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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

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d'oliveira, 30.07.21

adenda a liberdade vigiada 91

Mãe Pobre

 

Terra Pátria serás nossa, 

Mais este sol que te cobre, 

Serás nossa, 

Mãe pobre de gente pobre. 

 

O vento da nossa fúria 

Queime as searas roubadas; 

E na noite dos ladrões 

Haja frio, morte e espadas. 

 

Terra Pátria serás nossa 

Mais os vinhedos e os milhos, 

Serás nossa, 

Mãe que não esquece os filhos. 

 

Com morte, espadas e frio, 

Se a vida te não remir, 

Faremos da nossa carne 

As searas do porvir. 

 

Terra Pátria serás nossa, 

Livre e descoberta enfim, 

Serás nossa, 

Ou este sangue o teu fim. 

 

E se a loucura da sorte 

assim nos quiser perder, 

Abre os teus braços de morte 

E deixa-nos aquecer.‎ 

 Carlos de Oliveira

 

boa parte dos que comigo cantaram  esta e outras cantigas de combate e de esperança já por cá não andam. Recordo, comovido e terno, alguns: 

António Manso Pinheiro, António Mendes de Abreu ,César Oliveira, Fernanda da Bernarda, Irene Namorado, João Amaral, João Bilhau. João Quintela, José Barros Moura, Luis Bgulho e Nénita )Mª Eugénia) Cochofel  Os que aqui não couveram estão obviamente, vivos ou mortos, no meu coração. Olá malta! 

 

liberdade vigiada 91

d'oliveira, 30.07.21

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liberdade vigiada 91

o pé na argola!

mcr, 30 de Julho

 

 

eu tenho de agradecer a três leitores que me juram a pés juntos que a minha queixa contra a Autoridade Tributária era injusta. Pelos vistos eu posso pagar por débito directo  ou obter com facilidade o montante da minha contribuição e, via multibanco, pagar atempadamente, sem receio de coima, o que devo.

Portanto, exª AT, as minhas desculpas.

Todavia, tenho um pequeno reparo a fazer. Ontem, quando pagava, queixei-me do processo, de não  poder as coisas com maior comodidade e simplicidade, em suma, evitar ir para a bicha chatíssima da Repartição de Finanças. A amável senhora que me atendeu ouviu-me compadecida, sorriu e nada me disse. Ignoraria ela estas hipóteses? Achou, porventura, que a minha avançada idade, as cãs, o ar aflito e perdido de quem se vê em frente do Fisco (e com o fisco estamos sempre assustados...), ou a minha culposa ignorância destes meandros, já não permitiam qualquer explicação capaz para o meu evidente fraco entendimento?

Portanto, caros três leitores, sábios e generosos, que me deram a dica, muito obrigado. Tenho a vaga e sorridente ideia de que nunca mais pelo popó pelo menos, porei o mimoso pé na repartição de finanças. Obrigado ó benfeitores. Se passarem aqui pela esplanada, há um café gratuito à vossa espera.

 

E já agora, uma eventual bicada no caso dos sacos de plástico. Hoje, quando fui por meia dúzia de laranjas e um punhado de cerejas, à D Rosa do “mercadinho do foco” (eu faço o que posso pelos comerciantes daqui. É provável que o supermercado venda mais barato mas a excelente criatura também tem de viver, o atendimento é o mais personalizado possível, já me trouxe coisas a casa,enfim, há que garantir-lhe clientela para isto não se transformar num deserto).

A D Rosa, perguntou-me se “eu queria saco”. Perguntei-lhe se ela achava que eu tinha mãos que chegassem, para o saco dos jornais (o saco era do Expresso e ainda não se paga!)as laranjas e as cerejas. Vencida pela evidência, informou-me pesarosa que “não podia oferecer-me um saco. Mas emprestava, caso eu quisesse. Estive para lhe perguntar se ela pensava mesmo que eu me iria lembrar de devolver o raio do invólucro mas contive-me. A D Rosa jurou que “estava proibida pelas autoridades de oferecer sacos”.

A mim espanta-me que um comerciante que pode fazer descontos, vender fiado, oferecer uma pequena lembrança a um comprador fiel, não possa por força de lei, oferecer a miséria de um saco.

Parece, portanto, que a campanha anti-plástico está a vigorar fortemente. Vi, entretanto, duas empregadas  mostrar os sacos que previdentemente já traziam.

Lembrei-me de umas viagens mais ou menos clandestinas pelos antigos países de leste. Toda a gente usava sacos, andava com sacos, normalmente vazios. Na altura fui informado por alguns detestáveis inimigos do povo, da revolução, do proletariado nacional e mundial, que aquilo, os sacos eram para usar se, e quando, algo estivesse à venra, sobretudo bens alimentares. quem ia passear o cão, visitar um enfermo, assistir a um comício, ou meramente passear, munia-se do saco e avançava intemerato pelas ruas dos amanhãs que deviam cantar mas não cantavam, para eventualmente comprar qualquer coisinha, fosse ela qual fosse que milagrosamente fosse posta à venda.

Aquilo era estranho, comovente, e temível. Mesmo com algum dinheiro, sempre pouco, as pessoas não tinham onde o gastar.

Uma segunda visão, desta feita capitalista, monopolista, exploradora do povo e etc., do saco como companhia, mesmo se disfarçado, tive-a num opíparo casamento de um amigo meu, em Fátima. eu não gosto de ir a casamentos, mesmo se já tenha a minha conta pessoal deles no cadastro.

Desta vez, fundo o lauto banquete, que era mesmo lauto, há que dizê-lo, na hora de levantar o dito cujo das cadeiras, assisti, com estes que a terra há de comer, ao rapinanço de tudo o que sobrava, sobretudo bolos. Foi empolgante ver senhoras devidamente vestidas para a cerimónia a sacar das carteiras, sacos e a saquear as mesas desertadas pela macharia que se escapulia para o ar livre. Um festim!

E soube, nessa altura, que o caso não era anormal. já que o casamento fora pago, as convidadas e as familiares dos nubentes, aproveitavam para fornecer-se do que sobrava.

A ideia seria: se há de ir para os porcos, antes para mim!

Portanto, estamos não exactamente em época de celebrações conjugais mas de luta contra o plástico.

O velocíssimo ministro do ambiente está de parabéns, o povo cumpre religiosamente sua ordem de não dar tréguas ao desperdício de sacos de plástico. Os oceanos, os rios, as ribeiras, os bueiros, as sargetas vão ter uma nova e reluzente vida. Sem “beatas”, sem papéis, sem sacos de plástico, a vida é já outra.

Porém, uma duvida pungente assalta-me a cabecinha sonhadora: uma parte importante do que anda a destruir os oceanos (já nem falo dos combustíveis usados, das lavagens em alto mar, das redes que se perdem, do que os barco lançam borda fora) resulta de desperdícios de aparelhos de pesca, rudo também em plástico ou, disseram-me de coisas feitas de esferovite muito usadas não sei bem em quê!

Não se pense que eu sou contra a despoluição, longe disso. Nem contra o ambiente. Eu separo o lixo, vou pô-lo no contentores adequado, ainda hoje lá foram quilos de jornais, de envelopes, de propaganda variada e inútil, tudo bem acondicionado em mais papel e pimba, contentor do papel. Uma criatura que passava até parou a ver-me solícito, cívico e amigo do ambiente a lutar contra a tampa do contentor.

Só que, talvez valesse a pena começar a inspecionar o que sai dos portos de pesca. E o que entra, A proibir cabazes de plástico que podem, como dantes, ser substituídos por matérias menos agressivas.

O Estado tem ao seu serviço uma imensa frota de carros velhos qu poluem que se fartam. Não seria melhor encosta-los, mandá-los para a sucata, e pôr ordem nessa incrível distribuição de viaturas de serviço tanto mais que algumas andam a 200 à hora, outras atropelam peões na auto-estrada ou provocam acidentes nas ruas mais movimentadas.

  1. já agora, mesmo que seja para pagar: porque não proibir simplesmente o uso de sacos de plástico que podem ser substituídos por papel?

Basta ver um filme americano para se perceber que lá, nesse país bárbaro, as compras de perecíveis vem sempre em sacos de papel.

Ainda hoje, na farmácia, disse isso à farmacêutica que me vendia meia dúzia de medicamentos. Ela meteu os que eu comprara num saco de plástico, explicou-me que eu devia pagar dez cêntimos e desejou-me um bom dia. E vim para casa com mais um saco! C

om o da D Rosa, já são dois! Aliás, quatro pois as laranjas estavam num saco de plástico leve, e não pago, e as cerejas, idem!

E aproveito para agradecer ao dr. Balsemão por não me levar nada pelo saco do Expresso, que serviu para albergar também , o Público, o Jornal de Letras e uma revista que eu já trazia e que não consigo acabar de ler...

 

PS: Carlos de Oliveira, poeta e romancista faria agora 100 anos. Morreu muito antes mas deixou-nos algumas obras que merecem ser lidas, tanto mais que ele reescreveu e melhorou sempre o já publicado. Deixo noutra folha o poema “Mãe Pobre” que foi uma das “canções heroicas” e que nos tempos longínquos da Resistência nós cantávamos. Até na prisão de Caxias em Maio de 62!

* a vinheta: Carlos de Oliveira, eventualmente a voz mais interessante do "neo-realismo"

  

    

liberdade vigiada 90

d'oliveira, 29.07.21

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Liberdade vigiada 90

o fisco, nós e a Europa

mcr,29 de Julho

 

Recebi há duas semanas uma carta do Fisco. Nela, naquele tom enigmático e confuso que a Autoridade Fiscal usa (e abusa) preveniam-me que eu poderia pedir uma audiência prévia a propósito de um IUC em débito.

Corri para as Finanças para perceber melhor do que se tratava mas. à porta, estava um aviso de que só com marcação prévia é que se admitia o pobre contribuinte (eu) que só queria pagar para não ter mais maçadas.

E indicavam um telefone. Anotei-o cuidadosamente numa das folhas do jornal (também ia munido de uma espessa revista, pois nestas coisas de fiscalidade é bom o paciente prevenir-se para aguentar o inevitável banho de cadeira que o espera). Na impossibilidade, pensava eu, de ser atendido fui para a habitual esplanada, tomar um café vingativo e vindicativo. Apareceu uma amiga antiquíssima que se propôs ouvir as minhas queixas a troco de um café. quando lhe disse o que se passava, olhou-me como quem olha um cordeiro acabado e nascer : “E tu pensas que alguém vai atender a tua chamada?” Eu, mais tonto que uma pescada melancólica, achei que sim, que se indicavam um telefone para alguma coisa seria.  minh sábia amigs, riu-se da minha candura e ordenou-me com rispidez que ligasse para o dito número. Obedeci. Nada. Aquilo tocava, tocava e tocava mas, do outro lado, como no soneto de Antero só “silencio e escuridão...”

“Vês?”, perguntou-me. “Estás a lidar com a burocracia nacional.”

entretanto, hoje, lembrei-me de voltar ao mesmo local para tentar pagar os selos dos carros meu e da CG que nunca se digna pôr lá os pés. ela lá sabe que tem um marido extremoso, um mordomo, um pau mandado.

quando cheguei à Repartição de Finanças, não vi ninguém à porta  de modo que me precipitei lá paa dentro sem dizer água vai. fui interceptado por uma jovem que me perguntou ao que vinha. “quero pagar os selos dos carros” murmurei. “Tem de marcar entrevista!” “Mas eu só quer pagar...” Nada feito. Ou melhor, perguntou-me o número de contribuinte, o telefone e, para meu espanto mandou-me para a tesouraria. tudo isto em cinco minutos.

Felicíssimo paguei o que devia e referi a tal carta das Finança. A diligente funcionária, já conhecida de vezes anteriores, informou-me que isso era uma eventual coima e que me não preocupasse. Se o Fisco entendesse que eu a deveria pagar (boa piada!) mandar-me-iam uma cartinha com a informação da quantia e os códigos multibanco para comodamente efectuar esse pagamento.

Cheio de atrevimento, perguntei corajosamente, porque é que nesse caso, o fisco me dava a possibilidade de pagar uma multa no multibanco e não fazia o mesmo com as importâncias dos selos. O Fisco sabe quanto devemos, em que altura, manda imensas mensagens, por exemplo o aviso de pagamento do IRS, poderia sem esforço maior fazer o mesmo com o selo do automóvel. Ela concordou mas não sabia responder-me.

Caros leitores: isto esta penosa (e no caso em apreço, com covid, marcações, entrevistas e o raio que para o Estado)ida por via de algo que poderia com facilidade ser pago no multibanco sem filas, sem gente a murmurar obscuras e obscenas ameaças aos funcionários que atrás dos balcões tem a maçada de introduzir o nosso número de contribuinte e um par de códigos para depois extraírem uma folhinha onde consta que o cidadão cumpridor entrou com os cacauzinhos do IUC, demonstra bem o estado da arte da colecta de impostos em vigor no torrãozinho de açúcar.

Aliás, poderia dar mais dez exemplos de penosos esforços para cumprir com deveres simples. Basta-me porém um exemplo.

Numa estadia em Paris em casa do meu amigo Luís Matias, este comunicou-me que tinha de ir à mairie da pequena cidade onde residia para tratar da transferência da propriedade do carro. O carro era do sogro e para evitar dificuldades na vinda para Portugal convinha que o Luís (ou a mulher dele) fosse o proprietário. E convidava-me para o acompanhar e, depois, para almoçar. Previ horas de espera, montes de papéis, enfim um martírio. Muni-me de um livro para enfrentar a espera e lá fui não tanto com a mira no almoço mas para o confortar naquilo que eu imaginava ser uma insuportável prova de resistência.

Demorámos 18 minutos Dezoito, nem mais um! quando me espantei e olhei para o calhamaço por uma vez inútil, o Luís disse-me com aquele ar malandro do emigrado com longos anos de Franças e Araganças: “isto é a europa, M! A Europa!”

E fomos para Paris, dar uma volta pelas livrarias, beber um café, fazer horas para um almocinho (um “coq au vin” maravilhoso ali para os lados de St Germain e um vinho que ainda hoje me comove.

Isto foi ainda nos anos 80. Consta que, entretanto, também nós portugas, chegámos à Europa. Para sacar o dinheiro, não tenho dúvidas, bastou-me ouvir Costa, perguntar se podia ir ao banco. Mas para ter a vida facilitada e retirar o segundo “r” à burocracia, ainda vão demorar anos. E não digo para recer dinheiro, mas apenas para o pagar!

Arre!    

 

 

 

o leitor (im)penitente 217

d'oliveira, 14.07.21

Adenda a “liberdade vigiada” 75

 

Canto negro

 

¡Yambambó, yambambé! 

Repica el congo solongo, 

repica el negro bien negro;

congo solongo del Songo 

baila yambó sobre un pie.

Mamatomba,

serembe cuserembá.

El negro canta y se ajuma

el negro se ajuma y canta, 

el negro canta y se va.

Acuememe serembó.

                       aé;

                       yambó,

                       aé.

Tamba, tamba, tamba, tamba,

tamba del negro que tumba:

tumba del negro, caramba,

caramba, que el negro tumba:

¡yamba, yambó, yambambé!

 

(Sóngoro cosongo. Nicolás Guillen, Losada, Buenos Aires, 1962)

 

este poema, faz parte do livro acima indicado e tê-lo-ei ouvido pela primeira vez a João Villaret, um actor e recitador culto e jovial. 

Encontrei o livro, da “Editorial Losada”,  na corajosa e simpatico “Livraria Luso-Espanhola” em Coimbra. Era barato (o preço de um poche francês) e imperdível. A colecção de poesia onde e insere é absolutamente fabulosa (Neruda Lorca, Machado Alberti etc).

Ainda por cima prova a velha opinião: Cuba é o mais africano país da América! 

 

 

 

 

homem ao mar 48

d'oliveira, 29.05.21

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Liberdade vigiada 26

Vale tudo? Claro que sim!

mcr, 29 de Maio

 

Juro que não tencionava voltar ao tema “Bielorússia” e, muito menos ao sequestro de um avião para dele extrair um jornalista opositor do regime.

A coisa parecia-me tão vil, tão obra de gangsters dos anos vinte/trinta que, inocentemente tinha por certo que, por cá, ninguém deixaria de a condenar.

Pelos vistos, enganei-me redondamente, porquanto uma senhora autarca do pcp entendeu que o desvio em si era algo sem grave significado. Importante, para a criatura, era o facto de haver fortes suspeitas sobre o jornalista entretanto preso depois de o avião ter sido forçado a aterrar.

A pobre e desvairada criatura parece acreditar que para prender um direitista, um perigoso direitista de vinte e seis anos, um fascista(?) notório tudo se deveria fazer.

Os fins, pelos vistos, justificam os meios, teoria que, de resto, sempre prevaleceu no antigo regime soviético de que Lukashenko, como Putin, foi um fiel apoiante como membro activo do partido comunista soviético. A sua carreira, logo que se iniciou no cursus honorum próprio da nomenclatura soviética, passou pela direcção de uma fazenda colectiva e depois do desmoronamento da URSS  rapidamente se reconverteu em defensor de uma nova ordem, idêntica à antiga e resolutamente anti reformas de Gorbatchev. O nacional populismo, tintado de forte autoritarismo, teve nele o candidato ideal às eleições presidenciais que ganhou embora sob a acusação de fraude eleitoral. E a partir daí é o que se sabe: presidente eterno e amador de oncursos de beleza que, embora casado, lhe tem rendido “amigas” íntimas, uma das quais até foi promovida a deputada.

Ora, uma fervorosa militante comunista, nossa, nacional, entendeu que contra este estadista de alto gabarito só “fascistas” ou loucos se podiam pronunciar. A Bielorússia da velha URSS só imita o estilo autocrático e anti-popular. Desconhece-se a existência de um partido guia de recorte leninista e de ambições “progressistas”. O país está empobrecido, vive de migalhas russas porquanto Putin nunca escondeu, sobretudo nos últimos anos, a ideia de ver esta vasta nação regressar ao seio da mãe pátria.

Mas, admitindo mesmo isto, essa tentativa de acabar com o irredentismo de Minsk, não se percebe o acirrado amor da surpreendente autarca comunista. Putin, antigo membro dos serviços secretos soviéticos onde terá, se não erro, chegado a altos cargos dedirecção, faz parte daquela geração que sem mudar praticamente nada passou de fiel servidor do internacionalismo proletário a fiel defensor do actual autoritarismo russo (ou pan-russo). Os métodos de governação são mais ou menos os mesmos, mas a ideologia do regime actual em pouco se baseia no marxismo-leninismo se é que dirigentes como Stalin, Krutchov ou os desastrados sucessores sucessores alguma vez acreditaram verdadeiramente em algo tão pouco evidente. Só mesmo com muito boa vontade pode alguém misturar o marxismo com o desvio leninista  que acaba por ser a sua negação mais rotunda.

Não é a primeira vez, e não será a última, que uma militante devotada aparece subitamente a louvar a antiga situação soviética, os seus desconhecidos méritos, o centralismo democrático, a infalibilidade das suas teses económicas, a sujeição de todos a um partido único que, aliás, soube perfeitamente levar a cabo o seu plano de sujeição da sociedade aos extremos que se conhecem. E convenhamos: de proletáios na elite dirigente soviética sabe-se de raros exemplares que aliás nunca foram importantes nem deixaram rasto político que se conheça. 

Que, apesar de tudo, este género de militantes portuguesas tenham um desconhecimento tão evidente, tão profundo não só da história mas também do pensamento marxista é que surpreende qualquer um.

Dir-se-á que da antiga fé no “sol da terra” resta apenas uma saudade geográfica que faz do extremo leste europeu, um solo de mártires e heróis que em nome da classe operária e da futura sociedade sem classes, reduziram a população a um pobre modo de viver sem luz nem, e é o mais importante, esperança. Como se sabe, o regime caiu praticamente sem um tiro, desagregando primeiro os países satélites um a um e depois a URSS que perdeu todas as repúblicas agregadas, desde os bálticos até aos povos turcos da Asia central. Nem a Georgia, pátria do imortal e nunca assaz chorado José Djugashvili que no século usou o nome de Stalin, permaneceu fiel a Moscovo (uma afronta que vai pagando paulatinamente graças às sucessivas intervenções russas no seu território que vai sendo amputado por pretensas repúblicas “libertadas” graças ao “grande irmão” russo).

Ora, mesmo assim, permanece no imaginário comunista português, incluindo jovens que provavelmente nasceram depois do fim do império soviético, uma espécie de sebastianismo “progressista” (seria demasiado chamá-lo “revolucionário”)  que faz com que defendam com unhas e dentes o statu quo russo ou pan russo. Assim, o desvio do avião, acto internacionalmente condenado, é apenas um fait-divers justificado pela captura de um conspirador “direitista”.

Não há pachorra!    

 

 

homem ao mar 46

d'oliveira, 27.05.21

Liberdade vigiada 24

“Este parte, aquele parte...”

mcr, 27 de Maio

 

Seja-me permitido roubar o título a um poema de Rosalia de Castro, galega insigne que, curiosamente, teve direito a um pequeno jardim e estátua aqui no Porto. 

Algum direito tenho porquanto, num longínquo ano ainda da década dourada, trabalhei como uma espécie de assistente de Ricardo Salvat na preparação de uma peça que se chamaria “Castelao e a sua época”. O espectáculo seria montado com poemas, canções e textos do grande galego e, ao mesmo tempo, juntar-se-iam canções catalãs de um anterior trabalho de Salvat sobre catalães do fim do sec. XIX. Era nessa parte que eu entrava como tradutor, imagine-se!, do catalão. Confesso que só a loucura do Ricardo e a minha imprudente ousadia permitiam isto mas, verdade seja dita, lá levei o encargo a bom termo. Valia-me o facto de já ter na minha incipiente biblioteca alguns livros de poetas catalães, tudo edições bilingues que lera com atenção, entusiasmo e algum fervor.

Com a ajuda do Zé Nisa e do Adriano Correia de Oliveira, musicaram-se os poemas galegos e era a Maria João Delgado, minha ex-mulher e querida amiga, quem cantava o poema que dá título ao folhetim.

Obviamente, a peça esquerdava tanto quanto possível, coisa que a Censura percebeu e proibiu. Ficaram as canções que durante a crise de 69 animaram vários saraus de greve e, finalmente, levaram o Adriano a começar a cantá-las em público. Acho que há por aí algures um disco mas a preguiça, companheira de todas as horas, aconselha-me a ficar sentado sem o procurar. 

 Todavia, desta feita, não é das minhas modestas aventuras teatrais que quero falar mas de algo, infelizmente, mais triste: A morte de amigos.

Já vai longo o rosário de companheiros desaparecidos (ainda ontem recordei o Manuel Sousa Pereira, um escultor culto, maluco por música e cinema e que jamais perdia os westerns do Sergio Leone. E ontem, dava, outra vez, “O bom o mau e o vilão”, uma fita que outro amigo nosso, arquitecto de renome, nunca conseguiu ver até ao fim. O iconoclasta cinematográfico adormecia1... O MSP insultava-o longa e viciosamente mas o outro ficava impávido. “Tu já viste este anormaaaal?”, perguntava o escultor. E eu acenava alegremente só de ouvir o qualificativo. 

Agora o MSP já só é uma saudade que nunca perdoarei ao covid, filho da puta, três vezes filho da grandessíssima puta.

E hoje, aliás ontem, outra notícia maldita. Morreu o Acácio Barata Lima, outro da leva de 40. Oitenta e um anos e uma vida aventurosa, dura, combativa.

Eu conheci o ABL no “Mandarim” em Coimbra, café de conspiradores e de agentes da polícia que ali vinham à pesca. Ora, já depois de o conhecer razoavelmente, isto é um par de anos passados, ouvi-o anunciar que uma nova organização revolucionária dava os seus primeiros passos, prometendo novidades sensacionais.

Tratava-se da FAP (frente de acção popular) u grupo dissidente do PCP, criada por Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Espiney. 

Suponho que desses três apenas conheceria de raspão o Rui, velho militante das pro-associações estudantis lisboetas. 

De todo o modo, fiquei em pulgas, o que é sempre um péssimo sinal pois a curiosidade oblitera a razão. Não tardou muito em começar a militar naquela organização frentista que parecia renovar a luta contra o Estado Novo. 

Anos passaram, e oAcácio foi preso quando se dirigia para um encontro clandestino com o Francisco Martins Rodrigues, mostrando que as boas intenções e a diferença propagandeada não eram acompanhadas por medidas de prudência conspirativa exemplares. A FAP entretanto eliminara um infiltrado da pide e isso desencadeara uma caça ao homem sem precedentes. 

Mesmo sem sangue nas mãos, o Acácio foi identificado, discretamente vigiado e seguido. E apanhado. 

Julgamento no Plenário e prisão já não sei se em Caxias se em Peniche. 

Entretanto, um corajoso bastonário da Ordem dos Engenheiros conseguiu mobilizar a classe e lançar uma campanha pela libertação dos engenheiros presos políticos. A campanha teve êxito e ABL foi libertado juntamente com um elemento do PCP (Bianchi Teixeira?)

Depois do 25 A, o Acácio, sempre generoso entendeu ir ajudar Moçambique como cooperante. E por lá andou uns anos até se convencer que a FRELIMO tinha os cooperantes em muito pouca conta, sobretudo se eles se mostravam eficazes, competentes e... críticos, o costume.

Regressou a Portugal, sempre activo e entusiástico se bem que curado e ressacado pelos infortúnios revolucionários. Como era de uma competência a toda a prova, empregos nunca lhe faltaram. Alguns bem enganadores como aqueles em que, para além de um ordenado sem nada de especial se juntam prebendas que, uma vez terminado o contrato se esfumam sem deixar rasto. Ms o Acácio ria-se disso. Habituara-se a viver com pouco e com pouco se contentava. Dizia que a burrice de não perceber esses contratos era só dele e prova provada que nunca entenderia o capitalismo. Eu objectava-lhe que outros da mesma geração e passados semelhantes ao dele, estavam bem da vida ao que ele retorquia “e da consciência?”. E ria-se alto e bom som aquele amigo da vida, das pândegas com amigos, das longas conversas e da política inteligente. 

E fomo-nos encontrando frequentemente, comentando cada vez mais acidamente as “estrepolias” do processo revolucionário português que, mesmo depois da pungente derrota do PREC, teimava em remar contra acorrente e contra o bom senso, a razoabilidade, a Europa. 

Há uns anos, já reformado, foi adoecendo paulatinamente. Corpo gasto, mente sã mas desiludida. Morreu há uns meses,sigilosamente, como morreram tantos outros mesmo sem covid. Em tempos de pandemia a morte passou à clandestinidade, tornou-se um segredo que nem amigos conseguiam romper. 

Agora, um sobrinho, a quem pedi notícias, deu-me mais esta triste novidade. A que se juntou, ontem mesmo, outra morte, mais inesperada. Desta vez foi o Sérgio, conhecido relativamente recente, apreciador de bons vinhos e melhores petiscos. Não nos encontrávamos muito nem se pode dizer que fôssemos íntimos. Mas era um tipo amável, bom companheiro, sempre pronto a ajudar. Há meses que sofria uma fortíssima depressão a que, um mal nunca vem só, se juntaram de má fé, uma pneumonia violentíssima e uma bactéria dessas fulminantes. Tínhamos aprazado um almocinho à base de lampreia. Adiado no ano passado, novamente postergado este ano, nem por isso a ideia morrera inteiramente. Atrás de maus dias melhores virão. Não vieram. Isto de estar vivo é, de facto, uma lotaria ou, pior, um gracejo de mau gosto. 

Pelo menos disso o Sérgio e o Acácio já estão livres.          

 

 

homem ao mar 45

d'oliveira, 26.05.21

Liberdade vigiada 23

“Armar-se em carapau de corrida”

mcr, 26 de Maio

 

 

O Sr. Secretário de Estado da Saúde entendeu fazer uma declaração sobre o problema epidemiológico de Lisboa. 

Pelos vistos, as infecções na cidade aumentam de forma alarmante e consistente. Prevendo-se mesmo que possa haver um retrocesso no desconfinamento lisboeta.

Ou melhor, e corrigindo: previa-se um retrocesso mas, que diabo!, estamos a falar de Lisboa e não de uma qualquer Odemira, Braga ou vilar de Perdizes.

Em Lisboa, não pode haver retrocesso. Nem com outro terramoto. Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. 

Por isso, S.ª Ex.ª veio declarar solenemente que “como a vacinação em Lisboa estava atrasada em relação ao resto do país” ia desencadear-se um esforço especial para vacinar os menores de cinquenta e de quarenta anos a partir do próximo mês.

Agora, o Sr. Vice almirante Gouveia e Melo, cujo trabalho nunca é demais enaltecer, veio afirmar que esses prazos já tinham sido agendados pela “task force” e que ele, almirante, não era pessoa para andar a dividir o país em regiões A, B ou .

De facto, essa declaração já tinha sido adiantada há dias e amplamente difundida pelos jornais, pelo que das duas uma:

 ou o Senhor Secretário de Estado tem problemas de memória ou ninguém lhe liga nenhuma pelo que S.ª Ex.ª vive numa bolha de espesso nevoeiro e nem sequer vê televisão, lê os jornais ou ouve a rádio!

Ou, hipótese mais prometedora: A criatura sabia perfeitamente o que se passava, mas entendeu fazer peito e armar em carapau de corrida para se mostrar ao país boquiaberto e aos lisboetas alarmados. 

Entretanto, verifica-se que, sempre no domínio da informação sobre percentagens de vacinação, Lisboa difere do Porto por uns meros 2% (32 e 34) enquanto que noutras zonas, por terem população mais velha e deficit de população mais nova, a taxas de vacinação eram naturalmente mais elevadas (regiõs pouco povoadas e com muitos velhos, estariam sempre à frente, mas isso é areia demais para a camioneta do Sr.  Moreira Sales.

Lisboa estará, hoje, com 141 infectados por 100.000 habitantes e julga-se que o primeiro número aumentará, e bastante, nas próximas semanas. De todo o modo, tudo leva a crer que a “capitalidade” tem um efeito especial: nunca ira recuar um passo que seja no desconfinamento. 

Até o Sr. Presidente da República o admite implicitamente quando agora vem declarar que o “estado de emergência” estava fora de questão. Deus o queira, Deus o queira mas já ouvi coisas idênticas e depois foi o que se viu. 

Claro que, agora, com a vacinação a correr a todo o vapor, começa a ser plausível que desta já escapámos ou, pelo menos, não regressaremos aos dias negros do início do ano.

 

 

Conexo com este esforço de vacinação está uma questão dramática e de alcance mundial. São os países ricos, do Ocidente, europeus e americanos, por um lado e os “tigres” asiáticos (Taiwan, Singapura, Correia do Sul, Malásia) bem como o Japão por outro. Da Oceânia emergem, como também era espectável, A Austrália e a Nova Zelândia. O resto é o diabo!

Ora, anda por aí, uma campanha a pedir que estes países ricos e privilegiados cedam parte das vacinas que compraram aos países pobres. Nada mais generoso na aparência mas que tem um escolho formidável pela frente: será que algum povo ocidental está disposto a deixar parte da sua população indefesa para ir numa corrida auxiliar outros? 

Terá algum Governo, mormente os da Europa, condições políticas para enfrentar uma opinião pública que também sofreu as violências pandémicas, o confinamento, as mortes, as dificuldades económicas e arriscar o pelourinho da contestação violenta a uma política certamente humanitária mas, no caso, vista como de abandono de populações, mesmo pequenas?

Aliás, a Europa já esta a enviar doses (claramente insuficientes mas doses apesar de tudo) gratuitamente para países pobres. Por cá, fala-se em enviar os excedentes da Astra Zeneka, para os palops. Tenho a convicção que S Tomé ou Cabo Verde pela pequena ppulação que têm ficariam com uma taxa de vacinação apreciável só com o que, de um modo um tanto ou quanto tolo, aqui se recusa ou se teme. 

Como de costume, nenhum dos generosos benfeitores da gumanidade que por cá pululam refere ou, pelo menos, se interroga sobre idênticas disposições humanitárias por parte da Rússia ou da China. Confesso que desconheço em absoluto se nesses dois gigantes produtores de vacinas há (ou não)  alguma política de socorro A África ou à América central.

No que diz respeito á Índia, que é ou era um gigantesco fabricante de vacinas a coisa está como se sabe. E, em boa verdade, o que por lá se passa, era previsível. Densidade populacional desmesurada nas cidades, abandono total do campo onde falta tudo (e quando se diz tudo, é tudo mesmo.), permissão de grandes festivais religiosos que reuniram dezenas de milhões de hindus. Para já não falar numa anedótica mas trágica seita que considera que basta besuntar o corpo com estrume de vaca para estar a salvo do vírus. 

A maior democracia (iliberal e cada vez mais autocrática) do mundo não estava preparada para a catástrofe, não se preparou, não tenta  defender-se (basta ver o que o Governo federal diz do confinamento) de uma pandemia que tem, no subcontinente indiano, belos dias à sua frente.

A União Indiana tem a bomba atómica mas não tem hospitais seguros nas cidades e ainda menos (ou seja nada) nas zonas rurais.  Em contrapartida tem castas a mais e mostra-se cada vez mais violenta contra a minoria (150 milhões!) muçulmana que provavelmente também estará a pagar uma factura importante no capítulo infecções e mortes.

Não é só o Sr. Sales que arma ao pingarelho. O cavalheiro Modi não lhe fica atrás e com muito piores consequências.  

O mundo é pequeno!

  

 

homem ao mar 44

d'oliveira, 25.05.21

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Liberdade vigiada 22

Arrombar portas escancaradas

mcr, 25 de Maio

 

Comecemos por um pedido de desculpas. Ontem, quando referi os jovens ocupantes da via pública que exigiam mais ferrovia e menos aviões, não transpus bem o texto (já explico)e faltou-me um parágrafo.

Eu escrevo estas crónicas num rascunho que normalmente, com mais ou menos uma vírgula é rigorosamente idêntico ao texto que depois entra para o blog. Faço-o apenas para não acontecer, como já por várias vezes sucedeu, perder o texto numa das pirotécnicas habilidades computacionais.  Quem, com esforço desmedido e infinita paciência me acompanha desde o início aqui, sabe  como é que um um info-ignorante aqui entrou e por que ínvios caminhos passou. Um desastre devido a ter chegado tarde a este meio e ser de uma repelente preguiça, pecado mortal que cultivo com cuidadosa e fiel observância.

Portanto não perguntem que eu não respondo. Por absoluta ignorância, devo acrescentar.

E o parágrafo era este. “Vir para a rua protestar contra o transporte aéreo quando este é escasso e, sobretudo, quando, finalmente se antevê (e se assiste, já) a um incremento na ferrovia, é um arrobar de porta escancaradas. Até o plano (enfim aquilo a que chamam plano) de gastar o cacau da bazuka afirma, preto no branco (ou africano no europeu...) que se prevê o fim muito próximo de voos com menos de 600 quilómetros”.

E acrescentava “é verdade que não se deve tomar por palavra de bronze a promessa do Governo mas aqui, até o mais acirrado defensor da TAP esbarra numa evidência. É a Europa que vai ditar o fim dos voos de curto alcance. E, será o futuro desenvolvimento do turismo que ditará o local do eventual futuro aeroporto se este se vier a revelar necessário. De todo o modo, e já que Governo, restauradores, operadores turísticos, hoteleiros, rapaziada do tuk-tuk e das lohas de recordações insistem na dependência do turismo, parece que a cruzada desta juventude vai ter um fim idêntico à cruzada das crianças (esc XIII)que, como se sabe culminou na morte de muitas vítimas e na venda das restantes como escravos.

Eu não quero tão tenebrosa sorte para esta rala centena de mancebos tocados pela graça ambiental mas tenho por mim que , causa por causa, poderiam ter ido até às zonas suburbanas onde largos centos de imigrantes sofrem os mesmos tratos de polé que os de Odemira. Claro que teriam de andar mais um pouco mas que era bonito, era.”

 

Feita a retificação, passemos a outro assunto, bem mais grave e mais importante: na Bielorússia, um governo criminoso, autocrático e batoteiro de um punhado de gangsters de alto gabarito, entendeu poder desviar um avião estrangeiro partido de um aeroporto estrangeiro e com destino também noutro de outro país.

A finalidade desta manobra que poderia ter terminado em tragédia, caso o piloto do avião pirateado se recusasse a obedecer às ordens da aviação militar bielorussa, era prender um passageiro que se notabilizara pela resistência ao criminoso e ilegal regime de Lukaschenko. O que foi conseguido com um prémio extra. Prenderam também a namorada do jornalista perseguido que enfrenta todo o tipo de ameaças à sua vida, segurança e liberdade.

Tudo isto pode ocorrer num país limitado pela Ucrania, Polónia russio e pels estados bálticos. Vejamos: a Ucrânia já tem problemas que lhe bastem com a Rússia. Os Bálticos são pequenos países que, mesmo se corajosos, não tem meios de se opor à Bielorussia, estado acossado e capaz de tudo. A Polónia, democracia cada vez mais iliberal se bem que tenha protestado não vê com olhos demasiadamente severos o tiranete de Minsk. à Rússia basta um pretexto para intervir a favor do déspota.

Eu não sei o que vai sair da reunião da União europeia, agora em curso. Claro que poderão reforçar algumas medidas, proibir os voos da aviação civil bielorussa, , vetar a presença de eminentes membros da nomenclatura local n Europa ou cortar-lhe eventuais fundos. Tudo isso não me parece suficiente para libertar o jornalista, sequer a amiga mesmo se esta puder ser usada um pouco como moeda de troca. Temo pela vida do infeliz oponente  e suponho que à Bielorússia de pouco importe que a aviação civil europeia evite o seu espaço aéreo. Enquanto o amigo russo estiver atento, Lukashenco tem o lugar seguro E mesmo se tiver de ser removido, os russos manter-se-ão senhores da situação.

As tiranias, veja-se o exemplo da Birmânia (ou Myamar se preferirem) que ainda agora se deuao luxo de mostrar Suu Khi a detida primeira ministra apeada. Dizem os jornais que a senhora, que governou com demasiada prudência e cuidado para não irritar a irritável Junta militar, arrisca uma pena de prisão longa.

Não vale a pena tentar viajar para outas latitudes, por exemplo a Arábia Saudita cujo governo raptou e eliminou em solo turco um outro opositor. Aliás a Turquia é um bom local para tiranos com se vê desde há anos. E por aí fora. Até no seio ca pretensa comunidade lusófona há um país a Guiné Equatorial onde qualquer ideia de democracia é apenas um sarcasmo.

Fique todavia, registado o protesto deste escriba que é cada vez mais incrédulo quanto à eficácia da opinião pública mundial neste género de questões.

Entretanto, Lisboa contabiliza cada vez mais infecções, Braga (também campeã mas mais moderada) idem. Sempre quero ver se a DGS se atreve a fazer Lisboa recuar no desconfinamento. Vai uma apostinha?

* na vinheta: manifestação em Mnsk     

Homem ao mar 43

d'oliveira, 24.05.21

Liberdade vigiada 21

Paisagem depois da batalha

mcr, 24 de maio de 21

 

 

“Em quatro meses foram identificados 129 lares ilegais e encerrados 31”, eis o título principal de 1ª página do “Público”. Só depois há a fotografia da vitória do Braga e a notícia de um programa de testagem em massa para a zona de Lisboa.

Interessam-me o primeiro e o último destes itens porque dizem muito de um Portugal fiel a si próprio que, depois de roubado p-põe trancas à porta.

Os lares ilegais são uma verdade conhecida desde há muitos anos. Razões não faltam, aliás. em primeiro lugar há poucos lares para uma cada vez maior procura, mesmo contando com a rede de lares das Misericórdias onde sucedeu o que se sabe.

Não vou, à cabeça, condenar estes lares ou as suas direcções mesmo se julgue que a imprudência foi e é uma constante. Ninguém estava preparado, ninguém foi convenientemente bem informado e a intervenção do Estado foi tardia já a procissão ia no adro, De todo o modo, sem as Misericórdias, as coisas seriam bem mais dramáticas. Não sei exactamente quantos lares destes há ms andarão pelas centenas, largas centenas. Ao longo dos últimos 20/30 anos houve um enorme esforço das instituições e da sociedade civil no sentido de criar ou remodelar lares de modo a torna-los um pouco (ou bastante, consoante) confortáveis. Em boa verdade, todos auferem de ajudas estatais mesmo se, com o correr dos anos elas sejam cada vez menos importantes na economia destas instituições. Aumentou extraordinariamente o número de pessoas a necessitar destes estabelecimentos, as suas reformas são no mínimo miseráveis e as despesas aumentam. Por mais ajudas que recebam da sociedade civil, a verdade é que não são suficientes.

Tive, profissionalmente a experiência directa de intervenção num lar com instalações de excelente qualidade, amplos espaços exteriores e numerosas ajudas externas, sem falar nas do Estado. Todavia, as duas pessoas que me ajudaram na tarefa de recuperar esse lar, cedo verificaram que sem a ajuda do Banco Alimentar (abençoado seja!) as coisas não singrariam.

Diga-se que, num ápice esse lar, intervencionado pela Segurança Social, com o apoio do Tribunal local e do Bispado, ficou com a lotação completa e uma lista de espera do tamanho da légua da Póvoa.

O envelhecimento acelerado da população, a impossibilidade de numerosas famílias poderem, com um mínimo de dignidade, apoiar em casa os seus familiares mais velhos, mais doentes, mais dependentes, fez disparar a procura.

Do lado do sector privado surgiram duas respostas qualitativa e quantitativamente diferentes. De um lado, lares “de luxo”, bem organizados, com pessoal à altura, nas cidades, que porém pedem mensalidades fora do alcance da gigantesca maioria da população. Tomei conhecimento disso, quando a minha Mãe resolveu, sem dar cavaco a ninguém, procurar um lar. Os preços eram desmedidos mesmo se ela os pudesse pagar. Todavia, e já lá vão vinte anos, ela lá se convenceu a permanecer em sua casa, com pessoal suficiente e a constante presença do meu irmão. Está bem, muito melhor do que em qualquer dessas mansões caríssimas e onde o seu espaço privativo seria muito menor. E a despesa é notoriamente inferior. E a liberdade que ela usufrui é absolutamente maior! Eu mesmo lhe disse que “só por cima do meu cadáver” é que ela iria para um lar pois a minha casa seria de certeza muito melhor abrigo. O mesmo aliás foi dito pelo meu irmão que diariamente vem lanchar e estar com ela durante um par de horas. E até à data, a excelente senhora, está no seu sítio e nele celebrará muito brevemente 99 cumpridas primaveras.

Todavia, o nosso exemplo, não é deve ser especialmente considerado. Somos uma família da classe média-alta,  fortemente solidária e isso também conta.

O problema, como asseverava Sartre é  “os outros”. E esses são dezenas de milhares, se não forem centenas. Faltam lares como faltam instituições de cuidados continuados. O  problema será cada vez mais premente e as soluções tardam.

É por isso que surgem (surgiram) os lares ilegais. À uma abrem vagas, Muitas vezes essas vagas são mais baratas. Claro que as condições variam muito mas, genericamente, são piores (eu digo piores e “não menos boas”) do que os lares que a Segurança Social no final de uma maratona de exigências, nem sempre totalmente compreensíveis, autoriza ou valida.

Há de tudo neste ramo que, de qualquer forma, aaba por ser lucrativo. E é-o desde logo porque cada vez mais a sua localização aumenta em zonas interiores, menos fiscalizáveis, mais baratas quer no preço do aluguer das casas, quer nos salários pedidos pelo pessoal menos (ou nada) especializado que mobilizam.

A Segurança social investiga, fundamentalmente sob denúncia, e encerra o que pode. Mas nem sempre encerra porque, depois, fica com dezenas, centenas de idosos nos braços. E assim se vai entretecendo uma rede de clandestinidades, semi-clandestinidades, enfim de cedências em nome de uma falha maior do Estado. Este não protege os seus cidadãos mais idosos. As famílias também não: por falta de meios económicos ou, eventualmente, por egísmo. As casa não estão feitas, ou já não estão preparadas para famílias não nucleares. E os velhos exigem cuidados específicos e/ou especiais. Faltam cuidadores, falta uma política que os fiscalize, prepare e defenda. Falta tudo.

E, por isso vai continuar a florescer uma rede clandestina e ampla de lares ilegais. E por isso vai continuar a ser visível a fragilidade de milhares de cidadãos depositados em mortórios a aguardar que a morte, misericordiosamente, venha e os leve. À vista de todos, inclusive dos rapazinhos e rapariguinhas que ontem ou anteontem protestavam contra a poluição aérea, enquanto os mentores ficavam prudente e confortavelmente em casa.

Não consegui arranjar quem contra mim apostasse nesta coisa simplicíssima: eu afirmava que depois do protesto e da detenção de uma trintena de heroicos e vociferantes defensores do ar puro haveria a habitual queixa de maus tratos policiais. Ninguém aceitou arrisca cinquenta cêntimos na hipóteses contrária. Vê-se que neste campo, já toda a gente sabe do que a casa e a causa humanitária gastam em argumentário anti autoritário.

 

 

No que toca às festividades sportinguistas parece que, pressionada por todos os lados e pela evidência escandalosa, a DGS já aceita que algumas dezenas de infecções tenham surgido depois da vitória que demorou os 19 anos da história conhecida do clube. Eu arriscaria apostar outra vez que daqui a dias esses casos ultrapassarão a centena mas como de costume ninguém quererá apostar. E depois, ninguém, dentre os responsáveis quererá corroborar o o que as mais simples suspeitas começam a revelar.

E já agora: ontem a televisão mostrou imagens do Bairro Alto e do Miradouro de S Pedro de Alcântara povoados por uma multidão de turistas e de nacionais sem máscara e em alegre convívio. Eu não posso andar sem máscara pela rua que logo serei interpelado por um prestimosos agente policial. Ali, polícias municipais e da PSP deambulavam por entre os desmascarados sem dizer água vai...

Arre!

 

 

 

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homem ao mar 42

d'oliveira, 23.05.21

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Liberdade vigiada 20

Variações sobre o “bicho”

mcr, 23 de Maio

 

 

Como quase toda a gente previa, em Lisboa (concelho de Lisboa, notem, zona centro) há mais casos de infecções por covid. Por muito que se faça de conta, os festejos sportinguistas são apontados a dedo outra vez por quase toda a gente.

Este quase distingue o pasmoso silêncio da DGS e o assobiar para o lado da Câmara Municipal. Sabe-se que há um relatório do MAI (sempre os domínios do “competentíssimo” dr. Cabrita!) mas, pelos vistos, é secreto. Aliás, sempre que um facto ou uma situação não são do agrado das autoridades, o(s) relatório(s) viajam para plagas desconhecidas, passam à clandestinidade, perdem-se sabe-se lá onde. Foi assim que um mail da Direcção Nacional da PSP andou perdido nos labirínticos corredores da CML. Nele, a polícia advertia contra os ajuntamentos junto do estádio, contra a colocação de ecrã gigante e contra um passeio de autocarro. Alguém, mais tarde, ainda veio dizer com desplante infinito que o mail deveria ter sido substituído por um telefonema como se não se soubesse que as linhas “caem”, os destinatários podem ter um momentâneo ataque de surdez ou, pura e simplesmente esquecerem-se do recado...

“Estava na cara” que aqueles milhares de adeptos que esperaram meia vida por um título e que deram largas à sua alegria de cara destapada muito juntinhos, muito abraçados, estariam a preparar-se para uma transmissão grupal do “bicho mau”. Provavelmente, pensavam que os vírus não frequentam os meios desportivos, as imediações dos estádios nem fogem a sete pés de festejos histéricos...

E agora é o que se vê. Só não vê quem não quer. Ou quem não dá o braço a torcer nem que só seja por uma vez.

 

No parque ZMAR estão agora 40 criaturas. Saudáveis, gá que dizê-lo para tranquilizar os residentes das casas de férias próximas. Todavia, parece que há um problema: o ZMAR fica à “desamão” das estufas. Não dá jeito nenhum pôr os trabalhadores longe do seu posto de trabalho mas que querem? O ministro ou quem o representa tem por força de ter razão.

 

No Algarve desembarcam multidões de turistas. Vem da loira Albion e estão sedento por sol, sal e sul. E por muita e bem regada bebida alcoólica. Azar deles: os bares ainda estão encerrados. Sorte deles: apareceram logo, como moscas num cão morto, dezenas de pequenos comércios de venda de bebidas que, obviamente, serão consumidas na rua. As autoridades, com uma momentânea falta de visão, não dão pela coisa. Os adeptos do turismo barato rejubilam. Só há um senão: falta mão de obra nos hotéis, nos restaurantes, nas praias e mesmo nas ruas para varrer  o lixo das folias nocturnas. Importam-se mais umas carradas de imigrantes. Brasileiros de preferência para trazerem um ar da saudável pátria bolsonárica...

A enxurrada turística vem de todo  olado incluindo países do Leste. Parece que Portugal é o terceiro destino turístico mais barato da Europa. Assim se vê como cada vez mais nos colocamos na cauda da Europa no que toca a rendimento per capita. Estamos baratos para quase toda a gente excepto para os indígenas, para a lusitangem, para os felizes habitantes do “torrãozinho de açúca”. E vamos continuar a apostar no turismo (barato) esquecendo que o turismo mesmo a preços de saldo é uma moda que muda muito e depressa. É só dar tempo ao tempo.

Neste frenesi de chegadas ao aeroporto só não se vê a TAP. Ou vê-se muito pouco, quase nada. Segundo as reportagens, de Inglaterra as pessoas vem em quatro ou cinco companhias (Ryanair, Easyjet ou outras) mas não pela TAP. Parece que os preços desta naufragada empresa são muito mais caros que a concorrência. “Morrer sim mas devagar!” E em grande estilo. E com preços dignos!

 

Há uns tempos atrás dizia-se que, depois da pandemia, nada seria como dantes. Erro fatal. Vai ser tudo igual mas mais pobrete e alegrete. A pandemia matou uns milhares de velhos, inúteis, aliás, e fez o Estado poupar em outros tantos milhares de reformas. Eram pequenas? Claro! Mas muitos tostões fazem milhões...

Agora morre-se menos, quase nada e, provavelmente, noutras faixas de idade. De todo o modo o combate à pandemia, melhor dizendo a vacinação, corre bem, corre célere, a toque de caixa.

O marinheiro (não só ele, evidentemente, mas também ele e a sua equipa, e todos sabemos que uma equipa precisa de um bom comandante) faz-nos esquecer aquele emplastro pomposo e saltitante de lugar em lugar de prestígio no Estado que, por má sorte ainda por lá andou uns tempos. Saiu sem uma saudade, sem um piedosa salva de palmas e no meio de um indisfarçado júbilo de quem le adivinhava a desastrada competência.

E tudo mudou em menos de uma semana. Tudo mudou e tudo continua não direi a mudar mas a transformar-se, a melhorar-se, a ultrapassar-se. Então estamos quase a assistir à mobilização dos maiores de quarente e mesmo de trinta anos. O almirante pede que as pessoas se inscrevam, se candidatem à picadinha. E assim nunca haverá seringas a perder-se, doses por inocular. As bolsas eventuais de pessoas mais velhas que por algum motivo faltaram à chamada serão reabsorvidas. Se tudo correr como até agora, em Agosto poderemos ter a tal imunidade de grupo.

Claro que neste lote de pequenas mas gloriosas vitórias há que incluir a malta da saúde, enfermeiros, administrativos, gente da logística que tem dado o litro sem espalhafato mas com entusiasmo.

Os hospitais tem pouco mais de 200 internados com o bicho horrendo e começam a tentar recuperar um milhão de consultas, quase duzentas mil intervenções cirúrgicas. Cá por casa, vai um rodopio. A CG entendeu consultar quatro ou cinco especialistas pois andava um tanto ou quanto arrombada e... amedrontada.     

Mas há outros heróis: todos quantos continuaram a fazer as suas tarefas, todos quanto nos permitiram comer o pão nosso de cada dia, todos os que transportaram os primeiros, todos os que mantiveram muitas empresas a funcionar. Uma multidãoo de gente humilde mas corajosa. É verdade que se não trabalhassem as coisas não lhes correriam bem sobretudo porque dependem de salários que só por pudor consideramos apenas baixos. Mas a verdade verdadeira é que mesmo que resignados e fatalistas, cerraram os punhos e foram à luta. Ou à labuta. Mantiveram isto a navegar. Essa é a saga do povo miúdo, dos que teimam, dos que não desistem por dá cá aquela palha. Esta foi a gente que embarcou nas naus, à aventura, com medo mas com a esperança de um dia ter melhor passadio. Agora que, muitos rapazolas e raparigolas andam por aí a tentar reescrever a história, é bom lembrar que esta gente fez o Brasil, os restantes palops, se mestiçou. Ainda há vinte anos, chegou-me às mãos uma lista de nomes de altos responsáveis políticos da União Indiana. Querem acreditar que li com espanto uma boa dúzia de nomes portugueses?

Não somos um povo de santos e mártires e heróis mas também não criámos apenas um mundo de miseráveis escravizados e humilhados, de escroques, de ladrões. Esses ficaram por cá e agora aparecem nos noticiários como grandes devedores desmemoriados. E há quem lhes aperte a mão, quem os respeite, quem os vote, quem ainda lhes conceda crédito...

Eu como, para minha má sorte, tenho formação jurídica, ainda advoguei, não gosto de julgamentos populares ou da rua, porém, ao ouvir incrédulo este bando de criaturas, subiram-me os humores coléricos e rompi em boas e escolhidas injúrias das antigas de Buarcos. E, muito de mansinho, desejei-lhes uma noite de São Bartolomeu. E vi-me a olhar para o lado, a assobiar para o lado enquanto os justiceiros lhes acertavam as contas e os lombos.

Hoje, mesmo, li que um gestor bancário, inominável, está quase a conseguir furtar-se a uma multa milionária. Por prescrição!!! O homenzinho recorre, volta a recorrer e a multa está por um fio. Que diabo de lei é esta que tal permite?

Façam o favor de ter um boa semana.