela magra carteira e a abri mais do que podia e devia. Sempre prevenindo que aquilo que se estava a criar sofria de falha congénita (fundos suficientes e regulares). Numa determinada ocasião um amigo meu (Arnaldo Fleming, desaparecido demasiado cedo) solicitou-me para sócio de uma livraria “alternativa”: a “Erva Daninha”. E jurou-me que “aquilo” tinha pernas para andar. Respondi-lhe, aceitando o convite e desembolsando a soma devida, que não acreditava: “nem sequer ao pé coxinho lá vamos”.

Todavia, associei-me e fui um dos mais certos e maiores compradores de livros naquela pequena lojinha aninhada na rua da Conceição, Porto. “Estou nisto pela aventura, pelo risco, pelos nossos belos tempos de 68 mas isto vai dar raia”, expliquei ao sempre entusiástico Arnaldo.

Deu! Evidentemente! A Erva secou ao fim de um par de anos de vida vegetativa: faltavam clientes para o produto que se vendia, faltava dinheiro para aguentar a despesa corrente, para fornecer a livraria de livros que nem sempre se vendem à primeira. A “erva...” era um nicho perto da “Leitura” (paz à sua alma!) e da “Académica” uma grande livraria alfarrabista porventura a mais antiga do Porto.

No capítulo das revistas, a coisa foi ainda mais rápida: uma (Espaço) finou-se depois do número 1. Outra (uma nova versão de “o Tempo e o Modo”) nem chegou a aparecer. Para ambas tinha enviado textos que, também eles, nunca viram a pálida luz do dia. De resto, um deles morreu uma segunda vez num pequeno incêndio em minha casa.

Tudo isto para falar do eminente colapso da “Fundação Mário Soares”.

Ao que sei, além do enorme e importante arquivo do fundador, estavam lá depositados outros, igualmente interessantes e, em certos casos, de ímpar importância (basta referir o espólio de Amílcar Cabral que, suponho, vai muito além de Cabo Verde e Guiné Bissau. Cabral foi, é minha convicção, o mais importante político africano de expressão portuguesa, o mais bem preparado, o mais culto e o que maior influência teve em África.)

A FMS digitalizou milhões de documentos e pô-los à disposição de estudiosos e, eventualmente, do público em geral.

Li que também outorga prémios (com a inevitável contribuição mecenática de empresas) e está aberta a conferências, colóquios, sessões de toda a espécie.

Tudo isto exige uma intendência robusta, profissional e... cara. Isto tudo custa dinheiro. Dinheiro que ou não há ou só há dependendo da boa vontade de mecenas.

Enquanto Mário Soares foi vivo os apoios lá foram chegando e um dos mais importantes tinha a ver com o facto do ex-Presidente ter na sede da Fundação o seu gabinete, pago pelos cofres públicos o que (eventualmente) ajudaria a pagar parte das despesas de funcionamento daquela.

Todavia Soares morreu e, eventualmente (repito-me) os apoios financeiros diminuíram, ou simplesmente desapareceram. Porém a estrutura da fundação permaneceu dado que os objectivos fixados no seu estatuto continuavam a ser os mesmos.

Agora, anuncia-se a morte, ou quase, da fundação, a provável transferência de espólios para alguém que os consiga manter e tratar quando não a sua restituição aos legítimos proprietários que os tinham entregado em depósito.

Isto significará sempre uma perda. Perda relativa, avisa-se desde já, porquanto muitos dos que hoje choramingam este previsível desfecho nunca lá puseram o lépido pé, menos ainda contribuíram com um mero cêntimo para a prossecução das actividades da FMS.

Há nesta pátria antiga, que resmunga mas que não ajuda, o velho e pernicioso hábito de, boca afora, soltar trinados maviosos pela “cultura”. No entanto lê-se pouco, deserta-se o teatro, deixam-se as artes plásticas ao alvedrio de ricaços recentes que empregam alguns críticos e curadores como capatazes das suas colecções, exige-se em alta grita museus gratuitos e pejados de obras, permite-se a venda para o estrangeiro de bibliotecas inteiras coligidas com carinho e sacrifício por leitores entusiásticos mas que morrem.

Eu bem me lembro da gritaria pela colecção (de terceira ordem e sucessiva e rapidamente vendida várias vezes) dos Miró ou pelos uivos de pura e patriótica indignação por um quadro que por cá andou clandestino durante gerações e que o dono quis vender em Paris ou Londres. Não tenho a menor simpatia pelo vendedor português mas não duvido que nunca alguém, por cá, estivesse disposto a igualar a oferta de cinco milhões de euros de que se falava.

Também é verdade que poucos aborígenes do cantinho lusitano se oferecem para ajudar as compras do Museu Nacional de Arte Antiga. Vamos lá que nos dois casos que conheço (e para os quais contribuí) lá se arranjou o dinheiro para adquirir as peças que o Museu desejava. Todavia, seria de esperar uma muito maior afluência de donativos que pudessem constituir uma espécie de fundo para o museu poder continuar a tentar enriquecer as suas colecções.

Se, de facto, houvesse um sólido movimento de pessoas entristecidas com a desaparição da fundação Soares, poder-se-ia pensar numa grande subscrição nacional para socorre-la e, já agora, na criação de grupos de amigos que anualmente pagassem uma quota ligeira para suportar a instituição. Ou até, oh heresia capitalista e afrontosa, num sistema de quotas diferentes de, p.ex., cinco vinte, cem, mil cinco mil euros ou mais, atribuindo pequenas regalias claramente diferenciadas aos doadores. É o que faz o enorme “Metropolitan” de Nova Iorque (aliás julgo que todos os ricos museus americanos o fazem) e que começa timidamente a tentar fazer-se na Europa. A ideia tonta, e corrente entre nós, de que a democracia rasoira por baixo não faz sentido. Os museus americanos expõem pelo mesmíssimo e simbólico bilhete de entrada todo o seu espólio. A quem dá muito, as instituições garantem um simbólico reconhecimento que vai da pré-inauguração privada de uma exposição até uma placa numa sala com o nome do (muito, imensamente) generoso contribuinte.

Entretanto, a Torre do Tombo prontifica-se (pela voz de Silvestre Lacerda seu excelente director) a acolher os espólios que sairão da fundação caso sejam resolvidos os problemas jurídicos levantados pela propriedade dos mesmos. Creio, até, que aceitaria jubilosamente o espólio de Soares. Conheço o Arquivo Nacional desde que o frequentei para levantar cópia de catorze processos contra mim levantados pela PIDE e pela DGS. Verifiquei que naquela casa se trabalha com eficácia e que quem lá vai tem ao seu dispor salas confortáveis e um atendimento profissional. Há (ou havia) mesmo uma pequena livraria que vende a preços de saldo publicações da extinta comissão nacional para a comemoração dos descobrimentos.

O ANTT bem mereceria, como aliás a Biblioteca Nacional, que a lei ou um qualquer regulamento capaz, contemplasse a possibilidade de haver pequenos (e grandes, porque não?) mecenas regulares que, todos juntos, pudessem ajudar a salvar, comprar, restaurar documentos, arquivos, mapas e livros que actualmente necessitam de restauro e conservação.

Isto que daqui digo, aplica-se a outras instituições de enorme significado e interesse público desde o Instituto de Investigação Científica e Tropical, ao Jardim Colonial, ao Arquivo Histórico Ultramarino ou (declaração de interesses: sou o sócio 20692) a Sociedade de Geografia de Lisboa que, ao fim de mais de 140 anos, atravessa dificuldades várias. Ao menos visitem-na: é no Coliseu, tem, além do museu, uma biblioteca notabilíssima, um grande fundo de publicações de invulgar qualidade histórica e científica para venda e um restaurante/bar simpático. Quanto ao seu programa de actividades bastará dizer que mensalmente são numerosas as sessões e conferências abertas ao público em geral sobre os mais variados temas. Isto para não referir o “boletim” que é publicado desde 1875!

A “cultura” é, antes de tudo, uma questão de cidadania e quer-se absolutamente independente do “Poder” seja ele o do Estado ou o de empresas, grandes ou pequenas. As fundações culturais devem usar da mesma e útil prudência para não ter que alguma vez pagar muito por pequenas ajudas nem sempre desinteressadas. Ou de morrer quando os ajudadores não as consideram suficientemente gratas...

*Na gravura: a belíssima e riquíssima (culturalmente) Fundação Maeght em Saint Paul de Vence, cerca de Nice e de uma boa dúzia de bons museus que reunem muito do que é muito bom da arte moderna a partir dos anos 900. Aqui para nós, na região de Nice só as praias é que são fraquinhas.