Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

...

d'oliveira, 30.07.21

adenda a liberdade vigiada 91

Mãe Pobre

 

Terra Pátria serás nossa, 

Mais este sol que te cobre, 

Serás nossa, 

Mãe pobre de gente pobre. 

 

O vento da nossa fúria 

Queime as searas roubadas; 

E na noite dos ladrões 

Haja frio, morte e espadas. 

 

Terra Pátria serás nossa 

Mais os vinhedos e os milhos, 

Serás nossa, 

Mãe que não esquece os filhos. 

 

Com morte, espadas e frio, 

Se a vida te não remir, 

Faremos da nossa carne 

As searas do porvir. 

 

Terra Pátria serás nossa, 

Livre e descoberta enfim, 

Serás nossa, 

Ou este sangue o teu fim. 

 

E se a loucura da sorte 

assim nos quiser perder, 

Abre os teus braços de morte 

E deixa-nos aquecer.‎ 

 Carlos de Oliveira

 

boa parte dos que comigo cantaram  esta e outras cantigas de combate e de esperança já por cá não andam. Recordo, comovido e terno, alguns: 

António Manso Pinheiro, António Mendes de Abreu ,César Oliveira, Fernanda da Bernarda, Irene Namorado, João Amaral, João Bilhau. João Quintela, José Barros Moura, Luis Bgulho e Nénita )Mª Eugénia) Cochofel  Os que aqui não couveram estão obviamente, vivos ou mortos, no meu coração. Olá malta! 

 

liberdade vigiada 91

d'oliveira, 30.07.21

Unknown-1.jpeg

liberdade vigiada 91

o pé na argola!

mcr, 30 de Julho

 

 

eu tenho de agradecer a três leitores que me juram a pés juntos que a minha queixa contra a Autoridade Tributária era injusta. Pelos vistos eu posso pagar por débito directo  ou obter com facilidade o montante da minha contribuição e, via multibanco, pagar atempadamente, sem receio de coima, o que devo.

Portanto, exª AT, as minhas desculpas.

Todavia, tenho um pequeno reparo a fazer. Ontem, quando pagava, queixei-me do processo, de não  poder as coisas com maior comodidade e simplicidade, em suma, evitar ir para a bicha chatíssima da Repartição de Finanças. A amável senhora que me atendeu ouviu-me compadecida, sorriu e nada me disse. Ignoraria ela estas hipóteses? Achou, porventura, que a minha avançada idade, as cãs, o ar aflito e perdido de quem se vê em frente do Fisco (e com o fisco estamos sempre assustados...), ou a minha culposa ignorância destes meandros, já não permitiam qualquer explicação capaz para o meu evidente fraco entendimento?

Portanto, caros três leitores, sábios e generosos, que me deram a dica, muito obrigado. Tenho a vaga e sorridente ideia de que nunca mais pelo popó pelo menos, porei o mimoso pé na repartição de finanças. Obrigado ó benfeitores. Se passarem aqui pela esplanada, há um café gratuito à vossa espera.

 

E já agora, uma eventual bicada no caso dos sacos de plástico. Hoje, quando fui por meia dúzia de laranjas e um punhado de cerejas, à D Rosa do “mercadinho do foco” (eu faço o que posso pelos comerciantes daqui. É provável que o supermercado venda mais barato mas a excelente criatura também tem de viver, o atendimento é o mais personalizado possível, já me trouxe coisas a casa,enfim, há que garantir-lhe clientela para isto não se transformar num deserto).

A D Rosa, perguntou-me se “eu queria saco”. Perguntei-lhe se ela achava que eu tinha mãos que chegassem, para o saco dos jornais (o saco era do Expresso e ainda não se paga!)as laranjas e as cerejas. Vencida pela evidência, informou-me pesarosa que “não podia oferecer-me um saco. Mas emprestava, caso eu quisesse. Estive para lhe perguntar se ela pensava mesmo que eu me iria lembrar de devolver o raio do invólucro mas contive-me. A D Rosa jurou que “estava proibida pelas autoridades de oferecer sacos”.

A mim espanta-me que um comerciante que pode fazer descontos, vender fiado, oferecer uma pequena lembrança a um comprador fiel, não possa por força de lei, oferecer a miséria de um saco.

Parece, portanto, que a campanha anti-plástico está a vigorar fortemente. Vi, entretanto, duas empregadas  mostrar os sacos que previdentemente já traziam.

Lembrei-me de umas viagens mais ou menos clandestinas pelos antigos países de leste. Toda a gente usava sacos, andava com sacos, normalmente vazios. Na altura fui informado por alguns detestáveis inimigos do povo, da revolução, do proletariado nacional e mundial, que aquilo, os sacos eram para usar se, e quando, algo estivesse à venra, sobretudo bens alimentares. quem ia passear o cão, visitar um enfermo, assistir a um comício, ou meramente passear, munia-se do saco e avançava intemerato pelas ruas dos amanhãs que deviam cantar mas não cantavam, para eventualmente comprar qualquer coisinha, fosse ela qual fosse que milagrosamente fosse posta à venda.

Aquilo era estranho, comovente, e temível. Mesmo com algum dinheiro, sempre pouco, as pessoas não tinham onde o gastar.

Uma segunda visão, desta feita capitalista, monopolista, exploradora do povo e etc., do saco como companhia, mesmo se disfarçado, tive-a num opíparo casamento de um amigo meu, em Fátima. eu não gosto de ir a casamentos, mesmo se já tenha a minha conta pessoal deles no cadastro.

Desta vez, fundo o lauto banquete, que era mesmo lauto, há que dizê-lo, na hora de levantar o dito cujo das cadeiras, assisti, com estes que a terra há de comer, ao rapinanço de tudo o que sobrava, sobretudo bolos. Foi empolgante ver senhoras devidamente vestidas para a cerimónia a sacar das carteiras, sacos e a saquear as mesas desertadas pela macharia que se escapulia para o ar livre. Um festim!

E soube, nessa altura, que o caso não era anormal. já que o casamento fora pago, as convidadas e as familiares dos nubentes, aproveitavam para fornecer-se do que sobrava.

A ideia seria: se há de ir para os porcos, antes para mim!

Portanto, estamos não exactamente em época de celebrações conjugais mas de luta contra o plástico.

O velocíssimo ministro do ambiente está de parabéns, o povo cumpre religiosamente sua ordem de não dar tréguas ao desperdício de sacos de plástico. Os oceanos, os rios, as ribeiras, os bueiros, as sargetas vão ter uma nova e reluzente vida. Sem “beatas”, sem papéis, sem sacos de plástico, a vida é já outra.

Porém, uma duvida pungente assalta-me a cabecinha sonhadora: uma parte importante do que anda a destruir os oceanos (já nem falo dos combustíveis usados, das lavagens em alto mar, das redes que se perdem, do que os barco lançam borda fora) resulta de desperdícios de aparelhos de pesca, rudo também em plástico ou, disseram-me de coisas feitas de esferovite muito usadas não sei bem em quê!

Não se pense que eu sou contra a despoluição, longe disso. Nem contra o ambiente. Eu separo o lixo, vou pô-lo no contentores adequado, ainda hoje lá foram quilos de jornais, de envelopes, de propaganda variada e inútil, tudo bem acondicionado em mais papel e pimba, contentor do papel. Uma criatura que passava até parou a ver-me solícito, cívico e amigo do ambiente a lutar contra a tampa do contentor.

Só que, talvez valesse a pena começar a inspecionar o que sai dos portos de pesca. E o que entra, A proibir cabazes de plástico que podem, como dantes, ser substituídos por matérias menos agressivas.

O Estado tem ao seu serviço uma imensa frota de carros velhos qu poluem que se fartam. Não seria melhor encosta-los, mandá-los para a sucata, e pôr ordem nessa incrível distribuição de viaturas de serviço tanto mais que algumas andam a 200 à hora, outras atropelam peões na auto-estrada ou provocam acidentes nas ruas mais movimentadas.

  1. já agora, mesmo que seja para pagar: porque não proibir simplesmente o uso de sacos de plástico que podem ser substituídos por papel?

Basta ver um filme americano para se perceber que lá, nesse país bárbaro, as compras de perecíveis vem sempre em sacos de papel.

Ainda hoje, na farmácia, disse isso à farmacêutica que me vendia meia dúzia de medicamentos. Ela meteu os que eu comprara num saco de plástico, explicou-me que eu devia pagar dez cêntimos e desejou-me um bom dia. E vim para casa com mais um saco! C

om o da D Rosa, já são dois! Aliás, quatro pois as laranjas estavam num saco de plástico leve, e não pago, e as cerejas, idem!

E aproveito para agradecer ao dr. Balsemão por não me levar nada pelo saco do Expresso, que serviu para albergar também , o Público, o Jornal de Letras e uma revista que eu já trazia e que não consigo acabar de ler...

 

PS: Carlos de Oliveira, poeta e romancista faria agora 100 anos. Morreu muito antes mas deixou-nos algumas obras que merecem ser lidas, tanto mais que ele reescreveu e melhorou sempre o já publicado. Deixo noutra folha o poema “Mãe Pobre” que foi uma das “canções heroicas” e que nos tempos longínquos da Resistência nós cantávamos. Até na prisão de Caxias em Maio de 62!

* a vinheta: Carlos de Oliveira, eventualmente a voz mais interessante do "neo-realismo"

  

    

liberdade vigiada 90

d'oliveira, 29.07.21

Unknown-1.jpeg

Liberdade vigiada 90

o fisco, nós e a Europa

mcr,29 de Julho

 

Recebi há duas semanas uma carta do Fisco. Nela, naquele tom enigmático e confuso que a Autoridade Fiscal usa (e abusa) preveniam-me que eu poderia pedir uma audiência prévia a propósito de um IUC em débito.

Corri para as Finanças para perceber melhor do que se tratava mas. à porta, estava um aviso de que só com marcação prévia é que se admitia o pobre contribuinte (eu) que só queria pagar para não ter mais maçadas.

E indicavam um telefone. Anotei-o cuidadosamente numa das folhas do jornal (também ia munido de uma espessa revista, pois nestas coisas de fiscalidade é bom o paciente prevenir-se para aguentar o inevitável banho de cadeira que o espera). Na impossibilidade, pensava eu, de ser atendido fui para a habitual esplanada, tomar um café vingativo e vindicativo. Apareceu uma amiga antiquíssima que se propôs ouvir as minhas queixas a troco de um café. quando lhe disse o que se passava, olhou-me como quem olha um cordeiro acabado e nascer : “E tu pensas que alguém vai atender a tua chamada?” Eu, mais tonto que uma pescada melancólica, achei que sim, que se indicavam um telefone para alguma coisa seria.  minh sábia amigs, riu-se da minha candura e ordenou-me com rispidez que ligasse para o dito número. Obedeci. Nada. Aquilo tocava, tocava e tocava mas, do outro lado, como no soneto de Antero só “silencio e escuridão...”

“Vês?”, perguntou-me. “Estás a lidar com a burocracia nacional.”

entretanto, hoje, lembrei-me de voltar ao mesmo local para tentar pagar os selos dos carros meu e da CG que nunca se digna pôr lá os pés. ela lá sabe que tem um marido extremoso, um mordomo, um pau mandado.

quando cheguei à Repartição de Finanças, não vi ninguém à porta  de modo que me precipitei lá paa dentro sem dizer água vai. fui interceptado por uma jovem que me perguntou ao que vinha. “quero pagar os selos dos carros” murmurei. “Tem de marcar entrevista!” “Mas eu só quer pagar...” Nada feito. Ou melhor, perguntou-me o número de contribuinte, o telefone e, para meu espanto mandou-me para a tesouraria. tudo isto em cinco minutos.

Felicíssimo paguei o que devia e referi a tal carta das Finança. A diligente funcionária, já conhecida de vezes anteriores, informou-me que isso era uma eventual coima e que me não preocupasse. Se o Fisco entendesse que eu a deveria pagar (boa piada!) mandar-me-iam uma cartinha com a informação da quantia e os códigos multibanco para comodamente efectuar esse pagamento.

Cheio de atrevimento, perguntei corajosamente, porque é que nesse caso, o fisco me dava a possibilidade de pagar uma multa no multibanco e não fazia o mesmo com as importâncias dos selos. O Fisco sabe quanto devemos, em que altura, manda imensas mensagens, por exemplo o aviso de pagamento do IRS, poderia sem esforço maior fazer o mesmo com o selo do automóvel. Ela concordou mas não sabia responder-me.

Caros leitores: isto esta penosa (e no caso em apreço, com covid, marcações, entrevistas e o raio que para o Estado)ida por via de algo que poderia com facilidade ser pago no multibanco sem filas, sem gente a murmurar obscuras e obscenas ameaças aos funcionários que atrás dos balcões tem a maçada de introduzir o nosso número de contribuinte e um par de códigos para depois extraírem uma folhinha onde consta que o cidadão cumpridor entrou com os cacauzinhos do IUC, demonstra bem o estado da arte da colecta de impostos em vigor no torrãozinho de açúcar.

Aliás, poderia dar mais dez exemplos de penosos esforços para cumprir com deveres simples. Basta-me porém um exemplo.

Numa estadia em Paris em casa do meu amigo Luís Matias, este comunicou-me que tinha de ir à mairie da pequena cidade onde residia para tratar da transferência da propriedade do carro. O carro era do sogro e para evitar dificuldades na vinda para Portugal convinha que o Luís (ou a mulher dele) fosse o proprietário. E convidava-me para o acompanhar e, depois, para almoçar. Previ horas de espera, montes de papéis, enfim um martírio. Muni-me de um livro para enfrentar a espera e lá fui não tanto com a mira no almoço mas para o confortar naquilo que eu imaginava ser uma insuportável prova de resistência.

Demorámos 18 minutos Dezoito, nem mais um! quando me espantei e olhei para o calhamaço por uma vez inútil, o Luís disse-me com aquele ar malandro do emigrado com longos anos de Franças e Araganças: “isto é a europa, M! A Europa!”

E fomos para Paris, dar uma volta pelas livrarias, beber um café, fazer horas para um almocinho (um “coq au vin” maravilhoso ali para os lados de St Germain e um vinho que ainda hoje me comove.

Isto foi ainda nos anos 80. Consta que, entretanto, também nós portugas, chegámos à Europa. Para sacar o dinheiro, não tenho dúvidas, bastou-me ouvir Costa, perguntar se podia ir ao banco. Mas para ter a vida facilitada e retirar o segundo “r” à burocracia, ainda vão demorar anos. E não digo para recer dinheiro, mas apenas para o pagar!

Arre!    

 

 

 

homem ao mar 100

d'oliveira, 28.07.21

Unknown.jpeg

Liberdade vigiada 89

O planeta esgota-se?

mcr, 28 de Julho

 

 

Hoje, as televisões abrem em tom dramático (e o caso merece, pelo menos, reflexão): esgotámos a capacidade do planeta para o ano corrente. A partir de amanhã estamos a viver de empréstimos sobre o futuro.

Desconheço como é quês se chega a esta conclusão, qual o valor dela mas olhando em volta não posso deixar de reparar que algo não corre da melhor maneira.

A começar pela degradação do clima: não é “normal” haver nos Estados Unidos e Canadá, e fundamentalmente na parte norte dos EUA tanto calor, tantos incêndios.

Também parece anormal que, na Bélgica e na Alemanha, Julho seja mês de chuvas tão intensas e violentas. No Verão os rios levam muito menos água, mas neste transbordaram como no pior dos invernos. E por aí fora...

Aliado a isto temos um excessivo consumo de recursos que, pelos vistos esgotou a capacidade anual de os produzir ao fim do sétimo mês do ano.

E finalmente, a pergunta cuja resposta vale milhões: que fazer?

As respostas não são muitas mas têm um ponto comum: não servem, ou servem para pouco. O terceiro mundo, que ainda por aí anda, e cresce, pode ter índices que fazem pensar que as coisas melhoraram. E melhoraram, claro. Mas o “fosso” entre esse terceiro mundo e o primeiro (desconhece-se se há mesmo um segundo) aumentou gigantescamente. A fome não foi erradicada. As grandes doenças persistem e campeiam à rédea solta. A esperança de vida é escandalosamente baixa face ao que o mundo ocidental regista.

A poluição dos oceanos é inquietante. O lixo invade tudo. Quanto mais rico és, mais lixo produzes.

Todas as tentativas para reciclar morrem pelo facto de poucos se disporem a fazer o pequeno esforço de separar o lixo doméstico.

E é nisto que entra o folhetim de hoje. Sexta feira passada, em Lisboa fiz um par de compras, livros e alguma roupa. O primeiro livreiro, que me conhece há anos, começou por me perguntar se eu trazia um saco. Claro que não trazia. Pesaroso explicou-me que agora estava proibido de dar sacos. “Não importa, respondi, eu pago”. - Olhe que lhe posso emprestar um saco, retorquiu. -Não, senhor, eu pago. E lá me levou dez cêntimos pelo saco de que se despediu quase em lágrimas.

Numa loja, boa e cara comprei duas peças de roupa. Mesmo em saldo não eram nenhuma ucharia. O saco, bom, de papel espesso e com logótipo, custou-me, outra vez, dez cêntimos. Estive para perguntar à caixeirinha que me atendeu se achava que eu podia levar as peças de roupa debaixo do braço, mas desisti.

Eu entendo perfeitamente que há que combater o plástico. Quanto mais não seja obrigando o consumidor a pagar que é na bolsa onde dói mais. Penso, porém, que em vez de sacos de plástico poluentes e eternos se poderia levar a mercadoria em invólucros de papel. Papel de florestas auto-sustentáveis, facilmente reciclável. Mas não, mesmo na loja cara, que precisa de clientes como de pão para a boca, e que nunca usou o “horroroso” saco de plástico, o cliente tem de pagar deixe na loja a quantia que deixar. Curiosamente, num outro alfarrabista, eu não resisto a esta pulsão livreira, foi-me oferecido um saco de pano, com ar decente, que se pode usar indefinidamente (ou quase). E lá vim, triunfante, com um saco com o logótipo do livreiro, nome, direcção e e-mail, (incluindo telefone e e-mail) estampados. E, depois de gastar mais de cem euros, dei comigo a pensar que tinha poupado dez cêntimos! Lá dizia a Dona Antónia (Ferreirinha?) que de tostão a tostão se poupa um milhão...

Ao que sei os nossos ecologistas, incluindo aquela coisa chamada “os verdes”, pequeno mas útil satélite do PC,rejubilaram com o pagamento dos sacos de plástico. Não se percebe porque é que não se proibiram. Ou melhor: percebe-se. Os sacos de plástico, pelo menos aqueles em que se embrulha meio quilo de morangos ou quatro laranjas, o peixe e a carne não embalados, não são taxados. Só os sacos grandes para transporte do conjunto das compras!

A solução, sempre genial como todas as que proponho, seria voltar a produzir seiras e cestos de vime. Era assim que nos anos quarenta se ia às compras. Quem tinha criada (naquele tempo infame, havia criadas e não empregadas domésticas. Eram duros tempos de poupança, inclusive de palavras uma de cinco letras por duas com cinco vezes mais!) fazia-a transportar a seira cheia e pesada. Quem não tinha carregava, claro.

Assim se contribuía para salvar o artesanato nacional, animar o interior onde ele ainda subsiste. E uma seira ou um cesto duram que duram. E não poluem!

Todavia, os nossos ambientalistas são demasiado jovens, não conheceram as agruras da vida na primeira metade do século passado, nem essas utilidades boas e baratas com que íamos passando o tempo enquanto não aparecia o saco de plástico.

Agora, e sempre nesta onda mansa, discute-se o fim dos combustíveis fósseis. Em 2035, dizem, não haverá carros a gasolina ou gasóleo. Será tudo eléctrico.

É possível que já não assista a esse fenómeno que já vou numa bonita (?) idade. De todo o modo, mesmo que ainda viva, duvido que alguém de bom senso me permita conduzir.

Gostaria, no entanto, de lembrar que essa felicíssima transição vai custar caro. Há ganhos indiscutíveis e gerais mas cada um de nós pagará um preço. Um planeta mais limpo e mais saudável (se entretanto ainda houver planeta) custa dinheiro. A começar pelo carro- Um carro eléctrico poderá, a la longue, fazer-nos economizar uns euros (não muitos, mas sempre alguns) mas é bem mais caro que o seu congénere a combustíveis fósseis. Claro que no primeiro mundo (lá estou eu a dar-lhe...) a coisa poderá ser exequível para uma boa fatia da população – mas nunca toda – mas no resto (e o resto representa cinco ou dez vezes mais pessoas) a coisa não parece assim tão fácil.

Será que no actual discurso dos amorosos amigos da Terra, dos animais ,das flores campestres e da “água fria da ribeira”, há indícios disto? Será que o palavroso e veloz, velocíssimo ministro do ambiente sabe disto. E se sabe, já o disse publicamente? Eu não o ouvi mas é verdade que cada vez oiço menos ministros, secretários de Estado, directores gerais et alia. Por uma simples vontade de me despoluir sonoramente...     

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

...

d'oliveira, 27.07.21

 

Perguntas de um Operário Leitor

 

Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,

Mas foram os reis que transportaram as pedras?

Babilónia, tantas vezes destruída,

Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas

Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde

Foram os seus pedreiros? A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio

Só tinha palácios

Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida

Na noite em que o mar a engoliu

Viu afogados gritar por seus escravos.

 

O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha

Chorou. E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?

 

Em cada página uma vitória.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?

 

Tantas histórias

Quantas perguntas

Bertolt Brecht

 

homem ao mar 99

d'oliveira, 27.07.21

Liberdade vigiada 87

Perguntas de um leitor que não é operário

mcr, 27 de Julho

 

Um leitor, e um amigo antigo, também, apanhou-me na esplanada e disse-me que eu fui injusto com Otelo. E apoiava-se em Ramalho Eanes que terá declarado que o país deve a Otelo a liberdade. 

Eu quando vejo, oiço ou leio estas declarações tão peremptórias (Eanes teve, porém, o cuidado de falar nos efeitos perversos do Otelo do projecto globl) fico entupido.

Ora vejamos. Portugal viveu um longo período de privação de liberdades fundamentais. Começou em 1926,por iniciativa de uma série de militares, muitos deles apoiantes da 1ª República (gomes da Costa ou Mendes Cabeçadas) e vários outros militares (Henrique Galvão ou Humberto Delgado) serviram fielmente e em cargos extremamente importantes o Estado Novo até se malquistarem com ele. 

Em poucas palavras, a Ditadura propriamente dita (26-33) e a ditadura disfarçada de Estado Novo foram essencialmente obra de militares e, é bom lembrar, de republicanos. (os monárquicos praticamente não tiveram qualquer papel no 28 de Maio e Salazar trouxe-os sempre de rédea curta (O mesmo sucedeu aliás à única organização de cariz fascista, os camisas azuis de Rolão Preto que foram completamente manietados e silenciados. Rolão Preto acabaria por se juntar à Oposição Democrática sem que essa aliança espúruia desse qualquer resultado.

Ao fim de quase meio século de regime ultra conservador, os capitães, melhor dizendo o MFA fez o 25 de Abril e como já no 28 de Maio de 1926, o regime caiu sem estrondo e sem luta. A única ocasião em que pareceu poder travar-se um combate, foi na zona do Terreiro do Pço entre a coluna de Salgueiro Maia e uma força de tanques comandada por um brigadeiro. Este, contudo, foi desautorizado pelos seus subordinados que se recusaram a disparar sobre a coluna de Santarém. Se o tivessem feito é provável que tivessem esmagado graças ao seu superior poder de fogo a pequena hoste de Salgueiro Maia. Agradeçamos a esses jovens oficiais e soldados que se recusaram a combater. Também lhes devemos muito. 

Ontem deixei aqui claro que o plano de operações redigido por Otelo foi excelente e contribuiu grandemente para a rápida vitória das forças insurrectas. 

Todavia, na história da luta pela liberdade nunca houve heróis solitários. Nem em qualquer outra insurreição popular, militar, de esquerda ou de direita. 

Aos quase cinquenta anos de Estado Novo corresponderam outros tantos de oposição, de luta pela liberdade, de homens e mulheres tombados pela liberdade, de centenas ou milhares de cidadãos presos, espancados, algumas vezes assassinados pelas polícias do regime (e não apenas pela PIDE).

É verdade que esse esforço contínuo e desesperado não deitou o regime abaixo, mas também ninguém duvida que criou um caldo de cultura e uma cultura de Resistência extremamente importante e que se foi fortalecendo ao longo dos anos e que, com o longo desastre das guerras africanas mais e mais se tornou vital. 

Os militares de Abril foram-se apercebendo da marcha da História (a descolonização de África; o despertar do 3ª Mundo, a tragédia do Vietnam, a conferência de Bandung, a atitude da América em relação às colónias portuguesas e até a famosa entrevista do Papa com alguns líderes africanos de expressão portuguesa). 

Mais começaram a ver a guerra perdida, devorados os seus melhores anos  (Melo Antunes, Vasco Gonçalves, Eanes o Otelo estavam bem perto dos quarenta anos). Contactavam com centenas de jovens oficiais milicianos que tinham forjado nas lutas universitárias desde o decreto lei 40900 até às crises académicas de 62 e 69, um forte sentimento de exasperada oposição ao regime. 

A todos eles, aos militantes anónimos das cidades, aos agitadores sindicais ou universitários, à corajosa falange de velhos democratas que nunca se rendeu, que passou vezes sem conta pelas prisões e, sobretudo, pelas perseguições mesquinhas, do Poder e da Polícia, à pequena e recente plêiade de católicos progressistas que puseram em causa o apoio da Igreja ao regime, a todos esses e muitos outros, a “Pátria deve a liberdade e a Democracia”(para usar as exactas palavras de Eanes).

O problema de Otelo nada tem a ver com o seu papel relevante – mas não único! –na conspiração militar. É depois, e durante uma boa década, que as suas sucessivas posições por vezes imprevisíveis, por vezes risíveis, quase sempre desastradas e finalmente detestáveis, que também não podemos esquecer. Não estão aqui em causa as suas candidaturas à Presidência da República! Da primeira vez obteve 16% dos votos (Pinheiro de Azevedo 14% e Octávio Pato 8%) contra 61% de Eanes. Da segunda vez, o seu score foi quase nulo. 

Ora, foi depois deste desaire que correspondia, também, à quase desaparição da extrema esquerda, que Otelo que já não compreendera outras situações entendeu avalizar uma aventura terrorista num país de democracia consolidada. E essa patética, perversa, infame e trágica tentativa  que, à semelhança do terrorismo de Direita (1975) se saldou em mortes incompreensíveis, em assaltos a bancos e destruição de bens sem conexão com qualquer plano revolucionário ou pretensamente revolucionário, tem de ir à conta final.

Tanto mais que a amnistia atabalhoada em nome da reconciliação dos portugueses, deixou por resolver algo muito simples: quem finalmente era ou não responsável. E mais, desta feita em relação a Otelo: alguém ouviu uma palavra de arrependimento, de remorso, de desculpa ou alguma justificação política, moral ou ética dessa onda de violência por ele patrocinada mesmo se haja quem legitimamente suspeite que Otelo era apenas um idiota útil, uma futura vítima a eliminar uma vez conseguidos os objectivos revolucionários? 

A dr.ª Isabel do Carmo, ontem, afirmou candidamente que, depois do 25 de novembro houve quem se sentisse “deprimido” e por isso se revoltasse, se organizasse, primeiro nos GDUP depois na FUP e (isso não disse mas presume-se) no arrevesado  “Projecto Global”)

Convenhamos que a “depressão” tem costas largas e pelos vistos, à luz das elucubrações da ex-líder das Brigadas Revolucionárias, é também ela eminentemente revolucionária. 

Conviria, mas talvez nem valha a pena o esforço, explicar que todo aquele arsenal de organizações sempre de unidade, sempre populares, por vezes arriscando o “democrático e o frentismo, eram quase que só nomes com cada vez menos militantes, participantes, apoiantes e simpatizantes. Isso também explica a queda dos 16% de 1976 par os exíguos 1,8% de 1980. 

A tentativa serôdia, a destempo, caricatural da imitação das Brigadas Vermelhas italianas, da Action Directe francesa ou até da Rote Armée Fraktion alemã (algo também absurdo e destemperado!) é uma espécie de fenómeno do Entroncamento da história “revolucionária” portuguesa. E sempre com outra agravante: nunca ultrapassou a barreira de Lisboa e arredores. Não pegou no Alentejo onde o Partido Comunista nunca lhe deu guarida, não entrou pelo Centro ou no Norte onde socialistas, sociais democratas e gente do CDS, fortemente apoiados pela esmagadora maioria da população, nunca lhe permitiram entrar.

A depressão não veio para ficar. Ou se veio, entrou na cabecinha de Isabel do Carmo, mas sentindo-se bm, não saiu de lá. 

 

Brecht escreveu um poema que intitulou “Perguntas de um operário leitor” e aí pode ler-se

“César venceu os gauleses.

Não tinha sequer um cozinheiro ao seu serviço?”

 E, mais longe, em guisa de conclusão:

“Em cada década há um grande homem.

Quem pagará as despesas?”

Deixa-se a leitura do poema que se publica em anexo à reflexão dos leitores e, se possível aos teóricos da “História com heróis solitários“ 

 

      

homem ao mar 98

d'oliveira, 26.07.21

Liberdade vigiada 86

Um mito com pés de barro

mcr, 26 de Julho

 

 

As revoluções ou os pronunciamentos militares nunca são obra de um homem só e dependem de muitos factores diversos alguns dos quais se anulam ou, acabam por modificar o fio dos acontecimentos.

É o caso do  25 de Abril. Começou como uma reivindicação corporativa, mas, ao crescer, os militares envolvidos perceberam que as coisas iriam muito mais longe do que inicialmente se previra. Aliás, à medida que a conspiração crescia e se ramificava, e enquanto a situação política de fim de época do Estado Novo se deteriorava visivelmente, os capitães assistiram ao desafio de “Portugal e o Futuro” protagonizado por Spínola (com o apoio de Costa Gomes) e a reacção de um grupo de generais ultra-conservadores. Pensar que isto não afectou aquele movimento é pura tolice. 

Depois, já o movimento ia a todo o vapor e se estruturava, o golpe das Caldas que envolvia, também ele, um grupo relativamente importante de oficiais do quadro que punham em causa a guerra colonial, tornou a situação político militar ainda mais complexa. A repressão que se seguiu ao falhanço dos “spinolistas” ajudou o “movimento das forças armadas” a ponderar objectivos. 

De todo o modo, a 25 de Abril, forças militares de diferentes pontos do país (continente) convergiram sobre Lisboa graças a um plano de que um capitão chamado Otelo Saraiva de Carvalho foi o principal artífice. 

Convém, todavia, lembrar que um plano de movimentação de tropas é indissociável de um projecto político para o qual um outro grupo de militares (desde Vasco Gonçalvs um coronel com ligações à Esquerda, ou mesmo ao Parido Comunista até Melo Antunes, um dos mais sólidos pensadores da “coisa militar” e politico-militar”. Pelo meio Vitor Alves, Vasco Lourenço, Franco Charais e tantos outros com diferentes preparações e opiniões políticas) deu o seu fortíssimo contributo. 

Deixo de lado, mesmo se importante, a contribuição de dezenas de milicianos mais jovens, mais politizados, com ligações profundas ao fortes meios contestatário académico e sindical.

Porem, uma vez vencedor o “MFA” trouxe para a ribalta o artífice da plano de operações, por um lado, e o homem  do Largo do Rato, um oficial de Cavalaria que, sem alarde mas com uma determinação notória e notável obteve (mesmo se depois Spínola veio receber o poder inexistente de Marcello Caetano) a rendição do quartel. Refiro-me a Salgueiro Maia, unanimemente considerado, hoje, o mais puro, o mais desinteressado dos revolucionários.

Isto não derruba a “estátua” de Otelo mas permite coloca-la entre outras de importância semelhante. 

Depois da vitória, depois da Junta de Generais, Otelo é nomeado para a direcção de um novo organismo militar, o COPCON. Se a memória não e falha, foi este organismo, dotado de grande poder, que corporizou a inevitável repressão que se sucede a um golpe militar. É verdade que há que procurar os polícias torturadores, os políticos que os instigaram, os elementos da sociedade civil que por diferentes vias forneceram os meios para que o Estado repressivo tivesse longa vida. 

Em certas alturas, o COPCON foi longe de mais, a começar, ainda a revolução balbuciava, pela prisão em massa de elementos do MRPP. Não durou muito esta prisão mas foi um claro sinal de que nem tudo estava bem pensado e que à investigação se preferiu umaacção espectacular que, convenhamos, teve um certo cunho “terrorista” e, sobretudo, desnecessário. De todo o modo, neste duelo desigual etre um milhar de jovens quase todos estudantes e a estrutura militar, foram os primeiros que ganharam. Não que o publico condenasse aacção militar, o público por esta altura não condenava nada e a multidão, como é próprio destes momentos de exaltação e confusão, estava-se nas tintas para essa coisa comezinha a que chamam Direitos Humanos. 

A segunda fase da acção do COPCON foi mais contundente w mais devastadora. As elites financeiras e empresariais foram varridas por uma onda de prisões algumas, bastantes, das quais não tinham qualquer base legal ou sequer razão de ser. 

Os grandes grupos financeiros e industriais acabaram e nunca mais, repito, nunca mais, se restabeleceram verdadeiramente. É verdade que os ex-presos e os auto-exilados regressaram, recompraram partes do que tinham perdido mas o que daí surgiu foi uma elite exangue, ou enfraquecida. Não é culpa do COPCON mas este ajudou na desordem e porque os seus métodos expeditos deixavam muito a desejar. 

Não vou entrar no terreno minado das denúncias de tortura que foi mais obra de pessoas do que de estruturas (aliás frágeis ou inexistentes).

No meio disto tudo, aparece sempre a personagem Otelo que não só comandava o COPCON mas que por incúria, inércia, desconhecimento ou incapacidade nunca disciplinou verdadeiramente todos quantos estavam sob as suas ordens. 

Otelo não era um político, sequer alguém especialmente politisado, nunca foi um teórico menos ainda um pensador. Entusiasmava-se com o preito que lhe prestavam e deixou para a posteridade meia dúzia de frases, entre elas a burrice sobre o Campo Pequeno.. Acreditou que era um émulo de Fidel de Castro, um erro tolo e fatal. 

Perdeu no 25 de Novembro, como Vasco Lourenço hoje recorda e perdeu bem. A História não estava com ele nesse momento e cada vez mais se afastava. 

Perseguiu a miragem do “poder popular” e ainda foi candidato à Presidência da República. (eu mesmo, confesso-o com alguma mágoa, ainda lhe escrevi dois discursos de campanha, o principal dos quais escutei, parvo e contente, em Matosinhos). Demorou pouco o meu encantamento e foi absolutamente horrorizado que assisti à infâmia das FP25. Nada, repito, nada permite aceitar aquilo, aquela pseudo-conspiração sem nexo, sem ideologia clara, aquele conjunto de acções meramente criminosas. 

Para a História ficam as prisões facilitadas pelas continuas confissões de "revolucionários" de fresca data, sem nada de sólido que os defendesse do mais simples interrogatório policial. Aquela gente “borregou” escandalosamente e a polícia e o Ministério Público só tiveram que ter paciência para os ouvir e determinar responsabilidades. Em plena vida democrática aquilo não foi um escândalo mas tão somente um crime. Doze vítimas, vários “ajustes de contas” entre ex-militantes, alguns (dois, se não erro) que acabaram também em homicídios.

A amnistia que se seguiu foi outro desastre da Democracia como agora toda a gente entende. 

E Otelo, o do Projecto global ,voltou à vida civil como se nada tivesse acontecido. Não se lhe ouviu uma palavra de arrependimento, uma autocrítica, nada! 

Por outras palavras: a criatura que, depois da década de 80, do processo, do julgamento e do insólito perdão,  se passeou por aí usando o mesmo nome do “estratego” do 25 de Abril era um fantasma. Os fantasmas duram muito, os ingleses, conseguem mesmo chegar a séculos. Mashá fantasmas temíveis e outros apenas ridículos...

Quando, nesta hora, se pretende fazer um balanço, lembro-me logo, dos famosos balanços que, no século passado, sobretudo entre 1960 e 1980, se faziam de Staline. O jovem revlcionário Koba, o agitador que nunca saiu da Rússia, o homem que pacientemente foi tecendo a sua teia de poder mesmo ainda em vida de Lenin e que chega ao poder depois da morte deste, o dirigente resoluto que, face às disputas fratricidas dos restantes membros do Politburo do PCUS, os foi abatendo um a um, sistematicamente, o Secretário Geral todo poderoso que emergiu a seguir, que ordenou os Processos de Moscovo, que decapitou dramaticamente o Exército Vermelho com os terríveis resultados que se conhecem, o déspota que mandou para o GUlAG milhões de compatriotas, entre eles dezenas de milhares de membros importantes do PCUS (praticamente todos  os comités centrais anteriores), o vencedor da Grande Guerra Patriótica, mesmo desmascarado no XX Congresso (e é bom lembrar que o relatório desse congresso andou escondido durante anos) foi considerado por muitos milhões de comunistas e de simpatizantes como alguém, que ao fim e ao cabo se pode orgulhar de um balanço positivo. Claro que hoje em dia, o dito balanço positivo foi  para a fossa da História, as estátuas (dezenas de milhares delas) foram retiradas, muitas desmontadas, mais ainda fundidas que o cobre vale dinheiro... Af igura monumental que durou até quase ao fim do sec. XX, é cada vez mais desconhecida. Restam, contudo milhares de poemas panegíricos (entre eles a Ode de Neruda!, que aliás teve a sorte de raras vezes se deslocar à URSS, salvando-se assim, de alguma contrariedade sinistra, coisa que aconteceu a alguns dos mais brilhantes intelectuais soviéticos e dos países ditos “socialistas”. 

Na hora do balanço caseiro, persisto e assino por baixo. Otelo (provavelmente porque não queria, porque não podia, ou porque não percebia) não deixa uma boa recordação. Tenho por mim, que a revolução, com ou sem ele teria eclodido. A 25,  ou dias, semanas, ou meses depois. Que as operações militares cujo excelente plano ele organizou, teriam tido outros planificadores igualmente com sucesso. O regime do Estado Novo, fruto de uma rebelião militar de oficiais que eram republicanos, cairia igualmente como o da 1ª República: de podre, quase sem defensores de préstimo.

As FP25 fizeram mais vítimas do que o golpe de 25 (contando mesmo com as duas vítimas mortas perto da PIDE e a tiros desta). E igualmente sem justificação.  E isso, além de imperdoável, destrói qualquer balanço. 

homem ao mar 97

d'oliveira, 25.07.21

thumbnail_IMG_0867.jpg

Liberdade vigiada 85

Subitamente, neste Verão

mcr,25 de Julho

 

Vinte mortos, ontem, Vinte! Ou o contra-ataque do covid que pensávamos acantonado nas duas, três vítimas. E sempre os velhos a marchar, sempre! Como é que se infectam?

Sem querer ser bruxo, diria que é no círculo mais íntimo que tal ocorre. E como agora, são os mais novos que apanham o vírus, devem ser eles que se encarregam de infectar os velhos que, por qualquer razão, ainda não foram vacinados.

Estou a sugerir isto porquanto ainda não ouvi falar de nenhum morto já vacinado (isto é com as duas doses da vacina).

De todo o modo, reina uma clara confusão nas medidas de combate à pandemia. Isto de pensar que o vírus ataca mais em certos dias do que em outros parece um tanto ou quanto surpreendente, mesmo se se sabe que, de certo modo, o fim de semana poderia propiciar, para quem está mais desatento, reuniões familiares mais intensas...

Também assisto com alguma perplexidade à discussão sobre a vacinação dos mais novos. Parece que um numeroso grupo de especialistas é contra.

Eu não sou especialista, sequer alguém muito atento, mas, correndo o risco de me enganar, penso que  o princípio da precaução indicaria que a vacina seria adequada mesmo se os jovens acima dos 12 anos tenham eventualmente boas defesas. A menos que haja claras contra-indicações.

Mas, como disse, deixo essa discussão a quem sabe, se é que os actores da controvérsia sabem qualquer coisa, o que também não parece ser absolutamente líquido.

Uma outra questão que cá não assume particular relevância é a questão da recusa da vacina. Pelos vistos, os Direitos Humanos servem também para que um par de criaturas ache que a obrigatoriedade da vacina colide com os seus mais inadiáveis Direitos. Eu lembraria que o mesmo sucede com a obrigatoriedade de usar cartão de cidadão que, ainda por cima, contém não sei quantas informações mais sobre o portador. Há países onde, pura e simplesmente, não há bilhete de identidade. Todavia, em França, há manifestações exaltadas, violentas, cargas policiais, enfim o habitual, sobretudo em Paris.

O Governo francês, que disto já sabe bastante, contorna a barulheira indignada, criando obstáculos de toda a ordem e exigindo o certificado de vacinação  para toda uma série de actividades. Assim quem quiser ir a um bar, ao cinema, e a uma série de outras coisas precisa de “montrer pate blanche” ou seja de provar que está vacinado. Ou seja torneia-se a não obrigatoriedade requerida pelos anti vacinação e pelos que nem sequer admitem a existência de um vírus.

Neste género de situações apenas me incomoda uma coisa: as mesmíssimas criaturas que recusam seja que vacina for, quando lhes toca a vez de ficarem infectados exigem tudo do Estado e da comunidade que antes negavam, desprezavam e combatiam. É como os ateus de toda a vida que, em vendo a Parca aproximar-se, chamam o padre e pedem a Extrema Unção!

Digamos que, neste aspecto, também eles recorrem ao princípio da precaução, o tal que, pelos vistos parece espúrio no que toca aos jovens entre doze e dezassete anos.

 

PS: dado que alguns amigos e leitores me felicitaram pelo centenário (que hoje começou) de minha Mãe, entendi ilustrar  o folhetim com o bolo de anos  da agora festejada Mãe que cumpre hoje o seu primeiro dia de centenária.

O título remete para "sudendly last summer" um belo filme com a fabulosa Elisabeth Taylor, E com Katherine Hepburn e Montgmory Clift, já agora.

.     

homem ao mar 96

d'oliveira, 24.07.21

294855_1728741037839_6675088_n.jpg

Liberdade vigiada 84

A rua deserta

mcr 24 de Julho

 

Há na toponímia portuguesa várias menções a data. Em Portugal, o 24 de julho significa principalmente a entrada das tropas liberais comandadas pelo duque da Terceira em Lisboa, com isso, o breve reinado de D Miguel o usurpador praticamente terminou.

Em Moçambique, e sobretudo em Lourenço Marques (e mesmo actualmente em Maputo) o significado da data é outro. De fcto foi nesse dia que o Marechal Mac-Mahon, Presidente da República francesa decidiu(em 1875)  a favor de Portugal a posse da Baia de Lourenço Marques, dita do Espírito Santo, ou Delagoa Bay. Acabaram, assim pela arbitragem do francês, as pretensões da Grã Bretanha. Aliás, esta decisão co-envolvia todo o território a sul, ou seja praticamente todo o sul do Save.

A avenida 24 de Julho africana tem quase cinco quilómetros e era (ainda é) uma das mais importantes artérias da cidade. Tenho boas recordações dela pois vivi lá quer quando cheguei, quer quando parti de Lourenço Marques. O liceu, o único liceu, no meu tempo, que obviamente se chamava “Salazar”, e era moderníssimo e misto no terceiro ciclo, era a dois passos.

Todavia, não era a  isto que vinha, mas tão somente, ao meu desolado sábado lisboeta. De facto, hoje não houve “feira dos alfarrabistas”. Pelos vistos a Junta de Freguesia não permitiu mesmo se a dois passos, no Príncipe Real se realizasse, em pleno jardim, outra feira desta feita de velharias! Isto se é que são as freguesias quem manda nestas coisas. Se é a Câmara Municipal , tal só indiciaria uma clara má vontade à cultura, coisa, de resto comum a muitas câmaras municipais mesmo quando afirmam o contrário.

O dia continuou amargo pois, tive a confirmação que também “Le Monde” deixa de vender a edição em papel em Portugal. Agora, e sabe-se lá por quanto tempo, só temos acesso ao suplemento semanal “selection”. Depois do “El País” e provavelmente com “la República” que também não se avista há tempos, eis-nos isolados (não sei quantos jornais ingleses e alemães ainda cá chegam mas no mostruário do quiosque no Largo do Chiado nota-se que há menos imprensa diária estrangeira.

Claro que me dirão que me basta fazer a assinatura digital mas, queiram desculpar, não é a mesma coisa. Até pode ser mais barato mas comigo isto é um habito de 60 anos (no caso de “Le Monde”) e uns bons 40 no caso do El País. Do “La República2 era cliente menos assíduo. Eu, no que toca a imprensa italiana fui muito freguês do “Paese Sera” e do Expresso que aliás assinei durante cerca de doze anos.

Gosto de recortar notícias e artigos mesmo se na esmagadora maioria dos casos nunca mais recorra a eles.

Nada tenho contra a internet, aliás uso-a de varias maneiras, excepção feita das “redes sociais”, (facebook et alia). Não uso, não estou, nem tenciono estar. Por junto escrevo neste blog e lembro-me com saudade dos tempos em que tinha mais interlocutores opinar, concordar ou discordar.

Provavelmente já não acompanho tanto quanto  devia as mudanças de um mundo em mudança, se é que posso exprimir-me assim.

A neta de um amigo meu, referiu-se à nossa geração como a geração do cinema a preto e branco. Achei que não valia a penas dizer-lhe que com metade da idade dela já muitos, provavelmente mais da metade, dos filmes eram a cores, mesmo se nem todas as fórmulas fossem naturais. E que, mesmo assim, alguns dos cineastas mais modernos insistiam no preto e branco.

É uma conversa inútil pois ainda há pouco vi outros jovens interessados pedir uma cinemateca onde se vissem filmes anteriores a 1990! Se a noção de clássicos já vai assim, nem vale a pena falar em Fellini, Ford, ou Griffith.

Eu também fui assim, provavelmente. E lembro-me do meu avô Alcino, melómano impenitente me dizer que Ravel era “demasiado moderno” para ele!.

À cautela não vou citar músicos demasiado modernos para mim. Com uma excepção: John Cage.

Mas juro que sempre gostei do Emanuel Nunes, um amigo dos tempos da primeira crise académica, a de 62, ou de Pendereky.

Sei porém que, à medida em que avanço em anos, mais difícil se me torna ter uma clara compreensão de tudo o que vai sucedendo neste mundo onde vivo.

Vou fingir que a a culpa é da crise climática...

* na vinheta: a “24 de Julho” de Lourenço Marques nos anos 60.  

homem ao mar 95

d'oliveira, 23.07.21

Unknown.jpeg

Liberdade vigiada  83

O Estado editor

mcr, 23 de Julho

 

Fiz uma tentativa de ir ao Museu Nacional de Arte Antiga. Chegar lá já não exactamente a coisa mais fácil do mundo mas encontrar um lugar para estacionar seja a que preço for parece uma tarefa impossível.

Deixei essa visita para mais tarde e fui pelo catálogo antes que se esgote. O problema do catálogo é outro mesmo se bem característico das edições do Estado. Existe na loja do Museu, tão inacessível como o museu ele próprio e nas livrarias nem ouviram falar dele. As respostas iam desde o “ainda não foi distribuído” até “nunca aparece cá”.

Ou seja, repete-se a  mazela antiga comum a 95% das edições do Estado: não chegam às livrarias. Ou melhor: é provável que cheguem às duas ou três livrarias da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Na internet uma consulta à FNAC, à Bertrand e à Wook não deram resultado. No entanto parece que uma das livrarias Almedina tem o livro. Não são muitas (três ou quatro, mas é melhor que nada).

Não sei, nem tenho possibilidade de saber se nas livrarias dos Museus Nacionais há o livro.

Eu, ao fim de anos e anos, de busca de livros, já conheço os truques todos e, sobretudo já sei que o Estado tem armazéns inacessíveis onde se amontoam edições próprias que praticamente não se escoam por falta de um aparelho de distribuição ou de um contrato com distribuidores privados.

Certa vez, procurando livros editados pela Comissão Nacional  das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, soube numa pequena mesa de venda existente na Torre do Tombo que havia pilhas enormes de livros num armazém em S João da Talha com milhares de livros não vendidos. O problema é que também não havia quem os fosse buscar a tal sítio.

Vi algo do mesmo género com produtos de outras acções do Estado no campo editorial: dessa vez tratava-se de uma operação conjunta com editoras privadas. O Estado patrocinava a edição de autores clássicos portugueses e recebi em troca uns centos de  exemplares de cada obra.

Vi as garagens do Ministério da Cultura, ainda na Avenida da República, atulhadas de gigantescas pilhas de livros. Ninguém sabia o que lhes fazer. Nem sequer enviá-los para as bibliotecas que ainda não eram muitas mas que já existiam e se debatiam com uma pobreza franciscana.

Nem vou referir, pois tenho ideia de já o ter contado, os poucos projectos em que participei. À uma ninguém se lembrava de fixar um preço de venda(!!!) de outras vezes esqueciam-se de contratar um distribuidor e por aí fora: um desastre. Em determinada ocasião, a instituição que eu dirigia entrou numa vaquinha para editar um sumptuoso álbum sobre um grande cineasta português. Quando perguntei em que que data reuniríamos para fixar um preço de venda, olharam-me como se olha um marciano. Depois, percebi que os meus parceiros achavam que o livro, um livro caro, seria para dar. Finalmente, agarrei nos exemplares que me cabiam, fixei o preço e vendi-os todos num abrir e fechar de olhos. Ou seja paguei-me completamente do dinheiro entregue. E jurei que nunca mais.  

Desta feita eu ia em busca do catálogo “Vi o reino renovar (a arte no tempo de D Manuel I)” Vou arriscar: quando regressar ao Porto, irei à livraria da INCM e  eventualmente, caso dê com o nariz na porta, à Almedina. Se nada conseguir espera-me um longo telefonema para o MNAA e uma difícil negociação para obter o livro, combinar forma de pagamento, um inferno.

Cada vez que vejo umas alminhas pueris quererem pôr o Estado a fazer coisas culturais até me arrepio. E fico com a ideia que a coisa vai ser cara, incompleta e fora do alcance físico da esmagadora maioria das pessoas.