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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Set18

estes dias que passam 379

d'oliveira

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a escola já não risonha nem franca

(porventura nunca o foi!...)  

mcr 14.09-18

 

Não conheço o dr Paulo Guinote de lado algum, tão pouco o leio (erro meu, aliás) mas oiço dizer que é um analista inteligente d(porventura nunca o foi) a situação do ensino em Portugal.

Ontem, porém, num artigo de opinião saído no “Público” o dr. Guinote afirma que crê firmemente que “boa parte da classe política tem um ódio - ou desafeição para os casos menos graves –particular pela classe docente, mesmo quando saíram dela”. E que por isso os persegue, rejeita as suas razões quanto à questão da contagem do tempo de serviço. Ao mesmo tempo, o dr. Guinote põe em dúvida a bondade dos dados da OCDE sobre a relação da retribuição dos professores com outras classes de licenciados, bem como questiona as conclusões sobre a média salarial dos professores mais velhos dentro dos países d OCDE.

Não tenho ideia de que a OCDE estará ao serviço do Governo português ou que os seus especialistas falsifiquem despudoradamente os dados para provar que a classe dos professores é privilegiada face aos restantes trabalhadores da função pública.

Quanto aos restantes trabalhadores, os “privados” nem vou falar. Esses, e quase só esses, pagaram duramente os anos de crise. Dezenas (provavelmente centenas) de milhares foram despedidos ou viram os seus salários diminuídos. Foram eles que tiveram de pagar a crise, foram eles que emigraram, são eles (e era bom que o dr Guinote metesse isto na cabecinha) que inda não tiveram aumentos e muito menos contagens de tempo. Não tiveram e não terão.

Em Portugal, o dr Guinote que me desculpe, mesmo quando a riqueza é produzida por uns são sempre os outros (e nisto incluo a função pública mesmo se o seu trabalho também mereça consideração) que aproveitam. Ainda agora, há fábricas que fecham, há trabalhadoras que se veem na rua ao fim de vinte ou trinta anos de trabalho duro e mal pago (basta citar-lhe o caso da “Triumph” uma fábrica de roupa interior cara que desandou do país: as valentes mulheres que lá ganhavam um pão escasso levaram a cabo um longo processo de ocupação do exterior da fábrica até conseguirem o mínimo, isto é o despedimento!)

Os senhores professores quando protestam lixam os alunos que ficam sem aulas, os pais que são obrigados a faltar ao trabalho para não deixar as crianças na rua. Perdem o salário de um dia? De dois? Mas não perdem nunca o emprego vitalício, as progressões quase automáticas e outras benesses.

Nesta altura, já o sr. dr. Guinote me está a apontar o dedo acusador tomando-me por inimigo visceral da classe docente que seguramente odiarei com violenta e medonha sanha. Está, porém, tremendamente enganado. Tenho muitos amigos professores, familiares professores, e um enorme carinho e gratidão por vários dos que me ensinaram. Vários, digo, não todos nem a maioria. Recordo com ternura e e respeito uma boa dúzia de grandes professores desde a escola primária, ao liceu e depois à faculdade. Não oculto que haverá dois ou três que detestei, e que a maioria me deixou numa espécie de limbo afectivo: cumpriam sem alegria, demasiado zelo ou simpatia, os devers do cargo. Eram apenas sofríveis ou razoáveis. Já lhes esqueci os nomes, as caras mas não as caraterísticas e os defeitos. Nisto, como em todas as profissões (sobretudo na função pública, claro que na privada as coisas fiam muito, mas muito, mais fino) há uma minoria de bons, outra de maus, bastantes medíocres, outros tantos sofríveis e o resto normal.

Com a classe política (e aqui incluo sindicalistas da função pública – e convenhamos que nos docentes aquilo, a função sindical eterniza-se...) passa-se o mesmo. Há de tudo, como na botica. Concedo que osdeputados poderiam ser melhores, muito, muitíssimo melhores. Mas enquanto forem eleitos à molhada, escolhidos a dedo pelos partido que os nomeiam e escolhem, nada feito. Um eleitor (por exemplo do Porto) nem sequer conhece metade - que digo?, um terço ou um quarto- das criaturas que lhe mendigam – de quatro em quatro anos – o voto. E uma vez eleitas desaparecem do radar cidadão e vão para o Parlamento, levantar e sentar o dito cuja nas votações. Raro é o deputado que contraria o partido nestas matérias de voto. E se contraria já sabe que, para a próxima fornada eleitoral não será escolhido.

Há em Portugal um problema com os professores, ou melhor sobretudo com os candidatos a professor. São dezenas de milhar os que saem das universidades e politécnicos e não conseguem entrar na docência. Os que, por bambúrrio, entram, passam anos de trouxa às costas, de terra em terra, sem criar raízes, amizades, sentido de pertença a uma comunidade educativa ou a darem aulas de substituição com horários incompletos e mal pagos. Um desastre! Um castigo! Um tremendo e estúpido sacrifício! Uma destruição de vocações! Um desperdício!

A resposta a este excesso de oferta é normalmente indigente e estúpida. A mais tola é a exigência de diminuição de alunos por turma. Eu até percebo que uma turma com vinte alunos funciona melhor do que outra com vinte e seis. Todavia, há uma claríssima diminuição de alunos e isso vai-se acentuar dramaticamente nos próximos dez vinte anos. Há menos crianças a nascer e essa pobreza demográfica só se modificará –se se modificar- a longo prazo. Até lá, o número de professores irá diminuir. Se não diminuir, criar-se-ão nas escolas mais horários zero, mais tarefas não docentes inúteis ou quase.

Os jovens licenciados tem de perceber que a entrada no mercado de trabalho não está de nenhum modo garantida. Ou então entram com funções menores. Vai-se a uma farmácia por uma aspirina ou por uma pasta de dentes e somos atendidos para um farmacêutico que só tira o lugar aos antigos ajudantes de farmácia. Entra-se num banco e o caixa é licenciado em Economia, Finanças ou Gestão. Nos grandes (e médios e pequenos) escritórios de advogados pululam profissionais que se rebentam por mil euros mensais. Nas universidades há assistentes com contrato precário, sem direito a férias pagas ou ADSE. E por aí fora...

Não duvido que haja gente farta dos professores. Muitas vezes são pessoas que sentiram na pele os efeitos das últimas greves. Outras já não conseguem enxergar o dr Mário Nogueira, eterno dirigente sindical que, convenhamos, é mais assanhado que uma dúzia de gatos bravos. Muita gente estranha que, neste torrãozinho de açúcar, as greves se repartam entre professores, transportes públicos e alguma saúde (pública, claro). Curiosamente, estas greves só atingem, ou atingem sobretudo, os mais desfavorecidos. Os que precisam do autocarro, do comboio e dos barcos da outra banda; os que tem de ir aos hospitais públicos para um exame, uma consulta, uma intervenção marcados há muito; e os pais de filhos na escola pública. Nas privadas não há greves, como não as há nos hospitais privados (que sorte para quem tem ADSE!...) Também não atingem ou atingem menos quem tem transporte próprio ou é o seu próprio patrão. O patrão Estado fica-se a rir, poupou uns dinheirinhos e não se sente beliscado. O Governo espera sabiamente que ninguém se lembre das greves na altura de eleições. Certos partidos, com influência determinante nos sindicatos também tem o cuidado de “recomendar” (isto é um eufemismo) aos seus militantes sindicais, uma pausa eleitoral. Não é por acaso que a causa dos professores não será tratada, muito menos discutida, pelos parceiros da “Geringonça” durante as discussões do Orçamento. Ou seja, as “correias de transmissão” existem, estão bem oleadas e servirão um único propósito: manter a pressão mas não estragar o “arranjinho”. Perceberá o dr Guinote estas questões elementares?

A progressão e o seu cumprimento integral vai de férias até à aprovação do OE. Depois, voltará, viçosa e combativa sempre com o renovado dr Nogueira e o seu bigode ameaçador. E a miudagem lá terá uns dias sem aulas e os pais outros tantos de cuidados redobrados.

(relembraria ao dr Guinote, se isso não o fizer ter dores de cabeça, que outras profissões dependentes de licenciatura se depararam sempre com a crítica feroz de certos elementos da elite, dos panfletários e dos intelectuais. O caso dos advogados é manifesto, basta ver as milhares de caricaturas que deles se fizeram, as farsas com que os mimosearam – quem não se lembra do “maître” Patelin, ou seja do advogado Patelin, advogado e não mestre, que “maître” é o título francês dado em tribunal aos advogados- ou dos médicos que em Espanha eram mimosamente  apelidados de “matasanos” (mata sãos, para quem detestar a língua dos vizinhos).

07
Set18

au bonheur des dames 459

d'oliveira

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Cheira a eleições que tresanda!

mcr 7.9.18

Durante quatro penosos meses estive impedido de conduzir. Culpa minha, claro. Ia demasiado depressa numa auto-estrada demasiado vazia (A-17 e A-8, ou seja entre Aveiro e as Caldas da Rainha, um projecto mirabolante dos desvairados governos que tivemos de suportar: muito betão para quase nenhuma circulação). Paguei uma multa choruda, inibido de conduzir durante quatro meses e fiquei em “probation” durante cinco anos que provavelmente ainda não se concluíram.

Como vou todos os meses a Oeiras visitar a minha mãe e como a pena apanhou o mês de Agosto isso significou não só viagens de comboio Porto/Lisboa e Cais do Sodré/Oeiras. Nos dias de estadia lá fazia duas viagens Oeiras/ Lisboa e usava o metro lisboeta com bastante frequência.

Nesse tempo, as viagens entre o Porto e Lisboa no Alfa pendular ainda tinham ar condicionado, coisa que, pelos vistos, agora é ocasional. Também a linha de Cascais ainda tinha um número razoável de comboios, coisa que, entretanto se reduziu muito significativamente.

Nada disto continua hoje. Há menos e piores comboios quer nas linhas nacionais quer nas de proximidade. O conforto que nunca foi especialmente interessante nas segundas diminuiu drasticamente. Menos comboios suburbanos, significa mais comboios atulhados o que em percursos médios ou longos é penoso.

Números cada vez mais aterradores surgem diariamente: o Estado tem imperativamente de aplicar 1300 milhões de euros nos próximos dois ou três anos não só para pagar parte da dívida mas também para manutenção da frota ferroviária existente, para melhoramento de algumas linhas (a do Oeste está num estado comatoso, a do Sul e Sueste não parece especialmente melhor e o resto não parece gozar de grande saúde). Os leitores talvez não conheçam a linha do Oeste (Figueira - Leiria- Marinha Grande- Caldas da Rainha- Lisboa) mas a simples descrição do seu percurso mostra quão vital ela é. É ou era porque em certos troços raramente circulam comboios, a electrificção é mais que parcial, a via está num estado descoroçoante como se aquilo fosse interior profundo e desabitado. No Algarve, no Alentejo, no Douro, no Minho o retrato só peca por ser semelhante.

É neste cenário de vil tristeza que se ouve uma criatura da Administração da CP (algum afilhado?) dizer que as coisas não são assim tão más; que as cativações são de pouca monta ou insignificantes, que agora é que vai ser. Ao mesmo tempo anuncia o aluguer de comboios (provavelmente velhos e a necessitar de grandes reparações antes de serem usados nesta selva obscura e bananeira) e por aí fora. O espectáculo da sua audição no Parlamento foi tão penoso quanto o martírio de uma viagem Figueira Lisboa (se alguém a conseguir fazer em menos de cinco ou seis horas!...).

Ao mesmo tempo, o sr. presidente da C. M. Lisboa disparou um tiro de pólvora seca que, jura ele, não é eleitoralista: baixa generalizada dos preços dos passes na região. E também no Porto, já agora para ver se o dr. Rui Moreira não refilava. O sr. presidente da C. M. de Gaia veio pressuroso afirmar que o embaratecimento dos passes tinha inclusivamente vantagens ecológicas e que tal benefício superava financeiramente, e em muito, o custo acrescido para o Orçamento! Isto assim, a secas, sem um estudo, um calculozinho, mesmo mental, sobre a verdade de tal economia.

Em tempos, longínquos, li um romance romeno (falha-me de momento o autor) onde jovens pioneiros ouvem um responsável político falar-lhes de um futuro ridente de prodigioso sucesso ecológico, económico, humano ético de uma qualquer medida de um qualquer plano eventualmente quinquenal. Em Portugal, país notoriamente mais modesto mas igualmente propenso a ver futuros risonhos no meio de um espesso nevoeiro de onde emergirá D Sebastião, passa-se o mesmo.

Agora é que é/

ó louro dá cá o pé...

Arraial, arraial/

tudo por Portugal...

Obviamente o resto do país, mesmo abananado, uivou de indignação. Então nós, os Braga, de Viseu, de Coimbra, de Évora ou de Faro vamos pagar as passeatas dos de Lisboa e Porto?

Em poucas horas, quiçá um dia, um senhor ministro, mais avisado e prudente, veio deitar água na fervura: calma, malta, aguentem os cavalos! A medida sobre os passes já está a ser estudada e há muito (e nós que não sabíamos nada!!!) pelo carinhoso Governo que vos apascenta e a haver baixa de preços é para todos, mesmo para o povo de Barrancos. Claro que, agora já não são 65 milhões mas quase o dobro.

É bem verdade que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são as que registam maior deslocação de (e para ) o emprego. Mas também é verdade que é aqui que está a maior fatia de riqueza nacional, local e individual, a maior fatia de oportunidades, os melhores cuidados de saúde e os melhores estabelecimentos educativos. Razões mais que sobradas para não esquecer o resto da maralha, os pacóvios, os provincianos, o povinho...

Ocorre-me, porém, uma pergunta impertinente: será que mais transportes, e mais baratos, diminuirão significativamente o acesso de automóveis ao centro? Será que essas dezenas de milhares de viaturas normalmente com um único ocupante serão deixadas na garagem (onde a há...) e preteridas pelos transportes públicos?

Em Portugal, país notoriamente menos rico do que congéneres na Europa, há carros para quase toda a gente. Bons, medíocres, maus, usados, muito ou pouco, mas a verdade é que o parque automóvel é gigantesco. Passe-se por qualquer bairro social para se perceber que há, pelo menos, um carro por habitação. Como país pobre (repete-se) o carro é ainda uma marca de prestígio a que ninguém fica indiferente, mesmo se isso significa despesa incomportável ou, pelo menos, dispensável face a outras necessidades. Será que o autarca de Gaia ainda não percebeu esta realidade?

Sou favorável a uma melhoria no sistema de transportes públicos sejam eles a ferrovia, o metro ou os autocarros urbanos e intermunicipais. Há é que definir claramente prioridades e, em terra em que escasseia pão, talvez seja melhor atacar não o mais fácil mas exactamente o mais difícil, a ferrovia sobretudo se nos lembrarmos que o transporte de mercadorias é estratégico. E nisso há também que pensar na bitola de molde a não nos isolarmos ainda mais da Europa. Até a Espanha já o percebeu e agiu em conformidade. Todas as suas grandes linhas estão já com bitola europeia. E as restantes estão electrificadas. Por isso podem dar-se ao luxo (e apreciável ganho...) de nos alugar comboios que provavelmente já estavam a caminho da reforma...

Eu nada tenho contra o dr.. Medina, egrégio autarca de Lisboa e presumível candidato a um destino nacional. Ele pode pedir o que quiser depois a bola é dos outros (aliás dos pagantes, isto é nossa). Agora o cavalheiro de Gaia (uma galinha pedrês que sonha ser águia...) é que um caso de maior dificuldade interpretativa. Quererá passar a ponte, logo que o dr. Moreira deixe de poder candidatar-se? Não seria a primeira vez que se via um autarca da outra margem ser tentado pelo poleiro da “Invicta”.

De todo o modo, a procissão de promessas e propostas ainda vai no adro. Há que dar tempo ao tempo. E à fantasia mesmo se absolutamente tresloucada.

 

 

(em tempo: ainda estas linhas não tinham metaforicamente cegado e mais um ministro veio anunciar 168 milhões para a compra de 20 (?) comboios à Espanha. Comboios em 2ª mão, claro e não eléctricos. Parece que demorarão 5 anos a estarem operacionais! Forte consolo! Todavia, o anúncio serve para a época eleitoral. Está bem tudo o que acaba bem, afinal. E ponto final.)

 

 

30
Ago18

Au bonheur des dames 458

d'oliveira

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Em Belém o nacionalismo parolo dos livros

mcr (espantado!) 30.08.18

 

(nota preliminar: não votei no Doutor Rebelo de Sousa mas acho que está a cumprir bem o seu cargo. Fora os beijinhos e as selfies tem sido solidário, tenta dar o exemplo –férias no interior, viagem em carro próprio, convívio descomplexado com quem se aproxima – e não cria dificuldades ao Governo ou à Oposição. Tem iniciativas interessantes e uma feira do livro nos jardins de Belém poderia ser interessante)

 

Vai para o seu segundo ano a feira do livro nos jardins do palácio de Belém. Em algum sítio julguei ver uma referencia ao Jardim (Botânico) Tropical mas posso estar enganado. E se estou é pena: os portugueses e os lisboetas desconhecem quase esmagadoramente este espaço belíssimo que em tempos terá sido do Instituto de Investigação Científica e Tropical instalado no palácio dos condes da Calheta. Este palácio poderia ser mais visitado se, por exemplo tivesse um restaurante ou pelo menos uma cafetaria decente que permitisse a vista do jardim mas as vicissitudes porque tem passado o IICT , o desmembramento das suas instituições mostra bem como isto tudo é feito: atabalhoadamente e em puro desperdício. Um desastre!

Voltando, porém, à “feira do livro”. Parece que só terá autores portugueses! Participarão cento e tal editoras mas só com livros de autores nacionais! Viva Portugal! Viva a Pátria! Heróis do mar, força companheiros!

Não indo mais longe do que a ficção, tenho por quase seguro que a nacional representará entre 10 a 20% dos catálogos reunidos. O resto, nem sempre bom, muitas vezes médio ou sofrível, para não falar nos medíocres, é de origem estrangeira.

No capítulo do ensaísmo a coisa piora. Provavelmente só no caso das obras de História se poderá encontrar um equilíbrio entre a origem nacional e a estrangeira.

Não vou referir nem a literatura dita infantil, nem os manuais escolares (suponho mesmo que estes não estarão lá). Receio bem que a presença da poesia seja como de costume conspícua e que no lote não se consigam encontrar muitos autores que publicam a expensas próprias ou em edições quase clandestinas.

Agora a ideia fatal da literatura nacional e só essa tresanda a Viktor Orban ou pior. Estabelecer fronteiras entre o senhor Elias Canetti (ainda agora editado e logo em duas obras fundamentais...) e aquela senhora muito distinta que dá por Margarida Rebelo Pinto, preferindo a patriótica prosa desta ao desvario cosmopolita de Canetti é extraordinário. E surpreendente! Ao que sei, o senhor Doutor Rebelo de Sousa é um leitor voraz. A que título vem ele, que patrocina o evento, dar a seu aval a esta burríssima distinçãoo que nem sequer serve a cultura nacional. Achará S.ª Ex.ª que a pátria dos egrégios avós passa bem sem Shakespeare visto ter por cá o não editado poeta Chiado? Brecht não valerá meio Jacinto Lucas Pires? Os poetas Manuel Bandeira, José Craveiinha (prémio Camões!) ou Drummond de Andrade mesmo escrevendo em português valem menos que um ignorado inventor do soneto com mais um terceto de quem já aqui terei falado?

A glória de Camões esmorecerá se lhe juntarmos “A divina Comédia” (traduzida por Graça Moura) ou os grandes poemas homéricos tão carinhosamente tratados por Frederico Lourenço?

Somos tão europeus! Somos todos europeus! Mas alguns são ainda mais ou menos europeus do que os outros para citar enviesadamente um tal George Orwell que, mesmo britânico foi dar o corpo ao manifesto em Espanha e ousou desafiar e denunciar os perseguidores assanhados do POUM ...

Mas vamos um pouco mais longe, e mais ao fundo: vender-se-ão na feira patrioteira antologias da poesia trovadoresca galaico-portuguesa, sabendo-se como se sabe que boa parte dos antologiados eram galegos e súbditos dos reis de Leão e Castela?

Suponhamos que o Sr Macron, imitava o seu colega português e descartava as traduções de Pessoa ou de Eça (esse afrancesado!...) dos balcões da eventual feira no Eliseu. O que aqui não se gritaria!...

Senhor Presidente da República, acolha em Belém, nos seus jardins e no Tropical –já agora- os grandes autores estrangeiros como (foi V.ª Ex.ª que o disse e por várias vezes) por cá se acolhem emigrados ucranianos, sírios, africanos de várias nações, nepaleses ou brasileiros. Aí está uma maneira de mostrarmos aos outros que sendo portugueses somos de todo o mundo, desse mundo para que sempre emigrámos e nos recebeu com solidariedade e gentileza. Se não for este ano, que seja para o próximo! Mas que se anuncie já! A literatura não usa passaporte nem visto de entada. Não nos empobrece antes nos engrandece e torna mais felizes e mais sábios ou, apenas, mais sonhadores.

De V.ª Ex.ª , muito respeitosamente

Seu homónimo mcr

29
Ago18

Estes dias que passam 378

d'oliveira

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É pró que estamos!...

 

mcr 29.08.18

 

1  “Dr. Costa, por favor...”

O seu anúncio de desconto no IRS aos emigrantes que regressem, mais do que um flop, é uma tolice, uma bravata ou, mais piedosamente, uma graçola de mau gosto.

Vejamos: em números redondos, e desde 2011, terão emigrado mais de 600.000 portugueses. A crise, os maus salários, a exasperação quando não o desespero são algumas, mas não todas, das causas de tal êxodo. Todavia numa muito alta percentagem o que ocorreu foi um fechamento do mercado de trabalho. Nas causas deste conviria não esquecer a falta de elasticidade das leis laborais, a proteção à funçanata pública ineficiente em elevada dose, a inadequação do mercado de trabalho à preparaçãoo de muitos dos que procuravam em vão um primeiro emprego (tenho um familiar, licenciado em gestão, com uma longa carreira de sucesso que, uma vez desempregado, o melhor que lhe ofereceram foi um emprego temporário num supermercado para “repor stocks”! Outro, licenciado em antropologia com altas classificações preferiu ir colher fruta em França... E por aí fora.

Dentre os que emigraram há até casos espantosos: os enfermeiros (que tanta falta cá fazem) trabalham por essa Europa fora com ordenados largamente superiores aos que cá correm (nos profissionais que, por sorte, conseguiram entrar no SNS). O meu óptimo marceneiro (e amigo) desandou para Inglaterra muito antes da crise: não lhe pagavam, pagavam-lhe tarde e a más horas, pedinchavam-lhe descontos, enfim um pesadelo. Fechou a sua pequena empresa e desempregou outros quatro profissionais.

Dentre os que ficaram, as coisas também não foram simples: o empreiteiro, pequeno empreiteiro que me faz todas as obras cá em casa, viu-se e desejou-se durante os anos de pesadelo, despediu pessoal e eu próprio antecipei obras e reparações para o ajudar. Aguentou-se a custo.

Vir dizer aos emigrantes “qualificados” ou não, mas sobretudo aos primeiros, “volta que te faço um desconto no IRS” fica bem na campanha pré–eleitoral, não tem custos (a menos que houvesse um miraculoso regresso massivo) e, dada a média de salários por aí praticados, pouco significaria na bolsa dos eventualmente regressados que, pelos vistos e pelas reacções já conhecidas ganham bem a vida onde estão, dá-lhes mesmo para umas férias no “torrãozinho de açúcar” e para amealhar uns tostões. Vir por salários entre o medíocre e sofrível significa um desconto risível no IRS.

“Dr Costa, meta a viola no saco e, já agora, lembre-se do medonho sacrifício de quem cá ficou, sempre na corda bamba, manietado pela família, pela casa a pagar em prestações, pela necessidade de acudir a familiares envelhecidos e sem outra ajuda, enfim por mil razões para já não falar pelo medo do desconhecido, pela ignorância da língua ou por mal empregado patriotismo.

 

2  Um deputado municipal comunista da província entendeu escrever um elogioso texto sobre Ramon Mercader conhecido assassino de Trotsky e por isso condenado a cerca de vinte nos de prisão.

Mercader era um catalão, membro do PCE e agente do Komintern e membro do NKVD, a polícia secreta soviética. Infiltrou-se no círculo próximo de Trotsky, exilado no México, e depois de duas ou três visitas, assassinou-o a sangue frio. Anos mais tarde recebeu o título de “herói da União Soviética” e, depois de cumprir a pena, passou a residir alternadamente em Cuba e na Rússia.

Não tenho qualquer simpatia por Trotsky mesmo se reconheça que ele foi, com Lenin e mais uma dúzia de revolucionários o rosto mais evidente da Revolução de Outubro. A ele se deve a organização do Exército Vermelho, foi o principal responsável pelo acordo de paz com a Alemanha e um dos mais importantes membros dos sovietes revolucionários entre a 1ª revolução russa e Outubro. Orador de grande qualidade, intelectual, trabalhador, dotado de uma vaidade sem limites desde cedo teve contra ele alguns dos seus colegas do Comité Central do PCUS (b). Foi o carniceiro de Kronstadt, a ele se devendo a repressão aos comités de marinheiros que tinham sido a espinha dorsal armada da Revolução. Após a morte de Lenin, fez parte de vários grupos anti-Stalin e acabou por ter de se exilar. Escreveu alguns dos mais notórios textos revolucionários da época e foi o inspirador da “revolução permanente” e o verdadeiro rosto do que mais tarde – e ainda hoje – se designa por trotskismo. Se não tivesse tido a perspicácia de e exilar a tempo, teria perecido num dos “processos de Moscovo” como pereceram praticamente todos os fundadores bolcheviques ou mencheviques (Staline cortava a direito) podendo dizer-se que todos os comités centrais (1917-1936)   desde Lenin foram aniquilados com raríssimas excepções, algumas das quais por morte antecipada.

Em boa verdade, estes processos são apenas a ponta do iceberg. No mesmo momento e só de membros do PC (b) foram executados largas dezenas de milhares. Quando os acusados estavam fora do território soviético, eram destacados grupos de executores que levavam a cabo a sua macabra tarefa. Salvaram-se uma ou duas dúzias de “opositores” por mero acaso ou sorte extraordinária. O caso de Trotsky é paradigmático: conseguiu escapar um par de vezes mas, apesar de protegido pelos seus e pela polícia mexicana não escapou a Mercader.

Desde o XX.º Congresso que a monstruosa política de Stalin e comparsas estava condenada no famoso discurso de Krutschev que durante anos foi ocultada em todo o mundo e, particularmente, cá pelos zelotas do PC e respectivos “amigos”.

O descabido elogio a um repelente criminoso diz muito de quem o fez e mais ainda do partido oque o acolhe, o faz eleger (mesmo somente como deputado municipal) e, pelos vistos, o aplaude. Setenta anos depois da morte de Stalin, e quase vinte e cinco depois da medonha derrocada da URSS ainda há estalinistas convictos. Ainda não perceberam a trágica herança que lhes caiu em cima e as extraordinárias parecenças com o fascismo que tanto criticam.

* A fotografia que ilustra a crónica é uma das raras que se salvou da destruição ordenada por Stalin que não só eliminava fisicamente os seus opositores como também os apagava da história manipulando ou destruindo as fotografias. O mesmo se faz agora manipulando a verdade recorrendo a "factos alternativos" como o que suscitou esta crónica. Do deputado municipal a Trump vai apenas a distância de um candidato a guarda de gulag nos bons tempos a um despudorado mentiroso que seguramente aproveitaria os méritos (não literários nem históricos mas mentais) do português admirador de um reles assassino.  

 

 

21
Ago18

Estes dias que passam 373

d'oliveira

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Quaterque beatus

(um grande professor e um “homem bom”)

mcr 21.08.18

 

Soube demasiadamente tarde da morte do Professor Doutor Rui Alarcão. Mesmo detestando enterros cumpria-me estar lá. Por várias e ponderosas razões: como aluno; como conhecido; como democrata que ainda se lembra do outro tempo, do tempo do medo e da coragem e de como era raro ver um professor ao lado dos estudantes como sempre foi o caso de Rui Alarcão; como velho amigo da Eliana, sua mulher que tive a sorte de conhecer mal cheguei à Faculdade. E, finalmente, mesmo se, eventualmente, já não mereça o título, como jurista. 

O jornal onde leio a notícia fala do “Magnífico Reitor”, título com que se adornam , muitas vezes sem fundamento, os reitores da velha universidade. No caso de Rui Alarcão (como ocorreu com outros dois grandes professores meus: José Joaquim Teixeira Ribeiro e António de Arruda Férrer Correia) o título assentava como uma luva. Grandes mestres, homens civilizadíssimos, cultos, resistentes desde sempre, sabedores. Com mais dois ou três outros salvaram a Faculdade de Direito e a Universidade de Coimbra (neste caso com mais contributos de outras faculdades evidentemente). Recordo dois outros professores que me aturaram com bonomia e a quem devo o mesmo que aos já citados: Jorge Figueiredo Dias e Carlos Mota Pinto. Estes homens além de ensinarem, de respeitarem os alunos, davam lições de cidadania e solidariedade. E marcaram várias gerações de estudantes. Com alguns privei muito de perto mas a todos devo muito.

Todavia, é de Rui Alarcão que queria falar. O título deste folhetim, mais uma latinada significa alguém, uma pessoa, quatro vezes abençoada, feliz se quiserem.  Ora Rui Alarcão nasceu sob uma estrela amável: inteligente, culto, persistente e sábio. Eis quatro qualidades que, para efeitos do que quero, reduzirei a duas, emparelhando-as. Era também um excelente professor. E. last but not the least, teve a sorte de ter ao seu lado (e não atrás, como às vezes se diz, uma mulher que, todos quantos a conhecemos e estimamos,  poderão garantir que também ela é, foi sempre, um somatório de qualidades. Como estudante fez parte, e parte muito activa (Presidente do Conselho Feminino), do renascimento da Associação Académica, foi um dos nomes sonantes e intervenientes do CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra), era a par de excelente aluna, uma militante democrata de sempre e mais tarde, enquanto jurista distinguiu-se pela actividade que desenvolveu mormente nas questões que diziam respeito  aos direitos de família e aos da juventude. Falo obviamente de Eliana Gersão, a quem daqui mando um comovido e sentido abraço. E era esta a quarta felicidade ou sorte de Rui Alarcão.

Costuma dizer-se que a morte de alguém é uma terrível perda. De Rui Alarcão subsiste, para além do respeito e da admiração de centenas de ex-alunos, uma enorme lição de vida e de dignidade, de coragem e de discrição, de humor e de cultura. Quisesse ele, e poderia ter sido mais coisas, poderia ter feito uma carreira política se é que isso acrescentaria algo ao seu enorme legado de professor e jurista. Não quis. Era um homem discreto e, provavelmente, a luz crua dos projectores mediáticos incomodá-lo-ia. Escolheu as suas trincheiras e nele se manteve sempre com hombridade e determinação. E coragem, claro que os anos da primeira parte da sua vida foram passados durante o Estado Novo. E não foi por acaso que, depois desempenhou durante três mandatos o sempre difícil cargo de Reitor da Universidade. Sabiam os seu eleitores (quer os estudantes quer os seus pares) que aquele homem cortês e discreto prestigiaria o cargo e, sobretudo, a Universidade. Olhando para a história das universidades portuguesas não abundam exemplos destes. Com oitenta e oito anos, Rui Alarcão podia gabar-se, de ter tido uma vida cheia, útil e estimulante para quantos o conheciam. Deixa um legado e, sobretudo, um grande, imenso exemplo de como, mesmo nas piores situações, um Homem pode ser livre e ajudar a libertar os seus concidadãos. Além das belíssimas lições de Direito deu-nos lições de vida e de firmeza perante situações asfixiantes.

Foi uma honra ter sido aluno dele.  

17
Ago18

Au bonheur des dames 457

d'oliveira

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Agora é ainda uma lenda maior

mcr 17 agosto 2018

 

Num campo de golf, eventualmente em Lourenço Marques, anos 50, terei lido uma legenda que –se bem me lembro – dizia: “os velhos jogadores de golf não morrem. Simplesmente foram à procura de uma bola perdida.”

Aretha Franklin, essa mulher extraordinária, também não morreu. Mudou-se apenas para o coro de uma igreja maior onde o pai e o dr Luther King já estavam. Também já la estavam Mahalia a grande, Bssie, the Empress, ou Otis o criador de “Respect”. E muitos outros, tantos, tantos que é impossível enumerar. Mas que continuamos a ouvir maravilhados, graças aos LP ao CD às pen e a outros meios de reproduzir/ouvir música, a imortal música negra americana, honra e glória de um país que nem cem Trumps conseguem destruir.

Tenho ideia, remota é certo, mas muito precisa, de uma conversa em que, além da então minha namorada, Maria João, participava um querido amigo, José Quitério. A João cantava bem mas aldrabava as letras. De todo o modo, nós pedíamos-lhe sempre o “Amazing Grace” e ela risonha, generosa (e lindíssima!... ) lá desencantava a primeira estrofe antes de acabar rindo-se por não saber a continuação. Foi num desses dias (estaríamos em 65, 66 ou 67, sei lá...) ao falar-se de cantores que nos diziam qualquer coisa o Zé, na altura dirigente da secção de Jazz da AAC, nos largou: “Grande, extraordinária, é Aretha!” Esta Aretha ainda era por cá quase uma desconhecida mas o Zé já a tinha sintonizado, fina orelha que ele era. Eu calei-me por pura ignorância mas a João fez um quase esgar de desdém, ela era muito Pete Seeger, Joan Baez ou Nina Simone. Mas o Zé não se impressionou e decretou com o seu conhecido vozeirão e a sua cabeçuda convicção que era mesmo assim. Aretha era a rainha.

Resolvi começar a prestar-lhe atenção e agora, tantos anos passados, só de a lembrar, comovo-me. E comovo-me quando a oiço, trago-a numa pen no carro, aliás em várias pen. Em gostando de algo, encho as pen com isso, seja Mozart, Bach, Elligton, Dizzie, um par de franceses, outro tanto de espanhóis e por aí fora. Meto-me no carro, arranco e aí vai disto, a pen de serviço mais cedo ou mais tarde há de reproduzir um disco da Franklin.

Dizem, hoje, os jornais que ela faleceu. Morreu nada... Aquela voz, aquela maneira de cantar, aquelas canções não morrem nunca. É como o frére Jacques ou o “Barbeiro de Sevilha”: aquilo vive, respira e está cá para sempre. Como Bach ou Mozart.

A música é um pouco como a pintura: não conhece fronteiras, basta termos olhos ou ouvidos. Hokusai ou Fra Angelico, Vermeer ou Goya passam as fronteiras a salto nada os detém.

Nada deteve Aretha, mulher, negra, música, chama soul. Nada! Parece que Obama terá dito que quando ela canta a história americana jorra. Engano, ligeiro engano, querido Presidente: quando aretha canta é a história do mundo que jorra.

 

 

 

09
Ago18

Estes dias que passam 377

d'oliveira

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Fogo que arde e que se vê

mcr 9-8-18

 

 

A serra (e muita da zona envolvente) de Monchique arde há quase uma semana. 23.000 hectares já estão perdidos mas a coisa não ficará por aqui. Também já se foram casas, hortas, animais domésticos (já nem se fala nos selvagens), as cinzas atingem Albufeira, Portimão e o céu é cinzento há vários dias. A televisão mostra-nos impiedosamente mais este enorme desastre. Mostra-o até à exaustão e, como de costume, mistura tudo: odesespero das gentes que se sentem abandonadas, a angustia de moradores forçados manu militari, a partir a inanidade dos meios, filas de “meios terrestres” aparentemente à espera (de quê? De quem? De Godot?), aviões e helicópteros a despejar água e opiniões de todos os que são apanhados pelos microfones dos repórteres. Nem sempre as pessoas terão razão, não são especialistas mas apenas vítimas, ninguém lhes explica nada, dão-lhes ordens e pronto...

Ontem apareceu o senhor 1º Ministro impante e rotundo: que está atento, que este fogo é a prova por excepção da bondade das políticas governamentais, que uma árvore a arder não se composta como uma vela num bolo de aniversário. Tudo naquele tom protetor de quem ainda não percebeu que do outro lado estão portugueses com os mesmíssimos direitos e deveres de Sª Ex.ª.

De portugueses que andaram estes meses todos a ouvir que agora sim, agora é que vai ser, qual incêndio qual quê, isto vai ser “trigo limpo farinha Amparo”. À bolha imobiliária segue-se pesadamente a bolha incendiária. E as desculpas com o calor, com o sucesso de outros fogos rapidamente extintos como se não soubéssemos que, mesmo com o calor, o tempo mais que clemente do fim da Primavera e do principio do Verão criaram solos menos permeáveis ao fogo.

Em Monchique arde hoje, o que já ardeu ontem. E ontem, ardeu o que já ardera anteontem. É o fado, o destino, as Erínias, o azar, a preguiça das gentes, o eucalipto que faz viver uma inteira comunidade que ainda está presente e não abandonou as terras.

Uma associação de produtores florestais acusou as “autoridades” de nada terem feito em prol da implementação de um plano de ordenamento florestal apresentado e discutido durante vários meses. Uma secretariante criatura veio desmentir a associação: que não havia plano, que se acaso existia, só era para se iniciar em 2019, que (sempre depois das anteriores alegações serem documentalmente desmentidas) faltavam uns documentos importantíssimos (entre eles uma acta de assembleia geral e uma comunicação dos nomes eleitos nela) coisas tremendas, devastadoramente importantes que reduziam a nada o plano, os projectos, as reuniões, os ofícios trocados, as espectativas e tudo o resto.

A este respeito, a propósito do respeitinho pelo pormenor bu(r)rocrático recordo duas histórias: A mais antiga tem como protagonistas um grande médico e grande democrata, Sizenando Ribeiro da Cunha, homem da zona de Aveiro. Tinha este exemplar cidadão uma propriedade numa encosta onde além da clínica onde atendia ricos e pobres, muitos pobres, a casa onde habitava situada mais no alto. Uma estrada limitava a propriedade numas dezenas ou centenas de metros desde a entrada da clínica até à porta da casa familiar. Do outro lado da rua/estrada uma ou duas dúzias de casas de gente com reduzidos meios. Sizenando lembrou-se de ir à Junta da Freguesia e propor custar pavimentação da rua. Alegria geral. Apesar de opositor do poder instalado (o Estado Novo) ali estava um benemérito que ia gastar mais de cem contos de reis na obra de interesse geral. Quando tudo se encaminhava para o feliz desfecho, o presidente da Junta veio, de chapéu na mão prevenir o médico de que era necessári o um requerimento. Em papel selado e assinatura reconhecida notarialmente. O médico explodiu: “E quanto custa isso?”, -Cinco escudos do papel e outros tantos pelo reconhecimento!, respondeu-lhe a autoridade. Já não tenho mais dinheiro”, respondeu o indignado cidadão. E a obra não se fez.

 

Anos, muitos, mais tarde, dois responsáveis por uma entidade pública regional, dotada de autonomia administrativa e financeira, verificaram que não chegara atempadamente uma quantia da responsabilidade do Estado para pagar os salários de uma vintena de trabalhadores de uma sala de espectáculos gerida pela instituição. Os dois funcionários perceberam que a falta de pagamento afectaria o bom nome do Ministério, da entidade regional e, pior, a estabilidade das famílias dependentes dos salários em atraso. E entenderam adiantar os dinheiros necessários, pagando os salários do seu próprio bolso. Com o aplauso do senhor Chefe de Gabinete, do senhor Secretário de Estado e de uma ranchada de Directores e Subdirectores Gerais. “Bonito gesto! Sentido de Estado! Devoção à causa pública!”

Passaram-se meses, um ano mais meses! E do dinheirinho adiantado nem novas nem mandados. A soma emprestada era, apesar de tudo, importante para os dois servidores públicos. Até ao dia em que um director geral, exultante, os requereu em Lisboa, asinha, asinha. Já há dinheiro para vos pagar. Já a reunião ia a todo o vapor quando apareceram os papéis e ios cheques para solver a dívida do Estado. O Director Geral compulsou-os e empalideceu: “Isto não pode ser!” com os cheques que pagariam apenas e só as somas emprestadas, vinha também uma cobrança de imposto de selo ou algo semelhante. O dirctor geral pediu desculpa pelo facto e, num gesto, muito dele, muito do grande funcionário público que ele realmente era, pagou do seu bolso a merda da quantia referente à merda do tal selo (ou lá o que era) exigido.

Eis o Estado em todo o seu esplendor. Ao contrário do brocardo latino (de minibus non curat praetor), em Portugal, o pormenorzinho, a virgulazinha, a merdice importa mais do que a questão central. E o fogo vem. O fogo que “lixa o mexilhão” e aquece suavemente a alminha caridosa do senhor 1º Ministro... E lhe permite o arrobo vagamente poético da metáfora da vela no meio do bolo.

Ora porra!

 

 

 

 

08
Ago18

Estes dias que passam 376

d'oliveira

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As opiniões do meritíssimo

mcr 8.8.2018

 

Eu não me posso confessar como um entusiasta das polícias por muito civis e civilizadas que elas sejam. Por trás desta minha má vontade há toda uma vida, toda uma história. Tudo começou num fim de tarde bracarense (também eu, me quoque- ora tomem lá latim shakespeareano me passeei mesmo se brevemente por Braga a idolátrica) nos idos de 1958. Saía de um filme, eventualmente “Uma ilha ao sol” (R Rossen, realizador com Harry Belafonte e Dorothy Dandridge, música sublime) quando uns policiais cavernícolas entenderam que aquilo, aquela multidão que saía de um cinema, constituía uma manifestação de apoio ao General Humberto Delgado. Vai dái foram-nos empurrando à bastonada para a “Avenida” onde, de facto, havia centenas de adeptos da “oposicrática” que esperavam o candidato às eleições presidenciais.

Não gostei de sentir os meus jovens lombos acariciados rudemente pelos cassetetes da “bófia”. Dois ou três anos depois, por ocasião de uma farsa denominada eleições para deputados (1961), fiz parte, consciente dessa vez, de uma manif que protestava contra a proibição de um comício no Teatro Avenida em Coimbra. (Recordo-me, como se fosse hoje, das instruções do advogado Alberto Vilaça ao reduzido grupo de agitadores no qual eu era ainda caloiro). Foi em plena Portagem em Combra que percebi que tinha uma desgraçada predisposição para ser espancado pela polícia. No ano seguinte, o ano da crise académica de 1962, voltei a levar traulitada das forças da (des)Ordem. E nunca mais acabou este circo de protestos, corridas, e bordoada avonde. Eu não falhava uma manif e a polícia quando eu não me conseguia escapulir, não me falhava o magro corpinho. Em finais de 60, inícios dos setenta internacionalizei-me. Paris em 69, Berlim em 70, Madrid em 75 e Pescara (Itália) em 72.

Paralelamente, comecei a minha via crucis de prisões e cárceres variados quase todos na pátria madrasta com uma excepção aliás curtíssima , duas horas na fronteira espanhola, onde fui brevemente detido como “passador” clandestino. A polícia desconfiou que eu me dedicava à rendosa tarefa de passar uns desgraçados que abalavam para as franças e araganças em busca de melhor e mais bem pago trabalho. De facto, eu passava fugidos políticos, no caso em apreço uma querido amigo que recorreu aos meus préstimos para uma viagem só de ida a Paris.

Deste rosário de desditas na minha “juventude, divino tesoro”, vem a ojeriza a fardas mormente policiais (mas extensiva a outras, desde militares a contínuos e porteiros disfarçados de almirante ou de groom de hotel de várias estrelas. Também fiquei farto de batinas religiosas ou seculares e estudantis, mas isso é para outro momento).

Todavia, cedo percebi que nem todos os polícias são brutos como portões de quinta e que podem ter uma função importante nas sociedades em que nos movemos.

Ler a espantosa declaração de um senhor juiz Neto de Moura de que todos os polícias mentem em tribunal, sobretudo em casos de violação do código da estrada raia o ridículo, acaso a indecência e seguramente a mais completa falta à verdade. Uma afirmação dessas mesmo no caso de defesa em tribunal (onde a vivacidade de linguagem e agressividade verbal parecem campear) parece-me mesmo sinal de irresponsabilidade o que só é atenuado por clara falta de inteligência. Em qualquer caso condenável sobretudo se vinda de um magistrado judicial

Saber que, num tribunal de 2ª instância essa sua posição foi considerada e que daí não só tenha decorrido uma anulação do primeiro julgamento mas uma condenação de três polícias ao pagamento de multa por denúncia caluniosa de uns milhares de euros que acresceram à depauperada bolsa do senhor juiz, faz-me pensar se não estaremos a viver numa Venezuela alucinada onde as botijas de gás que explodem assumem a forma de drones manipulados pelo senhor José Manuel Santos, actual presidente da Colômbia...

Suponho, mesmo se isso me interesse pouco (o senhor Neto de Moura é-me absolutamente indiferente enquanto ser vivente e só entra neste folhetim por ser juiz) que o meritíssimo juiz não conheceu as polícias a que, acima, me referi. Gostaria bem de o ver dizer o mesmo naquela altura mesmo se suspeite (dadas outras declarações, desde os considerandos sobre o adultério até às surpreendentes citações bíblicas –que diabo de Bíblia a criatura terá lido?- ) estaria de bico muito fechado, mais calado do que uma carpa no seu tanque de água lodosa. A democracia permite a qualquer um dizer os dislates que muito bem entende sem que disso decorra qualquer pena.

Já Joaquim Namorado (poeta, 1914-1986) citava o seu famoso “Código Civil ( artº 1 e único: é proibido ser estúpido; parágrafo único: fica revogada toda a legislação em contrário) combatia esta perversão da palavra e da civilização propondo a pena de riso incontrolável perante as tolices que a cegueira nos obriga a dizer.

O problema aqui é, porém, outro. Este magistrado está no activo, vai continuar a julgar, vai não restam dúvidas, usar os seus critérios morais e os seus códigos linguísticos na apreciação de causas que lhe caírem à mão. Que confiança poderemos ter num tribunal em que este juiz seja julgador? Que confiança poderemos ter num tribunal e nas pessoas que o compõem que desobriga um juiz reu e carrega violentamente sobre os vários polícias (no caso GNR) que o acusam? Como é que um tribunal pode considerar mancomunados três ou mais agentes? Será necessário fazer acompanhar cada patrulha de uma máquina de vídeo? E será que o tribunal não duvidará de manipulação da mesma? Poderá a opinião pública acreditar que a sentença que dá razão ao juiz (antes condenado) não se deve a mero (mas provável) favoritismo?

Haja quem responda.

*a ilustração Honoré Daumier "Tribunais"

 

 

 

01
Ago18

o leitor (im)penitente 208

d'oliveira

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Eduardo Guerra Carneiro, o cometa suicida

 

mcr 1 Ago 18

 

Terá sido em 61 ou 62 que um rapaz louro, olho azul e míope, ternurento e loquaz nos arribou a uma mesa do Mandarim (em Coimbra e na Praça da República, epicentro da vida estudantil). Na mesa a tertúlia variava consoante as horas, os dias e as manias de cada um. De todo o modo, assíduos entre os assíduos, encontravam-se, além de mim, o Eduardo Batarda e o Zé Carlos Monteiro da Costa. Este último, sobretudo ele, adoptou o recém-chegado imediatamente. ZC era um tipo culto, dotado de um humor inteligente e certeiro, de uma ironia educada e afável e, na altura um descobridor de novos autores. A ele devo a s primeiras leituras de Borges, por exemplo. Ainda por cima era casado o que significava uma casa onde se podia ir a qualquer hora do dia ou, muitas vezes, terminar uma noitada.

O Eduardo apareceu já carregado com o seu livrinho de estreia (O Perfil da Estátua) que rapidamente foi esquecido ( o meu exemplar deve ter-se evaporado nas mãos de algum amigo das bibliotecas alheias, coisa aliás que se repetiu com mais títulos de EGC que, contudo, e com grande trabalho, voltei a comprar.

Mantivemos ao longo de muitos anos um contacto irregular mas pontuado por momentos fortes. Encontros aqui e ali, fundamentalmente em Lisboa, algumas cartas sobretudo quando aparecia um novo livro dele ou alguma crónica mais impressiva (e foram muitas) nos jornais. Nesses casos, eu optava por telefonar-lhe para lhe dizer o quanto apreciara aquela prosa ágil, certeira, coloquial mesmo se muitas vezes poética. O Eduardo, nessas alturas, ficava enternecido e agradecia espantado com o meu entusiasmo por aquilo que, finalmente, era um pouco o seu dia a dia nos jornais. E contava-me tremendas paixões que iam acontecendo com uma extraordinária regularidade. “Eduardo, tu tens musas a mais dão para sete vidas, pá!”

Todavia, nos derradeiros anos de vida, as coisas começaram a ser difíceis. Nos últimos anos do século passado, sucedia encontrarmo-nos no “Snob” um bar simpático à Rª do Século, vizinho da rua onde ele morava cujo surpreendente nome nunca esqueci: rua do Abarracamento de Peniche. Foi o Zé Quitério, outro pilar do bom jornalismo e do Snob quem me informou que esta toponímia derivava do facto de nesse local ter havido um acampamento de tropas da guarnição de Peniche mandadas vir para Lisboa para conter as desordens e a ladroagem que se seguiram ao grande terramoto. Si non e vero..

O Eduardo alcoolizara-se dramaticamente e havia tardes e noites em que mal se tinha de pé. Era um destroço de si próprio. Os próprios empregadores começavam a escassear mesmo se, sóbrio pela manhã ele conseguia escrever tão bem como nunca.

Em 2002, os jornais trouxeram a notícia não demasiado inesperada mas de todo o modo pungente. Eduardo Guerra Carneiro, jornalista e poeta suicidara-se atirando-se da janela de sua casa.

Jorge da Silva Melo, outro comum amigo, numa crónica de enorme qualidade noticiou esta morte sob o título notabilíssimo de “O poeta que se atirou para as estrelas”.

Nesta dúzia e meia de anos que se seguiram, EGC apenas revivia na memória de amigos e leitores. Raras, raríssimas, vezes encontrei títulos seus em alfarrabistas ou leilões. Quem tinha os livros, guardava-os (guarda-os) a bom recato.

Agora, sai uma boa antologia dos seus poemas com o título tão eduardiano de “Mil e outras noites”. Leitras e leitores, vão pela obra que a edição (bonita e cuidada, com um prefácio e um posfácio ambos de Vítor Silva Tavares, o pai da editora “& etc”, desaparecido vai um par de anos, que se devem ler com vagar, atenção e prazer: VST no seu melhor...) é de pequena tiragem (300 exemplares) e neste momento os portugueses estão mais para férias e especulação imobiliária de esquerda, a virtuosa que a outra é própria de senhorios maus e malandros. “É assim que se faz a história” (título de um dos melhores livros de Eduardo Guerra Carneiro...

 

na foto: Eduardo Guerra Carneiro

 

30
Jul18

Estes dias que passam 375

d'oliveira

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A ver se nos entendemos

(ou nem todos os robles são carvalhos)

mcr 30.07.18

 

 

(não conheço nem tenciono vir a conhecer o senhor Ricardo Robles. Não que lhe tenha alguma ojeriza, longe disso. Não gosto de criaturas dogmáticas e o homenzinho provou abundantemente ser isso com a sua campanha sobre alojamento e arrendamento. Aliás a sua formação política é, neste capítulo, um exemplo de gritaria e agressão verbal. Fosse este caso com outro, mormente alguém do PPD ou do CDS, e teríamos uma autêntica antologia do vitupério e da condenação política. Portanto: RR só o Rolls-Royce- e dos antigos nada dessas modernices que por aí circulam. Fico-me pelos primeiros Phantom, eventualmente o III. Algo que provavelmente o jovem robles acharia uma velharia)

 

Vamos por partes.

O cidadão Ricardo comprou com uma mana um prédio em Alfama por cerca de 370.000 euros. Fez-lhe obras no valor de 650.000. È dinheiro, muito dinheiro mas qualquer um pode ser rico sem qie isso o obrigue a “pagar a crise” mesmo se alguns camaradas de Robles tenham esse mote por justo e estratégico.

As obras implicaram a saída de inquilinos, um dos quais vem agora queixar-se de ter sido despejado e por isso terem sido anulados quatro postos de trabalho (Verdade? Mentira?)

O mesmo cidadão Ricardo optou por uma renovação do imóvel que abrange 11 apartamentos T1 aptos para arrendamento de curta duração a turistas e três lojas.

Concluídas as obras o prédio foi posto à venda por mais de 5 milhões de euros e na publicidade referia-se justamente a virtualidade de arrendamentos de curta duração.

Seis meses depois (fins de 2017 ou inícios de 2018?), desapareceu a menção de venda.

Robles alega que o prédio era para habitação dele e de uma familiar mas entende-se mal que, tendo a possibilidade de viver numa casa com espaço, lhe preferisse um cochicho de escassas dezenas de m2. De resto habitava em casa própria, bem mais ampla e depois terá comprado uma terceira habitação igualmente maior do que qualquer dos apartamentinhos para ACD.

Nada disto é ilegal. Comprar e vender, alugar, aproveitar o boom antes que a bolha rebente. Eu mesmo, proprietário bem mais pequeno do Ricardo de bom grado venderia um prédio na zona nobre pelos mesmos milhões. Todavia, não ando a bradar aos céus e à terra contra os malvados senhorios, contra a “especulação” imoral e imobiliária que grassa em Lisboa. Bem pelo contrário, aguento em silêncio, as pequenas falhas dos inquilinos as rendas miseráveis que pagam e enfureço-me com a CML (de que o senhor Ricardo é um dos expoentes mais ruidosos). Até já tive uma familiar de uma inquilina que, abusivamente e em nome da mãe, entendeu baixar unilateralmente uma renda. E passou a pagar menos cem euros! Dessa vez não perdoámos: processo para despejo. A pobre mãe entendeu a burrice da filha e lá veio recompor a situação...

O que neste caso é de relevar é a tentativa tosca, grotesca, ingénua de Robles para disfarça algo que nem precisava de desculpa.

Dizer que o preço de venda do prédio saíra direitinho da cabeça da agência vendedora brada aos céus. O pobre do Ricardinho nem saberia disso. Ou nem ousara opor-se. Ou...

Agora, de corda ao pescoço, mas sempre firme no seu posto de vereador, vem dizer que vai pôr as suas partes no mercado de habitação. E lembra que tem uns inquilinos velhinhos a pagar 170 euros. Por esses preço alugo já tês apartamentos, prometo estimá-los e juro que não os subalugarei. Servirão para guardar a livralhada e servir de poiso a mim e aos familiares quando se vai a Lisboa.

Se alguém conhece este brioso senhorio social por favor avise-o desta minha proposta que eu sou pessoa de palavra.

As esforçadas raparigas do Bloco já disseram sobre isto tudo o que poderia ser dito e que só não faz rir porque elas carecem de sentido de humor. A senhora Martins chegou mesmo a falar de conspiração. Jornais, revistas, televisão, políticos de vários quadrantes, o engraxador da esquina, dois estudantes à procura de um nicho, todos sem excepção conspiram contra o bom nome e honra do bloquismo puro e purificador.

Esta gente não aprende, nunca aprenderá e jamais perceberá que os telhados de vidro aparecem invariavelmente nas casas onde se acoitam. As pedras que se atiram aos outros às vezes, funcionam como boomerang. Ora descalcem lá essa bota.

 

(apareceu, na esplanada onde dou ao dedinho, uma amiga e o tempo passou bem agradavelmente do que na companhia de Robles, Martins et alia.)

Entretanto, dizem-me que a criatura se demitiu de vereador e de todos os cargos no BE.

Tarde piou. Deveria tê-lo feito quando lhe descobriram a careca. Agora .a demissão é só a confissão pungente e derrotada de uma mentirola que nos queria fazer passar por idiotas.

Sic transit gloria mundi, mesmo a escassa gloria de um arcanjo justiceiro com asas de cera. Perdeu-se um político dado ao esconjuro imoderado e eventualmente ganhou-se um especulador imobiliário. Cheira-me que já não consigo alugar-lhe os apartamentos a preço de bloco.

 

A figura: máscara Fang   do tipo dito "jano"E