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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

O leitor (im)penitente 258

mcr, 24.09.23

 

 

As ossadas errantes

mcr, 24-9-23

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O seu primeiro  e breve poiso foi Paris. Daí transladaram-se para Lisboa onde moraram quase cem anos. Subitamente já no último quartel do século passado, alguém lembrou, e bem!, que a freguesia de Santa Cruz do Douro onde  Eça descobriu a mítica casa de Tormes, hoje sede da fundação que leva o seu nome  poderia dar guarida aos ossos do "pobre homem da Póvoa do Varzim". E assim se fez. Lá está num jazigo digno e simples o genial escritor. 

Todavia, a "panreonite", um mal vicioso que de quando em quando assola a não valente e imortal  não suportou que um dos seus "egrégios avós" (Se Eça lesse isto dar-me-ia cabo do canastro...) estivesse longe de Santa Engrácia, uma igreja desafectada que demorou quatrocentos anos a ser concluída. Aí repoisam uma série de figuras nem sempre maiores e por vezes absolutamente esquecidas. Nos últimos anos entraram lá o moçambicano Eusébio eas portuguesas Amália de Sfia de Melo Breiner. Correm zunzuns sobre a possível chegada de Aristides de Sousa Mendes e há quem vocifere o nome de Camilo  considerando injusto o pobre cemitério onde jaz. Nem  Aquilino  ( o melhor candidato ao Nobel que, à excepção de Hélder e Pessoa,  alguma vez Portugal teve )escapou ao  "engraciamento". De todo o modo ele estava nos Prazeres pelo que foi curta a viagem. 

Já há uns anos, aqui, referi a mania "engraciante" de voltar a fazer peregrinar os ossos de Eça. Na altura, o bom senso imperou e continuaram onde ainda estão. Em Tormes (santa Cruz) perto da fundação e onde são amiúde visitados por admiradores da sua obra e visitantes da Casa onde comeu o famoso arroz de favas. 

Não deixa de ser irónico que esta pequena terra e a quinta que sua mulher herdou tenha sido um sítio que ele mitificou e celebrou para sempre mesmo sem lá ter vivido tempo que mereça referência. Eça foi aqui recebido com fidalga cortesia pelos caseiros e carinhosamente tratado. Parece que até lhe emprestaram  uma camisa de dormir "de estopa" (uma camisa de note de núpcias, assevera um descendente desses honrados caseiros).

Na casa estão os poucos bens que se salvaram de um naufrágio e das difíceis deslocações dos bens aliás parcos, do escritor. E estão os livros, os manuscritos, a cabaia, a escrivaninha alta, o perfume de uma época e a dedicação dos herdeiros da casa.

As gentes da terra consideram Eça como um dos seus, provavelmente bem mais do que os lisboetas que ele retratou com agudeza e ironia. A politicagem actual, que parece saída, daquela ue ele descreveu na "Campanha Alegre", alguma (bastante) inteligentsia paroquial nacional  também alinhou pelo mesmo diapasão: "Panteão com a criatura"! Pelos vistos nõ o consideraram digno dos Jerónimos!...

Agora, sabe. -se que parte da família discorda desta nova migração ossuária. E vá de recorrer à Justiça, estragando a soleníssima festa já marada para um destes próximos dias.

Fosse eu crente e estaria agora a rir-me a bandeiras despregadas com a visão de Eça lá em cima a escrever sobre o destino terreno dos seus mortais restos. 

Mas, além de descrente, sou apenas um pobre homem de Buarcos, um "leitor (im)penitente" que assiste entre espantado, contristado e irritado aesta má acção contra Santa Cruz do Douro, a terra que alguma vez terá encantado o escritor e que o acolhia santamente no seu pequeno cemitério e cuidava amorosamente da sua campa. 

 

 

o leitor (im)penitente 212

d'oliveira, 14.07.23

Kundera, um europeu, um grande escritor e um homem de coragem

mcr, 13-7-23

 

A morte de milan Kundera não apanha ninguém desprevenido. A idade (94 anos) era muita e se alguma coisa nos surpreende é a sua longevidade.

De todo o modo deixa uma obra notabilíssima e pode ser apontado como um dos grandes romancistas do século passado.

Teve, para além das vicissitudes da escrita que é sempre uma companheira difícil, uma vida de cidadão que, no mínimo, se pode caracterizar de complicada.

Nascido no Leste europeu, mais precisamente na Checoslováquia, viu o seu país ser implacavelmente agredido  por Hitl e por duas vezes. Na primeira (e com a cumplicidade da maioria da população de origem alemã estabelecida nos Sudetas e depois com a pura e simples invasão e semi-anexação do resto do país.

A”libertação” operada pelo Exército Vermelho no seu impetuoso avanço contra Berlin foi sol de pouca dura. Ficou como um clássico da conquista do poder por dentro a teoria dita do “golpe de Praga”.

Convirá lembrar que boa parte dos intelectuais checos apoiaram ou, pelo menos, não se opuseram ao golpe comunista contra um Governo livremente eleito e de características demo-liberais. As razões são várias mas a principal foi a miserável anuência da Inglaterra e da França (e o silêncio cúmplice de quase todos os outros europeus)  às exigências de Hitler. Não admira que a URSS entre 45 e 48 se tivesse tornado aos olhos de muitos o garante de uma liberdade que cedo se mostrou implacável.

Se Kundera aceitou ou até defendeu essa reviravolta, não faço a mínima ideia se bem que tudo indique que enquanto militante comunista a defendeu. Todavia, poucos anos depois foi pela primeira vez expulso do PC checo. Readmitido alguns anos depois, de pouco durou essa renovada crença nos benefícios do poder dito socialista.

E é de um dos seus primeiros romances que vale a pena falar pois a critica ao regime e aos constrangimentos que impunha for irónica mas expressivamente revelada em “A brincadeira”, livro que descobri pouco antes da “Primavera de Praga”, já Kundera voltara a ser expulso do partido. Não admira que durante esses exaltantes meses de 68 ele se tenha distinguido como um dos principais apoiante da tímida tentativa de Dubcek e que depois, com o regresso da “ditadura do proletariado” à moda soviética, a vida se lhe tenha tornado impossível no país Natal.

Kundera exila-se, vai para França e é daí que a sua obra vai ganhando espessura e a sua famas e consolida. O Nobel , como sucede a tantos, não o distinguirá e não deixa de ser curioso que quando se lembraram da literatura checa preferiram premiar Jaroslav Seifert (poeta de resto excelente mas quase desconhecido fora do seu país) esquecendo os grandes romancistas de que apenas cito Hrabal outro opositor ao governo checo.

A  propósito Borges, que à época teria 85 anos, terá afirmado que “felizmente a academia sueca tinha premiado um jovem  (de 84 anos).

É conhecida a simpatia de Kundera por alguns autores que fazem muito parte cá de casa, Rabelais ou Hasek o imortal pai de Schveik  esse absurdo anti-heroi que mereceu mesmo uma espécie de continuação servida por Brecht.

Desconheço se a última edição  portuguesa do “Bom Soldado...” já está conforme com o original. De facto, este livro memorável, foi publicado em Portugal (Portugália, 1961) numa edição provavelmente baseada na francesa e consideravelmente reduzida. Mais tarde, depois de comprar vários acrescentos em várias línguas cheguei finalmente a uma edição espanhola da “galáxia gutemberg” com 765 páginas que está completa pois compreende os últimos textos do “soldado” (fins de 1922. Hasek morreu a 3 de Janeiro do ano seguinte ).

Tudo isto para lembrar que à semelhança de Hasek, Kundera foi alvo de traduções um pouco “olé, olé” que o obrigaram mais tarde a ser ele próprio o seu tradutor para francês.

Do mesmo mal padeceu Rabelais que foi traduzido do seu gostoso mas difícil francês do sec.XVI para o francês moderno sofrendo também de consideráveis dentadas. Esperemos que a tradução que agora se anuncia para português. seja realmente integral.

 (e confesso que provavelmente não resistirei a mais esta edição mesmo tendo uma boa meia dúzia delas todas em francês original ou moderno )

Quem me lê habitualmente sabe que aqui apenas se referem livros e autores lidos mas sem qualquer aparato crítico.  Deixei-me disso há muitos, muitos, anos e basta-me chamar a atenção para os livros sem pôr já óculos escuros ou claros aos leitores que não precisam de críticas para ler os livros.

Isto é só um folhetim, um escrito efémero nada mais.

 

 

o leitor (im)penitente 257

d'oliveira, 22.05.23

 ÌTACA

Konstantinos Kaváfis (1863-1933) 

 

Quando partires em viagem para Ítaca 

faz votos para que seja longo o caminho, 

pleno de aventuras, pleno de conhecimentos. 

Os Lestrigões e os Ciclopes, 

o feroz Poseidon, não os temas,

tais seres em teu caminho jamais encontrarás,

se teu pensamento é elevado, se rara 

emoção aflora teu espírito e teu corpo.

Os Lestrigões e os Ciclopes, 

o irascível Poseidon, não os encontrarás,

se não os levas em tua alma, 

se tua alma não os ergue diante de ti. 

Faz votos de que seja longo o caminho. 

Que numerosas sejam as manhãs estivais,

nas quais, com que prazer, com que alegria, 

entrarás em portos vistos pela primeira vez; 

para em mercados fenícios 

e adquire as belas mercadorias,

nácares e corais, âmbares e ébanos

e perfumes voluptuosos de toda espécie, 

e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes; 

vai a numerosas cidades egípcias, 

aprende, aprende sem cessar dos instruídos. 

Guarda sempre Ítaca em teu pensamento. 

É teu destino aí chegar. 

Mas não apresses absolutamente tua viagem. 

É melhor que dure muitos anos 

e que, já velho, ancores na ilha,

rico com tudo que ganhaste no caminho,

 

 

sem esperar que Ítaca te dê riqueza.

Ítaca deu-te a bela viagem.

Sem ela não te porias a caminho. 

Nada mais tem a dar-te.

Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.

 Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,

 já deves ter compreendido o que significam as Ítacas

 

(Tradução: Isis Borges B. da Fonseca: Poemas de Konstantinos Kaváfis, São Paulo, Odysseus, 2006, p. 100-3) 

 

 

 

 

 

A minha amiga Zé C. manda-me um mail jurando amor profundo e enternecido pelo por Kavafis e especialmente pelo poema acima transcrito que por preguiça ancestral e profunda fui buscar à Internet. De certo modo, fiquei surpreendido porquanto, anda na RTP 2 uma excelente série dominical da autoria do professor  doutor  José Pedro Serra dedicada à cultura clássica grega, em especial aos mitos. Ora não vai há muitas semanas referiu-se ele a Olisseus (Odisseus) e no fim do programa recitou a poema que acima deixei em versão brasileira.

Fiquei espantado pelo facto da Zé o citar por inteiro num recentíssimo mail mas dela já nada me espanta que o diabo da mulher andou a aprender persa no último ano e agora andará no urdu ou noutra língua qualquer desde que antiga e dessas terras em que Cristo não terá nunca passado. 

E, subitamente, vi-me a mim, pequeno mas desembaraçado, na Biblioteca Pública Municipal Fernandes Tomás na Figueira a ler desenfreadamente tudo o que me passava pela linha de horizonte. Assim, marcharam os Salgaris todos (que agora aqui tenho quase completos...) os tarzans do Edgar Rice Burrougs, os Lagardere (Paul Fºeval) os Dumas  e mais uma série de outros de que já só recordo o prazer, o enternecimento o espanto e a curiosidade por terras longínquas e extraordinárias. Boa parte do meu gosto por Geografia virá daí. Foi Júlio Verne (que também cá canta em várias edições e formatos) quem me meteu nesses assados com a forte ajuda de meu pai de quem, de resto, herdei vários exemplares, depois perdidos no acaso de mudanças de casa, de cidade de país e de continente. No meio desta biblioteca avidamente lida na minha pré-adolescência, também não falou uma série de obras importantes em versão infanto-juvenil e da autoria de João de Barros e de Adolfo Simões Muller. E entre elas, claro, a Odisseia.

Como curiosidade suplementar a minha avó Aldina, inveterada contadora de histórias, certo dia contou-me uma em que um gigante chamado Olharapo que, à semelhança de Polifemo, só tinha um olho no meio da testa. Ao que me lembro, muito mais tarde, ela ter-me-á dito que essa história lhe fora contada por uma escrava negra vinda do Brasil no séquito do meu trisavô José da Costa Alemão, um dos muitos portugueses que não aceitaram servir como soldados numa guerra imbecil movida pelo Brasil já independente contra o Uruguai ou o Paraguai Esses portugueses passaram a ser mal vistos e pior tratados pelos brasileiros e conseguiram que o governo português da época lhes fornecesse barcos para saírem do Brasil e virem estabelecer-se no sul de Angola. Foram eles que fundaram a Chibia e as terras próximas e, mais tarde o Lubango (Sá da Bandeira). Da história só me resta o nome “olharapo” mas na versão da avó ele era tão mau quanto o horrendo cíclope de Homero. 

Essa minha primeira entrevista com os gregos continuou vida fora até já crescidinho mas ainda liceal ler as versões da Sá da Costa. E agora as do Frederico Lourenço, esse homem providencial que tem traduzido amorosa, pacientemente e com um raro tino para a escrita elegante, Homero e a Bíblia (a grega, claro, a boa, a autentica, a primeira) e uma série de poemas, 

Ora, nos finais dos sessenta, lá para 68, ano mágico, descobri um cavalheiro de excelente estirpe chamado Lawrence Durrell. E descobri-o, eu e muitos outros dessa época, graças a um tetralogia (“Justine”, “Clea”, “Baltazar” e “Mountolive”), o “Quareto de Alexandria”. Aquilo foi tiro e queda  de tão bom que era. Tronei-me obviamente um fanático de Durrell mas, aqui à puridade, sou fanático de tantos escritores que a coisa sai desvalorizada. 

Ora, foi no “quarteto...” que pela primeira vez ouvi falar de Kavafis um eminentíssimo poeta grego que com Elitis Ritsos  e Palamas são o meu quarteto de gregos modernos 

Devo dizer em meu abono que sou de uma curiosidade infatigável quando se trata de livros. Não descansei enquanto não deitei a mão ao citado Kavafis que foi editado pela Inova, logo em 1970. E que foi sucessivamente alvo de edições em tradução  portuguesa desde então (a wook sinaliza cerca de 19 peças).

Entendi, deixar esta nota para que os leitores possam respirar um pouco de ar puro, coisa rara agora que a caça aos galambuzinos começou

E já que falei de Itaca, o poema que a Zé me mandou, porque não relembrar um livro editado por uma perdida editora coimbrã de que fui sócio  (Centelha): “Um barco para Ítaca” de Manuel Alegre meu velho, velhíssimo, amigo . A Centelha de resto editou, nos tempos difíceis,  a “Praça da Cançao”, “Letras”  e “O Canto e as armas” tudo às escondidas, numa corrida contra a pide e a bufaria e se alguma coisa deixou de bom foi a sua excelente colecção de poesia mais de trinta volumes  que raramente se encontram em alfarrabistas. 

Do Durrell também por aqui anda cerca de dúzia e meia de títulos que quando se é um leitor entusiasta é-se fiel. Aliás, também por aqui estão três obras de um irmão, Gerald, naturalista, cavalheiro de excelente humor, escrita afiada  que vale a pena e a quem se deve a autoria literária de uma série televisiva, “Os Durrell” que é a todos os títulos, magnífica e impagável. 

Leitores, vão por mim, os Durrell como o Cavafis (ou Kavafis) valem a pena e merecem ser lidos. Como de resto todos os autores que aqui foram citados e que, ainda hoje, são alvo de reedições. Umberto Eco citava os Dumas e os Verne, e o Savater só dizia bem, e muito, do Salgari. Estou bem acompanhado e vacinado contra a peste negra que grassa pela política nacional.

 

Vai esta para a Zé, que conheci moçoila  de “bom ver e melhor apalpar” (cito Cela, Camilo José...), lá pelos finais de 60, acompanhada por dois monstros teatrais (o Luís Miguel Cintra e o Jorge silva Melo) que revolucionaram (ou tentaram revolucionar) o teatro português. Deus guarde o primeiro por cá e receba bem o segundo já desaparecido da mundanal cena. Às vezes sinto-me demasiadamente privilegiado. Será que o mereci? 

 

* E não percam  “Mythos” de   José Pedro Serra, RTP 2, aos domingos, cerca das 23 horas. Um regalo! 

O leitor (im)penitente 256

d'oliveira, 07.04.23

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Aleluia! Livros novos! E bons!!!

mcr, 7-4-23

 

Aviso: livros novos cá em casa o que não significa sempre livros recentemente editados.

 

A prevenção é conveniente porquanto o primeiro título já tem barbas. De facto “A are decorativa cokué” de Marie Louise Bastin teve a sua primeira edição em 1961. Na época, o livro foi publicado em francês, pelos serviços culturais da Diamang e rapidamente convertido num dos grandes clássicos sobre arte africana. Claro que a obrase esgotou num ápice e hoje anda por raros alfarrabistas a preços estratosféricos.

Terá sido por essa razão que o Museu Antropológico da Universidade de Coimbra se lançou à reedição numa parceria com o Museu do dundo (Dundu, Angola) em 2010.

Trata-se da tradução portuguesa em dois volumes e, tanto quanto sei, em versão fac-simile. Dois volumes de 246+277 pp,  29x24 cm, 1500 exemplares com o apoio generoso da Fundação Escom.

O preço ao público é de 60€ oque significa 6 a 7 vezes menos dos exemplares que vi à venda e que serão ainda da 1ª edição.

O povo cokue, Kioko ou Tschokué habita a Lunda e é uma das mais interessantes etnias da zona central de África e provavelmente aquela que no antigo império colonial português foi mais estudada. Lembremos, apenas, a monumental “Expedição portuguesa ao Muatiânvua”, oito densos volumes ricamente ilustrados que, pessoalmente - mas não patrioticamente!- considero o melhor livro de viagens em África. Nessa copiosa entrega devida a Henrique de Carvalho hum dos tomos é o dicionário da língua , outro ym tratado de etnografia, dois dizem respeito ao clima, produções da região e os quatro restantes documentam a viagem desde Malange até ao centro da actual República Democrática do Congo.

Foi ´pica a minha compra desta edição da senhora Bastin (doctor honoris causa pela U Porto)porquanto o Museu de Antropologia está em obras. Tentei contornar a dificuldade indo ao Museu da Ciência da UC mas daí fui encaminhado para o Turismo da mesma instituição. Neste só conseguia visualizar os livros que edita e nunca apanhei telefonicamente quem me informasse. Daí passei para os “serviços centrais” da universidade de onde uma senhora simpática me atirou para a “Imprensa da Universidade”. Daí outra senhora igualmente simpática e amante de livros encaminhou-me para o Instituo de Ciências da Vida que tem uma livraria. Nova senhora, igualmente gentil e amadora de livralhada p^s-me em contacto com os serviços comerciais da livraria que finalmente me fizeram chegar a obra. Uma epopeia recheada de encontros com gente inteligente, culta, gentil e prestável.

Nem vou descrever a obra a que ainda só dei breves bicadas. Merece, desde já todos os elogios.

 

Passemos a Frederico Lourenço helenista de altíssima qualidade, desta vez no papel de tradutor da Bíblia. Saíram num curto espaço de tempo o vol. V (1º tomo), livros históricos do Antigo Testamento e os “Evangelhos apócrifos” (que ainda não tenho). A tradução é deita a partir do grego e trata-se, indubitavelmente de um a edição histórica e preciosa. O volume é editado pela excelente Quetzal.

Do ponto de vista religioso sou um indiferente convicto, ou seja um agnóstico dos quatro costados. Porém a “Biblia” é uma presença indiscutível em qualquer biblioteca e apesar de ter mais duas edições, entre elas uma que um missionário protestante ofereceu ao meu avô Manuel nos idos de 1930 (quase cem anos!!!), não resisti a esta proposta de FL um mais que digno e prestigiado sucessor de Maria Helena da Rocha Pereira, senhora encantadora que me permitiu assistir à muitas das suas aulas de Cultura Clássica logo que percebeu que, para além da multidão de raparigas eu também queria perceber alguma coisa do seu ensino.

Um dos colegas de MHRPera o professor Paulo Quintela, germanista de enorme mérito e um amigo que me acolhia na sua mesa do bar das letras e de  “A Brasileira”. A ele devo o encontro com Rainer Maria Rilke que li ainda aluno do liceu. Desta feita, vale a pena referi-lo como homenagem mesmo se o exemplar de Rilke em causa se deva a Maria Teresa Dias Furtdo. Quintela tinha nos anos 50 e 60 traduzido alguns destes poemas que agora aparecem na totalidade. A edição é da Assírio e Alvim, editora imbatível na edição de poesia. Se Cézanne vos diz alguma coisa, vejam-no agora pelos olhos de Rilke um génio que iluminou como poucos o século XX. E mis não digo que ó isto já chega!

A quarta recomendação diz respeito a João Luís Barreto Guimarães, poeta e prémio Pessoa (justíssimo!!!) 2022. É a sua “Poesia Completa, outra vez na Quetzal. Eu, atuualmente, sou muito destas “obras completas” pela simples e miserável razão de que assim ganho espaço nas estantes. O problema é que não deito fora as singulares pelo que mais e mais complico a vida e apanho ralhetes sentidos e severos da CG.

Uma magnífica livraria, no Porto, habitada por um livreiro que ainda pertenceu à escola “fernando fernandes”, editou um pequenp e magnífico conjunto de Haikus de Jack Kerouac. A edição tem uma apresentação lindíssima, feita ao estilo japonês e é traduzida por Catarina Nunes de almeida, uma desconhecida a quem tiro o chapéu (74 páginas  poemas em versão bilingue. Um must, um verdadeiro presente de amêndoas de páscoa. Força o gulosos da boa poesia, da literatura de Kerouac e amadores de livrarias verdadeiras que merecem ser visitadas e usadas.

(a livraria fica na r Fernandes Costa 148 e no seu site –só agora descoberto! – apresenta uma gigantesca lista de sugestões que saem do comum do já visto, da rotina e, nunca mas nunca, caem no politicamente correcto, ou seja uma raridade bos tempos sombrios que correm)

Continuando as notas brevíssimas: dei-me tardiamente conta de uma reedição de “A cortina de Ferro – a destruição da europa de leste 1944-1956 um título notabilíssimo da notável Anne Applebaum, uma especialista de que também se recomenda “A fome vermelha”. Como estamos já felizmente longe desses tempos amaldiçoados esta é uma boa ocasião para saber como é que era aquilo que só por canalhice alguém quis apelidar de “temps des cerises”...

Finalmente, a Biblioteca Nacional editou um forte calhamaço com o título, que diz tudo, “Obras proibidas e censuradas no Estado Novo”. Partilho da duvidosa honra de ter um livrinho por mim organizado no lote dos proibidos com a curiosidade de ter sido proibido logo que a polícia viu a capa que estava a ser impressa numa tipografia diferente da  obra. (Vai a imagem da capa, numa homenagem a uma editora intrépida que nos, os da crise de 69, fundámos e mantivemos em arriscadíssima actividade durante uns bons dez anos), Não consta na lista da BN!!!Ou então não procurei bem...

Para o fim, deixo um título já com algum tempo: “Rússia, revolução e guerra civil, 1917-1921” de Anthony Beevor (Bertrand)  um historiador absolutamente consagrado que tem escrito muito sobre a 2ª Guerra. Diria que este é, até à data, o livro definitivo sobre este tema. Informação excepcional, rigor e verdade. Imperdível e felizmente desprovido de uma multidão de narizes de cera ideológicos que durante anos paralisaram o conhecimento de uma época riquíssima.

 

 Sei que forneci uma lista que dá, pelo menos, até ao Verão mas num país que quase não lê, considero isto um serviço público.

Leitores, atirem-se ao cabrito, às amêndoas, aos folares e aproveitem estes dias de um sol primaveril e risonho. E leiam um livro, pela vossa saúde. A leitura é o segundo melhor vício solitário que conheço (o terceiro é a escrita...).

Nas vinhetas o livrinho da Centelha sobre os Panteras Negras organizado, traduzido pela Maria João Delgado e por mim   e uma maravilhosa máscara Tchokué da minha colecção (madeira polícroma, 30x28)  

 

 

 

o leitor (im)penitente 255

d'oliveira, 27.12.22

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“Je commence pour déclarer a mon lecteur que dans tour ce que jái fait de bon ou de mauvais dans toute ma vie, je suis sur d’avoir merité ou demerité, et que par consequente je dois me croire libre”

(cCasanova  “Histoire de ma vie”,  p 82)

 

 

Os leitores e as leitoras perdoarão que eu abra este folhetim com uma citação do admirável Casanova, uma paixão (juntamente com Borges ou a Itália) que partilhava com António Mega Ferreira, um migo longínquo mais lido que encontrado mas sempre recordado com alegria.

Não recordo como o conheci embora uma memória que pode ser falsa atire para a figueira da Foz e para o Festival de Cinema que aí se realizou durante um bom par de anos.

De todo o modo, isto, o nosso conhecimento foi sempre avivado porque o li desde o início pois o raio do homem escreveu praticamente em quase todos os jornais que eu li ou lia.

Ao longo da vida fui-o encontrando aqui e ali, ao acaso sendo que uma das últimas vezes nos teremos cruzado numa homenagem ao Fernando Assis Pacheco.

Nessa altura conversámos longamente e descobrimos a nossa comum admiração por Casanova, leitura minha desde os longínquos primeiros anos sessenta em “poche” numa edição que, como as da época, traía bastante o autor. Todavia, tal não retirava o fascínio pelo aventureiro italiano, pelo orgulhoso insolente que disse a Mme de Pompadour que não vinha de “l a bas”  mas sim de “la haut”, uma alusão subtil não só à primazia da cultura veneziana mas à sua infortunada prisão nos “Piombi” do palácio ducal. A sua evasão desse local temível é de per si, um facto admirável de ousadia e e imaginação.

Se cito tanto o veneziano é porque, de certo modo, o Mega era como ele um “tiuche a tout” afortunado, um homem do mundo, um espírito livre, um escritor talentoso que deixa nome e obra feita. Merece, mais do que muitos, as várias páginas que o “Público” lhe dedica e a que não é necessário que acrescente seja o que for.

Deixa duas boas dúzias de livros entre poesia, romance, ensaios mas para terminar como comecei apenas citarei “Cartas de Casanova, Lisboa 1757”  (Sextante Ed., Lisboa, 2013) uma brilhante invenção para cobrir um período da vida de Casanova de que não há grande rasto. Pessoalmente, acho que AMF se apropriou com inteligência e talento da escrita do veneziano.

É que, à semelhança de Stendhal, Mega Ferreira merecia   que na sua pedra tumular se mencionasse alguma origem italiana tanto ele amava a Itália e a sua arte e cultura.  

* na vinheta: Casanova, retrato aos 40 anos.

 

 

 

o leitor (im)penitente 254

d'oliveira, 16.11.22

 

 

 

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A burla indiana

mcr, 16-11-22

 

 

quem me lê sabe quem sem ser um especialista, perito, sequer historiador, tenho um forte interesse no que se convencionou chamar “história da expansão portuguesa” mormente em Árica.

Vivi parte da minha adolescência em Moçambique e ficou-me desde então uma inusitada paixão pelo território, pela sua gente, pelos costumes e línguas para já não falar na paisagem. 

Se eu pudesse (e tivesse um par de anos a menos) faria todos os anos férias naquelas praias que frequentei e tentaria descobrir as muitas terras que não cheguei a conhecer. 

À medida que começava a conhecer a história (e as misérias do sistema) colonial ,ais e mais me fui embrenhando nas revistas portuguesas (e são uma infinidade...) que na época analisavam a colonização, as guerras de ocupação, a evolução das sociedades coloniais. 

Há mesmo, neste copioso acervo de publicações animadas por “africanistas”, muita informação de primeira água sobre aspectos etnográficos ou geográficos que  ainda hoje são relevantes. 

Uma das publicações que, desde uma boa dúzia de anos, me interessa é a “Revista Portuguesa Colonial e Marítima “ publicação iniciada em 1897 e terminada nas vésperas da República.

Comecei a comprar os fascículos mensais depois de ter descoberto uma razoável quantidade deles num alfarrabista lisboeta que me garantiu que eu estaria a adquirir exemplares vindos da biblioteca de António José de Almeida, “africanista” notório e um dos pais fundadores da República. 

Curiosamente, os primeiros volumes da publicação não foram difíceis de coligir mesmo se tivessem vindo de várias proveniências. Mas a partir dos fascículos 100 a coisa tornou-se praticamente impossível. Se já antes havia falhas a partir daí (ano de 1905) nunca mas encontrei um único!

De quando em quando, arriscava-me a lançar uma pesquisa na internet  mas essa tentativa foi mal sucedida durante um boa meia dúzia de anos.

Até que, maravilha das maravilhas, encontrei subitamente um site hospedado em AB Books que me garantia todos os volumes em falta. 

E a preços decentes mesmo se esta noção tenha significados muito diferentes de leitor para leitor. 

Tudo correu bem (hoje mesmo recebi cinco volumes dos 9 ou 10 encomendados) e quando me gabei, há um par de dias a um grupo de alfarrabistas amigos ou conhecidos, eles gozaram-me. Que eu tinha embarcado num conto do vigário indiano que, pelos vistos, toda a gente conhecia. Que aquilo era o chamado “print for demand” enfim meras fotocópias das publicações que me interessavam.

Claro que era verdade. Estes volumes, encadernados num sintético sem especial beleza, são isso mesmo. Para os bibliómanos e blbliófilos encartados a coisa é uma grosseira falsificação. 

Todavia, eu apenas quero estes volumes para ler, eventualmente apenas os artigos que me interessarem. Digamos que, em vez de ir a uma biblioteca nacional tenho o que quero comodamente em casa. Se é assim, e é assim mesmo, tanto me faz ter o original como a fotócópia que, de resto, é de excelente qualidade. Só a encadernação (escusada) me irrita mas isso , até isso!, pode resolver-se mandando retirar esta e substituí-la pela que protege os volumes que já tenho. 

Os meus sorridentes amigos e conhecidos já ouvirão das boas quando os encontrar...  

 

o leitor (im)penitente 254

d'oliveira, 23.10.22

 

 

 

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A aprendizagem da liberdade

mcr, 23-10-22

 

Cheguei a Coimbra em 1960 e rapidamente mergulhei por vício próprio, inocência abundante e desejo de aventura, nos círculos da “oposicrática” estudantil. E como todos os catecúmenos, levei a cabo a minha educação política  com determinação e alegria. Em Coimbra, longe da família e na companhia de outros jovens tão exaltados como eu, apenas um par de dúvidas manchava os meu dias. A saber: eu gostava imoderadamente de “westerns”, acabava de descobrir o fascinante mundo do jazz, apreciava Elvis Presley, Fat’s Domino  e restantes rockers , não suportava o fado (quer o de Lisboa quer o citadino) e admirava, olá se admirava algumas estrelas de cinema voluptuosas (A Monroe “prima inter pares”, a Vardot, a Lolobrigida etc...) que, à época, não cabiam, na estricta ideologia cineclubista que pregava a boa palavra do neo-realismo italiano. E tinha lido uma obrinha cujo título perdi mas que adejava à volta do extraordinário veneziano Giacoo Casanova. Não que eu quisesse imitá-lo, lonfe disso, tinha bem consciência do meu fracio físico, da minha timidez e não me via a fugir de inimigos poderosose, muito menos, a escapulir dos sinistros “Piombi”, a prisão lá no sótão do palácio ducal. 

Poressas alturas comecei a ler roger Vaillant (demasiado heterodoxo para os meus amigos mais puristas) e daí passei para os libertinos, onde fui encontrar uma companhia de cavalheiros admiráveis a começar pelo senhor cardeal de Bernis e a acabar justamente em Casanova. 

Descobri que o aventureiro era bem mais do que um mero sedutor e encontrei pela primeira vez umas “memórias” provavelmente resumidas das suas errâncias pelas Europas sempre longe da Veneza natal que lhe não perdoava o espírito e as acções demasiadamente libertárias. 

Aliás, fui-me apercebendo que Casanova não era apenas o “homem a femmes” mas que nas suas aventuras amorosas não cabia, bem pelo contrário, qualquer donjuanismo muito menos desprezo pelas mulheres, muitas, com que dormiu. É verdade que, mesmo hoje, quando a figura é olhada com simpatia, inteligência e respeito por uma sólida minoria conhecedora do século XVIII, ainda subsiste uma desconfiança (e alguma, bastante, inveja) sobre o modo como viveu. 

Porém, agora, que já está disponível o texto integral da “História da minha vida” é possível mapear as suas vagabundagens, verificar os seus encontros, avaliar as suas opiniões sobre os grandes (e eles foram muitos) que conheceu. E, finalmente, conhecer um espírito fascinante, um homem curioso e culto, um espírito livre  como poucos e que não fica atrás de algumas das grandes figuras do seu movimentado século. 

Como de costume, apenas venho chamar a atenção de aluns mais ousaos, para a figura de Casanova, recomendando absolutamente a sua formidável auto-biografia.

Ao longo de anos fui encontrando exemplares das “memóires” ou “histoir de ma vie”  nos mais diversos tamanhos, edições e comentários. Tirando as clássicas grandes edições (Pleiade, Bouquins) encontrei algumas outras que pelas ilustrações, tamanho, comentários e notas  ou até preço fui adquirindo. Com elas juntei uma pequena biblioteca de ensaios sobre a personagem que, em 1987 recebeu a unção da “europe”, uma das melhores e mais conceituadas (e mais inteligentes) revistas “progressistas” num número gordo e histórico que acabava por reconhecer o autor. Curiosamente, mas isso é para outra núpcias, também os “westerns, o jazz, os romances policiais o rock adquiriram com o tempo uma patine que nenhum critério político se atreve a desqualificar. E arilyb como a Bardot ou a Loren e mais muitas outras são agora reconhecidas e celebradas como mulheres que além da beleza tinham talento, humor, paixão pelo cinema e criaram personagens que resistem ao passar dos anos. 

(ou então o mal é meu que sou um velho cavalheiro que olha com serenidade e uma certa volúpia para os seus anos de juventude, efémero tesouro e se perdoa gozosamente a si próprio os pecados e pecadilhos capitais ou veniais que cometeu )  

 

 

 

 

 

*Casanova,” Mémoires”, Pleiade

3 vol , Gallimard, Paris 1948

*Casanova Histoire de ma vie (texte integral du manuscrit original  suivi de extes inédits 

Col Bouquins, Rober Lafont, 2 vol 1983

*Némoires de J.Casanova de Siengalt écrites para lui même suivis des memoires du prince de Ligne  nouvelle édition , 10 vol. Librairie Farnier fréres. Paris, 1888, enc de edit.  

*Jacques Casanova de Seingalt, venitien “Histoire de ma vie," il, enc de ed.  10 vol , Plon ed, 1960 

*Casanova, “Mémoires” Poche, 5 vol Gllimasr 1967

*Mémoires de Jacques Casanova de Seigalt /extrairs colligés par René Groos) )illustrations de Bruneleschi, 2 vol. Fibert Jeune, Librairie d’amateurs, s.d.

 

*Casanova la passion de la liberté

Catálogo da exposição que celebra a aquisição do manuscrito originalSob  a direcção de Marie-Laure Prévot  e de Chantal ThomasCol de Corinne Le Blouzet e Fréderic MartinBibliotheque Nationale de France e Le Seuil, 2011.240.pp. 39 x 25 , enc edit (no cat: un fac-simile de 37 pp do manuscrito original)

 

*Les voyages de Casanova 

Textos de Marco Carminoti   partir de “histoire de ma vie” 128 p      34 x 25 x 48 enc. Tela il por fotografias antigas, pinturas  do sec XVIII e XIX e aguarelas  de Auguste Leroux Citdelles et Mazenot, 2014

 

*Casanova “Europe”, n´697, Maio qo87

*”Casanovs, L’admirable” , Phiippe Sollers, Folio, Gallimard, 1998

 

*Curiosidade: Cartas de Casanova Lisboa 1757 António Mega Ferreira, Sextante, 2013 (inteligente, erudito e divertido)

 

 

o leitor (im)penitente 253

d'oliveira, 18.10.22

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Do melhor que a minha geração produziu

mcr, 18-10-22

 

Conheci o Eduardo Batarda no dia em que, caloiro, regressei a Coimbra para iniciar as minhas penas na Universidade. As aulas começariam dali a dias e eu vinha instalar-me. 

Não sei bem onde nos encontramos mas foi o Carlos Férrer Antunes quem mo apresentou. A conversa há de ter sido prometedora porque o Batarda imediatamente se propôs educar-me do ponto de vista jazzístico.  Também não me lembro se foi em casa dele ou do Férrer que ouvi pela primeira vez o Take five de Brubeck de que, naturalmente, fiquei cliente até hoje. Dele e de Paul Desmond um saxofonista de mão cheia que, depois de conhecer Brubeck na tropa (foram soldados na 2ª guerra mundial, sob o comando do genial Patton e ter-se-ão encontrado na dura batalha das Ardenas onde se desfez definitivamente o sonho de Hitler, graças ao heroísmo  - e â “resiliência – dos militares americanos sitiados por forças mitas vezes superiores e extremamente aguerridas) constituiu um quinteto com ele. 

Claro que, a partir daí fomos durante os anos coimbrãos de Batarda amigos e companheiros diários  com epicentro no “Mandarim “ (o “Kremlin”) na Praça da República (“a praça vermelha”!...). 

O Batarda, era culto tinha um finíssimo sentido de humor e era estudante de Medicina mas, desde cedo se revelou um talentoso desenhador e mais tarde, pintor. Ainda recordo, furioso por os ter perdido, dois cartazes (um da Queima, outro do CITAC) onde já era perfeitamente visível o futuro estilo  (ou o estilo da primeira fase) de Batarda. A mim, o que agora ainda me espanta, era a aceitação que os seus cartazes tiveram junto (sobretudo no caso da comissão da Queima) de malta que neste ponto de vista era absolutamente conservadora e insistia na presença da Torre da Universidade, de fitas coloridas, quiçá de alguma guitarra, uma chatice de todo o tamanho, vista e revista ad nauseam.  Quase me atrevo a dizer que aqueles rapazes que escolheram o cartaz (e o pagaram!) foram os primeiros a reconhecer o talento deste enorme pintor.

Isto daria para uma crónica desses primeiros anos sessenta numa Coimbra que se transformava a galope, abandonando lenta mas seguramente a praxe, uma certa boémia avinhada e o conservadorismo político. E, em todas essas frentes, lá estávamos nós, irrequietos, ansiosos, fartos do torpor português e dos alegado brandos costumes. 

De todo o modo, cedo o Batarda se deixou de estudos médicos, rumou a Lisboa para as Belas Artes e daí para Londres. Perdi-lhe a pista mesmo se, como se verá o fui acompanhando enquanto artista. 

E, doze anos depois, dei com o livro que hoje trago e que é, de certo modo, uma epítome, de tudo o que se supunha que o Eduardo Batarda seria. 

O livro uma “edição artística” não era nada barato pois ter-me-á custado, lá pelos meados de 75, cinco brasas ou seja quase o dobro do ordenado de um professor do ensino secundário! Para um advogado em começo de carreira era um tombo enorme. Não sei se a galeria 111 me permitiu pagar em prestações ou me exigiu o cacau todo de uma só vez mas seja como for não hesitei. 

Não vou fazer a crítica ou sequer a crónica de 50 anos de pintura de Eduardo Batarda. Não é esse o escopo destas digressões e de todo o modo, eu sou um “batardiano”  militante pelas razões já expostas e pelo que fui vendo da sua obra que considero do melhor que se faz em Portugal. 

Não sei seio livro ainda aparece, se alguma vez apareceu, por alfarrabistas já que era uma edição limitada e pequena. Se porventura o pilharem não hesitem é uma leitura divertida que se desdobra em vários graus e as ilustrações são magníficas

 

Ficha: 

“o peregrino blindado (as aventuras do dr. Bronstein –proezas de um unfrendly Kid)

de José Lopes Werner, trad e adpt  de Batarda Fernandes ex nº 101 (numa edição de 200 ), 50 pp  30 x17 em caixa própria

 

o leitor (im)penitente 251

d'oliveira, 10.10.22

 

 

 

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Às vezes a sorte vem em dose dupla

mcr, 10-10-22

 

Há dias narrava aqui um par de acasos de feliz encontro com livros que há muito procurava.

Mal eu sabia que nesse mesmíssimo dia, porventura animado pela boa sorte que já me contemplara, iria encontrar uma boa quarentena de exemplares da Revista Portuguesa colonial e Marítima que durantes anos procurei em vão.

Esta Revista que se editou entre 1897 e 1909 , num total de 147 números faz parte de um numeroso lote de publicações motivadas pela expansão colonial que, aliás, não se limitou à época da monarquia constitucional  antes se mantendo durante uma boa parte da República,

Em abono da verdade, esta florescente ediçãoo de textos sobre as colónias foi idêntica em toda a Europa, nomeadamente em França e Reino Unido mas com a Bélgica e a Alemanha na corrida.

Nisto de imprensa colonial há de tudo como na botica mas as publicações de qualidade não faltam sobretudo porque havia um público curioso, ávido por notícias e factos dobre a África (e o Oriente).

Portanto, ao lado de relatos sobre campanhas militares, existem muitas outras reportagens ou até pequenos ensaios sobre uma infinidade de temas africanos e asiáticos que são fontes preciosas para a História de quatro dezenas de países (sem falar nas metrópoles)

A RPCM é, com o boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa (que ainda se publica...) uma excelente colecção que mereceria estudo aprofundado e talvez servisse aos actuais militantes afro-descendentes para corrigirem o tiro e a palavrosa campanha a que agora levam a cabo. Campanha no quentinho do país colonizaor “opressor, racista, colonialista e imperialista”. E digo que valia a pena estudarem um pouco este tipo de publicações de marcado teor colonial, pois os seus redactores sempre se afirmaram “coloniais” ou “africanistas”.

(convirá avisar que não se está aqui a fazer a apologia da colonização nem de nada semelhante mas apenas a chamar a atenção para as fontes históricas necessárias para se perceber muito, quase tudo, do que ocorreu entre o último quartel do sec XIX e o –pelo menos- o final do primeiro do sec XX)

A RPCM foi publicada pela livraria Ferin e boa parte dos volumes que possuo terão sido coligidos por António José de Almeida, um dos pais da 1ª República e grande entusiasta do império colonial.

Curiosamente, neste tipo de publicações costuma ser mais difícil encontrar os primeiros anos de publicação do que os últimos. Terei tido a sorte de comigo ter sucedido exactamente o contrário. É a última meia  centena de títulos editados que, com algumas excepções, sempre me faltou.

Devo dizer que ando nesta pesquisa há já um bom par de anos. Sempre sem êxito. Na internet o que aparece, e é pouco, quase nada, refere-se a números soltos. Todavia, persistente que sou, de longe em longe, lá lançava a rede às águas pouco piscosas da internet com nulo resultado. Sexta feira passada, porém, depois de ter conseguido um livro que também se mostrava arredio, eis que resolvi lançar uma nova busca. E, para espanto e júbilo meus eis que o Ab books me informou de uma forte concentração de volumes ma Índia (!!!) e a preços perfeitamente aceitáveis mesmo se, já comece a temer a mão rapace da alfândega portuguesa, organismo com nunca me dei bem.

Não hesitei um momento e rapidamente (enfim com as consabidas dificuldades de um info-excluído...)  lá consegui encomendar e fazer o pagamento. Curiosamente, o meu banco, sempre cheio de cuidados por mim (!!!) entendeu questionar-me sobre esta compra com receio de eu estar a ser vítima de algum escroque. À senhora bancária que me ligou lá expliquei que o vendedor (Ab books) tem sido sério e, até à data, nunca me deu razões de queixa. Agora espero que os 8 volumes (48 números) me cheguem o que só sucederá nos inícios de Dezembro. Isto se a Alfandega, insensível ao facto de a importação ser de originais portugueses, provavelmente pertencentes a uma desaparecida biblioteca da ex-Índia portuguesa, não intervier para receber os cacauzinhos do costume.

 

o leitor (im)penitente 250

d'oliveira, 07.10.22

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Sempre os livros

mcr, 7-10-22

 

em boa verdade eu deveria escrever sobre o nNobel de Anie Ernaux. Leitor obstinado, deveria conhecer a autora, tanto mais que é exctamente da minha geração. Porém, a verdade primeiro: apenas a conheço de nome e desde há muito. Razões provavelmente más fizeram com que jamais a lesse, sequer tivesse a curiosidade suficiente para a ler. Culpa minha, seguramente mas pecado confessado passa de mortal a venial ou nem isso.

Sei, mesmo, que terá saído, há dias um livro dela em português mas isso é tudo o que poderia dizer. 

Devo, aliás, dizer que o Nobl é cada vez mais algo que nos apanha de surpresa. No caso, esta autora estava longe dos meus cada vez mais obtusos (ou fracos) prognósticos. Esperava outra vez que o premio fosse reconhecer o extraordinário libanês Adonis, um poeta genial que desde há anos é falado (e ue durante muito tempo foi emparelhado a Amos Oz um israelita. E justamente por serem vizinhos e o comité nobel ter um medo pavoroso de se meter nas lutas da zona palestiniana  (que vai de Gaza até ao centro do Líbano) houve sempre o cuidado de ignorar ambos...

(a propósito do festival de Óbidos: vem a Portuhal o grande Wole Soyinca o único nobel da literatura da África sub-sahariana   - é bom lembrar que um egípcio, Nagib Mahfouz o ganhou nos finais de 80, se não erro – A maravilha seria ver editados alguns títulos deste grande escritor que, se me lembro bem, tem apenas dois livros – um recentíssimo, de resto – em português.) 

Oz, como Borges (o maior escândalo nobelístico) ou Roth ( ou Durrell e Green...) foi esquecido pelos escandinavos sem que alguma vez houvesse uma explicação crível e clara sobre estas não-escolhas.

Aliás, este ano, Bernard Henry Levi ainda propôs Rushdie mas a ideia que lhe servia de base, o infame atentado que por pouco não cumpriu a fatwa de um fanático  iraniano, não foi (e bem!) atendida. Os prémios não se devem guiar por emoções! 

Todavia eu vinha falar sobre dois livros acabadinhos de chegar.

O primeiro, “Fogo errante” é uma excelente antologia da poesia de Ossip Mandelstam, um dos grandes poetas russos do século XX e que foi assassinado pelo stalinismo. Não foi, bem pelo contário, a única vítima desta degenerescência obscena do socialismo e do marxismo que no século se chamou URSS, mas ele é, com Essenine, uma das mais ilustres vítimas da perseguição movida contra os intelectuais soviéticos. 

A edição é da Relógio de ´Água uma editora  com E grande, enorme. Existirá, na Assírio e Alvim, outro título do mesmo autor  (Guarda minha fala para sempre) mas consta que está esgotado. 

O segundo livro é obra de um conjunto de autores, coordenado por Luís Reis Torgal, “um rapaz do meu tempo” que, no caso em apreço e sob o título oportuno de “Brandos Costumes ... o Estado Novo, a PIDE  e os intelectuais” (Temas e Debates ed), traz um conjunto exemplar de estudos sobre uma série de autores todos vítimas da “situação” que se estendeu desde os fins dos ano vinte até meados dos setenta. 

Tomás da Fonseca. Aquilino, Ferreira de Castro, Torga. Namora, são alguns dos autores lembrados. A par disso há estudos sobre a repressão no Teatro, na Universidade bem como a inacreditável história do informador Inácio.

É bom verificar que começa finalmente a levantar-se o segredo sobre este tipo de cúmplices do Estado Novo e sobre o muito que os Arquivos da Torre do Tombo tem sobre este tema. 

 

Estava a terminar este texto quando, por um impulso, resolvi consultar um alfarrabista procurando um livro que todos os restantes consultados anunciavam absolutamente esgotado. De facto, e durante anos, recusei comprar exemplares dispersos da “colecção de arte contemporânea” das edições Artis. Como se sabe trata-se de uma série de 20 livros (uma aventura que julgo inacabada pelos motivos do costume) excelentemente apresentados graficamente e com estudos de notável qualidade. Tenho ideia de que a colecção foi dirigida por José Augusto França que, de resto asina muitos dos livros. Ocorre que um alfarrabista aqui do bairo tinha 17 desses livros em bom estado e a preço imbatível. Nem pensei duas vezes. Arrematei a pechincha confiado na minha boa sorte. Que começou logo em casa quando descobri que dos livros em falta (sobre Nikias Skapinakis cá existia. Da frenesi , veio o “António Pedro”. O faltoso era o “Eduardo Viana” e durante dias ninguém se acusava. Hoje porém, apesar de na internet não haver sinais do livrinho, resolvi explorar o catálogo da Kronos Bazar, um alfarrabista emigrado de Lisboa para as Caldas da Rainha. E, pimba!, lá estava , ainda por cima na dupla versão, normal e luxo. A colecção é toda da série normal pelo que já está encomendado o exemplar fugidio que, de resto, estava por um preço perfeitamente decente.  Os leitores viciados e viciosos sabem como um acaso destes torna feliz qualquer um. Agora só me falta o euro-milhões...