Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Jun19

estes dias que passam 325

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

Unknown.jpeg

Sim, mas...

mcr 18.06.19

 

Deve ser “esta a vez primeira” (oh recordação terna e antiquíssima dos meus companheiros de cela em Caxias, no longínquo ano de 61. A “charamba” era cantada pelo José Orlando Bretão, desaparecido demasiado cedo na sua Terceira natal deixando um punhado de excelentes estudos sobre o folclore da sua ilha) que chamo o PAN (Pessoas, Animais Natureza) à colação.

O PAN começou por parecer uma coisa simpática mesmo se para o público aquilo parecesse mais uma organização de bons sentimentos em relação aos animais domésticos. O resto, as pessoas e a natureza, era pouco visível quer nas palavras quer nas acções. De todo o modo, já se afirmava como um partido ecologista diferenciado daquela coisa chamada “os verdes” (cópia descarada de uma sigla internacional, sobretudo alemã) e que em Portugal só são verdes por fora. No resto não passa de um satélite menor do PC.

Todavia, a entrada no parlamento e a consciencialização crescente (e urgente!) de que há que dar uma volta às políticas ambientais e ao desenfreado ataque à natureza, fez emergir o PAN que obteve um bom resultado nas europeias. De certo modo, começa a ser olhado como um refúgio para os descontentes com a voracidade do PS, o conservadorismo do PC, a inércia da Direita e as farroncas do BE.

Ora o PAN desdobra-se esforçadamente em propostas às vezes irrecusáveis, outras utópicas mas sempre generosas. Dentre elas, destaca-se a da punição do descontrolado arremesso de “beatas” para a rua.

A ideia em si mesma é boa. Os restos de cigarros, mormente com filtro, demoram imenso tempo a desaparecer, atafulham sargetas, sujam praias e parques e poluem forte e feio. A propositura de multas pesadas (200€) para quem atire a beata para o chão deveria ser dissuasiva do gesto. Deveria, digo, mas não é. É que a multa depende de um agente da autoridade, seja ela qual for, que multe rapidamente o infrator. Isso pressupõe um exército (para já não falar no que generosamente chamarei de motivação. (Como a que levou umas criaturas do fisco a parar carros em rotundas para verificar se os proprietários tinham os impostos pagos...)

Eu ainda recordo um dos desportos favoritos do tempo do Estado Novo: o uso de isqueiro. Era obrigatória uma licença e obviamente, naqueles tempos insultuosos e difíceis, havia um grupo de criaturas que andavam à caça dos não licenciados.

Da mesma época, recordo também uma lei que previa multar as pessoas que atravessavam as ruas fora das passadeiras (uma inovação de finais dos anos cinquenta). E ainda uma outra disposição que obrigava as pessoas a circular calçadas. Na Figueira da minha infância as rijas peixeiras de Buarcos traziam uns tamancos (ou algo do mesmo género) atados ao pescoço e quando viam um polícia lá se calçavam. No resto do caminho voltavam ao pé andarilho e rapado.

Conviria explicar ao esforçado deputado do PAN que a multa, dissuade apenas quando está presente. Porém isso não inibe a tentação nem substitui a necessária consciência cívica que impõe respeito pelos outros, pela natureza e pela higiene (pessoal e pública).

Não deixou de ser curiosa a recepção da ideia. Houve mesmo um(a) parlamentar que achou exagerada a quantia a comparou à multa por circular acima do permitido nas vias públicas.

Recordaria ainda que vigora, desde há anos, a proibição de falar ao telefone enquanto se conduz. “Cadé” as multas ou, pelo menos, as multas pesadas e em número suficiente para fazer desaparecer essa prática criminosa?

E finalmente: se é verdade que as beatas incomodam e prejudicam, que dizer dos milhares de cães que donos devotados passeiam diariamente por todo o espaço público e que fazem o seu cocó tranquilamente? Haverá multas? Ou o respeito a outrance pelos fieis companheiros permite essa libertinagem excrementícia dado que o PAN dedica todo o seu carinho aos excelentes bichos?

A coisa (o desrespeito pelos outros peões e passeantes) é de tal ordem que quando se vê alguém apanhar o cocó do cãozinho pensa-se que estamos frente ao novo milagre das rosas. Para não ir mais longe: n zona onde moro há um jardim agradabilíssimo no meio dos prédios. A zona (classe média alta!) abunda em cães. Pois só uma vizinha nossa é que se dava ao trabalho de recolher as fezes dos seus bichos. Todos a achavam uma excêntrica!

De tudo o que venho dizendo só se retira uma conclusão: não é mais uma lei que vai modificar os (péssimos) hábitos dos indígenas. Quanto mais não seja porque está praticamente garantida a impunidade dos que desrespeitam. E as leis que se não cumprem levam ao incumprimento das outras. A uma cultura que começa nas pequenas (más) maneiras e acabam no escândalo da corrupção quase generalizada, exactamente essa que começa no desenfreado hábito da pequena cunha e acaba nos banqueiros que concedem generosas subvenções a arrivistas e bos autarcas que governam os municípios a seu bel prazer.

 

12
Jun19

Au bonheur des dames 488

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

 

Remember Ruben

mcr 12.06.19 

Aproveito o título de um belíssimo livro de Mongo Beti (escritor cameronês, desparecido no princípio do século) para me despedir do Ruben de Carvalho que conheci logo nos inícios de 60 nas lutas associativas estudantis. Acho que, da primeira vez, ele ainda seria liceal e membro da pequeníssima pro-associação dos liceus de Lisboa, aliás a única que existia. Não sei porquê mas associo-o a umas aventuras (modestas) com malta das RIP (reuniões inter propaganda) por altura da crise e que terminavam sempre, se a memória me não trai (coisa que começa a ser frequente...) na Portugália, à volta de umas imperiais. Durante alguns, poucos, anos ainda nos encontrávamos sempre por via de questões estudantis e/ou políticas. Todavia eram encontros breves, quase fortuitos, tanto mais que eu era de Coimbra e o Ruben lisboeta assumido.

A partir dos anos 70 só fui sabendo dele pelos jornais e por alguma esporádica aparição na televisão. Conservo, porém, uma boa recordação dele e, mesmo sem nunca ter partilhado as suas opções ideológicas e partidárias, estimava-lhe a maleabilidade, a cultura e a boa disposição. Agora, sei, de ciência certa, o que sempre suspeitei. Era a ele que se devia o programa diversificado da Festa do Avante, pelo menos no que toca à música. Até nisso se podia perceber o grau de liberdade (de heterodoxia?) de que o Ruben gozava. E gozava-o porque era respeitado e porque se sabia fazer respeitar.

Amigos ou conhecidos comuns que navegavam nas mesmas ou próximas águas do Rúben isso mesmo me confirmavam. Gabavam-lhe a inteligência, a cultura, a amabilidade, o humor e...a firmeza.

Morre agora, com 74 anos, uma vida cheia e, suponho, uma maleita sacrista e pertinaz. A morte colhe as vítimas cegamente e não tem quaisquer escrúpulos na hora de escolher. Fica-nos uma memória, no meu caso bastante ténue mas abençoada pela alegria daqueles anos tumultuosos em que qualquer escolha encerrava perigos e a aventura estava proibida. Éramos poucos, muito poucos, “we jfew, we happy few we the band of brothers”, que, paulatinamente, o peso dos anos vai inexoravelmente reduzindo. E o Ruben era um dos mais novos...

* na gravura : Mnemosine a deusa da memória e as musas

11
Jun19

Estes dias que passam 324

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

“l’autunno sará caldo” *

ou

As omeletas fazem-se com ovos 

mcr 11.06.19

 

(e um pouco de sal, manteiga ou óleo e, mesmo uma frigideira. Isto sem falar numa escumadeira para virar os ovos e dar-lhes forma).

Desculparão os leitores mais atentos este exórdio (bonita palavra!) mas eu só começo assim porque, se pudesse, era o que diria ao sr. Primeiro Ministro.

Eu sei que ele é um cozinheiro de mão cheia (é que a amantíssima esposo e os filhos extremosos afirmam) mas talvez com esta imagem culinária consigamos entender-nos. É que tudo isto vem a propósito dos transportes públicos que estão pelas ruas da amargura. Pode S.ª Exaª afirmar que “uma família de Sintra poupa em transportes mais de cem euros mês” coisa de que eu jamais me atreveria a duvidar pois os primeiros ministros nunca mentem. Todavia, e nisso há sempre a maçada de um “mas”, diabos levem conjunção adversativa.

Quando numa fanfarra triunfante e pré-eleitoral o Governo anunciou formidáveis descontos nos transportes, logo houve um coro de elogios e um arruído de protestos. Os pró governamentais salientavam a bondade da iniciativa e o profundo amor que ela revelava pelas classes laboriosas e periféricas. Os (obviamente invejosos) da oposição viram nisso uma pura e atempada manobra eleitoralista.

Raros foram os que saudando a ideia logo chamaram a atenção para o facto de uma descida de preços poder levar o caos a uma insuficiente rede de transportes que já rebentava pelas costuras. De facto, os comboios eram já escassos, as locomotivas e as carruagens padeciam dos males da idade avançada (avançadíssima!!!), da falta de manutenção e esta da falta de pessoal especializado há muito denunciada por sindicatos e administrações da CP.

Foi aquele extraordinário Marques (agora felizmente longe na Europa para futura vergonha nossa) quem anunciou o novo milagre das rosas. Nisto de anúncios bombásticos a criatura excedia-se, desdobrava-se, ultrapassava-se continuamente para regozijo de basbaques e aflição das oposições.

Pelos vistos ninguém fazia contas, a aritmética, terror da minha antiga escola primária, andava esquecida e as promessas valiam de per si. Os comboios hão de vir (virão?) daqui a uns anos se é que já foram contratados e encomendados. A manutenção essa depende da entrada imediata de uns centos de profissionais especializados (onde estarão? Como serão preparados e quanto tempo isso vai exigir?).

Também não há navios para a travessia do Tejo e quanto a autocarros, eléctricos ou metropolitano estamos na mesma: hão de vir como D Sebastião numa manhã sem nevoeiro mas inevitavelmente futura. E o futuro, este futuro mede-se em anos ou seja nem na próxima legislatura (cujas eleições provocaram este aluvião de novidades e de progresso) estarão por aí. O que está, é o novo preço! Indubitavelmente mais barato é verdade mas pelos vistos impraticável. Os comboios passam, cheios que nem um ovo e nem parar podem. Isto quanto aos que passam pois todos os dias as televisões anunciam supressões de composições. Prece que em Maio e só no Algarve houve 185 comboios a menos. O mesmo, com números semelhantes ou superiores, ocorreu nas linhas suburbanas de Lisboa. Quando algum chega eis que multidões desvairadas se lançam ao seu assalto. Ist parece Tóquio, o Tóquio antigo, em que cenas desse género também ocorriam e onde havia mesmo uma categoria de trabalhadores cuja missão era empurrar sem grande suavidade os candidatos a passageiros para dentro da “lata de sardinhas”.

O Metro, sempre inventivo anuncia a retirada de mais alguns assentos. De pé cabe sempre mais um. Os reis do apalpão rejubilam: agora é que vai ser um fartote!

O público viageiro e sempre ingrato protesta que as coisas pioraram e que chegar tarde ao emprego passa a ser a regra. Quando se chega, claro.

E nisto de chegar há uma linha férrea extraordinária: a do Oeste ou seja a que liga(va) a Figueira da Foz a Lisboa e servia, entre outros destinos, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Leiria. Servia, digo, e muito bem, porque agora já não serve ou só serve de quando em quando. Há estações desactivadas e há trafego ferroviário suspenso entre outras por vezes substituído por autocarros. De todo o modo, já não chega a Lisboa, ficando-se por Sintra e daí, se não houver muitas supressões (e isto é um voto pio mas fervoroso) , é aproveitar a “exemplar” linha de Sintra que, em funcionando, permitiria a cada família uma poupança (não de tempo) de cem euros por mês.

Ou seja: nesta omeleta faltam ingredientes mormente os ovos, as frigideiras são do tempo dos afonsinos e as escumadeiras não passam de uma saudade.

Isto mesmo foi dito pelo Governo que penosamente rezou uma espécie de acto de contrição e confessou alguns ligeiros pecadilhos mas que atribuiu a um finado governo anterior toda a responsabilidade!

Os governos anteriores, sobretudo se forem da oposição são muito úteis pelo menos para carregar com os pecados capitais (e mesmo com os veniais). Vamos lá a ver se o futuro Governo que se afigura da mesma cor e substância resolve as coisas. Aceitam-se apostas mesmo se a casa jogue cinco contra um na impossibilidade de, em quatro anos, se notarem melhorias. No fim logo se verá a quem se apontam as responsabilidades.

(hoje mesmo, 11 de Junho está em curso uma greve dos transportes rodoviários da margem sul. Um dirigente sindical afirmava eufórico que a paralisação estava a ser cumprida a 95% e que ninguém ou quase iria conseguir chegar o seu emprego em Lisboa. Ignoro se são transportes públicos ou privados mas relevo desde logo que uns e outros estão sob a mesma tabela e que se isso ocorre em empresas privadas bom seria perguntar ((mesmo se isso me parece pura retórica pois estou convencido de que não)) se os patrões já receberam do Estado a compensação pelo grande desconto que efectuam em cada viajem).

Uma medida pode ser boa em abstracto (e esta é-o) ms no concreto pode correr mal. É evidente que ao embaratecer visivelmente os preços dos transportes públicos, já se sabia que a procura deles iria aumentar fortemente. Conhecendo-se, igualmente, as disponibilidade da frota pública, dever-se-ia pensar que os operadores privados teriam maior número de passageiros. Como os preços novos significavam um custo acrescido dever-se-ia ter agilizado significativamente os pagamentos a estes operadores. E mesmo assim, dado o inevitável aumento da procura haveria que pensar como é que as frotas podem ser prontamente aumentadas. E isso significa também para qualquer privado uma despesa de investimento importante que pode não ser viável a curto prazo. Dizendo-o de outra maneira: o Estado deveria prever, avaliar e tomar medidas para responder prontamente a este brutal afluxo de modo a evitar o caos, e o desastre diário que se verifica.

Pelos vistos, e pelas desculpas esfarrapadas, que ora se ouvem, tal não aconteceu. “O Verão –mesmo com férias- e sobretudo o Outono serão quentes, muito quentes” como há cinquenta anos se gritava ameaçadoramente pelas ruas italianas.

* l’autunno sará caldo!” foi uma expressão cunhada em 1969 em Itália pela esquerda extra-parlamentar e pelos sindicatos e anunciou uma vaga crescente de greves e de manifestações sobretudo no norte industrial

** a imagem: o outono quente em Itália

 

 

09
Jun19

Au bonheur des dames 487

d'oliveira

Unknown.jpeg

Fazer dos outros parvos

mcr 9-06-2019

 

1) Eu não queria falar do dr Victor Constâncio. E não queria por uma velha velhíssima razão. Há muitos, sei lá quantos, anos, um velho amigo meu ao saber que eu não estava inscrito num partido, entendeu insistir durante semanas para que entrasse no PS. Na altura o PS andava na mó de baixo, o meu amigo dava-me cabo do pouco juízo que tinha de modo que lá me inscrevi. Descobri, estupefacto, que tendo saído de um agrupamento em que fervilhava a discussãoo ideológica, o PS era um remansoso local onde ninguém se dava a tais práticas. Na secção que me foi destinada, o mais político que ouvi da boca de uma senhora que fazia de responsável foi que os militantes machos fumavam que nem carvoeiros e que ela tinha de varrer a sala das cinzas e até de uma que outra beata deixada cair por algum camarada menos cuidadoso. Não vou contar a minha vida partidária mas sempre acrescento que subi de vento em popa e um mês depois de entrar já era delegado a um congresso federativo, candidato sem o saber a um lugar no respectivo secretariado e mais não sei o quê.

tudo isto porque na campanha que opunha Constâncio a Jaime Gama, escolhi como de costume o lado errado e defendi Constâncio um par de vezes ( “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”). Constâncio ganhou e na direcção do PS cometeu o erro trágico de se deixar seduzir por uma iniciativa do PRD (Partido Renovador Democrático, criado à sombra quarteleira do senhor general Eanes e organização estrafalária e populista até dizer chega que fundamentalmente se apresentava como redentora.

Na altura o Senhor professor Cavaco Silva era primeiro ministro e estava à frente de um Governo minoritário . O PRD (18% ds votos) entendeu propor uma moção de desconfiança e o PS (21 ou 22%) apoiou a ideia. Cavaco caiu. Convém lembrar que até o dr Mário Soares mandava recados ao partido advertindo que em caso de vitória da moção haveria eleições e que as perspectivas não eram as melhores para o PS.

O PS e Constâncio não acreditaram pois pensavam que no último momento seriam chamados a formar Governo. Não foram. A partirdaí Cavaco ganhou com maioria absoluta dois mandatos sucessivose o PS andou pelos corredores esconsos de S Bento a falar sozinho. Entretanto o PRD, essa fantasia pretensiosa, desapareceu sem deixar rasto nem saudades. Vitor Constâncio lá se resignou a abandonar o lugar no PS e o cargo de deputado. Pode dizer-se que nesta fase sombria não se distinguiu nem pelo génio político, nem pelo talento oratório.

Entretanto, este cronista, depois de ter tentado por todos os meios convencer os seus camaradas da loucura de votar com o PRD, desandou do PS, explicando numa cartinha tudo o que pensava daquela aventura. Todavia, poupava Constâncio que “teria sido mal aconselhado”! Ingenuidade minha, claro.

Mesmo assim, custa ver alguém por quem demos a cara a fazer-se de sonso, de desmemoriado, de ignorante, de inocente útil e parvo. Constâncio, pelo que afirmou na Comissão da AR, não se lembrava, não tinha de saber, não sabia enfim, o Governador do Banco de Portugal que ele era andava por lá como na política: às cegas, aos baldões, aos tropeções a apanhar calduços ou cachaços dos malandrins que gozavam o gordinho que passava.

Uma tristeza!

 

2 A digna sucessora dos senhores João Soares, o “esbofeteador” e de Castro Mendes o “fantasma desconhecido”, Doutora Graça Fonseca, a propósito da lista de obras desaparecidas do acervo do Ministério, afirmou, sem tentar ser irónica, que tais obras apenas estavam por localizar. Patético! Ou ridículo, se preferirem...

Conviria lembrar à distinta senhora que qualquer desaparecido está por localizar, É assim nos comunicados de guerra ou sobre desastres: "há mortos, feridos e desaparecidos." Infelizmente, muitos destes últimos nunca parecem ou aparecem já cadáveres. Os americanos até tem uma sigla:MIA (missing in action”).

Portanto as obras “por localizar” estão desaparecidas. É aliás provável que continuem “inlocalizaveis” perdoe-se a palavrinha inventada e abstrusa. São quase 200 as vítimas deste inexplicável nevoeiro. Ou melhor: quem conhece os labirínticos corredores dessa coisa pomposa chamada Ministério da Cultura, desconfia mesmo da veracidade da lista. Estará completa?

Em tempos que lá vão, aquilo era uma balbúrdia. As peças circulavam livremente por todo o lado, não havia um registo seguro do comprado, do recebido como oferta, sequer do eventualmente deteriorado.

Ainda recordo, uma excursão feita à garagem do Ministério, estava este ainda na Avenida da República. Em vez de carros, havia pilhas enormes de livros. Tratava-se de obras editadas com o apoio do Instituto do Livro e que numa certa percentagem eram entregues ao MC. Ali chegavam e ali estadeavam sem préstimo nem destino. Semanas, meses, anos. Recordo igualmente, uma gigantesca partida de livros  adquiridos a uma(s)editora(s) em risco que o ME, na sua versão Secretaria de Estado tentava impingir às instituições que os quisessem.  E foram raras as que, depois de prevenidas, acorreram a levantar os livros...

Recordo também, um livro sobre Camilo Castelo Branco, publicado a expensas do Ministério pela comissão das comemorações do centenário de CCB em 1991, chamado “Imagens Camilianas” Tratava-se de um belíssimo álbum, com caixa própria que reproduzia em mais de 60 páginas, imagens do escritor. Uma vez publicado, foi enviado para a Delegação Regional do MC no Porto e mais uma vez os montes de livros ficaram por lá sem serventia. Que se saiba nunca foram distribuídos sequer vendidos. Uma pequena pesquiza revela alguns exemplares à venda no OLX, e em dois alfarrabistas do Porto. Recordo que no local onde estavam depositados houve uma inundação que destruiu alguns exemplares. Os restantes bem como uma série de obras de pintura transitaram para Vila Real, destino escolhido pelo dr Santana Lopes (outra luminária cultural feita Secretário de Estado!) para a DRN . Nesse lote ia o original de “A liberdade está na rua” (Vieira da Silva) e um belíssimo desenho de Fernando Lanhas. Ao todo seriam duas ou três dúzias de peças, incluindo algumas esculturas. Nem quero pensar no que lhes terá sucedido. Pela parte que me toca (bem como aos dois anteriores Delegados Regionais) tive o cuidado de ao deixar o cargo, pedir quitação e inventário do que passava para a criatura que me substituiu(dinheiros e obras de arte. Cautelas e caldos de galinha nunca são de mais, tanto mais que eu saía daquela casa depois de me demitir  do cargo e em claro enfrentamento com o inglório fundador desse partido largamente derrotado nas últimas eleições ).

Voltando à doutora Fonseca, especialista gorada em eufemismos e desastrada responsável da Cultura nacional, a sua reacção à notícia do Expresso diz muito do estado a que chegou cultura democrática e a ideia de responsabilidade que deveria presidir aos actos e às palavras de quem momentaneamente (e mal, pelo que se vê) governa a pobre pátria. Ainda por cima, o desaparecimento ou, pelo menos, notícias dele, tem anos. De facto há muito tempo telefonou-me alguém que já na altura andaria na peugada das peças. E já havia várias (pelo menos das que estavam na DRN) que estariam em Alcácer Quibir prontas a regressar com o rei D Sebastião numa eventual manhã de nevoeiro.

Na origem deste mistério “doloroso” ou “gozoso” (é só escolher) está o estranho facto de as peças artísticas andarem sempre a mudar de poiso e de não haver um registo claro dessa deambulação ou sequer haver uma ficha decente da peça (com fotografia, preço, data de aquisição. medidas, e demais dados pertinentes. Recordo que na DRN (mais uma vez!) isso foi feito com enorme rigor por Manuel Matos Fernandes, um grande funcionário entretanto falecido. E que tal inventário foi, devidamente enviado, para “conhecimento” ao Ministério. Não me lembro entretanto se alguém de lá se deu ao trabalho de acusar a recepção. E uso o “não me lembro” apenas porque me custaria dizer que pura e simplesmente se estiveram nas tintas. Como já nesses anos do fim do século, ocorria com frequência, displicência e falta de consciência...

na gravura: “A poesia está na rua” (Vieira da Silva)  

06
Jun19

O leitor (im)penitente 210

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

Na morte da Sibila

mcr Jun 2019

Diz-se, com algum exagero, que “Cem anos de Solidão” fagocitou toda a restante obra de Garcia Marquez. Não é exctamente assim mas, na verdade, nenhum dos livros posteriores (e alguns de grande qualidade) ultrapassou aquele cometa.

No caso de Agustina, um destino idêntico, envolve o enorme romance “A Sibila”.

Há obras que suscitam um tal interesse e um tal entusiasmo que se tornam incómodas para o próprio criador. Como se os leitores se arrogassem do direito de exigir, a cada novo livro, uma outra obra maior, incomensurável, um outro arrebatamento duradouro.

Nada disto diminui, bem pelo contrário, Agustina. Mas a quem a conheceu via “A sibila”, toda e qualquer obra posterior sabe a pouco (um pouco agustiniano, claro, nada a ver com a mediocridade contentinha que por aí reina. Ou com o “mainstream” tão comum na literatura portuguesa dos últimos cinquenta anos do século XX.)

Conheci mal Agustina, cruzámo-nos poucas vezes e em nenhuma delas tive oportunidade de estabelecer um diálogo sério e proveitoso. De certo modo, dei-me mais com alguns familiares com quem, por razões diversas, tive muito maior contacto. Destaco, desde logo, o dr Alberto Luís, um advogado de grande qualidade, um homem cultíssimo e um excelente conversador. Vezes sem conta mos encontrámos na livraria Leitura onde íamos quase diariamente por novidades literárias. A Leitura, um pouco mais tarde do que Alberto Luís, acabou e com ela fechou-se um ciclo de oiro de livrarias portuenses mesmo se algumas subsistem. Em boa verdade, a procura de livros e a atenção de livreiros esforçados minguaram conjuntamente. A grandes superfícies livreiras estão entregues a um par de comerciantes que entendem que ganhar dinheiro pode ou não ser compatível com vender livros por atacado.

Hoje, pode ser mais interessante visitar um alfarrabista (ou melhor ainda: frequentar os seus leilões) do que uma livraria reduzida a estantes cheias de best-sellers e de livrinhos fabricados por estrelas da televisão e da sociedade cor de rosa. As criaturas do jet-set tem êxito assegurado seja qual for a paupérrima redacção que apresentem. Os chamados valores consagrados continuam a disputar as montras e os expositores mais em evidência relegando para os sítios mais esconsos algumas verdadeiras pérolas. Ainda recordo a miserável recepção que os livrinhos de Raduan Nassar por cá tiveram. Acabaram por ser vendidos a preço vil numa espécie de feiras-saldo . E, mesmo agora, que o prémio Camões lhe deu mais visibilidade, consta que vende pouco. E neste vender pouco vai muito, visto que o número de exemplares por ediçãoo baixou vertiginosamente.

Além do marido, conheci e privei, com gosto e reconhecimento, com a filha Mónica que foi minha colega no Ministério da Cultura. Vi-a dirigir com competência, zelo e êxito o Museu da Literatura, primeiro, e o Soares dos Reis depois. Mais tarde acompanhei-lhe os primeiros passos literários (primeiros e seguros, diga-se para já) e fui o pior associado do Círculo Agustina Bessa Luís, obra que tem tanto de qualidade como de devoção e piedade (no sentido bom e antigo) familiar.

Gostaria, desde longe, de lhe dizer que tem aqui, mais do que um admirador, um amigo grato, dela e de todos os seus.

Aproveitando a boleia seguramente generosa de Agustina, lembraria agora que, mesmo na sombra persistente do preconceito e da desmemória literária e cultural deste país que não lê, há um grande grupo de mulheres escritoras cujas obras valem ou ultrapassam as dos seus congéneres masculinos. E, citando apenas as desaparecidas, bom seria ver aparecerem de novo leitores e leitoras para Irene Lisboa, Isabel da Nóbrega (ai o “Viver com os outros”!...) Maria Judite de Carvalho que está em reedição (não percam, pelas alminhas, “Tanta gente Mariana), Fernanda Botelho (idem pela “A gata e a fábula). Poderia juntar-lhe mais uma meia dúzia de mulheres que escrevem muito bem, que são inteligentes e que merecem mas espero que estes quatro exemplos suscitem a curiosidade de alguns. E que essa curiosidade leve a outras descobertas, incluindo a de escritoras ainda vivas e que isso comece a recentrar o papel das mulheres escritoras portuguesas.

Isso não diminui Sofia ou Agustina, bem pelo contrário.A literatura portuguesa, a boa, entenda-se, não parou em Florbela, em Irene Lisboa em Sofia ou em Agustina. Não passa é sem elas que a engrandeceram, que em muitos momentos a vivificaram, a robusteceram. Eu sempre achei que há mais (e melhores) leitoras que leitores. Vi isso ao vivo na Póvoa ou em Matosinhos onde asmulheres eram multidão em relação aos leitores. Poderiadizer que é a curiosidade o que as faz correr estantes, livrarias e bibliotecas mas, mesmo que entenda a curiosidade como algo de optimo, de refrescante qualquer coisa que faz avançar o mundo e a civilização, isso só não chega. Sensibilidade? Desejo de perceber o mundo e o outro? Responda quem souber ou quem quiser. E leiam, leiam muito estas (e outras) belíssimas autoras. Há todo um mundo à vossa espera.

Em boa verdade, até MaoTse Tung ou Mao Zedong (é como quiserem) escreveu com alguma justiça (não sei se sincera) "As mulheres são metade do céu". Só metade, grande timoneiro, só metade?

 

 

04
Jun19

Au bonheur des dames 486

d'oliveira

erico_verissimo_todos_nos_somos_um_misterio_para_o

Ah, se isto fosse um romance policial...

mcr 4.06.19

 

Mas não é. É apenas Portugal, minhoto, bisonho e metido nas negociatas. Vejo no jornal (eu faço parte da minoria que lê e compra jornais. Vários e de papel. Para ver se não desaparecem de vez!) que o senhor Joaquim Couto já não fica em prisão preventiva como se anunciava e, com toda a probabilidade, se previa.

E não vai porquê?

Não vai porque o o juiz entendeu que ao renunciar a todos os cargos públicos e partidários a prisão não se justificava. De todo o modo o acusado terá de pagar uma caução de quarenta mil euros o que sempre é um dinheirinho respeitável.

A renúncia fora anunciada domingo e, à cautela, os documentos comprovativos foram entregues ao Tribunal mesmo que isso não fosse exigido. Na altura, um dos advogados do ex-autarca veio dizer que “a renúncia não significava uma confissão” mas apenas se destinava a salvaguardar o prestígio da Câmara e do Partido Socialista fortemente beliscado pelo que consta da acusação.

Na altura ninguém percebeu tão pronta e (para uma minoria) louvável actuação. Agora percebe-se. O sr. Couto não bate com os costados na cadeia o que seria, mais do que um desconforto, um aborrecimento em véspera de férias de Verão.

Criaturas perversas e de má índole tentaram já afirmar que isto cheira a negociata. Duvido, não tanto ao nível das intenções do demissionário mas antes da análise do Tribunal e do Juiz de Instrução. Este acautela-se com a caução e com as restantes medidas já tomadas ao mesmo tempo que aceita parte das explicações da defesa (custos de uma viajem pela Austrália no seguimento de uma ida oficial a Timor. O que é que Santo Tirso tem a ver com Timor é outro mistério digno de Agatha Christie mas já se viram coincidências mais surpreendentes.

Aliás, neste imbroglio nortenho tudo sucede. O director do IPO pediu a reforma. Também escapa às grades. Mais notícias deste folhetim só para semana.

 

O 2º mistério desta trilogia é a resposta do sr Carlos César ao sr Marques Mendes. Este deixou no ar a ideia de que o primeiro gostaria de ser Presidente da Assembleia da República mesmo que isso fosse ofensivo para Ferro Rodrigues. Eu pessoalmente só acho extraordinário o facto de César ter chegado onde chegou e de uma forte maioria de cidadãos açorianos o ter eleito várias vezes para Presidente da Região. Desde a sua primeira aparição fiquei esclarecido quanto às suas capacidades oratórias (exíguas) e à sua argumentação política (medíocre).

Entretanto o sr César mesmo chamando “comerciante político” ao sr Mendes não exclui a sua candidatura. Apenas diz que o futuro só ao futuro pertence. Está-se mesmo a ver que se está a pôr a jeito para o que der e vier. Por pouco que se aprecie a actual estrutura do Parlamento convenhamos que César na presidência dele não ajuda em nada o prestígio daquela assembleia onde deputados eleitos à molhada e na generalidade desconhecidos dos desgraçados eleitores sentam o dito cujo ou levantam-no à ordem dos respectivos cabos eleitorais. Volta Júlio Dinis e traz contigo o Joãozinho das perdizes. Por onde andas, Eça e as tuas magníficas descrições das sessões parlamentares?

O Sr. Presidente da República, travestido de 2professor Marcelo, comentador político, entendeu anunciar uma “crise da Direita”. O principal visado, dr. Rui Rio não o nega mas prefere o termo “crise do regime”. O dr. Centeno acha que não e dispara uma resposta ao lado que não aquenta nem arrefenta. (o dr Centeno é mais para números do que para análise política e gosta de baralhar o jogo. É contra a austeridade em abstacto e usa-a – e de que maneira!- na prática).

Este modesto folhetinista acha que a crise vem de longe e que, sem reformas drásticas, as coisas não melhorarão. A começar por uma que belisca todos os poderes instalados: acabar com as listas de deputados ao magote e tornar fácil e claro para cada eleitor saber em quem realmente vota. É assim que se faz nos países civilizados e até à data a coisa não tem corrido mal. E os deputados preguiçosos ou subservientes não duram muito.

Será que algum dos leitores conhece já não digo todos os candidatos mas apenas metade dos que se propõem no seu círculo? O lisboeta conhecerá ao menos dez dos candidatos? O do Porto oito, os de Coimbra Braga, Aveiro ou Setúbal, seis? Já nem falo dos substitutos e nem sequer refiro o facto de alguns dos felizes eleitos deslizarem mansamente para outros cargos.

E, muito menos, falo da possibilidade de escolha dos deputados de um partido mas de todos os eventualmente elegíveis no círculo (e já excluo os dos pequenos partidos, por vezes bem mais visíveis do que terceiras e quartas figuras dos partidos tradicionalmente assentados no hemiciclo.

De todo o modo, que é que deu ao Sr. Presidente? É que para falar da Direita que, sem dúvida, conhece e que muito frequentou, poderia, já agora, estender a sua lição ao que se passa na Esquerda, quanto mais não seja ao Partidão que anda na mó de baixo roído pelo BE e pelo envelhecimento natural da sua base eleitoral.

É que assim, só dando pela Direita, poderá parecer, Deus nos livre, Santa Bárbara nos acuda, que S.ª Ex.ª se está a posicionar para a corrida a um novo mandato. Credo!, Jesus, Maria José, va de retro Satanás...

 

* A gravura: ao procurar uma ilustração para mistério deparei-me com Erico Veríssimo, escritor notabilíssimo, um dos grandes, muito grandes, do Brasil.

Leitor(a)  ler "O Tempo e o Vento", uma trilogia extraordinária situada no Sul do Brasil é uma obrigação. E um gosto, um prazer, um divertimento. Veríssimo é um escritor de mão cheia e. quando se chega ao fim desta trilogia, só nos apetece outra de igual tamanho ou maior.  

 

03
Jun19

Diário político 219

d'oliveira

Pior a amêndoa do que o sorvete

d'Oliveira fecit  3/06/19

Eu não sei se algum(a) leitor(a) conhece este fraco trocadilho que na minha meninice repetíamos amiúde. Baseava-se na expressão “pior a emenda do que o soneto” e pretendia dizer que às vezes, quase sempre, vale mais deixar estar do que vir com desculpas de mau pagador.

Estava eu descansado depois de um fim de semana quente efestivo quando oiço na televisão novidades (enfim novidades não que ninguém acredita nas histórias da carochinha que a administração pública e, sobretudo, a fiscal, nos tenta impingir.

Aquela gentinha, arrogante até dizer basta, trata o povo miúdo como o hortelão trata as ervas daninhas: `À porrada, à sacholada, cortando, queimando, destruindo. E se alguém se queixa tem primeiro de pagar e depois reclama.

Faço parte dos maus portugueses que nunca acreditam nas declarações oficiais sobretudo depois de se descobrir uma asneira de grosso calibre.

Sempre me pareceu impensável que as armadilhas nas estradas a contribuintes incautos fossem obra de um só cérebro mal orientado. E a televisãoo mostrou com documentos claros e definitivos que as camapnhas imaginativas para extorsionar os pagantes tinham sido propostas a quem de direito.

Alias não só estes assaltos nas estradas mas também outras acções “intrusivas” tais como varejar casamentos, festivais à procura de receitas fugidas ao fisco, ao big brother.

A senhora Directora Geral terá despachado o documento que seguramente chegou aos deus domínios e que alegadamente não leu. Das suas uma: ou a mulherzinha é analfabeta ou não lê o que lhe vai ao gabinete.em qualquer dos caos não presta e deve ir já embora por ignorância, incúria, denegação de direitos o que se quiser.

E, mesmo assim, sou bondoso: não que ilibe sem mais ministro e secretários de Estado mas aceito, sobre forte reserva. que estas minúcias atentatórias dos Direitos Humanos, da Lei, da Ética e mesmo da Constituição não alcancem os círculos mais centrais da teia de aranha. Mas há que prova-lo.

Face a este desenvolvimento, até o propagandista nº 1 do Governo que, no século, dá por Marques Mendes, encheu o peito e declarou salomonicamente que a dita senhora deveria ir dar uma volta ao bilhar grande. De motu próprio, acrescente-se, para salvar a face. Isso foi dito na SIC, onde perora o clone do professor Marcello mas hoje, segunda feira (de manhã...) ainda nada soa dessa sábia decisão

Eu desconheço se Mendes falou em nome próprio ou por procuração do Senhor Presidente. De todo o modo, suponho, sem provas, mas com alguma suspeita, que esta declaração mendista tem o aval de Belém. Antecipado ou sucessivo...

A ver vamos, como dizia o ceguinho. A ver vamos...

 

 

 

31
Mai19

diário político 218

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

A cobardia tem mil caras

(e os abusos de poder, mil formas)

( e outras observações impatrióticas, q.b.)

d'Oliveira fecit 31.05.19

 

Isto de um bando de criaturas do fisco mancomunado com polícias (ou guardas republicanos, tanto faz) acampar numa estrada e fazer parar os automóveis para verificar se os seus condutores devem ou não alguma quantia aos cofres públicos não é uma graçola de mau gosto, um abuso de poder mas apenas uma reedição dum filme série B de bandoleiros do nosso pouco recomendável século XVIII.

Isto de cruzar dados que deviam estar mais protegidos para receber uns poucos centos de euros tem muito que se lhe diga.

Comecemos pelo mais óbvio: aquela gentinha fiscal tem direito a uma percentagem do cobrado! Aquilo é, como antigamente, a caça à multa. Com um pormenor agravante: seja qual for a dívida é o carro que fica penhorado e, pelos vistos, quem viaja nele fica automaticamente transformado em peão caso não possa, no momento, satisfazer a importância em dívida.

Mas há mais: o cidadão refém daquela gente de maus bofes e armada não tem como defender-se. Até pode já ter pago. Ou pode ter recorrido contra o que considera uma exigência fiscal sem razão. Nada feito: este é o novo jogo “a bolsa ou a vida” mesmo se menos sangrento.

Há muito que prego por aqui que os cidadãos portugueses não o são. São súbditos, no melhor dos casos e os seus direitos são apenas favores do Estado e da sua torpe máquina burocrática. Em questões fiscais o Estado parte sempre como ganhador e o contribuinte como perdedor. É dele o ónus da prova.

Isto acima dito só tem uma excepção: caso o contribuinte alegadamente faltoso seja pessoa de cabedais e grande devedor então tudo lhe corre de feição. Ninguém lhe pôe o nome nas bocas do mundo pois isso seria atentar contra a sua dignidade pessoal. Alguém alguma vez viu o alegado Rolls-Royce do senhor Berardo ser parado por polícias e fiscais por dívidas à Caixa, aos outros bancos e, indirectamente, aos cofres do Estado? Bem se vê que Valongo, ou Alfena ou os outros agora conhecidos cinco sítios onde esta vergonha se produziu estão longe do CCB!...

O Ministro não sabia. O Secretário de Estado, idem. A Directora Geral também não, coitadinha. Quem é que sabe? Quem é que manda no distrito do Porto? Ninguém põe o nome deste indivíduo ao sol? Ainda não foi demitido? Ainda não pôs o lugar à disposição? Ainda se passeia por aí, impante e satisfeito com a sua proeza?

Em que Estado, em que continente vivemos?

Alguns juristas entendem que as vítimas deveriam (e ganhariam) pôr um processo crime ao homenzinho que mandou fazer isto. Mal, muito mal. Isso custa dinheiro, demora imenso tempo e há sempre um recurso, dois recursos, um juiz que achará que os devedores são como as mulheres que apanham dos maridos. É o Estado, autor dos desmandos, que deve proceder à justa reparação do agravo. Para isso há lei e há constituição. Compete-lhe defender os direitos dos cidadãos, perdão dos súbditos. A ideia peregrina de conhecidos abundantemente os factos, até na TV!, com imagens repelentes, haver ainda um inquérito que outra vez irá incomodar as vítimas, fazê-las perder tempo e dinheiro é uma palhaçada absoluta.

Toda esta história é repelente, isto fede à distância e diz muito sobre a alegada democracia em que vivemos e que, pelos vistos, sufragamos.

....

ia este texto a todo o vapor quando surge a notícia de que o Director de Finanças do Porto apresentou a demissão que foi “prontamente aceite”. Quem quer apostar que daqui a poucos dias o homem terá outro cargo meritório em prémio de se ter oferecido como cordeiro sacrificial. É que assim cessa o escândalo e deixa-se de tentar perceber como é que esta, aliás continuada, actividade “fiscal” pode durar tanto tempo. E mais duraria se não fosse a presunçosa e imbecil chamada de meios de comunicação...

 

 

 

 

 

A polícia deteve dois autarcas, a querida esposa de um deles e um presidente do IPO. Para tal, a polícia, informa que há suspeitas graves, provas fortes que não permitem que estas quatro pessoas continuem a passear-se por aí. Convém dizer que esta operação surge na sequência de outras com os mesmos acusados ou pelo menos com alguns deles. Um senhor advogado veio declarar que o “Ministério Público está a promover uma investigação espectáculo”. Outro colega acrescenta que “é ilegal a investigação estar a ser conduzida pelo DIAP visto o âmbito geográfico do processo ser disperso por vários sítios”

O que surpreende (ou não, dados os costumes em voga no país) é o facto de o IPO e CM de Barcelos terem contratos e mais contratos com a empresa da dedicada esposa do presidente de Santo Tirso, a maioria deles por ajuste directo. E não valem assim tão pouco dinheiro.. Nos últimos tempos, os dois autarcas tem sido alvo de varias acusações e as investigações já levam mais de ano e meio. No caso do presidente de Santo Tirso 8 um dinossauro autárquico!) os jornais relevam o facto da criatura viajar que se farta para destinos de tal modo diversos que das duas uma Ou Santo Tirso tem uma projecção mundial desmesurada ou então o responsável camarário adora países exóticos.

Ontem numa televisão, alguém comentava que o excessivo tempo nos cargos acaba por ser indutor de más práticas e de uma originalíssima noção da responsabilidade (ou da irresponsabilidade). Por mim, tenho a ideia de que os mandatos autárquicos sejam eles quais forem e onde forem não devem ultrapassar os doze anos (e já é muito). E a direcção de organismos público, sobretudo os que gozam de autonomia financeira deveria cessar ao fim de duas legislaturas. E nunca deveria permitir-se que após o mandato, este se prolongue anos e anos em “regime de substituição”. Consta que há um directorgeral que está à espera de ser substituído há 1500 dias !

Sabe-se, aliás, que a CRESAP só serve quando aponta um candidato que satisfaça o senhor Ministro. Se não for da sua simpatia, nada feito. Prodígios da lei e, sobretudo, prodígios da sua livre interpretação.

Neste país não é só a ética que falta. É a civilidade e o respeito pelas instituições independentes.

O Banco de Portugal (agora irresponsavelmente ameaçado por um ministro arrogante que nem à Europa e ás suas instituições, mormente o BCE, dá ouvidos) não quer abrir mão dos nomes dos cavalheiros que tem dívidas brutais (e impagáveis) à Banca. Dos cavalheiros que, com cumplicidades várias, políticas, bancárias & outras andaram a fazer e a desfazer uma economia frágil mas a arredondar o bolso próprio, a família, os amigos e um farto quarteirão de homens de palha que lhes guardam os haveres mal adquiridos e lhes pagam o passadio requintado de que gozam. Quês, coitados, nada têm de seu: são pobres mais pobres que os do subsídio de reinserção social...

Nós, os poucos que se interessam, que leem jornais e seguem as televisões estrangeiras, vamos ouvindo e vendo banqueiros a ser presos nos Estados Unidos em meia dúzia de meses. Vemos grandes dirigentes industriais a serem presos no Japão ou n Europa, até em Espanha, Santo Deus!, até em Espanha onde banqueiros e políticos dão com os ossos na enxovia. Cá passeiam-se por aí e clamam inocências muitas. E os processos acumulam-se, crescem, engordam, entopem juízes e tribunais. Até quando, até quando? Por mim, já não acredito estar vivo e ver esta canalha toda na cadeia. E sou de uma família que dura muito ...

O Parlamento, em boa verdade, seguiu-lhe o exemplo. Aos súbditos, isto é a nós que vamos limpar essa dívida, compete-nos estar calados, atentos, veneradores e obrigados.

As eleições passaram e praticamente três em cada quatro portugueses não se deram ao trabalho de dizer água vai. O senhor Presidente da República acha que apesar de tudo se evitou o pior e que esta medonha ausência é inferior às suas espectativas. Sª Excelência contava com que percentagem? 75%? 80% ? 90% ? E acha-se Sª Ex.ª optimista não irritante?

Pelos vistos, toda a gente achou normal o absenteísmo eleitoral. Até os que perderam...

 

Há sempre um Portugal desconhecido à sua espera!

31
Mai19

Au bonheur des dames 485

d'oliveira

71_43_1_11.jpg

Onde votar?

mcr 30 de Maio 2019

A pergunta mais lógica, sobretudo em se tratando de votação para o Parlamento europeu, seria, “votar porquê?”.

Não sou um federalista europeu, muito menos um fanático da pátria, sequer da língua materna, mas algo muito fundo em mim, atira-me para o desconsolo deste meu sofrido país, desta gente rude e pobre, deste mar sempre ameaçador, desta terra sáfara que “eppure si muove”

Sou, já o disse um par largo de vezes, “um pobre homem” de Buarcos, como o meu querido Eça o era da Póvoa de Varzim (isto quando não se considerava um “peixe da ria de Aveiro” onde provavelmente passou os melhores tempos da sua infância desamparada).

Sei que dito desta maneira, a coisa soa a artificial. Nunca nos devemos socorrer de uma citação literária seja ela de Eça, de Homero de Dante de Cervantes ou de Rabelais, só para citar paixões imensas e antigas. Todavia, para onde quer que me vire, é Buarcos, a escola (oficial) dos professores Mourinha e Cachulo (que Deus os tenha em santa glória), a praia, os botes, as lanchas, as bateiras (e algum buque...), varadas na areia, as redes a secar, os meninos de tamancos, as mães com os seus aventais domingueiros, os pais em passos estugado a caminho da doca das traineiras com o foquim no braço, a ronca dos dias de nevoeiro, a espera ansiosa dos barcos de regresso que tentavam passar a barra fintando as ondas e a morte, o dia da chegada dos grandes lugres bacalhoeiros (Jesus, que alegria, aquilo era o fim de meses e meses nas águas frias de Saint John, homens metidos em dóris minúsculos a apanhar o peixe à linha, dentro de um espesso nevoeiro e um mar generoso mas frio. E era uma paga melhor, não digo a abundância, que isso não era para os de Buarcos mas apenas um pouco mais de dinheiro e um pouco menos de pobreza. Era a época em que iam lá casa pagar ao meu pai, as consultas, as visitas domiciliárias e a atenção, sobretudo a atenção que o médico lhes reservava. “Toma lá estas amostras, leva um mata borrão para o teu filho...”

Eu era o filho do senhor doutor, o que usava sapatos, aliás um valente par de botas de atanado que resistiam a tudo e durante algum tempo me foram úteis para me defender dos maiores que eu era o mais novo e “o inimigo de classe” mesmo se naquela terra mágica entre mar e serra não houvesse nenhum discípulo do senhor Marx. De barbas só os santos, especialmente o S Pedro, padroeiro de pescadores e mesmo esse menos importante que a Senhora da Boa Viagem a quem se encomendavam todos logo que punham pé num barco.

E não é de menos insistir na santa porque nas terras do litoral, em que os homens estão as mais das vezes ausentes, são as mulheres que governam, pagam as contas educam os filhos e vendem o peixe.

Mas não era disto que eu queria falar, ou então era, que isto de votar, de escolher, vem desse tempo em que se não votava, não se escolhia. Vem daí a recusa daquela vida dos outros, muito “safanão a tempo” apanhei logo que cheguei à idade da razão, alguma hospedagem gratuita em Caxias e afins, alguns medos, alguma cólera, uma pouca de esperança e amigos e companheiros até hoje. Votar significava muito, e essa aventura começou naquele dia de Outubro de 69 em que finalmente a “Oposição” foi às urnas. Não que esperássemos ganhar ( e não ganhámos, claro) mas apenas para nos contarmos mesmo se, por toda a ordem de razões, muitos não estivessem nos cadernos eleitorais. Fui fiscal na mesa eleitoral onde votei e isso, também isso, ficou registado pela polícia e, em seu tempo, constou de mais um processo (e foram 14 se não estou em erro) da pide/dgs contra este vosso envelhecido cronista.

Por isso nunca perco a ocasião de votar mesmo se, nos últimos tempos, as opções são o que se sabe. Voto, voto furioso, voto em branco se for o caso (e foi) mas a abstenção, os tais quase 70% não me contam no seu número.

Vim de Lisboa onde fui ver a família e sobretudo a minha Mãe, numa carreira para chegar antes do almoço à mesa de voto na escola para onde há trinta anos me empandeiraram. Como fui dos primeiros a registar-se como eleitor andei já por vários sítios todos longe do local onde moro. Desta feita, porém, quando me apresentei na “escola Maria Lamas” e na secção entre o fim dos Manuéis e o principio das Marias, dei com o nariz na porta. A senhora que me viu os cadernos eleitorais, surpreendida com a minha irritação e com a ameaça de não votar, atirou-me com as filas que em África, à torreira do sol, esperam horas e horas. Tive que lhe dizer que votava há mais anos dos que ela tinha de idade e que me irritava mais esta modificação (a 5ª ou a 6ª!!!) do meu local de voto. Lá me explicaram que agora vigorava o “critério da proximidade”, local de morada/ local de voto. Aí zanguei-me a sério pois que vizinhos meus recentes (de há 10, 15, 20 anos) já votavam aqui ao lado enquanto eu, graças a ser mais velho e mais pressuroso na inscrição como votante tinha que ir para cascos de rolha. Parece, no entanto, que desta feita, é para valer: irei votar a duzentos metros da minha casa, da casa onde vivo desde 1976! A CNE ou lá quem distribui o eleitores lá se lembrou deste critério muito mais justo e ajustado do que o do número do falecido cartão de eleitor, uma inutilidade (mesmo como precaução) que só chateava o seu portador.

E lá votei, em menos tempo do que demora esta crónica, mesmo se os meus projectos de vida e as minhas esperanças quanto às actividades do Parlamento Europeu sejam muito, mas muito, moderados.

Parece que, por cá, anda muito boa gente entusiasmada por não haver “populistas”, nacionalistas, direita extrema e não sei que mais. Sempre direi que de facto não aparecem mas também não aparecem sete em cada dez eleitores. Desinteresse? Não se sentem representados? Estão por tudo? Mais cedo ou mais tarde é daí que sairão os populistas, os nacionalistas , os que não conseguem sentir-se representados.

A noite eleitoral foi o que se sabe e o que se esperava. Uns cantam vitória, outros negam a derrota. Nos primeiros, aparece um cataplasma chamado Pedro Marques que andou todo o tempo ao colo do dr Costa. Nos perdedores bom teria sido que no PPD alguém se lembrasse da deputadagem que votou aquela borrada (e aquela burrice) sobre os professores. Até esse momento PPD e PS iam juntos e colados. Daí até hoje vão dez pontos de distância...

Depois há o PC. Esses nunca perdem. Aquilo de ontem foi uma pequena contrariedade dialéctica no caminho para a construção do socialismo e da sociedade sem classes sob a égide do proletariado. Ou o “proletariado” morreu ou foi todo para a praia ou é todo, ou quase, “lumpen” ou o imperialismo monopolista e capitalista estabeleceu uma ditadura férrea sobre os trabalhadores e as classes populares e as impediu de justamente mostrarem a luminosa via dos “amanhãs que cantam”. A culpa é seguramente dos outros, da Direita (qual? A do PS, a do PAN ou a do BE?) jamais da “análise concreta da situação concreta” como pretendia o camarada Ulianov que no século foi conhecido por Lenin.

Por uma vez sem exemplo o camarada Jerónimo não pode acusar a dr.ª Cristas ou o dr. Rio pois esses perderam redondamente, vítimas da sua parva ingenuidade e dos seus obtusos parlamentares que cegos pela desrazão entenderam juntar os seus preciosos votos aos da Esquerda radical mesmo quando esta e o PS (convém não esquecer a votação deste quanto às medidas de salvaguarda propostas pelos primeiros) derrotaram as suas condições. Ainda hoje estou por saber se o PS tinha perfeita consciência do seu voto e sobretudo dos efeitos dele. De todo modo, a minha convicção é que o PS agitou um trapo vermelho e o CDS e o PSD carregaram que nem touros alucinados. Em boa verdade, não eram touros mas apenas uns tristes patos marrecos).

Entretanto, acabado o futebol e ainda longe das férias, terá começado a campanha eleitoral. Costa faz contas e os seus cabos eleitorais já pedem uma maioria absoluta. O PPD tenta limitar os estragos enquanto que do CDS que se julgou maior do que a sombra nada transparece. Talvez esperem ter mais votos que o PAN ou o PC (eu nunca digo CDU porque os verdes daquela banda são fundamentalmente vermelhos por dentro. E úteis: votam sempre, sempre, ao lado do povo, ou daquilo que o PC entende por povo). O BE espera melhorar a sua representação parlamentar e, provavelmente, alguma razão lhe assiste: é mais atraente do que o PC, tem uma base de apoio jovem e educada e anda num extraordinário número de malabarismo circense tentando convencer o PS a chamá-lo a um acordo.  

Aqui para nós, como se ninguém nos ouvisse, este tipo de textos sobre a política imediata desenvolvida na pátria dos heróis do mar, nobre povo, nação valente (narizes de cera que serviram para protestar contra o Ultimato britânico e aliciar gente para o nascente partido republicano) deixa-me deprimido e com a desagradável sensação de parecer ainda mais velho do que na realidade sou, e já não sou, ahimé, nenhuma novidade. Todavia, persisto, contrariando o meu lado de velho do Restelo, a afirmar como no quadro maravilhoso de Rouault “demain sera beau disait le naufragé”.

*na estampa: “demain sera beau disait le naufragé”, gravura 11ª de Miserere (série de cerca de 50 gravuras publicada nos anos 20) (Georges Rouault , 1851-1958)

 

 

24
Mai19

au bonheur des dames 484

d'oliveira

AParodiaN108_24Fev1905_0003_branca_t0.jpg

Isto mais parece o pinhal da Azambuja

mcr 24.05.19

 

Eu nem sei se ainda existe o pinhal da Azambuja, palco de grandes ladroeiras, no século XIX a pontos de, por isso ficar (mal)afamado. Também não sei se a expressão ainda corre com o significado que na altura lhe era dado.

Portugal, este “torrãozinho de açúcar”, alegadamente inventado por Pinheiro Chagas, segundo Eça, goza da pouco recomendável fama de, em questões de História (Geral, Internacional ou Pátria) ser ligeiramente esquecido, para não dizer cruamente ignorante.

A coisa torna-se ainda mais evidente quando, citando sempre o autor do “Primo Basílio,” convém deitar um pesado pano de esquecimento sobre a nudez acusadora da realidade. Num país de brandos e pouco recomendáveis costumes, os gatunos andam à solta pelas ruas e pelos campos sem que a opinião do indigenato local se comova sobremaneira. E com eles, os espertalhaços, os aproveitadores, os que andam continuamente quase a pisar o risco coisa que eles (e os basbaques) confundem com agudeza de espírito e intligência

Agora, segundo o “Público”, uma senhora deputada da Beira Baixa locupletou-se com quase três centenas de milhares de euros de dinheiros europeus. Em duas páginas, lê-se esta saga extraordinária que narra como empreendimentos já a funcionar tiveram ajudas para projectos onde o nome da deputada aparecia como responsável técnica. Aliás, enquanto parlamentar, a deputada no registo de interesses afirmava isso mesmo. Só muito mais tarde é que veio a propor um novo registo onde, imagine-se!, aparecia desvinculada da empresa desde antes da data do primeiro registo. Tudo isto, acrescente-se, dentro de uma história maior e menos brilhante de compadrios no distrito com investigações policiais a várias empresas. No caso em apreço há ainda a nota extraordinária de de a referida criatura ser alta responsável política local e “especialista” na atribuição de verbas para empreendimentos com fins turísticos. Lá que é especialista não há úvida. Sabe-a toda, a senhora deputada. Conhece, ao que se vê, todos os interstícios da lei, todos os truques e todos os atalhos.

Resta saber o fim desta história que no meio do turbilhão das eleições e das férias que se aproximam pode, até, ficar “em águas de bacalhau”. A ética, como se sabe, vai para férias na estação calmosa. E, às vezes, não regressa...

O segundo caso desta crónica de costumes surpreendentes no reino da Lusitânia de Baixo, é o de um artista (um “artista português”) dedicado às artes fotográficas. Vejamos: um cavalheiro de Torres Vedras é um apaixonado pela fotografia paixão que só é sobrelevada pelo amor ao torrão natal. Vai daí decidiu consagrar o seu robusto talento a imortalizar fotograficamente o Carnaval de Torres que, como é amplamente sabido e reconhecido, só pede meças aos do Rio de Janeiro, de Veneza e de New Orleans.

O continuador de Relvas, Alvão ou Emílio Biel, possuído pelo mais lídimo amor à terra onde nasceu e vive, fotografou abundantemente os festejos que fazem a glória da sua cidade e despertam a inveja das vizinhas e concorrentes.

Ao fim de anos de película impressionada e gasta, eis que ao artista ocorreu a ideia de publicar um livro onde constassem não apenas a pesquisa etnográfica mas sobretudo a beleza e a plasticidade das suas fotografias. Vai daí, produziu um volume com 380 (trezentos e oitenta) peças fotográficas.

Ora, sem dúvida atentos à genialidade da obra, os cavalheiros da Câmara Municipal, melhor dizendo da empresa municipal “Promotorres” (responsável pela organização do famosíssimo carnaval indígena,) entenderam dever comprar por 9433,96 euros quinhentos exemplares do livro para “o utilizar como oferta em situações de representação ou agradecimentos”(sic).

E para que não houvesse dúvidas quanto à legalidade do acto, entenderam não comprar o livro diretamente ao autor mas sim a um terceiro, no caso a Livraria União onde a obra estava à consignação. Esclareça-se que esta consignação tinha o belo volume de 500 exemplares (metade da edição). Eu, comprador compulsivo de livros, ex sócio de uma extinta editora, de duas livrarias entretanto finadas, nunca pensei que uma consignação ultrapassasse nos casos mais simpáticos as duas, três cinco dezenas de exemplares.

E, também com sessenta e muitos anos de comprador, nunca entendi como é que se vai comprar uma obra a um intermediário e não ao editor. É que entre editor, distribuidor e vendedor final (livreiro) o livro sai pelo dobro do preço, como é natural.

Tendo em linha de conta o preço anunciado da edição (10500 euros) metade dele seria 5.250 ou seja a Promotorres pouparia (a ela e aos cofres municipais) 4100, 96 euros. É dinheiro!

Poderemos sempre pensar que, ao pagar esta forte diferença a Promotorres estava a ajudar o comércio local, no caso a já citada livraria União feliz consignatária da obra de arte em causa. Sempre era um prémio a quem tão ousadamente aceita uma consignação tão extraordinária.

Simplesmente, há mais dois ou três pormenores nesta história mecenática torriense e carnavalesca.

O celebrado fotografo (que “cultiva desde jovem o gosto pela fotografia, expondo de quando em quando e é um apaixonado pela arte contemporânea” (sic)) é actualmente Secretário de Estado. E antes disso foi presidente da câmara municipal durante dez anos (2004 a a 2015).

Claro que o artista pensou maduramente na hipótese de existir alguma incompatibilidade e por isso mesmo “certificou-se de que o cargo que exerce não o impedia de colocar à venda em local de comércio regular” (sic) o produto da sua veia artística. E ao fazê-lo sempre pode afirmar que foi ou será “tributado pelo produto das vendas em regime próprio ou em sede de IRS” (sic, de novo, Ufa!)

Não oso questionar o génio do fotografo e amador de arte contemporânea (qual?) e que expões de quando em quando (onde?) mas também não consigo deixar de perguntar se nesta compra miraculosa não intervieram factores menos artísticos tais quais o peso político e institucional do artista e o seu passado próximo na direcção da autarquia.

Fosse eu criatura de torva má fé, teria o arrojo de resmungar que a mediação da livraria não passava de um truque e, ao mesmo tempo, de algum favor. E que o entusiasmo da Promotorres teria um sabor politiqueiro pronunciado. Mas sendo eu, mesmo velho e resmungão, criatura de pios hábitos incapaz de ver a maldade onde ela não existe, forçoso é concluir que tudo isto se passou da melhor maneira, no melhor dos mundos e sempre, sempre, motivado pela causa maior da felicidade dos cidadãos torreenses e do país em geral. Tout est bien quando finit bien\1

(ou como diria o imortal Beru, do não menos imortal San Antonio/ Frederic Dard: du “lard or du cochon”.

(se os leitores se interessaram por este último parágrafo sempre informarei que cito um dos mais extraordinários criadores da língua francesa, objeto de estudo e de teses universitárias e autor de uma boa centena de livros vagamente policiais e fortemente humorísticos. Assinou, fundamentalmente na “série noire” sob o nome da San Antonio e menos de Frédéric Dard. Mereceu ter um “dictionnaire amoureux” e ser alvo de números monográficos de revistas como “Le Magazine Littéraire” um must absoluto que descobri por via de um amigo sardo e bem disposto numa Berlin longínqua e murada no ano da graça de 1970. Devo-lhe mais esta devoção e uma receita imbatível de spaghetti alla bolognese. Espero que esteja vivo como merece, de boa saúde sempre curioso de línguas e diversas literaturas.

Mesmo correndo – como sempre! – o risco de me alongar, devo contar que o conheci no primeiro dia do Grundstuffe 1 do Goethe Institut. E à primeira hora. Alguém ao ver deambular a nossa professora de alemão pela sala, exclamou “Che bel culo!” concordei em voz baixa e ficamos logo amigos. Nem podia ser de outra maneira!)