Uma vitória retumbante
António Costa teve ontem uma vitória retumbante nas eleições primárias do PS. Ao obter mais de 118.000 votos, correspondentes a cerca de 68% dos votantes, Costa saiu destas eleições com uma legitimidade redobrada perante o país e os portugueses.
Apoiei publicamente António Costa, tendo decidido inscrever-me como simpatizante para lhe outorgar o meu voto. Acreditava na sua vitória, naturalmente, mas confesso que esperava uma disputa mais equilibrada, face a um secretário-geral em exercício de funções há cerca de três anos e que sempre se esforçou por estar muito próximo do denominado "aparelho". Contudo, a onda de apoio a António Costa varreu o país e atingiu números inesperados.
No Porto, por exemplo, apesar do presidente da Federação Distrital ser um forte apoiante de António José Seguro e de todos os presidentes de Câmara do PS apoiarem o secretário-geral socialista, ainda assim António Costa venceu de forma expressiva, com cerca de 53% dos votos.
Nunca se saberá qual foi a distribuição de votos entre os militantes e entre os simpatizantes, mas é claro para mim que as eleições primárias, o recurso usado por Seguro para ganhar tempo face à disponibilidade anunciada por Costa para lhe disputar a liderança, vieram aproximar mais o PS daquele que era o sentimento generalizado entre os portugueses: Costa é melhor candidato a primeiro-ministro do que Seguro e reúne melhores condições para derrotar a maioria de direita no poder.
O processo de substituição da liderança não devia ter sido tão longo, o que apenas serviu para criar fracturas entre os socialistas e agudizar antipatias e rivalidades que as redes sociais vieram empolar. As próprias eleições primárias, pese embora todo o cuidado colocado na sua organização, estiveram longe de ser exemplares. O acto de participar e votar, que devia ser voluntário e individual, dispensava o arrebanhamento de votantes e a disponibilização de carrinhas de transporte por empresários que já tiveram responsabilidades políticas, como sei que sucedeu. E logo da parte de quem proclamava, alto e bom som, contra a promiscuidade entre a política e os negócios…
Segue-se agora um período de alguma fragilidade interna no PS, sem um líder formal em funções até às próximas directas para secretário-geral e com órgãos dirigentes periclitantes, mas António Costa saberá, por certo, agregar os melhores quadros e unir o PS na caminhada rumo às próximas legislativas. É isso que lhe exigem todos os que se revêm na esquerda democrática.
