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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 691

d'oliveira, 17.05.22

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Nem de fato e gravata...

mcr, 17-5-22

 

 

dedico alguma atenção a uma boa dúzia de políticos de todos os partidos (é bom dizê-lo, não vá alguém acusa-me de parcialidade) mas a lista vai encolhendo e alargando segundo o que vou vendo deles. Um desses cavalheiros foi durante algum tempo o sr Bernardino Soares. Não que eu visse nele um geterodoxo, um eventual dissidente, um crítico. Naa disso. Parecia, contudo, um rapaz inteligente , capaz de pensar pela sua própria cabecinha e tinha uma característica que o tornava frequentável: era parco, muito parco, no uso da “cassete”, da “langue de bois”  a que fomos ao longo de dezenas de anos habituados.  Havia alguma frescura nos seus pronunciamentos mesmo se, nunca tivesse notado nele, qualquer fuga ao cânone.

Depois, perdi-o de vista pois ele andava embrenhado na gestão autárquicae, francamente, o que ele pensava da sua autarquia entrava a cem mas saía a duzentos.

As agruras do PC  caíram em cima dele pois perdeu as eleições. Havia quem merecesse mais essa marga sorte mas o povo équem mais ordena e o povo que o elegera mandou-o dar uma volta ao bilhar grande depois.

Ontem, de raspão, num zapping incompleto apanhei-o a discutir com uma senhora de que nada sei. Apanhei-o já no fim, e concluindo uma argumentação qualquer sobre a Ucrânia.

Já disse que me escapou quase todo o diálogo travado mas o que ouvi chegou.

Bernardino entendia que só havia um caminho para pôr fim à guerra: negociações.

Se apenas tivesse dito isto, não haveria quem saltasse para a arena para o contradizer. Porém, insistir em “negociações” enquanto os misseis vão sistematicamente partindo, de longe, muito longe, e rebentando as mais das vezes alvo puramente civis (são misseis velhos, pouco precisos, parece que já gastaram a maior parte dos mais recentes e agora andam a rapar o fundo do tacho). Ontem os que acertaram em Odessa e Nicolaiev não fizeram mais que destruir um par de instalações turísticas, errar uma ponte, e alcançar o martirizado centro da  2ª cidade citada- quatro ou cinco vítimas a juntar às anteriores.

E o mesmo terá acontecido em outras zonas  onde os combates são mais acesos.

É verdade que, entretanto, alguma negociação terá havido pois terão saído da fabrica de Azov  umas dezenas de feridos e, parece, mais outros tantos soldados. Uns, os últimos terão sido levados para uma cidade controlada pelas tropas russas e outros para outra cidade de onde eventualmente serão transferidos para território em posse do exército ucraniano.

(quem me lê terá reparado noemprego de uma forma verbal que não passa de um futuro indeciso mas a confirmação tê-la-ei lá mais para a noite nos vários noticiários que sigo).

Esta eventual negociação diz respeito a uma troca desigual 300 prisioneiros russos por duzentos ucranianos um quarto dos quais em mau estado. Todavia, se a Ucrânis concordou com isso, só a aplaudo.  Demonstra que se preocupa pelos seus soldados e isso, mesmo em guerra, é um precioso elemento de avaliação do modo de estar no mundo.

No entanto, esta negociação, muito precisa e isolada, fortemente pressionada pela ONU, pela Cruz Vermelha, pela Turquia e pela opinião pública internacional, não parou a guerra apenas suspendeu algum combate na rota de saída dos ucranianos.

Uma negociação como o se soares desejaria, se é que, de facto a deseja, implica uma suspensão mesmo temporária de combates e para prosseguir a promessa de abandono de territórios esbulhados pela violência ao agredido.

Eu já nem falo da parcela “auto-libertada” do leste ou da península da Crimeia. Isso, que já vem de 2014 poderia ficar para segundas núpcias. Porém o resto que já não é assim tão pouco e que na generalidade bordeja o mar negro desde Mariupol até ao distrito de Kersten,  teria de ser evacuado, tanto mais que se sabe que mesmo ocupados esses territórios se verificam manifestações contra o ocupante.

Exigir a paz e negociações sem suspender as hostilidades, sem um qualquer gesto que apazigúe o invadido será muito lógico para o senhor soares mas não entra na cabeça de ninguém de bom senso.  Note-se que eu não disse parar ou acabar as hostilidades mas apenas suspendê-las claramente. Fazer algo que tenda para um armistício mesmo incompleto.

Tudo o resto é música celestial e apenas pretende validar um acto imoral, contrário ao direito internacional. Ora esta pequena parte ficou no tinteiro das boas intenções de Bernardino soares e contradiz o seu surpreendente fato e gravata algo tão burguês que até parece uma fantasia de carnaval.

Dirão que BS foi pelo menos mais longe, já que admite negociações que os ucranianos estão fartos de solicitar e que só o patético sr Lavrov jura que que nunca foram solicitadas ou, pelo menos propostas.

Agora, tratar o tema das zonas ocupadas como um facto consumado e partir daí para conversas ao som das bombas é que parece um exagero. Como exagero será não dizer com clareza que  há um estado de guerra, uma invasão, uma tentativa de destruição de todo o tipo de estruturas de um território que, aliás, tem o apoio de uma coisa fantasmática chamada partido comunista de federação russa que consegue ser mais papista que o papa Putin.

Com fatinho à “pipi da tabela”, gravata (de gosto duvidoso, mas gravata, quando-même!) e mais gordo , brm mais gordo, BS ainda deixou uma nota sobre a NATO que teria logo à nascença o pecado de branquear a ditadura portuguesa. Tem razão mas conviria, já agora, lembrar o mesmo cavalheiro que o pacto germano soviético permitiu a agressão alemã à Europa Ocidental, que a partilha da Poónia foi uma infâmia, que o massacre de Katyn, um crime medonho e que as dversas intervenções do Pacto de Varsóvia, nomeadamente na Hungria e na Checoslováquia,  um claro exemplo de como essa organização ultrapassou sempre a actuação da NATO

(e nem falo da guerra feita à Finlândia  com ocupação definitiva de território ou da ocupação dos pequenos estados bálticos graças a um entendimento (sempre) com  a Alemanha nazi. )

É curioso como os mais jovens membros da “nomenclatura”

 comunista portuguesa se esquecem de uma História que nem cem anos tem. Coitados ainda não tinham nascido, pelo que o holospodor ucraniano, os processos de Moscovo, as medonhas purgas de Stalin, o terrorismo intelectual de Jdanov, os crimes de Beria, o gulag nunca existiram para estas ingénuas e inocentes alminhas!   Nem a guerra do Afeganistão onde aliás se verificou que o Exército Vermelho erajá um gigante com pés de barro. Mas isso também não lembra aos que mantem a teoria que estamos perante uma operação armada especial e, de modo algum, de uma guerra de invasão. É obra!

* na vinheta: Nikilas Bukarin, “o filho querido do partido” (Lenin) uma das vítimas dos processos de Moscovo.

au bonheur des dames 496

d'oliveira, 16.05.22

 

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Um presente do passado tão presente

mcr, 16-5-22

 

acabo de regressar a casa depois de 2 horas que correram velozes, mais depressa do que alguma vez terão corrido.

A culpa desta insólita aceleração do tempo cabe por inteiro a três mulheres a quem me ligam fortíssimos laços de amizade, de ternura, de cumplicidade. 

Subitamente, enquanto conversávamos, assaltavam-me memórias fragmentadas de há mais de cinquenta anos, a bem dizer quase sessenta para ser mais verdadeiro.

Com elas partilhei muito, esperanças, certezas, dúvidas gargalhadas e desgostos. E amigos também, nem todos vivos, nem todos bem mas sempre gente a que confiaria a minha pobre e já longa vida.

É que, nestas celebrações (e o que é um encontro de amigos senão uma celebração?) amontoam-se passado e presente, este visto à dupla luz do que alguma vez sucedeu e do que os nossos olhos actuais mas cansados recordam com maior nitidez.

E, como não podia deixar de ser, atravessa-se, pungente e cruel a sombra da morte. Quando se avança na idade, a morte vai cercando os sobreviventes, carrega-nos de cicatrizes mesmo se, de algum modo, a força da vida manter quem recorda. Há, contudo, alguma urgência nesse exercício, nessa “revisão da matéria dada”, que isto é como o rio do filósofo: nunca mais nos banharemos nas mesmas águas em que mergulhámos.

Não vou dizer, oh estultícia!, que subitamente regressei aos meus vinte anos. Todavia, a ternura, a alegria do reencontro, um indizível conforto, esses estão todos lá.

Também estão as rugas, os sinais claros da idade que não apagam os traços juvenis dos jovens que fomos, antes se sobrepõem de tal modo que, em certos momentos, não temos a inteira certeza do momento em que estamos a viver.

Ganhei o dia, a semana, o mês. Mesmo se ao ver um par de fotografias tivesse de lamentar a falta da minha lupa para reconhecer-me e reconhecer outros que estes olhos já não são o que foram.

A CG diz-me que estou com um sorriso vago mesmo se a máscara (ele está de covid aceso...) me oculte meia cara. Porventura são os olhos de que me queixo que, apesar de tudo, sorriem embevecidos.

Ou então é ela, que já leva quase três décadas a aturar-me, que me tira a bissectriz: as mulheres sabem coisas que qualquer homem nunca alcançará, acocorado a sua fanfarronice e na sua incapacidade de ver, antever, o mundo que o cerca.

O passado, o meu, pelo menos trouxe-me imprevistamente um presente que adoça, ilumina, este presente que vai escorrendo.

Oh que belo dia!

 

 What a beautiful day (hey hey)
I'm the king of all time
And nothing is impossible
In my all powerful mind

 

( eu terminei o texto com uma canção bem mais recente do que uma antiga banda rock, dos idos de 60 cantava. O grupo chamava-se “It´s a beautiful day” e obviamente não é o autor da canção “what a beautiful day” que já é deste século. Porém, sei lá que razões, associo-as sempre. Como se vê, o passado e o presente (enfim um presente também já com um par de anos, teimam em misturar-se. Com esta idade também já vou tendo direito a associações inesperadas) E a vinheta além de uma homenagem ao grupo é um vero retrato daquele nosso tempo. 

 

 

au bonheur des dames 495

d'oliveira, 15.05.22

A inútil precaução”

mcr, 15-5-22

 

 

Permitam-me os raros mas heroicos leitores cuja indulgência é extraordinária para com este escriba que roube ao “Barbeiro de Sevilha”, o segundo título, justamente “a inútil precaução” que aliás  será referida por Rosina quando o conde Almaviva aparece travestido de professor de música.

No caso em concreto a inútil precaução ganha todo o seu significado. ora vejamos: a CG levou sempre muito a sério a pandemia. encerrou-se em casa e nas raríssimas ocasiões em que saía nunca largava a máscara. Até no carro sozinha comigo ela enfiava a máscara. E assim continuou até hoje. Ora na quinta feia passada, enquanto eu estava em Lisboa eis que a nossa excelente empregada apareceu queixando-se de fores, mal estar, enfim algo que parecia uma gripe e como tal foi tomada por ambas. Não era gripe mas um raio de um covid 6ª vaga com que a pobre senhora se cruzou no consultório onde fazia um qualquer tratamento. Deu boleia ao bicho mau que, mal viu a CG,  entrou a matar (enfim a chatear). Na sexta feira já ela me telefonava a informar-me que fizer o teste caseiro e que este dera positivo. 

Só regressei hoje, domingo, e deparou-se-me uma madona dolorida amparada pelas duas gatas mas, vá lá, com apetite para um rosbife. 

Felizmente, a casa é grande pelo que me transladei o cadáver para outro quarto e tenho-me mantido afastado (e mascarado) da doentinha. Temos, ao que parece até quinta ou sexta feira pois afigura-se que o ataque insidioso do vírus maléfico terá terminado por essa altura com, espera, vitória clara da resistente CG que entretanto me jurou que passara uma noite horrível. 

Apiedei-me dela mas pouco ou nada posso fazer  exceptuando os recados, o ir buscar almoço, tratar das coisas até a empregada poder regressar. E esperar, com alguma ansiedade, sair incólume desta emergência.  Convenhamos que ando a tentar passar por entre os pingos da chuva mas, que diabo, tenho uma fezada que ao  vírus  não lhe apeteça esta carcaça  antiga e desinteressante. 

Mesmo vacinado (e à espera da quarta dose que chega daqui a dias e já me apanha pronto para mais uma picadela) não me alegra a hipótese de também eu ser pasto do maldito bicho mau. E julgo que neste caso não devo sentir-me solidário com os contagiados e pronto a sacrificar-me. Passo bem sem o vírus e, com sorte, ele passará bem sem mim. 

Mas que isto, o ataque à cara metade, mulher prudentíssima e que usou de todas as defesas possíveis para não ser infectada, parece mesmo enquadrar-se numa “inútil precaução” não me restam dúvidas. 

Com sorte, (como no finale dessa belíssima ópera do genial Rossini) poderemos daqui a uma semana cantar

 

Amore e fede etera

Si vegga in voi regnar

 

E já que estamos com a mão na massa rossiniana aqui me despeço

Pace e gioia sia con voi

 

 

 

 

estes dias que passam 690

d'oliveira, 14.05.22

Mikahilstahl

mcr, 14-5-22

 

Não, não é uma ruina fabril no meio de um território devastado mas tão só um jornalista em fim de percurso, reformado, envelhecido, rabugento, zangado por não lhe reconhecerem o talento literário e perseguindo o sonho impossível de suplantar a memória do pai, um homem de coragem, um lutador infatigável num tempo em que simplesmente discordar já era um atrevimento inaudito. Recordarei sempre a sua imagem a discursar no Largo do Carmo quando tudo ainda era duvidoso. 

Miguel Sousa Tavares já ão viveu esse tempo, chegou tarde, a hora dos heróis romanescos já passara.

Com o passar dos anos o ego foi-se-lhe crescendo na inversa proporção do seu discernimento político. O mundo não girava exactamente como o jornalista queria, os costumes pátrios  já não admitem a bondade das touradas, a ousadia da caça e,  apesar de continuar dentro da mesma inteira página do Expresso, a sua opinião e as suas proclamações ja deixam indiferentes os leitores. MST é lido ainda mais como um abencerragem (é a palavra justa...) saudoso de um Portugal vagamente marialva que também já viu melhores dias. 

 Por outro lado, do lado materno, MST também vem de uma mulher a vários títulos excepcional. Não apenas como poeta mas também como resistente á ditadura (e mais uma vez não posso esquecer a sua participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos de quem sou, fui, devedor grato).

De certo modo, compreende-se o drama do filho mais velho de um casal excepcional. Nem todos se conformam com um percurso normal com os seus altos e baixos, num país normalizado sem necessidade (pelo menos aparente) de heróis e sem vilões medonhos. 

Ficou-se pelo jornalismo onde ninguém lhe nega alguma competência  esmo se tintada de insolência atrevida e de excesso opinativo  que, segundo alguns lhe toldava o necessário espírito crítico.  

Nos últimos anos,  o peso da idade (fatal em quem se toma por importante) revelou-se em todo o seu esplendor. Um par de idiossincrasias que passariam por originalidade há anos e enquanto jovem, tornam-se mais evidentes e menos densáveis nestes tempos em que o politicamente correcto enforma a vida pública.  MST foi-se promovendo a “velho do Restelo” com toda a carga que a sua intemperada arrogância de muitos anos, a sua truculência jornalístico-opinativa merecem. 

A guerra na Ucrânia tem-lhe sido fatal a mais de um titulo. Também ele, alinhou na frente dos combatentes contra o pensamento único, provavelmente mais por tentar mostrar-se “au dessus de la melée” do que por qualquer russofilia ou ucranofobia. Apesar de tudo ninguém confunde o ex-azougado jornalista com a senhora da última página do Publico ou os camaradas dos sr Jerónimo de Sousa.

MST começou por se afirmar como adepto da paz, coisa que o não distingue de 95% dos restantes portugueses. Todavia, já nessa defesa a outrance da paz, parece ter esquecido algo: o agredido (e ele diz sem peias que é a Ucrania) por muito que queira a paz não tem outro remédio senão o de se defender pela guerra da guerra que lhe é feita. 

Depois, um país tem direito à sua integridade territorial e foi isso, desde 2014 que sempre esteve em causa. Qualquer pessoa sabe que a auto-proclamada secessão dos dois territórios russófonos do leste, disfarçada de insurreição popular só se manteve graças ao apoio de tropas russas. E mesmo assim, mais de metade desses territórios resistiram a essa primeira guerra larvar e que uma boa parte dos cidadãs que tem o russo como primeira língua entenderam conservar-se ucranianos. Só isso justifica estes longos oito anos de hostilidades.

Já o caso da Crimeia é diferente: aí foi o exército russo a tomar a iniciativa a partir da base de Sebastopol e de forças navais que desembarcaram na região onde, de resto, haveria uma população – ou parte dela – pró-russa. 

Aliás, o conflito, pelo menos a sua fase mais acesa, limitou-se ao leste e mesmo assim com limitações: os ucranianos esforçaram-se por conter a “rebelião” mas com o cuidado de não levar a cabo operações que suscitassem mais e maior intervenção russa. 

Por isso a “operação especial” foi, de algum modo, uma surpresa (mesmo se os americanos desde sempre a dessem por certa e próxima).

Querer nestas circunstâncias que se entabulassem conversações de paz que, à cabeça implicasse perda de territórios já parecia algo de inconcebível. A brutalidade do ataque, a progressão de tropas russas no sul até à zona próxima de Mikolaiev (o que além do mais indiciava um próximo ataque a Odessa e, eventualmente uma marcha até à Moldávia) não são de modo algum argumentos propiciadores a qualquer acordo de paz, sequer a um armistício que, aliás, e a crer nas palavras de Putin e do governo russo, sempre foram excluídas.

As únicas condições conhecidas (perda dos territórios, impossibilidade de adesão à NATO, renúncia à entrada na UE, “desnazificação”, duvidosa neutralidade, desarmamento quase completo, enfim um ultimato em boa e devida forma) eram inaceitáveis para qualquer pessoa excepto, ao que parece, Miguel sousa Tavares aposto da paz e da harmonia entre o cântaro de  ferro e o cântaro de barro. 

Mas ele, qual vox clamantis in deserto, insistiu nessa tecla sem explicar como isso seria útil para uma Ucrânia retalhada e para a sua população cuja tenacidade em defender-se diz muito. 

Agora, na última edição do Expresso, para comemorar a falta de avanço russo, as pequenas reconquistas ucranianas, eis que entendeu glosar o discurso de Putin na Praça Vermelha e o que ele apelidou de parada de Zelenski sozinho numa avenida de Kiev.

E bolsa um par de imbecilidades sobre Zelenski a esse propósito mas não só. Mais uma vez, só contra o mundo todo o u quase. Um herói! O al dacoisa está em que o artigo confunde planos, realidades e afirma que o mundo inteiro mente ou pelo menos sonega boa parte da verdade. Assim, as reportagens são todas pró ucranianas não se consegue ver nada do lado russo, como se os jornalistas ocidentais conseguissem acompanhar de perto as tropas de Putin. Parece esquecer-se que, mesmo nos raros momentos em que aparecem russos, isso é apenas em cenários cuidadosos inócuos, como se a guerra real não fosse mais do que uma inocente operaçãoo especial sem grande aparato. MST “está farto” de ver cidades, bairros inteiros arruinados, fossas onde estão corpos de civis (testemunhados por toda a gente a começar pela Aministia Internacional e pelos enviados da ONU, quase como se dissesse que é tudo uma cambada de mentirosos, de patetas, de inocentes úteis ao serviço de cavilosos interesses da NATO (que vende armas!). Provavelmente, não reparou na gigantesca vaga de refugiados, no que eles dizem, nas imagens de não poucos cidadãos russos contestatários que se sujeitam a penas de 15 anos de prisão por se manifestar ou simplesmente por usarem um léxico proibido pelas autoridades em decretos publicados pelo poder russo. 

A idade não ajuda mas neste caso há que dizer que MST não aprendeu nada e já esqueceu muito. Continuará, até que a voz lhe doa, a afirmar que armar quem se defende e está em clara inferioridade numérica e de armamento, é um crie lesa paz .

Não é possível imaginar MST em Munique, durante a triste comédia de um acordo em que Hitler toureou um tonto e presunçoso Chamberlain. Nem noutras alturas da mesma época em que havia a ideia peregrina de consentir todas as tropelias que ocorressem ao trêfego Adolfo desde que isso o aplacasse. 

E o resultado viu-se.

(não valerá a pena recordar que na mesma trapaça caiu Stalin que celebrou um pacto infame com os nazis que permitiu a estes invadir tranquilamente Polónia – partilhada com a URSS - e o Ocidente. E fornecer durante dois inteiros anos de guerra uma quantidade gigantesca de bens de toda a ordem à Alemanha. O último comboio com um carregamento soviético cruzou-se com a vanguarda das tropas invasoras alemãs! Também, por essa época havia quem dissesse que a causa da paz estava a ser defendida e que os belicistas ocidentais tinham fortes responsabilidades na guerra.

 

Não quero com o que vem de ser escrito defender que MST seja defenestrado da sua coluna semanal. Até convém que ele continue pois à medida que o tempo passa e já lá vão mais de 70 dias a sua prosápia vagamente pacifista vai-se mostrando cada vez menos neutral e menos independente e não se vislumbrando na sua  cruzada contra o famoso pensamento único um argumento que sirva mesmo quando refere (que os há) alguns ultra-defensores da Ucrânia que também fazem tábua rasa do bom senso e da verdade factual. 

É por isso que entendi que MST merece também ele, o seu reduto inexpugnável  que o título do folhetim indicia. De modo algum o comparo, logo ele um civil (mesmo caçador e amador de touradas) que usa a caneta como arma com os “desperados” da aciaria de Mariupol.

 

 

 

 

 

 

estes dias que passam 689

d'oliveira, 13.05.22

 A notícia e as interrogações

mcr, 12 de Maio de 2022

 

 O ex-banqueiro fugitivo e aprisionado na África do Sul terá sido encontrado morto na sua cela. A notícia é sucinta, não adianta pormenores de qualquer espécie mas o facto de ter sido “encontrado morto na sua cela” parece afastar qualquer acção crapulosa e permite pensar que  morte terá tido causas naturais. 

Sabe-se que os advogados ul africanos do finado tinham pedido a sua libertação sob caução (uma caução baixíssima, pouco mais de 2.000 euros para quem estava condenado pelo desvio de muitos milhões e possuiria, à data da sua prisão mais de dez cartões de crédito emitidos por outras tantas instituições bancárias. 

E é bom recordar que JR foi detido num luxuoso hotel  de Durban, após ter estadeado em outros hotéis de igual gabarito por toda a África do Sul.  

Apenas refiro isto para afirmar que a proposta de caução (a ser verdade) era claramente delirante. 

Com a morte do fugitivo lá se võ os processos e, sobretudo, desaparece o dinheiro desviado ou, pelo menos, torna-se ainda mais difícil encontrar-lhe o rasto. Como de costume será o pagode a pagar a factura de mais esta aventura bancária portuguesa. 

 

 

Se somarmos esta  notícia a uma outra, também recente e envolvendo outro cavalheiro dado a aventuras igualmente desastrosas para os cofres nacionais, o sr Berardo, temos que o termo delírio acima proposto assume outra e mais vertiginosa proporção. Com efeito parece que esta criatura entendeu agora acionar quatro bancos, pedindo 900 milhões euros por alegadamente ter sido enganado pelos demandados que teriam ocultado a fragilidade dos seus recursos ao desvalido colecionador de arte!!!

Ou, por outras palavras, os investimentos deste verificaram-se ruinosos por as acções dos bancos não terem o valor em bolsa que eles anunciavam. 

Não vale a pena pronunciarmo-nos sobre a questão. De resto, representantes de alguns dos bancos em causa entenderam não discutir a questão num programa de televisão limitando-se a afirmar em tom ligeiramente enfastiado que aguardavam o desenrolar do processo caso a queixa fosse para a frente. 

Eu nunca ponho a mão no fogo, sequer em água morna, por qualquer banco, mas maravilho-me com esta eventual acção De Berardo versus Banca.  Se estivéssemos no Carnaval ou eventualmente no pino do Verão eu pensaria que isto era uma notícia apropriada a tais épocas. Todavia, estamos em Maio e, apesar do calor  (que está de “estorricar os untos” se me é permitido citar Eça) ainda não é época azada para a silly season, mesmo bancária. 

De todo o modo estas novidades afastam-nos do dia a dia violento da guerra que, mesmo assim, assume protagonismo graças a uma entrevista a duas páginas do casal russo Kashin, esses admiráveis – e bem pagos pelos cofres camarários e nacionais- abnegados beneméritos dos ucranianos em fuga por via, exactamente, da invasão russa. Um must! Só isso dá direito a comprar o “Público” pois permite uma leitura jocosa, substancial e reveladora do que se passa na pátria valente e imortal dos heróis do mar. 

E já que estamos com a mão na massa, perdão, no “Público” vale a pena ler uma reportagem de quase duas páginas sobre o processo de naturalização do sr Abramovitch, que a comunidade israelita do Porto  considerava de excepcional interesse nacional. Vale a pena ver como um processo moroso se transformou, no caso em apreço, numa maratona velocíssima em que todos os serviços públicos se mostraram de uma inusitada rapidez numa clara afirmação de patriótico  zelo em prol de uma individualidade que, por exemplo, não conseguira sequer um visto de residência na Suíça esse paraíso das grandes fortunas. As autoridades helvéticas devem ser as mais estúpidas da Terra ou do sistema solar , quiçá da Via Láctea!...

Assim correm os dias que passam...

au bonheur des dames 494

d'oliveira, 12.05.22

O cumpridor e promessas

mcr, 12 de Maio de 2022

 

escrevi aqui que se da Azofstal (Mariupol) saíssem os civis graças ao tardio esforço do sr. engenheiro Gutterres, o acompanharia a Fátima. 

Eu não acreditava que a coisa tivesse êxito mas na verdade saíram quase quinhentas pessoas mesmo se haja notícias de outro tanto que lá ficou (doentes, feridos quase todos homens, eventualmente soldados também feridos). De todo o modo, como há muito deixei de ser radical, entendi que a promessa deveria ser meio cumprida, mesmo sem a beatíssima companhia do Secretário Geral da ONU. 

Aproveitei o facto de ter de vir para Lisboa para ver a mater augusta que vai briosamente nos seus cem anos e fiz um desvio até  Fátima. Dispensei-me de entrar no santuário que nesta época está que ferve de peregrinos e dei por cumprida a minha promessa. E regressei logo que pude à A17 para continuar a fazer uma viagem razoavelmente solitária.

Verifiquei, assim que entrei em estradas normais que eram muitos os peregrinos, a guarda republicana a avisar os automobilistas e os grupos de voluntários que ajudam as pessoas que vem de longada e de longe a pé- Até vi uns peregrinos com uma bandeira ucraniana!...

Cumprido o meu dever, laico e automobilístico, desacompanhado de Guterres , entendi trazer (ou voltar a trazer) uma crónica com trinta e muitos anos sobre uma promessa de ida a Fátima que se gorou pelas razões que no texto se expõem. 

Aqui vai:

 

 

Figueira-Fátima só ida

Se os meus parcos leitores  permitem tenho uma confissão a fazer: não sou nem nunca fui pessoa dada aos mistérios da fé. Aquilo passa-me ao lado como se fosse água pelas penas de um pato. E não é que não me tenha esforçado: foi há quase meio século que num verão mimoso desfilei com outros meninos e meninas na procissão dos primeiro-comungantes. Há disso uma fotografia delida pelo tempo: eu e o meu irmão, de casaco e calção cinzentos, fitinha larga e benzida num dos braços e mãos juntas atadas por um terço.

 

Lembro-me  que, nesse dia inesquecível, lavado de todos os pecados, o meu maior desejo era pertencer `a "Cruzada Eucarística" cujos elementos abriam a procissão ostentando a tiracolo uma banda branca com uma cruz azul. O quadro ficará mais completo ( e ligeiramente menos inocente) se acrescentar que nesse grupo se incluía uma menina de loiros e longos cabelos anelados...

 

Todavia nunca cheguei a ingressar nessa piedosa agremiação. Havia muitas missas e novenas a cumprir que os caminhos do Senhor não são pera doce. Tanto mais que, durante o longo período de catequese me fartara de faltar às aulas de doutrina, salvando-me de denúncia da catequista apenas porque com a memória forte da infância decorava e papagueava, sem erros, orações, mistérios, listas dos pecados capitais, das virtudes teologais, hinos sagrados incluindo, oh maravilha!, o inteiro  "tantum ergo sacramentum..." e a Salvé Rainha, toda em latim de igreja (bem melhor e mais bonito do que esse arremedo que ora se usa sob o nome de pronúncia restaurada).

 

Depois as missas eram insuportavelmente longas, sobretudo a das onze, a melhor e a de mais escolhida freguesia. Com o meu irmão e um comum amigo de nome Bartolomeu, fintávamos as famílias e metíamo-nos no museu a ver armaduras japonesas, cacos romanos e outros objectos fascinantes, enquanto na igreja cheia o monsenhor Palrinhas dava início a uma longa cabotagem de ladaínhas, sermão, cânticos enfim o que se chama uma missa bem medida. Normalmente chegávamos quase no "ite.." para saber, não fosse alguém perguntar, qual a cor dos paramentos. Depois sorrateiramente seguíamos os cardumes de raparigas até ao bairro novo onde se passeava uma meia hora antes de recolher toda a gente a casa para o almoço dominical.

 

Convenhamos porem que não éramos só nós a fazer gazeta ao "santo sacrifício": as esplanadas dos cafés estavam desde cedo cheias de cavalheiros  que aproveitavam a ausência das  famílias na missa para tomar uma descansada bica, ler o jornal e falar com amigos. Provavelmente pensavam que a mulher e a filharada rezariam o quantum satis para absolver toda a tribo...

 

Não se pense contudo que esta mansa falta à prática dominical fosse sinal de  laicismo radical. Nada disso: era apenas preguiça, despreocupação e vontade de aproveitar a manhã luminosa depois de uma semana de duras penas. Os figueirenses quando era necessário frequentavam a casa de Deus com aplicada devoção e era lá que se casavam, baptizavam a prole e enterravam os seus.

 

Todavia, de longe em longe, a cidade era percorrida por um frémito religioso de maior alcance e rivalizava com Buarcos onde era conhecida a devoção por S Pedro e pela Senhora a Encarnação. Os pescadores, sobretudo aqueles que se perdiam meio ano pelos mares do bacalhau em dóris frágeis no meio do nevoeiro encaram a religião como um assunto sério e vivem-na como um perpétuo seguro de vida que eles contratam com um par de santos que consideram mais influentes e próximos de Deus. 

 

Terá sido pois num desses momentos de arrependimento colectivo e exacerbada introspecção que um grupo de cidadãos proeminentes e amplamente conhecidos nos meios boémios da terra entendeu ir, de longada e a pé, até Fátima, coisa que nesses anos longínquos deveria significar oitenta quilómetros bem medidos.

 

Os cavalheiros em causa além de pertencerem a algumas das mais conhecidas famílias tradicionais gozavam da fama (e proveito) de bebedores inveterados coisa que dava muito (e ainda dá, penso...) nas terras pequenas. Nesses tempos benditos em que beber vinho era, sic, dar de comer a um milhão de portugueses a embriaguez só assumia foros de escândalo quando atingia indivíduos socialmente desqualificados que, na via pública, vomitavam com o vinho um rol de palavrões. Isso, vestirem andrajos e cheirarem mal atirava-os para a categoria de bêbados sem préstimo ao passos que os señoritos de que falo frequentavam o Tennis  ou a Assembleia e sabiam qual era a diferença entre o garfo de peixe e o da carne.

 

Foi pois dentre o selecto meio dos que se embebedavam na "Agostinha" e no "Casino Peninsular", que se projectou a piedosa excursão à terra dos três pastorinhos. Os penitentes prepararam com esmero e unção a viagem, munindo-se de uma muda de sapatos meias q.b., bordões peregrinantes e demais impedimenta. Para comer socorrer-se-iam dos estabelecimentos do caminho mas à cautela levavam alguns mimos caseiros num cesto de vime. No que respeita à sede resolveram depois de breve debate que se desalterariam em todas as locandas do caminho. Andar cansa e torna a goela sequiosa de modo que o melhor seria parar sempre que, nessa via crucis, se mostrasse restaurante, venda, taberna ou casa de pasto. 

 

E que beber perguntará algum leitor cuja coragem o fez chegar até aqui. Pois para beber eliminou-se desde logo qualquer bebida gasosa (laranjada ou pirolito) por efeminadas e pouco adequadas a uma jornada sacrificial. O leite foi vetado por não oferecer confiança o que se vendia por aqueles pinhais imensos. Alguém terá mesmo falado dos perigos da febre de Malta e de outras maleitas igualmente perigosas. A cerveja foi cortada por duas razões essenciais: no caminho não deveria haver quem decentemente soubesse tirar uma caneca á pressão (e a cerveja mal tirada é pior que mijo de burra...)  e tendo um efeito diurético forte poderia obrigar algum dos caminhantes a verter águas na via pública com notório escândalo de quem visse.

 

Resta a água arguirá de novo o mesmo e já citado leitor generoso mas inocente. Alto aí e para o baile!  A água fora as propriedades higiénicas que ninguém nega, a utilidade para o regadio ou para a culinária, só é bonita na forma de mar, rio ou lago. Aceita-se no estado sólido se servir para temperar o whisky e no gasoso para saunas. Fora isso, que já é muito esgota-se, aqui o parágrafo água que mesmo em religião apenas serve para baptismos.

 

Há que recorrer ao vinho, maxime a algum dos seus derivados ou destilados se tal for necessário. O vinho está consagrado desde as bodas de Caná, pertence à herança greco-latina, é um genuíno produto português além do que tem efeitos vaso-dilatadores unanimemente reconhecidos.

 

Não posso precisar o dia e a hora em que a comitiva  iniciou a sacra caminhada. Sei apenas que foi a pastelaria Caravela o local de reunião. Aí os peregrinos tomaram uma bica e um cálice de "Carvalho, Ribeiro & Ferreira" na altura a melhor aguardente velha do mercado. Um minuto depois paravam no Nicola para um licor beirão, e logo em frente no "Oceano" para um bagaço. Nos restantes trinta e oito metros parou-se na "Império", no "Astória", na "Peninsular"  e no Arnaldo, cortando-se aí para esquerda, com o fim de atingir o jardim municipal, tomar a marginal do rio até à ponte para a margem direita do Mondego. 

 

Parece, ou pelo menos tudo o leva a crer, que ninguém se terá apercebido aquando da elaboração do roteiro que a R.ª Dr. António Dinis, além do Mercado, do cinema Parque Cine era praticamente ocupada no seu lado esquerdo descendente por pequenas casas de pasto (hoje 40 anos passados muito snakebarizadas e hamburguerizadas, infelizmente). 

 

 A penosa caminhada e as libações sacrificiais a que ia dando azo fizeram com que a marcha penitencial tenha acabado  antes do jardim. Um dos caminheiros teve mesmo que ser socorrido no hospital com coramina, dois outros foram levados a casa por um talhante solícito, um quarto ferrou-se a dormir numa das tascas mais consagradas e como era assíduo só foi acordado onze horas depois a pedido de uma esposa aflita mas conhecedora dos seus hábitos. O quinto vomitou, discretamente, nos lavabos do cinema "Parque cine" e saiu pelo portão da Rª Cândido dos Reis,  subiu, foi comer na "Lagosta Vermelha" tendo-se posteriormente emborrachado de cerveja no mesmo e mal afamado local em companhia de um croupier do Casino. 

 

O último entrou no mercado comprou vários produtos com os quais fabricou um coktail de ovo que ofereceu a vários vendedores. Com eles e numa marcha titubeante ( o licor de ovo é fatal...) saiu da praça pela porta oeste, atravessou a rua e foi encontrado nos baloiços do parque infantil a cantar para um grupo de meninos a imortal modinha

  " Mamã eu quero

    Mamã eu quero mamar

  Dá chupeta, dá chupeta

  pro bebé não chorar..." 

 

 

 

Vai esta para António Pinguel, Ana Leal de Oliveira, os 2 manos Esteves, Mário Vieira de Carvalho, Octávio Correia Ribeiro, Luisinha Novais e Rosa Carlos núcleo duro de um grupo de amigos que começou na praia de Palheiros, entre Figueira e Buarcos, à sombra  do parque Sotomayor. E com uma comovida lembrança do Luís Neves nosso amigo. E à Teresa  Estrela Esteves, idem

 

 

 

 

estes dias que passam 688

d'oliveira, 11.05.22

Mais ignorante, mais trapalhão ou simplesmente distraído?

mcr, 11 de Maio de 2022

 

Ontem deixei aqui um post que, de certa forma, continuava  um anterior  intitulado “Queres fiado?”

Descobri com a conhecida estupefacção dos ignorantes/trapalhões ou distraídos (escolher a versão que preferir) que esse texto deveria andar perdido na net porventura no encalço de Alice ou da rainha de copas.  

Ora esses perdido folhetim era de certo modo essencial para melhor se perceber o que eu queria com o segundo. 

Está perdido. Não tenho, contra o costume,  cópia e não me sinto capaz de voltar a escrevê-lo. Todavia, a minha teses era a seguinte: como o Estado paga mal a médicos e professores, em alguma altura, chegaria o momento da verdade, ou seja o momento em que a falta desses profissionais provaria que o SNS na versão actual e o ensino na mesma versão  não só não protegem os pobres, sequer os remediados como os prejudicam. Paralelamente aumenta o fosso entre ricos epobres graças aos colégios privados e aos hospitais igualmente privados. 

Além disso eu sustentava que a baixa do preço das propinas apenas aliviava os riscos e de pouco servia os pobres.  De facto quer no ensino secundário quer no universitário (sobretudo neste) as propinas eram um meio de amealhar mais uns tost\oes que fazem falta, uma falta aflitiva, nos cofres dessas instituições quer para melhorar o miserável serviço de bolsas  quer para, eventualmente, investir nas famosas e prometidas residências universitárias que ao não existirem condenam os estudantes de baixos rendimentos a procurar um ensino alternativo de qualidade inferior.  I

Isto é uma verdade como um punho, ao mesmo tempo que igualmente verdadeiro e pungente é  facto de as escolas privadas obterem ano após ano e cada vez mais,  um índice de qualidade que por mais voltas que tentem dar-lhe, significa apenas que os ricos (nos colégios privados) tem acesso a um ensino bem melhor do que o dispensado pela escola pública. É verdade que a escola pública não escolhe os alunos (que vem de estratos diferentes mas não menos verdade é que  os resultados estão à vista de todos. Em países civilizados, qualquer estudante que se distinga pode concorrer a bolsas e, em muitos casos, as escolas e universidades privadas oferecem-lhe bolsas bastante razoáveis. Compreende-se que assim seja pois um lote de alunos de alta qualidade distingue e promove o estabelecimento de ensino. 

No capítulo da saúde a já  crónica falta de médicos em certas zonas do país  tem muito a ver com o preço da habitação. Resultado: em Lisboa ou no Algarve recorre-se a tarefeiros (também mal pagos, pelas empresas com que tem contratos) com a agravante de serem sempre menos, muito menos, dos que os necessários.  

Por outro lado, os hospitais públicos estão a rebentar pelas costuras, tem gigantescas filas de espera  e há especialidades em que o paciente corre o risco de aguardar anos (anos!!!) por uma consulta. 

É por essas e por outras que quem é rico  ou tem a hipótese de pagar um seguro de saúde (que nunca é barato) prefere bater à porta do hospital privado. Eu próprio, felizmente utente da ADSE (que uma estão nomeada pelo Estado teima em estragar aquilo que vive exclusivamente das nossas contribuições)  prefiro recorrer ao serviço privado. Em pelo menos num caso, o tratamento dos olhos contra a “mácula” bem que optei pois quando se descobriu a maleita, o mínimo de espera que teria (sem contar com o facto de o covid estar a dar-lhe na máxima força ...) andava por largos meses. Pago uma brutalidade mas já vou no 10º ou 12º tratamento, as coisas vão correndo bem e a doença está controlada. 

E juro que não gosto de esbanjar dinheiro ou menosprezo os profissionais do SNS. Aqui trata-se de uma urgência (pelo menos sentida por mim) e com os olhos não convém brincar. 

Em ambos os casos, saúde ou educação, seria bom deixar o preconceito ideológico na gaveta e tentar por todos os meios optimizar as soluções possíveis. O Estado pela mão da geringonça entendeu, entre outra medidas absolutamente populistas, acabar com as taxas moderadoras. O resultado , de resto esperado, está à vista: segunda feira, 9 de Maio, o Hospital de S João teve 1200 pessoas a demandar a urgência!!! 

E bo parte delas, com o aval de serviços também públicos que mandaram os doentes para o hospital sem sequer cumprirem a norma legal. 

Ao mesmo tempo, longe de diminuir o número de cidadãos sem médico de família, aumentou. Já ultrapassa largamente o milhão de pessoas. Com a reforma próxima de algumas centenas de médicos e com os concursos a ficarem desertos, isto vai aumentar exponencialmente, queira a arrebatada Ministra ou não. 

Era este o cenário que eu comentava e que andará perdido sei lá onde. 

Aproveito para pedir desculpa a algum(a) eventual leitor(a) que foi à procura de um texto que , como o rei Sebastião, não surdirá nunca do nevoeiro. 

E a minha conclusão era simples: médicos e professores não podem nem devem ser tratado como amanuenses da funçanata pública. Primeiro porque os serviços que prestam não são fungíveis, depois porque, pura e simplesmente, não estão dispostos ao vexame de trabalhar sem condições, sem ordenado decente e sem perspectivas de carreira. 

E a 2ª conclusão adivinha-se: neste estado de coisas os ricos safam-se sempre e os pobres aguentam...

 

 

 

estes dias que passam 687

d'oliveira, 10.05.22

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Mais do mesmo

mcr, 10-5-22

Ontem, sob o título “queres fiado?”, publiquei, aqui mesmo, um par de considerações sobre a saúde e o ensino.

Por coincidência, hoje, os jornais (ou o “Público, pelo menos) vem trazer um par de achegas importantes que me confortam a opinião entretanto expendida.

No capítulo do ensino, o Banco de Portugal (BP) sai a terreiro afirmando que apenas 10% dos estudantes oriundos de famílias pobres chegam ao ensino superior, pondo-nos, ipso facto, na cauda da Europa, lugar a que, cada vez mais, nos vamos habituando.

Também, ainda sobre o mesmo tema, o mesmo BP revela que no capítulo de filhos de pais apenas com o 9º ano de escolaridade, ó 27% dos estudantes chegam ao ensino superior o que revela bem como o elevador social tem o motor gripado.

 

Já no que toca à saúde, verifica-se que o deficit previsto este ano para o SNS andará à volta de 1.100 milhões de euros, ao mesmo tempo que terá aumentado o número de utentes sem médico de família ultrapassando os deficientes números registados nos últimos dez anos.

(e depois há leitores que se admiram da minha falta total de entusiasmo pela srª Ministra da Saúde...)

Ainda sobre o mesmo tema, saúde, apareceu também um artigo de Óscar Gaspar, presidente da APHP  (Expresso) com o título “a lei que trava a saúde, afirmando que a legislação relativa ao equipamento médico pesado aprovada em 1955 e jamais actualizada  na prática é usada para travar a entrada dosprivados (e só dos privados).

Pelos vistos, a “instalação do equipamento médico pesado  está sujeita a autorização do Ministro da Saúde”  com recurso a critérios que ao fim de 27 anos estão obviamente ultrapassados” deixando dezenas ou centenas de milhares de pacientes em cada vez maiores listas de espera cuja duração aumenta exponencialmente.

Convenhamos que não se entende esta limitação ao simples investimento privado que em nada pesa ao Estado.  Ao mesmo tempo, as dificuldades orçamentais já conhecidas também não permitem que os hospitais públicos possam em tempo útil dotar-se desses meios que já são comuns na Europa.

Será birra?

* a vinheta: imagem de tomografia de emissão de positrões que, pelos vistos, fará parte das aparelhagens sujeitas à boa vontade de Sª Exª.

estes dias que passam 686

d'oliveira, 06.05.22

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O partido “irmão”  pisa o acelerador

mcr, 6 -6-22

 

 

eu convidaria os leitores mais resistentes a darem uma vista de olhos `s posições e proclamações do chamado “Partido Comunista da Federação Russa” mormente sob a questão da guerra na Ucrânia.

Esta organização de fraca implantação na Rússia é tolerada pelo regime putinesco  e serve-lhe mesmo de “cão de guarda” na acepção antiga e lúcida de Paul Nizan, um intelectual comunista que, pela corajosa posição imediata anti-invasor alemão na França,  foi acuado de tudo pelo seu partido.

Não vou sequer elencar todas as invectivas desta caricatura política russa mas apenas relembrar que foi dela que partiu a proposta de reconhecimento imediata das regiões separatistas ucranianas e, desde esse momento, tudo o que proclama vai num crescendo obsceno , ultrapassando os mais alucinados nacionalistas e nacional-fascistas russos que não pedem meças  mais nenhum outro partido de direita radical.

É, todavia um partido irmão, que ultrapassa  largamente o da Coreia, outra aberração que vive na respeitosa e absoluta admiração pelo líder, melhor dizendo pela dinastia norte-coreana que já vai no netinho do fundador. (Os leitores mais exigentes poderão verificar que da banda de cá, o PC cnorte coreano é um ramalhete de virtudes proletárias, anti-capittalistas, progressistas e renovadoras do mais fino quilate.

(Basta ir à internet para ler o que os comunistas locais afirmam sobre o seu “irmão” coreano) .

É neste cenário de abjecta  coincidência de posições que agora, alguns filhos e filhas de Putin vem alertar os portugueses sobe o “efeito boomerang” do anti-comunismo.

Convém esclarecer que qualquer crítica ao PC, aos seus eleitos locais, à prática de algumas autarquias por eles governadas, é obviamente  uma horrível maldade e um ataque sem precedentes contra um partido nacional e repleto de virtudes democráticas como é timbre do PCP.

Eu faço parte de uma geração que conheceu p PCP nos tempos difíceis, que apoiou muitas lutas por ele promovidas ou (mais verdadeiramente) a que ele se associou e tentou capitanear.

Escondi, quando me foi pedido, um que outro militante comunista que se sentia em perigo, colaborei em iniciativas deles mesmo sabendo de onde vinham e quão perto ou longe estavam das minhas próprias posições.

Em nas vezes em que fui eu próprio detido nunca me passou pela cabeça delatar ou sequer confirmar que A ou B seriam comunistas, do mesmo tratamento por parte de alguns  não me posso gabar como qualquer interessado poderá comprovar lendo os vinte e muitos volumes do processo contra os estudantes em greve em 1969 em Coimbra.

Apenas um, logo que fui libertado, me pediu desculpa e reconheceu que  sua juventude, a sua inexperiência e o facto de o processo ser conduzido pela polícia judiciária o tinham induzido em falar de mim, ingenuamente crente que a “judite” nunca passaria tais informações à pide!...

Nunca questionem, nem questiono, o direito do PCP ter posta aberta, concorrer a eleições, existir livre de qualquer espécie de vigilância por parte de quem quer que seja. Bem pelo contrário, entendo que a sua presença é útil como útil é a presença de outras formações radicais estejam elas onde quer que se encontrem no vasto especto político nacional.

Todavia, vir afirmar que o PCP renegou, abandonou toda a estrutura ideológica leninista é um embuste, uma parvoíce e, de certo modo, uma ofensa ao partido e à sua história pregressa.

Ora, na ânsia de se mostrarem mais progressistas, mais amigos da “verdade  que temos direito” (há ainda quem se lembre do jornal que tinha este slogan; ou, já agora, haverá quem recorde que “Verdade” -Pravda em russo- é um velho título vezes sem conta utilizado pela imprensa revolucionária, inclusive em Portugal onde deu nome a um efémero jornal da ultra-esquerda nacional nos anos do PREC) vamos lendo com honras de publicação nos melhores jornais  defesas apaixonadas da existência do PCP. Inclusivamente, algumas vindas de criaturas que recentemente tentaram junto do Tribunal Constitucional  uma revogação do reconhecimento do Chega!

Não se consegue perceber como é que há esta viragem de 180 graus quanto ao direito de existência de um partido que, no caso em apreço tem o dobro dos votos do PC...

Pela parte que me toca, devo dizer que o “Chega”, uma criação quase pessoal de um arrivista político, populista e capaz de dizer tudo e o seu contrário não me seduz, entusiasma ou comove. Todavia, existe, recebe a confiança de muitos milhares de eleitores e só por isso tem direito à vida e a sentar-se na AR. Exactamente como o PC! 

Sei também que há, sempre houve, neste país e em todos os outros, gente que detesta o PC, a sua ideologia e, mais ainda a sua prática ou a prática dos seus congéneres europeus, vivos, em estado de profunda letargia ou até desaparecidos sem deixar saudades. Mesmo que, dentre a prática do que não mais de cinquenta anos era característica do chamado bloco comunista, houvesse diferenças. Ninguém pode comparar o partido comunista luxemburguês com o do Cambodja que por pouco não eliminou toda apopulação kmer. Também se notam, à vista desarmada diferenças entre o partido comunista alemão e por exemplo o coreano que agora – e já naquele tempo, servia uma dinastia. E o PCUS nunca foi idêntico ao partido albanês do sr Enver Hodja, ao jugoslava do “marechal” Tito. E praticamente, nenhum se comparou com o actual e poderoso pC da China que tem nos seus quadros uns milhares de grandes capitalistas cuja actividade tornou o país um forte polo industrial e financeiro.

Porém, há nesta diversidade de partidos que estiveram no poder (quase todos...) uma característica comum: eliminaram sem contemplações todos os seus adversários e governaram /ou governam) sozinhos amparado por votações gigantescas e grotescas que, a certa altura, com uma vaga aragem de liberdade os fez ruir , perder o poder e quase desaparecer, havendo mesmo casos em que, nas suas zonas de influência, surdiram quase como herdeiros grupos radicais de extrema direita que, como no caso da França ou da Alemanha ameaçam a vida democrática.

Mas reflectir sobre isto parece ser um exercício demasiado pesado para certos e certas “progressistas” portugueses...   

na vinheta:os saudosos tempos do sr Pol Pot e doskmhers vermelhos que só desapareceam do mapa graças a uma intervenção do exercito vietnamita

au bonheur des dames 493

d'oliveira, 04.05.22

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A oligarquia tem saúde frágil

mcr, 4.o5.22

 

 

Está a dar o beribéri nos oligarcas russos. Já lá vão seis com as respectivas legítimas. Tudo por suicídio depois de um homicídio (a legítima morre antes às mãos do cônjuge que, seguidamente, se despede definitivamente deste mundo cruel por meios expeditos e de grande eficácia mortífera.

Ou seja, nos últimos meses, criaturas riquíssimas, frequentadoras do Kremlin ou, pelo menos com entrada franca lá, entram em profunda e angustiante depressão e pimba: tiro no porta-aviões.

Será uma variante mais mortífera e selectiva de uma nova forma de covid que só ataca homens endinheirados até dizer basta, e os leva a despedir-se sem apelo nem agravo deste mundo cruel, enfastiados com os iates maiores que os antigos paquetes da carreira de África, de casas demasiado (agressivamente, mesmo) sumptuosas semelhantes aos modestos apartamentos que Trump tem em diversas cidades americanas (a começar pelo alegado esplendor do seu “pied-a-terre” no penthouse da Trump Tower, um desbarato de dourados capaz de cegar o mais míope dos visitantes), de contas bancárias em tudo o que é banco e sobretudo nos de alguns e privadíssimos paraísos fiscais?

O mistério sobre esta epidemia suicidária é enorme e, mesmo numa Rússia onde os jornais só publicam o que é conveniente, a população, enfim os escassos que, apesar de tudo, tem acesso ao diz-se que diz-se, já se interroga com vingativa e invejosa curiosidade sobre este princípio de hecatombe que atinge gente acima de toda a suspeita sobre simpatias democráticas.

É sabido que na Rússia a qualidade de oligarca local e vivendo em solo russo, não está isenta de perigos. De facto, um par destes cavalheiros já se viu envolvido em acusações fortes e acabou com os ossos na cadeia por alegadas malversões no que toca à origem, desenvolvimento ou consequências das suas colossais fortunas.

Outros, pondo-se a salvo, além fronteiras, foram alvo de mandatos de detenção, confiscação de bens na Federação russa e, consta, de tentativas de assassínio.

Anda por aí uma teoria que pretende justificar a onda suicidária pela actual situação política: as pobres criaturas vendo as suas fortunas encolherem duramente, os iates apresados, as casa arrestadas, os depósitos nos bancos ocidentais  congelados, começaram a entristecer, e todos nós sabemos como pode ser violenta a tristeza russa.     

E, assim, decidiram despedir-se de um mundo que, além de os invejar, os não compreende.

Uma teoria revolucionaria tenta explicar estas desaparições pelo envolvimento ucraniano. Incapazes de alcançarem Putin, os homens de Zelensky infiltrados no país invasor terão sido encarregados de “acertar o passo” aos oligarcas. Duvido que isso seja verdade pela simples razão de que estes se podem proteger muito mais do que os pobres generais russos que tem sido eliminados com fulgurante rapidez por snipers e tropas especiais de cariz claramente neo-nazi como se sabe, mesmo se os velhos nazis de antigamente não se mostrassem, bem pelo contrário, especialmente adversos das grandes fortunas, excepção feita das judaicas.

Não é por acaso que o lusitaníssimo Abramovitch se propôs reconstruir parte da Ucrânia com os lucros da venda do Chelsea. Ou seja, além de distribuir no Porto uns tostões pelos rapazes que identificaram formalmente os seus antepassados sefarditas e portugueses, este cavalheiro está disposto a reconstruir o que os soldados do seu amigo Purin destroem a torto e a direito. Há, porém, um argumento para o facto de ainda estar vivo: justamente essa vontade de ajudar a futura reconstrução de Mariupol e de outra cidades vítimas da libertação. Convenhamos que esta teoria tem direito a uma cuidadosa ponderação.

A seu tempo, informarei, se possível, os leitores que até aqui chegaram. E, já agora, rezem uma ave maria pelos desaparecidos apesar de eles serem ou judeus ou ortodoxos. Uma oraçãozinha nunca fez mal a ninguém...

Na vinheta : seis vítimas da epidemia suicidárias