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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

o leitor (im)penitente 217

d'oliveira, 17.04.20

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EVOCAÇÃO  DO 17 DE ABRIL DE 1969

 

Abro as portas do tempo devagar

colhendo mil memórias de um só dia.

 

No espelho destes anos que passaram

sinto a sombra dos sonhos naufragados.

 

Há hoje na cidade nova peste.

Cerca os dedos da vida de um bolor

que nos queima e nos perde sem parar.

 

Não estava escrito então este silêncio

na boca das revoltas que inventámos.

 

Não era o não ser desta agonia

que apunhalava a negro a cor das ruas.

 

Por isso, esta guitarra que se esvai

desmoronada em peste  rua a rua

colhe em silêncio toda a luz do dia.

 

Escrevamos pois de novo outro lugar

onde caiba em pleno o mês de abril.

 

                        Rui  Namorado

                   [ Coimbra, 16 de abril de 2020]

poema publicado no blog "O grande zoo" 

Eu conheci o Rui ainda em 1960, logo que, caloiro, cheguei à faculdade. Ainda hoje me divido: seria Coimbra a “dos lavados ares” (Eça? ) Ou um negrume igual ao do resto do país embiocado e temeroso, um relento a século XIX, patente nas capas e batinas, nas trupes, nos senhores lentes tão contentes de si mesmos, nos “futricas” que se desbarretavam à passagem dos “doutores” imberbes que eram o eixo principal do rendimento de inumeráveis habitantes da cidade?

Contra uma universidade parada no tempo, encerrada na “alta”, começava com a AAC sob a direcção de Carlos Candal, uma outra e nova tentativa de libertar os espíritos e a palavra.

Rui Namorado fez parte desse grupo, reduzido, firme, generoso que conspirava a todo o momento, poetava nas horas vagas, estudava de quando em quando e sonhava um outro Portugal.

Comecei por o ler na “Via Latina”, o jornal da AAC, onde também escreviam Manel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Zé Carlos Vasconcelos, Francisco Delgado, o Zé Silva Marques e o César Oliveira. Destes, restam o Rui, o Manel e o Zé Carlos a quem, deste recanto, mando fortes, rijos, muitos, abraços bem como às belas mulheres que os aturam mais do que eles merecem.

O Francisco e o Zé Silva Marques partilharam, com o Manel, o exílio que os tempos, aqueles tempos, não eram saudáveis para quem se opunha. De todos fui amigo, tenho (espero) todos os livros que publicaram e que li, à medida que saíam com emoção e sem parar.

Quase todos estiveram nos “Poemas Livres” e na “Poesia Útil” publicados em Coimbra na década de sessenta.

Os quatro primeiros estrearam-se em livro via Vértice, depois de publicarem na revista, onde também, colaborei sempre que a censura o permitiu. Depois, alguns foram publicados pela Centelha, uma aventura editorial onde o Rui, o Fernando, eu e muitos outros se empenharam.

Onde houvesse uma trincheira, o Rui aparecia. Não admira que tenhamos sido companheiros em Caxias, onde também esteve o Chico Delgado ou o António Lopes Dias, ainda há dias antologiado por d’Oliveira em “Textos Alheios” aqui neste blog onde se tenta manter uma porta aberta para o futuro. Em 69, lá estava ele, no Conj., uma espécie informal de directório da crise académica. Depois de sairmos da Universidade continuámos a cruzarmo-nos noutro grupo informal e conspirativo que acabou quase todo no MES, donde, também, quase todo, saiu rapidamente.

Além da poesia, RN publicou vários livros imprescindíveis sobre cooperativismo onde, aliás, era um reconhecido especialista, de memórias e de política em geral. Uma vida literária que resume o século.

* Francisco Delgado foi, como o Rui, expulso da Universidade, exilou-se e fez toda a sua vida no estrangeiro. Publicou três livros “Dire l’amour”, “Rompre le silence” e Poemes de l’amour païen” (poemas do amor pagão, Pierre Jean Oswald ed, Paris 1974, que o único que tenho)

**José Augusto Silva Marques foi um conhecido militante do PC que se evadiu d a cadeia dessa polícia no Porto, funcionário clandestino de notável coragem e dissidente mais tarde. Exilado, regressou a Portugal em 1974, foi deputado e dirigente do PPD. Escreveu “Relatos da Clandestinidade, o PCP visto por dentro” Em Coimbra, nos anos de faculdade foi uma das vozes mais duras e mais críticas nas Assembleias Magnas.

Na vinheta: Rui Namorado, obviamente. 

 

 

 

 

o leitor (im)penitente 216

d'oliveira, 27.02.20

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Indomável!

 

Vasco Pulido Valente

(“Não o teres derrubado ídolos mas tê-los derrubado em ti eis a tua vitória” – Nietzsche)

mcr (Fevereiro de 2020)

Conheci-o durante a crise académica de 62. Eu e o Carlos Bravo fôramos encarregados pela Direcção Geral da Associação Académica de fazer de correios entre Coimbra e Lisboa e isso permitiu-me conhecer muita gente na Universidade de Lisboa incluindo, grata lembrança, a extraordinária Noémia de Sousa, poetisa moçambicana que estará entre as três melhores vozes poéticas de toda a África lusófona desses anos terríveis. A Noémia não era estudante mas aparecia muito pela cantina do Técnico, vizinha com a Casa dos Estudantes do Império.

Todavia, deixemos para outra ocasião uma incursão na literatura africana de expressão portuguesa e voltemos ao tema fundamental: Vasco Pulido Valente.

Vi-o pela primeira vez numa assembleia geral na faculdade de letras onde era aluno. Fiquei nessa altura muito bem impressionado pelo seu tom, a sua vivacidade e a sua clareza. Eu vinha de Coimbra onde se cultivava ainda, à sombra de Antero, uma eloquência muito século XIX. VPV usava frases curtas, argumentava com uma pitada de humor e não apelava ao sentimento mas sobretudo, já nessa época, à razão. Em boa verdade, eu talvez já o conhecesse dado que ele pertenceu à equipa fabulosa que fez o “Almanaque” (Outono de 1959 – Verão de 1961, 18 números) onde pontificavam alguns dos melhores desde o José Cardoso Pires, a José Cutileiro e, Luís de Stau Monteiro, Pertencer a este clube já dizia muito de um rapaz que nem 18 anos ainda tinha.

Depois, li-o em “O tempo e o modo” que, na sua primeira e melhor fase, também não arregimentava medíocres, sofríveis ou sequer bonzinhos. Desapareceu-me do radar leitor provavelmente por ter ido para Oxford onde se doutorou.

E é a partir de 1974 que VPV se torna um cronista que raramente perdi de vista. Um cronista e um escritor pois vejo agora que é de 1974, o primeiro dos (17) livros que tenho dele. Era um pequeno ensaio com o título “As duas tácticas da monarquia perante a revolução” (edições D Quixote, 1974). Em poucas frases, num estilo já inconfundível (ele dizia “pimpão”) explicava algo que muitos colegas e confrades demoravam duzentas páginas...

A obra escrita divide-se em dois campos: os ensaios de História e as recolhas de crónicas publicadas ao longo de quase cinquenta anos. No primeiro aparecem obviamente os textos que melhor mostram a sua profunda erudição (desde “O Poder e o povo” até ao – para mim – excepcional “Ir para o Maneta” sem esquecer “Glória”ou “Um herói português”.

No campo dos segundos coligem-se crónicas publicadas quase ininterruptamente durante o mesmo período. Trata-se de escolhas (não constam todas as que escreveu) e nelas perpassa não só um a funda ironia, alguma causticidade mas sobretudo um conhecimento profundo do país e dos seus desastres. Tudo servido por um estilo cintilante mesclado com algum (bastante) humor e ancorado numa língua segura. Limpa e usada com grande mestria.

Costuma dizer-se que um estilo claro dá imenso trabalho e é prova de uma cabeça muito bem organizada. VPV foi, no ultimo quarto do sec XX e primeiro do XX!, um claro e o melhor exemplo disso. Não há nestes quase cinquenta anos nenhum outro cronista (exceptuando Manuel António Pina, num registo profundamente diferente, aliás) que se lhe assemelhe e, sobretudo, que tenha durado tanto tempo com o favor de inúmeros leitores. E os jornais bem sabiam isso: VPV nunca mendigou uma coluna jornalística, bem pelo contrário.

Uma tão grande carreira cronística implica obviamente não só a criação de uma legião de admiradores mas outra, também robusta, de adversários, na generalidade políticos paroquiais que se persignavam metaforicamente a cada passo: que VPV era um adepto do “bota-abaixismo”, “petulante”, ”amargo”, “pessimista” sei lá mais o quê. Mas liam-no a cada passo, havia mesmo os que tentavam responder e até apareceu um pobre diabo que tolamente prometeu umas bofetadas! Em boa hora o fez porquanto o escândalo foi tal que lhe retiraram um cargo ministerial para o qual lhe faltava tudo desde conhecimentos até habilidade, inteligência e competência.

O grande problema de quase todos os criticados era que a frechada de VPV acertava fundo e não vinha inquinada de vã maledicência mas obrigava a pensar.

Fora deste foro de literatura e de combate jornalístico, fica o homem que nunca vergou e tão pouco se acomodou. Mesmo não dando grande importância ao adolescente que foi mandado para um colégio interno (e só quem, como eu, os frequentou naqueles tempos é que sabe que género de prisão aquilo era...) há o estudante universitário que “faz” 62, o jovem que milita no M.A.R. (Movimento de Acção Revolucionária) onde participaram Jorge Sampaio, João Cravinho, Nuno Brederode entre outros (e só nomeio estes pela proximidade à crise de 62) o Secretário de Estado da Cultura de Sá Carneiro que suscitou uma feroz resistência entre muito intelectual ligado aos meios artísticos e sobretudo à mediocridade artística que imperou (e impera) naqueles anos difíceis em que o talento, a criatividade e a inteligência eram postergados por tonitruantes posturas políticas que pretendiam – mesmo sem o conhecer –salvar o “Povo” de que desconheciam tudo. Durou pouco o seu consulado e menos ainda durou como deputado. À primeira advertência sobre a obrigação de votar de certa maneira numa questão menor, saiu batendo com a porta.

Todavia, esta liberdade aumentada (uma vez alijada a sinecura parlamentar) não modificou em nada o seu percurso de cronista ou seu “cursus honorum” académico. Ficaram pelo caminho alguns projectos e eu lamento muito uma biografia de Eça que ele terá pensado levar a cabo. De todo o modo aí estão os dezassete livros (creio que haverá mais um mas não tenho a certeza) quase todos esgotados (o que também prova o interesse dos leitores).

Na hora da sua morte, sucedem-se as homenagens (algumas surpreendentes) e também um que outro desabafo escondido com o rabo de fora. O homem morreu mas as pequenas raivas ainda ficaram por aí.

Como leitor assíduo foram muitas as vezes em que discordei, me agastei mas nunca perdi de vista o estilo notabilíssimo e o desafio que o que ele defendia (ou atacava) me impunha. Estou-lhe grato por essa conversa à distância não só porque me permitiu perceber s razões da minha desconformidade como como alguns dos seus argumentos e conhecimento melhoraram a minha visão do mundo.

E é curioso notar que VPV conseguia desagradar a alguma (alegada) Esquerda que se sentia desconfortável com as suas análises mas também a uma forte fatia da Direita que não lhe tolerava a liberdade e a crítica impiedosa a grande parte dos mitos fundadores de que se alimenta(va).  

VPV, como acima disse, colaborou no notabilíssimo “Almanaque”. Num dos seus números havia uma ilustração e uma frase a condizer “para onde apontam estes monumentos? – Para sua própria monumentalidade!” (cito de memória com preguiça de subir até à estante onde jaz a minha colecção).

VPV foi um “empecheur de tourner en rond” ele que me desculpe este francesismo aplicado a alguém tão imbuído duma sã cultura anglo-saxónica!) e nunca foi à bola com os “monumentos” indígenas. Em boa hora!...

*na imagem: escriba (Egipto) ou de como e por muitas vezes, a função de escrever foi honrada.

 

 

o leitor (im)penitente 211

d'oliveira, 08.08.19

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O estado da burocracia e a burocracia do Estado

Ou

Como gastar dinheiro inutilmente

 

Este Agosto vai ser atípico. O calor é moderado, as eleições estão perto, as medidas governamentais atropelam-se umas às outras como se se quisesse mostrar em poucos meses trabalho que deveria ter sido feito em anos. E os fogos, mas isso é já uma triste e persistente tradição do Estio.

E os “casos”. Ah!, os “casos”, as burrices, as tontices e as desculpas de mau pagador. Felizmente, para o dr. Costa, existe um cavalheiro chamado Rui Rio que parece ter sido talhado para ser o anjo da guarda do primeiro ministro.

Vamos então aos “casos”. A ideia peregrina de caracterizar uma compra de lápis, bonés e esferográficas num assunto urgente e imperioso daria para rir não fora o caso de ser sobretudo para chorar.

É difícil não pensar que esta compra traz com ela o cheiro fétido do compadrio mesmo se não for esse o caso. Um comentarista do “Público” avança a hipóteses (que, à luz do que se conhece da funçanata pública, não é assim tão descabida) de a negociata se ter feito apenas para ultrapassar a omnipresente e paralisante burocracia que, neste domínio, rege as compras feitas pelo Estado.

Eu mesmo assisti a compras estapafúrdias feitas por uma instituição em que mais tarde trabalhei. Para não perder umas verbas do orçamento, em fim de ano fizeram-se rapidamente umas compras de estiradores, de uma guilhotina enorme e de mais um par de coisas que não recordo. Os estiradores foram arrumados na cave por absolutamente imprestáveis e desnecessários. A guilhotina (enorme) serviu meia dúzia de vezes, fins a que, pelo preço e tamanho e características, não estava especialmente destinada. Acabou por ser oferecida a uma cooperativa artística...

Tudo isto ocorreu porque, naquele tempo, havia (haverá ainda?) uma regra que estipulava que se as verbas atribuídas não fossem gastas nesse ano civil seriam perdidas a favor do Estado e o orçamento seguinte teria em conta essa menor despesa. Ou seja, se um dirigente poupasse dinheiro era premiado no ano seguinte com um orçamento menor! Mesmo que as necessidades fossem maiores e prementes.

Quando entrei na instituição, consegui que, no último mês do ano civil, se utilizasse o excedente em verbas de equipamento comprando alguns tapetes para as salas do palacete onde estávamos instalados e onde era hábito haver pequenos concertos, exposições e lançamento de livros ou conferencias e colóquios. Ao que sei, quarenta anos depois, os tapetes ainda lá estão, um pouco usados mas úteis e decorativos. Já algumas das obras de arte (nomeadamente pintura e pequena escultura) andam perdidas ou. na extraordinária expressão da senhora Ministra da Cultura, estão em local incerto, por encontrar.

Desconheço quais são, actualmente, as regras que presidem aos orçamentos das instituições públicas que gozam de autonomia financeira. Se foram as mesmas são paralisantes e potencialmente prejudiciais.

Note-se, de resto, que o Estado, o nosso Estado, tem uma notóriadificuldade em lidar com compras e com vendas. Neste cpítulo, boa parte da actividade empresarial do Estado adapta-se mal à concorrenci quando não invade pesadamente a esfera do privado. No capítulo da ediçãoo de livros já aqui descrevi a visão horrenda de pilhas e pilhas de livros sepultados em armazéns repletos, a encherem-se pó, a criarem bicho. Basta recordar as centenas de títulos editados durante as comemorações dos descobrimentos. Quando descobri alguns numa pequena espécie de livraria situada na Torre do Tombo, soube que aquilo era apenas a ponta do iceberg de um gigantesco acervo perdido num armazém (em S João da Talha?). Todavia, mesmo encomendando exemplares dessa abandonada montanha de livros, não se garantia satisfação do pedido. Faltava quem fosse ao armazém e nesse faltavam escadotes ou algo semelhante para alcançar as prateleiras mais altas tão cheias quanto vazias estavam as mais ao alcance da mão do eventual mas rao trabalhador que lá se deslocasse!

Vi, claramente visto, as garagens da SEC no tempo em que esta estava na Avenida de República, pejadas de incontáveis e instáveis pilhas de livros editados com apoio do Estado. O mais extraordinário é que, estando ali, ao alcance de qualquer mão, não eram alvo de pilhagem, roubo, ligeiro desvio. Nada! Estavam ali numa espécie de limbo, afastados de qualquer eventual livraria que os quisesse vender.

Durante anos, frequentei, interesseiro e interessado, uma instituição de inegável interesse científico e editorial, onde fui pescando a preços de saldo de saldos, títulos fundamentais para quem se interessasse pela história portuguesa e, especialmente, pela da expansão colonial. Nos alfarrabistas, os escassos exemplares que se encontravam andavam a preços fulgurantes! Nos leilões a coisa ainda fia mais fino. A CG que critica, com sobrada razão, a invasão desordenada de livros por todo o lado, observou-me que, pelo menos, eu deveria comprar esses títulos em dobro para revenda do segundo exemplar. Todavia, eu (se calhar a exemplo do Estado incapaz) não consigo dedicar-me a tal negócio.

Aliás a nenhum negocio! Culpa minha, claro.

* a estampa: exemplares da revista Oceanos que andam pelos alfarrabistas a preços que uivam. Comprei muitos dos exemplares que me faltavam na Torre do Tombo e ainda consegui várias caixas arquivadoras a preços baixíssimos. Quem, a meu conselho lá foi por mais, bateu com o nariz na porta. Havia mas estavam no fmigerado armazem! 

O leitor (im)penitente 210

d'oliveira, 06.06.19

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Na morte da Sibila

mcr Jun 2019

Diz-se, com algum exagero, que “Cem anos de Solidão” fagocitou toda a restante obra de Garcia Marquez. Não é exctamente assim mas, na verdade, nenhum dos livros posteriores (e alguns de grande qualidade) ultrapassou aquele cometa.

No caso de Agustina, um destino idêntico, envolve o enorme romance “A Sibila”.

Há obras que suscitam um tal interesse e um tal entusiasmo que se tornam incómodas para o próprio criador. Como se os leitores se arrogassem do direito de exigir, a cada novo livro, uma outra obra maior, incomensurável, um outro arrebatamento duradouro.

Nada disto diminui, bem pelo contrário, Agustina. Mas a quem a conheceu via “A sibila”, toda e qualquer obra posterior sabe a pouco (um pouco agustiniano, claro, nada a ver com a mediocridade contentinha que por aí reina. Ou com o “mainstream” tão comum na literatura portuguesa dos últimos cinquenta anos do século XX.)

Conheci mal Agustina, cruzámo-nos poucas vezes e em nenhuma delas tive oportunidade de estabelecer um diálogo sério e proveitoso. De certo modo, dei-me mais com alguns familiares com quem, por razões diversas, tive muito maior contacto. Destaco, desde logo, o dr Alberto Luís, um advogado de grande qualidade, um homem cultíssimo e um excelente conversador. Vezes sem conta mos encontrámos na livraria Leitura onde íamos quase diariamente por novidades literárias. A Leitura, um pouco mais tarde do que Alberto Luís, acabou e com ela fechou-se um ciclo de oiro de livrarias portuenses mesmo se algumas subsistem. Em boa verdade, a procura de livros e a atenção de livreiros esforçados minguaram conjuntamente. A grandes superfícies livreiras estão entregues a um par de comerciantes que entendem que ganhar dinheiro pode ou não ser compatível com vender livros por atacado.

Hoje, pode ser mais interessante visitar um alfarrabista (ou melhor ainda: frequentar os seus leilões) do que uma livraria reduzida a estantes cheias de best-sellers e de livrinhos fabricados por estrelas da televisão e da sociedade cor de rosa. As criaturas do jet-set tem êxito assegurado seja qual for a paupérrima redacção que apresentem. Os chamados valores consagrados continuam a disputar as montras e os expositores mais em evidência relegando para os sítios mais esconsos algumas verdadeiras pérolas. Ainda recordo a miserável recepção que os livrinhos de Raduan Nassar por cá tiveram. Acabaram por ser vendidos a preço vil numa espécie de feiras-saldo . E, mesmo agora, que o prémio Camões lhe deu mais visibilidade, consta que vende pouco. E neste vender pouco vai muito, visto que o número de exemplares por ediçãoo baixou vertiginosamente.

Além do marido, conheci e privei, com gosto e reconhecimento, com a filha Mónica que foi minha colega no Ministério da Cultura. Vi-a dirigir com competência, zelo e êxito o Museu da Literatura, primeiro, e o Soares dos Reis depois. Mais tarde acompanhei-lhe os primeiros passos literários (primeiros e seguros, diga-se para já) e fui o pior associado do Círculo Agustina Bessa Luís, obra que tem tanto de qualidade como de devoção e piedade (no sentido bom e antigo) familiar.

Gostaria, desde longe, de lhe dizer que tem aqui, mais do que um admirador, um amigo grato, dela e de todos os seus.

Aproveitando a boleia seguramente generosa de Agustina, lembraria agora que, mesmo na sombra persistente do preconceito e da desmemória literária e cultural deste país que não lê, há um grande grupo de mulheres escritoras cujas obras valem ou ultrapassam as dos seus congéneres masculinos. E, citando apenas as desaparecidas, bom seria ver aparecerem de novo leitores e leitoras para Irene Lisboa, Isabel da Nóbrega (ai o “Viver com os outros”!...) Maria Judite de Carvalho que está em reedição (não percam, pelas alminhas, “Tanta gente Mariana), Fernanda Botelho (idem pela “A gata e a fábula). Poderia juntar-lhe mais uma meia dúzia de mulheres que escrevem muito bem, que são inteligentes e que merecem mas espero que estes quatro exemplos suscitem a curiosidade de alguns. E que essa curiosidade leve a outras descobertas, incluindo a de escritoras ainda vivas e que isso comece a recentrar o papel das mulheres escritoras portuguesas.

Isso não diminui Sofia ou Agustina, bem pelo contrário.A literatura portuguesa, a boa, entenda-se, não parou em Florbela, em Irene Lisboa em Sofia ou em Agustina. Não passa é sem elas que a engrandeceram, que em muitos momentos a vivificaram, a robusteceram. Eu sempre achei que há mais (e melhores) leitoras que leitores. Vi isso ao vivo na Póvoa ou em Matosinhos onde asmulheres eram multidão em relação aos leitores. Poderiadizer que é a curiosidade o que as faz correr estantes, livrarias e bibliotecas mas, mesmo que entenda a curiosidade como algo de optimo, de refrescante qualquer coisa que faz avançar o mundo e a civilização, isso só não chega. Sensibilidade? Desejo de perceber o mundo e o outro? Responda quem souber ou quem quiser. E leiam, leiam muito estas (e outras) belíssimas autoras. Há todo um mundo à vossa espera.

Em boa verdade, até MaoTse Tung ou Mao Zedong (é como quiserem) escreveu com alguma justiça (não sei se sincera) "As mulheres são metade do céu". Só metade, grande timoneiro, só metade?

 

 

O leitor (im)penitente 208

d'oliveira, 02.10.18

Nem todos os mortos são iguais

(lembrança de Fernando Fernandes, livreiro e homem de bem)

mcr 2.10.18

Conheci o Fernando Fernandes em 1959/60. A livraria “Divulgação” mais tarde “Leitura” ficava mesmo no meu caminho do colégio para a “baixa” do Porto (como aliás a “Académica” onde ainda pontifica o Sr.  Nuno Canavês, um alfarrabista de primeira água, o melhor do Porto e um dos três ou quatro grandes alfarrabistas que conheci ou conheço).

 Recordo o Fernando eventualmente porque a livraria que também era galeria organizou uma exposição de Ângelo de Sousa. Também isso lhe devo e à restante malta da “divulgação”.

A partir de meados dos anos 60, comecei a frequentar a livraria com assiduidade, tanta quanto me permitia a magra bolsa de estudante. E comprava livros, claro. Um pouco mais tarde, já casado e com muito maiores permanências na cidade, em casa dos meus excelentes e muito lembrados sogros, a Leitura (a Divulgação, fora-se num suspiro e reapareceracom o novo nome, já com a ajuda de Carvalho Branco). A partir de 1971, comecei a advogar e tinha o meu local de trabalho a duzentos ou trezentos metros. Razão mais que suficiente para me tornar presença diária na pequena tertúlia do fim da manhã. E assim continuei por muitos anos, mesmo depois de FF se ter reformado.

O Fernando Fernandes era, além de homem culto e interessado, um livreiro de mão cheia. Conhecia bem a clientela, mimava-a, percebia que se fornecesse a alguns clientes catálogos e publicações periódicas sobre a produção livreira internacional, mormente a francesa e a inglesa, isso teria como fruto mais e mais encomendas de livros estrangeiros. Recordo-me que mal recebia o “bulletin du livre” (sempre em três ou quatro exemplares) avisava um grupo de eleitos a quem emprestava por horas, ou um, dois dias a publicaçãoo. Recolhia em seguida um bom punhado de encomendas que pagavam largamente o seu investimento. Anualmente requisitava outros repositórios de edição que eram disputados e consultados pelo mesmo grupo de fieis que não se coibiam de assinalar com iniciais ou sublinhados os livros que lhes suscitavam o interesse. Desta forma também descobriu grupos de clientes com tendências semelhantes de tal modo que, quando um deles pedia um livro, logo ele telefonava aos restantes do grupo, avisando que ia encomendar tantos exemplares quantos fossem solicitados rapidamente. Eu, e seguramente outros, informávamos sobre recensões literárias em revistas e jornais igualmente estrangeiros e mais uma vez FF replicava a informação e suscitava o apetite nunca satisfeito dos leitores viciados.

À minha conta, comprei-lhe três ou quatro mil livros, se calhar mais.

Quando se anunciava ou pressentia uma edição mais surpreendente, cobiçada ou politicamente suspeita, o mesmo método de antecipação era usado e com êxito. A “Leitura” era, seguramente, uma das livrarias campeãs na venda de livros proibidos ou passíveis de o serem. Autores havia para os quais se usava um critério idêntico. Assim, o Herberto Hélder. Em suspeitando de uma nova obra, o Fernando fazia uma grossa encomenda e prevenia os eventuais interessados que não se faziam rogados. E era vê-los dia após dia, babando-se de prazer pelo livrinho que a volta do correio traria...

A livraria, ela própria, editava também um boletim mensal criteriosamente elaborado com centenas de referências. Quem tivesse tido paciência e inteligência teria hoje uma belíssima paisagem dp país literário e leitor. Mas ninguém pensava nisso, claro. E assim se perdeu (?) uma curiosa história da edição portuguesa da segunda metade do século XX (acrescentada, evidentemente, de uma boa informação sobre as edições em línguas mais próximas).

Os leitores compulsivos, entre os quais me incluo, sabem bem que não há nada como a visita constante às livrarias. E também nisso, a “Leitura” mostrava os seus galões. As montras, sobretudo, eram expositores não do autor da moda ou dos best-sellers (não quero dizer que fossem absolutamente ignorados) mas de muito jovem poesta ou novelista, de muito ensaio desconhecido que o generoso livreiro por si, ou a conselho de alguém, expunha.

Publiquei in illo tempore, um livrinho de crónicas. Em duas ou três semanas, o Fernando persuadiu, aliciou, quase uma centena de generosos e amáveis leitores que deram conta de quase 10% da edição.

(o mesmo,aliás, devo à Maria Helena Alves, na Havaneza da Figueira da Foz e ao Joaquim Machado fundador do império “Almedina”. A propósito, o Joaquim, que abrira uma sumptuosa livraria na baixa de Coimbra, era ainda mais atrevido que o Fernando. Volta e meia, em chegando à “Brasileira” (café saudoso e vagamente ressuscitado, recentemente) descobria um volumoso embrulho que me estava endereçado. Eram livros que o raposão do Joaquim achava que eu quereria. Duma vez, apareceram-me, além dos “Écrits Intimes” de Vaillant mais duas ou três obras de grande porte e preço s condizentes. Em francos a coisa ia muito para além dos cem o que eram mais do que eu tinha por mês para todas as despesas. –“Ó senhor Machado isto é muita areia para a minha camioneta, não lhe posso pagar...” – “Paga, paga, que eu espero” retorquiu-me o maganão. E paguei, claro, a duras penas, num sem número de prestações.

(Cabe aqui uma referencia a mais alguns enormes livreiros com que me cruzei: além dos já citados, honremos a memória de Domingos Lima (na Lello, Porto), José Vicente (Olissipo, Lisboa), Hipólito Clemente (Opinião. Lisboa) e a dinastia Perdigão, avô, filho e neto (Latina, Porto). E François Maspero (La joie de lire, Paris) Gente que sabia de livros, amava os livros, divulgava-os e respeitava os leitores. Morreram e ninguém os substituiu...)

Fernando Fernandes fez vida de livreiro, durante aproximadamente cinquenta anos. Creio que nesse quase meio século influiu mais, despertou mais gente, promoveu mais a cultura do que uma esmagadora maioria de agentes culturais que por aí pululam. Ainda recentemente, um farfalhudo grupo de criaturas entendeu dizer o que pensava de um futuro museu Com um outro que a propósito de uma exposição também entendeu mostrar-se à sociedade, perfaz mais de uma centena de criaturinhas de Deus. Todas juntas dão menos e mais rala sombra do que Fernando Fernandes, um homem discreto e sabedor que domingo morreu. Num último gesto, deixou o corpo a um instituto de anatomia patológica, furtando-se ao enterro. De certo modo, morreu muito pouco tempo depois da sua livraria que, em boa verdade, estava há anos entregue à bicharada. E os bichos, sabemo-lo todos os que amam os livros, são inimigos das bibliotecas.  

 

 

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o leitor (im)penitente 208

d'oliveira, 01.08.18

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Eduardo Guerra Carneiro, o cometa suicida

 

mcr 1 Ago 18

 

Terá sido em 61 ou 62 que um rapaz louro, olho azul e míope, ternurento e loquaz nos arribou a uma mesa do Mandarim (em Coimbra e na Praça da República, epicentro da vida estudantil). Na mesa a tertúlia variava consoante as horas, os dias e as manias de cada um. De todo o modo, assíduos entre os assíduos, encontravam-se, além de mim, o Eduardo Batarda e o Zé Carlos Monteiro da Costa. Este último, sobretudo ele, adoptou o recém-chegado imediatamente. ZC era um tipo culto, dotado de um humor inteligente e certeiro, de uma ironia educada e afável e, na altura um descobridor de novos autores. A ele devo a s primeiras leituras de Borges, por exemplo. Ainda por cima era casado o que significava uma casa onde se podia ir a qualquer hora do dia ou, muitas vezes, terminar uma noitada.

O Eduardo apareceu já carregado com o seu livrinho de estreia (O Perfil da Estátua) que rapidamente foi esquecido ( o meu exemplar deve ter-se evaporado nas mãos de algum amigo das bibliotecas alheias, coisa aliás que se repetiu com mais títulos de EGC que, contudo, e com grande trabalho, voltei a comprar.

Mantivemos ao longo de muitos anos um contacto irregular mas pontuado por momentos fortes. Encontros aqui e ali, fundamentalmente em Lisboa, algumas cartas sobretudo quando aparecia um novo livro dele ou alguma crónica mais impressiva (e foram muitas) nos jornais. Nesses casos, eu optava por telefonar-lhe para lhe dizer o quanto apreciara aquela prosa ágil, certeira, coloquial mesmo se muitas vezes poética. O Eduardo, nessas alturas, ficava enternecido e agradecia espantado com o meu entusiasmo por aquilo que, finalmente, era um pouco o seu dia a dia nos jornais. E contava-me tremendas paixões que iam acontecendo com uma extraordinária regularidade. “Eduardo, tu tens musas a mais dão para sete vidas, pá!”

Todavia, nos derradeiros anos de vida, as coisas começaram a ser difíceis. Nos últimos anos do século passado, sucedia encontrarmo-nos no “Snob” um bar simpático à Rª do Século, vizinho da rua onde ele morava cujo surpreendente nome nunca esqueci: rua do Abarracamento de Peniche. Foi o Zé Quitério, outro pilar do bom jornalismo e do Snob quem me informou que esta toponímia derivava do facto de nesse local ter havido um acampamento de tropas da guarnição de Peniche mandadas vir para Lisboa para conter as desordens e a ladroagem que se seguiram ao grande terramoto. Si non e vero..

O Eduardo alcoolizara-se dramaticamente e havia tardes e noites em que mal se tinha de pé. Era um destroço de si próprio. Os próprios empregadores começavam a escassear mesmo se, sóbrio pela manhã ele conseguia escrever tão bem como nunca.

Em 2002, os jornais trouxeram a notícia não demasiado inesperada mas de todo o modo pungente. Eduardo Guerra Carneiro, jornalista e poeta suicidara-se atirando-se da janela de sua casa.

Jorge da Silva Melo, outro comum amigo, numa crónica de enorme qualidade noticiou esta morte sob o título notabilíssimo de “O poeta que se atirou para as estrelas”.

Nesta dúzia e meia de anos que se seguiram, EGC apenas revivia na memória de amigos e leitores. Raras, raríssimas, vezes encontrei títulos seus em alfarrabistas ou leilões. Quem tinha os livros, guardava-os (guarda-os) a bom recato.

Agora, sai uma boa antologia dos seus poemas com o título tão eduardiano de “Mil e outras noites”. Leitras e leitores, vão pela obra que a edição (bonita e cuidada, com um prefácio e um posfácio ambos de Vítor Silva Tavares, o pai da editora “& etc”, desaparecido vai um par de anos, que se devem ler com vagar, atenção e prazer: VST no seu melhor...) é de pequena tiragem (300 exemplares) e neste momento os portugueses estão mais para férias e especulação imobiliária de esquerda, a virtuosa que a outra é própria de senhorios maus e malandros. “É assim que se faz a história” (título de um dos melhores livros de Eduardo Guerra Carneiro...

 

na foto: Eduardo Guerra Carneiro

 

O leitor (im)penitente 207

d'oliveira, 09.07.18

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Um regresso em grande

mcr 8.7.18

 

Regressa Maria Judite de Carvalho, a autora de (entre outros milagres) “Tanta gente, Mariana”. È pela mão de uma nova editora (Minotauro) que volta ao convívio dos leitores e logo com livro duplo (A “Tanta gente...” juntaram “As palavras poupadas”). Força amigos que já tem que ler em férias. Ler e surpreender-se; surpreender-se e maravilhar-se; maravilhar-se e perguntar como é que foi possível tanto e tão longo silêncio à volta desta mulher.

Quem esforçadamente me acompanha sabe que o feminismo não é o meu peditório, mesmo se, também talvez tenham reparado, abomine o “machismo” e outras singularidades que tornam o mundo mais triste e mais cruel. Melhor dizendo: irrita-me soberanamente algum feminismo estridente que entende que para dar à Mulher o seu justo no lugar há que rebaixar a macharia sem olhar a diferenças ou distinguos.

No entanto, e no capítulo literatura moderna portuguesa, o lugar das mulheres tem aparecido sempre em letra minúscula. É verdade que, em seu tempo, se falou das 3 Marias graças ao perfume de escândalo da “Novas Cartas Portuguesas”. Também é verdade que Agustina Bessa Luís e Sofia de Melo Breyner Andresen foram presenças importantes nos meios de comunicação social. O mesmo se passou, ainda que em períodos muito curtos, com Maria Velho da Costa. Porém, pouco ou nada resta da passagem de muitas outras –e, com a única excepção de Isabel da Nóbrega (“Viver com os outros”) só vou citar autores já desaparecidas: Irene Lisboa, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Fernanda Botelho, só para exemplo. Medem-se, sem favor, com os melhores escritores seus contemporâneos mas, mesmo num país onde a maioria dos leitores é feminina, a sua recepção crítica, o volume de vendas e o eco público foram sempre menores. Como se vê, não são só os homens os maus da fita aqui.

O fenómeno não é estrictamente nacional e, em todos os domínios, mormente no político, o ocultamento das mulheres foi regra. E nisto incluo alguns estandartes do movimento comunista internacional. À excepção de Rosa Luxemburgo, as mulheres russas, chinesas ou cubanas aparecem fugazmente, na sombra dos homens, mesmo os mais medíocres. Da revolução russa, conhecem-se de viés, Clara Zetkin ou Inessa Armand (esta última reduzida praticamente a amante de Lenin). De Cuba nada, o mesmo se pode dizer do Vietnam ou da China, onde, entretanto, Mao Ze Dong afirmava que “as mulheres eram metade do céu”. Até a anarquista (ou socialista revolucionaria?) Fanya Kaplan, autora do atentado contra Lenin foi, mais tarde, quase ilibada atribuindo a um tal Protopokov (não garanto o nome) a autoria do atentado.

Não irei cair no exagero (se é que o é...) de afirmar que MJC foi ofuscada pelo marido, o também escritor Urbano Tavares Rodrigues. Porém se quisermos saber deles, MJC aparece sempre como mulher daquele, enquanto Urbano tem direito a referencias sólidas sem o peso da companhia da escritora que, a meus olhos insensatos, lhe é claramente superior.

Assim vai o mundo.

 

O leitor (im)penitente 207 (b)

d'oliveira, 31.03.18

4)MARIA HELENA ALVES -uma casa de familia-.jpg

 

regressando a um tema mais antigo 

Um obrigado ao "leitor desconhecido" que me corrigiu a fotografia postada como da Casa Havaneza, maravilhosa livraria na Figueira da Foz. Devo ter clicado à toa e saiu-me uma farmácia! Desta feita a fotografia é boa. E até se vê a Maria Helena Alves, ultima proprietária da livraria.

Ah que belos tempos... 

O leitor (im)penitente 207

mcr, 15.03.18

O deserto cresce.

Ai de quem abriga desertos.

 mcr 15-03-2018

 

Os dois versos que titulam este folhetim andam comigo à cerca de cinquenta anos. São de Nietzsche, o admirável, e fazem parte dos “Ditirambos dionisíacos”. Quem se interessar pela grande poesia alemã encontrará a tradução da poesia de Nietzsche nalgum alfarrabista mais atento (ou feliz). Caso contrário, a Gulbenkian publicou as “Obras de Paulo Quintela” (ou um título do mesmo género). Nesse conjunto há três volumes de traduções de poesia e num deles vem a obra poética do filósofo. Imperdível! A ler com extrema urgência!

Vem isto a propósito de alguns nacionais e recentes óbitos de livrarias. Sem ir mais longe desapareceram, numa penada desde o início do ano, a “Leitura” no Porto, a “Miguel de Carvalho” em Coimbra e a “Pó dos Livros” em Lisboa.

Sabe-se, igualmente, que um senhorio insaciável já terá dado ordem de marcha (e de despejo) a mais três alfarrabistas da rua do Alecrim em Lisboa (a Campos Trindade, a António Trindade e o Centro Antiquário do Alecrim).

Conheço muitas cidades por via das suas livrarias ou oriento-me nelas seguindo caprichosos itinerários nem sempre planeados entre uma e outra.

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6) Continua na Praça Nova, Fig.Foz....JPG

 

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(a este respeito vale a pena contar que na última estadia em Veneza, andando eu ocupado em mostrá-la à CG, metendo sempre por ruas novas e inesperadas, calhou que, vindo do Rialto para o Campo di San Fermin, oiço a minha mulher soltar o medonho rugido da leoa esfomeada que vê um antílope apetitoso e descuidado. Era, à nossa direita, uma loja de lãs. Fiquei aterrado: a CG é uma temível tricotadeira e anda sempre em busca de algum mirífico fio. “Ai, Jesus, que isto é para uma hora pelo menos”, suspirei in imo pectore. Já me resignava ao inevitável quando, ao olhar para esquerda me deparei com uma livraria. Enquanto a CG avançava para as lãs, precipitava-me eu, em voo picado, para a salvadora loja. Era um verdadeira livraria dedicada a Veneza e história veneziana com extensões ao Veneto. Uma maravilha! Depois de visitar com detalhe um par de títulos, conversei com o livreiro sobre a sua excepcional, e cara!, mercadoria e à saída, ajoujado de compras e aliviado de mais euros do que devia, pedi-lhe um cartão da livraria para poder lá voltar. Espantado, descobri que tinha entrado na “Linea d’Acqua”, um livraria recomendada por um grande amigo e vizinho. E disse-o ao livreiro. Este perguntou-me de onde vinha e quando o informei que do Porto, retorquiu-me seguríssimo: “Ah, então foi o António Abreu! “

E, de facto era. O AA era um ávido leitor e um verdadeiro veneziano. Todos os anos, passava lá quinze dias, hospedado numa casa alugada no Cannaregio, o último sestiere acessível ao turista português. )

 

 

Voltemos, porém, às livrarias que desparecem. Não é de hoje esta doença mortal dos negócios que envolvem a venda de livros. Lembro-me, pesaroso, da excelente “Havanesa” na Figueira, poiso de livros e de tertúlias fieis. Em chegando à terra, o meu primeiro destino era a Havanesa, mesmo antes de ir vera família ou pousar a mala. Em Coimbra, desapareceram várias livrarias, entre elas a enorme “Atlântida” que enchia dois pisos, a “Luso-Espanhola” onde comprei os primeiros poetas de língua espanhola ou a “Cunha”, uma pequena loja cheia de títulos antigos e difíceis de encontrar. Em Lisboa vi morrer a “Opinião” (lugar de encontros inesquecíveis), a “Bucholz”, e a “Sá da Costa” (construída de raiz para ser livraria)bem como as alfarrabistas “Camões”, “Burnay”, “Barateira” e outras de que nunca soube o nome embora nelas tenha encontrado e comprado livros. E ainda, já há alguns anos as vizinhas “Portugal” e “Aillaud & Lello”. A Galiza passou é menos interessante depois do desaparecimento da “Michelena” em Pontevedra onde havia um cão que dormia junto das estantes (no plural!) de poesia. De Paris, então, nem consigo saber quantas foram encerradas. Tenho um vago pressentimento que, só nos 5º (Quartier Latin) e 6º (St Germain des Prés/Montparnasse) bairros creio que já contabilizei vinte desaparecimentos entre 1970 e 2000. Desde “La joie de lire” até à “Librairie du Globe” com obrigatória passagem pela opulenta “PUF” que de horas perdidas e encontradas na felicidade de folhear, cheirar, ler e comprar livro após livro. Outras, mais pequenas mas, por vezes, mais curiosas não conseguiram defender-se dos abutres do turismo e do luxo que contaminaram ruas inteiras com restaurantes de baixa, baixíssima, qualidade, de “hostels” quando não de boutiques de luxo onde se não vê viva alma. Neste capítulo Saint Germain bate tudo o resto.

Eu sou um leitor inveterado, viciado, possuído pelo demónio dos livros. Gastei, ao longo de uma vida que já vai longa, uma fortuna (no verdadeiro sentido da palavra) a encher esta casa de livros. Vai para cima de 24000 o que mais do que um exagero é uma tolice arrogante. Nunca conseguirei lê-los todos mesmo se neste grupo haja, à vontade, mais de 4000 títulos de obras de consulta que obviamente podem passar anos sem que lhes toque.

Quando me apaixono por um tema (e eu sou, nesse campo, um incurável pinga-amor) desato a comprar tudo o que lhe diz respeito, sabendo perfeitamente que esse excesso denota mais falta de critério do que razão e bom senso. Sou um biblio-adicto, isto deve ser semelhante ao que se passa com os cocainomanos, só que mais caro.

Todavia, a morte das livrarias, e de uma só vezada apontei seis mais acima, não desconsola apenas os viciados. Mostra, também, e com que crueza, o estado da chamada “cultura” no “torrãozinho de açúcar”. Cresceu muitíssimo o número de editoras mas baixou torrencialmente o número de exemplares editados de um mesmo título. Vendem-se, ou estão à venda, centos de títulos assinados por personalidades do jet set, da televisão ou da política que nos atormentam quotidianamente. Quase desapareceu a edição de poesia e a de teatro – se existe – vive na mais pura clandestinidade. Só de autores portugueses há uma boa centena desaparecida das estantes e das montras. Quem quer, vai por eles aos alfarrabistas. E esses mesmos vão sendo paulatinamente escorraçados da cidade. É o caso, gritante, da “Miguel de Carvalho” em Coimbra. Esta livraria estava na “baixinha”, muito perto das escadas dos gatos e da portagem num sítio que poeticamente se chamava “Adro de Baixo”. A livraria, quase paredes meias com outra (“Minerva”) era muito bonita, confortável e tinha no andar de cima um espaço para o comprador se sentar confortavelmente e folhear o que lhe apetecesse. O espólio era bom e o atendimento impecável. Miguel de Carvalho, o proprietário, pequeníssimo editor de obras surrealizantes, tinha a paixão da livralhada. Abandonara a engenharia pelo incerto comércio das espécies bibliográficas e mensalmente fornecia, por mail, um catálogo das últimas novidades adquiridas e postas em venda. Numa cidade universitária com mais de vinte mil estudantes não encontrou público que garantisse a sobrevivência da livraria. Assim vai a nossa universidade, assim vão os nossos intelectuais e as nossas futuras elites.

A “Leitura”, então é um caso medonho. Começada na década de cinquenta com o nome de “Divulgação” rapidamente se tornou um sério caso de sucesso. Comprei nela, com as primeiras e modestas mesadas, os primeiros livros. Lembro-me mesmo dos títulos de dois deles: “Alguém Mora na outra margem” (Carlos Gabriel) e “Sete poemas para Egéria e notícia para mim” (Helder Grilo Gonçalves -ou Gouveia?). Era obra de um grupo de amigos que, de facto, eram liderados por Fernando Fernandes, um livreiro de mão cheia mesmo numa cidade onde competia com Domingos Lima (Lello) e com três gerações Perdigão (Latina). O Fernando levava a profissão a sério, importava livros de todo o lado, fornecia (oh truque malévolo!...) o “bulletin du livre” a uma série de clientes que retorquam com encomendas volumosas. Outro dos seus hábitos era o de anotar vendas e pedidos de clientes que ele considerava “seminais”. O pedido vinha sempre em duplicado ou triplicado e o livro era proposto a clientes cujos hábitos de leitura parecessem semelhantes ao do primitivo encomendador. Convém lembrar que a “Leitura” começou por se designar “Divulgação” até, na sequência de uma crise de crescimento, se abrir a mais um sócio e se baptizar definitivamente. Morre, agora, anos depois de FF a deixar, sob o nome tolo de Leitura books and living, parvoiçada saloia que denunciava já um morte a prazo.

Agora, e eu pecador me confesso, as tradicionais livrarias começam a ser ultrapassadas pelos circuitos na internet, mormente pela amazon. A razão é simples: através desses gigantescos circuitos conseguem-se livros praticamente esgotados ou há muito desaparecidos das estantes. A Amazon, a Alapage, a Chapitre, a Decitre ou a Abebooks, respondem com qualidade desigual a essa necessidade. Em Portugal a Wook traz-nos a casa com desconto e sem portes de correio livros recentes ou até menos recentes. Todavia, nestes mundos da internet algo se perde e se arrisca: compram-se os livros às cegassem a possibilidade de com vagar os folhear e consultar. Só leitores empedernidos e sabedores do que pretendem se podem arriscar. E mesmo assim...

Depois, as livrarias foram (e algumas ainda são) centros de convívio para já não falar na descoberta sempre entusiasmante de livros de que nunca se ouviu falar. Basta correr as estantes mesmo com um olhar distraído.

(a este propósito recordo que na Figueira, sob o adro da Igreja de S Julião –a principal – havia uma livraria devota animada por duas senhoras mais católicas do que o monsenhor Palrinhas de saudosa (?) memória. Certo dia, nos idos de 60 descobri na montra entre missais e hagiografias piedosas “A semana santa” de Aragon! Todos os meus amigos foram visitar essa montra e ver o lugar de honra obtido pelo romance do comunista Aragon. O que nos divertimos!)

Em Portugal coabitam as mais extravagantes manias. Há anos foram os bancos que, numa ansia de abrir balcões (que agora fecham sem dar cavaco a clientes e trabalhadores), desalojavam veneráveis cafés e pastelarias e desertificavam ruas e praças. Agora, sob a ilusória luz de um turismo que durará enquanto durarem as guerras no Mediterrâneo e os baixos preços do alojamento e da restauração por cá, fecham-se livraria e outras lojas tradicionais. Há ruas que já ó tem prontos a comer de mais do que duvidosa qualidade. O seu tempo será limitado pela concorrência crescente, pelo fim do voyeurismo turístico e pela impreparação profissional dos seus novéis exploradores. As bolhas rebentam sempre mas o que foi destruído já não volta. E o deserto cresce...

 

As gravuras: a preto e branco o interior da ainda Divulgação mais tarde Leitura

Também a preto e branco "La joie de Lire" (Paris)

A cores -se estou certo, o interior da Havanesa (Figueira da Foz)

 

 

 

o leitor (im)penitente 205

d'oliveira, 09.06.17

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Manuel Alegre

Um belo dia

Estou na esplanada do costume, frente às árvores e aos cães que correm num dia de sol, quente e macio. Já tomei o primeiro café da manhã, beberrico a água que a jovem e amável empregada me trouxe e leio no jornal a notícia: o Manel (Alegre) ganhou o Camões! Eu, nisto de prémios, só me lembro das boas notícias. Por exemplo o Nobel ao Cela que sempre li com gosto e divertido. No ano seguinte foi o Octávio Paz: nova alegria. Caseiramente vários bons e velhos amigos foram distinguidos. O Zé Mattoso e o Herberto Hélder, o Craveirinha e o Manuel António Pina, só para lembrar os que imediatamente me ocorrem. A alguns deles liga-me uma amizade de 30, 40 ou mais anos. Agora o Alegre que eu, caloiro na lúgubre Faculdade de Direito, conheci em 1960. Acho que foi ele que, protetor e amigável, me chamou o “caloiro que gosta de Rilke”. A partir desses dias partilhei com ele lutas e desencantos, perseguições e esperança, bons dias e outros maus. Recordo-lhe a voz forte e poderosa nas “Magnas” no pátio do velho convento dos Grilos, então sede da Associação Académica, os primeiros poemas publicados na “Via Latina”, uma memorável bebedeira na véspera da partida dele para Angola. O Manel, sempre dramático, envolvido na capa, cantava qualquer coisa como “capa negra, rosa negra, rosa sem roseira” tema depois musicado por um dos nossos companheiros dessa noite, o Adriano. Talvez também estivesse connosco o António Portugal, cunhado do Manel, guitarrista exímio e amigo certo que ainda hoje choro. Éramos jovens, vivíamos a esperança, apesar de tudo a nossa comum juventude era mais de vinho e rosas do que de chumbo e cólera. Mas a guerra espreitava. Espreitavam também o exílio dele, as nossas prisões, as nossas desilusões. Nos anos em que estava longe, por várias vezes tive ocasião de o lembrar. Quanto mais não fosse porque uma vez tive, jovem advogado, de ir amedrontar um editor, livreiro gatuno e oportunista, que publicara uma contrafação de um dos seus livros, enchendo-se de dinheiro. Foi a minha mais rápida e mais saborosa vitória: o energúmeno nem tugiu nem mugiu e passou-me para a mão umas dezenas de contos que fui pressurosamente entregar à minha editora (Centelha, Coimbra) que de seguida os entregou à mãe do poeta para lhos fazer chegar ao exílio.

Depois do 25 A, fomo-nos encontrando sobretudo em festejos de homenagem à AAC, ao CITAC, às nossas comuns e antigas lutas estudantis. Amigos queridos foram morrendo, já citei dois, e dos melhores, o António Portugal e o Adriano Correia de Oliveira, sem esquecer, claro, o Fernando Asis Pacheco, outro membro dessa inconsútil frátria nascida na velha Universidade, nas ruas da Alta, na praia da Figueira e no frenesi de mil conspirações (e aqui saúdam-se dois outros queridos amigos e poetas, também: Rui Namorado e António Lopes Dias, felizmente vivos e a escrever, eles também desses longínquos anos coimbrãos, dos “Poemas Livres”, da “Vértice”, das noites do “Mandarim” e da Praça da República -naqueles tempos ingénuos felizes havia quem dissesse “Kremlin e Praça Vermelha”.

Depois, já por este século, apoiei-o por duas vezes nas campanhas para a Presidência da República, mesmo se da segunda vez, como então lhe disse e ele agora reconhece, só a amizade de dezenas de anos me fizesse dar tal passo

Mas voltemos ao dia de hoje: o Manuel Alegre ganha o Camões. Ganha-o sem rivais, sem segundas voltas, sem hesitações. Ganha-o graças a um júri internacional (um beijo, Maria João Reynaud, amiga antiga da mesmíssima Coimbra, se bem que muito mais nova) que deixa constância da motivação do prémio: a intrínseca qualidade poética e a honrada e constante luta pela liberdade, pela dignidade humana, por Portugal e por África.

Este prémio não honra apenas o Manel. Honra (como já acontecera com o Manuel António Pina) uma geração de intelectuais e cidadãos que disseram presente a todas as lutas destes últimos cinquenta anos. É provável que nem sempre tivéssemos a razão pelo nosso lado, que por vezes olhássemos a realidade com óculos demasiado fumados e torpes, que pecássemos “por pensamentos, palavras e obras”. Todavia, num saldo quase final a que a idade e proximidade da morte nos obriga, tenho por certo que cumprimos o nosso dever, que defendemos honrosamente a liberdade e a esperança.

Tenho por mim que merecemos o verso (lembrança de Villon) de Brecht

Vós que haveis de surgir das

cheias

Em que nos afundámos

................

pensai em nós

com indulgência.

Um abraço, querido Manel. Mais abraços Rui e Didi e outros  não mencionados mas sempre presentes, vocês que resistiram às cheias e à praia hostil onde agora sobrevivemos. O dia é de festa!

Cave diem!

 

* na gravura: Kandinsky, movimentos 4