O título do folhetim de hoje é de Blas de Otero, poeta grande entre os grandes e resistente entre os resistentes, ao franquismo primeiro e a tudo na realidade.
E se uso Otero nesta croniqueta é porque talvez (um talvez esperançado mas não muito) o seu nome seja conhecido por Eduardo Ferro Rodrigues, pelo menos devido ao facto do poema com este título ter dado origem a uma bela canção de Paco Ibañez que se ouvia muito nos anos duros a cujo estertor final EFR assistiu e, aliás, para o qual colaborou, honra lhe seja.
Gostaria de começar com um “meu caro Féfé” mas não o faço. Foi na qualidade de Presidente da Assembleia da República que ele tropeçou e a uma autoridade destas há que, mesmo para a criticar, usar um tom que sem ser subserviente não caia no desrespeitoso ou no demasiado familiar.
De facto, ontem o sr. Presidente da AR perdeu a cabeça e a contenção exigida pelo alto cargo que exerce. E, pior, cometeu uma injustiça ao tratar diferentemente dois deputados que usaram a mesma palavra “vergonha”. A um tratou-o rudemente, para não dizer mal, para não dizer que abusou da sua posição naquele areópago. Ao censurar o termo “vergonha” e, sobretudo ao extrapolar do seu uso para um insulto aos restantes deputados, o sr. Presidente demonstrou (mesmo que, como espero, contra vontade e para além do que devia) uma impaciência (e estou a ser demasiado suave) e um forte desconhecimento da língua portuguesa.
“Vergonha” mesmo no plural (“vergonhas” por partes pudendas masculinas ou femininas) não é insulto.
Mais: é usado aqui e em muitos outros lugares, parlamentos incluídos e quase não há sessão no britânico em que alguém não brade em discurso ou em aparte, “shame on you!”
Eu, como o dr Ferro Rodrigues (presumivelmente) não tenho qualquer simpatia pelo doutor André Ventura. Em boa verdade tenho mais sorte que o meu ex-camarada de MES porquanto nem sequer conheço a criatura e muito menos sou obrigado a ouvi-la.
Porém, o Presidente do parlamento está lá para ouvir sem emoção os desabafos, desde que civilizados, dos deputados. E mesmo os outros pois a AR já foi palco de muita discursata ofensiva.
Não cabe nas funções de Presidente da AR deidir qual o português que se usa e, muito menos, interpretar semanticamente o que se diz. No caso, nem sequer é uma interpretação. É uma distorção absoluta ou, em língua corrente e, com o respeito devido, uma asneira de todo o tamanho.
Há porém mais, como argutamente o notava o caricaturista Luís na última página do Público de hoje. O dr Ferro Rodrigues deu, de mão beijada, ao representante (por enquanto único) do Chega uma oportunidade extraordinária de mostrar urbi et orbe, que é perseguido por quem deveria velar pela ordem , pela paz e pelo bom uso legítimo das palavras na AR
A coisa torna-se ainda mais caricata, o dr Ferro Rodrigues que me desculpe, quando na mesma sessão uma deputada do BE usou a mesma palavra sem ser admoestada.
Claro que poderemos sempre pensar que o dr Ferro Rodrigues quis ser um “galantuomo” e tratar uma senhora com requintes de amabilidade e compreensão. Mas também aí erra e não pouco. De facto o BE é um potencial aliado do PS, partido a que o dr Ferro Rodrigues pertence. Fez parte da “geringonça” e os seus votos são fundamentais para a aprovação do Orçamento.
Não ouvir a “vergonha” do BE quando ao som da outra do Chega se perde a calma e a razão e o sentido da língua é um erro dramático e um péssimo sinal para a defesa da democracia. Pode parecer parcialidade!
E em política, dr Ferro Rodrigues, o que parece É
(a parte: como amigo do visado a quem reconheço humor e inteligência devo dizer que fiquei arrepiado com a sua intervenção, com o tom que usou que me pareceu prepotente. Numa palavra: estou envergonhado)
Reedita-se, graças ao jornal “Público” o livro de Victor Palla e Costa Martins “”Lisboa “cidade triste e alegre””. Trata-se de uma obra há muito desaparecida da circulação e que atingia preços elevadíssimos nos raríssimos leilões de alfarrabistas em que algum exemplar era licitado. Pessoalmente, nunca a tinha visto, mesmo se acompanhara uma que outra almoeda em que constava.
Trata-se de uma obra compósita recheada de excelentes fotografias (a preto e branco) comentadas por grandes autores contemporâneos da 1ª edição (Alexandre O Neil, Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira precedida por um belíssimo texto de Rodrigues Miguéis) e é mais uma mostra do invulgar talento de Victor Palla e de Costa Martins.
Sairá em fascículos semanais (sábado) até fins de Julho e apresenta-se como um fac-simile da 1ª (e única até hoje) edição. Celebremos a ideia, a oportunidade, a possibilidade de muita gente se poder deliciar mas levante-se desde já uma objecção pouco meiga:
A “maioria dos herdeiros” (sic) exigiu contratualmente uma redução de 15% lineares nas dimensões da edição original, conforme consta do que, eventualmente será a última folha da obra.
Portanto, quanto a fac-simile, estamos conversados. Mas, independentemente disso, esta exigência da referida e famigerada “maioria dos herdeiros” (que em nada contribuíram para a edição orginal e se limitam a perceber os direitos desta), fere gravemente a edição. Alguém acredita que Victor Palla (logo ele!) e provavelmente Costa Martins não tiveram o cuidado de fixar com rigor as dimensões daquele livro-objecto?
Terá a esforçada “maioria dos herdeiros” sequer uma vaga consciência do que significa esta amputação da obra dos dois autores?
Será que essas mal inspiradas criaturas temeram que esta edição pudesse concorrer com a desaparecida e valiosa anterior que, de resta está toda na mão de colecionadores e leitores?
Ou presumirão estes surpreendentes herdeiros (“maioria”) que com esta alteração melhoraram a obra dos autores?
Deixemos este pequeno atentado na consciência (se a têm) da tal “maioria” de herdeiros. De certo modo, esta posição ridícula, estúpida e presunçosa, demonstra claramente que o talento, a criatividade e a inteligência não se herdam.
E compremos, mesmo assim, este belo livro. Será, de todo o modo, uma homenagem aos seus autores que não são culpados de terem os herdeiros que lhes caíram na rifa.
O Parlamento chumbou as propostas de legalização da eutanasia. Porém, o grande problema do distinto areópago era outro: nenhum dos senhores e senhoras deputados/as estava mandatado para se pronunciar sobre esta questão. Retificando: o PAN teria colocado a questão no seu programa eleitoral. Os restantes, nada.
Percebe-se, aliás, a razão, desta omissão tremenda da defesa dos direitos humanos: há custos, altos custos, eleitorais neste tipo de propostas fracturantes.
A senhora coordenadora do BE já disse que voltará ao Parlamento com proposta idêntica. Espero que, dessa vez, o faça confortada com o voto dos seus eleitores. O mesmo desejo para os restantes. É bom, é salutarmente democrático, que os eleitores saibam o que farão os deputados com os votos por aqueles conferidos. Espero, mesmo com fortes dúvidas, que todos os que vierem solicitar o nosso voto tenham a coragem de em plena campanha se assumirem como defensores ou opositores da eutanásia.
Pessoalmente, quero ser eu a decidir sobre a minha morte. Recuso-me, todavia, a obrigar quem quer que seja, mormente médicos ou enfermeiros do SNS, a aceitar a minha decisão e a (eventualmente) violar a sua consciência.Em segundo lugar, devo advertir que a famoa discussão pública foi escassa, quase inexistente.
E, já agora, gostaria de saber porque raio não me é permitido pedir a um par de amigos que me atirem ao mar. Parece que isso, com ou sem eutanásia, é proibido. Notem que nem falo de um pobre vivente mesmo em coma inexorável e em grande sofrimento: falo do meu desditoso futuro cadáver.
Ou será que alguém pretende proteger as funerárias que à falta de se poderem cevar no morto, cobram balúrdios aos vivos que sobram? Senhores deputados, esta causa não é fracturante, não defende especiais direitos humanos mas tambem não ofende as crenças de quem quer que seja.O mar dá-se melhor com um cadáver do que com o plástico, o lixo, os óleos contra o sol e outras porcarias do mesmo tipo. Desejo-vos boa vida e, se possível, melhor morte.
A criatura Bruno de Carvalho devido às suas conferencias de imprensa e aos seus escritos é claramente responsável e cúmplice do gang que atacou o centro de estágio.
Ninguém acredita que os cinquenta cobardes de cara tapada tenham agido sem terem as costas quentes e sem uma palavra de ordem. De onde poderia ela vir senão de quem desde há meses atiça o fogo e o ódio aos jogadores?
A minha proposta é simples: imediata passagem do clube a um escalão inferior, se possível bem inferior. Ninguém pode aceitar que o “fecundo ventre” de onde saíram os agressores apareça nos estádios rodeado dos gangues organizados que vivem por ele, para ele e com ele. Se até o principal e festejado goleador Bas Dost está ferido e impossibilitado de jogar na final da Taça, que é que se pode esperar desta súcia que anda por aí à solta?
(estava eu a escrever este folhetim e eis que a SIC fornece o registo de uma conversa de um responsável (e intermediário) sportinguista que, sem papas na língua, se alarga (e confessa) sobre a tentativa (dele) de corrupção de árbitros de andebol. Estamos num mundo nauseabundo.
Os dois versos que titulam este folhetim andam comigo à cerca de cinquenta anos. São de Nietzsche, o admirável, e fazem parte dos “Ditirambos dionisíacos”. Quem se interessar pela grande poesia alemã encontrará a tradução da poesia de Nietzsche nalgum alfarrabista mais atento (ou feliz). Caso contrário, a Gulbenkian publicou as “Obras de Paulo Quintela” (ou um título do mesmo género). Nesse conjunto há três volumes de traduções de poesia e num deles vem a obra poética do filósofo. Imperdível! A ler com extrema urgência!
Vem isto a propósito de alguns nacionais e recentes óbitos de livrarias. Sem ir mais longe desapareceram, numa penada desde o início do ano, a “Leitura” no Porto, a “Miguel de Carvalho” em Coimbra e a “Pó dos Livros” em Lisboa.
Sabe-se, igualmente, que um senhorio insaciável já terá dado ordem de marcha (e de despejo) a mais três alfarrabistas da rua do Alecrim em Lisboa (a Campos Trindade, a António Trindade e o Centro Antiquário do Alecrim).
Conheço muitas cidades por via das suas livrarias ou oriento-me nelas seguindo caprichosos itinerários nem sempre planeados entre uma e outra.
(a este respeito vale a pena contar que na última estadia em Veneza, andando eu ocupado em mostrá-la à CG, metendo sempre por ruas novas e inesperadas, calhou que, vindo do Rialto para o Campo di San Fermin, oiço a minha mulher soltar o medonho rugido da leoa esfomeada que vê um antílope apetitoso e descuidado. Era, à nossa direita, uma loja de lãs. Fiquei aterrado: a CG é uma temível tricotadeira e anda sempre em busca de algum mirífico fio. “Ai, Jesus, que isto é para uma hora pelo menos”, suspirei in imo pectore. Já me resignava ao inevitável quando, ao olhar para esquerda me deparei com uma livraria. Enquanto a CG avançava para as lãs, precipitava-me eu, em voo picado, para a salvadora loja. Era um verdadeira livraria dedicada a Veneza e história veneziana com extensões ao Veneto. Uma maravilha! Depois de visitar com detalhe um par de títulos, conversei com o livreiro sobre a sua excepcional, e cara!, mercadoria e à saída, ajoujado de compras e aliviado de mais euros do que devia, pedi-lhe um cartão da livraria para poder lá voltar. Espantado, descobri que tinha entrado na “Linea d’Acqua”, um livraria recomendada por um grande amigo e vizinho. E disse-o ao livreiro. Este perguntou-me de onde vinha e quando o informei que do Porto, retorquiu-me seguríssimo: “Ah, então foi o António Abreu! “
E, de facto era. O AA era um ávido leitor e um verdadeiro veneziano. Todos os anos, passava lá quinze dias, hospedado numa casa alugada no Cannaregio, o último sestiere acessível ao turista português. )
Voltemos, porém, às livrarias que desparecem. Não é de hoje esta doença mortal dos negócios que envolvem a venda de livros. Lembro-me, pesaroso, da excelente “Havanesa” na Figueira, poiso de livros e de tertúlias fieis. Em chegando à terra, o meu primeiro destino era a Havanesa, mesmo antes de ir vera família ou pousar a mala. Em Coimbra, desapareceram várias livrarias, entre elas a enorme “Atlântida” que enchia dois pisos, a “Luso-Espanhola” onde comprei os primeiros poetas de língua espanhola ou a “Cunha”, uma pequena loja cheia de títulos antigos e difíceis de encontrar. Em Lisboa vi morrer a “Opinião” (lugar de encontros inesquecíveis), a “Bucholz”, e a “Sá da Costa” (construída de raiz para ser livraria)bem como as alfarrabistas “Camões”, “Burnay”, “Barateira” e outras de que nunca soube o nome embora nelas tenha encontrado e comprado livros. E ainda, já há alguns anos as vizinhas “Portugal” e “Aillaud & Lello”. A Galiza passou é menos interessante depois do desaparecimento da “Michelena” em Pontevedra onde havia um cão que dormia junto das estantes (no plural!) de poesia. De Paris, então, nem consigo saber quantas foram encerradas. Tenho um vago pressentimento que, só nos 5º (Quartier Latin) e 6º (St Germain des Prés/Montparnasse) bairros creio que já contabilizei vinte desaparecimentos entre 1970 e 2000. Desde “La joie de lire” até à “Librairie du Globe” com obrigatória passagem pela opulenta “PUF” que de horas perdidas e encontradas na felicidade de folhear, cheirar, ler e comprar livro após livro. Outras, mais pequenas mas, por vezes, mais curiosas não conseguiram defender-se dos abutres do turismo e do luxo que contaminaram ruas inteiras com restaurantes de baixa, baixíssima, qualidade, de “hostels” quando não de boutiques de luxo onde se não vê viva alma. Neste capítulo Saint Germain bate tudo o resto.
Eu sou um leitor inveterado, viciado, possuído pelo demónio dos livros. Gastei, ao longo de uma vida que já vai longa, uma fortuna (no verdadeiro sentido da palavra) a encher esta casa de livros. Vai para cima de 24000 o que mais do que um exagero é uma tolice arrogante. Nunca conseguirei lê-los todos mesmo se neste grupo haja, à vontade, mais de 4000 títulos de obras de consulta que obviamente podem passar anos sem que lhes toque.
Quando me apaixono por um tema (e eu sou, nesse campo, um incurável pinga-amor) desato a comprar tudo o que lhe diz respeito, sabendo perfeitamente que esse excesso denota mais falta de critério do que razão e bom senso. Sou um biblio-adicto, isto deve ser semelhante ao que se passa com os cocainomanos, só que mais caro.
Todavia, a morte das livrarias, e de uma só vezada apontei seis mais acima, não desconsola apenas os viciados. Mostra, também, e com que crueza, o estado da chamada “cultura” no “torrãozinho de açúcar”. Cresceu muitíssimo o número de editoras mas baixou torrencialmente o número de exemplares editados de um mesmo título. Vendem-se, ou estão à venda, centos de títulos assinados por personalidades do jet set, da televisão ou da política que nos atormentam quotidianamente. Quase desapareceu a edição de poesia e a de teatro – se existe – vive na mais pura clandestinidade. Só de autores portugueses há uma boa centena desaparecida das estantes e das montras. Quem quer, vai por eles aos alfarrabistas. E esses mesmos vão sendo paulatinamente escorraçados da cidade. É o caso, gritante, da “Miguel de Carvalho” em Coimbra. Esta livraria estava na “baixinha”, muito perto das escadas dos gatos e da portagem num sítio que poeticamente se chamava “Adro de Baixo”. A livraria, quase paredes meias com outra (“Minerva”) era muito bonita, confortável e tinha no andar de cima um espaço para o comprador se sentar confortavelmente e folhear o que lhe apetecesse. O espólio era bom e o atendimento impecável. Miguel de Carvalho, o proprietário, pequeníssimo editor de obras surrealizantes, tinha a paixão da livralhada. Abandonara a engenharia pelo incerto comércio das espécies bibliográficas e mensalmente fornecia, por mail, um catálogo das últimas novidades adquiridas e postas em venda. Numa cidade universitária com mais de vinte mil estudantes não encontrou público que garantisse a sobrevivência da livraria. Assim vai a nossa universidade, assim vão os nossos intelectuais e as nossas futuras elites.
A “Leitura”, então é um caso medonho. Começada na década de cinquenta com o nome de “Divulgação” rapidamente se tornou um sério caso de sucesso. Comprei nela, com as primeiras e modestas mesadas, os primeiros livros. Lembro-me mesmo dos títulos de dois deles: “Alguém Mora na outra margem” (Carlos Gabriel) e “Sete poemas para Egéria e notícia para mim” (Helder Grilo Gonçalves -ou Gouveia?). Era obra de um grupo de amigos que, de facto, eram liderados por Fernando Fernandes, um livreiro de mão cheia mesmo numa cidade onde competia com Domingos Lima (Lello) e com três gerações Perdigão (Latina). O Fernando levava a profissão a sério, importava livros de todo o lado, fornecia (oh truque malévolo!...) o “bulletin du livre” a uma série de clientes que retorquam com encomendas volumosas. Outro dos seus hábitos era o de anotar vendas e pedidos de clientes que ele considerava “seminais”. O pedido vinha sempre em duplicado ou triplicado e o livro era proposto a clientes cujos hábitos de leitura parecessem semelhantes ao do primitivo encomendador. Convém lembrar que a “Leitura” começou por se designar “Divulgação” até, na sequência de uma crise de crescimento, se abrir a mais um sócio e se baptizar definitivamente. Morre, agora, anos depois de FF a deixar, sob o nome tolo de Leitura books and living, parvoiçada saloia que denunciava já um morte a prazo.
Agora, e eu pecador me confesso, as tradicionais livrarias começam a ser ultrapassadas pelos circuitos na internet, mormente pela amazon. A razão é simples: através desses gigantescos circuitos conseguem-se livros praticamente esgotados ou há muito desaparecidos das estantes. A Amazon, a Alapage, a Chapitre, a Decitre ou a Abebooks, respondem com qualidade desigual a essa necessidade. Em Portugal a Wook traz-nos a casa com desconto e sem portes de correio livros recentes ou até menos recentes. Todavia, nestes mundos da internet algo se perde e se arrisca: compram-se os livros às cegassem a possibilidade de com vagar os folhear e consultar. Só leitores empedernidos e sabedores do que pretendem se podem arriscar. E mesmo assim...
Depois, as livrarias foram (e algumas ainda são) centros de convívio para já não falar na descoberta sempre entusiasmante de livros de que nunca se ouviu falar. Basta correr as estantes mesmo com um olhar distraído.
(a este propósito recordo que na Figueira, sob o adro da Igreja de S Julião –a principal – havia uma livraria devota animada por duas senhoras mais católicas do que o monsenhor Palrinhas de saudosa (?) memória. Certo dia, nos idos de 60 descobri na montra entre missais e hagiografias piedosas “A semana santa” de Aragon! Todos os meus amigos foram visitar essa montra e ver o lugar de honra obtido pelo romance do comunista Aragon. O que nos divertimos!)
Em Portugal coabitam as mais extravagantes manias. Há anos foram os bancos que, numa ansia de abrir balcões (que agora fecham sem dar cavaco a clientes e trabalhadores), desalojavam veneráveis cafés e pastelarias e desertificavam ruas e praças. Agora, sob a ilusória luz de um turismo que durará enquanto durarem as guerras no Mediterrâneo e os baixos preços do alojamento e da restauração por cá, fecham-se livraria e outras lojas tradicionais. Há ruas que já ó tem prontos a comer de mais do que duvidosa qualidade. O seu tempo será limitado pela concorrência crescente, pelo fim do voyeurismo turístico e pela impreparação profissional dos seus novéis exploradores. As bolhas rebentam sempre mas o que foi destruído já não volta. E o deserto cresce...
As gravuras: a preto e branco o interior da ainda Divulgação mais tarde Leitura
Também a preto e branco "La joie de Lire" (Paris)
A cores -se estou certo, o interior da Havanesa (Figueira da Foz)
Existe no Porto, desde finais dos anos sessenta, um conjunto residencial que abrange doze grandes edifícios (igreja incluída) que rodeiam um jardim de boa dimensão para além de boa parte deles estar implantada em zonas ajardinadas e/ou arborizadas. O nome oficial do conjunto é “Parque Residencial da Boavista” mas, na cidade, toda a gente o conhece como “Foco”, nome de um excelente cinema que ainda existe mas fechado. Também fechados estão um hotel de cinco estrelas e um supermercado). Esta obra foi projectada por três conhecidos arquitectos (Agostinho Ricca acompanhado por Magalhães Carneiro e João Serôdio). É no dizer de todos, um conjunto de excepcional qualidade, de grande beleza e passados mais de cinquenta anos sobre a sua concepção nem uma ruga se nota. Obra exemplar da chamada “arquitectura moderna”, há muito que se pensa propor a sua classificação como “área de interesse urbanístico e aruitectonico”. Para além de milhares de moradores, há galerias de comércio e de escritórios e actualmente existem vários projectos de instalação de empresas e serviços nas escassas áreas que a crise tornou vagas. De todo o modo, excepção feita do hotel (que pertencia ao BES e por isso está ainda pendente de ulterior definição), regista-se um crescente interesse por ocupar os poucos espaços ainda vagos. Aliás, entre esses está um edifício de escritórios que justamente é o motivo deste folhetim.
Ao que se sabe, uma empresa (Atitlan Real Estate Porto Imóveis SA) está a fazer obras de restauro e julga-se que este espaço estará integralmente ocupado até meados do ano. Celebre-se a boa novidade mesmo se, para os moradores e comerciantes instalados, esta ocupação traga problemas de estacionamento e de mais trânsito tanto mais que nas imediações estão instaladas duas escolas secundárias, um estádio de futebol e outro hotel.
Nada, porém, explica a estranhíssima ideia da empresa proprietária deste edifício que divulgou uma vista futura da empena do prédio coberta com uma intervenção do artista Vihls que clara e definitivamente contende com as linhas puras e simples deste prédio e dos restantes.
Só uma canhestra e aberrante concepção da modernidade, explica que numa obra reconhecida como de excelente arquitectura se vá pôr um remendo (por muito interessante que Vihls seja) que não só não melhora nada (nem sequer falamos de uma ruína ou de um prédio degradado) mas desfeia um conjunto admirado por arquitectos, artistas plásticos, críticos e cidadãos comuns moradores ou não.
Quem estas linhas traça habita o “foco” desde 1975. Está instalado num apartamento de mais do que generosas dimensões como todas as tipologias dos diferentes edifícios. No Porto (e em qualquer outra cidade) já ninguém faz casas assim, espaçosas e inteligentemente organizadas. Já ninguém faz um conjunto de edifícios com um enorme jardim no meio (que os habitantes iniciais de um dos prédios ofereceu à Câmara. Fiz parte desses ofertantes e nunca me arrependi. Só tenho uma imensa saudade do meu primeiro apartamento na zona um T1 com 81 m2 (!!!) que entretanto troquei por um T4+1 um pouco mais acima também ele de dimensões inusitadas para não dizer impossíveis de encontrar hoje em dia.
Escrevo pois, pro domo mea, mas não é isso que me faz indignar-me com a bacoquice provinciana e estulta da “Atitlan qualquer coisa em ingliche para aturdir os passantes”. Às imobiliárias, infelizmente, ninguém pede bom gosto embora seja recomendável. E bom senso sobretudo quando, por toda a cidade, se verifica um maior cuidado com a construção e com o restauro de imóveis. Pede-se, isso sim, respeito pela arquitectura, pela harmonia, pela história. Para estragar há, seguramente, muitos sítios ainda por construir.
Não é por acaso que, num abrir e fechar de olhos, apareceu uma petição pública dirigida à CM do Porto a requerer a urgente classificação de todo o conjunto. Assinam-na muitos arquitectos, claro mas muitas mais outras pessoas que vivem na cidade, sentem a cidade como sua e reconhecem sem dificuldade a diferença entre um prédio medíocre (e há tantos, cá como em qualquer outro lugar) e algo que durante mais de cinquenta anos ainda se pode gabar de ser emblemático.
Já se destruiu e desfeou demasiadamente. Proprietários, chicos-espertos, empresas ambiciosas destituídas de qualquer bom gosto aliaram-se para tornar grandes zonas urbanas inabitáveis e irrespiráveis. A ganhunça obscena é a palavra de ordem geral. Há que dizer “BASTA” a esta enxurrada. Sob pena de, mais dia menos dia, ficarmos soterrados por um tsunami de falsa engenharia, de arquitectura feita por mestres de obras ignorantes e de criaturas que confundem Vieira da Silva com os graffitis da estação de Campanhã.
Claro que a empresa em causa ao sentir o temporal já começou a tentar recolher o velame. A obra de Vihls teria um “carácter efémero”, juram. Um empena com a altura de oito ou nove pisos e parte de uma outra fachada adjacente custa só numa borradela pobre um ror de dinheiro. Pedir a um conhecido artista como Vihls que a cubra é coisa para muitos e bons milhares. Em efémero? Esta gente é tonta ou quer fazer-nos passar por parvos? Ou no inglês de merceeiro deles, julgam que somos a bando of fools?
Stop it!
Stop it now!
Stop it, porra!
* a petição corre na internet sob o nome “pela classificação patrimonial do parque residencial do Boavista Porto”
Subitamente, uma reportagem televisiva (TVI) alvoroçou os portugueses.
Alvoroçou e perturbou por razões várias que a seguir se exporão.
Parece que a associação “Raríssimas”, uma IPSS (Instituição Privada de Solidariedade Social) funcionava de forma altamente surpreendente. Não negando o interesse (e eventualmente a obra realizada) parece que tinha uma presidente que era generosamente abonada pelos seus serviços: um ordenado de 3.000 euros, ajudas de custo que iam quase até aos 2.000 sem falar de um fundo abonado para aposentação no valor de 800 euros mensais.
No meio disto tudo ainda constavam umas despesas extravagantes (gambas, vestidos, spa, etc...)
Comecemos, porém, pelo ordenado da senhora em causa. Nas IPSS o máximo admissível ronda os 1650 euros ou seja praticamente metade do que a dirigente percebia. Isto não contando os outros pagamentos que, nas minhas contas andam entre 2000 e 2800 euros mensais.
Também, parece certo que a generosa presidente da Raríssimas empregava na instituição familiares directos (pelo menos um marido e um filho) desconhecendo-se quais as competências destes.
Como vai sendo costume no “torrãozinho de açúcar” a instituição convidava políticos de todos os bordos para os órgãos sociais (até o actual ministro Vieira da Silva foi, durante dois ou três anos vice-presidente da Assembleia Geral. A título gratuito, assegura ele coisa de que não duvidamos. Sem saber como a casa era gerida, o que se aceita com alguma dificuldade. A mulher do ministro foi a Agrenska (Suécia) como participante num congresso ou colóquio em 1916 sendo o pagamento da viajem adiantado pela Raríssimas que depois terá sido ressarcida pela organização do evento. Desconhece-se se a senhora dr.ª Sónia Fertuzinhos teria especiais conhecimentos para intervir sendo certo que não é uma especialista em saúde. Aliás, convém lembrar à sr.ª deputada que esta viajem decorreu na altura em que o marido era ministro da tutela e só isso a deveria ter feito pensar duas vezes. Mas, mesmo com singular esforço, acredita-se na ingenuidade da conhecida política. Políticos ingénuos não faltam por aí, mesmo se, na generalidade o grau de ingenuidade não vá tão longe)
A mulher do antigo Presidente da República terá sido madrinha da Associação. De todo o modo, a sr.ª Cavaco Silva deve ter apadrinhado dezenas ou centenas de organizações semelhantes. As primeiras damas adoram esse eminente serviço patriótico e social e não falham uma oportunidade para demonstrarem o seu acrisoladoo amor pelos desprotegidos. O combate feminista para aqui: em sendo primeiras damas estas abnegadas criaturas dedicam-se à caridade ou às artes e letras, ainda que em circuito limitado e desinteressante.
Há um senhor Secretário de Estado que colaborou antes de se governamentalizar com a instituição. Recebia uns pingues 3.000 euros mensais pelo trabalho de consultor. Ignora-se em que o robusto talento deste melhorou a Raríssimas mas não se duvida que deverá ter deixado um rasto forte.
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(razões de vária ordem, interromperam aqui o folhetim que se retoma 24 horas depois)
O aludido Secretário de Estado já não é. Que desperdício! O Sr. Ministro tropeça nas cada vez mais patéticas explicações sobre a sua inacção. Sabe-se agora que as denúncias foram periodicamente enviadas ao Ministério desde Agosto. Devem ter-se perdido no correio ou nalguma gaveta traiçoeira do Ministério: aquilo é tão grande...
Também se compreende (se é que compreender é o verbo adequado) cada vez menos a excursão da amantíssima esposa do Ministro à Suécia.
Fossem estes tempos os de Passos Coelho e já o estrondo protestário teria ululado por todo o país e regiões autónomas. Isto porque já não há colónias senão até de Timor chegariam patrióticos e indignados protestos.
A coisa está tão negra mesmo se tudo se passe sob a imposta surdina da “geringonça” que o próprio PS quer o Ministro no Parlamento!...
Vê-se que os tempos são diferentes e as indignações mais do que moderadas.
De todo o modo, convém relembrar aos mais distraídos duas ou três verdades. A primeira é que sem IPSS o país estaria muito, medonhamente, pior. A segunda é que uma IPSS é algo que fica bem no botão da lapela de um político. A terceira é que em milhares de IPSS milagre seria se, volta e meia, não houvesse escândalo.
Eu próprio acabei a minha carreira na Segurança Social com uma intervenção numa Misericórdia entregue a um Provedor manhoso que a sangrara até ao tutano. Disso haverá um pequeno eco nos primeiros tempos deste blog e, sobretudo nos jornais locais e nacionais da altura. Hoje em dia, confesso que me diverti, mas não deixo de reconhecer que durante três meses enfrentei toda a espécie de dificuldades, faltaram-me apoios e foi preciso algum, bastante, sangue frio para que a minha pequena equipa (uma técnica social, um jurista e uma economista) ganhasse aquela guerra.
(Na semana posterior à nossa vitória, a Câmara Municipal, uma empresa local e um benemérito também local entregaram-me quase três mil contos para recomeçar quase do zero a tarefa para que a Misericórdia fora fundada.
Este folhetim vai dedicado à memória do dr. Sílvio Matos, amigo desde Coimbra, meu subordinado durante anos e devotado colaborador nesta campanha que ele abraçou com entusiasmo, abnegação e muita competência.
Não refiro a restante equipa para lhe evitar problemas idênticos aos que, depois, tive com alguns dirigentes da Segurança Social. Há gente que não suporta o sucesso dos outros.
O “jornalismo” de referência de vez em quando descarrila
Sou um empedernido leitor de jornais. Sempre fui, parece-me. Mantenho com elas uma relação de fidelidade quase canina. Com “Le Monde” a relação tem 55 anos. O mesmo com “L’Express” mesmo se, ao longo destes anos, a revista tenha mudado muito, demasiadamente. Durante muitos anos fui um fiel leitor do “Diário de Lisboa”, um vespertino de que me saparei algum tempo depois do 25 A.
Quando o “Público” apareceu (vai para quase trinta anos) despedi-me sem saudades do JN e nunca mais comprei outro jornal diário (português). Volta e meia, irrito-me mas, genericamente (como no caso do “Le Monde”, “El País”, “La Republica”), não desisto.
Todavia, há dias em que me zango. E hoje é um deles. Desde há muito que no “Público” há uma secção chamada “espaço público” que normalmente acompanha o editorial. A coisa funciona assim. Alguém, os redactores, suponho, dão setas verdes ou vermelhas a pequenas notícias. Algo semelhante aos “altos e baixos” do Expresso. Hoje, segunda feira, havia duas notíciasa verde uma nem sim nem sopas e uma a vermelho. É sobre esta que quero escrever: o sr Rajoy foi à Catalunha apoiar o PP local e num comício pediu o voto da maioria silenciosa para “recuperar a região do caos do separatismo”.
O redactor notador achou isto péssimo, mesmo se não saibamos se é a frase em si (dentro de comas), a recuperação (perfeitamente alcançável dado o que sabemos) ou a referencia ao caos do separatismo.
Vejamos
A frase é perfeitamente plausível num político conservador ou até num político qualquer desde que não seja a favor do separatismo.
Que Rajoy apele a essa maioria (que raramente vota e que, segundo consta, é contra a independência) é absolutamente normal e se seta vermelha houvesse seria devido a não pedir esse voto.
Que a Catalunha enfrenta grandes dificuldades futuras ninguém duvida. Fugiram, até sábado passado, 2700 empresas. Pelo menos metade (aliás um pouco mais) dos votantes nas últimas legislativas é anti independentista e já se tem manifestado com uma força semelhante às manifestações independentistas. Que uma “república catalã” ficaria absolutamente isolada na Europa (ou na Europa da UE) é, até à data, uma clara certeza. Que os cidadãos catalães ficariam fora do euro, de Schengen, idem. Que o principal mercado catalão (a Espanha) pode fugir, boicotar, diminuir é outra verdade de La Palisse. Que isso criará dificuldades enormes e protestos identicamente fortes é uma evidência. Que o primeiro ministro de Espanha não queira uma situação deste género nem merece discussão.
Portanto, pergunta-se à criatura que assina RS onde é que ela vê razão para uma seta vermelha.
Claro que RS pode não gostar de Rajoy. Pode detestar o PP e os conservadores onde quer que seja. Pode ter um profundo amor pela “causa catalã”, pelo senhor Puigdemont, pela senhora Forcadell, pela CUP. Pode detestar medonhamente a Espanha, a União Europeia, o euro e sei lá o que mais.
Todavia, para isso, só tem de pegar na caneta e escrever um artigo de opinião. Se a tem. Se é capaz de falar do assunto com um mínimo de conhecimento e, já agora, de qualidade. Não pode, ou não deve, fingir que a sua seta tem razão de ser numa notícia de dez escassas linhas. A menos que ache que Rajoy é um fascista encapotado que, de faca nos dentes, está a invadir a Catalunha para sufocar pela força das armas o que alguma lei (qual) direitos ofendidos e legítimos.
Já por aqui falei dos padeirinhos de Aljubarrota espécie indígena que traz nos meigos coraçõezinhos a lembrança imperecível dos batalhadores da época joanina, dos restauradores de 40 e a cólera pelo roubo de Olivença. Não suporta “castelhanos”? Pois que não vá ao “El corte Inglês”, que não compre na “Maximo Dutti”, na “Zara” que não tenha conta no Santander Totta ou no Millenium (hoje de “La Caixa”, empresa que logo no primeiro dia abandonou a Catalunha). Que indague cuidadosamente se as laranjas ou as cenouras ou as cebolas que compra no supermercado vêm ou não do odiado país. E cuidado com o peixe que vem de Espanha às toneladas. E com os camarões congelados, os carabineiros sem falar do bacalhau (há três ou quatro grandes marcas espanholas a impingir-nos o bacalhau deles. O mesmo se passa com o atum. O melho seria mesmo fazer uma campanha contra os milhões de turistas espanhóis que invadem o país nas datas festivas (brevemente cairão por cá durante o feriado da proclamação da Constituição). Coño, RS, a por ellos!
O menino Jesus chegou antes do Natal e chama-se Nuno Maria
É como se fora do meu sangue. A minha enteada Ana (com a ajuda do marido Nuno) presenteou-nos a mim e à CG com um menino são como um pêro que dorme a sono solto.
A CG flutua a uns bons vinte centímetros do chão e continua a tricotar furiosamente roupinhas para o bébé que não vai conseguir usar todo o enxoval que já tem. É o costume, claro.
Ontem, dia do nascimento, logo de manhã já me pediam notícias do viajante pois sabia-se que a coisa estava a rebentar.
Os pais do infante comunicaram à babada futura avó que o internamento seria ontem, que se seguiriam análises e exames e que, depois, o médico diria quando é que o parto teria lugar.
Era uma piedosa mentira destinada aos familiares (quatro avós maternos e uma avó paterna), bisavós e demais antepassados variados, amigos e colegas.
Pessoalmente, eu tinha uma vaga desconfiança de que as coisas se passariam mais depressa: Já por alturas da licenciatura, a Ana nada dissera e deu-me o prazer (e a honra) de ser o primeiro a saber logo que o último exame terminou. Na altura, explicou-me que queria evitar a choradeira da mãe, o nervosismo do pai. Por isso, eu estava em alerta mínimo e tranquilo. Quando a CG me deu a notícia, ouvia-a impávido.
Depois começou o bailinho da Madeira: a CG a alertar (a amotinar) amigas, parentes e demais povo. Os alertados respondiam com salvas de perguntas, guinchavam metaforicamente pelos novos meios de comunicaçãoo. O meu sábio irmão, médico de profissão, pai e avó endurecido, ligou-me a perguntar se já havia novidades. A cunhada dele, ao lado perguntou se o menino era bonito.
“Ó Maria Manuel, então isso pergunta-se?”
Respondi-lhe que estava em frente do alucinado pai (que andava com dores de parta há umas boas semanas) e que medindo quase dois metros, calçando 48 biqueira larga, me poderia agredir no caso de eu dizer qualquer coisa menos simples do que afirmar que a criaturinha era maravilhosa.
Com este subterfúgio escapei ao nariz de cera habitual e cortei cerce qualquer pedido para dizer com quem a criança era parecida.
Os bébés, à nascença, parecem-se com outros bébés, ponto, parágrafo.
A minha excelente Mãe já se tinha adiantado com um cheque simpático para o menino começar a ter conta no banco. Em troca exigiu uma fotografia verdadeira, em papel como deve ser, nada dessas mariquices no telefone. A Old Lady tem cataratas e quer ver com olhos (os dela) de ver. Pede pouco mas bom. Uma fotografia que o caixilho há-de me encarregar de comprar. Como de costume.
“E coisa boa, nada dessas quinquilharias tão na moda!” É para já Senhora, minha Mãe: vou num pé e venho noutro!
Os filhos e netos, nossos ou dos nossos parentes e amigos, são, sempre, um milagre.
Por junto, hoje, mandei um mail à Zé Albarran explicando que o menino se parece com a avó porque dormia com a boca aberta. Enquanto estive no quarto da parturiente não se dignou abrir o olho e dormiu regaladamente. Isto de nascer cansa, está visto.
Que cresça bem, rodeado de amor e carinho e que o mundo a que chega seja melhor do que aquele a que cheguei num longínquo Novembro de 41.
Agora, cá o espero para o ensinar a jogar bilhar, ouvir muito jazz e alguma ópera, provar uns patés decentes e passear com este imprestável avô até ao café ao pé do jardim. E para o que mais for preciso.
(em memória de Luís Seoane e para Xesus Alonso Monteiro com profunda admiração)
A Galiza tem uma área que é cerca de um terço da de Portugal. Essencialmente é uma região montanhosa com profundas rias por vezes rodeadas de vales não demasiadamente extensos. Com excepção da Guardia e da Corunha as principais cidades estão relativamente afastadas do mar mesmo se este é a origem da maior riqueza galega: o peixe e os mariscos. Além da vinha, a floresta é outra das riquezas da região. Foi esta floresta que sofreu em Outubro passado incêndios violentíssimos que devastaram 50.000 hectares, mataram quatro pessoas e fizeram 2400 desalojados.
Uma semana depois da calamidade, a Junta da Galiza começou a tomar medidas. Assim foram logo fixadas as indemnizações para quem perdeu casa (quer a primeira habitação quer a segunda respectivamente de cem mil e quarenta mil euros. Num conjunto de 30 pontos rapidamente aprovados (passa agora um mês sobre os fogos) foram decretadas e começaram a ser executadas medidas contra a ocorrência de novos fogos, indemnizações aos empresários, reconstrução de estruturas agrícolas (currais, redis, armazéns, silos). Estipularam-se novos perímetros de defesa contra fogos, de limpeza da floresta, de posse administrativa de terras sem proprietário conhecido, de fiscalização florestal, de novos meios de combate a incêndios.
E começaram já os cortes de árvores ardidas!
Também já estão a ser pagas as indemnizações por morte de pessoas (75.000 euros).
A Galiza é “apenas” uma região autónoma espanhola sem ter sequer poderes tão latos quanto outras. Não é rica senão de gente abnegada, generosa, risonha apesar da “morriña”, que fala o velho galego dos “labregos e marinheiros” e se entende às mil maravilhas com os trezentos mil portugueses que a invadem no Verão e com os restantes espanhóis que lhe procuram as praias e a belíssima gastronomia. Nunca vi (e eu sou um habitué da Galiza, das suas livrarias, dos seus pequenos restaurantes, de Vigo, de Pontevedra, de Santiago) um local deixar sem resposta outro espanhol que não sabe galego. Nunca!
Entre o período visigótico e a ascensão do reino de Leão, a Galiza constituiu um breve reino que pouco durou. Ou melhor: o reino centrou-se em Leão e as terras galegas (como as do norte de Portugal) eram feudatárias dessa entidade política. Depois, o reino desapareceu. Afonso Henriques, já livre do suserano leonês, tentou por duas ou três vezes conquistar territórios galegos com incursões entre Tui, A Guarda e Vigo mas foram apenas pequenos triunfos sem consequências. O Minho impôs-se como fronteira até hoje.
Durante a curta República (a 2ª) a Galiza dotou-se de certa autonomia, como o País Basco e a Catalunha (que entretanto não se podiam gabar dos mesmos antecedentes históricos...) mas a “cruzada” franquista rapidamente liquidou as aspirações galegas. Durante a guerra civil, e mesmo depois, ainda havia pequenos focos de guerrilha no “monte” havendo mesmo na raia muitos portugueses que acolheram os prófugos galegos. Em 1950, nada restava desse pequeno grupo. Nos finais do franquismo, apareceu a UPG e houve pequenas acções armadas de escassa importância. Com a democracia, a UPG constituiu um bloco independentista mas a tendência, depois de um apogeu no fim dos anos oitenta, decresceu significativamente enquanto o Partido Popular ia aumentando significativamente a sua influência. Até hoje. O governo Feijoo tem maioria absoluta na região e tudo indica que assim continuará.
Do ponto de vista cultural, a Televisão Galega é seguida (até em Portugal), há algumas editoras de livros em galego (curiosamente, muitas delas dedicadas à produção literária galaico –portuguesa com belíssimas antologias indispensáveis para quem queira saber da nossa comum origem literária). Editam-se, com tiragens decentes, alguns escritores galegos desde a eterna Rosalia deCastro até Manuel Rivas passando pelos incontornáveis Castelao, Cunqueiro, Celso Emílio Ferreiro e, pasme-se!, Rodrigues Lapa, insigne filólogo português respeitadíssimo no Além-Minho.
Curiosamente, alguns dos grandes escritores galegos do sec XIX ou do XX, escreveram sempre em espanhol e em alguns casos recusaram a tradução das suas obras para o galego. Tinham, de resto, uma excelente razão: parte do encanto da língua que usaram tinha galeguismos em profusão e isso dá(va) um encanto especial à narração (falo de Camilo José Cela, Torrente Ballester e do extraordinário Ramón del Valle Inclan, autores que não me canso de reler.)
Os leitores que me desculpem. Eu ia só falar da rapidez, da eficácia, da generosa solidariedade dos governantes galegos e comparar a atitude deles com o que por cá se passa.
Uma catástrofe obriga a medidas extraordinárias. E a medidas rápidas. Há demasiado sofrimento, demasiadas vítimas e nenhum tempo a perder. Os galegos, bem mais pobres do que nós, mais emigrantes do que nós (a maior cidade galega é Buenos Aires...) deram, neste capítulo, uma lição às nossas elites governantes. Aliás, já tinham, ao contrário de nós, tirado a devida lição dos grandes fogos (o último a que assisti foi em 2006), criando um comando único de ataque ao fogo (prevenção e combate), profissionalizando os corpos de bombeiros retirando grande parte das competências aos chamados “voluntários” que podem ser generosos e heroicos, mas não são suficientemente profissionais e eficazes.
(um jornal de hoje relata em página inteira como o ex-Secretário de Estado Jorge Gomes recusou o recrutamento de 40 novos bombeiros para a Força Especial de Bombeiros com o argumento de que ainda não estava concluída a regulamentação do Estatuto da FEB. A proposta vinha do presidente da ANPC, Joaquim Leitão e pretendia colmatar falhas ainda durante a futura “fase Bravo”. Não irei ao ponto de dizer que a falta destes quarenta homens em Pedrógão levou à morte de dezenas de pessoas. A história não se inventa nem se reescreve. Todavia, a falta deles não só não ajudou como seguramente prejudicou o combate aos fogos.
Este país adora perder-seem burocracias enquanto a barca do Estado mete água e vai lentamente soçobrando em evitáveis naufrágios.
Por uma vez, imitem os galegos. Ou vão até lá aprender. É perto e há bom marisco, vinho albariño e uma gentileza fraternal. E entendem-nos e não nos pedem para falar galego!