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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

José Sócrates

José Carlos Pereira, 09.04.21

Em maio de 2018, escrevia aqui o texto "O elefante no meio da sala" em que referia o seguinte:

"...Apoiei e votei em José Sócrates, que não conheço pessoalmente para além de uma breve conversa nos bastidores de um comício no Porto nas autárquicas de 2005, quando liderei, como independente, a lista do PS à Assembleia Municipal de Marco de Canaveses. Reconheço muitos méritos aos seus governos, assim como vários erros de percurso e de casting. Quero confiar no Estado de Direito e, por isso, aguardo pela lenta evolução do processo, não me deixando impressionar em demasia pelos folhetins que vão surgindo a público. Como sempre tenho defendido, um processo destes exige provas concludentes e não pode ficar apenas pelas convicções de quem investiga e julga. O que não impede que possa fazer já uma apreciação muito negativa do estilo de vida e do carácter já revelado por José Sócrates. Mas isso é do domínio da moral e não da justiça."

Continuo a pensar exactamente o mesmo.

Contra-a-corrente

JSC, 05.03.19

Dizer, hoje, qualquer coisa que não soe a elogio à ajuda humanitária ao povo da Venezuela é o mesmo que praticar um crime.


Deve ser por essa razão que nem jornalistas nem comentadores nem políticos nem intrépidos e intrépidas repórteres, que caiem de paraquedas na Venezuela, alguma vez se referem ao que está na génese do caos, da tão propagada miséria, da sempre repetida falta de tudo, tudo mesmo, nas lojas, mercearias, farmácias e mercados de abastecimento público.


Pelo menos, o povo na rua, que segue o autoproclamado presidente, não aparenta as agruras da vida que as notícias repetem e repetem. Tão pouco se observam as cargas policiais, as prisões, enfim, aquilo que permitiria caracterizar um regime ditatorial, como proclama o miguel de vasconcelos de lá.


Tudo bem. Aceitemos que falta tudo na Venezuela. E desde quando começou a ser trilhado o caminho que conduziu a Venezuela a este estado de coisas?


A verdade é que tudo começou no início desta década. Quando os governantes americanos resolveram começar a confrontar a política comercial da Venezuela. Depois, apareceram as primeiras ameaças de sanções (2013), seguidas das primeiras sanções, que tinham como objetivo isolar a Venezuela por meio de um bloqueio económico e financeiro.


A partir de então foi um crescendo. O histórico das sanções aplicadas à Venezuela, nos últimos anos, é avassalador. Sanções financeiras que não só bloqueiam as transações económicas, como impedem a reestruturação da dívida. Sanções que obstam empresas americanas, europeias e outras de transacionar com a Venezuela, incluindo empresas farmacêuticas e do ramo alimentar.


Desde então que os governantes dos EUA entendem que a forma de controlarem aquele país é precipitar a queda do governo. Como é habitual, um vasto conjunto de países, incluindo a UE, que apesar de olharem para Trump como uma personagem estranha, adotaram como suas as políticas americanas, porque, em boa verdade, estes países nunca deixam de seguir Trump, pelo menos no que é essencial para o próprio.


O autoproclamado presidente até aceita uma intervenção externa. Uma vergonha. A Venezuela, o povo venezuelano é vítima das mesmas políticas intervencionistas que mataram e matam no Iraque, na Líbia, no Afeganistão. Na altura também nos diziam que pretendiam libertar aqueles povos. O mundo não ficou melhor.


As sanções aplicadas à Venezuela fazem o mesmo sentido que as sanções que ainda hoje os EUA aplicaram a Cuba.


E quanto aos camiões da ajuda humanitária? Se pensarmos que essa ajuda vem pela mão de quem estrangulou, de modo meticuloso e por todos os meios, a economia venezuelana, inserida, ainda, numa estratégia de fazer precipitar a queda do governo, convenhamos que, no mínimo, devemos olhar de soslaio tal ajuda.

O elefante no meio da sala

José Carlos Pereira, 04.05.18

decisão de José Sócrates de sair do PS acaba por não surpreender. O antigo primeiro-ministro sempre deu a entender que gostava que o partido que liderou fizesse a sua defesa perante o que classifica como abusos do Ministério Público e da investigação. António Costa, pelo contrário, decidiu que o melhor era separar águas entre a justiça e a política, procurando dessa forma encontrar um caminho que permitisse ao PS não ficar permanentemente – durante quantos anos? – sob o flagelo dos efeitos da investigação, da acusação e do futuro julgamento de José Sócrates. António Costa tomou a opção certa.

O que se passou entretanto para que os dirigentes socialistas, com Carlos César e António Costa à cabeça, se tenham afastado dessa abstinência na discussão em torno dos crimes imputados a José Sócrates para virem agora verbalizar evidências “lapalissianas”, isto é, que será muitíssimo negativo, que será uma desonra e uma ofensa aos princípios éticos que devem guiar qualquer democrata se os crimes de que o antigo primeiro-ministro está acusado vierem a ser dados como provados? Foram só os indícios veiculados pela comunicação social quanto ao ex-ministro Manuel Pinho que serviram de detonador? Ou foi o cálculo táctico de que os temas relacionados com a Operação Marquês estão de tal modo consolidados na opinião pública que o melhor seria vincar já esse distanciamento face a José Sócrates? Desta feita, não creio que o PS tenha seguido o melhor caminho e arrisca-se a fazer deste um dos assuntos centrais do próximo congresso.

Apoiei e votei em José Sócrates, que não conheço pessoalmente para além de uma breve conversa nos bastidores de um comício no Porto nas autárquicas de 2005, quando liderei, como independente, a lista do PS à Assembleia Municipal de Marco de Canaveses. Reconheço muitos méritos aos seus governos, assim como vários erros de percurso e de casting. Quero confiar no Estado de Direito e, por isso, aguardo pela lenta evolução do processo, não me deixando impressionar em demasia pelos folhetins que vão surgindo a público. Como sempre tenho defendido, um processo destes exige provas concludentes e não pode ficar apenas pelas convicções de quem investiga e julga. O que não impede que possa fazer já uma apreciação muito negativa do estilo de vida e do carácter já revelado por José Sócrates. Mas isso é do domínio da moral e não da justiça.

Tal como Manuel Alegre, entendo que o PS se precipitou, talvez empurrado pela força do caso Manuel Pinho, que terá direito à sua defesa, naturalmente, mas já deveria ter vindo a público esclarecer prontamente a natureza dos seus rendimentos, pelo menos nos anos em que exerceu funções governativas. Quem não deve não teme. Contra Manuel Pinho, recorde-se, há apenas suspeitas que chegaram aos jornais, sem que o próprio tenha sido ainda ouvido pelos investigadores, muito menos acusado. Não aposto um fio de cabelo por Manuel Pinho, mas a realidade é esta. E não deixa de ser curioso que os partidos se tenham abespinhado justamente com a situação de alguém que não é do meio político, que veio da área financeira e em particular do (agora) desacreditado BES. Se fosse alguém do redil partidário a reacção seria a mesma?

O que é facto é que todos os partidos de governo já albergaram dirigentes de relevo que se viram a braços com a justiça e foram condenados por crimes praticados durante, antes ou após o exercício de funções públicas. Assim de repente, vêm-me à memória nomes como os de Armando Vara (PS, ex-ministro e ex-deputado), Narciso Miranda (PS, ex-autarca de Matosinhos e ex-presidente da distrital do Porto), Isaltino Morais (PSD, ex-ministro, ex-presidente da distrital de Lisboa e autarca de Oeiras), Duarte Lima (PSD, ex-líder parlamentar e ex-presidente da distrital de Lisboa), Oliveira e Costa (PSD, ex-secretário de Estado e ex-presidente da distrital de Aveiro), Valentim Loureiro (PSD, ex-autarca de Gondomar e ex-presidente da distrital do Porto), Avelino Ferreira Torres (CDS, ex-autarca de Marco de Canaveses e ex-senador do partido) e Lino Abreu (CDS, deputado no parlamento regional e ex-secretário-geral do CDS/Madeira).

Por isso, não basta Assunção Cristas vir dizer que o PS tem de fazer uma reflexão interna. Todos os partidos têm de ser mais criteriosos e exigentes na prevenção e no combate a práticas criminosas. E todos os eleitores devem ser mais exigentes e atentos, separando o trigo do joio. Só assim caminharemos para uma democracia melhor.

A lei e a ética

José Carlos Pereira, 18.04.18

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A propósito da polémica desencadeada com a revelação pelo “Expresso” dos casos de deputados dos Açores e da Madeira que recebem abono para deslocações e depois recorrem ao subsídio de mobilidade das regiões autónomas para serem reembolsados de grande parte do valor das viagens pagas, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, veio a público defender os deputados, afirmando que os mesmos não infringiram “nenhuma lei nem nenhum princípio ético”. Pois bem, os deputados podem não ter violado a lei, mas quanto à ética isso já é bem diferente.

Que eticamente esse comportamento não é irrepreensível atesta-o, se mais não fora, o facto de pelo menos uma deputada do PSD nunca ter recorrido ao reembolso das viagens e de o deputado do BE se ter demitido logo que a polémica estalou, para além da relutância de alguns deputados em esclarecerem prontamente os procedimentos adoptados. A avaliação predominante dos portugueses sobre o tema também não deixa dúvidas de que uma larga maioria considera que há um aproveitamento indevido do duplo apoio às deslocações dos deputados insulares.

O que se verifica é que os deputados encaram os abonos como autênticos suplementos de vencimento, até porque os recebem independentemente de fazerem ou não as deslocações, daí considerarem normal o posterior recurso ao subsídio de mobilidade, que se aplica a todos os residentes nas ilhas, com o objectivo de serem reembolsados de parte do custo das viagens. Tal como como os deputados das ilhas, todos os deputados que residem fora da Grande Lisboa têm uma série de subsídios e abonos de difícil escrutínio, os quais foram criados para atenuar o custo das deslocações entre a área de residência, os respectivos círculos eleitorais e a Assembleia da República.

À medida que foi crescendo a impopularidade dos políticos, estes foram ganhando receio de mexer nas remunerações dos cargos políticos, preferindo recorrer a um manancial de subsídios e abonos para “compor” os seus vencimentos, os quais são elevados à luz da remuneração média dos portugueses mas não deixam de ficar aquém do que podem auferir bons profissionais com experiência e reconhecimento nas suas actividades.

Em vez destes esquemas suplementares de remuneração, chegando-se ao ponto de subsidiar viagens e deslocações quando estas nem sequer ocorrem, preferia ver pegar de frente o tema da remuneração dos cargos políticos, sem demagogias e populismos, pagando o que se entender que deve ser pago e suportando despesas efectivamente realizadas e imprescindíveis para o exercício do mandato. Tudo seria mais fácil e, aí sim, a lei e a ética eram uma só.

Mais uma machadada na justiça

José Carlos Pereira, 05.04.17

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Não aposto um cêntimo na inocência de Dias Loureiro no processo que o envolvia no âmbito do BPN. Mas também não aposto um cêntimo na sua culpa. É à justiça que cabe investigar e  acusar. Ou, em alternativa, investigar e arquivar o processo se constatar que não é capaz de reunir provas bastantes. Como sucedeu agora com este processo que abrangia o ex-ministro e ex-conselheiro de Estado, entre outros suspeitos.

O que a justiça não pode é plantar insinuações após vários anos de investigação terem conduzido à ausência de provas concludentes. Não é a primeira vez que esta actuação ocorre e provavelmente não será a última, mas este comportamento contribui gravemente para o descrédito dos agentes da justiça. Ah, e claro que também dá uma ajuda ao populismo crescente, que olha sempre para os políticos e os mais poderosos como culpados de tudo e do seu contrário.

“Políticos palhaços”, lacaios e quejandos

JSC, 26.08.15

Durão Barroso é um daqueles políticos que ousa e luta por se manter na crista da onda e que merece especial atenção da comunicação social, que lhe mostra a cara e põe em relevo a vacuidade que despeja sobre plateias incautas.

Durão Barroso, é bom lembrá-lo, é o personagem que abandonou o Governo deste país (que dizia estar de tanga) para se instalar no bem-bom de Bruxelas.

Durão Barroso, é importante não esquecer, é o personagem que fez de mordomo na cimeira dos Açores, cimeira da monumental mentira, que criou as condições para a invasão do Iraque, causa próxima da tragédia que se abateu sobre todos os países circundantes e agora sobre a Europa.

Durão Barroso, é bom não esquecer, presidiu à UE durante dois mandatos e deixou como legado a maior crise económica, financeira e humanitária da UE.

Durão Barroso, é bom não esquecer, sempre andou a mando dos senhores do outro lado do atlântico e, obviamente, da Alemanha. Ele que agora fala da importância do Euro, não consta que tenha tomado ou proposto medidas no sentido de impor o Euro como moeda de troca internacional e de refúgio alternativa ao dóllar.

Durão Barroso diz que ficou impressionado ao ver "300 caixões alinhados nos barcos" numa das visitas que fez a Lampedusa. Em vez de exprimir sentimentos deveria dizer o que fez para resolver o problema. Problema que se agrava a cada dia que passa. Como será que o ex-Presidente da UE quer uma União Europeia "de portas abertas, mas não escancaradas"? Receber aquela gente com gás lacrimogéneo? Construir muros de betão ao longo das fronteiras? Proteger as fronteiras com rolos e rolos de arame farpado? Mandar o exército e tanques receber as pessoas que fogem de conflitos que a própria UE ajudou a promover?

Só com uma comunicação social sem memória e um povo que recebe de braços abertos estes artistas do cinismo é que gente como Durão Barroso continua a ter auditório, a fazer manchetes, a ter caminho público para andar.

"Na Europa também temos políticos palhaços." Disse Durão Barroso. Pois temos. Não faltará quem veja em Durão Barroso o paradigma disso mesmo.

O drama é que são esses políticos palhaços, lacaios e quejandos que têm governado os povos da UE.

Os Maus Hábitos do Educador

O meu olhar, 24.05.13

Carlos Moedas afirmou que as pessoas “só acabam com os maus hábitos quando enfrentam choques”.

Face a esta afirmação tenho uma proposta a fazer: tratar de mandar para o desemprego o Carlos Moedas, o Passos Coelho, os restantes membros do Governo e todos os seus assessores. Cavaco Silva fica fora desta proposta porque já esta reformado.

Pode ser que ao enfrentar o choque do potencial desemprego esta gente, que não tem decoro nem no que diz nem no que faz, acabe com maus hábitos, como por exemplo injectar dinheiro na banca como foi o caso do BPN ( 7 mil milhões) e no BANIF ( 1,1 mil milhões).

É urgente o Pais ver-se livre de um Governo que trata os portugueses como um bando de imbecis.

Nem maioria, nem Governo, nem Presidente

O meu olhar, 28.04.13
No DN

Nem maioria, nem Governo, nem Presidente
Pedro Marques Lopes


Cavaco Silva fez um discurso absolutamente irresponsável. Dividiu o País em dois, cavou com as suas próprias palavras uma trincheira e preparou-se para o combate dum dos lados. Que consensos pode agora promover? Que diálogos pode gerar ? Que confiança pode inspirar?

Não, não vale a pena lembrar "os portugueses atingiram o limite dos sacrifícios" ou o "sobressalto cívico" de há dois anos e casar as frases com a presente "não se deve explorar politicamente a ansiedade e a inquietação dos nossos concidadãos". É náusea garantida. Também não vale a pena recordar a "espiral recessiva" de há apenas três meses. A falta de memória auto-infligida já não é propositada, é apenas desprezo por quem nos falha em tão decisivo momento. E não, também não é raiva pela incapacidade do nosso mais importante representante de não perceber o sentimento popular. O verdadeiro consenso que vai da esquerda à direita, de grande parte do seu PSD, dos seus próprios apoiantes, de todos os parceiros sociais. O consenso que rejeita a solução que agora é benzida por Cavaco Silva. A que, de forma clara e cristalina, ele acha que, apesar dos problemas, tem um saldo positivo. Um saldo positivo de miséria, de desemprego, de recessão, de incompetência, dum futuro sem perspectivas. Curiosamente, Cavaco vocifera contra as políticas de austeridade europeias e faz o tal balanço positivo das nossas. A irresponsabilidade é parente próxima da inconsciência.

Mas que fique rigorosamente claro: ninguém lhe pedia que escolhesse um lado, que optasse por contestar ou mesmo demitisse o Governo. Bem pelo contrário. Apenas que actuasse como Presidente da República nas circunstâncias presentes. Que se pusesse acima dos partidos, que fosse um fazedor dos consensos, um conciliador de vontades.

Mas Cavaco Silva não desistiu só de ser verdadeiramente um Presidente da República. Parece também ter desistido da Democracia. No dia 25 de Abril, na casa da democracia portuguesa, Cavaco Silva teve a ousadia de dizer que resultados de eleições nada mudariam, que "de nada valerá integrar o Governo ou estar na Oposição". Como se a decisão dos cidadãos de nada valesse, como se as opções dos portugueses devam ser desprezadas se não forem as consideradas certas por Cavaco ou a troika ou a Europa ou por quem quer que seja. Como se o povo não fosse soberano e tivesse que ser guiado por um qualquer iluminado.

A maioria deixou de o ser, o Governo está em desintegração e desde quinta-feira nem Presidente temos. E ainda há quem diga que não estamos a viver uma crise política.