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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

01
Ago18

o leitor (im)penitente 208

d'oliveira

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Eduardo Guerra Carneiro, o cometa suicida

 

mcr 1 Ago 18

 

Terá sido em 61 ou 62 que um rapaz louro, olho azul e míope, ternurento e loquaz nos arribou a uma mesa do Mandarim (em Coimbra e na Praça da República, epicentro da vida estudantil). Na mesa a tertúlia variava consoante as horas, os dias e as manias de cada um. De todo o modo, assíduos entre os assíduos, encontravam-se, além de mim, o Eduardo Batarda e o Zé Carlos Monteiro da Costa. Este último, sobretudo ele, adoptou o recém-chegado imediatamente. ZC era um tipo culto, dotado de um humor inteligente e certeiro, de uma ironia educada e afável e, na altura um descobridor de novos autores. A ele devo a s primeiras leituras de Borges, por exemplo. Ainda por cima era casado o que significava uma casa onde se podia ir a qualquer hora do dia ou, muitas vezes, terminar uma noitada.

O Eduardo apareceu já carregado com o seu livrinho de estreia (O Perfil da Estátua) que rapidamente foi esquecido ( o meu exemplar deve ter-se evaporado nas mãos de algum amigo das bibliotecas alheias, coisa aliás que se repetiu com mais títulos de EGC que, contudo, e com grande trabalho, voltei a comprar.

Mantivemos ao longo de muitos anos um contacto irregular mas pontuado por momentos fortes. Encontros aqui e ali, fundamentalmente em Lisboa, algumas cartas sobretudo quando aparecia um novo livro dele ou alguma crónica mais impressiva (e foram muitas) nos jornais. Nesses casos, eu optava por telefonar-lhe para lhe dizer o quanto apreciara aquela prosa ágil, certeira, coloquial mesmo se muitas vezes poética. O Eduardo, nessas alturas, ficava enternecido e agradecia espantado com o meu entusiasmo por aquilo que, finalmente, era um pouco o seu dia a dia nos jornais. E contava-me tremendas paixões que iam acontecendo com uma extraordinária regularidade. “Eduardo, tu tens musas a mais dão para sete vidas, pá!”

Todavia, nos derradeiros anos de vida, as coisas começaram a ser difíceis. Nos últimos anos do século passado, sucedia encontrarmo-nos no “Snob” um bar simpático à Rª do Século, vizinho da rua onde ele morava cujo surpreendente nome nunca esqueci: rua do Abarracamento de Peniche. Foi o Zé Quitério, outro pilar do bom jornalismo e do Snob quem me informou que esta toponímia derivava do facto de nesse local ter havido um acampamento de tropas da guarnição de Peniche mandadas vir para Lisboa para conter as desordens e a ladroagem que se seguiram ao grande terramoto. Si non e vero..

O Eduardo alcoolizara-se dramaticamente e havia tardes e noites em que mal se tinha de pé. Era um destroço de si próprio. Os próprios empregadores começavam a escassear mesmo se, sóbrio pela manhã ele conseguia escrever tão bem como nunca.

Em 2002, os jornais trouxeram a notícia não demasiado inesperada mas de todo o modo pungente. Eduardo Guerra Carneiro, jornalista e poeta suicidara-se atirando-se da janela de sua casa.

Jorge da Silva Melo, outro comum amigo, numa crónica de enorme qualidade noticiou esta morte sob o título notabilíssimo de “O poeta que se atirou para as estrelas”.

Nesta dúzia e meia de anos que se seguiram, EGC apenas revivia na memória de amigos e leitores. Raras, raríssimas, vezes encontrei títulos seus em alfarrabistas ou leilões. Quem tinha os livros, guardava-os (guarda-os) a bom recato.

Agora, sai uma boa antologia dos seus poemas com o título tão eduardiano de “Mil e outras noites”. Leitras e leitores, vão pela obra que a edição (bonita e cuidada, com um prefácio e um posfácio ambos de Vítor Silva Tavares, o pai da editora “& etc”, desaparecido vai um par de anos, que se devem ler com vagar, atenção e prazer: VST no seu melhor...) é de pequena tiragem (300 exemplares) e neste momento os portugueses estão mais para férias e especulação imobiliária de esquerda, a virtuosa que a outra é própria de senhorios maus e malandros. “É assim que se faz a história” (título de um dos melhores livros de Eduardo Guerra Carneiro...

 

na foto: Eduardo Guerra Carneiro

 

09
Jul18

O leitor (im)penitente 207

d'oliveira

maria_judite_carvalho.jpg

 

Um regresso em grande

mcr 8.7.18

 

Regressa Maria Judite de Carvalho, a autora de (entre outros milagres) “Tanta gente, Mariana”. È pela mão de uma nova editora (Minotauro) que volta ao convívio dos leitores e logo com livro duplo (A “Tanta gente...” juntaram “As palavras poupadas”). Força amigos que já tem que ler em férias. Ler e surpreender-se; surpreender-se e maravilhar-se; maravilhar-se e perguntar como é que foi possível tanto e tão longo silêncio à volta desta mulher.

Quem esforçadamente me acompanha sabe que o feminismo não é o meu peditório, mesmo se, também talvez tenham reparado, abomine o “machismo” e outras singularidades que tornam o mundo mais triste e mais cruel. Melhor dizendo: irrita-me soberanamente algum feminismo estridente que entende que para dar à Mulher o seu justo no lugar há que rebaixar a macharia sem olhar a diferenças ou distinguos.

No entanto, e no capítulo literatura moderna portuguesa, o lugar das mulheres tem aparecido sempre em letra minúscula. É verdade que, em seu tempo, se falou das 3 Marias graças ao perfume de escândalo da “Novas Cartas Portuguesas”. Também é verdade que Agustina Bessa Luís e Sofia de Melo Breyner Andresen foram presenças importantes nos meios de comunicação social. O mesmo se passou, ainda que em períodos muito curtos, com Maria Velho da Costa. Porém, pouco ou nada resta da passagem de muitas outras –e, com a única excepção de Isabel da Nóbrega (“Viver com os outros”) só vou citar autores já desaparecidas: Irene Lisboa, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Fernanda Botelho, só para exemplo. Medem-se, sem favor, com os melhores escritores seus contemporâneos mas, mesmo num país onde a maioria dos leitores é feminina, a sua recepção crítica, o volume de vendas e o eco público foram sempre menores. Como se vê, não são só os homens os maus da fita aqui.

O fenómeno não é estrictamente nacional e, em todos os domínios, mormente no político, o ocultamento das mulheres foi regra. E nisto incluo alguns estandartes do movimento comunista internacional. À excepção de Rosa Luxemburgo, as mulheres russas, chinesas ou cubanas aparecem fugazmente, na sombra dos homens, mesmo os mais medíocres. Da revolução russa, conhecem-se de viés, Clara Zetkin ou Inessa Armand (esta última reduzida praticamente a amante de Lenin). De Cuba nada, o mesmo se pode dizer do Vietnam ou da China, onde, entretanto, Mao Ze Dong afirmava que “as mulheres eram metade do céu”. Até a anarquista (ou socialista revolucionaria?) Fanya Kaplan, autora do atentado contra Lenin foi, mais tarde, quase ilibada atribuindo a um tal Protopokov (não garanto o nome) a autoria do atentado.

Não irei cair no exagero (se é que o é...) de afirmar que MJC foi ofuscada pelo marido, o também escritor Urbano Tavares Rodrigues. Porém se quisermos saber deles, MJC aparece sempre como mulher daquele, enquanto Urbano tem direito a referencias sólidas sem o peso da companhia da escritora que, a meus olhos insensatos, lhe é claramente superior.

Assim vai o mundo.

 

31
Mar18

O leitor (im)penitente 207 (b)

d'oliveira

4)MARIA HELENA ALVES -uma casa de familia-.jpg

 

regressando a um tema mais antigo 

Um obrigado ao "leitor desconhecido" que me corrigiu a fotografia postada como da Casa Havaneza, maravilhosa livraria na Figueira da Foz. Devo ter clicado à toa e saiu-me uma farmácia! Desta feita a fotografia é boa. E até se vê a Maria Helena Alves, ultima proprietária da livraria.

Ah que belos tempos... 

15
Mar18

O leitor (im)penitente 207

mcr

O deserto cresce.

Ai de quem abriga desertos.

 mcr 15-03-2018

 

Os dois versos que titulam este folhetim andam comigo à cerca de cinquenta anos. São de Nietzsche, o admirável, e fazem parte dos “Ditirambos dionisíacos”. Quem se interessar pela grande poesia alemã encontrará a tradução da poesia de Nietzsche nalgum alfarrabista mais atento (ou feliz). Caso contrário, a Gulbenkian publicou as “Obras de Paulo Quintela” (ou um título do mesmo género). Nesse conjunto há três volumes de traduções de poesia e num deles vem a obra poética do filósofo. Imperdível! A ler com extrema urgência!

Vem isto a propósito de alguns nacionais e recentes óbitos de livrarias. Sem ir mais longe desapareceram, numa penada desde o início do ano, a “Leitura” no Porto, a “Miguel de Carvalho” em Coimbra e a “Pó dos Livros” em Lisboa.

Sabe-se, igualmente, que um senhorio insaciável já terá dado ordem de marcha (e de despejo) a mais três alfarrabistas da rua do Alecrim em Lisboa (a Campos Trindade, a António Trindade e o Centro Antiquário do Alecrim).

Conheço muitas cidades por via das suas livrarias ou oriento-me nelas seguindo caprichosos itinerários nem sempre planeados entre uma e outra.

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6) Continua na Praça Nova, Fig.Foz....JPG

 

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(a este respeito vale a pena contar que na última estadia em Veneza, andando eu ocupado em mostrá-la à CG, metendo sempre por ruas novas e inesperadas, calhou que, vindo do Rialto para o Campo di San Fermin, oiço a minha mulher soltar o medonho rugido da leoa esfomeada que vê um antílope apetitoso e descuidado. Era, à nossa direita, uma loja de lãs. Fiquei aterrado: a CG é uma temível tricotadeira e anda sempre em busca de algum mirífico fio. “Ai, Jesus, que isto é para uma hora pelo menos”, suspirei in imo pectore. Já me resignava ao inevitável quando, ao olhar para esquerda me deparei com uma livraria. Enquanto a CG avançava para as lãs, precipitava-me eu, em voo picado, para a salvadora loja. Era um verdadeira livraria dedicada a Veneza e história veneziana com extensões ao Veneto. Uma maravilha! Depois de visitar com detalhe um par de títulos, conversei com o livreiro sobre a sua excepcional, e cara!, mercadoria e à saída, ajoujado de compras e aliviado de mais euros do que devia, pedi-lhe um cartão da livraria para poder lá voltar. Espantado, descobri que tinha entrado na “Linea d’Acqua”, um livraria recomendada por um grande amigo e vizinho. E disse-o ao livreiro. Este perguntou-me de onde vinha e quando o informei que do Porto, retorquiu-me seguríssimo: “Ah, então foi o António Abreu! “

E, de facto era. O AA era um ávido leitor e um verdadeiro veneziano. Todos os anos, passava lá quinze dias, hospedado numa casa alugada no Cannaregio, o último sestiere acessível ao turista português. )

 

 

Voltemos, porém, às livrarias que desparecem. Não é de hoje esta doença mortal dos negócios que envolvem a venda de livros. Lembro-me, pesaroso, da excelente “Havanesa” na Figueira, poiso de livros e de tertúlias fieis. Em chegando à terra, o meu primeiro destino era a Havanesa, mesmo antes de ir vera família ou pousar a mala. Em Coimbra, desapareceram várias livrarias, entre elas a enorme “Atlântida” que enchia dois pisos, a “Luso-Espanhola” onde comprei os primeiros poetas de língua espanhola ou a “Cunha”, uma pequena loja cheia de títulos antigos e difíceis de encontrar. Em Lisboa vi morrer a “Opinião” (lugar de encontros inesquecíveis), a “Bucholz”, e a “Sá da Costa” (construída de raiz para ser livraria)bem como as alfarrabistas “Camões”, “Burnay”, “Barateira” e outras de que nunca soube o nome embora nelas tenha encontrado e comprado livros. E ainda, já há alguns anos as vizinhas “Portugal” e “Aillaud & Lello”. A Galiza passou é menos interessante depois do desaparecimento da “Michelena” em Pontevedra onde havia um cão que dormia junto das estantes (no plural!) de poesia. De Paris, então, nem consigo saber quantas foram encerradas. Tenho um vago pressentimento que, só nos 5º (Quartier Latin) e 6º (St Germain des Prés/Montparnasse) bairros creio que já contabilizei vinte desaparecimentos entre 1970 e 2000. Desde “La joie de lire” até à “Librairie du Globe” com obrigatória passagem pela opulenta “PUF” que de horas perdidas e encontradas na felicidade de folhear, cheirar, ler e comprar livro após livro. Outras, mais pequenas mas, por vezes, mais curiosas não conseguiram defender-se dos abutres do turismo e do luxo que contaminaram ruas inteiras com restaurantes de baixa, baixíssima, qualidade, de “hostels” quando não de boutiques de luxo onde se não vê viva alma. Neste capítulo Saint Germain bate tudo o resto.

Eu sou um leitor inveterado, viciado, possuído pelo demónio dos livros. Gastei, ao longo de uma vida que já vai longa, uma fortuna (no verdadeiro sentido da palavra) a encher esta casa de livros. Vai para cima de 24000 o que mais do que um exagero é uma tolice arrogante. Nunca conseguirei lê-los todos mesmo se neste grupo haja, à vontade, mais de 4000 títulos de obras de consulta que obviamente podem passar anos sem que lhes toque.

Quando me apaixono por um tema (e eu sou, nesse campo, um incurável pinga-amor) desato a comprar tudo o que lhe diz respeito, sabendo perfeitamente que esse excesso denota mais falta de critério do que razão e bom senso. Sou um biblio-adicto, isto deve ser semelhante ao que se passa com os cocainomanos, só que mais caro.

Todavia, a morte das livrarias, e de uma só vezada apontei seis mais acima, não desconsola apenas os viciados. Mostra, também, e com que crueza, o estado da chamada “cultura” no “torrãozinho de açúcar”. Cresceu muitíssimo o número de editoras mas baixou torrencialmente o número de exemplares editados de um mesmo título. Vendem-se, ou estão à venda, centos de títulos assinados por personalidades do jet set, da televisão ou da política que nos atormentam quotidianamente. Quase desapareceu a edição de poesia e a de teatro – se existe – vive na mais pura clandestinidade. Só de autores portugueses há uma boa centena desaparecida das estantes e das montras. Quem quer, vai por eles aos alfarrabistas. E esses mesmos vão sendo paulatinamente escorraçados da cidade. É o caso, gritante, da “Miguel de Carvalho” em Coimbra. Esta livraria estava na “baixinha”, muito perto das escadas dos gatos e da portagem num sítio que poeticamente se chamava “Adro de Baixo”. A livraria, quase paredes meias com outra (“Minerva”) era muito bonita, confortável e tinha no andar de cima um espaço para o comprador se sentar confortavelmente e folhear o que lhe apetecesse. O espólio era bom e o atendimento impecável. Miguel de Carvalho, o proprietário, pequeníssimo editor de obras surrealizantes, tinha a paixão da livralhada. Abandonara a engenharia pelo incerto comércio das espécies bibliográficas e mensalmente fornecia, por mail, um catálogo das últimas novidades adquiridas e postas em venda. Numa cidade universitária com mais de vinte mil estudantes não encontrou público que garantisse a sobrevivência da livraria. Assim vai a nossa universidade, assim vão os nossos intelectuais e as nossas futuras elites.

A “Leitura”, então é um caso medonho. Começada na década de cinquenta com o nome de “Divulgação” rapidamente se tornou um sério caso de sucesso. Comprei nela, com as primeiras e modestas mesadas, os primeiros livros. Lembro-me mesmo dos títulos de dois deles: “Alguém Mora na outra margem” (Carlos Gabriel) e “Sete poemas para Egéria e notícia para mim” (Helder Grilo Gonçalves -ou Gouveia?). Era obra de um grupo de amigos que, de facto, eram liderados por Fernando Fernandes, um livreiro de mão cheia mesmo numa cidade onde competia com Domingos Lima (Lello) e com três gerações Perdigão (Latina). O Fernando levava a profissão a sério, importava livros de todo o lado, fornecia (oh truque malévolo!...) o “bulletin du livre” a uma série de clientes que retorquam com encomendas volumosas. Outro dos seus hábitos era o de anotar vendas e pedidos de clientes que ele considerava “seminais”. O pedido vinha sempre em duplicado ou triplicado e o livro era proposto a clientes cujos hábitos de leitura parecessem semelhantes ao do primitivo encomendador. Convém lembrar que a “Leitura” começou por se designar “Divulgação” até, na sequência de uma crise de crescimento, se abrir a mais um sócio e se baptizar definitivamente. Morre, agora, anos depois de FF a deixar, sob o nome tolo de Leitura books and living, parvoiçada saloia que denunciava já um morte a prazo.

Agora, e eu pecador me confesso, as tradicionais livrarias começam a ser ultrapassadas pelos circuitos na internet, mormente pela amazon. A razão é simples: através desses gigantescos circuitos conseguem-se livros praticamente esgotados ou há muito desaparecidos das estantes. A Amazon, a Alapage, a Chapitre, a Decitre ou a Abebooks, respondem com qualidade desigual a essa necessidade. Em Portugal a Wook traz-nos a casa com desconto e sem portes de correio livros recentes ou até menos recentes. Todavia, nestes mundos da internet algo se perde e se arrisca: compram-se os livros às cegassem a possibilidade de com vagar os folhear e consultar. Só leitores empedernidos e sabedores do que pretendem se podem arriscar. E mesmo assim...

Depois, as livrarias foram (e algumas ainda são) centros de convívio para já não falar na descoberta sempre entusiasmante de livros de que nunca se ouviu falar. Basta correr as estantes mesmo com um olhar distraído.

(a este propósito recordo que na Figueira, sob o adro da Igreja de S Julião –a principal – havia uma livraria devota animada por duas senhoras mais católicas do que o monsenhor Palrinhas de saudosa (?) memória. Certo dia, nos idos de 60 descobri na montra entre missais e hagiografias piedosas “A semana santa” de Aragon! Todos os meus amigos foram visitar essa montra e ver o lugar de honra obtido pelo romance do comunista Aragon. O que nos divertimos!)

Em Portugal coabitam as mais extravagantes manias. Há anos foram os bancos que, numa ansia de abrir balcões (que agora fecham sem dar cavaco a clientes e trabalhadores), desalojavam veneráveis cafés e pastelarias e desertificavam ruas e praças. Agora, sob a ilusória luz de um turismo que durará enquanto durarem as guerras no Mediterrâneo e os baixos preços do alojamento e da restauração por cá, fecham-se livraria e outras lojas tradicionais. Há ruas que já ó tem prontos a comer de mais do que duvidosa qualidade. O seu tempo será limitado pela concorrência crescente, pelo fim do voyeurismo turístico e pela impreparação profissional dos seus novéis exploradores. As bolhas rebentam sempre mas o que foi destruído já não volta. E o deserto cresce...

 

As gravuras: a preto e branco o interior da ainda Divulgação mais tarde Leitura

Também a preto e branco "La joie de Lire" (Paris)

A cores -se estou certo, o interior da Havanesa (Figueira da Foz)

 

 

 

09
Jun17

o leitor (im)penitente 205

d'oliveira

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Manuel Alegre

Um belo dia

Estou na esplanada do costume, frente às árvores e aos cães que correm num dia de sol, quente e macio. Já tomei o primeiro café da manhã, beberrico a água que a jovem e amável empregada me trouxe e leio no jornal a notícia: o Manel (Alegre) ganhou o Camões! Eu, nisto de prémios, só me lembro das boas notícias. Por exemplo o Nobel ao Cela que sempre li com gosto e divertido. No ano seguinte foi o Octávio Paz: nova alegria. Caseiramente vários bons e velhos amigos foram distinguidos. O Zé Mattoso e o Herberto Hélder, o Craveirinha e o Manuel António Pina, só para lembrar os que imediatamente me ocorrem. A alguns deles liga-me uma amizade de 30, 40 ou mais anos. Agora o Alegre que eu, caloiro na lúgubre Faculdade de Direito, conheci em 1960. Acho que foi ele que, protetor e amigável, me chamou o “caloiro que gosta de Rilke”. A partir desses dias partilhei com ele lutas e desencantos, perseguições e esperança, bons dias e outros maus. Recordo-lhe a voz forte e poderosa nas “Magnas” no pátio do velho convento dos Grilos, então sede da Associação Académica, os primeiros poemas publicados na “Via Latina”, uma memorável bebedeira na véspera da partida dele para Angola. O Manel, sempre dramático, envolvido na capa, cantava qualquer coisa como “capa negra, rosa negra, rosa sem roseira” tema depois musicado por um dos nossos companheiros dessa noite, o Adriano. Talvez também estivesse connosco o António Portugal, cunhado do Manel, guitarrista exímio e amigo certo que ainda hoje choro. Éramos jovens, vivíamos a esperança, apesar de tudo a nossa comum juventude era mais de vinho e rosas do que de chumbo e cólera. Mas a guerra espreitava. Espreitavam também o exílio dele, as nossas prisões, as nossas desilusões. Nos anos em que estava longe, por várias vezes tive ocasião de o lembrar. Quanto mais não fosse porque uma vez tive, jovem advogado, de ir amedrontar um editor, livreiro gatuno e oportunista, que publicara uma contrafação de um dos seus livros, enchendo-se de dinheiro. Foi a minha mais rápida e mais saborosa vitória: o energúmeno nem tugiu nem mugiu e passou-me para a mão umas dezenas de contos que fui pressurosamente entregar à minha editora (Centelha, Coimbra) que de seguida os entregou à mãe do poeta para lhos fazer chegar ao exílio.

Depois do 25 A, fomo-nos encontrando sobretudo em festejos de homenagem à AAC, ao CITAC, às nossas comuns e antigas lutas estudantis. Amigos queridos foram morrendo, já citei dois, e dos melhores, o António Portugal e o Adriano Correia de Oliveira, sem esquecer, claro, o Fernando Asis Pacheco, outro membro dessa inconsútil frátria nascida na velha Universidade, nas ruas da Alta, na praia da Figueira e no frenesi de mil conspirações (e aqui saúdam-se dois outros queridos amigos e poetas, também: Rui Namorado e António Lopes Dias, felizmente vivos e a escrever, eles também desses longínquos anos coimbrãos, dos “Poemas Livres”, da “Vértice”, das noites do “Mandarim” e da Praça da República -naqueles tempos ingénuos felizes havia quem dissesse “Kremlin e Praça Vermelha”.

Depois, já por este século, apoiei-o por duas vezes nas campanhas para a Presidência da República, mesmo se da segunda vez, como então lhe disse e ele agora reconhece, só a amizade de dezenas de anos me fizesse dar tal passo

Mas voltemos ao dia de hoje: o Manuel Alegre ganha o Camões. Ganha-o sem rivais, sem segundas voltas, sem hesitações. Ganha-o graças a um júri internacional (um beijo, Maria João Reynaud, amiga antiga da mesmíssima Coimbra, se bem que muito mais nova) que deixa constância da motivação do prémio: a intrínseca qualidade poética e a honrada e constante luta pela liberdade, pela dignidade humana, por Portugal e por África.

Este prémio não honra apenas o Manel. Honra (como já acontecera com o Manuel António Pina) uma geração de intelectuais e cidadãos que disseram presente a todas as lutas destes últimos cinquenta anos. É provável que nem sempre tivéssemos a razão pelo nosso lado, que por vezes olhássemos a realidade com óculos demasiado fumados e torpes, que pecássemos “por pensamentos, palavras e obras”. Todavia, num saldo quase final a que a idade e proximidade da morte nos obriga, tenho por certo que cumprimos o nosso dever, que defendemos honrosamente a liberdade e a esperança.

Tenho por mim que merecemos o verso (lembrança de Villon) de Brecht

Vós que haveis de surgir das

cheias

Em que nos afundámos

................

pensai em nós

com indulgência.

Um abraço, querido Manel. Mais abraços Rui e Didi e outros  não mencionados mas sempre presentes, vocês que resistiram às cheias e à praia hostil onde agora sobrevivemos. O dia é de festa!

Cave diem!

 

* na gravura: Kandinsky, movimentos 4

26
Mai17

o leitor (im)penitente 204

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 9

 

Faz o que te aprouver (regra da Abadia de Thélème)

ou

o riso inteligente de Rabelais

 

Hoje em dia já ninguém lê francês”, queixava-se o livreiro que, entretanto me vendia (mais) uma edição da obra de Rabelais, “Rabelais et l’oeuvre” (Paris, E. Bernard & Cie Imprimeurs editeurs, 1897). Uma bela edição, parecia-me, imprevidente que sou e, no caso, apressado a tentar fugir de uma mais que anunciada chuva que ameaçava cair.

Devo dizer que, desde os tempos imemoriais em que mergulhei de cabeça numa edição para crianças de Gargantua e Pantagruel, fiquei irremediavelmente contagiado por Rabelais.

Já crescidinho fui encontrando, em francês, edições que começaram por ser em francês moderno mas a que, pouco a pouco, se juntaram outras mais difíceis no saborosíssimo francês rabelaisiano. Não contente, com isso, também fui apanhando edições ilustradas e só Deus sabe quantas há que Rabelais e os seus maravilhosos personagens entusiasmaram tudo o que conta no mundo da pintura e da ilustração. De caminho, li biografias de Rabelais, um génio absoluto que mais do que nenhum outro autor, marca indelevelmente a passagem da Idade Média para o Renascimento. A truculência medieval ainda está viva mas a sua desassombrada crítica da sociedade contemporânea (desde a Sorbonne ao Papado) o seu profundo respeito pelo bom senso, a defesa da Natureza e de uma Moral descomplexada, o riso contagioso mas humano, os profundos conhecimentos quer de Medicina quer religiosos de que dá provas, mostram um espírito livre e uma inteligência superior. “Gargantua...”, a par do Quixote, do teatro de Shakespeare, e do inolvidável Dante (e juntemos-lhe sem vergonha nem descaramento a maravilhosa “Peregrinação” lida a par com a “História Trágico-Marítima”, com que os nossos ancestros tanto contribuíram para uma outa, e melhor, maneira de entender um mundo em mudança) é um dos grandes momentos do que agora, indiferentes e ingratos, chamamos Europa. Deveria acrescentar Montaigne mas, culpa minha, minha máxima culpa, ainda não o li suficientemente bem, para me atrever a juntá-lo a esta constelação, mesmo se o ache extraordinário. Aqui fica, porém, a referência.

Há edições em português (não sei se integrais) e que devem andar por aí, porventura baratas, que as escolhas de críticos, livreiros e editores traduzem muitas (demasiadas) vezes um simplismo mais ignorante do que se deve.

Fique claro que não estou a afirmar que ler Rabelais é uma obrigação. Ler nunca é uma obrigação mas tão só um prazer, um sorriso, uma vaga dança à beira mar numa manhã macia de mar manso e brincalhão. Todavia, Rabelais é como Cervantes uma leitura empolgante, viciante a que, depois, se regressa muitas vezes como quem visita a família que vive longe na terra da nossa infância e juventude.

Logo no início, aí em cima, contava uma compra apressada que fiz. Com o entusiasmo, o receio da molha e uma irresistível vontade de mais um café, deixei para segundas núpcias o exame do livro. Em casa, horas depois, fui-me a ele. Lá estava o texto em francês moderno mas das cento e sessenta gravuras devidas a Jules Arséne Garnier que constavam no índice, nem uma restava! Alguém as terá subtraído e re-encadernado o livro para ocultar as provas da desfaçatez. É coisa que sucede amiúde com livros ilustrados ou com mapas. Há sempre um arganaz que retira estas partes para as vender vantajosamente por separado. E nisto há também livreiros de porta aberta a colaborar nesta piratagem. A desculpa é sempre a mesma: já compraram as gravuras ou os mapas isolados!... E se não fossem eles a comprar seria o colega do lado... E a vida custa a todos, etc., etc....

 

*Recomendação de leitura: para quem não conhece e tem receio do francês rabelaisiano eis a edição recomendada. “Les cinc livres des faits et des dits de Gargantua et Pantagruel” Gallimard, colecção “Quarto”, Paris, 2017

Na página da esquerda Rabelais ele próprio, na da direita o mesmo em francês moderno. Há um bom prefácio inteligente e compreensível.

*na gravura Rabelais

 

15
Mai17

O leitor (im)penitente 203

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

Rufino_LM_Praia_Polana_1.jpg 

 

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(“Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”)

Os livros são uma aventura sem fim, uma viagem sem bússola, um desvanecer de dinheiro pior do que consumir cocaína. O leitor voraz, nunca está satisfeito. Pede sempre mais e mais, quer tudo e mais alguma coisa, o que faz lembrar aquele cavalheiro medievo, Pico della Mirandola que, diz-se, sabia tudo e mais alguma coisa. Morreu cedo de tanto ler, mas não de tresler, deixando uma obra copiosa salpicada, nalguns casos (13!, número aziago!) de heresia de que, contrafeito, teve de abjurar. Pico lia tudo, comprava tudo o que corresse escrito e discutia tudo. Hoje, poucos o conhecem e menos ainda o leem (é o meu caso...) mas o homem, segundo a biografia que lhe dedicou um sobrinho, era da raça dos génios.

 

Rufino criados.jpg

 

A que vem esta lengalenga mirandoliana se o que pretendo é falar de um certo Rufino, fotógrafo e africanista, autor de dez gordos volumes pejados de fotografias sobre a colónia de Moçambique em 1929?

Pois apenas isto, o senhor José dos Santos Rufino por razões que não enxergo, resolveu, naquela data, arriscar muito dinheiro na publicação dos “Álbuns...” Não vislumbro que, à época, lhe sobrasse freguesia suficiente na colónia (em 1929, Moçambique era, oficialmente, colónia, abandonada que fora a designação de província ultramarina dos tempos da monarquia). Também duvido que, na Metrópole, houvesse uma multidão de entusiastas coloniais que compensasse o esforço e os gastos da edição. É que se trata de algo luxuoso, caro, fotografias algumas vezes enormes, tratadas, reveladas e editadas na Alemanha pela renomada firma Broschek & Co. (Hamburgo). São dez volumes oblongos (22x29cm) que no conjunto hão-se contar mais de mil fotografias, algumas em página dupla. A obra encerra fotografias das localidades mais importantes (Lourenço Marques, Beira, Tete, Quelimane ou Moçambique -mas não Nampula, na época um lugarejo sem importância -), instalações portuárias, comerciais, agrícolas e industriais, fauna, flora, arquitectura e monumentos e, no 10º volume, uma extensa mostra das populações nativas.

A qualidade das fotografias foi sempre aclamada mesmo se Rufino não conste na lista nacional, africana ou mundial dos grandes fotógrafos reconhecidos. Mas. é-o, indubitavelmente.

Hoje, a colecção pertence ao ex Banco Nacional Ultramarino e raras vezes aparece completa no comércio alfarrabista. Quando tal acontece, os preços são consideráveis (entre 750 e 1000 euros nas consultas que fiz) o que muito me entusiasmou porquanto fui pacientemente reunindo os volumes entre Dezembro de 2007 e Setembro de 2009. Tinha fixado uma tabela máxima por volume (€ 50) e consegui terminar o lote um pouco abaixo do limite que me tinha imposto, sobretudo porque consegui que todos os tomos estivessem em “bom” ou “muito bom” estado de conservação.

Para além do interesse estético, o que me interessou sempre foi o valor documental e, sobretudo, a confirmação do que sempre defendi: Moçambique é um país construído por portugueses, sul-africanos, indianos, alguns chineses, gregos, italianos e alemães. Deveria referir os africanos, isto é os negros indígenas que alombaram com o trabalho mas penso que isso está implícito sempre que se fala de África.

Também me pareceria interessante fazer notar o esforço de muitos mestiços que nos anos da construção do “Império” eram importantes (por todos, em Moçambique, a família Albasini) estatuto que foram perdendo durante o apogeu da colónia-província ultramarina. Para isso, portugueses e indianos contribuíram fortemente mas não é desdenhável a contribuição bóer, a provar que durante muito tempo, a mestiçagem não só não era proibida mas tinha estatuto social e económico. Anda por aí muito aprendiz falhado de anti-racista que desconhece que o apartheid foi obra de anos posteriores. Não é que antes não houvesse diferenciação racial (com pesadas e vis consequências) mas esta tal qual se tornou política oficial da RAS tem origem nos finais da primeira metade do século XX.

E, mesmo que Moçambique não fosse um paraíso racial (longe disso), as diferenças entre o estatuto de brancos e não brancos era algo de infinitamente menos ignominioso do que em muitas outras zonas de África. Não desculpa nada mas não pode ser esquecido.

 

* nas fotografias que se juntam aparece a palavra “mufano” para significar criado jovem. É uma adaptação tola e masculinizada do termo ronga “mufana” que significa rapaz, jovem. O feminino, no mesmo vernáculo, é tombazana.

 

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.

15
Fev17

o leitor (im)penitente 196

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras bizarrias 1

 

“Tenho cinco minutos para contar uma história” é o mais recente e ressuscitado livro de Fernando Assis Pacheco que faria por estes dias oitenta anos. Faria, disse e repito- Quis a malina que nem aos sessenta chegasse. O Assis morreu cedo e mal. Tinha à sua frente uma bela carreira poética a adivinhar pelo que “A musa irregular” revelava. Acompanhei-lhe os versos desde 1960 na “Via Latina”, nos “Poemas livres”, nas pequenas edições só para amigos, fui mesmo editor dele (fui eu e mais quarenta que a “Centelha” era uma multidão de malucos que gostavam de livros) e, a certa altura, uma criatura manhosa convenceu-me a desembolsar cinquenta contos dos antigos para reeditar um desses livrinhos. Depois nem livro nem volta da massa: anos depois, o Assis contava-me em carta as maçadas e desgosto que tivera com o importuno e abusivo editor.

Faria, dizia, oitenta anos mas o coração, maior do que o mundo, traiu-o vilmente à porta de uma livraria. Mulher, filhas e filho e um monte de amigos persiste em lembrá-lo para o que contamos com a honrada colaboração de vários jornais e de antigos colegas. “A musa irregular” primeiramente editada pela Hiena Editora do excelente e culto Rui Martiniano é um dos bons (dos muito bons) livros de poesia da quarta parte do século XX. Parece que ainda se conseguem exemplares da última edição (3ª?, 4ª?): leitoras e leitores aproveitem. Se alguém não gostar que me devolva o livro que eu pago-o.

Este livrinho (cinco minutos...), ora editado (Tinta da China ed) é um apanhado de crónicas lidas ao microfone duma rádio. Instantes de vida, lembranças, achados, conversa boa, tudo para despachar em cinco minutos o que é obra!

Só tenho um reparo: o Assis escreveu muitas outras crónicas que ainda andam por aí esparsas em jornais. Há uns anos a família (ou talvez apenas a Rosarinho) mandou-me umas folhinhas do “sempre fixe” ou do “diário de Lisboa”, dessas que servem para manter um título jornalístico onde se apanhavam mais outros textos. Está por fazer a reedição completa e integral destas prosas de destino incerto e qualidade certa. Tivesse eu tempo e idade e atirava-me à tarefa de as recolher mas estou já avançado em anos para vencer a preguiça e a trabalheira. Ainda por cima a pesquisa teria de se centrar sobretudo em Lisboa e nos jornais onde Assis trabalhou e eu, provincial e provinciano que sou, estou longe.

À falta de melhor, deem-lhe ao dente nestes “... cinco minutos...” e acompanhem cada garfada com um copo de um bom tinto que o Assis, fino gourmet, merece a vossa boa companhia.