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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 7

d'oliveira, 20.04.21

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Liberdade condicional 15

Ai Jesus! Vem aí o dinheiro da bola

mcr, 20 de Abril

 

Quinze clubes de futebol, com tendência para aumentar até vinte, querem criar uma supertaça europeia onde, em princípio só eles jogarão.

Uma série de criaturas que deve viver num outro mundo , esganiçou-se em protestos a que se seguiram ameaças políticas nacionais ou internacionais (União Europeia, UEFA, FIFA).

Subitamente, descobriram-se todas as virtudes do Desporto, a sã competição, a democracia, a igualdade de oportunidades, num mundo sonhado por uma vaga caricatura de Rousseau do século XXI.

Permitam que um escriba que não gosta especialmente de futebol, que ignora as subtilezas da vida clubística, seja ela do Manchester, do Juventus, do Real Madrid ou, mais modestamente do FC Porto (pelos vistos abordado, segundo o sr Pinto da Costa que, aliás, não me parece uma testemunha demasiadamente fiável), que há muito eixou de se escandalizar com as somas inacreditáveis pagas aos jogadores mais dotados (e o caso do herói nacional Cristiano Ronaldo é paradigmático...) aos treinadores (o sr. Mourinho foi corrido do Tottenham embolsando uns largos milhões por quebra do contrato) e aos agentes, diga duas palavrinhas sobe este magno problema que, pelo volume de queixas estará a ameaçar a paz mundial.

O desporto, dito rei, há muito que navega entre dezenas, centenas ou milhares de milhões de euros que, numa percentagem gigantesca acabam numa algibeira  partilhado por uma, duas dúzias de clubes.

Os rios correm para o mar mas este, no caso em apreço não comunica com os oceanos livremente mas apenas gota a gota. Até em Portugal onde, desde que me lembro há dois, três, episodicamente quatro clubes que distribuem entre si todos s troféus. De quando em quando lá aparece um cometa, melhor dizendo uma estrela cadente que ganha uma taça ou até, escândalo dos escândalos, um campeonato. Todavia, isso, essa irrelevante entrada fortuita no recreio dos grandes, é apenas, e tão só, a excepção que confirma a regra.

O dinheiro, o grande capital, os fundos, algum príncipe árabe, um par de multimilionários russos, governam esta constelação e vão, com toda a probabilidade, continuar a mandar nesse restrito território vedado aos restantes.

Parece que algumas instituições ameaçam os clubes em questão de expulsão das ligas nacionais, de não autorizar os seus jogadores, pagos a peso de ouro, de entrarem nas seleções nacionais, entre outras coisas medonhas e tremendas.

À uma, parece que tais ameaças poderão não ter claro suporte legal (cfr.  o Publico de hoje). Depois será que alguém, por exemplo do Benfica ou do Porto, se incomodará muito se não puder ver a sua equipa jogar contra o Nacional da Madeira ou o Tondela? Claro que, seguramente, aparecerão alguns leitores e leitoras sinceramente interessados na beleza do jogo, na justiça desportiva, ou até na bondade do futebol como grande educador da classe operária, para me infirmarem esta vaga convicção vinda e alguém que pela última e não chorada vez entrou num estádio de futebol em 1969, numa final de Taça entre a Académica e o Benfica. Tinha eu vinte e tal anos e fui com um cartaz escondido para me manifestar caso o Presidente Tomaz aparecesse. Claro que não apareceu, escaldado que estava com os acontecimentos de Coimbra onde fora inaugurar uma faculdade. Triste com a falha do “mira carpetes” saí descoroçoado do Jamor e voltei para Cimbra no mesmo autocarro que me trouxera. “Um dia perdido, terei pensado mesmo se a manifestação se fizera, se os benfiquistas tivessem sido simpáticos (tanto mais que tinham ganho o jogo!...) e se a polícia não se tivesse dado ao trabalho de nos espancar como em Coimbra.

 

Tudo o que é meio de comunicação social anda num reboliço, sempre andaram, com o tal “oligopólio do futebol” imaginado por um jornalista (sempre do Público) que introduziu na palavra alguma duvidosa variante de sentido. Ou melhor se há oligopólio, ou seja mercado dominado absolutamente por alguns, poucos, agentes, ele existe há décadas, foi-se lentamente construindo com a cumplicidade de muitos, a benevolência de outros tantos, e a admiração basbaque de multidões eufóricas que se podem queixar de tudo, incluindo a carestia da vida, mas jamais das somas que os seus ídolos recebem. Somas que ajudam a realizar, comprando toda a espécie de bugigangas vendidas pelos clubes a começar por camisolas horrendas, com as cores do clube e o número e o nome do ídolo do momento.

Os meios de comunicação , e nisso as televisões são exemplares, gastam rios de tinta ou horas de emissão, com comentários, discussões, mesas redondas, noticiários solenes sobre os jogos, os jogadores, os responsáveis dos clubes (uma classe que mesmo à distância cheira a esturro, a corrupção, a conspiração, a lobying político (e sobre isso até cá temos as jantaradas parlamentares de adeptos clubísticos, as recepções dos dirigentes na AR ou nas Câmaras, os convites a políticos para integrarem listas societárias, de apoio ou mesmo órgãos sociais secundários do planeta futebolístico).

Este passo dos clubes europeus, copiado aliás da estrutura desportiva americana, era previsível, lógico e, diga o sr Macron o que disser (e não dirá muito porque em França o poder dos clubes não tem semelhança com o que se passa em Espanha, Itália ou Reino Unido).

Há ainda um pormenor que , de tão grande parece ter escapado aos adeptos da “pureza” do futebol hoje praticado. Será que um clube médio, ou um grande português,  alguma vez poderá sonhar em contratar Cristiano Ronaldo ou Messi como se as leis do mercado nõ existissem, como se os jogadores de grande talento se descobrissem milagrosamente  um dom para beneméritos dos pobres, dos remediados ou dos apenas ricos?

Alguém sairá à estacada para me dizer que tudo isto é fruto do capitalismo, selvagem ou civilizado, tanto dá. Lembrarei que, em tempos idos, quer na URSS, quer nos países socialistas (ou de leste, ou satélites, é só escolher) havia o mesmo clubismo, o mesmo fanatismo e a mesma negociata. E os mesmos privilégios de jogadores, treinadores e restante máquina desportiva.

Aliás nesses países, e nomeadamente na Alemanha “democrática” havia até para o desporto olímpico meios de treino e preparação que se revelaram para além da fraude e da manipulação dos corpos. Valia tudo excepto tirar olhos e o escândalo foi imenso como, provavelmente, os mesmos puristas já terão convenientemente esquecido.  

É claro que poderão retorquir-me  que aquilo, naquelas sombrias paisagens, não era socialismo mas apenas uma corruptela vil e cruel desse modelo. Não direi que não mas, caricatura ou verdade, milhões de pessoas no mundo e até por cá, acreditaram piamente no “sol da terra” e na restante parafernália ideológica. Digamos que o capitalismo apenas torna mais profissional, mais competitivo, mais atraente, o panorama dos grandes do futebol. Só.

E, já agora, as competições actuais europeias de há muito que fazem rolar milhões (sempre, ou quase para os mesmos). Mais uma competição apenas atiçaria o mercado das apostas e a sofreguidão dos adeptos. Quanto ao acesso universal de todos ao desporto, à sua fruição como atleta ou como espectador, esse permanecerá exactamente como até agora. Com mercado onde este se mostre viável ou com algum entusiasmo nos desportos ditos pobres.

Era disso que vivia o modesto clube que eu vagamente, muito vagamente, apoiava, a Associação Naval 1º de Maio, campeã, in illo tempore, de remo. Agora nem sequer isso. O futebol, e a gentinha que gravita à sua volta, incluindo um empreiteiro ganancioso, atiraram o clube para os confins exteriores da galáxia futebolística. O incêndio da sede e o desaparecimento de um honroso espólio, acabou praticamente com o resto. Nem o retrato do meu Pai, médico do clube e presidente durante anos, escapou...   

DE todo o modo isto vai dar uns dias, talvez semanas de discussão. Preparem-se para as mesas redondas futebolísticas diárias e longas. E chatas! E grosseiras...

É fartar vilanagem!...

Homem ao mar 6

d'oliveira, 19.04.21

 

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Liberdade condicional 14

Demasiada cera para tão ruim defunto

mcr, 19 de Abril

 

 

Eu queria falar do censo. Hoje, na caixa do correio, recebi o diabo do papelucho todo muito secreto, uma dificuldade para o abrir sem estragar.

Qual não foi a minha surpresa quando verifiquei que primacialmente aquilo está pensado pra uma resposta via internet!  Se a pessoa não tem computador (e creio que mais de metade dos portugueses não tem) deverá “solicitar a ajuda de amigos ou familiares; se o não puder fazer, deverá ir à Junta de Freguesia; ou então aguarda pela visita do recenseador provavelmente telefonando para uma linha de apoio. Este número que deveria vir junto às instrucções, vem na capa do papelinho sigiloso!

E previnem as pessoas que na lei X, no decreto Y e em mais outro K, é obrigatório responder! Tudo isto na redacção analfabeta comum de muitos serviços públicos .

 

Sobre os efeitos da citada obrigatoriedade, estamos conversados. Presumo que caso o agente recenseador não apareça ou apareça não estando o morador, a coisa morre logo ali. Duvido que o Estado, de espada em riste, perc o seu tempo a perseguir os faltosos que, aliás, tem mil maneiras de se escapulir.

Tudo isto poderia ser atalhado se com mais meia página se fizessem as perguntas com um quadradinho para responder, caso não se soubesse, não houvesse ou não se quisesse usar a internet.

Mas como novos ricos, deslumbrados, as criaturas do censo nem curaram de perceber que vivem aqui, em Portugal, no ano de 2021, o mesmo em que centenas de milhares de alunos se queixaram de não ter meios para seguir à distância as aulas. Por falta de material, por falta de rede, por mera pobreza.

E é bom lembrar que um estudo recentíssimo avisa que pelo menos um quinto dos portugueses ( só?) vive abaixo do limiar da pobreza. E aí até se incluem pessoas com emprego fixo.

O desdém pelas classes pobres é sistémico e transversal. A ajuda a quem sofre de privações é algo que horroriza o mais pintado. Não chega, o que não chega, chega a desoras, mantém a pessoa em vida mas não lhe dá meios para sair da armadilha que apanhou pais e avós até Adão. Com a merda da pandemia, as coisas hão de ter piorado e muito. A Cáritas,  o Banco Alimentar e outras instituições  privadas (e só menciono estas porque são elas que estão no terreno constantemente, como são também aquelas a quem os deserdados mais recorrem. E são também as que mais depressa respondem, sem burocracias inacreditáveis que só quem as conhece é que pode dizer a selva que aquilo é. Uma corrida de obstáculos que parece obedecer à ideia que os pobres são culpados por serem pobres.

Portanto, o censo. Uma oportunidade falhada para chegar a resultados úteis e rápidos. Uma ameaça vã e desnecessária. Uma previsível falta de informação total, cabal e fidedigna.

 

O título deste folhetim tem a ver com a figura, a triste figura, a desprezível figura de um acusado de graves crimes, mais graves até por terem sido exercidos quando o acusado tinha altas responsabilidades públicas e deveria ser o garante das chamadas “virtudes republicanas”.

Uma pessoa, tenta safar-se do mundanal ruído deste processo mas não tem safa. Melhor, safa tem, basta mudar-se para os antípodes pois pode ser que na Nova Zelândia ninguém, fale de um fait divers português, uma coisa abjecta de faca e alguidar.

É que, por cá, ´impossível escapar incólume. Até a senhora mãe do Primeiro Ministro resolveu sair a terreiro para denunciar uma “perseguição” medieval e tremenda.  Todos tem direito a uma opinião livre mas, neste caso, a opinião sofre de vários achaques. À uma é a mãe do Primeiro Ministro, o que talvez implicasse uma certa reserva. Depois, o artigo é pobre, muito pobre em argumentação. Finalmente, e por isso mesmo, defende mal, ou acusa, apesar de tudo, quem pretende defender.

Depois, ja as televisões que já se aperceberam que uma entrevista ao “animal feroz” e encurralado é algo que dá share (s é assim que se escreve). O dito “animal feroz” escoicinha por todos os lados, o que é lógico, e consegue enredar-se mais e mais na trama que o envolve. A entrevista mais parece uma tourada com pegas de caras e de cernelha por dá cá aquela palha. Mesmo o público não resistiu (quando nada o obrigava, e sobretudo a defesa de um português escorreito) a publicar um artigo de auto-defesa que é dramaticamente risível.

Entretanto, alguns políticos, poucos, do PS tentam sacudir a água do capote. São os que sempre, ou quase sempre, se opuseram ao dito “animal feroz”. A maioria, porém, está nas encolhas, mesmo se eixa cair algumas pérolas de veneno, como quem não quer a oisa. A drª Gomes está nas suas sete quintas que este escândalo permite-lhe continuar a sua cruzada favorita. Até parece que há quem lhe queira dar lugar e espaço...

Deixmos este tema deletério cujos miasmas são insuportáveis. E recordemos a uma verdadeira multidãoo de portugueses que fervem à temperatura do ângulo recto que o sr. juiz Ivo Rosa não é removível assim por peditório publica mesmo de cem mil criaturas que não percebem que o seu gesto de indignação permite mais uma vez temer pela sorte da democracia tanto ou mais do que a teorias da conspiração. E muto mais do que o Chega que ontem respondeu com um milhar de criaturas uivantes a cinquenta outras tristes criaturas que o querem fazer desaparecer. A estupidez destes democratas de algibeira alimenta o reacionarismo mais puro e duro. Arre!

 

O articulista da última página do Público, Rui Tavares, atira-se com unhas e dentes ao PPD por causa de uma advogada candidata à Câmara da Amadora. Parece que a criatura diz coisas insuportáveis. Se sim, Tavares pegava na pena e desfazia-lhe a argumentação, sem meter ao barulho um partido que não suporta. Depois, noutro artigo analisava as opcções autárquicas desse partido e cantava.lhe a missa toda com sermão de pregador de fora. Agora misturar alhos com bugalhos é que me parece insensato. Eu creio que esta Câmara é desde sempre ganha por gente de esquerda pelo que esta corrida vi ser curta e grossa. Mas Tavares, ao ouvir chiar no corredor, as botas do moço da tipografia, resolveu descascar no bey de Tunes, se é que a minha lembrança do imortal enterrado em Tormes está certa. Tavares acrescenta algo que o devia envergonhar. Fala do eventual apoio a um “corrupto” candidato a outra autarquia onde gnhará de certeza. Era bom lembrar que essa pessoa foi condenada por branqueamento de capitais e não por corrupção. Que cumpriu pena e está com todos os direitos cívicos restabelecidos. Que, portanto já pagou a sua dívida à sociedade.

Eu que nada tenho a ver com toda essa “boa gente” lembraria que em questão de apoios Tavares andou de lira ao alto a entoar loas a uma deputada que logo que se viu eleita o mandou a ele, e ao partido que a candidatou, às malvas ou qualquer outra coisa começada por M. Recordaria também, que ele, Tavares depois de eleito por um partido para o PE se demarcou dele e continuou como se nada fosse no Parlamento num lugar que o modo de votação existente em Portugal prova à evidencia que não era dele mas do partido. Foi feio, muito feio.

Quem tem telhados de vidro...

* na vinheta: arte maori (já que referi a Nova Zelandia...)

homem ao mar 5

d'oliveira, 18.04.21

Liberdade condicional 13

ninguém escapa à História

mcr, 18 de Abril

 

Parece que no próximo dia 20passará o 41º aniversário das FP25, uma organização terrorista que deixou um lastro de 17 ou 18 mortes, por inúmeros feridos, assaltos a bancos e outras malfeitorias .

As FP25 eram uma caricatura torpe e infame das organizações armadas que floresceram venenosamente na europa Ocidental entro fim dos anos 60 e o início dos 80. O paroxismo poderá ter sido atingido pela “Rote Armee Fraktion” que numa Alemanha Ocidental próspera foi buscar à contestação estudantil (nomeadamente à berlinense – ocidental, claro que, no outro lado do muro, a justiça “popular, socialista e revolucionaria” matava no ovo qualquer protesto mesmo o mais pacífico) as alegadas razões para combater o Estado burguês e “neo-fascista”. Durou pouco esta organização por evidentes razões: impreparação teórica, incapacidade de se “ligar às massas” e incapacidade de determinar objectivos evidentes. Aquilo era, como depois com os aberrantes kmeres vermelhos de Pol Pot, uma conjura de intelectuais ultra-radicalizados, desconfortáveis com a sua situação de classe, mais ainda com os privilégios de que disfrutavam e embriagados com uma ideia ultra-romântica de Revolução a que os novos tempos de crescimento económico não deixavam espaço ou razão. 

O mesmo, de resto sucedeu na Itália de finais de 60. No norte (no Norte, não no sul pobre sujeito a tudo è à máfia) rico e industrializado, controlado pelos sindicatos comunistas e com centenas de localidades governadas pelos comunistas, um pequeno grupo de estudantes, acreditou que o aburguesamento do Estado e do PCI deveria ser sacudido por acções de guerrilha de rua, citadina, para despertar a “classe operária” que não percebia que estava a ser oprimida. 

A classe operária não despertou e o saldo das acções que começaram por tiro nas pernas de alvos escolhidos e terminaram com assassínios de personalidades da Direita, entre as quais Alfo Moro, dirigente democrata cristão que tentava uma espécie de aliança com o PCI, prova provada da maldade intrínseca da DC e do abandono dos ideais revolucionários do PCI!

Em Portugal, como de costume, a coisa demorou a chegar. Aliás, praticamente só chegou depois do fim do Estado Novo e do estabelecimento da Democracia.  Dois grupos destacaram-se um continuando o combate das Brigadas Revolucionárias, mesmo depois do “5 de Abril. Assaltos a bancos, qualificados como “recuperação de fundos” (como se vê, a “nov-língua” já na altura fazia milagres) 

Desaparece como organizaçãoo autónoma embora alguns militantes tenham integrado as FP25 que durante quase dez anos permaneceu em actividade. 

Tentar, 40 anos depois, perceber o porquê de uma organização violenta  num país pacificado, democrático, com um parlamento onde inclusivamente, e para além de uma forte presença comunista, havia um deputado da extrema-esquerda, é algo que, ou não tem explicação lógica, ou remete para o domínio do delírio revolucionário tardio. E criminoso porquanto há na contabilidade sinistra desta associação de malfeitores 17 (ou 18) mortes. 

Na verdade, como com as anteriores e já referidas organizações em outros países, nunca se verificou um apoio popular, proletário às acções das FP25. Nunca, repete-se. Em segundo lugar, são vagos e desconexos os motivos ideológicos apresentados por militantes entretanto presos. Limitavam-se a uma confusa verborreia proto-marxista traduzida em calão. Não vale a pena, ou melhor vale a pena, recordar os textos patéticos e o julgamento em Monsanto. As declarações dos arguidos constituem uma peça aterradora do analfabetismo político. E aqui incluem-se as sucessivas declarações do responsável máximo que, já antes, em pleno PREC se contradizia veementemente. Bastava apontar-lhe um microfone e a criatura soltava pérolas de tolice. 

À boa moda portuguesa (os recentes episódios jurídico-processuais que alarmam a sociedade não são sequer novos ou surpreendentes à vista do aborto jurídico que acabou numa amnistia às três pancadas que mandou em paz, ladrões de bancos e assassinos indiscriminadamente. O alegado cérebro, ou mais justamente o títere transformado em líder da coisa passeia-se por aí  com direito a faladura anual (estamos próximos de o voltar a ouvir) como se nada fosse. 

Desconheço se o livro agora publicado (“Preso por um fio, Portugal e as FP25”, Casa das Letras, 2021) vale a pena. Na verdade mereceu uma chamada de atenção de página inteira do “Expresso”. Suponho que, para alguns, só isso fará fugir algum eventual leitor para quem o semanário é um agente de tudo o que é mau, desde o capitalismo ao imperialismo, da Direita ao fascismo, da burguesia ao patronato. 

Pelo sim, pelo não, irei lê-lo. Com o confinamento há tempo para tudo.  E ainda não é demasiadamente tarde para perceber... 

Finalmente, e antes que algum leitor, me salte ao caminho acusando-me de atacar as forças “progressistas” & assimiladas, há que lembrar que uma defesa  de método abre a porta a todas as tentações da uma ultra-direita igualmente descrente do valor da vida humana e dos direitos de cada um. O terrorismo é uma arma “política” que serve todos os interesses mais divergentes brutais e expeditivos. Matar o adversário com um tiro na nuca ou com uma bomba (mais eficaz porque pode atingir mais gente) é semp um crime, uma cobardia e, a l alongue, uma inutilidade. Matar homens não é o mesmo que matar ideias, ideologias, governos ou partidos. É um mero assassínio. 

E foi isso o que as FP25 fizeram. Nada mais, só isso.

Vinheta? Não há, mesmo se abundem fotografias sobretudo do julgamento. Caras tão determinadas e sorridentes como sócrates. Um nojo. A essa gente nem um milimetro de publicidade. quando me cruzo com um deles, nem o vejo.

 

homem ao mar 4

d'oliveira, 17.04.21

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Liberdade condicional 12

 52 anos! Já?...a nossa juventude

mcr, 17 de Abril

 

maio foi antes de abril mês de Portugal

mas isso foi antes

das guerras das dores

do saber e das lutas

de Coimbra...

 

Acabo de sair de uma esplanada onde estive com o António Lopes Dias já várias vezes aqui (blog) referido. Aliás fez parte, há muitos anos, da equipa deste blog sob o pseudónimo de Anto, um pseudónimo muito coimbrão e muito poético mas, de facto, o Didi, assim o chamamos carinhosamente, é poeta, esteve em todas e só falhou 69 porque... já estava formado e a estagiar. 

Mas tinha feito Caxias em 62, caso fazer caxias vos cheire a “estar dentro” pela malfeitoria de ser um homem livre e um lutador pela liberdade. Tropeçou na PIDE, ou esta nele, devido a ter participado na crise de 62 e ter ocupado a sede da AAC encerrada pela polícia e pelas autoridades académicas sempre, sempre, mancomunadas com o poder.

Somos amigos desde 61, desde o CITAC (onde ele fazia, no “Grande Teatro do Mundo “ de Calderon um rei inesquecível), tivemos escritório de advogados juntos, participámos na redenção das Caixas de Previdência em 75,  voltamos a reencontrarmo-nos profissionalmente sete anos depois na Segurança Social. Enfim, partilhamos tudo ou quase.

Desta feita fui pelo último livro dele  “Arquitectura  dos sonhos” (Chiado ed, 2021) sem saber que viria a encontrar a nossa comum juventude, num poema de 69, datado de Coimbra onde ele vinha amiúde porque a Lena ainda por la andava. Ainda por cima falámos da data de hoje! Eu nem sei se o Didi ao falar de Maio, estaria também a recordar a nossa primeira prisão, justamente em Maio de 62, a ida para Caxias em autocarros flanqueados de polícia de choque armada até aos dentes. E ele, poeta, franzino, e com sono adormeceu encostado ao ombro do polícia que o guardava e que permanecia mudo e quedo como um rochedo! A noite já ia longa e o malandrim com sono nem olhou para o lado: ferrou-se a dormir cabeça apoiada no braço matulão do policia de choque! É preciso coragem, inconsciência e muito sono. E eu perdido de riso sem me lembrar que não íamos para bom sítio, nem por quanto tempo...Outro inconsciente mas acordado.

A bem dizer, não esperava muito do dia 17 de Abril de 69. “Isto pode dar merda!”,  disse a um camarada que encontrei logo pela manhã muito antes da hora marcada para a concentração de estudantes diante do novíssimo edifício das Matemáticas que iria ser inaugurado pelo Presidente da República. E com esse companheiro fizemos um pequeno giro pela zona para determinarmos por onde fugir se as coisas dessem, como costumavam, para o torto. Consoante a polícia viesse de um ou de outros lados tínhamos a opção de nos escafedermos pela zona do Instituto Botânico, pelo Hospital Velho até às Químicas, por umas escadinhas em desuso junto das Monumentais numa corrida até à república de “Ay –ó-Linda”, ou em direcção à Porta Férrea onde poderíamos obliquar para a esquerda até ao Colégio da Trindade ou à direita, passando pela faculdade de Farmácia e atingir a Sé vlha por cima. E daí para o mundo.

Enquanto discutíamos esta grave questão, foram chegando colegas, amigos e malta desconhecida mas estudante. “”Chiça que há mais gente do que esperava!” disse o meu conspirativo parceiro. E era verdade. Um di sem aulas era pretexto para noitadas e para dormir aé ao fim da manhã. Mas não, ali iam chegando, fresquinhos ou com fartas olheiras de pouco dormir, mais e mais colegas. E a cena compôs-se, como se costuma dizer, “um bom quadro humanos” a aguardar autoridades políticas e académicas. Depois chegou uma companhia de soldados para prestar as honras militares. “Porra, mcr, isto está mau!” avisou o meu camarada de outras e mais clandestinas lutas. “Isto são maçaricos, retorqui, carne para canhangulo. Daqui a dois meses estão em África bem lixados” E expliquei que as espingardas nem balas deveriam ter. E acrescentei, “quem vier por mal, vem à civil. Se houver porrada é a polícia ou a GNR, não estes rapazolas a desmamar na tropa”.

Não sei se veio polícia que se visse e não me dei ao trabalho de me pôr a identificar a bufaria, os pides do costume. O dia estava bom e nem por sombras imaginava que as “autoridades”, um bando de cretinos envelhecidos, iriam dar-nos um pretexto para acender uma bernarda que durou meses.

Vê-se que, por muito “revolucionário” que me considerasse eu não contava com todas as alternativas (excepto a dos pontos de fuga!...). É que sempre tinha considerado que os nossos inimigos eram suficientemente cabrões e inteligentes para não darem passos em falso.  Éramos nos, rapazolas ingénuos, que deveríamos ser pouco prudentes, irreflectidos, não eles com dezenas de anos de treino contra o “reviralho”.

Enganei-me. Aquilo que sucedeu, a promessa e falta de cumprimento dela (permissão para o Presidente da AAC discursar) foi obra de Thomaz e dos restantes imbecis que o acompanhavam. Só deles.

As crises começam sempre, ou quase, por incidentes menores é, desde esse dia, uma verdade quase absoluta para mim.

Contar o que já foi contado dezenas de vezes não tem interesse. Deixo isso para quem se considerar “velho combatente”

Não fui um herói. Fiz o que tinha a fazer. Fi-lo com paixão, com determinação, com frieza e... (desculpem lá esta) com prazer. Ainda hoje me rio com algumas das coisas que sucederam. Depois...

Depois, o riso esmorece, apaga-se. E recordo os que já cá não estão, o António Mendes de Abreu, a Fernanda da Bernarda, o João Bilhau, os Alfredos (Fernandes Martins e Soveral Martins). E mais um batalhão de outros que os anos passam com o seu cortejo de lutos. E choro-os, hoje, como chorei quando morreram.

E agora, cinquenta e dois anos depois, recordo-os vivos, risonhos e carregados de futuro.

*as vinhetas: 17 de abril de 1969, de manhã.

A citação é obviamente de um poema de António Manuel Lopes Dias, tirada do livro que me ofereceu hoje. “Já vou a meio, Didi já tenho pena de acabar!..”

(não referi, nem referirei o nome do camarada cospirativo. Acabávamos de sair sem querer de ua célula pró-chinoca. O meu controleiro desandara para o exílio e a malta ficou sem ligações. E começaram a circular notícias da famosa granderevolução cultural proletária que eram de arrepiar desde a imbecilidade total do culto a Mao até à depuração gigantesca e mortal que se ia levando a cabo. "O Oriente é vermelho" era verdade mas de sangue não de liberdade.

 

homem ao mar 3

d'oliveira, 16.04.21

 

 

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Liberdade condicional 11

outro cinema?

mcr, 16 de Abril

 

O “Público” de hoje traz no seu suplemento Ypsilon um longo artigo sobre joseph Losey, um cineasta americano que se exilou na europa devido à perseguição mac-cartista.

Atribui-se ao mac-cartismo grande parte dos males do ciema americano (e das artes em geral, convém lembrar) mas neste específico domínio já as grandes produtoras tinham começado a cercear a liberdade criativa, através de acordos de defesa da moralidade e outros do mesmo jaez. O cinema tornado grande indústria do espectáculo, impunha-se limites, fronteiras, barreiras, policiava actores, argumentistas e realizadores bem antes do delírio do senador Mc Carthy lançar a sua cruzada. A América consegue produzir cruzadas moralizantes e políticas em quantidade impressionante. Da Direita até à Esquerda com um à vontade estarrecedor para nos europeus  “blasés”. As melhores causas embarcam com facilidade surpreendente no expresso do radicalismo sejam elas o #me too# ou o anti-racismo. E arranjam com alguma facilidade imitadores na Europa, há que dizê-lo. Os Pilgrim fathers venceram os libertários e há na América profunda, fora de uma dúzia de cidades cosmopolitas, uma contínua fermentação de aventureiros religiosos, de seitas políticas, que, quando apanham um Trump a favor mostram o lado mais horrendo de tudo desde o capitalismo, a religiosidade bacoca, à perseguição da originalidade, da liberdade da aventura.

Claro que o território que propiciou o senador Mc Carthy, um político ambicioso, intolerante, arrogante e ignorante teve muito a ver com o início da guerra fria, a competição com a URSS, a descoberta de um partido comunista com redes subterrâneas de apoio à espionagem soviética.

O cinema, o principal meio de diversão americano, foi provavelmente a maior vítima: já inquinado pela moralidade provinciana e pelas famosas regras de conduta, foi fácil juntar aos exemplos de imoralidade de um par de actores conhecidos características políticas que faziam perigar a essência do americanismo. Dashiel Hammett ou Dalton Trumbo (um escritor de um argumentista) juntam-se a Joseph Losey um realizador que depôs na comissão de actividades anti-americanas com alguma coragem. Ao contrário de Elia Kazan (“Há lodo no cais”) que para continuar a fazer filmes denunciou amigos e colegas. Tudo em directo pela rádio, pelas actualidades cinematográficas, um srip tease, um espectáculo de  “burlesque” que encheu de pavor e de prazer as noites plácidas da América profunda.

É bom lembrar que muitos sindicatos ajudaram, que cidadãos pacíficos e democratas se assustaram, indignaram e pediram a cabeça dos inimigos da América.

Losey fugiu para a Europa e realizou aí um largo número de filmes que deixaram marca. Nos anos sessenta era idolatrado pelos cineclubistas e pela crítica. E alguma razão havia pois é autor de uma boa meia dúzia de filmes que não envelhecem. Ou envelhecem bem, pelo menos para mim que os vi em primeira mão.

De todos destaco “Eva” com a sublime Jeanne Moreau (vinheta) num papel de “má” extraordinário,  delicioso, que conseguia apagar a belíssima Virna Lisi, vítima do vilão Stanley Baker um actor que nunca passou da mediania.

Provavelmente, recordarei sempre o filme porque foi, ou disso estou convencido, aí que ouvi pela primeira vez “Strange fruit” por Billie Holiday, uma das obras primas da Lady Day, um tema fortíssimo, uma arma contra a segregação.

Não deixando de celebrar “O Criado”, “Acidente”, “O Mensageiro”, há outro “Losey” que recordo (e tenho) com alegria “Modesty Blaise”, uma comédia com a Monica Vitti que iguala os seus melhores momentos em filmes (de Antonioni) completamente diferentes.

Há realizadores muito mais interessantes (incluindo Kazan) na América ou na Europa do seu tempo. Todavia, Losey, conseguiu talvez pela história da perseguição que lhe moveram, do exílio a que foi forçado, tocar-me de uma maneira que, tantos anos depois (50, provavelmente) ainda me faz olhar para trás com alegria, mesmo se, um dos filmes que, na mesma época, também me encheu as medidas se chamasse exactamente “Look back in anger “ (film de Tony Richardson, com Richard Burton e Claire Bloom, uma senhora actriz.) versão da peça homónima de John Osborne.

Era no tempo em que da Inglaterra (e da Alemanha, da França e da Suécia ou da Itália...)  vinham filmes excelentes que passavam com êxito nas salas de cinema portuguesas. Agora essas salas desapareceram e os filmes que enchem as pequenas salas são todos americanos. Isto num país que enche a boca com a União Europeia!  Pelos vistos esta só é boa para dar esmolas...  

*na vinheta: “Eva” de Losey. E a imensa Jeanne Moreau! Ai meu Deus, que maus pensamentos me acodem nesta idade ...

    

 

 

Homem ao mar 2

d'oliveira, 15.04.21

Relação_da_muy_notavel_perda_do_Galeão_Grande_S

Liberdade condicional 10

It’s allright Ma (I’m only dying)

mcr, 16 de Abril

 

 

Se há um prémio Nobel justo, e há muitos, felizmente, esse seria o de Bob Dylan, autor de uma obra imensa, de centenas de poemas, verdadeira testemunha do nosso tempo.

O título leva-nos ao álbum “bringing it all back home” onde consta a canção que dá título ao folhetim. Em boa verdade na parte entre parêntesis é “I’m only bleeding” que no filme “Easy Rider” se converte em “...dying

Eu faço parte, até por questões de geração, dos fãs deste filme. Aliás, recordo-me bem da sua estreai  (em Coimbra)  já em 1970 se não me engano. Atrever-me-ia a dizer que o vi pouco depois, escassos dias, de sair da prisão onde permaneci algum (demasiado) tempo ainda na sequência da crise académica de 69.  Talvez, também isso, tivesse influenciado a percepção do filme que, aliás, é bastante estimado e considerado até, na América, o “retrato de uma geração”

Todavia, não é para falar de Dylan, da minha “oisive jeunesse”, das pequenas aventuras que foram ocorrendo, que fui buscar o verso de Dylan. Acontece que, os ásperos tempos que estamos a viver, e não me refiro, desta vez, à pandemia, cheiram a decomposiçãoo lenta mas crescente de um regime que permitiu, e permitirá provavelmente, o triste estado da justiça a que assistimos.

Não esqueço, obviamente, que uma instrucção é só isso. Que não só há existe a possibilidade de recurso (w já foram anunciados pelo menos dois) mas ainda haverá uma fase de julgamento, dos poucos crimes que o meritíssimo entendeu existirem e ainda vivos. Também não esqueço que mesmo entre os “enterrados” violentamente pelo mesmíssimo juiz, poderá sempre haver a ressurreição de alguns  mormente de natureza fiscal onde parece ue S.ª Ex.ª meteu água.

Também não vou discutir a questão da corrupção e, sobretudo, os extraordinários, bizarros, limites temporais do citado crime.  Por pouco não temos um crime inexistente e quase legal, mas isso tem outros pais, outros padrinhos que não o juiz. O legislador terá feito ouvidos de mercador à indignação pública que há um ror de anos se faz ouvir. Nem sequer vou pronunciar-me sobre as razões que levam tantos deputados, tantos especialistas, tantos “garantistas” a rodear os pressupostos da corrupção de tais exigências que, em boa verdade, começa-se a desconfiar de tanta defesa dos direitos... No caso concreto da corrupção, esta é uma das causas da pobreza em Portugal. O Estado vê-se incapacitado de agir,  paga mais do que seria normal, quem concorre a uma obra só a ganhará se untar a não, o antebraço, o cotovelo inclusive o ombro de quem devia mediar, garantir as regras da justiça e da equidade.

A “cunha” é uma instituição nacional que só quatro gatos pingados acham anormal. Dirigi uma instituição onde, o meu antecessor, homem do antigo regime mas duma honestidade exemplar, mandou elaborar um “livro das cunhas”. Aí se dava entrada dos pedidos, recomendações, ordens veladas e quejandos, que iam aparecendo subscritas por todo o ripo de personalidades civis, militares ou religiosas, por personalidades do mundo civil, por colegas de faculdade pelo dono do café ao lado, bilhetes, cartas, cartões de visita.

Tudo anotado com data de entrada e... com uma nota conclusiva a dar conta do êxito do requerimento. Tratava-se fundamentalmente de pedidos de emprego apadrinhados. Os próprios funcionários pediam para filhos e familiares e as suas pretensões transitavam da mesma maneira, livro, registo e conclusão!

Quando cheguei a essa instituição, modelar de resto, com pessoal competente, tinha a sorte de vir representando o novo poder democrático e de, oh insondável mistério!, não pertencer a nenhum partido com influência suficiente para impor fosse quem fosse. Mais tarde, alguém apresentou uma tentativa de explicação: num universo de mais de cinquenta lugares a preencher neste tipo de instituições, houvera o cuidado de agarrar em 10, 15%  dos lugares e atribuí-los a uns desconhecidos, o resto, obviamente foi para “os do costume” que ainda não eram os do costume, claro. O PC não precisou de lugares destes nem os obteve porque, através e outra via, a sindical, conseguiu impor um forte e aguerrido grupo de simpatizantes. Mesmo um partido conservador, o CDS teve direito a uma fatia porquanto as comissões administrativas em causa tinham um eleito pelos trabalhadores da casa. “Tout est bien qui finit bien”.

Quando fui confrontado com a existência do famoso livro, mandei conservá-lo e durante o meu mandato acrescentei-lhe uma dúzia de pedidos que, infelizmente para os peticionários não tiveram conclusão satisfatória. Ou melhor, um teve, o pedido chegou quando um concurso já terminara e o ganhador, mesmo assim, e à cautela, muniu-se de um padrinho inútil. Juntei a acta do júri à nota conclusiva com uma menção das datas do pedido e do concurso, para memória futura.

Mais tarde, noutras funções, fui com uma conservadora de museus ver uma peça enorme de prata e esmalte, que figurava a torre de Belém e tinha dentro um pequeno escrínio com terá portuguesa (ou de Goa, já nem sei). A referida peça estava numa loja de antiguidades e o dono e o intermediário pretendiam impingi-la ao Estado. Por alguns momentos, afastei-me da senhora com quem vinha e fui discretamente abordado pelo antiquário que me informou , muito à puridade que  se o Estado comprasse a peça (tenho a ideia que o preço rondava os dois mil contos, antigos e sólidos, dez por cento contemplariam o feliz funcionário proponente da compra.  Fiquei sem voz e sem saber o que dizer. Desandei para junto da colega mais corado que um tomate coração, pretextei afazeres urgentes e fomos embora, não sem a senhora dizer alto e bom som que a peça era horrenda e sem valor histórico.

Contei isto ao meu superior hierárquico que se divertiu como um cabinda com a minha situação e confusão. Ao meu pedido de inquérito perguntou-me “tens alguma testemunha?” e continuou É que se não tens é tua palavra contra a do sevandija!”

Claro que não tinha! E andei amargurado meia dúzia de dias por ter sido confundido, ainda que por breves instantes, com alguém capaz de meter ao bolso uma gorjeta.  

Hoje mesmo, corre nos jornais e televisões uma (mais uma!....) acção da PJ que envolve uma câmara municipal, um candidato a outra mais não sei quantas criaturas, três das quais presas preventivamente....

Durante uns dias, semanas, um mês quiçá, as notícias incidirão neste caso de venda de terrenos municipais. Depois, pouco s pouco, o ruído abrandará se é que se não transforma em música de fundo.  E a vida continurá...

Ora, o verso de Dylan, o fim violento do filme “Easy Rider” servem para ilustrar um certo estado de espírito que grassa por aí.

O descrédito das instituições, os ziguezagues rocambolescos do caso fétido de Sócrates, uma voz clamando no deserto da conspiração e da injustiça, uns largos milhões de euros que circulam sem se ver para onde e por quê, a demora que um mega-processo acarreta, as fragilidades a que isso está sujeuto (quanto maior a nau maior a tormenta), o ego de alguns interventores no processo, a transformção de um pobre diabo em mauzão da fita, tudo isto, graças ao comentariado (e eu incluo-me aí, mesmo se a partir de um modesto blog e a título gratuito) , o esbracejar de um dos actores principais, enquanto outros mais inteligentes, mais argutos se calam e se escafedem silenciosamente para trás do cenário, tudo isto com a estridência que se impõe, faz o retrato de um mal profundo, de um mal português de um país à deriva.

Está tudo bem ,malta estamos só a afundarmo-nos na merda!

 

(Já que citei Dylan, aqui vai um par de sugestões. De discos nem vale a pena falar. Eles são tantos que o difícil é escolher (Blonde on blonde, Highway 61, Blood on the tracks,a que junto um disco delicioso com The Band, um dos meus grupos favoritos)). Gostaria de citar o primeiro livro aparecido com poemas  e editado pela “Centelha” uma editora de que fui, com mais cem malucos, proprietário. O livro tem o título de Poemas 1. De todo o modo agora corre por aí uma edição monumental da Relógio de Água, uma senhora editora de altíssima qualidade: Dylan “Poemas e Canções”, 2 volumes.

Para acompanhar: Leonard Cohen (50 canções de amor e ódio, da Fenda, saudosa e corajosa) e, claro “Poemas e Canções”. (a inevitável Relógio de Água) A estes, por escolha de que só eu me responsabilizo, dois livros da Assírio e Alvim: “Estradas de fogo” de Bruce Springsteen e “Nocturnos”  de Tom Waits. Estou à espera de edições maiores e mais completas mas isso é com os editores... e com o público.

(de Bowie aos Stones, dos Beatles a Zappa, há versões em português a maior parte das quais já só em alfarrabistas. Mas vale a pena procurar pois aqui, há sempre pepitas em quantidade. Mais do que uma arma, a poesia das canções é um enorme prazer.

*na vinheta: uma ilustração do naufrágio de Sepúlveda (História Trágico Maítima, um dos maiors e mais notáveis livros, a par da Peregrinação. sobre a expansão portuguesa. Imprescindíveis em qualquer biblioteca portuguesa, pública ou particular)

homem ao mar 1

d'oliveira, 14.04.21

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Liberdade condicional 10

Lembrando Pierre van Passen

(Homem ao mar 1)

mcr, 14 de Abril

 

A série “estes dias que passam” chegou ao respeitável número 600. Vai ficar por aí mesmo se eu desconfie que pode ser maior ou menor. Não seria a primeira vez que eu descobriria numeração dupla ou em falta por razões de pura distração. D isto fosse algo para futura publicação forte trabalho teria não só em eliminar textos demasiadamente de circunstância (se é que não o são todos), rever erros de sintaxe, de ortografia (isto de agora haver uma tolice chamada novo acordo ortográfico. Acho que é o quinto e inútil acordo nunca respeitado pelo Brasil e actualmente não ratificado nem por Angola nem por Moçambique (pelo menos!...), enfim uma perda de tempo, uma perda de memória histórica da língua, da ortografia e uma mão cheia de dislates amplamente publicitados por estudiosos, vozes clamando no deserto da ignorância da Assembleia da República que elva esta escolha duvidosa muito mais a sério do que o combate contra a corrupção ou contra o enriquecimento sem causa. O parlamento português tem uma tendência suicidaria para se enredar em discussões bizantinas, para se entusiasmar com as grandes “fracturas” do memento mas no que toca a tratar de coisas mais sérias é o que se sabe, assobia para o lado. Então quando a coisa atinge o campo da cultura, é um ver se te avias. Naquele areópago de luminárias tristes a “cultura” é chão que nunca deu uvas.

Deixemos, porém, esta excursão inútil e passemos ao nome da série que ontem findou. Tratava-se de uma homenagem a um grande livro dos anos trinta ou quarenta: “Estes dias tumultuosos” de um famoso jornalista e escritor, Pierre van Passen. Nascido na Holanda, educado no Canadá, foi missionário antes e se tornar jornalista. Combateu na primeira guerra mundial  e depois enveredou pelo jornalismo. Escreveu uma quinzena de livros sobre “os dias tumultuosos” entre as duas guerras e especializou-se em conflitos internacionais e coloniais. O livro já citado é uma extraordinária peregrinação sobre um mundo inclemente, sobre a barbárie que alcançou larga fama e foi traduzido em todo o mundo. Cheguei a ele graças a Jorge Delgado, meu primeiro sogro, um homem culto, empenhado, combativo que conheceu a prisão e as perseguições do Estado Novo enquanto militante e responsável comunista (aquando da sua prisão era o controleiro do sector intelectual no Norte do país ou apenas na zona do Porto, já não sei exactamente.

Dotado de uma extrema afabilidade, tecnicamente muito competente, era um sábio quando se tratava de tudo o que se relacionasse com o mundo comunista. Ex-militante do PC, desde fins de quarenta, sempre auxiliou (sobretudo economicamente) quer o partido quer militantes avulsos. A sua generosidade não tinha limites e em casa dele conheci militantes e ex-militantes todos irmanados no mesmo respeito e camaradagem para com Jorge Delgado. A sua biblioteca era curiosa: consistia praticamente em livros relacionados com o movimento comunista, com a história do comunismo e incluía todos os grandes textos dos “pais fundadores”. A partir da crise de Praga começou a ter tudo quanto se publicava entre os dissidentes internos e externos da URSS e do bloco de leste.

Foi com ele que conheci as inúmeras livrarias parisienses desde as do PC e arredores até à extraordinária “Joie de Lire” verdadeira caverna de Ali Bábá esquerdista. Ah, os nossos passeios por Paris!... quando entrvamos em livrarias mais clássicas, menos militantes, ele prevenia-me “atenção esta é uma livraria “geral...”, o que o não impedia de perder horas entre as estantes da “PUF” ou da “Gibert Joseph” que tinha e tem vários andares carregados de tudo o que há para ler.

(a denominação Gibert corre sérios riscos. Gibert Jeune teve de encerrar porque o prédio onde se encontrava foi vendido. E a outra, a casa mãe na esquina Bd de Saint Michel com as ruas Racine e de l’école de Medecine.

Durante anos, desconfiei que ele e a Alcinda se hospedavam no “Saint Pierre” porque este pequeno hotel ficava a menos de 50 metros da Gibert!

Anos mais tarde, comecei a hospedar-me ali, também eu, não exactamente por isso mas porque o pequeno hotel da rua de S Sulpice onde ficava foi vendido e hoje, no mesmo local há um “cinco estrela” a que o meu bolso não chega.  A CG que é uma maníaca da limpeza e do lavar o lavado, inspecionou atentamente o hotel, gabou-lhe o silêncio da rua à noite, e deu-lhe um certificado de higiene. E já se desenvencilha sozinha para chegar às lojas que prefere!  (Chegou a ir sozinha ao Museu de Orsay, agora “M.O. “Giscard d’Estaing” –merecidamente!- o que é uma aventura!).

Toda esta deriva para lembrar van Passen e Jorge Delgado, alguém que me influenciou, me marcou, de quem fui, espero, um amigo certo até ao fim.

Começo pois, ou começarei amanhã, este “Homem ao mar”, para relembrar a terra que (não) me viu nascer mas que é a minha verdadeira terra, a de toda a infância, de parte da juventude, onde fiz amigos. Homem ao mar, é uma antiga expressão marinheira e é, de certo modo, entremeada com leituras de Verne e Salgari, um assumir dos mesmos riscos de quem escreve num blog, como simples marujo. Arriscar dizer o que pensa, ao correr dos dias, tentar sobreviver aos perigos do “mar cor e vinho” que, no caso, é apenas esverdeado, contar, de quando em quando uma história breve, não ter Deus nem amo, mas amar a vida, as gentes, na generalidade e os desconhecidos leitores que fazem o favor de me ler e aturam estas bruscas deambulações, saltos imprevistos, reviravoltas que apenas provam que vou escrevendo “em carreirinha” sem plano fixo nem outra ambição que não seja a aventura de viver, de honrar “a verdade, a áspera verdade” (Danton) e de deixar um testemunho que não é o de Robinson Crusoé nem tão pouco de Long John Silver, o pirata mas tão só o de um “pobre homem de Buarcos” se é que me permitem citar obliquamente o genial “pobre homem da Póvoa do Varzim”

Deitem a boia da vossa atenção a este Homem ao mar que se irá debater nestas águas duvidosas que nos esperam.

 

o leitor (im)penitente 220

d'oliveira, 04.11.20

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Olá Manuel

 

Eu sei que pouco vale a poesia

mas sem poesia a vida o que valia?

(Manuel Alegre de Melo Duarte “Quando”)

 

É bom ter notícias tuas, velho, velhíssimo, amigo de tantas lutas, tantos dias, tantas memórias. Se não estou em erro, e não o estou de todo, faz agora sessenta anos que nos conhecemos, melhor dizendo que eu te conheço pois antes de chegarmos à fala já tinha lido um que outro poema teu (na “Via Latina”, provavelmente) e sobretudo escutara-te naquelas assembleias magnas que varavam as noites estudantis e davam voz ao entusiasmo, à esperança, à bravata e à nossa comum juventude. Depois fomo-nos conhecendo nas pequenas conspiratas académicas e, melhor, através do António Portugal teu cunhado, e do Adriano Correia de Oliveira teu cantor e meu colega e amigo quase desde o primeiro dia na faculdade.

Recordo, nem sei como nem porquê, o teu último dia em Coimbra antes de ires para a tropa, já não sei se para os Açores ou se (como ocorreu depois) para Angola. E tu fazias-te forte e cantarolavas qualquer coisa que metia uma “capa negra, rosa negra, bandeira negra”, o que condizia bem com os tempo de lume e de negrume que vivíamos Era noite, uma daquelas noites frias e puríssimas de Coimbra onde as vozes chegavam à outra ponta da cidade. Era um grupo pequeno onde eu estava por acaso mas dessa malta já só lembro o Adriano que já ensaiava canções tuas que tanto cantámos depois.

E depois a descoberta, enfim a meia descoberta da “Praça da Canção” (fui agora à estante e verifiquei que a dou por comprada a 20 de Dezembro de 64 embora a data de impressão do livro ((Cancioneiro Vértice)) aponte para 1965. Será que antes do lançamento oficial foram vendidos pela Vértice alguns exemplares?). anos mais tarde, começava eu a advogar e fui encarregado (pela tua mãe?, pela Teresa?) de procurar um editor pirata (um de muitos que se atreviam a editar-te sem consentimento e a arrecadar fartos proventos) que, porventura assustado, concordou em me entregar vinte contos (era dinheiro!) para evitar queixas. Na altura, calculei que isso seria menos de metade do que ganhara com a venda clandestina da edição não autorizada. Creio que ninguém sabe quantos exemplares da “Peaça...” terão aparecido assim, sem data com editor mais falso que Judas, cópias aparentemente boas que seguramente multiplicaram por dez, vinte ou mais as editadas pelo “cancioneiro vértice”

Tudo isto, esta vaga carta, este desfiar de recordações, porque, hoje, quarta feira, 4 de Novembro, o “Jornal de Letras” te dedica a capa e três inteiras páginas onde se dá conta do teu último livro, ainda para sair, “Quando”.

Aliás, a epígrafe deste folhetim corresponde a dois versos do poema, respectivamente X42 e X43, para usar um referente comum a muitos poemas longos

Imaginarás, sem dificuldade , porventura com um sorriso amigo, o entusiasmo daquele caloiro dos anos sessenta “que lia Rilke” e que te foi acompanhando mais de longe que de perto por todos estes anos.

À cautela o livro já está encomendado (e pago) na “wook”. Agora é só esperar pelo bom serviço da livraria on line e pela rapidez problemática dos CTT. Com sorte ler-te-ei antes do meu dia de anos que já não está longe.

E volto à epigrafe para referir uma nossa batalha comum, de hoje, actualíssima, ou seja a eleição do presidente americano. Com um pouco de sorte e, apesar de tudo, alguma poesia, alguma esperança, talvez possamos ao fim do dia ou dos próximos dias dar por finda a idade de trevas que um rufião inaugurou no mesmo país que viu nascer, Withmann, Pound, Sandburg, Ferlinghetti, Dickinson, Gluck, ou Ginsberg, Corso só para citar poetas que seguramente ficariam assombrados com a aberração que paira sobre a Casa Branca.

Recebe nessa tua tranquila praça “onde ainda se ouvem pássaros”, um abraço deste inútil mas sincero e grato amigo

Mcr

 

*publicidade gratuita e desnecessária: “Quando” sai no próximo dia 10 mas já pode ser encomendado nas livrarias do costume

Li de uma assentada comovido, olho pingão e um entusiasmo antigo cerca de 100 versos dessa obra apresentada pelo JL em pré-publicação.

Respeitando o desejo do autor citei na epígrafe o nome completo dele como agora aparece nos livros que publica

** a vinheta estante onde estão arrumados todos os autores citados neste texto: os americanos èsquerda e o Manuel Alegre do lado direito. 

o leitor (im)penitente 217

d'oliveira, 17.04.20

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EVOCAÇÃO  DO 17 DE ABRIL DE 1969

 

Abro as portas do tempo devagar

colhendo mil memórias de um só dia.

 

No espelho destes anos que passaram

sinto a sombra dos sonhos naufragados.

 

Há hoje na cidade nova peste.

Cerca os dedos da vida de um bolor

que nos queima e nos perde sem parar.

 

Não estava escrito então este silêncio

na boca das revoltas que inventámos.

 

Não era o não ser desta agonia

que apunhalava a negro a cor das ruas.

 

Por isso, esta guitarra que se esvai

desmoronada em peste  rua a rua

colhe em silêncio toda a luz do dia.

 

Escrevamos pois de novo outro lugar

onde caiba em pleno o mês de abril.

 

                        Rui  Namorado

                   [ Coimbra, 16 de abril de 2020]

poema publicado no blog "O grande zoo" 

Eu conheci o Rui ainda em 1960, logo que, caloiro, cheguei à faculdade. Ainda hoje me divido: seria Coimbra a “dos lavados ares” (Eça? ) Ou um negrume igual ao do resto do país embiocado e temeroso, um relento a século XIX, patente nas capas e batinas, nas trupes, nos senhores lentes tão contentes de si mesmos, nos “futricas” que se desbarretavam à passagem dos “doutores” imberbes que eram o eixo principal do rendimento de inumeráveis habitantes da cidade?

Contra uma universidade parada no tempo, encerrada na “alta”, começava com a AAC sob a direcção de Carlos Candal, uma outra e nova tentativa de libertar os espíritos e a palavra.

Rui Namorado fez parte desse grupo, reduzido, firme, generoso que conspirava a todo o momento, poetava nas horas vagas, estudava de quando em quando e sonhava um outro Portugal.

Comecei por o ler na “Via Latina”, o jornal da AAC, onde também escreviam Manel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Zé Carlos Vasconcelos, Francisco Delgado, o Zé Silva Marques e o César Oliveira. Destes, restam o Rui, o Manel e o Zé Carlos a quem, deste recanto, mando fortes, rijos, muitos, abraços bem como às belas mulheres que os aturam mais do que eles merecem.

O Francisco e o Zé Silva Marques partilharam, com o Manel, o exílio que os tempos, aqueles tempos, não eram saudáveis para quem se opunha. De todos fui amigo, tenho (espero) todos os livros que publicaram e que li, à medida que saíam com emoção e sem parar.

Quase todos estiveram nos “Poemas Livres” e na “Poesia Útil” publicados em Coimbra na década de sessenta.

Os quatro primeiros estrearam-se em livro via Vértice, depois de publicarem na revista, onde também, colaborei sempre que a censura o permitiu. Depois, alguns foram publicados pela Centelha, uma aventura editorial onde o Rui, o Fernando, eu e muitos outros se empenharam.

Onde houvesse uma trincheira, o Rui aparecia. Não admira que tenhamos sido companheiros em Caxias, onde também esteve o Chico Delgado ou o António Lopes Dias, ainda há dias antologiado por d’Oliveira em “Textos Alheios” aqui neste blog onde se tenta manter uma porta aberta para o futuro. Em 69, lá estava ele, no Conj., uma espécie informal de directório da crise académica. Depois de sairmos da Universidade continuámos a cruzarmo-nos noutro grupo informal e conspirativo que acabou quase todo no MES, donde, também, quase todo, saiu rapidamente.

Além da poesia, RN publicou vários livros imprescindíveis sobre cooperativismo onde, aliás, era um reconhecido especialista, de memórias e de política em geral. Uma vida literária que resume o século.

* Francisco Delgado foi, como o Rui, expulso da Universidade, exilou-se e fez toda a sua vida no estrangeiro. Publicou três livros “Dire l’amour”, “Rompre le silence” e Poemes de l’amour païen” (poemas do amor pagão, Pierre Jean Oswald ed, Paris 1974, que o único que tenho)

**José Augusto Silva Marques foi um conhecido militante do PC que se evadiu d a cadeia dessa polícia no Porto, funcionário clandestino de notável coragem e dissidente mais tarde. Exilado, regressou a Portugal em 1974, foi deputado e dirigente do PPD. Escreveu “Relatos da Clandestinidade, o PCP visto por dentro” Em Coimbra, nos anos de faculdade foi uma das vozes mais duras e mais críticas nas Assembleias Magnas.

Na vinheta: Rui Namorado, obviamente. 

 

 

 

 

estes dias que passam 330

d'oliveira, 27.02.20

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Pedro Baptista Joaquim Pina Moura

(uma geração que desaparece)

We few, we happy few band of brothersShakespeare, “Henry V”

mcr (Fevereiro 2020)

 

Os leitores que me desculpem. E duplamente. Uso o masculino apenas por economia e não por não prezar as leitoras, bem pelo contrário. De facto, estou farto de ceder ao politicamente correcto que geralmente não passa de prova de tolice.

Depois, por falar em geração, a propósito do Joaquim Pu+ina Moura e do Pedro Baptista. É que, de facto, eles, com tantos outros já desaparecidos e com alguns que ainda andam por aí, são claros exemplos de uma geração bem minoritária que .se bateu corajosamente contra o Estado Novo.

Agora, anda por aí muito boa gente a presumir de “esquerda” e a fanforronar sobre ideias “fraturantes”. Há mesmo uma compita para se ver quem é que fratura mais e mais depressa. Lamentavelmente, parecem desconhecer que o que se arroja pela janela entra, logo seguir e a correr muito, pela porta. A História, sempre essa maçada, está carregada de exemplos de pequenos, pequeníssimos robespierres de pacotilha que uivam por um eventual “terror” e se afogam numa pocinha de água da chuva...

Não é o caso dos dois camaradas que acabo de perder mesmo se o termo camarada, num sentido estricto e historicamente desaparecido seja um exagero. Nos tempos obscuros em que que vivemos e lutámos, havia uma boa dúzia de pequenos grupos que identificavam os seus escassos militantes com  a anteposição da palavra “camarada”. . Isso e a “Internacional” cantada a plenos pulmões ainda que fragmentariamente, identificavam algo que em seu tempo se chamou Esquerda e que fazia pender sobre a cabeça dos que dela se reivindicavam uma boa dose de riscos todos penosos. A coisa ia desde os espancamentos nas manifestações até à prisão e depois à proibição de empregos públicos. E tudo isso, nnuma desoladora solidão pobremente partilhada. No Portugal desses anos, e agora refiro-me apenas aos “sessenta”, a rebeldia tinha um preço que muito poucos estavam dispostos a pagar.

O “povo estava sereno”, como mais tarde afirmaria Pinheiro de Azevedo, o medo guardava a vinha, a bufaria imperava e pouco ou nada acontecia.

Durante uma boa década, nem a guerra colonial, nem a sangria da emigração económica, perturbaram significativamente algum, fraco mas real, desenvolvimento ou o crescimento do PIB.

Portugal, “orgulhosamente só”, aguentava-se graças às remessas dos emigrantes, ao crescimento do turismo e da economia interna, o mercado do trabalho ia-se tornando mais feminino (o esforço de guerra mantinha longe cerca de duzentos mil homens) e até um proto “Estado Social” ia emergindo.

Só uns milhares de “díscolos”, perturbavam a harmonia do “país triste” e ensimesmado. Para esses a polícia usava a mão dura enquanto para o resto bastaram os famosos “safanões dados a tempo”.

Joaquim Pina Moura, militante do PCP desde muito novo, e Pedro Baptista, pertencente à segunda geração maoísta faziam parte do “movimento” estudantil.

Conheci-os, se bem me recordo, entre 68 e 69, entre a crise de Coimbra e o Congresso Republicano de Aveiro. Na altura não me atrevo a dizer que estávamos próximos porque não estávamos. O PCP apelidava todos os que não comungavam do seu ideário fortemente pro-soviético, de “esquerdelhos” e o resto da malta chamava aos do PC, “revisas”, "social-fascistas" e outros mimos que, aliás eram tradicionais na conturbada história do socialismo europeu desde quase a sua fundação.

E essa História estava presente em tudo, basta lembrar os nomes dos jornais partidários, desde o “Avante” (do russo Vperiod, órgão central da fracção bolchevique sediada na Suiça, Genebra) ao “Grito do Povo”, cuja primeira versão apareceu durante a Comuna sob a batuta de Jules Vallés – "Le cri du peuple" – e depois corporizou um infame jornal colaboracionista de Jacques Doriot. Na Esquerda maoísta apareceu durante o PREC um jornal, “A Verdade”, tradução literal do russo “Pravda” o que não deixa de ser irónico dado este ser o principal órgão do poder soviético que os da “Verdade” portuguesa detestavam...

E por aí fora...

De todo o modo, estando ou não de acordo, é este punhado de jovens quem durante aquele período (1962-1974) tenta, com grande risco e duras consequências, profissionais e pessoais, combater o poder instituído e sacudir o conformismo da sociedade portuguesa. Não foi o único bastião resistente mas foi dos mais generosos e influenciou decisivamente a juventude portuguesa mormente a universitária e boa parte daquela que participou na guerra colonial incluindo os que a recusaram desertando ou tornando-se refractários. Fiz parte desta última frente animando com três amigos uma rede de passagem de fronteira que funcionou muito bem graças ao facto de sermos apenas quatro e de tomarmos todas as precauções e cuidados que essa tarefa exigia.

E não foi pequena façanha pois a juventude de muitos era má conselheira e permitia largos descuidos e riscos desnecessários que muitas vezes tiveram os resultados esperados e funestos.

A minha relação com ambos foi diferente. Com Joaquim Pina Moura só privei mais tarde por altura dos “Estados Gerais” de Guterres já ele teria saído do PC.

Com o Pedro Baptista tive mais relações também elas quase sempre posteriores à sua saída da OCMLP. Em boa verdade, fui advogado de muitos militantes estudantis de "O Grito do Povo". Com os “Estados Gerais” tornamo-nos bastante mais próximos e, posteriormente, ao longo de todos estes anos, fomo-nos encontrando esporadicamente e tendo um bom número de conversas que pouco a pouco foram derivando para o campo da cultura, sobretudo da literatura. O Pedro começou a escrever e eu fui seu leitor sobretudo de “Sporá”. Não o acompanhei nos seus delírios regionalistas e muito menos no seu “portismo” a outrance mas admirei-lhe sempre o entusiasmo e a entrega que punha em todas as causas que abraçava.

Ambos são excelentes testemunhos dos humores do século e dos azares da História. E testemunhas, também pois viveram por dentro muitas das convulsões do último e mais exacerbado “socialismo radical”. Divergi deles desde cedo, a começar pela questão checa até ao culto de Stalin que estava “vivo no nosso (deles) coração”. Também nunca vi na URSS o sal e o sol da terra. O fim pouco glorioso da União Soviética, o desmoronar da “cortina de ferro”, a abrupta queda do muro de Berlim, o desastre absoluto da “Revolução Cultural” a patética gesticulação com o “livrinho vermelho”, um aberrante conjunto de máximas do venerado “Grande Timoneiro” que seria ridícula se não tivesse sido dramática e tremendamente mortífera, nunca me apanharam a jeito e muito menos me comoveram ou entristeceram. Às vezes (poucas vezes) a História está do nosso lado, do lado da liberdade.

Em boa verdade, qualquer deles percebeu a tempo a fundura do atoleiro moral, ético e político para que caminhavam e arrepiaram com coragem (e eventual angústia) o seu caminho. Saíram do armário ideológico e foram à sua vida. À vida. Simplesmente.

Cada vez mais me vou sentindo um sobrevivente tanto mais que era mais velho do que eles uma boa meia dúzia de anos. E cada um que morre é menos um testemunho, visto que, até à data, poucas são as “memórias” deixadas por escrito. Pior: algumas das raras publicadas não passam de desculpas de mau pagador por ter havido comportamentos menos gloriosos nas enxovias da polícia. Já, e há muito tempo, me referi aqui a esses tema a que não quero voltar por demasiado nauseabundo. Na “hora de verdade” e perante a sombria perspectiva dos interrogatórios policiais, houve quem não se tivesse comportado com a mais elementar decência. Nada tenho contra aqueles e aquelas que confessaram os seus “crimes” mas não suporto quem, além disso, levasse a falta de vergonha até à denúncia de companheiros e amigos. Isto para não falar de criaturas que não só diziam tudo e mais alguma coisa mas inventavam ainda mais crimes atribuídos a outrem. Não faz muito tempo, narrei aqui mesmo, a bizarra denúncia da minha presença num encontro conspirativo em Cantanhede, terra que de todo em todo desconheço, onde eu me teria gabado de bombista, coisa que sempre detestei e sempre condenei. A história viria de uma tal “Catarina” pseudónimo de uma “bufa” da pide. Pelos vistos nem a polícia acreditou na alarve acusação mesmo se, apesar de tudo, isso conste de um dos meus catorze processos (aliás treze porquanto um deles dá-me como médico em África, pelo que deduzi sempre que se referia a meu pai que, embora solidário com os filhos, nunca partilhou as nossas convicções políticas. Os informadores e os agentes nem sempre eram suficientemente profissionais: num outro processo instruído no Porto, o agente aponta-me como elemento da corrente ”leninista-marxista” – sic! – com “grossa actividade política” não especificada! – sic novamente ...).

Verifico que falar destes dois antigos companheiros foi também falar de mim. Ao fim e ao cabo, cada um à sua maneira e na situação concreta em que viveu ou vive, foi um modesto actor que não limitou a ver a peça mas quis, mal ou bem, nela intervir. Citando Brecht, sempre direi:

“Vós que haveis de surgir das

cheias

em que nos afundámos

....

pensai em nós

com indulgência “

* a gravura é da série da crise académica de coimbra.Eles não eram de lá, não podiam estar lá mas foram solidários com tudo o que lá se passou. Isso me basta e, decerto também basta à malta coimbrã que naquela altura bem apreciou toda a solidariedade possível. E o Joaquim ou o Pedro estiveram sempre, sempre, solidários.