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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

08
Nov19

o leitor (im)penitente 214

d'oliveira

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Raduan Nassar

 

mcr 8.11.19

 

Correndo o risco de me repetir, pois já, aqui, escrevi duas ou três vezes, sobre Raduan Nassar, volto a insistir.

E faço-o porque para minha grande e grata (oh quão grata!) surpresa, o Público de hoje, no seu suplemento “ípsilon” (pp 18 a 24, inc.) dedica sete (/!!!) página sao autor de três pequenas mas extraordinárias obras primas da literatura escrita em português. Sáo elas “Lavoura Arcaica”, “Um copo de cólera” e “Menina a caminho, todas escritas e publicadas no século passado.

Foram alvo de edição portuguesa mas, se bem recordo, passaram despercebidas a leitores e a “críticos”. Andaram perdidas por feiras de ocasião a preços vis e eu aproveitei para comprar alguns exemplares para oferecer a um par de amigos.

Depois, RN ganhou o “Camões” e isso trouxe-lhe alguma visibilidade por cá. Moderada visibilidade mas que terá servido para o reeditar ou escoar os exemplares já publicados.

Agora, esta sumptuosa recensão do punho de Isabel Lucas (num suplemento onde o literário costuma andar por duas páginas esconsas) talvez desperte mais atenções, curiosidade e leitura. Felizes serão (e bem aventurados) os que se resolverem desbravar esta obra mínima de um autor que “abandonou” a literatura pela criação de coelhos e que nunca se promoveu, bem pelo contrário.

Curiosamente, ou talvez não (decididamente: não!) Chico Buarque, ao ter notícia do seu justíssimo “Camões” (2019) logo referiu com grande nobreza e dignidade aquele seu antecessor no prémio. Nassar, sempre reservado e tímido, não escondeu a satisfação tanto mais que acha Chico Buarque, sic, “um génio”. Por mim, que admiro ambos e que tenho por CB uma forte admiração desde “Morte e Vida Severina” texto de João Cabral de Melo Neto, um dos nomes maiores da poesia brasileira, portuguesa e universal, este texto jornalístico merece destaque. Por várias razões: está bem escrito, fornece pistas bem interessantes sobre o autor e pode servir de convite à leitura dele.

Leitoras e leitores, ao trabalho, melhor dizendo (e citando obliquamente Paul Lafargue) ao prazer!

07
Nov19

O leitor (im)penitente 213

d'oliveira

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Prendas para amigos leitores

(recordando uma leitura que dura há cinquenta anos, quase dia por dia)

mcr 7-11-19

Deveria dizer: prendas para leitores comprovados. Poderão avisar-me que já não há disso. Retorquirei que, se bem que raros e em vias de extinção, ainda andam por aí como aquele cavalheiro que ameaça continuamente retirar-se da política mas que não resiste e volta a chatear o indígena, uma e outra vez.

Os leitores persistentes não mereceriam esta comparação mas, na verdade, tirante a personagem, as coisas passam-se mesmo assim. O verdadeiro leitor nunca desiste. Agarra num livro, lê três linhas, brilha-lhe o olho e, zás!, aí vão duas páginas sem parar. E sai com o livro, mais leve de algibeira mas com o coração alanceado desejando estar já em casa, quentinho, num cadeirão pronto a ler e, por isso, a escrever uma nova história que não exactamente a do autor. Se o não consegue, das duas uma: persiste, teimoso e arrasta-se pela leitura até ao último ponto final; ou então irrita-se, agarra no livro, e mete-o na estante dos desistidos (é o meu caso: à página 20 cai a sentença. Sim e vamos até à última página desejando que outras tantas a continuem ou deixamos aquilo no sítio em que ficamos enfartados. Até já me aconteceu acabar um livro e, sem intervalo, recomeça-lo. Não foram muitas as vezes, é verdade mas ainda recordo a primeira vez que li Camilo José Cela, um galego apanhado pelo Nobel. O romance chamava-se “mazurca para dos muertos”. Comecei-o pouco depois do jantar e, no dia seguinte pelas seis da manhã acabei-o. Cinco minutos depois, constatando que já não valia a pena dormir, reabri-o na página e e aí vai disto...

Cela tinha mau feitio mas escrevia muito bem e devem-se-lhe duas boas dúzias de excelentes obras entre romances e livros de viagens (a viagem a Alcarria está aí para o mostrar). Foi também o director de uma belíssima revista “Papeles de son armadans” que deu guarida a muitos jovens escritores furando o bloqueio franquista, coisa que, depois do prémio, a inveja de alguns zelotas, quiseram esquecer, obliterar ou negar.

Isto vem a propósito de uma antiquíssima descoberta. Corriam os anos cinquenta, aliás, estvamos em 59 e eu, ainda liceal, fazia anos dali a dias, e uma namoradinha ofereceu-me (melhor dizendo: permitiu-me escolher) “A retirada dos 10.000” de Xenofonte na saborosíssima tradução de Aquilino Ribeiro. Depois da primeira leitura, achei que devia gastar uma dinheirama valente e mandei encadernar o livro. E em boa hora o fiz que pois foram muitas as vezes em que voltei a essa alucinante aventura de uns milhares de mercenários gregos, contratados por um pretendente ao trono, vivida numa retirada de milhares de quilómetros, entre povos desconhecidos e pouco amistosos. Tudo isto na desordem das assembleias a cada passo, por alguma coisa a democracia fora inventada na Grécia, pelos truques, pelos discursos, pelas manifestações de heroísmo, pela descrição de paisagens e geografias diversas até ao momento entre todos desejado do avistamento do mar (Thalassa, thalassa!, eis a expressão que se tornou imorredoira).

Entretanto, já neste século, encontrei num alfarrabista, um exemplar da Retirada. Resolvi oferecê-lo a um amigo. Encadernado em meia francesa, salvo do ar cansado, graças a uma aparadela ligeira, entreguei-o ao destinatário. Dias depois, este, telefonou-me maravilhado. Estava a terminar o livro e já tinha saudades dele. Assim começou um hábito que tenho mantido. Sempre que encontro um exemplar da obras, compro-o, mando-o encadernar e escolho o “freguês”. Já lá vão 11 e até ao fim do ano serão treze os escolhidos. Não sei o que me dá mais prazer: se os agradecimentos se o acto simples de dar.

Hoje, visitei um velho amigo hospitalizado. Já estava na lista há tempos mas a ocasião ainda não se proporcionara. De uma vezada matei dois coelhos com a mesma cajadada. Cumpri um mandamento da Igreja (visitar os enfermos) e oferecer a “Retirada...”

Pensando bem: foram três coelhos. Já me tinha esquecido do meu prazer em oferecer...

 

 

* A Retirada tem por verdadeiro nome Anabase termo grego que, segundo Aquilino, no prefácio, significa “marcha para o interior”.

 

** Creio que a ilustração é da autoria de Júlio Gil que é o responsável pela minha edição e datada de 1957 na tiragem especial de 300 ex em papel especial Alfa, exemplar nº 298 assinado pelo tradutor .

 

 

 

12
Set19

o leitor (im)penitente 212

d'oliveira

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Aventuras com livros

mcr, 11,9,19

 

Já nem sei quando começou esta doença, pois que de doença se trata. Entre mim e a livralhada há uma paixão (correspondida ou não, pouco importa) assolapada que vem desde a mais tenra infância, ou melhor desde o momento em que sentava junto dos meus pobres pais e li em voz alta livrinhos. Não recordo os títulos mas estou ainda a vê-los, muito bem ilustrados, capas duras e histórias simples desde a de uma criadinha holandesa com tamancos e tudo que encerava as escadas com tal afinco que o seu rubicundo patão escorregava e se estatelava mais abaixo sem, contudo, se zangar até outra que metia o pássaro roc e me aterrorizava. Eram edições brasileiras, muito bem feitas e e já tinham servido ao meu pai. Onde pararão (se ainda tem forma) esses livros lindíssimos? E onde pararão dezenas de outros com que me cruzei ao longo de uma vida que já vai longa?

Tudo isto, e o que virá a seguir, me passou pela cabeça quando um velho e excelente amigo me veio devolver um dos dois tomos da “Prosa Completa” volume 1 de Jorge Luís Borges (Brughera, 1980, prémio nacional de literatura “Miguel de Cervantes, 1979). É uma excelente edição, apresentada em caixa própria e não lhe conheço sequência. De todo o modo convem começar por saudar a devoluçãoo de um livro que se emprestou. Digamos que não sendo um caso exactamente raro também não é tão frequente quanto deveria ser.

A minha biblioteca foi vítima de frequentes “esquecimentos” por parte de pessoas que dali levaram livros emprestados. E alguns desses esquecimentos foram terríveis. Assim perdi a “Electronicolírica” do Herberto Helder livro que nos alfarrabistas anda (quando aparece) por preços estratosféricos, duas obras de Eduardo Guerra Carneiro, entre elas o livro de estreia (fraquinho) “O perfil da estátua”, “Passage de l’homme” de Marius Grout, premio goncourt de 1943 e considerado o primeiro verdadeiro romance surrealista. Este livro desapareceu pelo menos duas vezes da estante e foi o cabo dos trabalhos encontrar outro exemplar. E por aí fora...

Na lista de livros desaparecidos cabe também referir os que a PIDE m foi levando ao longo dos anos. A cada prisão corresponde mais uma lista ou nem isso pois com o tempo as pessoas tendem a esquecer-se da rapina policial. Ou então, quando se voltava a casa, era tal o alívio que a última coisa em que se pensava era em ir ver os buracos na estante. O mais curioso é que na longa lista de livros que me confiscaram não entra nenhum dos chamados “clássicos” marxistas. Que sempre estiveram a bom recato. A polícia, aquela polícia, confiava as buscas a agentes de segunda ou terceira categoria que se fiavam apenas nos títulos, na língua (livros estrangeiros eram sempre um bom alvo) ou nos nomes dos autores. Autor que cheirasse a russo ia para o cesto.

O caso mais curioso que se passou com este vosso criado teve mesmo algo de extraordinário. Nos fins de sessenta, princípios de setenta, organizei para a editora “centelha” de Coimbra uma antologia sobre o movimento “Black Panther”. Com Maria João Delgado, na altura minha mulher escolhemos uma meia dúzia de pequenos ensaios e aí vai disto. Ainda o livro não estava sequer publicado e eis que a polícia começa a procura-lo. Sendo certo que aquela gentinha ainda não tinha o dom da adivinhação. Ficámos, os da centelha, perplexos. Soubemos, depois, que numa rusga a uma tipografia os agentes tinham encontrado já prontas umas dezenas de capas e isso bastou para lhes aguçar o apetite. Como havia a precaução de diversificar os pontos de produção não encontraram os textos. De todo o modo, a coisa foi logo proibida o que, julgo, foi uma novidade absoluta e um record.

Nesta história de pilhagens policiais, houve um pequeno episódio que merece ser lembrado. Da última vez que fui intimidado para ir prestar declarações à PIDE, os agentes que me visitaram em casa de meus sogros, olharam para a abundante biblioteca de Jorge Delgado, meu sogro e comentaram algo deste género: “agora não temos tempo a perder, mas de certeza que se fazia aqui uma bela colheita de livros proibidos”. E, em boa verdade, se tivessem sequer olhado cinco minutos para as estantes teriam verificado que aquilo iria tudo ,mas mesmo tudo. O Jorge Delgado não perdia tempo com outros livros que não fossem de política. E, obviamente, da que não agradava ao regime dos falecidos Salazar e Caetano... Nunca vi uma biblioteca tão subversiva como a dele, nunca!

Voltemos porem aos livros que desaparecem das estantes, no caso das minhas. Um dos meus melhores amigos era o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, leitor voraz, homem cultíssimo, mais distraído do que uma amêijoa melancólica e completamente desorganizado. Ia sempre jogar bridge em minha casa e, de cada vez trazia alguns livros que eu lhe emprestara e levava outros. Nem sempre trazia os mesmos que levara na vez anterior mas isso não o preocupava e também não me punha em cuidado. Com o Pedro valia tudo e eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele traria o livro entretanto perdido em sua casa. Todavia, o destino infame e brutal, irrompeu neste vai e vem livreiro e o Pedro morreu subitamente. Durante anos, a viúva ia-me encontrando e trazendo livros que ela ia descobrindo nas estantes caóticas do Pedro. Verdade e diga que a culpa não lhe só a ele. Parece que para combater a desordem do Pedro, uma empregada excelente mas analfabeta sempre que via um livro em cima de uma mesa ou de uma cadeira agarrava nele e enfiava-o no primeiro buraco de estante que encontrasse. E o pobre livro passava à mais obscura clandestinidade pois, só por acaso é que iriam por ele no sítio onde uma mão descuidada mas amante da ordem o pusera.

Uma vez em que referia alguns desaparecimentos de livros numa roda de amigos, alguém disse que os livros eram vagabundos que saiam de casa pelo seu pé.

Retorqui, irritado, que pelo pé deles nenhum viajara mas sim e só pela mão de alguém amiga do alheio.

*a estampa: capa do livro "Os Panteras Negras" que, mesmo proibido preventivamente, saiu, foi clandestinamente distribuído e, do mesmo modo  furtivo, vendido. Se não erro, este foi um dos 32 livros proibidos à Cntelha entre 1970 e 1974. A polícia não dava tréguas e nós também não! 

 

23
Mai19

O leitor (im)penitente 209

d'oliveira

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O melhor sucessor possível de Raduan Nassar

(e de João Cabral, Rachel de Queiroz e Jorge Amado)

mcr 23. Maio 2019

 

Não me tenho na conta de fanático. Com a miopia dos muitos e longos anos de vida não recordo nenhum momento de entusiasmo de tal modo exuberante que fizesse a realidade, a áspera realidade (para citar enviesadamente Danton), descarrilar. Não que tenha, e desde há muito, amores fundos e desamores furibundos. Não falando dos segundos – não vale a pena trazer à cena coisas e pessoas detestáveis que prefiro sepultar no silêncio pesado e escarninho, recordo alguns autores que sempre amei sem peias. Desde Verne até Salgari (sem esquecer Edgar Rice Burroughs, pai de Tarzan) até Fernão Mendes Pinto, Garrett, Camilo, Eça, Pessoa, Aquilino, O’ Neil e Hélder, não tem conta os meus escritores favoritos. Da estranja trouxe, desde cedo, Homero, Dante, Rabelais, Stendahl, Shakespeare alguns russos, Rilke, Prévert, Whitman, Pound e Cervantes. Há mais mas estes são lidos e relidos, tenho-os em muitas e variadas edições, nunca andei por Itália sem um Dante de bolso. Tempos houve que sabia de cor longos trechos, sobretudo dos poetas e mesmo de Rabelais (e no maravilhoso francês em que foi escrito, ora tomem lá!).

Afirmei que a lista não era exaustiva até porque mesmo já fortemente entrado em anos ia descobrindo outros autores e fazendo novos – mesmo se raros – amigos.com a música passa-se o mesmo. Apesar de me considerar definitivamente marcado pela música da minha adolescência onde os grandes nomes do primeiro rock se juntavam a alguns músicos italianos ou franceses e a um solitário e admirável Harry Belafonte. Apanhei com os golden sixties em cheio e daí vem outra enorme pazada de músicos quase todos anglo-americanos. Nunca os distingui dos meus (muitos, uma multidão) admirados músicos de jazz (outra paixão. O que eu daria para ter, mesmo sem já poder ouvir, um enterro à moda de New Orleans!...) da ópera italiana e dos divinos Mozart, Bach e sucessores.

Vem do fim dos sessenta uma empedernida admiração pelo Chico Buarque que atravessou Portugal como um meteoro com a peça “vida e morte severina” por ele integralmente musicada. É verdade que o texto (do enorme João Cabral de Melo Neto, membro do trio fantástico Drumond e Manuel Bandeira – e uma lembrança carregada de ternura para Vinicius, um poeta igual à vida) era de per si uma “assombração” (uso o belíssimo termo brasileiro em todos os seus sentidos possíveis. Mas o Chico, rapaz da minha criação e do meu tempo, levo-lhe dois anos mais, foi outro cometa. Eu “até que nem sou” muito da música brasileira mas ao Chico (e um pouco ao João Gilberto, ao Caetano e ao Tom Jobim) não resisto: rendição incondicional não apenas pela música mas sobretudo – e muito – pelas fabulosas letras. Nesse capítulo ele está (oh que vulgaridade! ) ao lado de Dylan, do Brel, do Ferré, do Leonard Cohen e de mais alguns, que deram um lastro admirável aos nossos anos de juventude.

A recentíssima atribuição do Camões ao Chico Buarque foi, para mim e apesar de tudo, uma surpresa. E um momento de pura felicidade: já antes tivera o gozo de ver premiado o Manuel António Pina (um amigo antiquíssimo...) e o Raduan Nassar o autor mais avaro de palavras que alguma vez conheci (três pequenas obras que se lêem de um só fôlego e que andaram por aí aos caídos em saldos de saldos sem que alguém lhes pegasse. À conta disso, sempre que as via, comprava-as e oferecia a amigos escolhidos com forte recomendação e indizíveis ameaças para o lesa-crime de não ler.

Não deixa de ser curioso que, ao saber da notícia do prémio, a primeira palavra de Chico fosse para esse escritor brasileiro tão desconhecido e não para João Cabral de Melo Neto autor da “vida e morte...” já citada. Ou para outros e mais recentes “Camões” brasileiros...

Não sou dos que correm atrás do Camões ou do Nobel sem mais nem menos. Bem pelo contrário, quer num quer noutro, tenho largos motivos para me perguntar a que título os prémios caíram no regaço de certos autores. No caso do Nobel tenho uma lista infindável de escritores que o não receberam sabe-se lá porque (más) razões. Jorge Amado, Lawrence Durrell, Graham Green ou Philip Roth são exemplos evidentes. Ando há anos com uma aposta pendente com um velho amigo meu sobre o poeta libanês (nascido na Síria) Adonis. Eu, que além dos versos lhe conheço a generosa biografia, entendo que nunca receberá o prémio. Vão adiando, adiando sempre a espera que o homem morra (e ele já está com um pé nos noventa anos!...). Nessa altura, os do Nobel suspirarão aliviados. O mesmo já lhes tinha sucedido depois da morte de Amos Oz, um israelita com que os poderes públicos do Estado hebreu sempre conviveram mal. Como este, Adonis poeta que nunca aceitou os fanatismos radicais da zona, fossem eles sionistas ou jihadistas, é um incómodo para as plácidas criaturas suecas muito amadoras do mainstream e dos equilíbrios geo-políticos.

Suponho que no Brasil bolsonarista a notícia não seja motivo de festejos mesmo se, a imensa popularidade do cantor seja, suponho, transversal à sociedade brasileira. Mas o Chico nunca foi persona grata para a ditadura e a polícia ter-lhe-á enviado mais de vinte intimações para ele se apresentar “para esclarecer”... O costume, como se sabe, ou como os da minha geração sabem, ou sabiam, de ginjeira.

Não sei se se irá repetir a famosa e famigerada discussão sobre o facto de CB ser um letrista de sambas. A coisa foi tentada com Dylan mas não surtiu efeito. Pode mais uma canção do que cem poemas hagiográficos ou patrióticos e não é por acaso que em situações difíceis e limite da história recente foram canções que ficaram (a “Madelon”, o “It’s a long way to tiperary”, a “Lily Marlene”). Os pobres soldados, carne para canhão das trincheiras da 1ª guerra e das frentes sangrentas da 2ª, são (foram) testemunhas fieis e fidedignas do que agora escrevo.

(e entre nós: alguém se lembra do “angola é nossa” que as emissoras e a televisão vomitavam incessantemente?)

Parabéns, Chico Buarque. Afinal não há tanto mar entre cá e lá. Honra seja aos proponentes portugueses do prémio que, primeiros a falar, logo o indicaram. É verdade que este ano cabia a um brasileiro mas não se deve esquecer que a literatura brasileira actual apresenta um belo naipe de bons autores credíveis para serem escolhidos num prémio mais ou menos rotativo entre os PALOP. Portugal e Brasil. De todo o modo, a consagração de Buarque é ainda e sobretudo a consagração de uma poesia em português. Em bom português...

 

(nota: Existe e está em venda um belo livro com todas as letras de Chico Buarque. Com dois bónus: uma pequena biografia e muitas fotografias: “tantas palavras” Chico Buarque, Companhia das Letras, 1918)

* a vinheta: "morte e vida severina" o espectáculo dos estudantes da Pontificia Nniversidade de S. Paulo. E um abraço aos meus velhos amigos e amigas desse tempo de vinho e rosas de chumbo e de esperança

 

24
Nov17

O leitor (im)penitente 206

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(nem tudo o que luz é ouro; nem todos os alfarrabistas são baratos)

 

mcr 24.11.17

 

Há mais de um ano, um alfarrabista portuense telefonou-me com um curioso pedido: tinha adquirido uma obra e, nada sabendo sobre ela, pedia-me uma opinião. De facto, ando, há já tantos anos, a comprar (e a ler, e a estudar) literatura sobre a expansão portuguesa que a pergunta fazia sentido. Aliás, esse mesmo livreiro já me tinha vendido diversos livros sobre o tema.

No caso em apreço, ele queria informar-se sobre uma obra em dez volumes mas apenas cinco partes intitulada “Primeiro congresso de história da expansão portuguesa no mundo” .

Lá o informei que, efectivamente, no seguimento dos trabalhos desse primeiro (e suponho que único) congresso, se tinham reunido em volumes todos os trabalhos apresentados mesmo se também circulasse um copioso número de separatas sobre diferentes teses apresentadas.

Que a obra, melhor dizendo a edição, estava datada de 1938 e que conhecia e possuía oito dos dez volumes, comprados aqui e ali, a preços relativamente moderados (entre 15 e 25 euros), provavelmente por se tratar de volumes isolados.

Disse-lhe também que estava interessado nos dois volumes que me faltavam.

Dias depois, caiu a resposta: o livreiro só vendia a obra na totalidade e fixava um preço: 500 euros.

Achei excessivo o preço tanto mais que, além da minha informação ele não conseguira nenhuma referência quanto a preços. Perante a sua recusa em negociar, desisti e ao longo dos meses que se seguiram fui alertando outros alfarrabistas. Há pouco tempo, o senhor Gonçalves da “Nova Eclética” (Lisboa) avisou-me que tinha algo para mim, pedindo-me que o visitasse. O pedido era desnecessário pois aquela livraria faz parte obrigatória do meu percurso mensal dos alfarrabistas lisboetas.

Ontem, fui visitá-lo e descobri que o livreiro me guardara (sem compromisso!) o obra em causa, magnificamente encadernada e num surpreendente bom estado. Como sabia que eu tinha vários volumes, propunha-me a troca por um preço global que andava na média dos praticados. (Aliás, da “Nova Eclética” eu levara um ou dois volumes soltos). Mesmo contando com o que entretanto gastara, a peça ficou-me mais barata do que a que me era proposta no Porto. Com a enorme vantagem da encadernação. É que encadernar dez volumes em “meia francesa”, cantos e lombada em pele, fica no mercado pelo triplo do que paguei.

Esta pequena aventura ilustra, também, uma outra verdade: em Lisboa, porventura por ser um mercado maior, quer em clientes quer em vendedores, os preços são notoriamente mais baixos do que no Porto (com a excepção da “Livraria Académica” que tem um enorme “fundo”). E, nesta última cidade, há mesmo dois ou três casos de preços quase escandalosos. Como exemplo, basta este: publicou-se entre o final dos anos 30 e 1986 um “boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais” (ao todo 131 números mais cinco edições não numeradas). Comprei a quase totalidade dos meus exemplares em Lisboa ao preço médio de 10 euros. Os que faltavam vieram, com excepção de um, do Algarve e com portes de correio ficaram entre 15 e 20 euros. O único exemplar comprado no Porto custou-me €35 !!!

 

 

10
Mar17

o leitor (im)penitente 199

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 5

História breve de como tudo começou

 

Desta feita falar-se-á de uma obra ao alcance de todos. Ou melhor dizendo, atentos os tempos que correm, ao alcance de quem leia francês. E ponho esta ressalva porquanto verifico que, actualmente, o francês está em forte declínio entre nós. Razões há muitas mas a principal é sem dúvida a facilidade do inglês que, via música, se tornou para os de menos de quarenta ou cinquenta anos, uma língua franca.

De todo o modo, vou falar de uma obra mais ou menos feita em três partes (mesmo se cada uma delas é independente) que genericamente se chama “les aventuriers de l’art moderne”. Em grosso, trata da história da cultura europeia desde 1900 até 1949 e, neste campo, incide quase só na revolução cultural operada a partir da eclosão da arte moderna em Paris – e sobretudo das artes plásticas- entre Montmartre e Montparnasse. Em pano de fundo, a aventura surrealista, o dadaísmo, o cubismo, o futurismo. Num primeiro volume assiste-se ao absoluto milagre da concentração em Paris, ainda antes da primeira guerra mundial, de artistas vindos de todo o lado, sem eira nem beira, animados tão só pelo desejo de liberdade, pela ideia de que algo de novo estava na forja, e que rompem com todas as regras estabelecidas, com o salon, e proclamam o fim do século XIX que politicamente só ocorrerá bem mais tarde com a guerra. Local, Paris. Pintores e escritores em encontros e desencontros lançam as bases do modernismo, do futurismo, do surrealismo, da abstracção, do cubismo, quase ao mesmo tempo, num cenário dominado por Picasso, Matisse, Bracque, Gris, Chagal, Modigliani a que se juntam Appolinaire, Breton, Tzara, Aragon ou Éluard, Duchamp, Man Ray, Fujita, Hemingway e toda a lost generation, mais a madrinha deles (a monstruosa Gertrude Stein), duas livreiras de excepção   Adrienne Monier e Silvia Beach, alguns galeristas (depois grandes) e a imperecível “nouvelle revue française, mãe das edições Gallimard.

Disse Paris mas não posso excluir outros grandes centros (Berlin ou Munique, terra de promissão dos expressionistas) Turim, Milão e Roma ou Londres e, sobretudo Nova York que alimentou e se alimentou da transumância transatlântica de artistas e escritores americanos e europeus. É porém Paris que se assume como o centro da verdadeira “grande revolução cultural”, mesmo se este nome depois fosse traduzido num calão sórdido e venenoso por obra de um tormentoso vento de leste para citar um vago verso do “grande timoneiro”.

É em Paris que se desenrola uma aventura contada em três volumes por Dan Frank, autor dos “aventuriers...” (1. Le temps des bohemiens; 2, Libertad; 3 Minuit). Não conhecia o escritor e só por mero acaso vi um longo documentário (suponho que em 3 ou 4 episódios) sob o título acima enunciado. Terá sido na RTP2 ou, mais provavelmente, num dos canais generalistas franceses que ainda cá chegam (ARTE? TV5?). De todo o modo, trata-se de um pequeno milagre televisivo: linguagem simples, explicações claras, história q.b., um par de anedotas suculentas tudo conduzido por um fio narrativo preciso e eficaz.

Entusiasmei-me, claro e fui pelos meus dedos: internet, amazon fr., e dei com o filme e com os livros. Ainda por cima havia (há) uma edição de poche de todos os volumes o que significa uma boa economia. Naquelas mil e tantas páginas perpassam as noites loucas de Montparnasse (e as suas deusas: Kiki, Youqui, Peggy Gugenheim, Elsa Triolet, Gala Dali, Nush Éluard, a horrenda Gertrud Stein ou Clara Malraux. ) Assistimos à trágica história de amor de Modigliani e Jeanne Hébuterne, ao imparável crescimento de Picasso, à aventura surrealista bem como ao percurso extraordinário de Gide ou Malraux, gente que deu sentido e honra ao “engagement” político. Da grande Guerra onde se ilustram alguns estrangeiros que pegam em armas pela França que os acolhera (Apollinaire ou Cendrars) à guerra de Espanha palco de loucas mas heroicas aventuras de Malraux, até aos dias sombrios da Ocupação e à Resistência de poucos, ao silêncio de muitos e à escabrosa traição de artistas, actores, cantores e escritores que não hesitaram em aproveitar os convites de Berlin e as facilidades garantidas pelos ocupantes.

Vale bem a pena ler (coisa que, como diz o Manel Sousa Pereira a quem ofereci um volume, se lê sem conseguir parar) esta bela obra que não ficará nos anais da grande literatura mas que, sobretudo nos tempos de ignorância que correm, a ilumina, explica, divulga e glorifica.

Leitores, deem-lhe com força: à barca, à barca que temos gentil maré...

 

* na gravura Raparigas na paisagem de Jules Pascin (o Príncipe de Montparnasse) nascido Julius Mordecai Pincas, Bulgaria 1885 e morto (suicídio) em Paris 1930. Era conhecido, admirado e amado por toda a gente a tal ponto que, no dia do seu enterro, todas as galerias de arte de arte fecharam as suas portas. Sobre ele, Hemingway escreveu belas páginas ( in Paris era uma festa).

 

17
Fev17

o leitor (im)penitente 197

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 3

 

Passage d’un livre (cinquenta anos de desencontros)

O título desta crónica brinca com o verdadeiro título de um livro que, nas minhas mãos, tem tido uma(s) vida(s) singular(es). Refiro-me a “Passage de l’homme” de Marius Grout, prémio Goncourt de 1943.

E que vidas são essas que o trazem ao encontro de um par de leitoras mais distraídas que passam por este blog à falta de melhor ocupação?

Eu conto: nos primeiros anos de 60 (Ui! Há quanto tempo!...) o António Manso Pinheiro que viria a ser o grande editor da “Estampa” e eu próprio gastávamos as noites das férias em longos passeios por uma Figueira adormecida. E discutíamos tudo, o mundo, a poesia, nós, as raparigas por quem nos íamos apaixonando e claro, a nossa última e grande descoberta, o surrealismo. Não sei por que razão, entendi levar o António à casa da tia Néné e do tio Marcos (Viana), professor e forte conhecedor de literatura francesa. Nessa tarde, ao saber-nos interessados pelo surrealismo, o tio Marcos arregaçou as mangas e falou duas horas sobre o assunto. Nós espantados, esmagados, encolhidos por aquela torrente de entusiasmo, de saber, de gosto literário apurado e o Tio Marcos a cem à hora, tu cá tu lá com o Breton, o Desnos, o Eluard, o Aragon e sei lá com quem mais, uma multidão.

À saída, aturdidos, o António só me dizia: “porra, pá, porra. O gajo sabe tudo, leu tudo e nós a armar-nos em carapaus de corrida!!!”

E lá seguimos exaltados e entusiasmados jurando ir ler tudo o que o tio Marcos nos contara e propusera. Entre as obras de que falara, ressaltava uma afirmação original: que havia um cavalheiro de seu nome Marius Grout (e o tio soletrava G,R,O,U,T) que escrevera aquilo que ele, MV, considerava o “único grande romance surrealista” e que obtivera o prémio Goncourt. O livro em causa chamava-se “Passage de l’homme” e fora obviamente editado pela Gallimard.

O António e eu naqueles nossos buliçosos e inquietos vinte anos não tínhamos hipóteses de ir em busca do livro provavelmente desaparecido depois de vinte anos de edição.

Todavia, já nos finais de 68 um dia em Paris com o Jorge Delgado (meu então sogro e companheiro de deambulação pelas livrarias da margem esquerda) e eram tantas, tantas, que desaparecidas conto eu ainda agora mais de vinte, dei de caras com o abençoado “Passage...” O livreiro quando lhe apresentei a relíquia para pagamento disse-me que o livro tivera o “goncourt” ao que retorqui que já sabia, coisa que o espantou a ele, por eu ser um portuga e ao meu sogro que, mesmo sabendo da minha paixão, achou estranho tal conhecimento. Lá lhe falei do Tio Marcos que seria, afirmei, o primeiro leitor. Por razões que desconheço, o livro extraviou-se logo que cheguei à pátria madrasta.

Anos depois, talvez em 1973, fui a Paris visitar o eu irmão exilado e fugido à guerra. Numa livraria da rue Galande dei de novo com o livro, notoriamente em segunda ou terceira mão. Trouxe-o e, uma vez no Porto, contei a história daquela segunda descoberta a um amigo que me implorou que o deixasse ler logo ali. Deixar, deixei mas esse meu amigo era a criatura mais desordenada que conheci. Deixou o livro num canto da casa e a empregada ao encontrá-lo em cima de uma cadeira fez o que costumava. Meteu-o no primeiro buraco da estante mais próxima. Este meu grande amigo, morreu em 95 e ainda hoje a mulher vai encontrando livros meus de mistura com os dele e vai-mos trazendo. O azar é que este 2º Grout ainda nem assinado estava. Resultado: missing in action, desaparecido naquele vórtice livreiro do Pedro.

Quando me acostumei à internet, deu-me para, sem grandes esperanças, procurar novamente o livro. Já não seria possível empresta-lo ao tio Marcos, entretanto desaparecido mas havia ainda o António Manso Pinheiro presumível leitor interessado. Para minha surpresa depois de uma busca breve, apareceu um vendedor e o livro voltou à minha mão e foi convenientemente registado no ficheiro da minha biblioteca com o número 13422, o que o atira para os primeiros dias de Dezembro de 2000. Por qualquer razão, o livro foi para o lote dos “a ler” e lá permaneceu imerso tanto tempo  que daí transitou (?) para lugar incerto. Lugar de tal modo incerto que, hoje, quando fui por ele, não o encontrei. Procurei-o na estante dos livros franceses, numa outra de franceses mas em poche, nas estantes do surrealismo mas nada. Eu, prevenido que estou contra o meu anarquismo vitalista, sou extremamente cuidadoso com a livralhada. Se me perguntarem por um livro posso seguramente indicar a sala (são cinco) a parede e mesmo a estante onde o livrinho mora. Ainda por cima estão classificados por géneros e, no caso da ficção e da poesia, a organização ainda contempla a língua usada. Evidentemente, que é sempre possível meter um livro de uma secção noutra totalmente diversa mas isso é coisa que nunca me aconteceu. Portanto tudo aponta para que a “passage” IIIª tenha tido o destino das duas antecessoras. Ele há livros assim, irrequietos, sujeitos a bruxedos ou a milagres, ávidos de mundo e de aventura, descontentes com o seu possuidor, livros a quem dá doida e se emancipam sem saber que saindo de mãos seguras e amigas se arriscam a acabar os seus dias como papel para embrulhar peixe, como bem conta Lawrence Durrell em “as ilhas gregas”, livrinho que se deve ler a par e passo com “reflexões sobre uma vénus marinha” do mesmíssimo Durrell, um nobelisável esquecido (como Graham Greene, de resto).

Esta utilização estranha de u livro lembra uma outra história ocorrida com Sartre. Parece que, algum tempo depois de publicar a “Critica da razão dialética” ou “ o Ser e o Nada” começou a haver uma surpreendente forte procura do livro que até ali se vendia à razão de um dois por mês. Vai-se a ver e afinal o pesado tomo sartriano era comprado aos pares para perfazer um quilo exacto, pois faltavam pesos em todos os mercados e mercearias de França nesses tempos de post guerra e míngua.

Voltando à vaca fria: hoje mesmo fiz nova encomenda de “passage de l’homme” via amazon fr. Primeira edição, claro, mesmo se depois tive notícia que em 1999 se fizera uma nova edição do celebrado livro de Grout. Acho vou colar na primeira folha de guarda um anúncio: “dão-se alvíssaras a quem entregar este livro a mcr seu desastrado proprietário. Assunto sério.” E junto-lhe o telefone e o mail para mais facilidade.

 

Vai esta crónica para Manuel Abrunhosa, meu primo segundo, criaturinha mais curiosa do que um gato e neto mais novo do meu querido tio Marcos Viana. Às vezes ao ouvir este primo digo para mom próprio que ele tem a quem sair seja pela mãe, seja pelo pai, tudo gente - mais o tio Marcos e o Avô Manuel - que valeu a pena conhecer e que me é grato recordar com respeito, saudade e ternura. Saravah!

* na gravura Marius Grout