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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

05
Mar20

Au bonheur des dames 411

d'oliveira

 

Ora explique-me lá, Sr.ª D. Ana Catarina

mcr, Março, 2020

O PS, de que a senhora citada na epígrafe é uma das mais repolhudas figuras, apresentou o nome do doutor Vitalino Canas para juiz do Tribunal Constitucional.

Percebe-se mal esta candidatura de alguém que exerceu sempre funções políticas mesmo se, como afirma, tenha andado quarenta anos a preparar-se para tão meritória magistratura que, curiosamente, só existe há trinta e oito.

Quarenta anos, provavelmente mais duros, foi o tempo que o povo eleito vagueou por um pequeno deserto entre o Egipto e a terra do leite e do mel. Percebe-se mal que, mesmo nesses tempos longínquos, andassem tanto tempo às voltas quando, e na mesma época, os exércitos egípcios e os caldeus se guerreavam várias vezes nessa zona e nas adjacências. Pelos vistos, o que era um passeio para estes povos ou para as suas tropas foi um labirinto para o povo judeu.

O Doutor Vitalino Canas tem um percurso variado mesmo se nos últimos 25 anos tenha andado sempre entre o Governo e a Assembleia da República. Além dessas tarefas pesadas foi advogado e sócio maioritário de uma sociedade de advogados, gestor de empresas e mais não sei quantas coisas. Ao ler-lhe um apressado currículo na internet fico desnorteado com tanta actividade q que se deve juntar a citada preparação para juiz. Mesmo dando de barato os dois anos em que o TC estava longe a vaguear no ventre infecundo da política nacional.

De todo o modo, o doutor Canas soube, e desde há algum tempo!, que o seu nome não era benquisto pelos eleitores na AR. O BE primeiro, por obscuras razões (não fora consultado!...) e outras formações depois foram anunciando a sua recusa. Do PPD veio a notícia de que o partido não se sentia “confortável” com a candidatura. Nem mesmo isso refreou o entusiasmo do candidato ou fez reflectir o partido apoiante. Autismo, cegueira, mero olho vesgo ou tolice rematada?

Em boa verdade, a prudência aconselhava que, perante essa evidência, o candidato se retirasse da lide para evitar a vergonha do chumbo. Não o fez. E, pelos vistos, a direcção do PS personificada na senhora Mendes, insistiu também ela na ousada proposta.

O resultado foi ainda mais deprimente do que se esperava. Atente-se só neste vago exercício: O PS tem 108 deputados e a lista por ele apresentada obteve 93! Em boas contas, isto significa que sem qualquer voto favorável de outra formação (o que não parece crível) 13 (feio número) deputados (mais de 10% da bancada) também não se entusiasmou com Vitalino. E aproveitando a boleia do voto secreto, pimba, deu-lhe no toutiço.

Conviria recordar que, para ser eleito, o candidato teria de somar 146 votos. Isto já nem é uma derrota. É Alcácer Quibir! É o terramoto de Lisboa! É uma tourada à antiga portuguesa...

Ainda não consegui saber a reacção do candidato mas já fui atropelado pela senhora Mendes.

Pelos vistos, a culpa é da oposição, melhor dizendo do PPD! Os 13 infiéis socialistas parece que se escapam entre as gotas da chuva, pobres inocentinhos.

A srª Mendes acusa urbi et orbe, tudo e todos. E de vários delitos todos maléficos. Os deputados (exceptuando o quadrado manco dos fiéis) são um bando de relapsos e não percebem nada da vida democrática. E só sabem “boicotar o normal funcionamento das instituições”! Se a Sr.ª Mendes fosse venezuelana e se chamasse Maduro não diria mais nem melhor. Mas, para desgraça nossa, a criaturinha é portuguesa, nacional, “nossa”. E disse estas enormidades sem ninguém, até ao momento, lhe emendar a mão ameaçadora e a língua atrevida.

E, já agora, haja alguém que lhe explique o que é a democracia e o que é um parlamento, mesmo este.

No meio desta confusão, uma pessoa de que sou amigo e que considero (António Correia de Campos) também foi chumbado para o Conselho Económico e Social. Este não é o seu primeiro desaire visto que há meses já lhe tinha sucedido idêntica desgraça. Desta feita, o resultado foi ainda pior.

Também, por mais voltas que dê à cabecinha pensadora, não entendo a teimosia dele em se apresentar. Ainda por cima, já não é nenhuma criança, andará pelos 77/78 anos, idade provecta que aconselharia tarefas menos trabalhosas. E, sobretudo, ACC é um respeitado “senador” da República, com um longo e louvável percurso que não mereceria esta “afronta” mesmo se ele já pudesse antever este resultado que, insiste-se, já não é uma novidade.

Voltando ao outro personagem deste drama de faca e alguidar, devo dizer que o doutor Canas me é completamente indiferente. Raras vezes dei por ele e nunca pelas melhores razões. A criatura não suscita sequer a vaga simpatia que, às vezes acompanha os derrotados. Pelo contrário, as suas declarações pareceram-me arrogantes e desafiadoras. Eu, para o peditório da empáfia, nunca dei e não vou dar. Mais, alguém que foi durante anos porta voz do sr. Sócrates não me parece a melhor alternativa para a magistratura constitucional. Pelos vistos nem Vitalino, nem Ana Catarina são desta opinião aliás sufragada por um forte maioria de deputados, incluindo, pelo menos, treze socialistas. O futuro dirá como é que acabará esta desastrada novela. De algo, estou certo: não vai acabar bem mas pode acabar menos mal. Mas para isso uma coisa é necessária: bom senso!

E bom senso é algo que parece estar nos antípodas das declarações da Sr.ª Mendes...

(1) este folhetim já tem barbas pois foi escrito no exacto dia da derrota do Sr. Canas. Entretanto fui dar uma volta ao bilhar grande e deixei-o em pousio. Neste entretempo António Correia de Campos fez o que devia: deixou de ser candidato. Mesmo que, à quarta vez, fosse eleito, a sua posição seria sempre frágil. E ACC, um veterano da crise de 62, um homem com um grande currículo   não merece andar como um navio desgovernado à mercê das simpatias ou antipatias dos parlamentares, muitos dos quais, a maioria, são meros anões e meras vozes do seu dono.

Enhorabuena, António, enhorabuena!

 

 

27
Fev20

estes dias que passam 330

d'oliveira

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Pedro Baptista Joaquim Pina Moura

(uma geração que desaparece)

We few, we happy few band of brothersShakespeare, “Henry V”

mcr (Fevereiro 2020)

 

Os leitores que me desculpem. E duplamente. Uso o masculino apenas por economia e não por não prezar as leitoras, bem pelo contrário. De facto, estou farto de ceder ao politicamente correcto que geralmente não passa de prova de tolice.

Depois, por falar em geração, a propósito do Joaquim Pu+ina Moura e do Pedro Baptista. É que, de facto, eles, com tantos outros já desaparecidos e com alguns que ainda andam por aí, são claros exemplos de uma geração bem minoritária que .se bateu corajosamente contra o Estado Novo.

Agora, anda por aí muito boa gente a presumir de “esquerda” e a fanforronar sobre ideias “fraturantes”. Há mesmo uma compita para se ver quem é que fratura mais e mais depressa. Lamentavelmente, parecem desconhecer que o que se arroja pela janela entra, logo seguir e a correr muito, pela porta. A História, sempre essa maçada, está carregada de exemplos de pequenos, pequeníssimos robespierres de pacotilha que uivam por um eventual “terror” e se afogam numa pocinha de água da chuva...

Não é o caso dos dois camaradas que acabo de perder mesmo se o termo camarada, num sentido estricto e historicamente desaparecido seja um exagero. Nos tempos obscuros em que que vivemos e lutámos, havia uma boa dúzia de pequenos grupos que identificavam os seus escassos militantes com  a anteposição da palavra “camarada”. . Isso e a “Internacional” cantada a plenos pulmões ainda que fragmentariamente, identificavam algo que em seu tempo se chamou Esquerda e que fazia pender sobre a cabeça dos que dela se reivindicavam uma boa dose de riscos todos penosos. A coisa ia desde os espancamentos nas manifestações até à prisão e depois à proibição de empregos públicos. E tudo isso, nnuma desoladora solidão pobremente partilhada. No Portugal desses anos, e agora refiro-me apenas aos “sessenta”, a rebeldia tinha um preço que muito poucos estavam dispostos a pagar.

O “povo estava sereno”, como mais tarde afirmaria Pinheiro de Azevedo, o medo guardava a vinha, a bufaria imperava e pouco ou nada acontecia.

Durante uma boa década, nem a guerra colonial, nem a sangria da emigração económica, perturbaram significativamente algum, fraco mas real, desenvolvimento ou o crescimento do PIB.

Portugal, “orgulhosamente só”, aguentava-se graças às remessas dos emigrantes, ao crescimento do turismo e da economia interna, o mercado do trabalho ia-se tornando mais feminino (o esforço de guerra mantinha longe cerca de duzentos mil homens) e até um proto “Estado Social” ia emergindo.

Só uns milhares de “díscolos”, perturbavam a harmonia do “país triste” e ensimesmado. Para esses a polícia usava a mão dura enquanto para o resto bastaram os famosos “safanões dados a tempo”.

Joaquim Pina Moura, militante do PCP desde muito novo, e Pedro Baptista, pertencente à segunda geração maoísta faziam parte do “movimento” estudantil.

Conheci-os, se bem me recordo, entre 68 e 69, entre a crise de Coimbra e o Congresso Republicano de Aveiro. Na altura não me atrevo a dizer que estávamos próximos porque não estávamos. O PCP apelidava todos os que não comungavam do seu ideário fortemente pro-soviético, de “esquerdelhos” e o resto da malta chamava aos do PC, “revisas”, "social-fascistas" e outros mimos que, aliás eram tradicionais na conturbada história do socialismo europeu desde quase a sua fundação.

E essa História estava presente em tudo, basta lembrar os nomes dos jornais partidários, desde o “Avante” (do russo Vperiod, órgão central da fracção bolchevique sediada na Suiça, Genebra) ao “Grito do Povo”, cuja primeira versão apareceu durante a Comuna sob a batuta de Jules Vallés – "Le cri du peuple" – e depois corporizou um infame jornal colaboracionista de Jacques Doriot. Na Esquerda maoísta apareceu durante o PREC um jornal, “A Verdade”, tradução literal do russo “Pravda” o que não deixa de ser irónico dado este ser o principal órgão do poder soviético que os da “Verdade” portuguesa detestavam...

E por aí fora...

De todo o modo, estando ou não de acordo, é este punhado de jovens quem durante aquele período (1962-1974) tenta, com grande risco e duras consequências, profissionais e pessoais, combater o poder instituído e sacudir o conformismo da sociedade portuguesa. Não foi o único bastião resistente mas foi dos mais generosos e influenciou decisivamente a juventude portuguesa mormente a universitária e boa parte daquela que participou na guerra colonial incluindo os que a recusaram desertando ou tornando-se refractários. Fiz parte desta última frente animando com três amigos uma rede de passagem de fronteira que funcionou muito bem graças ao facto de sermos apenas quatro e de tomarmos todas as precauções e cuidados que essa tarefa exigia.

E não foi pequena façanha pois a juventude de muitos era má conselheira e permitia largos descuidos e riscos desnecessários que muitas vezes tiveram os resultados esperados e funestos.

A minha relação com ambos foi diferente. Com Joaquim Pina Moura só privei mais tarde por altura dos “Estados Gerais” de Guterres já ele teria saído do PC.

Com o Pedro Baptista tive mais relações também elas quase sempre posteriores à sua saída da OCMLP. Em boa verdade, fui advogado de muitos militantes estudantis de "O Grito do Povo". Com os “Estados Gerais” tornamo-nos bastante mais próximos e, posteriormente, ao longo de todos estes anos, fomo-nos encontrando esporadicamente e tendo um bom número de conversas que pouco a pouco foram derivando para o campo da cultura, sobretudo da literatura. O Pedro começou a escrever e eu fui seu leitor sobretudo de “Sporá”. Não o acompanhei nos seus delírios regionalistas e muito menos no seu “portismo” a outrance mas admirei-lhe sempre o entusiasmo e a entrega que punha em todas as causas que abraçava.

Ambos são excelentes testemunhos dos humores do século e dos azares da História. E testemunhas, também pois viveram por dentro muitas das convulsões do último e mais exacerbado “socialismo radical”. Divergi deles desde cedo, a começar pela questão checa até ao culto de Stalin que estava “vivo no nosso (deles) coração”. Também nunca vi na URSS o sal e o sol da terra. O fim pouco glorioso da União Soviética, o desmoronar da “cortina de ferro”, a abrupta queda do muro de Berlim, o desastre absoluto da “Revolução Cultural” a patética gesticulação com o “livrinho vermelho”, um aberrante conjunto de máximas do venerado “Grande Timoneiro” que seria ridícula se não tivesse sido dramática e tremendamente mortífera, nunca me apanharam a jeito e muito menos me comoveram ou entristeceram. Às vezes (poucas vezes) a História está do nosso lado, do lado da liberdade.

Em boa verdade, qualquer deles percebeu a tempo a fundura do atoleiro moral, ético e político para que caminhavam e arrepiaram com coragem (e eventual angústia) o seu caminho. Saíram do armário ideológico e foram à sua vida. À vida. Simplesmente.

Cada vez mais me vou sentindo um sobrevivente tanto mais que era mais velho do que eles uma boa meia dúzia de anos. E cada um que morre é menos um testemunho, visto que, até à data, poucas são as “memórias” deixadas por escrito. Pior: algumas das raras publicadas não passam de desculpas de mau pagador por ter havido comportamentos menos gloriosos nas enxovias da polícia. Já, e há muito tempo, me referi aqui a esses tema a que não quero voltar por demasiado nauseabundo. Na “hora de verdade” e perante a sombria perspectiva dos interrogatórios policiais, houve quem não se tivesse comportado com a mais elementar decência. Nada tenho contra aqueles e aquelas que confessaram os seus “crimes” mas não suporto quem, além disso, levasse a falta de vergonha até à denúncia de companheiros e amigos. Isto para não falar de criaturas que não só diziam tudo e mais alguma coisa mas inventavam ainda mais crimes atribuídos a outrem. Não faz muito tempo, narrei aqui mesmo, a bizarra denúncia da minha presença num encontro conspirativo em Cantanhede, terra que de todo em todo desconheço, onde eu me teria gabado de bombista, coisa que sempre detestei e sempre condenei. A história viria de uma tal “Catarina” pseudónimo de uma “bufa” da pide. Pelos vistos nem a polícia acreditou na alarve acusação mesmo se, apesar de tudo, isso conste de um dos meus catorze processos (aliás treze porquanto um deles dá-me como médico em África, pelo que deduzi sempre que se referia a meu pai que, embora solidário com os filhos, nunca partilhou as nossas convicções políticas. Os informadores e os agentes nem sempre eram suficientemente profissionais: num outro processo instruído no Porto, o agente aponta-me como elemento da corrente ”leninista-marxista” – sic! – com “grossa actividade política” não especificada! – sic novamente ...).

Verifico que falar destes dois antigos companheiros foi também falar de mim. Ao fim e ao cabo, cada um à sua maneira e na situação concreta em que viveu ou vive, foi um modesto actor que não limitou a ver a peça mas quis, mal ou bem, nela intervir. Citando Brecht, sempre direi:

“Vós que haveis de surgir das

cheias

em que nos afundámos

....

pensai em nós

com indulgência “

* a gravura é da série da crise académica de coimbra.Eles não eram de lá, não podiam estar lá mas foram solidários com tudo o que lá se passou. Isso me basta e, decerto também basta à malta coimbrã que naquela altura bem apreciou toda a solidariedade possível. E o Joaquim ou o Pedro estiveram sempre, sempre, solidários.

 

 

27
Fev20

o leitor (im)penitente 216

d'oliveira

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Indomável!

 

Vasco Pulido Valente

(“Não o teres derrubado ídolos mas tê-los derrubado em ti eis a tua vitória” – Nietzsche)

mcr (Fevereiro de 2020)

Conheci-o durante a crise académica de 62. Eu e o Carlos Bravo fôramos encarregados pela Direcção Geral da Associação Académica de fazer de correios entre Coimbra e Lisboa e isso permitiu-me conhecer muita gente na Universidade de Lisboa incluindo, grata lembrança, a extraordinária Noémia de Sousa, poetisa moçambicana que estará entre as três melhores vozes poéticas de toda a África lusófona desses anos terríveis. A Noémia não era estudante mas aparecia muito pela cantina do Técnico, vizinha com a Casa dos Estudantes do Império.

Todavia, deixemos para outra ocasião uma incursão na literatura africana de expressão portuguesa e voltemos ao tema fundamental: Vasco Pulido Valente.

Vi-o pela primeira vez numa assembleia geral na faculdade de letras onde era aluno. Fiquei nessa altura muito bem impressionado pelo seu tom, a sua vivacidade e a sua clareza. Eu vinha de Coimbra onde se cultivava ainda, à sombra de Antero, uma eloquência muito século XIX. VPV usava frases curtas, argumentava com uma pitada de humor e não apelava ao sentimento mas sobretudo, já nessa época, à razão. Em boa verdade, eu talvez já o conhecesse dado que ele pertenceu à equipa fabulosa que fez o “Almanaque” (Outono de 1959 – Verão de 1961, 18 números) onde pontificavam alguns dos melhores desde o José Cardoso Pires, a José Cutileiro e, Luís de Stau Monteiro, Pertencer a este clube já dizia muito de um rapaz que nem 18 anos ainda tinha.

Depois, li-o em “O tempo e o modo” que, na sua primeira e melhor fase, também não arregimentava medíocres, sofríveis ou sequer bonzinhos. Desapareceu-me do radar leitor provavelmente por ter ido para Oxford onde se doutorou.

E é a partir de 1974 que VPV se torna um cronista que raramente perdi de vista. Um cronista e um escritor pois vejo agora que é de 1974, o primeiro dos (17) livros que tenho dele. Era um pequeno ensaio com o título “As duas tácticas da monarquia perante a revolução” (edições D Quixote, 1974). Em poucas frases, num estilo já inconfundível (ele dizia “pimpão”) explicava algo que muitos colegas e confrades demoravam duzentas páginas...

A obra escrita divide-se em dois campos: os ensaios de História e as recolhas de crónicas publicadas ao longo de quase cinquenta anos. No primeiro aparecem obviamente os textos que melhor mostram a sua profunda erudição (desde “O Poder e o povo” até ao – para mim – excepcional “Ir para o Maneta” sem esquecer “Glória”ou “Um herói português”.

No campo dos segundos coligem-se crónicas publicadas quase ininterruptamente durante o mesmo período. Trata-se de escolhas (não constam todas as que escreveu) e nelas perpassa não só um a funda ironia, alguma causticidade mas sobretudo um conhecimento profundo do país e dos seus desastres. Tudo servido por um estilo cintilante mesclado com algum (bastante) humor e ancorado numa língua segura. Limpa e usada com grande mestria.

Costuma dizer-se que um estilo claro dá imenso trabalho e é prova de uma cabeça muito bem organizada. VPV foi, no ultimo quarto do sec XX e primeiro do XX!, um claro e o melhor exemplo disso. Não há nestes quase cinquenta anos nenhum outro cronista (exceptuando Manuel António Pina, num registo profundamente diferente, aliás) que se lhe assemelhe e, sobretudo, que tenha durado tanto tempo com o favor de inúmeros leitores. E os jornais bem sabiam isso: VPV nunca mendigou uma coluna jornalística, bem pelo contrário.

Uma tão grande carreira cronística implica obviamente não só a criação de uma legião de admiradores mas outra, também robusta, de adversários, na generalidade políticos paroquiais que se persignavam metaforicamente a cada passo: que VPV era um adepto do “bota-abaixismo”, “petulante”, ”amargo”, “pessimista” sei lá mais o quê. Mas liam-no a cada passo, havia mesmo os que tentavam responder e até apareceu um pobre diabo que tolamente prometeu umas bofetadas! Em boa hora o fez porquanto o escândalo foi tal que lhe retiraram um cargo ministerial para o qual lhe faltava tudo desde conhecimentos até habilidade, inteligência e competência.

O grande problema de quase todos os criticados era que a frechada de VPV acertava fundo e não vinha inquinada de vã maledicência mas obrigava a pensar.

Fora deste foro de literatura e de combate jornalístico, fica o homem que nunca vergou e tão pouco se acomodou. Mesmo não dando grande importância ao adolescente que foi mandado para um colégio interno (e só quem, como eu, os frequentou naqueles tempos é que sabe que género de prisão aquilo era...) há o estudante universitário que “faz” 62, o jovem que milita no M.A.R. (Movimento de Acção Revolucionária) onde participaram Jorge Sampaio, João Cravinho, Nuno Brederode entre outros (e só nomeio estes pela proximidade à crise de 62) o Secretário de Estado da Cultura de Sá Carneiro que suscitou uma feroz resistência entre muito intelectual ligado aos meios artísticos e sobretudo à mediocridade artística que imperou (e impera) naqueles anos difíceis em que o talento, a criatividade e a inteligência eram postergados por tonitruantes posturas políticas que pretendiam – mesmo sem o conhecer –salvar o “Povo” de que desconheciam tudo. Durou pouco o seu consulado e menos ainda durou como deputado. À primeira advertência sobre a obrigação de votar de certa maneira numa questão menor, saiu batendo com a porta.

Todavia, esta liberdade aumentada (uma vez alijada a sinecura parlamentar) não modificou em nada o seu percurso de cronista ou seu “cursus honorum” académico. Ficaram pelo caminho alguns projectos e eu lamento muito uma biografia de Eça que ele terá pensado levar a cabo. De todo o modo aí estão os dezassete livros (creio que haverá mais um mas não tenho a certeza) quase todos esgotados (o que também prova o interesse dos leitores).

Na hora da sua morte, sucedem-se as homenagens (algumas surpreendentes) e também um que outro desabafo escondido com o rabo de fora. O homem morreu mas as pequenas raivas ainda ficaram por aí.

Como leitor assíduo foram muitas as vezes em que discordei, me agastei mas nunca perdi de vista o estilo notabilíssimo e o desafio que o que ele defendia (ou atacava) me impunha. Estou-lhe grato por essa conversa à distância não só porque me permitiu perceber s razões da minha desconformidade como como alguns dos seus argumentos e conhecimento melhoraram a minha visão do mundo.

E é curioso notar que VPV conseguia desagradar a alguma (alegada) Esquerda que se sentia desconfortável com as suas análises mas também a uma forte fatia da Direita que não lhe tolerava a liberdade e a crítica impiedosa a grande parte dos mitos fundadores de que se alimenta(va).  

VPV, como acima disse, colaborou no notabilíssimo “Almanaque”. Num dos seus números havia uma ilustração e uma frase a condizer “para onde apontam estes monumentos? – Para sua própria monumentalidade!” (cito de memória com preguiça de subir até à estante onde jaz a minha colecção).

VPV foi um “empecheur de tourner en rond” ele que me desculpe este francesismo aplicado a alguém tão imbuído duma sã cultura anglo-saxónica!) e nunca foi à bola com os “monumentos” indígenas. Em boa hora!...

*na imagem: escriba (Egipto) ou de como e por muitas vezes, a função de escrever foi honrada.

 

 

10
Fev20

Au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Jogos malabares

mcr 10-02-2020

 

Rui Tavares não desiste. Hoje, segunda feira, no “Público” manifesta-se a favor de uma candidatura à presidência da República por parte de Ana Gomes.

Esta, entretanto, já tinha feito saber que não era candidata. Entre outras e mais curiosas razões apontava o facto de estar reformada.

Não me vou debruçar sobre as alegadas virtudes da dr.ª Ana Gomes que, pessoalmente, me parece um pouco impertinente (no verdadeiro sentido da palavra). Não lhe nego o fervor anti corrupção mesmo se isso é, para qualquer cidadão normal um imperativo democrático. Todavia, a sua exacerbada cruzada a favor de um pequeno hacker guloso e a tentativa de o fazer passar por uma espécie de Robin dos Bosques justiceiro arrepia-me o pouco Direito que, contrafeito, aprendi. Tornar a bufaria executora da justiça, lembra-me umas boas dúzias de criaturas detestáveis que, em seu tempo, e durante muitos anos, informavam a polícia sobre os meus passos, as minhas ideias não hesitando, aliás, em carregar nas tintas: Uma “Catarina” (pseudónimo usado) chegou a situar-me numa reunião clandestina em Cantanhede, terra que só dez anos depois conheci, a afirmar-me como bombista! Nem o pide confidente a levou a sério ...

Os “bufos” os “patriotas” informadores da PIDE, contavam-se por milhares e chego a supor que eram mais eles do que nós, os poucos oposionistas que se declaravam (e agiam) como tal. Portugal não foi o campeão dos bufos, isso é mais para a República Democrática Alemã, onde decentemente e felizmente, qualquer cidadão pode ir consultar o seu processo e saber quem o denunciava. Por cá é o que se sabe. Um véu legal pesado e espesso e imoral impede de ver “quem era quem” nesses tempos odiosos e infames.

Mas, voltemos, ao manifesto de Tavares. Este colunista, historiador e fundador do “LIVRE”, considera interessante o facto de pouco ou nada importar a futura eleição se o Doutor Rebelo de Sousa se recandidatar. De facto, se isso ocorrer, e eu sou dos que apostam que sim, a campanha será uma passeata ainda mais monótona do que a precedente. O populismo “bcbg” do actual Presidente da República, as selfies, a continua ocupação do espaço áudio-visual, a saturante corrente de opiniões sobre tudo e sobre nada, tornam-no invencível.

Tavares sabe isso, como sabe (ele o diz) que as candidaturas do PCP e do BE são “para inglês ver” e apenas servem para marcar um difícil território ideológico e partidário. Não são, como Tavares agudamente pressente, para levar a sério.

Entretanto, perante a anunciada candidatura do Doutor André Ventura, outro populista que marca pontos cada vez que lhe retiram a palavra na AR, Tavares entende que a intervenção de Ana Gomes permitiria “remeter” o homenzinho da Direita “para o lugar que lhe compete”. Para que não se corresse o risco de à falta de candidatos “credíveis” de Esquerda, a oposição a Rebelo de Sousa se refugiasse na Direita pura e dura!

De resta, sustenta Tavares, Ana Gomes não corre o risco de ser eleita e com isso de perder sua liberdade. Perderia seguramente as eleições mas “marcaria o campo da esquerda ecológica, europeísta, verdadeiramente democrática bem como permitir a Portugal recuperar uma “visão sobre o seu modelo de desenvolvimento e a forma de preservar o seu estado social”

Magna tarefa, pois. Tremenda, mesmo. Com um pequeno problema: se a candidatura for varrida pela onda marcelista isso não será um duro golpe neste tão extenso feixe de ambições.

Eu não votei no Doutor Rebelo de Sousa, nem aliás em outros doutores por extenso. Preferi-lhes Henrique Neto, um velho mas sólido socialista com provas dadas destes os tempos obscuros do Estado Novo. Também nunca dei um voto à Direita sequer ao Centro-Direita. Quando não tive candidato capaz, abstive-me ostensivamente metendo o papelinho em branco na urna. Nunca falhei uma eleição a começar pela única nos tempos da outra senhora em que fui delegado da CDE sabendo que, uma vez mais, isso me levaria, como levou, às enxovias do regime. Uma vez chegada a Liberdade, jurei que jamais faltaria a um acto eleitoral mesmo que tivesse de votar com uma mão no nariz (como bem disse o dr. Álvaro Cunhal ao apoiar, contrafeito a eleição do dr. Mário Soares.

E, já agora: sendo o Doutor Rui Tavares um político, fundador de um partido, ex-parlamentar europeu (como Ana Gomes) porque é que não se candidata ele. Não corre riscos, como já disse. É conhecido como comentador político e ex-parlamentar. Dirigiu o LIVRE, valha isso o que valer (e que é muito pouco). E poderia explicitar tudo o que no artigo de hoje expõe sem mandar o recado a ninguém.

(em boa verdade, o que me faz pensar é o facto de o referido senhor propor com frequência outros – outras, sobretudo – para a frente de batalha. Os resultados que se conhecem com a recém independente deputada Joacine deveriam fazê-lo reflectir nessa sua ânsia de delegar em outrem uma actuação perfeitamente ao seu alcance.  

 

 

 

 

 

  

 

 

 

31
Jan20

Estes dias que correm 331

d'oliveira

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Sentimentos diversos

mcr, 31 Jan 2020

 

Lá se vai a Grã Bretanha e por cá ficamos nós, os “mais antigos aliados”, título um tanto ou quanto ridículo e nem sempre conforme à realidade histórica. A mais velha aliada serviu-se bem de Portugal, basta lembrar o desigual tratado de Methwen. É bem verdade que o duque de Wellington andou por cá a ajudar no combate aos franceses mas é bom lembrar que isso não se deveu aos nossos lindos olhos. A Inglaterra (simplifiquemos o nome) tinha uma guerra antiga com Napoleão e Portugal foi um ocasional campo de batalha. Raras vezes os interesses nacionais coincidiram com os da poderosa aliada, basta lembrar as condições (ou a ausência delas) no acordo de retirada de Junot que levou tudo quanto quis, um saque que ainda hoje é visível no “Cabinet de Lisbonne”. Isto sem contar as riquezas imensas roubadas a palácios e conventos portugueses.

Depois, Beresford governou esta “quase colónia” com mão de ferro e foi com dificuldade que se resolveu a regressar a penates.

Não vou citar o “Ultimato” porquanto aí, é bom que se diga, o nosso famigerado “mapa cor de rosa” era uma aberração. Não exercíamos qualquer espécie de ocupação efectiva naqueles territórios do hinterland africano, sequer em muitas das partes de Angola e Moçambique. A indignação nacional contra o governo inglês, e todo o folclore ridículo que a acompanhou, apenas serviu ao Partido Republicano que, de pequeno grupo de cavalheiros, passou a uma organização de massas por ter cavalgado a histeria nacional e o patrioteirismo consequente.

Mais tarde, há a nebulosa negociação secreta sobre as colónias portuguesas, no início do século XX. Ainda hoje se discute o alcance da alegada divisão entre britânicos e alemães e qual o conhecimento que o Governo Português teria dessa negociata. É verdade que, a certa altura, se afirmou que, para abortar essa espoliação, se entrou na !ª Grande Guerra. Pode ter sido um dos motivos mas tudo leva a crer que os “guerristas” queriam sobretudo legitimar a jovem República.

Todavia, entrou-se no conflito, e passámos a vergonha de ver o famoso CEP (o nosso Corpo Expedicionário) ser transportado para a Flandres em barcos ingleses, nas condições impostas por estes, ser fardado por ingleses e, vergonha última, ser treinado por estes provando-se assim que o famoso “milagre de Tancos” (o primeiro claro, não esta ridícula revista à portuguesa que agora corre seus termos na justiça) era sobretudo um embuste. A participação nacional no conflito, seja na Flandres seja nas duas frentes africanas, não abona especialmente a glória pátria mesmo se, se possam citar alguns notáveis actos de heroísmo individual. Frente a eles, temos a passeata do general von Lettow por uma extensa e profunda área do Norte de Moçambique sem que as forças portugueses em muito maior número tenham conseguido impedi-la e muito menos vencê-la. É bem verdade que esse mítico general alemão bateu todos os generais (17) e um marechal que comandavam forças absolutamente superiores e que só se rendeu depois do armistício. Leiam-se as suas “memórias” (há uma velha tradução portuguesa eventualmente disponível em alfarrabistas) e os recentes estudos publicados por cá.

Tudo visto, a “aliança luso-britânica” é mais um nariz de cera do que uma realidade interessante e útil. Digamos que isso, a aliança, é um pouco a ilustração da história dos dois potes, o de ferro e o de barro (nós).

No entanto, o Reino Unido tem sido, nos últimos tempos, um dos principais destinos da nossa emigração e contam-se por centenas de milhares os portugueses que lá encontraram trabalho e condições de vida. E reside aí a maior preocupação imediata para Portugal. É que, a partir do final do período de transição, os portugueses com menos de cinco anos de estadia serão estrangeiros num país estrangeiro.

Curiosamente, os jornais de hoje noticiam o facto mas comentam-no parcamente. Em boa verdade, comentários e profecias de toda a espécie não faltaram durante estes anos que se seguiram ao desastrado referendo que iria acabar de vez com as veleidades anti europeias. Depois dessa primeira decepção que pr muito rural que fosse permitia o “Brexit” contra as elites cultas e jovens, o governo conservador (com uma preciosa ajuda dos trabalhistas eles mesmos pouco entusiastas quanto `pertença à União) conseguiu sabotar-se a si próprio e transformar uma eventual maioria anti-saída numa minoria. É aqui que entra em cena Boris Johnson que, puro produto de Eton e de Oxford, com um passado de vida extremamente cosmopolita, entendeu cavalgar a onda da saída. Houve muitos que o quiseram comparar a Trump que, esse sim, não passa de um ignaro milionário da construção civil incapaz de articular três frases seguidas com algum sentido e elegância. Tenho até alguma fundada dúvida de que Johnson seja um homem dos americanos pelo no sentido que um que outro encartado comentador deu dele.

A verdade é que ninguém, neste momento, sabe como é que tudo isto vai evoluir. Pareceu-me perceber uma vingativa esperança de que a Escócia e a Irlanda do Norte batessem com a porta e regressassem ao seio da “Europa”.

Gordon Brown, um escocês com enorme experiência política afirmou durante a campanha do referendo independentista escocês que , para além do laço fortíssimo da língua comum, havia por todo o lado, no mundo, cemitérios em que estavam irmãmente inumados soldados ingleses, escoceses, galeses e irlandeses. E isso pesava e pesa muito.

Tudo irá depender do comportamento da economia, por um lado e da Inglaterra (em sentido estricto) por outro. Que as coisas, num primeiro tempo, irão ser mais difíceis e complicadas é uma evidência. Depois, logo se verá como correrão as negociações até ao fim de 2020. Se é ou não alcançável um acordo que seja aceitável por ambas as partes. Tal não parece, pelo menos à partida, uma impossibilidade. Há demasiados laços não só económicos e culturais que terão o seu peso. A Europa (geográfica) é demasiado pequena para alegre e tolamente se auto-suicidar frente à China, ao Japão e aos Estados Unidos.

E seria bom que, mesmo reconhecendo alguma arrogância (que aliás sempre existiu) nos britânicos se olhasse para o umbigo europeu e se tentasse fazer um exame de consciência sério e capaz de preparar o futuro. A União poderá ter crescido demasiadamente depressa e sem olhar aos desequilíbrios regionais que hoje parecem tão evidentes. Pessoalmente, mesmo sem simpatizar com os ingleses, sinto-me mais próximo deles do que de húngaros ou polacos. Ou eslovacos e romenos. A começar pela reacção destes aos emigrantes sejam eles quais forem e a acabar no nacionalismo populista e serôdio que ostentam.

Há, cá por casa, uma discussão muito doméstica e quase irracional sobre o “racismo” português. Bom seria que o comparássemos com aquilo que se extrai dos comportamentos desses europeus outros que tendo emigrado para todo o mundo não suportam um estrangeiro dentro da sua fronteira.

Mesmo sendo realidades distintas, e são-no, conviria analisá-las à luz mais geral das relações da Europa com os outros. E, já agora, dos outros com os europeus. Com isto não pretendo relativizar ou desculpar seja o que for mas apenas colocar o problema onde ele deve ser colocado e aí ninguém fica bem na fotografia. Eu bem sei que está na moda desatender ou mesmo ignorar ostensivamente a História mas sempre que isso ocorre o resultado é o regresso à barbárie ou a algo que se lhe pode assemelhar.

A Grã Bretanha com o seu passado imperial, o Raj, a segregação racial nas colónias levada a extremos impensáveis para nós portugueses, é, hoje em dia, um país mais pluri-racial do que qualquer outro europeu, onde multidões vindas da Ásia, das Caraíbas e de África vivem um dia a dia bastante tranquilo e próspero. E isso também vai fazer falta a alguma, quase toda a “Europa”. Muita falta...

*na gravura Kensington Gardens  . Oh que inveja! ...

 

30
Jan20

O leitor (im)penitente 215

d'oliveira

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A morte está a passar por aqui

 

mcr, 30/JAN/2020

 

Lá se foi o Manuel Rezende poeta que descobri num livrinho editado há quase quarenta anos, “Natureza morta com desodorizante”, em que já era patente uma enorme esperança poética, um agudo sentido literário e uma séria erudição.

Cruzei-me fugazmente com ele, pouco depois de chegar ao Porto mas nunca fomos amigos, sequer conhecidos de longa data. Para lá das inevitáveis divergências políticas que marcaram a segunda metade dos anos setenta, havia ainda o facto ele ter desaparecido, abalado para Bruxelas onde terá feito parte, a maior parte, da sua vida. E, no regresso, ter-se-á fixado em Lisboa.

Retomei o contacto, como leitor, quando ele publicou a “Poesia Reunida”, há cerca de um/dois anos.

Tudo aquilo que eu esperara dele, nos anos 80 estava ali presente, soberbamente presente. Rezende aparecia como uma bela voz marcando com grande dignidade os anos que medeiam os dois séculos.

E mais uma vez, verifiquei que o simples facto de estar ausente da pequena cena nacional bastava para ser um desconhecido mesmo se, entretanto, um outro livro tivesse sido publicado. E, a par disso, algumas excelentes traduções de grande poetas (entre eles Elitis e Kavafis, esses dois enormes gregos separados por quase cem anos de grande poesia). Mas, coo diz o ditado, “olhos que não veem, coração que não sente”, isto de estar semi-exilado é já uma condenação, mesmo se, como dizia outro esquecido, Daniel Filipe a “Pátria (é) lugar de exílio”.

E também este acabou esquecido mesmo se a sua poesia iluminou os nossos primeiros anos sessenta (A Invenção do amor, Pátria, lugar de Exílio). É verdade que, morto em 1964, a sua obra, sobretudo estes dois livros acima citados, continuou a ser reeditada mas, a falta de referencia crítica atirou-o para o limbo. Recordo que, quando foi conhecida a sua morte, António Pedro, na altura encenador no CITAC (Coimbra) lhe fez um belo elogio. Vinham ambos de Cabo Verde e, mesmo se divergissem poeticamente, em boa verdade estimavam-se r reconheciam os respectivos (grandes) talentos.

A pequena história cultural nacional, doméstica e mesquinha é feita destes desencontros, destes desconhecimentos, da geral incultura (também política e ideológica, o que não é exactamente a mesma coisa).

Mesmo editado pela “Cotovia” (cuja qualidade é inversamente proporcional ao reconhecimento público) Manuel Rezende permanece um desconhecido e de nada serve afirmar que um pequeno grupo de leitores ávidos e curiosos o lê e aprecia.

Já Eduardo Guerra Carneiro, outro que tal, dizia “É assim que se faz a história”. Tanta razão tinha! E que desconsolo!...

 

 

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* Definitivamente o meu jeito para estas coisas é, no mínimo e piedosamente, medíocre. As fotografias deveriam ficar todas em cima mas o Daniel Filipe, talvez por ser o mais velho caiu para o fundo. De todo o modo, em primeiro lugar está o Eduardo e depois o Rezende

 

28
Jan20

estes dias que correm 330

d'oliveira

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A ponta do iceberg

 

mcr 28-01.2020

 

O recente (?) caso da sr.ª eng.ª Isabel dos Santos que tanta tinta metafórica faz correr pede um par de pequenas reflexões.

E comecemos pela mais simples: é isto uma novidade ou antes ancora-se numa longa tradição de “estórias” angolanas que vem desde o reinado omnipotente de um partido e de uma espessa clique de militantes e dirigentes do mesmo?

Propendo a aceitar a segunda hipótese e, para o efeito, socorro-me de uma antiga história sucedida ainda bem antes de 1980. No meio da balbúrdia da guerra civil larvar que arruinava ainda mais o recente país, fui visitado por um cavalheiro angolano que, a conselho de outrem, vinha pedir ajuda. Na prática, e resumindo, o angolano queria fazer um by-pass a uns “amigos” de angola, lisboetas e comprar uns milhões de tee-shirts em algodão a preços menos especulativos do que os que ofereciam os amigalhaços já citados. “É que, dizia-me, a população está esfarrapada e essas peças poderiam, com um slogan do MPLA – a vitória é certa- vestir-se um pouco melhor e apoiar o frágil poder do frágil governo angolano”. E continuava: “De cada vez que enviamos alguém para negociar compras urgentes começamos por receber sucessivos relatórios a informar de tentativas de corrupção por parte de vendedores. Quando acabam essas mensagens, ficamos quase sempre com a certeza de que o nosso agente aceitou um preço e que, quer ele quer os “amigos do povo e do partido angolanos vão uma vez mais encher os bolsos. Desta feita, a conselho de antigos amigos seus do tempo da universidade e de apoiantes nossos em Lisboa, esperamos que nos ajude”.

Reuni um pequeno grupo de amigos e conhecidos, expus-lhes a situação e uns dias depois, convoquei o emissário angolano para uma reunião com todos.

Os leitores desculparão se só cito um nome (o do eng. Carlos Bravo, velho amigo de Coimbra) na altura gestor de uma grande empresa algodoeira do Norte. Em substância, o que o Carlos disse ao angolano foi o seguinte. Propunha-se fornecer aquela imensidão de peças a um certo preço, explicando que tinha deveres para com a empresa e que ter um lucro honesto era essencial.

Ao ouvir o preço proposto, o angolano empalideceu, corou, levantou-se duas vezes e duas vezes se sentou. Depois, um pouco mais calmo, explicou-se: aquele preço era (pelo menos) 30% (trinta por cento) mais baixo do que o melhor proposto pelos “incondicionais” apoiantes portugueses do povo e partido angolanos!

O negocio fez-se e nunca mais ouvi falar do assunto e também nunca mais alguém me demandou.

De alguns contactos com antigos conhecidos dos tempos de luta anti-colonial em Coimbra fui verificando, triste mas não surpreendido, de como as coisas “lá” iam correndo. Um dos meus melhores amigos, António Garcia Neto, foi entretanto misteriosamente morto durante o bizarro levantamento nitista. Foi um entre 20 ou 30.000 e ainda hoje se desconhece quem, e às ordens de quem, o eliminou.

Em boa verdade, eu, sobre o MPLA (e dos outros nem sequer me dou ao trabalho de falar) tive sempre um pé atrás. Dois, até não fora desequilibrar-me e dar com as ventas no chão. Desde muito cedo, desde o princípio quase, tive contactos com os movimentos africanos, graças à Casa dos Estudantes do Império, à República dos !000-y-onarius, constituída por angolanos todos independentistas (e quase todos desaparecidos de Coimbra na grande fuga de 1961e, sobretudo devido à convivência com Carlos Mac-Mahon que, na prisão de Caxias nos explicou com detalhe e longamente, o que se passava. Em Abril e Maio de 1962, fui um dos 44 estudantes (de Coimbra) enviados para os calabouços devido à nossa participação na greve académica de 62 e à ocupação da sede encerrada da Associação Académica.

Mais tarde, conheci vários nacionalistas exilados em Paris, entre eles Mário Pinto de Andrade que chegou a ser o primeiro presidente do MPLA.

A relação com o independentismo africano continuou e disso há constância num dos 14 processos que a prestimosa PIDE constituiu sobre a minha fraca figura. Foi talvez, por isso, que a historieta acima contada, me tenha sucedido. Devo, porém dizer que, em 1974, já olhava muito criticamente a direcção do movimento que expurgara já muitos e destacados militantes (por todos o admirável Viriato da Cruz) e que, no terreno, no capítulo exclusivamente militar, estava claramente contido. Além do mais já se divisam as fracções cada vez mais evidentes, desde a “Revolta Activa” dos irmãos Pinto de Andrade, ate à Frente de Leste, dirigida por Daniel Chipenda.

A história é o que é e foi Agostinho Neto quem finalmente apareceu como vencedor. Ou foi ele o escolhido por apoiantes do bloco socialista ( e sobretudo Cuba, absolutamente essencial na luta contra a UNITA e contra a FNLA, sem falar no facto de ter sido o exército cubano quem conteve as forças sul-africanas). Do reinado de Neto, mesmo para os seus mais piedosos hagiógrafos, pouco de bom há a dizer. Isto se o esmagamento dos alegados nitistas não o condenar absolutamente. A Neto, poeta medíocre e político habilidoso, sucedeu o sr. eng.º Eduardo dos Santos que se manteve no poder durante 38 (trinta e oito) gloriosos anos. O termo glorioso nada tem a ver com o índice de felicidade do povo angolano que a 95% vive na mais desamparada miséria mas apenas reflete como os arranha céus de Luanda (arranha céus cercados de muceques miseráveis e infames) e os trezentos (300) multimilionários angolanos se refastelaram no poder e nos sue doces frutos.

Nesse grupo de gente desenfreada, sobressai - com os queridos irmãos – a sr.ª eng.ª Isabel dos Santos, a “mulher mais rica de África” (e não sei se haverá algum homem, pelo menos negro, mais rico do que ela), filha bem amada do agora ex-presidente Eduardo dos Santos. Da senhora apenas sei o que a imprensa ia relatando. Dos seus investimentos, das compras sumptuosas na Av. Da Liberdade, do luxo impar que presidia às suas moradias, uma das quais no valor de 50 (cinquenta) milhões de euros (50? Arre que aquilo há de ser quase do tamanho do Palácio de Buckingham! Ou, vá lá, do estilo do apartamento dessa criatura de bom gosto que dá pelo nome de Trump...

Não conhecendo a referida senhora, sequer o esposo amantíssimo ou quaisquer membros das comitivas angolana e portuguesa, sempre me resignei a vê-la como grande malabarista do empresariado moderno. Das origens da sua exuberante fortuna nunca duvidei. Não me foi preciso ler a sr.ª dr.ª Ana Gomes, nem ela, aliás, inventou a pólvora. Fortunas deste calibre nem nos contos de fadas. Se ocorrem neste mundo, fora da Europa, da Ásia ou dos Estados Unidos, nem sequer é preciso qualquer dose de instinto para perceber que ali há um milagre das rosas que deixa o da nossa franciscana Rainha Santa, reduzido a mera anedota.

Também não deixo de me espantar (eu sou ingénuo até dizer basta...) que, subitamente, apareçam quase centenas de milhares de documentos oferecidos de bandeja a um consórcio de jornais dos mais prestigiados que óbvia e euforicamente os desataram a publicar.

Diz-se, por aí que a coisa teria origem naquele pobre diabo que está preso e que meteu a mão nos segredos do Benfica, da Procuradoria Geral, de umas sociedades de advogados e não sei que mais. Será? Eu percebo que o rapazola de Gaia, movido por um entranhado amor ao Futebol Clube do Porto, tenha invadido os segredos do rival lisboeta. Que tenha, eventualmente, entrado noutros como consta da acusação. Que tenha tentado extorquir uns euros não sei quem, mesmo se isso tenha sido tão mal feito que até se virou contra ele. Agora, a multimilionária, a empresária que deveria ter a sua segurança mais que reforçada? Cá por mim, é muita areia para a camioneta do rapaz de Gaia. A menos que tudo tenha começado por uma intrusão, sempre ilícita, num escritório de advogados que teria sido a porta de entrada para esta enxurrada angolana.

Propenderia, mais, a ir procurar onde a coisa dói. Em Luanda, por exemplo. Na consolidação do poder do actual grupo dirigente do MPLA onde avultam cavalheiros também fortemente endinheirados e que, com o sacrifício da sr.ª eng.ª podem passar despercebidos. Não ponho em dúvida que o actual Presidente de Angola queira mudar alguma coisa por lá. Como dizia o Príncipe Salina, “é preciso que algo mude para que tudo continue na mesma”. Desculpem a citação do admirável Giuseppe Tomasi di Lampedusa que, provavelmente, ninguém em Luanda lê mas, se há ocasião para o citar, esta é, de certeza, a mais adequada.

Luanda está nas vascas da falência. Precisa de dinheiro, de muito dinheiro. De investidores, muitos também. Para isso há que lavar a cara e mostrar que há um claro intuito de acabar com a corrupção endémica nos meios dirigentes do MPLA, naquela roda de generais e e ministros e ex-ministros que são apontados a dedo.

Se se juntar isso ao combate político dentro do partido no poder, cuja erosão é manifesta, então a filha conhecida do ex-presidente é o melhor e mais apetecido alvo. Sobretudo se ela, uma “parvenue” absoluta, tiver alimentado as páginas rosa” da crónica social e financeira. De uma pazada matam-se vários coelhos: a ricaça, o ex-presidente que ainda tem adeptos e cúmplices e mais um par de colonialistas e racistas (e fascistas) portugueses que ajudaram a dar abrigo aos milhões aqui despejados em empresas e bancos. Que ajudaram a passar muita dinheirama aos direitos, directamente para o Dubai e outros locais que agora todos querem visitar.

Depois, há o espectáculo sempre incómodo de ver a rataria a saltar do titanic em perigo. Que de virtudes! que de gestos nobres! “En esta casa no passa nada” como dizia a mãe da Bernarda Alba mesmo quando os espectadores viam todo um mundo a ruir. De todo o modo, Lorca também não deve dizer nada em Luanda e muito pouco em Lisboa nesses meios pouco dados ao teatro propriamente dito.

Eu, mesmo tendo um diploma passado pela Universidade de Coimbra, já nada sei (e não quero saber) de Direito. De todo o modo, seria interessante saber como é que se aparece o Luanda Leak e se isso não se deve a intromissão ilegal em casa (arquivo) alheia sem consentimento do seu proprietário e habitante. Provas obtidas ilegalmente costumam ser nulas mas quando isso envolve milhões, escândalo, actividades surpreendentes (e não uso adjectivo mais expressivo) tudo pode acontecer.

Para já, temos que o senhor Procurador Geral da República angolana se deu ao trabalho de viajar até Lisboa e deixar bem claro que gostaria de ver uns cidadãos portugueses que exercem as suas profissões em Portugal, em Luanda para serem julgados lá.

Isto seria irónico não fosse estar bem presente na lembrança de todos, o afinco com que Angola negou a Portugal o julgamento de um certo senhor Vicente, político eminente e ainda hoje figura importante em Luanda, acusado de ter corrompido um procurador português por crime ocorrido em Portugal. Era o famoso “irritante” que os senhores drs. Rebelo de Sousa e Costa tanto referiram. A verdade é que o processo acabou por ir para Angola e, desde esse abençoado momento, o cidadão Vicente passeia alegremente a sua alegada inocência enquanto a justiça dorme a sono solto.

Uma palavrinha final sobre a “vitória” da sr.ª dr.ª Ana Gomes uma espécie de inquisidora geral por conta própria. Confesso que, se é verdade que, no caso em apreço, as suas acusações parecem ter eco, não menos verdade é que a consabida estridência da criatura, o seu zelo persecutório mostram bem que o velho espírito mrpp se mantem vivo. Naqueles longínquos tempos era costume dizer-se que “Estaline está vivo nos nossos corações” mesmo se o slogan fosse mais usado pelos rapazes do “Grito do Povo”. A simples menção ao carniceiro soviético é, de per si, uma aberração e uma vileza. Prefiro, como de costume, a esse excesso revolucionário e vingativo, a pachorrenta caminhada de uma justiça eventualmente “burguesa e liberal” mas respeitadora dos Direitos do Homem, mesmo do mais detestável criminoso.

A gritaria à volta da “princesa” de Angola parece muito um ajuste de contas temperado pela inveja de uns quantos e pela vontade de outros tantos em fingirem que nunca tiveram nada a ver com a criatura. E, no meio da barulheira, pressente-se o escape fugidio e sorrateiro de muitos que, à custa do desgraçado povo angolano, tentam passar por entre as gotas da chuva.  

*na  gravura: máscara tchokué (Lunda, angola)

 

27
Jan20

au bonheur des dames 409

d'oliveira

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Gauche”, definitivamente “gauche”

(“vai Carlos ser gauche na vida

Carlos Drummond de Andrade)

mcr 26.01.2020

A bela palavra francesa “gauche” não significa apenas esquerda mas também desajeitado/a.

No meu caso sou, para pesar de uma amiga que suspeita das minhas tendências direitistas, gauche por vários lados.

Primeiro, sou canhoto. Canhoto de toda a vida, faço tudo à esquerda excepto escrever pois na escola primária do excelente professor Mourinho puseram-me escrever com a dextra não percebendo o meu estigma de canhoto e eu nem pensei sequer em queixar-me à família. Durante anos tive uma escrita mais próxima do linear b do que de qualquer outra coisa. Depois aprendi a desenhar a letra e lá se compôs a coisa. Mas não tenho uma escrita dessas que se dizem pessoais e que mostram o escrevente por dentro e por fora. E, sempre que vejo alguém a escrever com a esquerda, invade-me uma irada e antiga inveja que quase me sufoca.

Depois, porque é natural e tradicional a minha falta de jeito para quase tudo. Sempre dancei mal, sou péssimo no futebol (melhor: era péssimo no futebol de tal forma que nos intermináveis jogos de futebol que disputávamos na praia eu era o último a ser escolhido mesmo se a palavra escolha não tenha aqui qualquer peso. Eu era o “contrapeso” que calhava ao mais azarado capitão de equipa, a quem cabia escolher em segundo lugar) e em muitas tarefas domésticas, como, por exemplo pregar um prego na parede.

Finalmente, gauche porque acredito que é possível melhorar o mundo e a vida desde que não se ceda, burramente, ao preconceito ideológico, ao tribalismo opinativo, à falta de estudo e de “análise concreta da situação concreta” (uma proposta inteligente de um cavalheiro que se chamava Ulianov e que hoje ninguém lê porque lhe preferem os tristes epígonos que enxamearam o inexistente marxismo dos progressismos actuais). Vivemos numa época em que o clubismo político cada vez mais se assemelha ao clubismo acéfalo e futebolístico, mais às aparências que à realidade, mais ao vozear do que ao raciocinar. E, sobretudo, gauche porque, mesmo a nível individual, faço por agir de acordo com a ética e não com o recurso aos esquemas em que o ganho parece ser o único norte.

 

Depois deste longo proémio, convém explicar ao que venho. Pois ao uso (e eventual abuso) do computador, aparelho sacaninha que me apareceu tarde na minha (já) longa vida. A minha teoria no uso destes maquinismos é simples: aprender apenas o necessário e quando necessário.

Ora, e precisamente, ligado à escrita tive sempre o cuidado de, uma vez escritos, gravar os meus textos. Punha-lhes um título e guardava-os na “secretária”. E durante anos vivi assim, feliz e descansado. Volta e meia, um texto ficava a meio, pois escrevo na minha esplanada favorita entre um par de cafés. De quando em quando, aparece um amigo, senta-se e o prazer da conversa não se compadece com o ligeiro fardo da escrita. Por isso habituei-me ao “file”, save as”, dar o título e “save” para a “secretária”. Isto, ao longo dos anos, tornou-se maquinal.

Todavia de há uns tempos a esta parte, começaram a desaparecer-me textos prontos ou incompletos. Eu bem que ia ao “ficheiro”, marcava “procurar” apanhava a caixa dos “documentos” inseria, quando o recordava, o título do texto mas nada.

Gauche, tout a fait gauche, disse para os meus botões: o estúpido do mac avariou. E há dias resolvi fazer a experiencia de escrever meia dúzia de letras e gravar. De seguida, segui fielmente o protocolo de pesquisa e... nada! Raspas de nada!

Nestas alturas, comecei a desconfiar de mim próprio e nem hesitei. “Rapidamente e em força” para a “Colossus / Oficina dos Neurónios”, a minha loja salvadora e simpática dos computadores.

Expus o problema e mostrei uma vez mais o que fazia. À gentilíssima D Mónica Silva que me atende e atura com evangélica paciência, bastou um olhar para ver que na caixa de gravação em vez de estar “desktop” no destino estava “my templates”. Ou seja em mandava a pobre prosa que produzo para um misterioso labirinto onde nem o fio de Ariadne dá resultado.

Em três toques, para mim mágicos, apareceu uma boa dúzia de textos que, porventura, mereceriam continuar a monte, escafedidos do autor, para salvação dos leitores que misericordiosamente teimam em ler-me.

Estão, agora numa “pasta de recuperados para o que der e vier” onde eventualmente morrerão sem nunca chegarem ver a duvidosa luz do dia. Lá jazem entre outros um texto sobre a República “Democrática” Alemã em 1970, melhor dizendo sobre Berlin, um Berlin com muro, “vopos” à fartazana para evitar que as sanguessugas ocidentais e capitalistas viessem roídas de inveja abarbatar-se com o progresso inaudito do Leste e roubar os inexistentes bens á venda nas lojas. Voltando à conversa de há pouco, durante anos, a versão do muro foi esta. O muro estava ali, com campos de minas, arma de tiro automático, arame farpado e um exército de homens armados até aos dentes para proteger a pacífica DDR, farol do socialismo real e autêntico. O facto de se terem abatido umas centenas de fugitivos do paraíso quando pretendiam cruzar o muro apenas significava que os abatidos eram criminosos viciosos obcecados pelo capitalismo e pela desenfreada corrida aos bens de consumo. Esta lenda urbana e criminosa terminou com gigantescos cortejos ao grito de “Wir sind das Volk” caindo o muro e o regime sem um tiro, sem uma pedrada, sem um lamento. Aquilo estava podre, era podre e ninguém apareceu para o defender. Todavia, durante trinta anos o Muro era uma sagrada evidência do mito leste-alemão e os amigos, os camaradas, os simpatizantes por cá gabavam-no e defendiam-no mesmo sem nunca lá ter ido, sem nunca terem penosamente cruzado o “checkpoint Charlie” sem nunca terem visto aquela desolada e cinzenta paisagem da fictícia capital este-alemã. Bom proveito lhes faça!

* a gravura: no dia da construção do muro, um "vopo" foge no último momento possível saltando sobre o arame farpado. 

 

 

 

02
Jan20

Au bonheur des dates 408

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De olhos no teto com a “nona” a entrar-nos na alma

 

mcr 2-01-20

 

Em que ano foi ? Seguramente quando os anos cinquenta já estavam perto do fim. Eu teria 16, 17 anos?

De todo o modo era um miúdo ignorante com um escasso horizonte musical, se é que posso falar de horizonte. O meu avô paterno, já entrado nos sessenta, exportador de vinho do Porto (como o pai e os irmãos), vivera na Alemanha um par de anos entre Hamburgo, Heidelberg e Wurzburg aprendendo enologia, química do vinho e sobretudo vida, muita vida (descobri nos seus papéis uma correspondência com três amigos que também tinham tido a sorte e os meios – avultados – para depois do liceu irem fazer o “grand tour” e algum curso – onde é referida insistentemente uma certa Fraulein Ilse a quem os amigos mandam cumprimentos respeitosos com algum comentário brejeiro pelo meio, o que me faz desconfiar que o velho senhor não fora sempre aquele pilar de virtudes que aparentava er e qu me moíam o juízo (escasso juízo e muita sede de aventura)).

Dessa estadia de alguns anos no estrangeiro o avô trouxe sólidos conhecimentos de alemão (e de holandês!) que se juntaram à sua extrema facilidade para línguas desde o latim e o grego até ao francês, espanhol e italiano, sem falar no inglês que ele utilizou muito nos anos em que viveu em Inglaterra. Depois das línguas, do conhecimento bíblico de Eva, no caso Ilse, adquiriru uma sólida cultura musical forjada em inúmeras salas de concerto e de ópera de que foi assíduo frequentador. Aliás foi na Ópera do Rio de Janeiro que conheceu a sua primeira mulher, a avó Dora Heinzelmann, leitora de Espronceda e dos clássicos espanhóis e ibero-americanos e amante da pintura em particular e das artes plásticas em geral. Nos curtos anos da sua breve vida em Portugal, a casa do “Torne” em Gaia era frequentada por Diogo de Macedo, Teixeira Lopes, os Carneiro, pai e filho e vários amigos destes. Desse grupo conservo um belíssimo guache que constava do álbum da avó.

Havia, pois, na casa deste esclarecido homem dos vinhos do Porto, um ambiente cultural muito habitual, aliás, noutras casas da alta burguesia portuense.

Não admira, portanto, que, quando começaram a aparecer gira-discos mais ou menos portáteis de qualidade, o velho senhor encomendasse um na Alemanha que apareceu na companhia de uma edição completa das Sinfonias de Beethoven (uma edição em 33 rotações recheada de nomes de maestros conhecidos.

O dia da chegada dessa encomenda volumosa foi uma festa. Desembrulhar aquela maravilhosas novidades, admirar as capas dos discos e escolher o local para colocar o gira-discos foi uma tarefa árdua que nos ocupou a manhã inteira. Depois do almoço, partimos, o avô e eu, para a sala e sob as instrucções dele deitei-me a seu lado no chão daquela bonita sala forrada a tapeçarias antigos com um belo teto trabalhado e um lustre que aliás herdei.

E começamos, não pela 1ª sinfonia mas pela 6ª. O meu avô explicava cada andamento enquanto ia mudar o disco (eu não tinha permissão para tal, coisa que muito me vexava), referia a época da estreia, os comentários e traduzia com uma facilidade que ainda hoje lhe invejo (mesmo sabendo algum alemão adquirido em duas incursões pelos Goethe Institut de Berlin e de Murnau). As notas que acompanhavam os discos e, sobretudo um longuíssimo artigo retirado do “der Spiegel” (suponho) que motivara aquela sumptuosa compra. Tudo isto, deitado a meu lado no chão protegidos apenas pela espessura do tapete que nos protegia do soalho. E todos os dias repetíamos o mesmo ritual, uma sinfonia por dia em ordem dispersa, acho que a 5ª foi a penúltima, até ao grande dia em que me foi apresentada, depois de traduzida a ode de Schiller de um velho e bonito livro com marcas de muita e constante leitura e pétalas secas sinal de que também a avó Dora o explorara.

Mais de sessenta anos depois, eu gostaria de vos descrever os sentimentos de um rapazola ignorante ao ouvir aquela peça que, continua a comover-me até às lágrimas cada vez (e são muitas pois além dos discos consta em todas as “pen” que trago no carro e que estão sempre em actividade.

A única coisa que recordo bem é que tomei a resolução de me inscrever na “Juventude Musical” e passar a assistir a todos os concertos que, nessa época, ocorriam no cinema Trindade pela tarde. E era da minha mesada que eu pagava a quota. Com os livros que começava a comprar sobrava-me o dinheiro certo para, aos domingos, ir ao cinema. Felizmente ainda não fumava nem tomava café...

Mas a que vem este relambório todo?

Pois ao facto de ter lido no Público de hoje que este vai ser o ano “Beethoven”, celebrando assim a data redonda dos 250 anos do seu nascimento. Devo ao eminente Carlos Fiolhais, um professor coimbrão, a notícia. Fiolhais é um desses cientistas que aliam um saber quase enciclopédico a uma impressionante folha de serviços na Universidade de Coimbra tendo mesmo sido director da prestigiosa Biblioteca da Universidade. Escreve com frequência nos jornais e fá-lo com inteligência, elegância e humor. Neste texto em apreço cita a tríade Haydn/Mozart/Beethoven, três monstros sagrados onde, a meus olhos –e ouvidos! – avulta o segundo de que sou fanático a ponto de ter duas edições completas da sua obra para já não falar dos cd, lp e dvd diversos que fui juntando e de que não consigo (oh egoísmo absurdo!) separar-me.

Ao contrário do avô materno Manuel, oficial do exército, o avô Alcino nunca foi uma pessoa fácil e não primava pela ternura para com os netos. Por isso conservo tão vívida a imagem de alguns momentos de intimidade à sombra de Beethoven. O velho génio surdo fazia milagres a começar pela música que já não ouvia. E esses dias a travar conhecimento com as sinfonias a que seguiriam depois, as sonatas, adoçam a imagem antiga e severa de m velho senhor que uma vez se deitou no chão para ouvir e explicar a um neto, que agora se recorda dele enternecido, o milagre absoluto da música imortal – duzentos e cinquenta anos depois e toda ela soa tão fresca e natural como no dia em que foi pensada.

Bom ano Beethoven para todos vocês!

31
Dez19

estes dias que passam 329

d'oliveira

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“É preciso dar força à razão para que o acaso não governe nossas vidas”

(Cavaleiro de Oliveira)

mcr 31.12.2019

 

Leitoras e leitores que me aturam mais do que mereço. Desejo-vos um bom ano de 2020 que, por mais bissexto que seja, vem carregado de esperanças e avisos.

Se as primeiras são sempre bem-vindas, os segundos devem ser tomados a sério.

Nos últimos dia, os jornais encheram-se de previsões. Conviria olhá-las de soslaio e não levar demasiado a sério o que, muitas vezes, não passa de apressada futurologia.

Se ´verdade que do correr dos dias há situações previsíveis, quase inevitáveis, também não é menos verdade que há muitas coisas que podem ocorrer mercê de acontecimentos que estão para lá da normal previsão. Ninguém esperava que o vale do Mondego, agora tão castigado e sempre tão abandonado dos poderes centrais se convertesse naquele imenso mar de água a cobrir quase vinte mil hectares de terra boa e fértil. É verdade que alguém, um ministro não ouviu quem pedia uma barragem. Parece que achou aquilo um gasto inútil (sempre veremos se o que poupou d´para compensar o imenso prejuízo destes primeiros dias de invernia...) e que com um simples riscar de aldeias do mapa actual tudo se resolverá. O senhor ministro tem uns tiques estalinistas e um modo autoritário de olhar o mundo que nos fazem temer um qualquer novo plano quinquenal a juntar ao deslocamento forçado de populações. Para um recém chegado ao partido socialista a criatura tem assomos soviéticos dos anos trinta que nunca passariam pela cabeça de qualquer social-democrata. Enfim, a cada um a realidade segundo o olhar enviesado que terá.

Promete-se para o ano que entra daqui a uma dúzia de horas um orçamento com superavit. Eu, velho, cansado e cínico, já me contentava com um deficit ligeiro sobretudo quando se verifica que os saldos orçamentais sempre se fizeram à custa de menos e piores serviços públicos essenciais. É verdade que, neste capítulo, e sobretudo na saúde, anda a promessa de despejar mais 900 milhões. E com isso pagar as dívidas em atraso, contratar muitos médicos, muitos enfermeiros e mais, muito mais pessoal. É bom lembrar que talvez seja preciso saber se há candidatos em número suficiente (e não tem havido...). Seria também bom saber se a gestão do parque público de hospitais vai mudar, se o ministério das Finanças vai entregar a tempo as verbas necessárias. É sempre bonito saber que as taxas moderadoras vão ser eliminadas. Já agora também seria bom reconhecer que estas taxas tinham mais o objectivo de dissuadir a corrida às urgências do que arranjar mais uns dinheirinhos. A corrida às urgências vai manter-se e o travão das taxas não estará lá para a controlar. É bom saber que os serviços locais de atendimento vão ter maior amplitude horária (e maior custo). Será que os longos entupimentos destes serviços desaparecerão e isso encorajará as pessoas a renunciar à corrida aos hospitais?

A imprensa e a televisão fizeram-se eco das conclusões do Tribunal de Contas sobre os resultados das parcerias público-privadas no caso de alguns hospitais. Tudo visto, o Estado economizou, no mínimo, trinta milhões de euros num só hospital. A má notícia é que essa parceria vai acabar. Outras duas já acabaram por os privados entenderem que não tem condições para continuar. Em boa verdade, os actuais responsáveis (se é que a actual senhora que faz de ministra pode ser considerada responsável...) na ânsia de controlarem tudo ainda não perceberam que, sem os sectores privado e social, o caos actual e o desastre a que se assiste seriam ainda maiores e mais graves. E contra os menos protegidos de quem eles se arrogam a representação.

Um orçamento com superavit só deveria ser alcançado se isso não representasse, como tem representado nestes anos de Centeno, um feroz ataque ao investimento público (inferior inclusive ao dos anos Passos Coelho) e em sectores críticos desde a saúde à educação, uma falecida ambição de Guterres.

Não perceber ou fingir não perceber o país que somos e temos, sobretudo desde a perda do Brasil, não é só ignorar a História, e também dispensar qualquer noção de Economia.

O “milagre das rosas” da diminuição do deficit tem sido alcançado com captivações e não com uma racional diminuição da despesa.E bom será que se recorde aos mais optimistas que o mesmo resultado tem como base uma carga fiscal sem precedentes que engrossando a receita não tem efeito no investimento público ou na maior/melhor racionalização dos gastos do Estado.

Há quem encha a boquinha mimosa com uma aproximação à Europa só porque percentualmente estaríamos uma décima melhor do que p.ex. a França. É bom lembrar que 0,3%de 10 não é igual (nem aproxima) quem tenha apenas 0,1de 30 ou de 40. Recorram à aritmética da antiga 4ª classe, hoje tão fora de moda e de memória.

Também seria bom não tentarmos ver nos nossos êxitos, por vezes passageiros, algo melhor do que realmente é. Estamos à inteira mercê das tempestades políticas, económicas e financeiras que eventualmente se possam abater sobre o mundo ou apenas sobre a Europa. E com menos meios (que não sejam a inércia e a pobreza) do que muitos outros países nossos directos concorrentes.

Até o oásis turístico em que, por força de situações dramáticas na bacia mediterrânica, nos convertemos trouxe como consequência uma tenaz, acentuada e obstinada subida de preços na habitação nas grandes cidades e no litoral algarvio. E daí também uma falta de médicos e professores que não podendo pagar os arrendamentos nessas terras deixam vagos postos em hospitais e escolas. “Estamos na moda”, diz-se. É provável mas a moda muda constantemente e passa tão depressa como a “linha saco” nos vestidos das mulheres ou as “calças em boca de sino” mos cavalheiros. Se é que alguém se lembra disso...

O ano que entra pode não ser uma absoluta incógnita mas nem o Orçamento, nem as previsões, nem os votos pios são favas contadas.

De todo o modo, Bom Ano para todos ou, pelo menos, que não seja pior do que este que hoje termina.

E gozem os fogos de artifício que são a mais cabal demonstração do modo estúpido de queimar dinheiro.

 

*republica-se a fotografia das cheias do Mondego pois as águas ainda não foram embora. E teme-se que não o façam tão cedo.