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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

O leitor (im)penitente 214

d'oliveira, 09.12.25

Aeus princesa

mcr, 9-12-25

 

O título não precisou de grande imaginação, De facto é o título de um beve romance de Clara Pinto Correia, publicado em 1988 (quase 40 anos!)  e que mereceu algum destaque de alguma crítica que o assinalou como um romance ambientado no Alentejo sem cair nos alentejanismos fáceis da época. 

Estava bem escrito , a história era escorreita, não tinha ceifeiras de punho erguido nem operários sindicalizados a sovar patrões fascistas e reaccionários.

Já praticamente não o recordo mas sei qye houve muito choro e ranger de dentes e muita tentativa de o desqualificar.

Vasco Pulido Valente bem que advertiu que aquela tentativa literária anunciava o fim de um bom punhado de mitos piedosos  que acompanharam teimosamente  a derrocada de uma certa ideia de revolução portuguesa post abrilista.

CPC era,permitam-me dada a diferença de idads , uma muiúda cheia de talento, inteligente e bem preparada . Não terá resistido à fama ou embarcou sem cautla nem prudência numa espiral que umafama efémera faz perder muito boa gente. 

Apareceu morta em casa e dela ºpderia dizer-se que ºrop,eteu muito  mas que por boas ou más razões ficou pelo caminho. Cel, cá por casa, ainda há um outro livro de cariz mais científico, melhor dizendo  de  divulgaçãoo científica, “Portugal animal” Se bem me lembro é uma idição da relógio de Água. . Li-o com proveito e atenção. 

 

Alguém virá a terreiro com histórias menos abonatórias mas, provavelmente porque sou  um velho cavalheiro que já viu demasiado mundo, queria recordá-la como a “miúda! Que se atreveu a escrever uma bela promessa litwréria. A vida atropelou-a ou ela deixou-se atropelar. Ma que o título lhe assenta, disso não tenho d´úvida

Adeus, Prrincesa

 

 

o leitor (im)penitente 214

mcr, 16.07.25

 

Até o JL?

mcr, 16-7-25

 

Num artigo de página inteira (em vez da coluna habitual...)

Meu velho, velhíssimo, amigo José Carlos de Vasconcelos  avisa os leitores  que parece quase inevitável a morte do jornal.

Um jornal dedicado às “letras, artes e ideias” que já vai no no 45º ano e em 1429 edições!

Eu bem sei que tudo acaba mas essa triste evidência dói-me. Este jornal é fruto de um Abril  recheado de esperanças e de uma equipa onde outros velhos (velhíssimos) amigos escreviam. Destaco apenas, por economia, amizade antiga e especial gratidão, só refiro o Fernando Assis Pacheco um poeta que morreu cedo à porta de uma livraria que ainda existe mesmo se muito diferente e menos rica.

Sou, sempre fui, um leitor de jornais, muitos jornais, alguns como o JL , o Expresso ou o Público desde o primeiro dia. Vem-me dos primeiros dias da faculdade esse vício ao longo destes últimos 65 anos. Uma vida pela qual perpassaram dezenas de títulos portugueses (o Diário de Lisboa, a República, o Comércio do Funchal - onde cheguei a colaborar - o Século  que durante o meu derradeiro “estágio” em Caxias me foi permitido e que lia desde a primeira à ultima linha sem esquecer a necrologia e o movimento marítimo. E mais uma série de outras publicações jornalísticas de onde destaco uma folha estival figueirense que se chamava “O Palhinhas”. Em Moçambique fui leitor fiel da “Tribuna” e do “Brado Africano”, este último como forma velada de apoio às aspirações independentistas da sua equipa redactorial e estrangeiros (fui e sou fidelíssimo ao Le Monde, ao Paese Sera e a La Republica italianos e dói-me a ausência de El País e do ABC, só aos sábados, pelo suplemento cultural que era excelente.)

No domínio das revistas também foi um fatoter e nisso incluo mesmo duas cubanas dos primeiros e bons tempos da revolução  mesmo se já só recorde o nome de uma (Bohemia)  e que era um manancial de frescura, liberdade, inovação e modernidade que o tempo e o fidelismo rapidamente apagou.  Outra revista desaparecida ainda nasceu nos tempos do franquismo espanhol - chamava-se “Triunfo" e nelas colaboravam alguns dos mais destacados nomes da oposição espanhola. Tenho várias prateleiras cheias de revistas espanholas, francesas, italianas quase todas eminentemente literárias. O mesmo ocorre com três revistas portuguesas de que fui fiel assinante até ao 25 A (o Tempo e o Modo, a Seara Nova e a Vértice). A primeira foi assassinada pelos energúmenos do MRPP, as duas restantes acabaram por cair na esfera sufocante do PC e se ainda por aí aparecem não passam de vagos fantasmas.

Da Gulbenkian ainda consigo, de quando em quando, apanhar algum exemplar mas juro que só após esforçadíssimos trabalhos. Quando estou em Lisboa só indo à Fundação é que consigo  arranjar as revistas entretanto saídas. Nem a Bertrand, nem a FNAC as vendem!

Pouco a pouco, foram desaparecendo jornais e revistas e, no caso português, o JL era um resistente.

Não só o comprei fielmente, número a número ao longo de todos estes anos mas encadernei-o  anualmente sempre.

Não há melhor método para conservar todos os exemplares pois sei por experiência própria que de outra forma perdem-se sempre alguns e (sempre) aqueles que, mais tarde, queremos consultar. Ofereci, por absoluta falta de espaço, há anos todos os exemplares ao meu primo António e tenho comigo os últimos três anos já encadernados para lhos entregar.

Temo que os poucos números deste último ano sejam os últimos pois duvido que a sua morte anunciada suscite um sobressalto cívico e cultural suficiente para continuar a editar-se.

O Augusto M. Seabra, não era um entusiasta do JL e até afirmava que daria os seus exemplares a quem “os estimasse”. Eu, sem ser tão  crítico, também arranjei quem estimasse aqueles quarenta e tal volumes que me enchiam três ou cinco prateleiras altas da cave que, de resto, está atulhada  de livralhada sobrante e menos consultada.

o leitor (im)penitente 213

d'oliveira, 12.06.25

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Um acontecimento literário, cultural, artístico, político e ético

ou Portugal no seu melhor

mcr, 12-6-25

 

Não fora eu ser um leitor impenitente e teimoso  não teria sabido da saída de “Geralçao de 70, dicionário da geração de 70” (Imprensa Nacional & Ed Presença, 1025)

Todavia, como leio com regularidade o Jornl de Letras, deparei-me com um texto de Guilherme de Oliveira Martins (“fazer um dicionário”)  onde era dada esta novidade. Curiosa,ente, não vi (pu então não reparei) mais nenhuma menção nos jornais que leio (Expresso e Público) que lá vão dando alguma notícia semanal dos livros que saem.

O prefácio da obra é da autoria de Eduardo Lourenço e a organizaçãoo e coordenaçãoo devem-se  a ana Maria de almeida Martins, uma anteriana talentosa e dedicada com uma longa série de obras publicadas a que ainda ha pouco fiz refência devido ao inicio da pyblicação desta vez completa das prosas de Antero de quental, Guilherme de Oliveira Martins  que não necessita de apresentaçãoo e Manuela Rego que tem no seu activo uma boa dúzia de livros  quer como organizadora ou autora ou colaboradora. 

Estamos perante uma iniciativa  que merece um intenso aplauso e , pelo menos da minha parte, um enorme agradecimento. 

São oitocentas e tal páginas que permitem ao mais exigente ficar a saber quase tudo (senão tudo o, também são referidos que é possível)  desta notabilíssima geração , honra e glória do nosso final do século XIX e que abrange umas centenas de nomes  (Cesario Verde eNobre  também - emuito bem- são referidos) que todos juntos  dão um retrato do melhor que Potugal teve, nos tempos mais recentes.

Prém, não há bela sem senão: este livro usa um tipo de letra miseravelmente pequeno. Felizmente que, dada a minha péssima visão, uso desde há anos uma série de lupas electrónicas, a maior das quais tem um visor de 25 polegadas.

Temo que o tamanho ridículo da letra retire leitores a um trabalho que, pelo que já li é digno, interessante e mitiga, muito, a desilusãoo de quem hoje por cá anda.

 

o leitor (im)penitente 286

mcr, 19.04.25

Há mortes e mortes mas, no fim, nem todas vão dar ao mesmo

E no caso em apreço há um quarteirão de grandes romances

mcr, 16-4-25

 

Eu sei que no Sudão, em Gaza ou na Ucrânia  as pessoas caem que nem tordos, inutilmente , sem especial ganho para o matador como uma longa teoria de guerras e massacres (basta não ir mais longe do que o século passado para perceber o verso de Prévert Oh Barbara quelle conerie la guerre...)

Desta feita não destas guerras que quero falar, destas mortes, da imensa canalhice de um presidente que confunde (por imbecilidade, burrice, má fé ou canalhice) agressor e agredido afirmando que foi este que iniciou uma guerra contra um inimigo vinte vezes mais poderoso,  mas apenas de três mortes infelizmente esperadas dada a idade dos defuntos. Comecemos por Mário Vargas Llosa, peruano, Nobel, autor de mais de um quarteirão de grandes livros, quase todos romances. MVL é, de certo modo o mais importante escritor dessa fileira de autores sul americanos que surpreenderam o mundo com uma escrita miraculosa, inebriante, inteligente, muitas vezes divertida mas sempre, sempre profundamente comprometida com o povo do continente de onde vinham  ou, atrevo-me, com todos os povos do mundo. Quando digo "o mais importante escritor, quero apenas referir a quantidade de obras que escreveu mesmo sublinhando que, julgo, "1oo anos de solidão" a melhor obra  deste enorme conjunto de autores e obras 

(claro que não esqueço uma boa dúzia, mais, até, de autores da mesma época (entre todos, Rulfo um mexicano genial). Por várias razões, mesmo algumas não literárias, MVL  marcou os último 60 anos. Inclusive, a sua famosa campanha presidencial em que foi derrotado por  um cavalheiro chamado Alberto Fujimori que não chegou ao fim do mandato e que foi condenado por corrupção e violação de direitos humanos, depois de ter andado fugido durante anos. 

Além do Nobel, MVL teve todos os grandes prémios literários hispano-americanos  mais conhecidos      ("tómulo Gallegos", "Cervantes", "Pricipe de Astúrias...")

 Dentre as suas múltiplas campanhas em defesa da liberdade, há que destacar a defesa de uma grande obra, eventualmente, a mais importante publicada no sec XX em Cuba "Paradiso" (de José Lezama Lima que, com Guillermo Cabrera Infante e Alejo Carpentier compõe o grande trio de escritores cubanos do sec XX Todavia,  foi a defesa de Herberto Padilla, o poeta que ganhou o premio  da Union Nacional de Escritores Cubanos de 1968. A direcção desta instituição discordou do júri e fez udo quanto podia para alterar a distinção a Padilla (e tmbém ao premiado de teatro, Anton Arrufat) Padilla chegou a estar preso e posteriormente exilou-se. O outro premiado só conseguiu ver a sua peça (Los siete contra Tebas) representada vinte anos depois!!!

(tive desta história que fede a processo de Moscovo tropical,  conhecimento em primeira mão graças a Ricardo Salvat, professor, ensaísta e encenador teatral que foi encenador do CITAC em 1969, Salvat, segundo recordo, esteve como membro de um júri em Cuba no ano de 68 e terá mesmo sido um dos premiadores de Arrufat. contou-me todas estas tristes andanças literário-políticas cubanas durante a sua estadia em Portugal de onde foi expulso na sequência da crise de Coimbra1969)

MVL nunca deixou de se bater pela liberdade e pelos direitos humanos  mesmo quando, derrotado nas eleições presidenciais e obviamente acusado pela "esquerda" peruana  de fazer parte da direita mais reaccionária, pode assistir ao fim inglório de seu adversário envolto nua teia de corrupção e crimes contra os direitos humanos que, primeiro o fizerram fugir para o Japão e posteriormente ser julgado e condenado a uma dura pena de prisão no Peru.

Tive oportunidade de, numa estadia em Paris, encontrar no pequeno hotel onde me alojava uma humilde empregada peruana que escolhera aquele hotel para trabalhar por ficar em frente a uma casa onde MVL durante alguns anos vivera (ou vivia ainda).  Ainda não recebera nenhuma das grandes distinções literárias mas aquela senhora peruana tinha um enorme orgulho naquele escritor . Num rompante fui à "librairie espagnole", (que era perto, na rue de Seine) comprei e ofereci-lhe dois livros de MVL. Ao fim de uns dias, já lera o primeiro e preparava-se para o segundo  com entusiasmo. O hotel foi vendido e actualmente no seu lugar está um cinco estrelas  fora das possibilidades da minha bolsa.

 

Dos outros dois mortos que também foram meus amigos escreverei mais tarde pois este texto alongou-se e outras tarefas interromperam  os meus projectos. A preguiça e o facto de ser um trapalhão velho e relho ajudaram.

Boa Páscoa e aproveitem a ocasião para ler este admirável Mario Vargas Llosa

*para quem já leu vários livros deste autor , recomendaria uma interessante e inteligente autobiografia com o título "pez en el água". Ignoro se há tradução em português mas garanto qe vale a pena o esforço.

 

o leitor (im)penitente 285

mcr, 03.04.25

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uma grande escritora, uma grande Senhora

mcr, 2 -4-25

 

Conheci um largo número de escritores mais por acaso do que por vontade de os procurar ou conhecer.  O facto de durante anos ter frequentado as "correntes de escritas" e o "Literatura em viagem", festivais inventados por Francisco Guedes, carreou para o meu inexistente \album mais dois ou três quarteirões de autores  

 A leitura, vício provavelmente mais caro do que a cocaína, o facto de, durante décadas, frequentar livrarias (no tempo em que havia sempre uma pequena ou grande tertúlia que lá se juntava)  também controbuiram para acabar por conhecer mais uns tantos romancistas e poetas (e aí destaco Herberto Hélder e Manuel da Fonseca, com quem passei uma inteira ttarde à conversa e de que guardo uma anedota que não resisto a contar; Manuel da Fonseca entendeu a certo momento folhear um livro escolar para a disciplina de português. Ao descobrir um poema seu ficou comovido e contente, Continuando a folhear  o mesmo exemplar foi dando com mais contribuições suas  que, a certa altura, o perturbaram. "Esta gente não terá mais autores a quem pilhar poemas?"

Em boa verdade aquilo já ia ou ultrapassava a dezena, se é que bem me lembro.

O livreiro ainda tentou dizer que aquilo era "uma homenagem", Eu achei que para homenagem a coisa ia longe demais. Fonseca, já  irritado e contristado jurava que ninguém lhe pedira autorização. ou sequer o avisara.

alguém, também presente, opinou que aquilo era um roubo ou pelo menos uma maneira de fugir a direitos deautor. O Herberto que seguira a cena, calado, tentou deitar água na fervura: "Ó Manuel a mim ninguém me publica em livros para a juventude analfabeta!"

Ainda estive para afirmar que HH não corria o risco de ser seleccionado por nenhuma professorinha autora de livros bem rendosos. A razão era simples e óbvia: não o entendia!

Ambos fazem parte da minha especial selecçao de autores por quem nutro admiração e carinho. Há mais, desde o Fernando Assis Pacheco, o Manuel António Pina, o José Cardozo Pires e a Isabel da Nóbrega que, ao fim e ao cabo é o motivo deste folhetim.

Conheci a Isabel em Matosinhos por ocasião de uma  edição do LEV  no qual colaborava  como habitual moderador de uma ou duas mesas .

Logo na sessão inaugural, fiquei intrigado por uma senhora bem mais velha, bonita e discreta mas elegantemente vestida.  Era, logo ali, uma presença fascinante no meio de uma boa centena de pessoas displicentemente vestidas, a maioria abaixo do cinquenta anos. Nesse mesmo dia, à noite, eis que ela reaparece com uma roupa diferente, igualmente elegante e por mero acaso sentou-se na mesa em que, com mais gente, eu estava. Depois de concluir (sem esforço) que ela seria escritora, entendi que talvez valesse a pena tentar conversar com ela. Na primeira meia hora, depois de reparar nos lindíssimos olhos dela, hum rosto que apesar da muita idade conservava traços de uma neleza notável, e porque não sabia o nome dela, fiz de cavalheiro, apresentei-me e ela finalmente disse que se chamava Isabel da Nóbrega. Dei um salto (onterior, pelo menos). Nos anos sessenta lera o seu admirável romance "Viver com os outros" e ao longo de uma boa quarentena de anos relera-o inteiramente, ou apenas certas partes . A coisa era simples, Se por algum acaso, mexia na estante onde o livro estava, acabava por o agarrar e folhear durante alguns minutos ou mais longamente quando acertava num trecho particularmente interessante. E disse-lhe isso mesmo fazendo notar que aquilo também ocorria com mais umas duas ou três dúzias de autores, poetas sobretudo.

A partir dessa notite mágica, encontrámo-mos todos os dias nas mesas onde à noite se discutia forte e feio os livros, os autores, tudo. Quando o LEV terminou tive a ousadia de lhe oferecer um livro meu sob o pretexto que durante a viagem de regresso aquilo a induziria a dormir no cmboio. 

Dois dias depois, toca o telefone e, do outro lao, estava uma Isabel a agradecer-me pela segunda vez o livrinho e a comenta-lo com uma gentileza e afeição  que me embeveceu. Que lera o livro de fio a pavio que até já o emprestara a pesoa amiga, enfim, cresci durante o telefonema mais de dez centímetros. Melhor dizenfo, o meu ego cresceu que eu continuo com a mesma fraca figura de sempre.

Ainda falámos mais um par de vezes, prometi (e muiseravelmente não cumpri) visitá-la, e comecei a comprar nos alfarrabistas o livro para oferecer a amigos leitores seleccionafos. Em boa verdade foram poucas as vezes em que encontrei o "viver... . Faço o mesmo com mais três livros todos de Aquilino ("A retirada dos 10 000", "É a guerra" e "Alemanha ensanguentada", com alguns Eças (sempre não ficção...) e com o Prevert  E recentemente, descobrindo alguns Voltaire repetidos já estou a preparar nova ronda de ofertas)

Quem vê a gravura, logo percebe que tudo isto é provocado pela úliima edição da Revista do Expresso onde se recorda um pouco a Isabel e  a merdosa retirada das dedicatórias nos livros que Saramago publicou enquanto viveu com ela.

Um conhecido poeta, meu amigo, uma vez afirmou: "Saramago? Não li e não gostei " Eu li alguns mas nunca fui especial admirador. No dia do Nobel ao encontrar-me com o meu tio Quim, um grande leitor e um quase irmão, ambos lamentámos que o prémio não tivesse ido para o Cardoso Pires.

Conviria recordar que até Isabel da Nóbrega encontrar Saramago a produção literária dele era de qualidade mais do que medíocre. Foi ela, como de resto consta por toda a parte, quem o educou literariamente e não só, quem o propôs  ou impôs nos círculos literários onde brilhava. Para os mais conhecedores há mesmo um rasto visível dela no mais conhecidos livros por ele escritos enquanto viveu com ela.

Alguém me dirá que a troca de companheira de vida por uma mulher mais nova (a boi velho erva tenra...) é já uma tradição no meio literário. É provável, basta ver a lista de escriitores qie no ocaso da vida se separam da antiga mulher (Cela, por exemplo) ou já vúvos começam o que julgam ser uma nova vida com mulheres que poderiam ser suas filhas. Em certos casos, persiste a ideia de que, nestes enredos, uma das partes não estará inteiramente de boa fé...

Todavia, não me interessa especialmente saber das razões ou desrazões dos encontros e desencontros amorosos. 

Há porém, na retirada das dedicatórias algo que  me parece uma espécie de velhacaria. Aqueles livros que levam uma dedicatória normalmente a justificá-los  dizem-nos muito da história, da origem, da sus factura, da sua oficina. Costuma dizer-se que por trás de um grande homem há sempre uma mulher e isso é extensível a toda a espécie de criadores  e artistas. Há mesmo um caso extraordinário que revela até que ponto a sobrevivência de uma obra se deve à mulher do escritor. Refiro-me ao casal Ossip/Nadejda Mandelstam  que, depois da prisão e assassínio do marido, conseguiu decorar parte da obra deste e mais tarde publicá-la. Ao mesmo tempo, escritora de grande talento e perspicácia, escreveu umas memórias que não são apenas brilhantes mas também mostram muito do clima intelectual e político da finada URSS. (está traduzida em português: "contra toda a esperança", Imprensa da Universidade de Lisboa).

Deixemos, no entanto, este apontamento sobre  alguém que também não percebeu que, ao eliminar uma dedicatória, assim se diminuía e tornava menos legível o livro , para recomendar a leitura de "Viver om os outros" um grande romance, que mantém toda a frescura inicial que me encantou. E recordar a escritora que ao longo de muitos anos publicou mais de três mil crónicas de que valeria a pena, editar uma antologia.

o leitor (im)penitente 284

mcr, 30.03.25

 

 

 

 

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45 anos!

mcr, 30-3-25

 

O  J L (Jornal de Letras, Artes  e Ideias)  fez 45 anos!   E 1421 números!! É obra.

Sempre fui um amador de jornais e revistas culturais. melhor dizendo desde os meus longínquos anos 60, altura em que descobri um jornal semelhante que se chamaria "jornal de letras e artes" que seria semanal e durou anos Vendi um forte lote dessa   primeira colecção num momento de tolice e, provavelmente, de penúria. Nunca mais o encontrei no todo ou em parte, nos alfarrabistas. Dessa época conservo um quarteirão de números do "Diálogo", suplemento cultural do extinto e perseguido "Diário Ilustrado", onde pela primeira e deslumbrada vez encontrei um poema de Senghor e alguns de Malcolm Chazal que, além de poeta notabilíssimo foi pintor de talento .

Era um tempo em que todos os jornais tinham extensos suplementos culturais que agora não existem de todo em todo. Aliás era, também, o tempo, de grandes e boas revistas culturais (Vértice, Seara Nova, O tempo e o modo, Rumo, Brotéria etc., etc... de que legível, só resta a última)

Quanto a jornais literários resta o JL ainda que, de longe em longe se assista a uma tentativa sempre falida de publicações semelhantes. 

Sou leitor, ligeiramente desatento.  desde o primeiro número e, ao longo de todos estes anos fui-os mandando encadernar anualmente. A certa altura, quando me rendi à evidência de que ocupavam muito espaço  consegui arranjar um primo que generosamente (e porque lhe sobra espaço na biblioteca) os acolheu e acolhe , estando neste momento prestes a enviar-lhe os últimos quatro anos.

Consta, nos mentideros habituais, que a publicação não vive dias fáceis mesmo com algumas compras feitas por entidades públicas  Todavia, resiste e, por mim, que os compro e encaderno para oferecer, não morrerá. 

É apenas um jornal, ou seja uma publicação que noticia, fornece notas de leitura, alerta, chama a atenção sobre livros e sobre artes em geral. Cumpre galhardamente essa útil função. 

Vale a pena comprar  pois equivale no melhor e mais barato dos casos a 3/4 bicas , quinzenalmente. Porém, a vida cada vez mais precária da grande maioria dos jornais nacionais,  n\ao é de molde a ter demasiada esperança na sua continuidade.

 

nota: quando se fala no JL é indispensável, nem que seja por mera gratidão, referir José Carlos Vasconcelos, poeta e jornalista  que tem sido, sempre foi, uma espécie de alma da publicação. Sou amigo dele há sessenta e cinco anos pois foi uma das primeiras pessoas que, em Coimbra, conheci como dirigente estudantil, poeta e resistente ao Estado Novo.

 

(Já agora: tenho tentado sem resultado visível encontra uma colecção mesmo que incompleta do seu antecessor. Alguém saberá onde encontra-la?)

O leitor (im)penitente 283

mcr, 24.03.25

 

 

 

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Um agitador cultural como  há poucos, muito poucos, um amigo e um especialista em petisqueiras varia. : Francisco Guedes (de Carvalho)

mcr. 24-3-25

 

Conheci o Xico Guedes há cinquenta  e um anos, mais dia menos dia. ele a a Manuela Sinde, sua mulher, eram amigos da Luísa Feijó, minha amiga desde os anos de Coimbra.  Não sei do que teremos falado mas a partir daí criou-se uma sólida amizade, muito para além da política, dos livros , do dia a dia 

Juntos e logo nos primeiros tempos fizemos uma longa viagem invernal pelo Alentejo e Algarve. Essa excursão numa carrinha Volkeswagen, animada pela gritaria dos miudos Feijó/cunha e, todas as manhãs, criticada pela Teresa Feijó que se indignava por os outros "atamancarem os pequenos almoços (sic)",  permitiu-nos descobrir várias coisas de que, em homenagem ao Xico, apenas refiro um delicioso vinho da adega Mendonça herdeiros (em Borba) e o magnífico queijo de Serpa. queijo e garrafas de vinho etiquetadas à pressa pelo vinicultor, entupiram a bagageira. Depois, num restaurante onde se reuniam duas dúzias de amigos  e que chamava "farmácia Campos" impusemos esses vinho e queijo  a toda a tribo guedes de Carvalho, ao clã sisa e mais uns quantos. 

entretanto o Xico foi trabalhando em várias editoras, chegou a ter uma e depois revelou-se ao organizar primeiro as "correntes de Escrita" na Póvoa ,e mais tarde, em Espinho o festivl "Literatura em Viagem", dois êxitos absolutos que mesmo sem ele, conseguem resistir à usura do tempo. 

Colaborei muito neste último do qual me desliguei quando o Xico, por razões que desconheço, se demitiu.

O xico partiu para outras aventuras literárias (tradução, escrita de livros sobre gastronomia e pouco a pouco fomos deixando de nos encontrar tanto mais que a Manuela morreu. 

Há uns meses falamos ao telefone e ficáos de nos encontrar  "quando o tempo estiver mais quentinho". 

Hoje, a CG, que frequenta redes sociais deu com a notícia da morte (ocorrida esta manhã). como de costume o mensageiro foi o Manuel Valente que também era amigo e como editor sempre colaborou com as correntes e o Lev.

Não vou, não caio nessa!, dizer que esta morte aos setenta e cinco anos deixa um vazio irreparável na cultura nacional. Nçao faço essa desfeita oa xico  e que, aliás, é um nariz de cera  mas que comum.

O Xico faz falta à malta amiga que o conhecia e apreciava. à família obviamente ,ao João e à Francisca e aos irmãos.  Fica-me a sua memória , a sua voz, e a defesa intransigente de um certo estilo de vida (slow food, incluído).  E, como de costume, fico ainda mais só, doença de uma idade  que avança e já começa a parecer-me demasiada. 

 

O leitor (im)penitente 282

mcr, 23.03.25

Sem igual?

-Evidentemente, Antero de Quental!

 

mcr, 21/2/3-3-25

 

Amanhã. pela fresca madrugada, vá lá pela dez da matina, estarei na FNAC para comprar ", Prosas I, Coimbra 1857-1866" de Antero de Quental.

É o primeiro de três volumes que reunem toda a prosa de Antero e traz um selo de garantia absoluta. A  pesquiza, organização  dos textos e da responsabilidade de Ana Maria de Almeida Martins, uma estudiosa a quem se devem muitos outros volumes de Antero ou sobre Antero. Diria, sem qualquer receio que, ANAM é desde há muito a maior e melhor conhecedora de Antero, a mais devotada, a mais criteriosa (e a mas modesta) (empreguei o feminino mas quem me ler pode ter a certeza que no masculino não melhor.

Antero que Eça descreveu como "um génio que era um santo", texto absolutamente fabuloso do autor de "Os Maias", deixou na sua geração um rasto extraordinário que vai muito além da sua obra. 

O texto queiroziano aqui citado  poderá ser excessivo mas é um claro sinal da imensa estatura de alguém que poderia, se tivesse querido, ser tudo ou quase, em Portugal.

Eu, pobre de mim, comecei por lhe ler os "Sonetos" que alumiaram, e muito, a minha juventude liceal, Mais tarde devotei-me à "questão coimbrã" que, de resto, foi integralmente publicada sob o título "bom senso e bom gosto, a questão coimbrã" e organizada por Alberto Ferreira e Maria José Marinho (no 4º volume) A edição é da Portugalia   editora e é de meados de sessenta.

Com o passar dos anos a estima e admiração por Antero cresceram e fui comprando não só os livros de AMAM mas outros que tratavam de   Antero. E assim, no meu pessoal panteão literário ele enfileira com Camilo e Eça na escolha relativa ao  sec XIX não esquecendo Nobre e, sobretudo, Cesário Verde. E Garrett e Herculano obviamente (o primeiro pelas Viagens e o segundo pela Histíria de Portugal e alguns "Opúsculos".  Ainda aí cabem  Oliveira Martins, amigo fidelíssimo de Antero e o notabilíssimo Visconde de Santarém, um conservador que se zangou com D Miguel e se exilou em Paris onde publicou, uma vasta obra elogiada por todas as notabilidades científicas da época. Bastaria a colecção dos atlas reunida por ele  para o consagrar como um dos grandes intelectuais da História  portuguesa. 

 

Hoje, como pretendia, comprei o volume em apreço  mas o meu irmão quis dar-lhe uma primeira volta, descobrindo o nome de um dos nossos antepassados, Manuel da Cota Alemão, tio do nosso trisavô, josé que  que com ele se Jangou a tal ponto que abandonou o curso de Medicina quando apemas lhe faltava um ano para o concluir (de todo o modo isso ter-lhe-á permitido uma vida aventurosa, fartamente recheada deepisódios interessantes sem nunca o impedir de à falta de médico ser o clínico de companheiros de colonização no sul de Angola  para onde emigrou na sequência de um volumoso número de luso-brasileiros que sairam do Brail por dicordarem das autoridades locais e não quererem participar numa guerra contrao Paraguai. Graças ao Marquês de Sá da Bandeira organizaram-se quatro grupos que, em barcos portugueses, levaram para Moçâmedes uns centos de futuros colonos do sul de Angola.

 

Deixando estes apontamentos absolutamente marginais há que econhecer a Ana Maria Martins  (e à editora Tinta da China, também) que esta edição de toda a prosa de Antero em três fortes volumes é um momento alto na edição portuguesa e um contributo extraordinário para o conhecimento desse vulto cultural cimeiro do nosso sec XIX.

De AMAM autora prolífica e anteriana vale a pena ler tudo  mas se ealguma escolha pode ser feita, atrevo-me a recomendar a edição das Cartas e a " Fotobiografia".

Rui Feijó, amigo meu desde os anos 60 e posteriormente meu colega e meu "chefe" na Delegação Regional do Norte da SEC não pode deixar de ser aqui ( uma enésima vez!...) citado porque numa entrevista recentíssima Ana  Maria Martins torna-o responsável pelo começo da sua pesquiza e publicação da sua "anteriana". Todavia, por várias vezes ele me disse que o seu papel fora apenas (e já é muito)  o de indutor de algo que já pre-existia: o amor, o interesse, a generosidade e o afinco com que AMAM tem levado a cabo a sua tarefa evangelizadora de "santo" Antero.

Entre nós (Rui e eu) chamavamos-lhe "soror Ana das anterianas descalças" alcunha bem mais interessante do que a que ela cita  (a Antero de Quental). Direi que neste momento ela já será a Madre Superiora dessa comunidade anteriana. Madre laica, claro mas pedindo meças a qualquer  estudioso  ( e não são poucos!...) de Antero. 

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O leitor (im)penitente 281

mcr, 31.01.25

 

 

 

 

 

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Um livro feito de cinco livros

 

(Codex Calixtinus. manuscrito de Salamanca)

 

mcr, 29-1-25

 

 

 

De todas as grndes peregrinações da Cristandade, destaca-se, porque persiste mesmo se não apenas na vertente religiosa, a peregrinação a Santiago.

Não são poucos os caminhos da peregrinação, incluindo alguns portugueses, e, de certo modo, diz-se com alguma razão que este código, na sua pate 5ª, dita o livro do  Peregrino, é um guia de viagem e o mais antigo texto de uma europa cultural. E como tal é reconhecido pelas grandes instâncias internacionais, esperando-se, para já, que o actual inquilino da Casa Branca não tente diminuir a sua importância ou comprar as partes europeias que milhões de peregrinos foram consolidado desde o sec XIII.

(os restentes livros do Codex Calistinus, dizem respeito à liturgiia musical de Compostela  (livro 1, fl 1-139), aos milagres de Dantiago (livro 2, fl 139-155, ao relato da ua evangelização )livro 3, fl 156 a  162),  à crónica do pseudo Turpin onde se trata de Carlos Magno e Rolando, livro 4º, e R 163 a 19 e finalmente ao "guia do peregrino , livro 5º , fls 193 a 213.

Esta é, para a generalidade dos tratadistas e leitores a parte mais importante não só porque é o primeiro guia de vaigens conhecido mas sobretudo pela excelente descrição do itinerário principal da peregrinação que durante séculos (e porventura hoje) rivalizou  com as peregrinções a Roma  (os "romeiros" e à terra santa (os "palmeiros")

 

De certo modo, os caminhos de Santiago (e há itinerários desde o centro da Polónia!....), pelo menos os mais importantes (e entre eles, o "caminho francês") quase constituem a ossatura da Espanha actual. pelo menos do Norte desde a fronteira até bem dentro da Galiza. Se insisto em falar do norte peninsular, é porque como é sabido, boa parte do sul esteve sob controle de potentados árabes. 

Por outro lado, são conhecidos os chamados caminhos portugueses e a esse título basta citar um bonito e excelente livro de Carlos Gil e João Rodrigues  "Pelos caminhos de Santiago (itinerários portugueses para Compostela)",

Escrita inteligente, leitura amena, excelente iconografia, bastam para convidar quem for mais curioso a tentar apanhar este livro.(Publicações D quixote e Círculo de Leitores, 2990)

Vale a pena recordar que, dentre a meia dúzia de cópias conhecidas, uma há que está na Biblioteca Nacional e é proveniente do da livraria do Mosteiro de Alcobaça.

 

E já que estamos com a mão na massa, é boa altura para referir um belíssimo livro que se intitula "Viaje de Cosme de Medicis por Espana y Portugal" acompanhado por um atlas de 70 lâminas com paisagens   Também qui, de certa maneira, a ideia era a de fazer uma peregrinação a Santiago de Compostela que se edctuou entre  18 de Setembro de 1688 e 19 de Março de 1669  

A edição que ora refiro é obviamente um fac-simile de grande qualidade (especialidade em que os espanhóis são mestres) e custa uma forte soma de morabitinos. Claro que vem acompanhada de um volumoso "libro de estudios"  cerca de 330 pp, com textos de vários especialista e  uma abundante iconografia.  A edição do fac-simile é de 2011 mas a do livro de estudos é de 2024. Eu só compro este tipo de obras se vierem com o citado estudo e é por isso que só agora, digerida parte importante da literatura monográfica e a tradução do Codex, é que me sinto à vontade para esta nota de leitura. 

Claro que não proponho a ninguém com mais juízo do que eu uma compra deste género mas suponho que há, pelo menos em Espanha, edições populares, traduzidas  a bom preço.

*vinheta: Santiago, Matamouros, ilustração no Codex 

 

O  codex foi atribuído ao papa Calisto iii mas, na verdade, terá Sido redigido, no todo ou em parte,  em Compostela, sob as ordens do temível bispo Diego Gelmirez demasiadamente conhecido em Portugal e sobretudo em Braga. De facto, este bispo verdadeiro arquitecto da grandeza de Compostela, veio em 1102 a Portugal e a Braga onde se encontrou com o bispo S Geraldo. 

O seu secreto intuito, aliás conseguido, era roubar um farto lote de relíquias o que foi coroado de êxito  A história diz quuuue as relíquias de Santa Susana, S Frutuoso, S  Silvestre, S João evangelista (irmão como se sabe de Santigo) e S Cucufate foram contrabandeadas para a cidade glega e terá começado aí o primado de Santiago de Comºostela sobre Braga. As más línguas (que eventualmente merecerão algum crédito) juram que Gelóirez embebedou o bispo bracarense e os seus cónegos para melhor levar a cabo a sua pilhagem que é conhecida como o "santo latrocínio"

Apenas se salvaram as relíquias de S Torcato porque estavam numa igreja longe de Braga!  

Si non é vero...) 

 

ficha

Codez Calistinus da Universidade de Salamanca (também conhecido como  S Jacobi codex) 

edição facsimilda de 898 exemplares  Este exemplar tem o nº 69 (LXIX).   Ed: Siloe, 2011

dim: 33x25x5

acompanhado de Libro de estudios, Sloe, 2024, com textos de Luis AngelMontes Pedral, Fernando LopezAlsina, Francisco Singul, José Eduardo Lopez Pereira e Oscar Llao Franca (contem a tradução completa do Codex e demais estudos 

              

Em relação à "Viagem de Cosme de Medicis e ao excelente atlas que  acompanha (cr  o leitor (im) penitente  240 de 12-8-22)

ficha:

Viaje de Cosme de Medicis por España  y Portugal(1688-1689)

2 volumes (texto e volume de lâminas gravadas)

350 pp  e 71 lâminas com 2 gravuras cada, estas com 66 x 50 

introdução e notas  de Angel Sanchez Rivero e Ângela M de Sanchez Rivero

Junta para aAmpliación de Estúdios y Investigaciones Científicas

Centro de Estudios Históricos, s/d 

 

 

 

o leitor (im)penitente 280

mcr, 14.01.25

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Rui Namorado , um adeus

mcr, 13-1-25

 

Nascemos no mesmo ano e na mesma terra. E éramos ambos filhos de médico que terão sido contemporâneos mas não condiscípulos na mesmíssima cidade.

fomos às "sortes" na mesma altura , um ou sois meses antes de rebentar a guerra em Angola. Ambos ficámos "livres" por falta de robustez física graças a uma coisa chamada índice de Pignet. O Rui, como eu era magro esgalgado mas mais alto, um monte de ossos galhofeiro que já poetava. Nem seise o conheci primeiro como poeta e só mais tarde pessoalmente. De todos os modos ficámos amigos logo nos finais de 1960. Ambos nos implicámos a sério na vida associativa estudantil e, também por isso, fomos "compagnons de route" do pc, partido a que o Rui nunca aderiu como nessa altura me confidenciou. Em 1962 fomos dos poucos estudantes de Coimbra que conseguiram chegar  Lisbos para festejar o "dia do estudante" e só o conseguimos porque pouco antes de Lisboa deixámos o comboio que se dirigia a Santa Apolónia e apanhámos um outro, provavelmente suburbano, que nos deixou em Entrecampos. quando chegámos ao campus universitário fomos convenientemente agredidos pela polícia . Depois, já em Coimbra, estivemos na primeira fila da tomada de posição de solidariedade com a malta de Lisboa. Em Maio de 62 fazendo parte do grupo que, pela 2ª vez, ocupou a sede da Associação Académica. quarenta e quatro de nós  foram mandados para Caxias. E o Rui (e eu...) sempre nesse grupo activista. Em 69 lá estávamos de nova na primeira barricada mas dessa vez, ele teve a sorte de escapar à prisão. Estivemos juntos no "Cong" (congeminação que ele Rui reduziu significativamente para aquelas quatro enigmáticas letras e, na sequência da crise de 69 fundámos a "Centelha"  onde ele editou o livro que apresento em vinheta. Não era o primeiro  ("Maio ausente", nome premonitório para uma recolha  anterior 4 anos a Abril ) mas elegi-o porque foi feito e editado pelo grupo que fundou e dirigiu a Centelha, editora que terá numa breve vida que não terá chegado a uma dúzia de anos, fez circular bem mais de uma centena de títulos onde avulta um quarteirão delivros de poesia. Poeta e ensaísta, o Rui deixou mais mreia dúzia delivros depoesia foi publicando poesia esparsa em várias publicações de que destaco "Poemas Livres", I, II e III,  "Petas da Centelha" e "antologia da poesia universitária". Nos últimos anos animava um blog, "O grande Zoo" título que ele pescado num livro de Nicolás Guillen. E durante vários anos lá me enviava por Abril e às vezes por uma que outra data que nos era comum, um poema. 

No ano passao já não recebi poema e logo suspeitei que a saude dele estaria abalada. Ainda tentei saber o que se passava mas as minhas parcas diligências não tiveram resultado. Com mais de oitenta anos, nada mais natural, do que a previsão breve do dim da vida.

Dos nossos companheiros de Caxias, já se foram bastantes, mais do que aqueles de que tive notícia, porquanto espalhados pelo país, fomos perdendo o contacto.

 

Em memória de Abílio Vieira, António Bernardes, Alfredo Fernandes Martins, Alfredo soveral Martins. Carlos Mac-Mahon José Martins Baptista,  José Augusto Rocha, Francisco Delgado, José Monteiro, Irene Namorado, João Quintela, Luís Bagulho, Mário silva,  Manuel Balonas e, eventualmente mais alguns de que não tenho notícia.

Estiveram em  Caxias em 1962 e já cá não estão. O Rui já está com eles. 

E na minha, nossa, memória.