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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Mar19

Au bonheur des dames 475

d'oliveira

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Instantâneo na cafetaria

mcr (nos idos de Março)

 

Odeio a apalavra “cafetaria”: trata-se de um espanholismo mais do que dispensável mas que se impôs devido ao desuso de “café”. Hoje, os estabelecimentos do género foram desaparecendo ou transformaram-se em pastelarias-padarias, com um vago serviço de refeições que, elas mesmas, não são exactamente almoços e, muito menos, jantares, mas apenas um desafogo da fome que nos dá por volta do meio-dia, uma hora.

Eu, que já não me posso considerar uma novidade (eis outra palavra decaída: dantes novidade era bem mais do que uma notícia acabada de chegar. Significava também alimentos frescos, da estação, entre muitas outras coisas. Novidade era frescura, algo que, no capítulo da alimentação também já vai carecendo de sentido) ainda recordo os grandes cafés de antigamente, aqueles a que se era fiel toda uma vida, onde se podia até receber o correio e recados variados.

Havia cafés que além dos salões de jogo e dos bilhares ainda ofereciam outros serviços. O “Montecarlo” em Lisboa até tinha barbeiro, vejam lá. Para já não falar dos engraxadores, oficiais de ofício humilde mas útil que nos davam um ar novo e resplendente ao sapato. Hoje, também, os sapatos de couro vão desaparecendo, melhor dizendo, vão-se reduzindo a uma clientela rica, a única que pode dar-se ao luxo de comprar sapatos portugueses de grande qualidade e preço compatível.

Mas os cafés lá vão acabando, tornando-se mais pequenos, mais cafetarias, já quase não há bilhares e os que há são de snooker, ou melhor de uma variante do snooker que é bem distinta e mais fácil do que aquela modalidade que o Eurosport oferece amiúde e me põe doente só de ver como aqueles jogadores dominam a arte. Eu tenho cá por casa uma mesa de bilhar, bilhar francês , versão normal, nada daquelas grandes mesas onde se jogavam partidas “às três tabelas”. Mesmo assim, já não tenho parceiros e contento-me em jogar sozinho contra mim próprio o que, convenhamos, é pouco interessante.

 

Mas, como escrevia, estou na “cafetaria”. Contra o costume é agradável, o serviço é eficiente, há algumas ofertas originais para petiscar e, no inverno, há uma lareira enquanto que, no verão há ar condicionado. E fica mesmo em frente da porta da garagem...

 

Ao meu lado, uma senhora escreve com a mão esquerda. Canhota, portanto. Que inveja lhe tenho. Sou canhoto, canhotíssimo faço tudo com a esquerda, menos escrever. Naquele tempo, a escola primária (que alguém dizia que era “risonha e franca”) não estava preparada para meninos canhotos. Fui obrigado a aprender a escrever com a mão direita. Nem sequer me passou pela cabeça queixar-me em casa. Quando, muito mais tarde, falei disso, o meu pai perguntou-me porque é que eu calara aquela horrenda violência. Tarde piei...

Durante anos a minha caligrafia era mais indecifrável que o linear b. Tive de aprender a desenhar a letra. E tão bem o fiz que toda a gente ma gabava. Só eu me queixava de tantos anos de tentativas e de não ter aprendido a escrever com a mão que faz tudo.

Nem imaginam quanto me custa ver outros a usar a esquerda para escrever. E parece que se multiplicam esses canhotos felizes, raios os levem.

É verdade que (com grande dificuldade, há que dizê-lo) consigo escrever com a esquerda mas o que sai é uma caligrafia miseravelmente infantil, sinal indelével de um tempo outro em que, sob outro nome, já havia um politicamente correcto provavelmente menos perigoso e imbecil que o actual.

Vivemos, como afirmava o poeta, tempos realmente extraordinários, em que tudo parece possível e, ao mesmo tempo, extremamente perturbantes: há por aí alguém que seja capaz de me explicar o que se passa com os ingleses, melhor dizendo, os britânicos? Que é que aquela gente quer? Se é verdade que irlandeses e escoceses (e boa parte das classes mais educadas e jovens) votaram contra o Brexit, se como tudo parece indicar, a vida tornar-se-á mais complicada ecara para todos, como é que houve tanta gente a preferir sair da Europa?

O caso mais extraordinário é o do País de Gales grande beneficiário dos fundos europeus e maioritariamente contra a mão que trazia uma cornucópia de euros. Também não deixa de parecer extravagante que seja um pequeno partido do Ulster p principal apoio da senhora May uma fraca cópia de Margareth Tatcher, a dama de ferro. Uma fronteira a sério nessa ilha poderá trazer (ou trará inexoravelmente) a guerra civil larvar que ausou milhares de mortos e consequente miséria mesmo à minoria protestante irlandesa. Sobretudo, quando se vê actualmente uma República da Irlanda próspera e liberta da férula católica que a asfixiava. A Grécia, há pouco tão incensada, por alguns radicais portugueses (que entretanto já não podem ver o senhor Tsipras, herói decaído das senhoras mais representativas do BE (será que o substituíram pelo grande burguês Varufakis ou mais tolamente ainda pelo venezuelano Maduro ou pelos resquícios autoritários do sandinismo que atormentam a Nicarágua?)

E já que se mencionou a Venezuela, então o famoso apagão da semana passada é obra dos americanos? Isto quando se sabe que a principal central eléctrica (Guri) esta sem manutenção há mais de dez anos e reduzida a um terço ds suas possibilidades, como desde há dez anos já se afirmava. Se não foi o traiçoeiro Trump foi o senhor Guaidó... espantalho conveniente num país one há anos falta tudo excetpo a fome, as prisões políticas e os mortos em manifestações pacíficas.

Eu, que já não sou uma novidade, ainda me lembro de um famoso apagão em Nova Iorque que teve consequências tremendas. Olha se os americanos se tivessem lembrado dos mais recentes inimigos vietnamitas (a guerra durou até 1975) ou do “inimigo interno” (estudantes protestatários, black panthers ou outros grupos negros de direitos civis) o que não se teria então dito. Pelos vistos, agora, a versão de Maduro obtém o assentimento beatífico de meia dúzia de cidadãos portugueses, alguns dos quais piedosamente calados durante o Estado Novo. Naquela época o silêncio destes agora buliçosos indignados e venezuelófilos (o neologismo é da minha responsabilidade) permitia conservar os empregos na função pública e escapar ao serviço militar nas colónias, nas frentes de guerra activas e perigosas.

Raios me partam, canhoto que sou, não percebi que estar calado poderia ter-me evitado tantos dissabores e, ao mesmo tempo, permitiria apresentar-me, hoje, de cara lavada e impecável (mas imaginativa) folha de serviços anti-fascistas, anti-imperialistas e anti mais qualquer outra coisa que me viesse à ideia ou estivesse na moda.

Dia seguinte:

Entretanto, mudei de poiso matinal. Na esplanada de sempre com vista desafogada para o jardim. O sol (primavera antecipada que iremos pagar com uma valente seca lá mais para o verão) entra pela vidraça do teto e acerta-me em cheio na cabecinha pensadora. O sr. Luís, dono do pequeno local jura que já encomendou uns panejamentos de lona para proteger a clientela mais sensível a estes excessos luminosos. Só que... ”o sr. dr. Já sabe. Neste país tudo é para se ir fazendo e nada para se fazer já. A encomenda foi feita no ano passado e já vamos em Março...”, lamenta-se.

É bem verdade. Vivemos de projectos, de promessas, de antecipar o futuro para melhor prolongar o passado pegajoso, lento e ineficaz que trazemos no ADN.

Veja-se, para não ir mais longe, o triunfo daquela triste criatura que comanda a lista do PS às europeias. No seu mandato, as promessas acumularam-se. No que toca à ferrovia foi o que se viu. A realidade, sempre essa miserável que só faz desfeitas aos políticos, é menos buliçosa: faltam comboios, falta pessoal de manutenção, as linhas do Oeste (Figueira da Foz –Lisboa), do Algarve e do Sueste funcionam ao pé coxinho, melhor dizendo com os dois pés coxinhos. Em todas as circulações eliminaram-se comboios e, mesmo assim, o atraso é a regra. As linhas de Sintra e de Cascais que carreiam para Lisboa, centenas de milhares de trabalhadores, tem horários rarefeitos tem menos composições, e as que ainda circulam já deveriam estar retiradas por terem ultrapassado há anos o prazo de validade. Um dia destes há uma desgraça e vai-se a ver nunca aparecerão responsáveis. Ou aparecem os do costume, uns desgraçados que não mandam nada, que ganham uma miséria e que são obrigados a conduzir aquilo, aquelas latas de sardinha sobrecarregadas sob pena de, se o não fizerem, se reclamarem, se denunciarem o previsível naufrágio, serem despedidos.

Os polícias manifestaram-se: parece que no que toca a aos de serviço perdidos ainda estão pior que os professores. Parece também que não há subsídio de risco, que não lhes é reconhecido o estatuto de profissão de desgaste rápido, que as esquadras (ou uma significativa parte delas continuam a ter deploráveis condições, para já não falar na falta de viaturas e de outros meios. Felizmente que os criminosos indígenas são mansos e, muito portuguesmente, pouco activos. A apregoada segurança dos cidadãos deve-se não à capacidade policial mas apenas à frouxidão endémica do crime local de baixa produtividade o que, aliás, está de acordo com as mais recentes estatísticas sobre o trabalho nacional. Há males que vem por bem!

* a ilustração: acidente de comboios em Alfarelos. 

 

08
Mar19

Au bonheur des dames 474

d'oliveira

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o oito de março devia ser todos os dias, há de ser todos os dias

mcr, 8.3.2019

 

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
Non sa come andare avanti
se la prende coi padroni, se la prende coi padroni e con i santi
E dio si arrabbia e non la vuole più.

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
Sta a guardare le signore
e si chiede che cos’hanno, e si chiede che cos’hanno di migliore.

Non ha tempo per i figli
Crescono in casa come conigli
Si lamenta del suo stato
Produrre, far l'amore e fa’ ‘l bucato.

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
ha perduto la pazienza, 
non le va di fare più, non le va di fare più la riverenza
E Dio si arrabbia e non la vuole più.

 

para Anna Maria O., florentina, ourives, a quem num momento de estravagante mas nunca lamentada loucura amororosa ofereci "Portogallo mio rimorso" de Alexandre O' Neil . Demorei mais de trinta anos a reencontrar o livrihoe outros tantos a não esquecer este amor de verão su la spiagia, stessa spiagia, stesso mare...

(leitoras - se as há, a letra da canção vai no original pois parece fácil de traduzil e  mais de entender)

*na gravura: "maternidade" etnia Bulu 

22
Fev19

Estes dias que passam 388

d'oliveira

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O Carnaval está próximo 2

mcr 22/2/19

 

Carlos, o bombo da festa

 

Não conheço o dr. Carlos Costa de sítio nenhum e é bem provável que nunca me venha a cruzar com ele. Dele apenas sei o que sabe qualquer cidadão que tenta estar informado. E que tenha acompanhado, desde há um par de anos, a sua trajectória como Governador do Banco de Portugal. Cabelos brancos, ar cordato, fala afável e segura, perfil discreto são bons argumentos mesmo que não sejam suficientes para definir um cargo que, por força de lei (e mais ainda depois das regras adoptadas pelo Banco Central Europeu –BCE-) tem de tutelar prudente mas firmemente o sistema bancário português.

CC começou já há bastante tempo por ser acusado de “não ver”, ou ver enviesadamente, o que se passava em certos bancos, nomeadamente o Espírito Santo.

A carreira deste banqueiro que passou pela CGD durante um curto período – e não o pior nem o mais descarado- começou a ser contestada depois de Passos Coelho lhe ter confirmado o mandato para onde fora indicado pelo sr. Sócrates. Ou seja, para certa gente, ele era bom durante o “socratismo” mas mau logo que o passismo despontou! Bizarrias.

Costa foi acusado de nada ter lobrigado no cafarnaum do BES. Tal e qual como Constâncio cuja miopia bancário-política foi idêntica. Só que Constâncio, além de ser socialista, foi para a Europa e Costa ficou por cá a ver o terramoto acontecer.

O segundo (nem falemos da mortal inimizade de Centeno) ataque (aliás pluripartidário) a CC consistiu em tentar embrulhá-lo em financiamentos medonhos da CGD a gente “acima de toda a suspeita”. Aliás, apenas a um, visto que o grosso dos desvarios criminosos ocorreu posteriormente com os resultados que se conhecem (se é que já conhecemos tudo!...). Costa teria estado numa reunião alargada (ora toma: eis que a CGD, tal qual o comité central do PC tem também “reuniões alargadas, provavelmente com os mesmíssimos efeitos de encenação vagamente teatral e realmente sem qualquer importância...) E que nessa reunião se teria atribuído a um empreendimento algarvio uma forte soma sem atender ao risco, às garantias e a tudo o resto. Na versão de Costa o que houve foi tão só uma reunião onde sem se conhecer destinatário, se enunciaram princípios que justamente previam a existência necessária de um sindicato bancário e o escrupuloso acatamento do parecer da comissão encarregada de avaliar o risco. Posteriormente, já sem Costa, na nova reunião mais estricta (ai não!) decidiu o financiamento.

Quando alguém é acusado de algo, compete ao acusador provar sem lugar a dúvidas a acusação. O acusado poderá depois defender-se. No caso de Costa, pelo que se vai sabendo, a versão dele parece ser a mais consistente enquanto a acusação não conseguiu até agora provar a sua participação na efectiva concessão desse mal paradíssimo crédito (lembremos que, na altura, era o dr. Constâncio o governador do BCP e o cuidadoso vigilante das tropelias bancárias...).

Bizarramente, o dr Costa também foi acusado de passar férias no mesmo empreendimento turístico. Dez anos mais tarde! Arre que demorou a cobrar algum hipotético favor. A isso, Costa responde afirmando ter pago totalmente a semana ali passada. Competiria aos acusadores provar que lá esteve à borla mas isso, a estes, terá parecido ser supérfluo!...

Quanto ao caso BES, a coisa parece também extraordinária. Passos Coelho, honra lhe seja, não quis acudir ao senhor Espírito Santo. Todavia, é Costa quem merece os ataques desesperaos do senhor Espírito Santo que, pelos vistos, está “bem” acompanhado pela gente que subitamente (terá sobre ela, numa surpreendente noite de nevoeiro, descido o Espírito Santo à semelhança daquela outra vez há dois mil e tal anos?).

Entretanto Costa, António, parece recusar-se a alinhar n companha contra o actual Governador. Primeiro é quase impossível correr com o homem; depois, este está a um ano de terminar o seu mandato; finalmente, as regras do BCE são, em caos deste tipo, claras. Todavia, fundamentalmente, enquanto Carlos vai apanhando de todos os lados, António põe o lombo a salvo e tenta passar por entre as gotas da chuva.

A riqueza da nação

No ano de 2018 houve 29.500 famílias a pedir a intervenção da Deco por não terem possibilidades de pagar as dívidas contraídas.

Estas, em média, atingem os 924 euros (contra 850 no ano anterior)

A média de créditos concedidos anda pelos 62.770 euros (contra 60.500 em 2017)

A taxa de esforço média das famílias que pedem ajuda está nos 80% quando no máximo não deveria ultrapassar 35%

O rendimento médio das famílias nesta situação situa-se nos 1150 euros (menos 50 do que no ano anterior) Isso significa que o rendimento disponível fique em níveis quase inimagináveis:226 euros.

Estes dados foram obtidos no “Público” de quarta feira.

O tremendo retrato que daqui sai deveria preocupar-nos a todos e, sobretudo, os arautos da maravilhosa vida que o país está a ter. Deveria ser esfregado na cara (eu ia a dizer no fcinho) de certas forças políticas que aora andam numa roda-viva pelo país a explicar os benefícios que trouxeram à pátria neste quadriénio que está findar.

Outros sinais (aumento da dívida pública, baixa nas espectativas sobre o défice que não atingiu a meta governamental “por culpa dos estivadores de Setúbal”... ) deveriam ser levados a sério.

Porém, como o inefável Pangloss, Costa (António) apregoa os êxitos e varre para a sargeta tudo o resto. E nele vão mais 30.000 famílias subitamente empobrecidas.

Não vou afirmar que o desvario despesista seja todo culpa de quem governa mas o discurso “irritantemente optimista” destes anos pretéritos alguma mossa há de ter produzido neste desastre, aliás anunciado.

No rol de despesas verificadas há uma componente forte dos débitos pessoais e de cartão de crédito. O crédito à compra de habitação também ocupa um lugar importante, obviamente. E não deixa de ser preocupante o facto de o rendimento médio das famílias ora em causa ter bio de 2017 para 2018 (50 euros).

Faço notar que o artigo (2 inteiras páginas) refere o facto dos solicitadores de auxílio virem da média burguesia, das classes de idade compreendidas entre os 25 e os 65 anos com maior incidência na faixa 40-54 anos.

E, mais grave ainda, entre quem pede ajuda há 33,3% e 39,6% de pessoas com o 2ª ou 3º ciclos. Não se trata pois de ignorantes, de iletrados mas sim de gente com educação. A eles juntam-se 18,7% de licenciados o que complica ainda mais o retrato e aumenta a ameaça de ruptura social.

 

CTT (a regra e a excepção?)

Há 2 semanas zarpei para Lisboa e só quando estava a chegar é que descobri que não trazia qualquer documento (cartão de cidadão, carta de condução, livrete) nem, pior, dinheiro vivo ou os cartões de crédito. A falta de dinheiro, desde que chegasse a casa da família estava resolvida. Aliás fui ao meu banco e obtive um cartão de crédito provisório. No que toca ao resto dos documentos a coisa era mais complicada. Era uma quarta feira pelo que ou os recebia no ddia seguinte ou máxime na sexta ou ficava numa situação difícil. A todo o momento, quem guia pode ter algum acidente e a primeira coisa que nos pedem são os documentos.

Indaguei na estação de correios se havia meio de receber com rapidez os documentos em falta. Havia, graças e louvores se deem a todo o momento ao divino Sacramento! Há um expediente chamado correio expresso que permite receber no dia ou na manhã seguinte até às onze horas (no caso da expedição ocorrer depois do meio dia) o qur for enviado. Até há seguro!

No momento em que os CTT apanham pela medida grande, há que reconhecer que este serviço – não sei se recente se antigo – funciona. E funcionou impecavelmente. Antes das 10 horas da manhã de quinta voltei a ser um cidadão “documentado” e menos angustiado. Sei que isto não tranquiliza quem, em vez de uma estação completa de correios, tem agora uma “loja” cuja eficácia desconheço. Mas convém também noticiar que nem tudo é mau no actual serviço.

 

Que é que ele quer?

O senhor Corbyn não para de me surpreender. Por mais noticiários ingleses que tente ver ainda não percebi se quer sair ou permanecer na Europa. Se ama desveladamente os judeus ou se, como alguns péssimos sinais indiciam, os quer muito longe dele. Se quer derrotar a Sr.ª May ou se alimenta no seu já cansado coração à beira dos setenta anos um derriço pela dama. Se vai fazer –como até agora se verifica – frente comum com a gentinha conservadora do Brexit ou se tem um projecto crível e viável para uma Grã Bretanha cada vez mais irreconhecível.

Já não questiono as suas opções políticas, sobretudo o regresso impossível a um passado socialista que se alimentava da Escócia boa votante e dos sindicatos que burocratas como ele mesmo foram varrendo para o caixote do lixo da História.

A recente deserção de meia dúzia de deputados (a que se junta uma outra desta vez “torie” de três deputadas) e as declarações deles deixa Corbyn ainda mais desconfortável. Digamos que a sua carreira -aliás obscura – no Labour pouco ou nada promete aos britânicos. May, de resto, acompanha-o nesse cortejo fúnebre.

Se a Europa, por uma vez organizada e de acordo, não parece disposta a aturar muito mais tempo a Sr.ª May, tão pouco se agita entusiasmada com Corbyn. Nem sequer os socialistas e social-democratas do Parlamento Europeu.

Basta-me uma pergunta que propõe Corbyn para a fronteira do Ulster com a República da Irlanda?

 

“aperta o teu coletinho

 

O filósofo francês Alain Finkrelkrault foi há dias violentamente insultado por vários “gillet jaunes” que não só o ameaçaram como o tentaram agredir. Um dos seus atacantes é, aliás, uma criatura ligada ao movimento salafista, o mesmo é dizer, um fanático islamista. Ao mesmo tempo, e em vários locais por onde os coletes passaram, apareceram inscrições anti-sionistas (Nem Simone Veil escapou) .

Já por aqui deixei escrito que esta gente que todos os sábados se reúne e se manifesta não passa de um agrupamento ocasional de descontentes que assume a “jacquerie” como se fora uma revolução. Não o é, pese embora a opinião de muitas luminárias “progressistas”, dessas que estão sempre à espera de um terramoto social. Em França, a saudade da revolução é uma constante e, a cada par de anos, anuncia-se um novo e miraculoso movimento salvífico que dura o tempo da estação amorosa dos pirilampos. Não é oiro mas apenas purpurina. Em boa verdade, grande parte dessa inteligentsia francesa que que sente periódica mas subitamente o orgasmo revolucionário, é profundamente reaccionária e acaba sistematicamente nas academias, nas mordomias e na boa consciência. Todavia, o mito revolucionário (basta lembrar os anos da “ocupação”, a vergonha imensa da colaboração que foi quase unânime -nem o PC escapou no primeiro ano!...- ) foi cuidadosamente alimentado por muita da mais lida historiografia oficial e oficiosa. Desde então é o que se sabe: um sobressalto, umas vagas barricadas ou nem isso, gritaria nos media e aí está pret a porter mais uma revolução, sempre a boa, a definitiva.

Desta feita, são os coletes amarelos que pedem tudo e o seu contrário e, pelo caminho, vão – e não poucas vezes – pilhando, destruindo, incendiando o que lhes está pelo caminho. Pouco a pouco mas com segurança vão aparecendo os sinais de uma extraordinária, mas não surpreendente aliança entre a extrema direita e a extrema esquerda (leram bem: extrema esquerda, a França insubmissa e outras patacoadas idênticas) numa clássica condenaçãoo de tudo o que ameaça o modo de vida conformista e conservador francês (ecologia aí compreendida, claro). .

Por cá, houve uma erupção benigna dessa acne revolucionária: apareceram umas tristes e solitárias criaturas que depois do estrondoso anúncio da sua vinda se juntaram num pequeno grupo junto ao Marquês de Pombal. Eram mais os polícias que os manifestantes à volta os lisboetas prosseguiam imperturbáveis a sua vida de todos os dis. Nem os turistas, sempre ávidos, tiraram fotografias. Aquilo era demasiado pobrete, nada alegrete e reles.

Em França, a coletagem já está em maré decrescente mesmo se em certos programas (cfr “28 minutes” /ARTE) ainda apareçam alguns raros exaltados adeptos daquela bagunça ideológica. De facto, e no fundo, bem no fundo, o que dali sobra é o racismo, o nacionalismo exacerbao e uma profunda incultura política. Só.

E esperemos que mesmo nos estertores da agonia, este cego e incerto movimento não acabe com alguma morte que será sempre a de alguém que nada tem a ver com as razões de descontentamento sentidas por quem se vê excluído.

 

08
Fev19

Au bonheur des dames 472

d'oliveira

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Isto é como as cerejas

mcr 7/8 de Fevereiro 

O Sr. Presidente da República foi ao bairro Jamaica porque a) é o presidente de todos os portugueses; b) não pede o cadastro criminal a quem o abraça e se fotografa com ele.

Nada a opor. Nada é um modo de dizer. Corre nos meios próprios um processo sobre o que realmente se passou durante uma intervenção policial. Tudo indica que alguns moradores, mormente uma família jubilosamente fotografada com o mais alto magistrado da Nação, se envolveram num confronto duro com agentes policiais. Segundo uma testemunha do mesmo bairro foi “natural que um dos agressores civis tivesse atacado um ou vários policiais porquanto um (ou vários) destes estariam a agredir um familiar”. Isto passou vezes sem conta na televisão e as imagens não permitem verificar quem começou o confronto. Verdade se diga que essas imagens vem de um habitante local e não é garantido que não tenham sido manipuladas antes de serem dadas à publicidade por alguém.

O sindicato dos polícias terá reagido duramente afirmando que o presidente tomou partido por uma das partes ao mesmo tempo que se tem sistematicamente negado a verificar as condições a que os agentes estão submetidos (desde a miserável situação de muitas esquadras onde não há condições de qualquer espécie até à falta de meios. O sindicato acrescenta que a exígua força policial em causa foi chamada ao bairro para pôr fim a uma zaragata; que qualquer entrada em muitos bairros degradados se torna sempre problemática devido à hostilidade dos residentes; finalmente, que estas situações de embate e confronto resultam sempre em violência bilateral porquanto a polícia, na eminência de uma agressão, reage com violência igual ou superior à usada contra ela.

É perante este cenário complexo que a visita particular do Senhor Presidente não pode ser considerada especialmente oportuna e, muito menos, a fotografia festiva com a família envolvida nos acontecimentos. Provavelmente, houve mais selfies (o Senhor Presidente não é exactamente avaro desse tipo de manifestações conviviais a pontos de eu chegar a pensar que sou o último português a não estar no álbum de selfies presidenciais) com outros moradores mas a que chegou a todas as redacções foi esta. Dir-se-á que nada disto coloca o PR no pelourinho mas também não deixa de ser compreensível a indignação dos polícias. Claro que, mais dia, menos dia, S.ª Ex.ª visitará de surpresa uma esquadra degrada e aí haverá outro festival fotográfico provavelmente sem abraços que os agentes não são exactamente civis mas que poderá ser brandido como resposta a esta pequena querela que, de todo o modo, é significativa da onda populista que o Dr. Rebelo de Sousa, por fas ou por nefas, inaugurou.

Ninguém quer um “presidente ensimesmado em Belém” (sic, Amílcar Correia, Público de 6.2.19) mesmo se a frenética actividade de MRS pareça um tanto ou quanto desajustada da função presidencial, mormente a sua deslocação ao Panamá (oficial ou privada?) por ocasião das jornadas mundiais da juventude católica. O Senhor Presidente de jovem já não tem nada, excepto os netos, a República é laica mesmo se qualquer pessoa de bom senso reconheça que a Igreja Católica tem por cá bastante peso e, sem favor, se posa considerar um dos factores estruturantes de Portugal. Basta lembrar que D Afonso Henriques não descansou enquanto não obteve – a troco de grossa soma de morabitinos ou moeda semelhante – o reconhecimento papal do Reino.

Acho muito bem que MRS dê público testemunho da sua fé, que entre em procissões religiosas ou que comungue amiúde. A religião de cada um é um assunto de cada um e, enquanto isso não importunar a dos outros ou o ateísmo de alguns, parece bem que exista e cresça num clima de liberdade e sadia concorrência com todas as restantes fés religiosas e com a liberdade pessoal de todos e cada um em geral.

Todavia, e para terminar, conviria lembrar ao Senhor Presidente a frase latina (sempre útil e particularmente adequada ao momento) “est modus in rebus”.

 

2 (a cor do rosto)

Num debate pouco pacífico, sempre sobre o Jamaica (o bairro e não a ilha do Caribe onde músicos geniais e corredores de velocidade pura parecem pulular) o senhor Primeiro Ministro respondeu a uma reiterada pergunta da senhor deputada Assunção Cristas que ela ao questioná-lo sobre se condenava ou não as violências ocorridas no bairro, entendeu chamar à colação a cor da sua pele numa (pouco) subtil acusação de racismo da oponente. Cristas ficou espantada, a Assembleia pasmou e Ferro Rodrigues teve mesmo de chamar a atenção do beligerante Costa para a irremediável tolice proferida.

Fora um que outro motorista de táxi, nunca ouvi ninguém chamar a Costa “preto” ou “monhé”. Houve, é certo uma campanha eleitoral em que Costa aparecia rosadinho como um leitão antes de ir ao forno mas isso foi uma burrice do fotoshop partidário que terá entendido não dever mostrar alguém com ligeiros traços de mistura de raças. A cor da pele, em Portugal só é acusação quando o seu portador é pobre (ou cigano, claro mas mesmo aí a coisa não é generalizada). Chineses e indianos (ou nepaleses que agora são muitos) passam despercebidos nesta guerra de cores.

Que bizarra razão terá impelido Costa para vir a terreiro com a sua cor quando há na Assembleia, no governo e nas elites nacionais, várias pessoas “de cor”. Mais: o partido da senhora Cristas teve – e tem – vários cavalheiros de origem indiana, de nomes até indianos, de religião hindu para não falar de mestiços de origem africana. Provavelmente mais, em proporção ou mesmo absolutamente do que o PS (ou o PC ou o BE).

Alguns (míopes) adeptos de Costa juram que Cristas o provocou. Não sou dessa opinião mas, mesmo que isso tivesse ocorrido, um político frio como Costa poderia (e deveria) manter-se impassível e não abrir esta estúpida, inútil e perigosa guerra das cores.

O desnorte da sua resposta deixa-me (e deveria deixar-nos a todos) inquieto. Muito inquieto.

 

Sapateiro, não passes da sandália!

 

O sr. Ministro Matos Fernandes, além de usar barba, é uma pessoa simpática. E tinha, até à data, dado mostras de bom senso e ponderação, qualidades inestimáveis (e pouco frequentes) num político indígena.

Todavia, embalado pela razoável aceitação do pópulo lusitano, entendeu falar do que não sabe nem, aliás, necessita de saber. A saber (perdoem a duplicação): o fim dos motores a diesel.

Disse S.ª Senhoria em tom professoral que os compradores de veículos a diesel deveriam ter juízo e pensar que daqui a cinco anos o valor de troca dos seus veículos seria bem menos razoável do que o que esperariam. Ou seja, o senhor Ministro passou a certidão de óbito destes motores de explosão. “Vem aí o eléctrico”, terá acrescentado.

S.ª Ex.ª exagerou ligeiramente. Quer no futurar, quer na análise do presente. Vejamos:

Em Portugal o peso dos veículos eléctricos é de 1,8% e daqui a um lustro (ai que bela oportunidade para usar esta esquecida palavra!) andará, se o preço baixar muito (muitíssimo) e se a bolsa dos portugueses engordar significativamente, pelos 30/40%. Estes dois “SE” são , há que convir, bastante incertos sobretudo se os quisermos juntos. Digamos, para abreviar, que isso seria a cereja em cima do bolo (estão a ver a pouco subtil referencia ao título do presente folhetim?) mas que os tempos não são assim tão promissores para dar a coisa por favas contadas.

As grandes marcas internacionais não parecem tão seguras. Provavelmente, não tem as luzes proféticas do senhor ministro. Nem a sua presciência... O prazo para as coisas serem como o Ministro Matos Fernandes prediz é, segundo as marcas, mais do dobro.

Mas há mais: ao contrário do que alguns mal avisados seguidores do senhor Ministro afirmam, num arroubo beato de admiração, neste momento a venda de diesel é ainda superior à dos veículos a gasolina. Os “SUV” estarão na base desta escolha mesmo se, de facto, um carro a diesel só seja rentável a partir dos 30.000 km/ano. Porém, uma coisa é economia, outra o gosto pessoal. E a malta anda entusiasmada com os SUV. Não há volta a dar-lhe...

E volta a haver mais, muito mais: o preço (oh medonha palavra!) dos veículos eléctricos!

Mudei, recentemente, de carro. Tenho o péssimo hábito de pagar a pronto (Horroriza-me andar anos a dever dinheiro). E, contas feitas , saio a ganhar.

Ora o carro eléctrico (e não falo dos Tesla ou do Jaguar I Pace, é sempre acima dos € 50.000) como o “modesto” Nissan leaf que andará à volta dos 35.000. Ou seja: estes veículos custam uma pancada de euros. São caros para 98% dos portugueses. Ponto, parágrafo!

E outra vez mais, que isto não para. A autonomia. Os melhores modelos não ultrapassam os 500 km. Ou seja nem para uma ida e volta de Lisboa ao Algarve! Mas, diria o melífluo ministro, há postos de recarregamento!

Há, de facto umas escassas dezenas dessas coisas num par de auto-estradas (A 1 e A 2). Mesmo se estiverem todas em condições (o que não é de todo em todo seguro) há que contar com dois factores: haver um posto livre e aguentar o tempo de carga que é sempre superior a uma boa meia hora (e estou a ser generoso).

A segunda opção (ter um posto de carregamento rápido em casa) também não é exactamente barata, bem pelo contrário.

Ou seja, e resumindo, o automóvel eléctrico ainda tem muito que penar para ser uma alternativa credível.

Continuando: o sr Ministro parece esquecer alguns factos óbvios:

Há em Portugal e em circulação 700.000 (setecentos mil veículos com mais de vinte (20) anos. Para isso concorre a compra anual de usados que chega aos quarenta e muitos mil cada ano.

As novas disposições da UE referentes ao diesel (e aplicáveis já há dois anos) tornam esta opção bem mais limpa do que aquela a que S.ª Ex.ª se referia.

Os transportes públicos ainda não fizeram, cá, pelo menos, a mudança para fontes mais limpas. Pior: abandonaram-se ( no Porto e em Coimbra) os trolleys que nos anos 50, 60 e 70 já eram eléctricos... Os transportes de longo curso idem, aspas.

A alternativa ferroviária foi absolutamente desprezada mesmo se agora, num descarado esforço propagandístico, se anunciem milhões e milhões de compras de comboios que chegarão -se chegarem - daqui a 5, 10 ou mais, anos. Até umas miseráveis automotoras a diesel e alugadas à Espanha vão demorar meses e meses.

Um pai ou mãe de família com filhos em idade escolar não vão seguramente recorrer aos transportes públicos para levar as crianças às diferentes escolas.

Finalmente, e neste capítulo, o carro individual ainda é uma marca de ascensão social e isso demorará uns tempos largos a ultrapassar pese embora a ingénua e escoteira percepção da realidade do senhor Ministro. Digamos, piedosamente, que S.ª Ex.ª falou mais com a ideologia do que com uma ideia mais próxima da realidade.

Parece que há, neste país, uma central eléctrica a carvão. Saberá S.ª Ex.ª que essa central polui tanto como 45 milhões de automóveis?

Por mera cortesia não vou falar na frota automóvel do Estado que está velha e cuja substituição se pauta pela lentidão do caracol. O ministro que tanto filosofa sobre o diesel dos carros particulares (e dos outros de transporte de passageiros ou mercadorias...) não vê os telhados de vidro da sua própria casa. Devem estar sujos pela contínua emissão de partículas produzida pelas viaturas oficiais.

 

Merece parágrafo especial a afirmação do Secretário de Estado João Galamba quando revela que a substituição do diesel não está nos planos do Governo. Já se sabia que no Governo há filhos e afilhados mas não deixa de ser brutal um desmentido feito por um Secretário de Estado sobre as afirmações de um Ministro. Que este fica fragilizado não deixa dúvidas sequer a um menino do jardim escola a aprender as primeiras letras. No PS actual há os que mandam e os que lá vão fazendo aquilo que lhes deixam. Matos Fernandes que, intelectualmente, me parece bem melhor que Galamba, deu um tiro no mimoso pé.

 

Parece que o Ministro da Propaganda, vulgo do Planeamento, será quem encabeçará a lista socialista ao Parlamento Europeu. Merece essa reforma gozosa: andou estes anos todos a prometer obras e obras, investimentos de toda a espécie que só o futuro (problemático) mostrará se tem pés para andar. O indígena paciente já se contentaria se a ferrovia melhorasse como se previa há vinte anos, se a descentralização avançasse com pernas para andar, enfim se 10, 20 ou 30% dos projectos realmente vissem a luz. A europa que aguente mais esta extraordinária contribuição do génio lusitano que não parece deixar saudades por cá. Lembremos que a taxa de realização do anterior plani de investimentos públicos não ultrapassou –até ao momento- 0s 35%! Mesmo assim, já foi anunciado um outro plano ainda mais ambicioso que começará um pouco depois das eleições. Que conveniente!

 

 

PS: descobri, maravilhado, um disco duplo com inéditos do Zé Mário Branco, velho, velhíssimo amigo. Parte das canções ouvi-as, entusiasmado e comovido, num pequeno bar de Paris (onde o CITAC ia representar - no Théatre de l’ Odéon, se faz favor!!!- nos princípios de 68. Tão jovens que éramos. E tão esperançados.

Vai sair um disco com inéditos do Zeca Afonso, outro velho amigo da mesma época. Creio que parte desses inéditos consiste numa gravação de um espectáculo durante a Queima da Fitas de 1968 ( o mesmo ano, outra vez!). Se sim, eu estava lá e bati palmas até as mãos me deixarem de doer. Comigo, o antigo incursionista António Lopes Dias, poeta e amigo, que depois, durante horas discutiu o que então pareceu ser uma (boa, exaltante) inflexão na poesia do Zeca. Durante esse ano e no seguinte, JA veio várias vezes a Coimbra, solidário e generoso. Também ele, indirecta mas firmemente, fez a grande greve de 69 (deixemos nesta breve notícia uma lembrança terna para o António Mendes de Abreu, cedo desaparecido, e um abraço para o João Nazaré, onde quer que esteja. E que esteja bem! Muito bem! E que dê sinal de vida, porra!).

* Vai a crónica, também, para lembrar a Isabel Alves Costa, na altura casada com o Zé Mário. Militante cultural, a ela se deveu o Festival Internacional de Marionetas do Porto. Morreu cedo, demasiado cedo e alguns de nós recordam-na com uma lágrima e muita alegria.

 

 

23
Jan19

Estes dias que passam 385

d'oliveira

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E a Caixa?

 mcr aos 21/1/19

(não sou especial fã dos CTT – nem na nova forma nem na antiga –vivo numa zona onde não faltam agências -parece que agora se chamam lojas-, uso a empresa apenas para cartas registadas ou envio de embrulhos, o que significa um uso muito marginal. Não conheço nenhum dos figurões que o dirigem nem me apetece conhecê-los. Sou, tanto quanto me parece, relativamente neutral nesta questão que subitamente parece levantar-se ou agravar-se).

A nova empresa CTT tem, segundo testemunhos razoáveis e críveis, diminuído o número de postos (ou estações). Por seu lado o Conselho de Administração da empresa jura que aumentou o número de locais onde os usuários dos correios podem ser atendidos.

Neste ponto, conviria perguntar se esse aumento colmata a falta que o encerramento do anterior posto criou. Isto é, se a população órfã de serviço de correios, tem com igual comodidade acesso a outro idêntico ou melhor. A pergunta é legítima porquanto o novo local pode ser em zonas já com serviço de correios deixando sem ele outras que correspondiam ao posto encerrado. Não é a mesma coisa abrir loja em Lisboa para substituir a que se fechou em Carrazede do Meio.

Em segundo lugar, seria bom e útil saber quais os serviços que deixaram de ser prestados nas zonas ora desertadas. Duvido bem que seja a recepção ou envio de correspondência. Não por estes terem sido substituídos pela internet mas apenas pela singela razão de nos meios envelhecidos e rurais não só subsistir algum analfabetismo mas também não ser normal a troca de correspondência. Já o caso dos vales de correio com a magra reforma e uma que outra encomenda poderá efectivamente tornar-se um problema mais sério.

Em terceiro lugar, poderia pensar-se no serviço de telefone fixo muito embora o mesmo agora possa ser processado por várias empresas que retiraram aos CTT esse monopólio e, desse modo, deixaram ainda mais abalado o nome da empresa. Nem telefones e pouco ou nada de telégrafos...

 

Conviria, porém, atentar neste facto: Há um outro serviço dito público, dito de medonha importância para os cidadãos que também tem vindo a desaparecer aceleradamente do interior: A Caixa Geral de Depósitos, o tal banco “público” que já nos custou uma fortuna e que encerra balcões com uma velocidade que se mede com a usada pelos CTT (também ele, agora, banco) . Permitir que aquela em nome do interesse público e da economia feche balcões ao mesmo tempo que se ruge contra idêntica atitude dos CTT parece-me ser mais um apelo ao uso de língua bífida do que crítica razoável. Tanto mais que a Caixa também era o mealheiro dos mais pobres, o local onde se descontavam as magras pensões de reformados vivendo no interior e que também recorriam à famosa “caderneta” onde constavam as suas escassas poupanças.

O jornal Público traz na edição de hoje (23/1/19), e em páginas centrais, um resumo da escandalosa lista de empréstimos de alto risco a personalidades e empresas portuguesas de onde até à data já resultaram largas centenas de milhões de euros de prejuízo. Na impossibilidade de “nacionalizar” a Caixa só se vê a hipóteses de a privatizar!... Isto para usar do medicamento “reversor” que agora está na moda.

Convém lembrar aos mais assanhados “renacionalizadores” que retirar os CTT da esfera privada poderá ser um excelente negocio para os accionistas que viram a empresa perder mais de 50% do seu valor de venda.

A ideia peregrina de defender o “serviço postal universal” coitadinho é de “ir às lágrimas”. Está-se a defender algo que, se não está morto, está já moribundo e pronto a receber os santos óleos. Não sei se ainda existem os “postais” da minha juventude (pois não os vejo à venda em parte alguma) ou se ainda se troque correspondência em papel. Pelo fraco movimento de venda de selos nos quiosques adivinha-se o cada vez mais reduzido uso deste meio de comunicação. Isto, nos quiosques onde ainda é possível encontrar selos. E a razão é simples: o correio electrónico é gratuito ou, melhor faz parte de um pacote onde também entram a televisão, os restantes serviços de internet e o telemóvel. E se é verdade que, subsistem muitas dezenas de milhares de portugueses info-escluídos, também não é menos verdade que é nessa categoria que se encontram os grupos que menos consumo fazem de produtos dos CTT.

Provavelmente, com certa ironia, um jornalista do citado Público afirma que com a reversão dos CTT só há um ganhador: o grupo privado accionista dos CTT que se livre dos incómodos e fica com a parte boa, o Banco CTT que, à luz das regras da UE, não é nacionalizável.

Depois, se verá se reabrem as lojas fechadas e/ou substituídas por postos nas sedes das juntas de freguesia. E no, improvável caso de serem reabertas, se funcionam com o mesmo número de trabalhadores ou com outro bem superior (relembremos a famigerada passagem das 40 para as 35 horas de trabalho). E se o reactivado serviço universal postal miraculosamente faz surgir cartas às centenas ou aos milhares par justificar as ânsias reversoras de algum PS (que espera votos e postos de trabalho) e da generalidade dos seus aliados a quem a ideologia nacionalizadora cega até à demência. E se tudo isso leva à famosa revitalização do interior, à criação de empresas e de indústrias que mobilizem os escassos recursos humanos locais e exijam uma nova corrida de gente a estas regiões. E, já agora, se obrigam a CGD, tão pública e tão amiga dos desfavorecidos, a reabrir os balcões entretanto fechados.... Sonhar é, sempre, fácil –já agora seria interessante ver responsabilizados os gestores que, contra todas as boas regras do negocio bancário, ofereceram um bodo a uns quantos influentes (e eventualmente receberam uma gorda gorjeta pelos bons serviços prestados). E nessa responsabilização seria bom ver implicados os governantes que indicaram, impuseram e nomearam essas administrações que só lá foram colocadas para servir amigos, amigalhaços, afilhados políticos e outros espécimes de má frequentação. É verdade que a cadeia de Évora está superlotada mas com uns módulos a mais (como no caso dos contentores da pediatria do Hospital S João) acolher-se-iam uns quantos “cavalheiros de indústria” que tem sangrado o país e a Fazenda Pública desaforadamente. Se os contentores podem acolher crianças durante décadas também poderão dar guarida a adultos ladrões. Poder-se-ia mesmo, instalar lá uma estação de correios mesmo que se duvide que os nela instalados sejam capazes de escrever sem erros...

* na ilustração: a medonha mastaba que se vê é a sede da CGD em Lisboa. Mais do que um susto! A pedir um terramoto ali mesmo localizado a bem do bom gosto  (e do bom senso).

18
Jan19

Au bonheur des dames 471

d'oliveira

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Cumprindo a tradição

mcr 18-1-18

Os incursionistas lá se juntaram uma vez mais sob a batuta gastronómica de JVC. Perito nas artes de bem comer e ex-fumador de enormes charutos cubanos (o juízo e a idade   - ah, a p.d.i.!!!-foram mais fortes do que a frenética procura do prazer...) que, desta feita propôs a “Casa Nanda” que mantem jus ao bom nome adquirido. Presentes os resistentes e já lá vão mais de treze anos desta incursão nos misteriosos domínios da cloud e de outras coisas que nunca percebi.

Ao todo éramos cinco, (“mocho atento, que jura que vai voltar a escrever, “o meu olhar”, idem, aspas, aspas e JCM. d’Oliveira fez-se representar por mim, para alguma coisa servem os compadres, presume-se que ele ande por aí (como o dr Santana Lopes, mas sem projecto político que se conheça) pelo que talvez possamos afirmar que o grupo era não de cinco mas de 5+1, sendo este último algo de evanescente um pouco como o fantasma de Canterville (saravah Oscar Wilde).

Para não fugir à regra estivemos de acordo que continuamos em desacordo mas que isso, como nas boas e antigas democracias não impede a convivência, a conversa franca e o companheirismo. Remamos todos na mesma galé e a barca lá avança entre ondas agitadas e ventos nem sempre propícios. Mas lá vamos que o caminho faz-se caminhando (olá, António Machado, velho senhor).

E lembrámos com saudade (muita) o “Carteiro” que se fosse vivo teria acabado de ser avô e todos os camaradas que andam noutra. Que tudo lhes seja propício e que, em querendo, deem aqui notícias dos seus afazeres e prazeres. A casa foi vossa, é vossa, a mesa está posta com mais alguns pratos e talheres.

Não nos esquecemos de muitos amigos e leitores que nos honraram e honram com a sua discreta e amiga companhia. Saravah, malta conhecida e desconhecida, saravah, bloggers conhecidos e desconhecidos, esta nossa campanha não é o facebook onde anda tudo a likes e amigos, muitos, uma multidão e fake news. Aqui a malta diz o que pensa, como quer e quando quer, não likamos envergonhadamente mas explicamos porquê, como e o quê.

Como também é tradição fomos os últimos a sair do restaurante para a noite fria (raios que estavam 5 graus, brrr, eu não me posso queixar que para estas noites luso-siberianas tenho um sólido capote alentejano, com uma imensa gola de raposa legítima, ai Jesus que aí vem o gajo do PAN, oh que medo!... em entrando a invernia, abafo-me, avinho-me (moderadamente) e abifo-me (no caso apeixo-me (como ontem com uma bela posta de rodovalho, peixe nobre que marchou com duas batatinhas, grelos excelentes e um molho que nem vos digo nem vos conto). Os líquidos acompanhantes tinham a chancela de JCP, gourmet e escanção amador de alto gabarito.

Lá para Maio, época de aniversário do blog lá nos veremos de novo, especialmente primaveris mesmo se em questão de Primavera nenhum de nós (exceptuando “o meu olhar”, claro) seja uma especial novidade. Eu mesmo só por boa vontade me intitulo outonal que setenta e sete anos feitos (e perfeitos) já cá cantam bem desafinados.

(nunca percebi como é que gostando tanto de música, ópera, clássica, jazz, soul, rock, etc..., sou tão duro de ouvido. Que ninguém me mande sequer cantar o “dó, ré, mi” que eu até nisso meto a pata. Arre!

Quando éramos novos, cantávamos. Ou melhor os outros cantavam e eu metia a a argolada do costume. Lembro-me duma canção do Pete Seeger em que só me era permitido iniciar o refrão “a wheema whe...( (the lion sleeps tonight que na realidade é uma bela música zulu com o titulo de “Mbube”)). Mas aos negros sul africanos tudo foi tirado até esta música...). Era o meu único e irrepetível momento de glória).

Isto, hoje vai mais em tom intimista mas que querem, eu até preferia este género de temas mas a realidade é dolorosamente outra e alguém tem de se indignar para provar a si próprio que ainda está vivo. Mas os amigos, a lembrança do Carteiro, o jantarinho e o frio de Janeiro puxaram-me para esta “furtiva lágrima” (Viva Donizetti e o seu belíssimo Elixir de Amor).

Uma nota final: a ilustração (uma belíssima gravura estilo “shunga” do grande Utamaro é uma homenagem ao casal Guilhermina e Joaquim que tem um filho no Japão)

 

 

17
Jan19

Au bonheur des dames 470

d'oliveira

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É Pessoa (Fernando) que assassinam

mcr 16-1-19

 

Em vida, Fernando Pessoa teve pouca sorte. Viu os seus muitos e melhores poemas serem ignorados, troçados ou vigorosamente criticados e sempre pelas más razões. Concorreu a um único prémio e a sua excelente “Mensagem” ficou atrás de um livrinho tosco, desinspirado mas “amigo” das entidades premiantes ou de quem elas dependiam. A sua vida privada foi, também ela, banal e nem a paixão pela bela Ofélia o salvou do celibato. E bebia demais mesmo se isso eventualmente afectasse menos o seu emprego do que o facto de fazer versos. A sua glória é toda póstuma e isso deve-se a muitos e desinteressados esforços desde Luís de Montalvor a João Gaspar Simões. A partir de finais de quarenta a sua estrela começou a agigantar-se e nos anos sessenta era consensual considerarem-no o maio poeta do século XX que, apesar de tudo, ainda tinha muitos anos que percorrer.

Depois caiu nas mãos de pessoanos apaixonados que, se vasculharam laboriosamente a sua mítica arca, também produziram muita prosa obnóxia nem sempre boa e poucas vezes excelente. O seu túmulo acabou nos Jerónimos (antes isso que o Panteão Nacional), o seu mais famoso retrato deixou os “Irmãos Unidos”, ali, no Rossio perto da “Suíça” (também desaparecida) e praticamente em frente do “Nicola”, poiso de Bocage e que ainda (por quanto tempo?) resiste. No Chiado, em plena esplanada de “A Brasileira” lá está a sua estátua, sentado a um mesa de botequim, o inevitável chapéu de aba larga, os óculos e uma densa mas discreta melancolia. Agora, aquilo é pascigo de turistas que, aos milhares, se fotografam a seu lado sem sequer saberem quem é que ali está e, muito menos, sem terem lido um único verso do poeta.

Há pouco tempo, os jornais exaltaram-se com a notícia de Lobo Antunes entrar para a gloriosa colecção “Pleiade” (uma (aliás, uma das 165) das razões da minha permanente impecuniosidade). Pessoa anda por lá há anos e não recordo que, na altura, tenha havido alarido semelhante. A “Pleiade” é os Jerónimos vivo e imortal de alguma da melhor literatura mundial. Ainda por cima, trata-se de uma colecção belíssima, cuidadosa, bem apresentada, melhor documentada. Os livros valem os preços pedidos (actualmente aquilo anda entre os 55 e os 65 euros por volume, mas na Internet, na Feira dos Alfarrabistas da Rª Anchieta, ou nos “bouquinistes” dos cais do Sena arranjam-se por preços bem mais módicos. Há mesmo algumas boas e antigas livrarias parisienses que vendem alguns volumes com preços mais baixos e, normalmente, em bom ou muito bom estado. Cito as Gibert (Bd St Michel ou na place St Michel – são diferentes- onde há farta escolha)

Tudo isto para fazer ressaltar a extraordinária notícia de uma edição escolar que apresenta a belíssima “Ode Triunfal” com três versos escondidos sobre um pouco –mas imbecil e canalha – manto de asteriscos.

Eis, a negrito, os versos lapidados pelos lusos talibans acoitados na Porto Editora:

...Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas

...(Ah a gente ordinária e suja que parece sempre a mesma,

que emprega palavrões palavrões como palavras usuais

cujos filhos roubam à porta das mercearias)

e cujas filhas aos oito anos –e eu acho isto belo e amo-o-

masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

 

As criaturas que organizaram a edição e a própria editora ou ignoram os mais elementares princípios de respeito por uma obra literária ou foge-lhes a mãozinha censória para o “antigamente” rural e sacripanta que, em defesa dos bons costumes, do decoro e da moral varriam para debaixo do tapete ou para trás das grades ( ou as duas coisas) tudo o que as incomodava (a elas ou à “ordem estabelecida”). No caso em apreço, a coisa agrava-se com as declarações imbecis com que defendem o indefensável (no caso a amputação a frio de três versos. À uma afirma-se que a mesma editora (a Porto editora) tem o mesmíssimo poema editado na totalidade; depois pretende-se que esta acção de trucidar um poema dá aos professores a possibilidade de repor a verdade dele, explicando aos alunos as partes em falta dentro do “devido contexto”!

Estamos todos a ver o angelical quadro do “sotor” ou a “sotora” a pontificar sobre pândegos e putas ou ainda melhor a condenar energicamente a referencia pedófila às meninas que masturbam cavalheiros (provavelmente pagantes ou meros familiares) nos vãos de escada. Estou mesmo a pensar no educador que previne os adolescentes de 17/18 anos sobre as maleitas do onanismo (que enfraquece; que conduz à surdez; que isto e que aquilo, não esquecendo que se trata de um feio acto, pouco higiénico e que, como as drogas ligeiras é o caminho certo para actos sexuais mais graves... E por aí fora.)

Ah, como a escola pode ser risonha e franca!

Nada disto é especialmente novo pois recordo o meu longínquo 3º ciclo dos liceus em que Gil Vicente, esse arruaceiro, usava injúrias deliciosas como “fideputa”. A pudica senhora doutora (naquele tempo havia respeitinho) não chegava à rase, antes a saltava e procedia do mesmo modo com partes do Canto Nono que, obviamente, era a única parte dos Lusíadas que líamos. E com a vantagem de ninguém nos mandar “dividir as orações” coisa que ocorria com todo o resto do imortal poema e que provocou em milhares de inocentes uma azia definitiva a Camões.

A notícia que li não traz –como devia – menção aos coordenadores da edição. Se são professores do ensino secundário –e é quase certo que o sejam – pergunta-se como é que esta gentinha obteve o diploma e quem é que lhes entregou a responsabilidade de citar ou propor Pessoa.

É verdade que algumas vozes se fizeram ouvir e, entre elas, as de representantes da Associação de Professores de Português. Estranhamente, o Sindicato está mudo e quedo. Se calhar, entende que isto não lhe diz respeito. Literalmente, não mas os professores e a sua famosa luta pelos nove anos quatro meses e não sei quantos dias só tem razão de ser se a classe docente, for tida como competente, culta e ao serviço da educação. O silêncio perante esta burrice supina não ajuda, bem pelo contrário.

Há neste jardim (ou “torrãozinho de açúcar”), além a Portuguesa de Escritores, uma associação que protege os direitos autorais. Pelos vistos essa protecção cessa ao fim de umas dezenas de anos. Cessa, de facto, quanto a dinheiros a receber mas deveria permanecer quanto à defesa d integridade da obra escrita, para não referir outras.Pessoa caiu no pântano do domínio público mas merecia ser respeitado e defendido. Publiquem-no, ganhem dinheiro com ele (o dinheiro que ele nunca ganhou) mas defendam a obra. Defendam aquela parcela de património imaterial da Humanidade e sobretudo de Portugal e da língua portuguesa!

(curiosamente o grande opinante nacional ainda não disse nada sobre o assunto. Também não é preciso e, já agora, saúda-se esse silêncio cada vez mais raro .Também são de saudar os respeitáveis silêncios de dois ministros, o da Educação e a a da Cultura. No 1º caso, S.ª Ex.ª teria de explicar ao pópulo a persistência anti económica – e pelos vistos –anti educativa – de, no mesmo exíguo país existirem tantos e tão (na aparência) diversos manuais escolares. Serão todos bons? Será apenas fruto da ganância de editores e de autores?

No caso seguinte, já não se espera da Sr.ª Ministra opinião fundamentada em algo mais do que o seu pessoalíssimo gosto sobre qualquer matéria.)

Na imagem: retrato de Pessoa (Almada) que esteve em anos saudosos nos "Irmãos Unidos". Muitas bicas bebi com o tio Quim à sombra amada e amável do poeta. Acho que, por minutos, nos sentíamos membros do grupo do Orfe, ou pelo menos seus leitores imediatos e contemporâneos.

08
Jan19

Estes dias que passam 384

d'oliveira

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Indo por partes

mcr 7/8 Jan 19

 

O país, algum país, provavelmente apenas uma pequena parte, está comovido, exaltado, indignado ou, simplesmente, excitado. A causa tremenda é conhecida: um pobre diabo, um indivíduo sem a mínima representatividade (política, moral, social) apareceu num programa da manhã a responder a uma questão (também ela) pouco interessante. Tratava-se, ao que li e agora estou farto de ouvir, de saber se Salazar, enfim o seu impertinente fantasma, estava vivo (como o de Stalin nos corações progressistas de uns centos de criaturas “m-l” que ainda hoje rodam por aí dentro de partidos legais ou de frentes partidárias assumidas e com responsabilidades) e se seria necessário o seu regresso. Convenhamos que a pergunta não era do mais inteligente e que denotava falta dolorosa de tema para uma televisão ou para um programa (ou para um mero apresentador).

Todavia, um tal Manuel Machado, assanhado cabeça rapada, foi ao dito programa dado, pelos vistos, ter “opiniões polémicas”. No caso polémico deve significar burro (e não me refiro só ao entrevistado...).

Na questão de polémicas ficou-se por pouco. Regougou umas frases com escasso sentido e pior gramática, afirmou que não era contra os homossexuais nem contra os pretos e deixou no ar – ao que consigo perceber dos relatos confusos mas palavrosos que vão chegando – a ideia de que com uma extrema direita daquele género podemos nós, sem sequer erguer um pé para uma canelada. A coisa foi, e estou a ser generoso, risível. Direi mesmo que convinha repetir o programa duas, dez, vinte vezes para que o público português percebesse que se o perigo é aquilo então poderemos dormir descansados. Um pouco como a prestação da senhora Le Pen frente a Macron: um desastre e uma goleada do actual presidente francês.

Uma segunda constatação, também prévia decorre da personagem entrevistada. A criatura tem antecedentes criminais e não poucos inimigos no meio onde vegeta. Foi condenada e esteve na cadeia largos anos pelo que, nesse domínio, pagou à sociedade as suas malfeitorias. E pagou-as pesadamente, ao contrário de algumas “personalidades” que, volta que não volta, se pavoneiam nas televisões indígenas e que tem nas mãos o sangue inocente de umas quantas “vítimas colaterais”. Não consta que tenham sido julgadas e condenadas e, pelos vistos, aquilo, aquela autoria moral descabelada, parece ter sido um pecado venial, umas dores do parto da democracia, uns pequenos excessos perdoáveis pela opinião pública já esquecida (ou apenas conformada com uma justiça a várias velocidades e com a conveniente amnésia política da nomenkatura).

Portanto, vir agora, relembrar o passado prisional do tal Machado parece-me uma segunda tentativa de condenação por factos já julgados e punidos.

Porém, o pior disto tudo, desta gritaria escandalizada de filisteus é confundir uma burrice televisiva com um golpe de Munique, com uma marcha sobre Roma, com um 28 de Maio, com a “cruzada” do Franco, para já não falar do tropical Jair que arrota postas de pescada num português lamentável diante da impassível e fraterna testemunha que de Portugal lá foi para defender a CPLP, a “amizade” luso-brasileira, os restos de uma colónia de portugueses em terceira geração que, eventualmente, terão aplaudido o capitão “mito” com ambas as mãos.

Hoje os jornais noticiam que mais de trezentas “personalidades” e um quarteirão de pessoas colectivas (de que pouca gente ouviu falar, cuja actividade era até agora desconhecida ou mínima) escreveram uma “carta aberta” que, francamente, também não demonstra que os redactores tenham inventado a pólvora. Nos últimos dias o sindicato dos jornalistas, uma alta autoridade que tutela a imprensa, vários jornalistas e comentadores com tabuleta na última página de um jornal de “referência”, enfim todos, ou quase, ou seja, os do costume, vieram subscrever-se no politicamente correcto em bicos de pés, “também eu, também eu”... Deprimente!

Contra a corrente, só li Pacheco Pereira, honra lhe seja, que marcou com segurança as fronteiras desta nova guerra do alecrim e da manjerona.

Entre os indignados sobressai a baça figura do senhor Ministro da Defesa que num tweet alardeou duas considerações de fraca qualidade e uma imagem de florestas a arder para agradar a incendiários. S.ª Ex.ª ministro da “grande silenciosa” (as forças armadas) deveria ter reflectido cinco minutos andes de se esganiçar contra a estação de televisão onde os factos horrendos se passaram. É que poderia alguém, de má fé, claro!, pensar que na declaração do cidadão que, aliás, é ministro e não dos menores, perpassava a sombra de uma coação. Claro que S.ª Ex.ª nunca, de nenhum modo, sequer em sonhos, quis dar essa penosa impressão. Não quis mas deu.

Do senhor ministro espero com intranquila ansiedade algo sobre a merda de Tancos e sobre os que sabiam do que se tratava. Falo de militares e de civis e dos importantes. Até à data, nada, zero, raspas de raspas... Como se, cada vez mais, o rol de culpados e conhecedores alastrasse qual mancha de azeite e fosse paulatinamente atingindo muita gente acima de toda a suspeita (se é que se lembram de um filme italiano de Elio Petri: “indagine sul un citadino al di sopra di ogni sospetto” (1970, um grande filme político)

S.ª Ex.ª tem o direito de cidadania como é evidente. No entanto, é ministro. E um ministro tem de saber que tudo o que faz ou diz é escrutinado pelos cidadãos, amigos ou adversários, como já ocorreu um par de vezes com outros membros do actual executivo, mormente a senhora Fonseca, ou, antes, o senhor João Soares o “esbofeteador” e aquela senhora ministra da Administração Interna de que já nem o nome recordo. Aos senhores ministros pede-se trabalho, zelo, competência e que despachem as matérias que lhes competem com brevidade e sensatez. Não precisam, como Tartufo, de vir para arena bater três vezes com a mão no peito. A gente sabe que o senhor ministro é democrata, dos quatro costados. Se quiser adversários escolha um à sua altura melhor que um rapazola já entrado em anos, de suástica no braço e poucas ideias na cabecinha sonhadora.

Não quero com isto dizer que me não preocupam os assomos autoritários de governantes seja cá seja no Brasil, na Venezuela, na Guatemala, na Coreia do Norte ou na China. Ou no leste europeu onde perpassa um cavalheiro húngaro que também foi fraternamente abraçar o Bolsonaro. Vivi trinta e três anos da minha vida sob um poder rural, católicão, gangrenado por dentro, incapaz de pensar o mundo exterior e de perceber a sociedade portuguesa. Não me conformei e recusei-me a ser súbdito dessa gente. E lá marchei para cadeias variadas. O melhor da minha vida passou-se nesse universo cinzento, pesado e triste. Apesar de tudo tive sorte, porquanto alguns centos de portugueses tiveram pior estadia nas cadeias e por mais tempo. Talvez a minha juventude me tivesse salvo de horrores piores. Duma coisa estou certo. Esses anos e os primeiros da democracia curaram-me de várias coisas, entre elas do hábito de gritar pelo lobo mesmo se apenas se avista um pobre cão. E de ver o mundo a preto e branco. Dum lado os atentados à liberdade pessoal são monstruosos do outro, simétrico, são louváveis esforços de construir o futuro. Não são. Ponto, parágrafo.

Se, e quando, o autoritarismo anti libertário vier, não terá o Machado como anjo anunciador, podem estar certos. Espero que, nessa altura, os que se apressam a ver a floresta a arder mesmo quando a luz que se avista seja apenas a de um pirilampo à procura de fêmea, se exaltem e se disponham a agir. A agir. A impedir. A dizer, alto e bom som, NÃO.

Até lá, bom ano.

* Na gravura: o ovo da serpente (filme de Ingmar Bergman)

02
Jan19

estes dias que passam 383

d'oliveira

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Novo ano. Ano novo?

mcr 2.1.19

 

Arre que esta já passou! Refiro-me à noite de “ano bom” que para muitos, eu incluído, é uma valente estopada. Mesmo em família (e a que me caiu na rifa é óptima) as coisas são sempre complicadas. Comecemos pelo jantar. Mas antes uma referência ~2ª em 12 meses! - ao inevitável Nuno Maria que com uns meros 13 meses está que ferve. O catraio aprendeu a andar, anda sozinho, com uma que outra aflição, cai e levanta-se sem se dar por vencido e, sobretudo, para a sua pequena figura parece ser dotado de uma energia imparável. As pessoas cansam-se só de o ver no espaço que se criou em ambas as casas (nossa e dos pais dele), mcerca de 5 ou 6 metros quadrados (mais ou menos o mesmo espaço que me era dado em Caxias nos tempos nunca saudosos da “outra senhora”) fechados por sofás e cadeirões. Incansável e bem disposto, deve ter pensado que aquela era a sua particular corrida de S Silvestre e levou a peito ganhá-la. Só interrompia o passeio para se apoderar dos telemóveis da mãe ou da avó que a criançada desta leva já nasce com o dedinho espetado para a electrónica. Aguentou a pé firme até tarde, demasiado tarde, e foi para a cama contrariado. Estava claramente possuído pelo espírito festivo dos mais alucinados adeptos dos “reveillon”!

E voltemos ao jantar: A minha enteada (melhor filha não podia eu ter tido) acha que um jantar para tão pouca gente há de dar para três vezes (e estou a ser modesto) mais pessoas que as presentes. Com as entradas , entre marisco, enchidos, queijos vários, teríamos todos ficado mais que bem comidos. Sobretudo porque havia uma infinidade de sobremesas, entre elas um queijo da Serra que  ficou a rir-se de mim... Mas a Ana não pactua (pactuar e não “compactuar” , alarvice agora em uso nos ignorantes de português) com essas modernices e vá de arranjar uma sólida “piéce de resistance”, no caso um excelente bacalhau disfarçado que já só provei por falta de espaço.

É uma dor de alma o que fica por comer mas eu já não estou na primeira, segunda ou terceira mocidade.

Depois, há aquela coisa chamada televisão portuguesa e os seus programas para a data. Medonho, horrendo, inqualificável ou abaixo de cão, escolham vocês a expressão mais adequada. Em boa verdade, durante grande parte do tempo, o que se via era a “baby tv” para uso da criancinha aguerrida que aliás, se estava nas tintas. De resto, cá em casa ele vê com a mesma atenção o “Mezzo”. Já ouviu ópera, jazz, concertos vários e até bailado. Desde que haja música e umas figuras a adejar, ei-lo atento durante um período máximo de dez minutos que, depois, vira-se para os telemóveis, os computadores ou os comandos da aparelhagem. Suspeito que são os pais os principais admiradores da tal “baby tv”.

Como ia dizendo assistimos, em paga dos pecados veniais e capitais que teremos cometido ao longo de 2018, ao desbragado programa com a tv portuguesa entendeu brindar a lusa gente. Um desastre, Alcáçer Quibir redobrado. Se se resiste aquilo, então resiste-se a tudo durante o ano que entra.

No dia 1, ao fugir de outros desmandos televisivos, caí, num programa da orquestra de André Rieu, no caso um concerto na praça principal de Maastrich em pleno Verão. Coisa mais ou menos ligeira mas cheia de energia e de comunicação inteligente com um público holandês mais do que entusiasta. Eu tenho, de outros tempos, a recordação (excelente) de três meses nas terras batavas e não recordava o facto daquela malta ser capaz de se divertir assim. E também já não me lembrava de eu mesmo ser capaz de aguentar três horas a ouvir valsas, sucessos musicais antiquíssimos (“Granada”, “Marina”- do Marino Marini, oh imensa saudade, ou o “nel blu dipinto di blu”  do Modugno, coisas da minha verdadeira e perdida adolescência). Isto, esta música relativamente passável mas alegre e tocada com brio profissional, valia uma tonelada de programas nacionais, nossos. E dizemos nós, num mais que ledo engano, que os povos do sul é que são animados! O Tanas e o Badanas! Ou mais europa do norte: o Tanhäuser e o Badanauser!

Do resto do dia primeiro apenas vi o nosso inimitável 4º pastorinho no Brasil para assistir à posse de Bolsonaro. Não vejo qual a necessidade. Laços especiais, dizem-me. Nem laços nem laçarotes. Se ao menos fosse lá para enterrar o miserável “acordo ortográfico”...

Esta ida só legitima o recém chegado presidente e parece ir ao arrepio do resto da União Europeia. É bem verdade que aquele sacripanta da Hungria estava presente mas, convenhamos que para companhia, antes o fantasma de D Sebastião.

E já agora bolsonemos: Bolsonaro foi eleito por uma confortável maioria e não houve notícia de fraudes eleitorais. Por muito que isso custe, foi democraticamente escolhido pelo povo brasileiro. Agora é que se vai ver o que fará tanto mais que o Congresso tem cerca de trinta partidos e que o mais numeroso deles é o PT. Estou para ver o que é que infrequentável evangelista vai poder fazer. Como chegou lá, já sabemos. Chegou porque, antes, a corrupção, o crime (63.000 homicídios/ano!) a troca de favores e o desastre económico prepararam a opinião pública.

Curiosamente, Bolsonaro, nestas últimas semanas, quase apagou os desmandos, esses sim cada vez mais patentes, mais perigosos, mais infames, dos senhores Maduro e Ortega. Nessas zonas tão próximas do Brasil, morre-se à míngua, de fome de falta de medicamentos, de morte matada de tudo o que é opositor. Por cá alguns antipatizantes (permitam-me o neologismo) de Bolsonaro calam-se como ostras quando a Venezuela ou a Nicarágua interrompem a conversa.

Pela parte que me toca, vou seguindo o que oiço de Fernando Henrique Cardoso, o melhor presidente que o Brasil teve desde que me lembro e lembro-me bem dos Café Filho, Juscelino e posteriores, generalagem incluída. Ver para crer. Estar atento (muito atento) aos desmandos do tal Jair mas enquanto as coisas não passarem disso, de palavreado imbecil, não me comover demasiadamente.

De todo o modo, ver S.ª Ex.ª, o Presidente a cumprimentar aquela criatura não me alegrou, não compreendi, antes me envergonhou. Est modus in rebus que não há comunidade linguística que tudo justifique.

Para começo de ano, basta o frio, a bolsa em queda, bastam as greves caseiras e os maus programas de televisão.

 

*na gravura: A Nicarágua do heroico Ortega

28
Dez18

Estes dias que passam 382

d'oliveira

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Alguém mente

mcr 28.12.2018

A Sr.ª Ministra da Saúde veio para os jornais afirmar que, no caso da Maternidade Alfredo da Costa, não houve anestesistas nem a 500 euros por hora.

Por hora? Quinhentos euros? Exactamente, disse e repetiu a azougada senhora. A Ordem dos Médicos veio dizer que S.ª Ex.ª não dissera a verdade. Por outras palavras: que mentira. E mentira à barba longa. Hoje, uma empresa das que fornece médicos veio dizer que o máximo permitido por lei era cerca de 39 euros. Isto é doze vezes menos do que o número da Ministra. Doze vezes! Arre!

Também é verdade que, já que se vai mentir, ao menos que se minta em força. Mentir por ninharias nem vale a pena.

A Sr.ª Ministra, entretanto, parece desconhecer que só em Lisboa faltam quarenta (40!) anestesistas. Sabendo-se que os hospitais preparam cerca de cem anestesistas por ano, e que o país vai ligeiramente além de Lisboa, fácil é de concluir que não é para amanhã a solução deste problema.

Alguns comentadores afirmam que os anestesistas preferem trabalhar no “privado”. Será? E, se assim for, qual a razão?

O “privado”, dizia uma política tão demagógica quão ignorante (e de má fé, acrescento eu) vive à custa de sangrar o SNS mercê do facto de os utentes da ADSE irem de roldão para os hospitais privados onde são atendidos com rapidez. Conviria lembrar à estulta criaturinha que a ADSE é integralmente paga pelos seus utentes que vêm os seus ordenados ou pensões mensalmente sangrados em 3,5%. Três e meio por cento é muito no bolso de qualquer um mas, no momento da verdade, quando a urgência em saber o que temos e como resolveremos o nosso problema de saúde, até se reza de contentamento.

Nada tenho contra o SNS. Aliás pago para ele, visto pagar impostos, todos os impostos (o que no caso do IRS só ocorre com um terço dos portugueses, os que, pelos vistos, serão ricos). Gostaria, contudo, que o SNS funcionasse bem. Que não houvesse falta de médicos, de enfermeiros, de pessoal auxiliar. Que no caso do “ H. S. João” no Porto as crianças tivessem instalações condignas, o que não sucede. Que na “urgência” de um hospital, cujo nome não citarei a menos que me apontem um facalhão ao pescoço. não se passeiem ratos na incómoda sala de espera dos acompanhantes, que no bar (se aquilo, aquela estrumeira, se pode considerar um bar, os produtos não tivessem o ar de coisas abandonadas à má sorte, velhas e rançosas. Que, em tantos estabelecimentos públicos, não se acumulassem doentes em macas nos corredores! Que os funcionários que nos atendem não tivessem um aspecto de homens do lixo depois de uma noite de trabalho intenso. Que o Infarmed não protelasse indefinidamente a autorização para os cerca de 300 novos medicamentos propostos. Parece que os preços são salgados, salgadíssimos. Também o eram para a hepatite e bastou o escândalo de um doente em alta grita para subitamente o Estado encontrar meios de se entender com a empresa fornecedora e começar a curar centenas de criaturas. Há quem diz que, nesse caso, as vítimas pertenciam a grupos de pressão muito fortes com acesso aos meios de comunicação mercê de ligações ao mundo artístico. Desconheço se é verdade mas que houve pressa na procura de um acordo, houve. E que o acordo se fez. Claro que, na altura, o Governo era “fascista” ou quase, isto é liberal. Agora com um Governo do Povo, pelo Povo e para a o Povo, as coisas serão diferentes. E os doentes, neste caso, são apenas meros cancerosos...E não pertencem a nenhum lobby, artístico ou de especial orientação sexual.

Mas voltemos ao mistério dos quinhentos euros. Alguém, da entourage da Ministra, sussurrou para um meio de comunicação simpático que a coisa eventualmente se passara entre um único provedor de serviços de saúde e as autoridades. E que só um profissional teria sugerido aquela tremenda soma. E que não se sabia se a sugestão era a sério ou se o número avançado apenas sugeria que ninguém estava disponível no dia de Natal.

Mesmo assim, seja por chalaça (estúpida), por ironia (cretina), ou só como desabafo (idiota). a coisa parece pouco crível. Tanto mais que nunca se identificaram quer o anestesista (se ele existe) ou a organização (se ela tem tabuleta para a rua). Em suma, no caso estou como S. Tomé, ver para crer.

Todavia, se nenhuma pista for encontrada, ficamos com a ministerial afirmação.  E com a violenta reacção da Ordem dos Médicos (que deve ser do mais reaccionário que há...). E assim, a dúvida (que no caso da Ministra actual, começa a ser metódica) permite pensar que a Senhora está a mais naquele poleiro a que a alcandoraram. Que, como no “princípio de Peter”, ultrapassou o seu limiar de eficiência e não presta para o Governo, este ou outro, seja o do Cazaquistão seja o da Coreia do Norte, seja o da freguesia de aldeia Velha de Sensaborões, sobretudo este último, mais próximo.

Não basta ser temido, muito menos destemido em palavras, importa sim não ter mentido.