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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Abr18

au bonheur des dames 449

d'oliveira

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Outra vez a Câmara Municipal do Porto e a zona residencial do “Foco”

2ª carta ao Senhor Presidente da Câmara

por mcr munícipe com os impostos em dia aos 18 de Abril de 2018

Ex.º Senhor

Vivo na rª Eugénio de Castro ou seja na rua onde se implantam 7 grandes prédios da zona acima descrita. 90% destes prédios são de habitação e por alto albergarão trezentos e cinquenta agregados familiares em apartamentos de tipologias diversas mas todos destinados ao que se costuma chamar classe média alta. Todos estes prédios estão dotados de garagens colectivas que poderão albergar 500 ou 600 viaturas. Todavia, os cerca de vinte estabelecimentos comerciais e outros tantos escritórios inseridos nesta rua e o facto das famílias residentes dispor quase sempre de dois ou mais automóveis torna as condições o estacionamento mais complicado mesmo se na zona poente do bairro haja estacionamento para mais umas dezenas de veículos.

Na rua já citada mais propriamente na parte onde estão inseridas três torres uma de 18, e duas de 10 andares, foi desde sempre proibido estacionar. È verdade que moradores e, sobretudo, frequentadores da zona, desrespeitavam alegremente as placas de proibição a todas as horas do dia e mesmo de noite, dado que sempre houve dois ou mais bares muito concorridos.

Desde empre mas principalmente nos últimos tempos, coincidentes com os mandatos de V.ª Ex.ª a polícia municipal fazia estrondosas incursões no local, multava com fartura e rebocava todos os carros que podia. Até a minha mulher que por uma vez teve preguiça de meter o carro na garagem foi obrigada a ir busca-lo ao depósito municipal. Desembolsando uma quantia respeitável como se sabe.

Porém, de há um par de semanas a esta parte, tudo mudou. A rua Eugénio de Castro e as vizinhas foram declaradas ruas com estacionamento condicionado. Se é verdade que nas restantes sempre se estacionou sem provocar confusões no trânsito, na nossa rua mudou completamente o paradigma. Não era permitido estacionar por a municipalidade e a Junta de Freguesia entenderem que isso afectava a circulação. No entanto, pagando, deixa esta de ser afectada!

Eu não consigo distinguir qual a ideia que preside a bondade do estacionamento pago numa rua onde ele proibido. Entendeu a Câmara que ganharia mais cobrando cada hora ou cada minuto entre as oito e as vinte do que mandando a enérgica polícia municipal em expedições punitivas cada três ou quatro dias?

Será que o acto de pagar para estacionar diminui os inconvenientes do estacionamento, porventura os transforma em conveniências generosas para todos os que aqui vivem ou por aqui tem de passar?

Estarão os cofres municipais de tal modo dessangrados e exaustos que a receita que aqui se gerará os salvará da catástrofe iminente que se avizinha?

Note, V.ª Ex.ª que esta pergunta não representa nenhum interesse escondido meu. Tenho garagem para os carros que usamos e até me preparo para, comprar uma avença de morador para, no caso de ter visitas, albergar estas a salvo dos homenzinhos que decerto começarão a rondar a zona, de talão em punho.

Este nosso país tem no seu ADN a mania das taxas, das multas, dos impostos escondidos ao mesmo tempo que, do lado de quem recebe, não se vislumbram medidas compensatórias, melhor serviço público ou esforços de qualquer ordem para aliviar a vida dos cidadãos. Ainda sou do tempo da licença de isqueiro que nunca percebi se servia para proteger a industria fosforeira, atacar o feio vício de fumar, ou simplesmente aqueloutra missão especial do Estado que consiste em ordenhar a carteira dos cidadãos e “chatear o indígena”.

Inclino-me para esta dupla e derradeira missão. A gentinha que se governa não merece da parte de quem manda senão mão forte e disciplinadora se possível acompanhada de tributação a esmo.

Será este o caso?

De V.ª Ex.ª votante e obrigado

mcr

13
Abr18

Au bonheur des dames 448

d'oliveira

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Tentar perceber

 

mcr 13 Abril 2018

Os portugueses, ou alguns portugueses, nunca deixaram de sentir o Brasil como algo seu.

E não por este ter sido, durante mais de dois séculos, o destino natural e quase obrigatório da emigração portuguesa. Não há português que não conte com parentela brasileira pelo menos em segunda ou terceira geração. Não é só o facto de usarmos a mesma língua (ou algo parecido com isso: ao falar do português do Brasil recordo sempre a frase do inglês que ao referir-se aos Estados Unidos afirmava que tudo era quase igual excepto a língua).

Eu, mesmo, tenho um pai nascido no Rio de Janeiro e descobri através deste blog uma série de primos distantes pelo lado de um trisavô alemão, médico emigrado no século XIX para o Rio Grande do Sul. Até me lembro da primeira frase da mensagem do primo Sérgio Heinzelmann: “Ué que é que você é a Vôvô? - Trineto caro Sérgio enquanto V é apenas bisneto!...” E durante anos trocámos correspondência vária até ele ter (suponho) morrido.

O meu pai filho de uma Heinzelmann nunca esqueceu os seus primeiros anos na “fazenda” da bisavó Ubalda que ele visitava indo de Portugal até ao Rio e daí até Petrópolis, onde a acaudalada e poderosa família materna se estabelecia durante o Verão. Quando, muito pequeno, ficou órfão da avó Dora, houve um acordo entre o meu avô e a sogra: o menino iria de longe em longe ao Brasil visitar, avó, tias e primos e primas. Depois da morte da avó, o ciclo interrompeu-se e só lá voltou cinquenta anos depois. Entretanto, as primas vieram a Portugal várias vezes e a relação familiar só acabou quando foram morrendo.

Nasceram, também no Brasil, um trisavô materno e outro paterno. Como se, desde o século XVIII, os meus familiares se tivessem entretido a cruzar o Atlântico para estudar em Coimbra, para casar, para se estabelecerem noutra terra que não a natal.

Percebo, portanto, esta quase mística da grande família luso brasileira. Por meu lado, sempre me interessei pelo Brasil via literatura (e o cinema) e durante os breves anos que vivi em Moçambique não só lia revistas de “quadrinhos” brasileiras (Gibi, Guri) mas também consumia uma revista mais adulta, “O Cruzeiro”, que me forneceu as primeiras pistas para a política brasileira. Lembro-me perfeitamente (e lá voltaremos) do fim do governo de Getúlio Vargas e do seu suicídio, dos temíveis artigos de David Nasser e Carlos Lacerda. E de Vão Gogo, irresistível humorista de que tenho dois ou três livros notabilíssimos.

Nos meus anos de Universidade segui apaixonadamente todas as peripécias da política brasileira desde o consulado de Café Filho até à aventura de Jânio Quadros e de João Goulart. Depois vieram os generais e foi o que se viu. Curiosamente, um dos livros mais divertidos que li e conservo é da autoria de um irmão do general João Figueiredo, de seu nome Guilherme. O livro em causa é “Tratado Geral dos Chatos” e ainda hoje se lê com um sorriso.

Estou, pois, à vontade para analisar este último e triste episódio da vida política brasileira. Como muitos da minha geração, assisti interessado e comovido aos primórdios de Luís Inácio da Silva, mais tarde Lula. Em boa verdade, simpatizei mais com Fernando Henrique Cardoso, de longe o melhor presidente que o Brasil teve nos últimos cinquenta anos. É Cardoso quem inicia a política económica que iria tentar fazer o Brasil sair do subdesenvolvimento. Foi dele a ideia do real e assumpção de uma série de medidas de política social e ambiental. Internacionalmente, foi (e é) considerado um líder de primeira linha e partilhou com Jimmy Carter, Desmond Tutu ou Nelson Mandela.

Tenho assistido a este encalorado debate sobre Lula e, espanto dos espantos, verifico que quanto mais cultos deveriam ser os intervenientes menos parecem saber (ou explicar cá para “fora”) as reais condições do processo, melhor dizendo dos processos que envolvem o ex-presidente do Brasil.

Comecemos pelas questões processuais. A legislação brasileira, como, aliás muitas outras, integra a delação premiada. Com isso pretende-se tornar o processo mais expedito, acelerar a investigação criminal e dividir os réus. Há, até, num cada vez maior número de países, a tentação de criar mecanismos idênticos ou semelhantes sobretudo para combater a crescente e cada vez mais sofisticada corrupção. Há mesmo exemplos encapotados do recurso a este expediente para a identificação de contas ocultas em paraísos fiscais. Só não o vê quem não quer ou quem acha isso inconveniente para os seus negócios privados.

A segunda questão prende-se com o começo do cumprimento da pena de prisão decretada pela 1ª ou 2ª Instância. Nos Estados Unidos, a pena começa a ser cumprida imediatamente mesmo se há recurso dela para um tribunal superior. No Brasil, o Supremo Tribunal criou, há já algum tempo, jurisprudência no sentido de acelerar o cumprimento da pena no caso de a 1ª e a 2ª Instâncias o terem determinado.

Fico estarrecido com um senhor professor (catedrático afirma ele e não serei eu quem o contradiga mesmo se isso me espanta e me dê a entender como a universidade se degradou) que veio a público dizer exactamente o contrário. Não vou perder tempo com um conhecido comentador coimbrão que no seu profundo amor a Lula vem falar de conspiração e de perseguição política. Como se a operação Lava Jacto não tivesse no rol de acusados, processados e detidos, um número bem mais elevado de personagens conotadas com o poder financeiro e com a Direita política e/ou social.

A terceira questão é ainda mais curiosa: ao que parece ninguém quer recordar o “Mensalão”. Num pais em que o Presidente da República detém poderes extensíssimos, aquela aventura apenas caiu em cima de José Dirceu, fiel entre os fieis de Lula. Este no unânime dizer dos analistas, “passou entre os pingos de chuva”, mesmo se esta fosse torrencial. Começou aí a desgraça do ex-presidente que nunca conseguiu explicar satisfatoriamente como é que o seu ex-braço direito organizara a captação de fundos gigantescos para o PT, para comprar deputados de outras formações, para todos os seus próximos apoiantes.

A quarta questão tem a ver com o facto de, no Brasil, o juiz de instrução (ao contrário do que se passa entre nós) poder vir a ser o juiz do processo. Podemos discordar (eu discordo) mas no Brasil a lei é exactamente essa e, até à data, ninguém por cá se tinha lembrado de a criticar...

A quinta questão radica nas acusações ao juiz Sérgio Moro. Durante anos, enquanto ele ia prendendo capitalistas e financeiros, ligados ao anterior establishment, Moro foi um herói. Lá e cá. Junto dos militantes do PT e de muita gente portuguesa. Moro era a versão brasileira dos juízes italianos das “mãos limpas”, ou dos émulos espanhóis de Garzón.

Agora é a bruxa má, a madrasta de Lula Branca de Neve. Ziguezagues da História com tempero ideológico em excesso...

Todavia, foi Moro quem exculpou o senhor Vaccari, tesoureiro do PT justamente no processo Lava Jacto. Ou seja, Moro desempenha nesta tragicomédia brasileira, neste samba de enredo, dois papéis: o de dr Jekyll e o de mr. Hide. Em que ficamos? Mau nos dias pares, bom nos ímpares e descanso ao domingo?

 

Deixemos, porém estes enfadonhos pormenores e vejamos a situação tal qual parece passar-se Brasil. É, ou foi, o PT uma organização revolucionária? Teve ou não uma governação popular e de conquista de direitos para as massas mais desfavorecidas da população?

À 1ª questão responderia Não e à 2ª Sim, absolutamente. No início da sua carreira de governante, Lula foi claramente um dirigente democrata e “moderado”, sobretudo se o compararmos com alguns outros líderes sul americanos. Foi populista? De certo modo mas isso não pode, sem mais, ser apontado como pecado mortal numa época em que em todas as geografias o populismo está de moda, seja com o sr Orban, com o inenarrável Nicolás Maduro (outro herói de alguma, escassa “Esquerda” caviar lusitana que amando sofregamente o povo recruta, porém, os seus militantes e os seus votos nas classes urbanas educadas. Até o Sr. Presidente da República passeia pelo país babado a sua bondosa figura, o seu resplandecente afecto e é imortalizado diariamente em centenas (que digo? Em milhares!) de selfies.

Costuma dizer-se que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. A coisa é visível por todo o lado desde a Venezuela à Europa dita oriental (nem sequer referindo a Rússia do novo Czar Putin, acrisolado defensor da russificação de várias partes dos países vizinhos e “soberanos” (Putin nunca esqueceu a famosa teoria da “soberania limitada”, cara ao poder soviético e aos seus epígonos portugueses).

O PT começou muito informalmente mas cedo se integrou no mundo surpreendente da política brasileira. Dotou-se de um aparelho e os seus dirigentes depressa desenvolveram os mesmos apetites dos congéneres dos partidos tradicionais. Recordo, apenas e em contraponto, a solitária mas corajosa figura de Marina Silva que depressa se desiludiu e tentou fazer carreira aparte. Bom seria que os eleitores se lembrassem dela, agora.

(descendente de negros por um dos lados, MS é um dos raros exemplos de um Brasil plurirracial que, entretanto, expulsa os não brancos para o ghetto invisível mas real das dos subúrbios favelados, habitat das classes baixas e domínio dos grandes traficantes e dos “bicheiros”. Num país com uma população maioritariamente não branca, são os brancos quem leva “a voz cantante” como dizem os nossos vizinhos. Procurem, fora da música e do desporto, os negros e mulatos relevantes. Ainda há pouco, foi notícia a chegada do primeiro juiz negro ao Supremo Tribunal. Vejam, se quiserem, o plantel dirigente do PT para não ir sequer aos outros partidos que, provavelmente, ainda são mais brancos).

Um ignorante comentador facebookiano teve mesmo a audácia de comparar Lula com Obama, criatura que ele, num vero delírio racista, considera um espantalho. Ou seja o Brasil dos negros invisíveis (cfr Ralph Ellison) é , moral e eticamente, muito superior ao país que já elegeu e reelegeu um presidente negro, que mantem um sólido grupo de senadores e congressistas negros, que tem um grande número de políticos estaduais e municipais negros e “latinos” que ostenta uma miríade de grandes intelectuais negros que não se confinam à música e ao desporto. Com amigos destes, Lula não precisa de inimigos...

 

Pessoalmente, dói-me a queda de um mito e de alguém que vi começar na luta desproporcional contra a ditadura dos generais. Desejaria que se provasse a sua inocência. Por razões várias, pessoais, abomino a prisão seja de quem for. Sei, de modo intensamente vivido e sofrido, o que isso representa na vida de alguém. Todavia, a simpatia não pode altera aquilo a que Danton chamou “a áspera realidade”.

E, por cá, não há, que se veja, quem se preocupe com esse ligeiro pormenor. Lula merece mais, muito mais, que estes seus defensores que o confundem com Maduro ou, mais simpaticamente, com o Chico Chicão da velha telenovela.

E já agora: não mitifiquem seja quem for, e Lula muito menos mesmo se ele vos convida para tal (“já não sou um homem mas uma ideia”!) No cortejo de horrores que nos deixou o século passado, o que viu nascer Lula, abundaram os mitos e soçobrou a ideia simples e honrada de humanidade.

* por razões que se prendem com a sua paisagem, com a fauna e com a flora, o Brasil foi alvo predilecto de grandes ilustradores, a começar pelos portugueses que lá fizeram grandes expedições e nos deixram obras sumptuosas e de grande rigor científico (por todos o dr Alexandre rodrigues Ferreira).todavia a ilustração de hoje é obra do francês Debrée que retratou o Brasil já no século XIX. A sua extensa obra é hoje pertença de grandes galerias e/ou colecções particulares. Quem porfiar talvez encontre em alfarrabistas antologias dele. 

 

11
Abr18

Estes dias que passam 369

d'oliveira

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Em memória de Manuel da Graça Patrício Curado

por mcr (10/11, abril de 2018)

Enquanto filho segundo, a família queria-o padre. Era assim no Alentejo, mais especificamente em Nisa. Lavradores com algumas posses Mariana e Francisco Curado destinaram Joaquim o mais velho a doutor e a herdeiro da maioria dos bens familiares. Manuel o benjamim seria padre evitando assim uma descendência que concorreria na repartição da herança com a do irmão mais velho.

Manuel que ainda fez grande parte do seminário não esteve pelos ajustes. Aos 18 anos fugiu para Lisboa e alistou-se no então chamado Exército Colonial. Para Angola e depressa, terá pensado. Nessas terras foi soldado de todas as guerras grandes e pequenas. Graças à sua inteligência, à sua tenacidade e à sua coragem nunca desmentida, foi sendo sucessivamente promovido até terminar a carreira como capitão, o máximo que poderia atingir. Pelo meio ficaram a Grande Guerra, várias campanhas de “pacificação” sempre no Sul, um casamento, sete filhos e a participação na “revolução” contra um governador geral autoritário e tonto. A sua terceira filha, minha mãe, recorda a saída da companhia que ele comandava em direcção a Luanda para secundar a decisão do Chefe de Estado Maior, coronel Genipro de Almeida, que abertamente desafiou o Governador Filomeno da Câmara, fugido para Benguela deixando nas mãos do seu chefe de gabinete, tenente Morais Sarmento, uma série de papéis assinados que convenientemente preenchidos demitiriam, a pretexto de pertença à Maçonaria (a Kuribeka), meio mundo na colónia. Sarmento, cercado na própria casa terá sido abatido por “algum soldado negro”, nervoso e pouco habituado ao português... (assim reza a história “oficial”)

É provável que a honrosa e honrada carreira militar de Manuel Curado tivesse sido prejudicada por este aventura político-militar que, se conseguiu afastar Filomeno, também não poupou Genipro e os militares seus apoiantes.    

De todo o modo, não é de meu avô que pretendo falar mas sim da Guerra, a grande, a primeira, em que ele participou como combatente no extremo sul de Angola em confronto aberto com as treinadas tropas alemãs do então Sudoeste Africano (Namíbia, hoje).

Portugal logo no início da guerra viu-se envolvido no conflito com a Alemanha quer no Sul de Angola, quer no Norte de Moçambique. No primeiro dos casos não se podendo falar de uma campanha especialmente brilhante sempre é verdade que a “frente” nunca saiu da zona fronteiriça. Em Moçambique a guerra foi um desastre. Apesar do elevado número de expedicionários portugueses, as tropas alemãs do extraordinário general Paul von Lettow-Vorbeck (que terá derrotado 17 generais e um marechal sem nunca ter sido vencido), fizeram o que quiseram. Os portugueses referem piedosamente a “vitória” de Nevala (na realidade ocupada depois de abandonada) e escondem as incursões profundíssimas do alemão que chegou a ameaçar as proximidades de Quelimane depois de se passear pelos territórios de Cabo Delgado, Moçambique e Niassa sem grandes incómodos. Esta desastrada campanha deve-se mais à inadequação do treino militar, ao quase completo desconhecimento do território onde decorriam as operações (de Kionga no litoral até ao Niassa seguindo todo o percurso do Rovuma), a uma intendência incapaz e a um apoio médico sanitário absolutamente medíocre.

Convém salientar que do outro lado von Lettow contava apenas com escassos milhares de alemães e nunca mais de 12.000 askaris. E com uma organização ímpar apoiada lealmente pelas populações branca (escassa) e negra do Tanganika (território atacado a Norte e pelo mar por tropas e marinha inglesas, superiores em número e esmagadoras no mar).

De todo o modo, a guerra em África correspondia um desígnio nacional, sentido por todos (a defesa do Império Colonial cuja existência estaria ameaçada por alegados conluios anglo-germânicos de partilha dos “nossos” territórios.

Ora, e é aqui que bate o ponto, tal não sucedeu com a tola, funesta e desastrosa intervenção no cenário de guerra europeu.

A intervenção portuguesa na Flandres foi desejada pela “República”, recente e mal vista na Europa. Os “guerristas” viam na participação nacional um meio de serem reconhecidos pelos países europeus e, depois de uma pertinaz campanha, conseguiram entrar no conflito e enviar tropas para a frente europeia.

Ora o CEP (a força expedicionária portuguesa, dotada de duas divisões de vinte mil homens cada) foi formado à pressa, em Tancos – o “milagre de Tancos” – e partiu para o norte da França em barcos ingleses. Ali chegadas, houve que preparar, de novo, as tropas   portuguesas para o combate, dar-lhes um verdadeiro treino “à inglesa” por instrutores ingleses, fardá-las (!), à inglesa, armá-las (!!) à inglesa e enquadrá-las na dependência inglesa. Até a comida foi, nos primeiros meses, inglesa. Aos soldados portugueses, quase todos de origem rural e na maioria analfabetos, nunca foi verdadeiramente explicada a razão de terem sido trazidos para uma terra que não era deles, que nada lhes dizia, cuja língua ignoravam e cujo clima era inclemente.

Também não estavam preparados para a “guerra industrial” e, desgraçadamente, foi-lhes atribuída uma zona de frente pantanosa que inundava as precárias trincheiras que conseguiam erguer no intervalo dos bombardeamentos. A intendência não funcionava ou funcionava mal e, a partir do primeiro ano, (culpa de Sidónio mas também, e muito, do governo que o antecedeu. Basta dizer que para levar e trazer soldados de e para Portugal havia que contar exclusivamente com a marinha britânica!...) deixou de haver “roulement” das tropas. É nesse cenário de falta de quase tudo, de mau comando, fraca oficialidade, dificuldade de transmissões que se inscreve o desastre de La Lys. Ainda por cima, o violento ataque alemão ocorreu em vésperas de mudança de posições da topa na frente que deveria ser rendida e deslocar-se para a retaguarda no dia seguinte ao do ataque de 9 de Abril. Além do cansaço, da desmotivação, das dramáticas condições das trincheiras, havia a notícia da saída daquela posição. Provavelmente, à vigilância constante sucedera algum alívio e menor precaução.

Numa palavra, os alemães destroçaram, esmagaram, aniquilaram a Divisão portuguesa. Entre mortos, feridos e prisioneiros ficou ali quase toda a gente mesmo que se saiba que alguns escassos milhares de homens recuaram precipitadamente, debandaram, fugiram varridos pelo fogo de artilharia, pelo gás, pela ferocidade dos atacantes. A frente portuguesa desapareceu e o resto da tropa portuguesa que estava de reserva nunca mais foi operacional. A guerra acabaria alguns meses depois, os mais de sete mil (!!!) prisioneiros portugueses regressaram dos campos de internamento, boa parte dos oficiais voltou ao país com o forte (e compreensível) desejo de ajustar contas com a “República” ou pelo menos com os “democráticos” que tinham exercido sem glória nem talento o papel de “falcões” quando não sabiam sequer ser frangões.

La Lys, pese embora o soldado Milhões e mais um pequeno punhado de corajosos, deveria ser lembrada apenas como um dia de luto pesado não tanto por Portugal mas pela incúria, incapacidade, desfaçatez do Poder da altura.

Cem anos depois, os senhores Presidente da República e Primeiro Ministro foram juntos, de mãozinha dada, celebrar esse trágico momento da nossa História. E fizeram-no, pelos vistos, ufanos, como se de uma vitória se tratasse. Como se, nas palavras do Senhor Presidente, se estivesse a comemorar uma vitória que só não foi a mais trágica derrota depois de Alcácer Quibir, porque os dois flancos ingleses travaram, com custo mas determinação e muitos mortos, o ataque das divisões alemãs salvando possivelmente as restantes tropas portuguesas, mais à retaguarda, de um total aniquilamento.

Entre um João Chagas (pelo menos brilhante escritor), guerrista assanhado e duramente criticado por Aquilino Ribeiro (“É a guerra”, Bertrand) e Marcelo Rebelo de Sousa começam a despontar semelhanças que não engrandecem o primeiro nem melhoram o tíbio e patrioteiro discurso do segundo.

Os morto de La Lys, do sul angolano e do norte de Moçambique mereciam mais, muito mais e melhor. Pelo menos, respeito e verdade. Mas isso é tarefa para Santo António que sabia pregar aos peixes. Por cá prefere-se pregar aos papalvos que é como somos tomados.

 

05
Abr18

Au bonheur des dames 447

d'oliveira

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Pagar mas receber

(carta ao Sr. Presidente da Câmara do Porto)

 

por mcr 4/5 de Abril de 2018

 

Ex.º Sr.

Entendeu a Câmara, a que V.E. preside, criar “zonas de estacionamento de duração limitada” no “FOCO” (ou Parque Residencial da Boavista seu verdadeiro nome mesmo se caído em desuso).

Para esclarecer algum leitor que não viva no Porto, trata-se de um conhecido bairro da cidade, situado a meio da Avenida da Boavista e constituído por cerca de doze edifícios onde existirão entre 600 a 800 apartamentos de dimensão grande e média. Há uma Igreja, uma galeria comercial com duas dúzias de estabelecimentos, três pastelarias, um pequeno supermercado, uma agência bancária e dezenas de escritórios. Existe também um hotel ,neste momento desactivado devido à inépcia e ao desvario do antigo BES, uma piscina, um “clube residencial”, um supermercado (todos encerrados) e um bonito jardim no centro. Este conjunto, edificado nos anos 70 está em vias de ser classificado e andou nas bocas do mundo por via de um tresloucado projecto de implantar numa empena do prédio de entrada da rª de Azevedo Coutinho uma criação do “artista de rua” Vihls. Quem aqui vive só costuma sair em caixão pois não há na cidade construção tão boa e, sobretudo, com dimensões tão generosas. Foi obra de reputados arquitectos e ainda hoje é motivo de estudo e visita para alunos de Arquitectura. É um bairro de classe média/alta e provavelmente por isso a CMP (seja qual for o partido que a ocupa maioritariamente) “esquece-se” frequentemente de tratar este conjunto habitacional como trata muitos outros. Basta verificar o estado de pavimentação dos arruamentos e a lepra que invadiu vários passeios, esburacados com pedras de calçada em falta prometendo aos menos atentos valentes quedas. Eu mesmo já me estendi ao comprido num dia invernoso em que, desprevenido e friorento, avançava rapidamente e de mãos nos bolsos. Pimba, zás trás! Beijei a calçada em falha como se fosse o Papa em viajem a um país ignoto.

Volta e meia, a solícita e operosa Polícia Municipal faz uma razia na zona e multa ou reboca viaturas estacionadas mormente nas ruas Eugénio de Castro e Afonso Lopes Vieira. Razões obscuras (ou talvez não...) evitam tropelias policiais idênticas aos estacionamentos absolutamente caóticos da rua onde está situada uma coisa qualquer relacionada com “desporto” e “futebol” onde a regra é a dupla fila. Também nunca se vê um cavalheiro da polícia camarária nas horas em que pais solícitos e mães amoráveis vêm buscar as crias à saída das duas escolas secundarias existentes na rª Primeiro de Janeiro. É um sinal de carinho e respeito pela educação ou simplesmente uma cautela para não ofender progenitores eventualmente famosos ou/e poderosos.

Pessoalmente, disponho de dois espaços na garagem colectiva do meu prédio pelo que estou relativamente descansado. A coisa muda de figura quando tenho visitas ou (como é o caso) algum vizinho com família mais numerosa excede a capacidade de estacionamento da sua fracção. Nessas eventualidades, corre-se o risco de ver a zelosa polícia municipal a operar.

(convém acentuar que estas surtidas ocorrem apenas de dia e com bom tempo. Compreende-se que os senhores guardas se queiram defender da chuva ou de umclima particularmente agreste. É sabido que o crime ou a mera contravenção só acontecem em dias suaves e primaveris.)

Como já se disse acima, há neste conjunto de prédios lojas e escritórios, igreja, um banco (e já houve um cinema e um supermercado bem como uma piscina) que obviamente atraem visitantes, compradores, devotos, para não falar do caso de funerais casamentos e baptizados que, como é presumíve,l atraem pequenas (ou grandes) multidões. Em, zona “rica” há sempre mais freguesia para este género de eventos.

Recordo, sem saudade, o imortal slogan “os ricos que paguem a crise” que encheu paredes de boa parte do país apelando à luta de classes mesmo se os seus propagandistas não tivessem especial noção do que aquilo quereria dizer. Marx é de leitura dificultosa e qualquer “sebenta” progressista, a começar pela da senhora Marta Heineker substitui vantajosamente as elucubrações do velho Karl.

A digna Vereação a que V.ª Ex.ª preside deve ser herdeira desse momento heroico da nossa vida democrática ou, pelo menos, do que se entende como tal.

Assim, nunca a CMP se preocupou em deitar umas pazadas de alcatrão nos arruamentos que estão como foram concebidos pela empresa construtora do “Foco”. Muito duraram eles, sinal de boa e sólida construção!

Agora o piso está gasto, rapado, com fracturas e falhas. Nele, de novo e moderno, só os risquinhos amarelos que proíbem o estacionamento. Pouco antes da Páscoa, na sexta feira, provavelmente para melhor celebrar a Paixão, apareceu grandioso e ameaçador um buraco com um diâmetro de mais de meio metro mesmo em frente da saída da garagem do meu prédio. A meio da rua para ser mais preciso e, sobretudo, mais estético. Alguém adornou a cavidade com uns ferros e um fita de plástico branca e vermelha, como se quisessem alertar os motoristas que descem a rua. Com sorte e algum espírito de gincana consegue-se evitar a cova que ontem, quarta feira, já tinha mais de trinta centímetros de profundidade. Deve ser uma preparação para o rallye de Portugal ou para o finado circuito automobilístico da Boavista...

Exº Sr. dr. Rui Moreira

Eu compreendo que a CMP não nade em dinheiro. E que seja contra a desordem do estacionamento selvagem. Vejo continuamente – e sobretudo na Avenida da Boavista – dezenas de automóveis estacionados em via dupla sem que a briosa e operosa Polícia Municipal dê um ar de sua graça. Provavelmente estará ocupada em esquadrinhar os ricaços que abusam dos arruamentos da minha zona...

Sou, depois de um longo rosário de multas, uma pessoa que só estaciona em parques de estacionamento, pagando o óbolo exagerado que me pedem. Percebo a vontade de tornar a cidade, alegadamente Invicta, mais civilizada e mais europeia. Todavia, veja, V.ª Ex.ª, rentabilizar os arruamentos (e para já só estes) arruinados do “Foco” sem sequer os restaurar parece-me (mas pode ser defeito meu, mesmo sendo seu votante, como fui, e das duas vezes) uma falcatrua, e uma pequena indignidade. Mesmo “ricos” temos, os habitantes do “Foco”, os mesmos direitos constitucionais e camarários, de quaisquer outros concidadãos.

Não quero pagar ou fazer pagar os meus amigos e familiares que me visitam sem que se veja que esse dinheiro tem a sua utilidade e razão de ser. O Município, que, normalmente, só se lembra de nós para pedir o IMI e outras alcavalas, tem o dever de cuidar da cidade de a arranjar, defender, embelezar e tornar mais atractiva para turistas ou empreendedores.

Queira, em consequência, mandar tapar o buraco antes que a rua fique intransitável e, de caminho, melhorar os pisos que irão, estou certo, render bom dinheiro aos cofres camarários

Sem outro assunto de momento, sou

De V.ª Ex.ª admirador atento e obrigado

* nas gravuras:aspectos do "Foco" ou, melhor dizendo, Parque Residencial da Boavista.

02
Abr18

Diário Político 225

d'oliveira

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Contas à moda deles

 

Parafraseando o imortal capitão Joaquim António Pereira “a pátria está ufana” pelos resultados conhecidos das contas públicas. Os do costume desdobram-se em cumprimentos, a Oposição rosna, os aliados do Governo sorriem amareladamente e só um pertinaz grupo de energúmenos, seguramente vendidos ao estrangeiro, ao imperialismo monopolista ou ao bolchevismo dissolvente (ou a outra coisa qualquer), é que se põem a fazer fosquinhas e a semear dúvidas pouco patrióticas.

Comecemos pelo deficit: é de 3% ou de 0,9? Os amigos e turiferários do Governo e o dr. Marques Mendes apontam para a segunda hipótese, mesmo se o distinto comentador dominical da SIC relembre, en passant, a chatice dos milhões enterrados na Caixa Geral de Depósitos. Com essa grossa quantia o deficit vai para os 3%, fronteira última do preceituado pela Comissão Europeia e, pelos vistos, aceite por esta como deficit real.

Argumentam os virtuosos defensores de Centeno que isso não deveria ser bem assim, tanto mais que os milhões enterrados na CGD serão, lá para as calendas gregas, desenterrados e repostos nos cofres do Estado.

Nada garante que tal milagre das rosas ocorra e, no caso altamente improvável de isso se tornar realidade, a coisa só ocorrerá no tempos dos our children’s children’s childrense me é permitido usar parte do título de um grande álbum dos Moody Blues  editado vai para cinquenta anos. Até essa data libertadora, penamos nós e respectiva descendência.

Há mesmo quem queira ver no cacau metido no gasganete aflito da CGD um investimento. Não é, obviamente. Aquela dinheirama toda foi para lá atirada apenas para “esponjar” um colossal prejuízo arranjado por gente mais que duvidosa de que nem quero lembrar-me apenas por receio de infectar o computador à simples menção dos seus nomes e apelidos. Aqui não há investimento algum mas, tão somente, a tentativa de manter o maravilhoso banco público à tona. Diga-se que nem sequer esta medonha injecção de capital é suficiente. A CGD já despediu pessoal, já mandou gente para uma estranha pré-reforma, já fechou agências (de que Almeida em pleno interior que, agora é amado por todos, é exemplo) mas prepara nova arrumação de funcionários e balcões que, (vai uma apostinha?)  irão para a rua e fecharão nas barbas dos do costume, isto é dos que menos tem e mais precisam. Dos que não tem o apoio de nenhuma agência de banco privado nas imediações.

Curiosamente, quando são os CTT a fazer o mesmo, numa escala incomparavelmente menor e sem despedimentos, tremem os céus a terra e chamam-se todos os nomes à administração (por acaso, mero acaso...) privada. A CGD, essa, faz trinta por uma linha e nem uma palavra. Os responsáveis pelo buracão tremendo encontrado não são identificados, perseguidos, acusados ou punidos. Sobre esse assunto caiu um espesso manto de silêncio pesem embora as comissões de inquérito da AR e o grave ar dos cavalheiros da “geringonça”. Nem as manas Mortágua murmuram... Ao fim e ao cabo, a CGD é um banco nacional, público, nosso que devemos todos suportar patrioticamente, orgulhosamente, como, aliás, vamos suportando os Banif, os Espíritos Santos sem falar nos mais antigos desastres todos intervencionados para que o sistema não tremesse...

Sobre o investimento público cai também um pesado pano teatral. É inferior (quer em 16, quer em 17) aos números incontestados do medonho governo de Passos Coelho. Recordarão os leitores que, nessa época, o cavalheiro em causa era todos os dias acusado de tudo e mais alguma coisa, mormente de asfixiar os serviços públicos por falta de apoio e de investimento. Pois agora, com números ainda menores, ninguém se aflige. Milagres de Costa, amnésia oportuna, esquecimento dos encartados, e únicos, “amigos do povo e das mais amplas massas populares”...

Junte-se-lhe essa salazarista teoria das “cativações”, tema preferido do senhor Ministro das Finanças que nisso (e não só) nada inova dentro do pensamento financeiro português. O dr. Salazar inaugurou esse caminho e prosseguiu-o resolutamente durante um bom par de anos para “salvar” a pátria da cobiça da estranja. entre 1926 e o fim dos anos 30 do malvado sáculo passado. As cativações (provavelmente sob diferente pseudónimo) reduziram a dívida externa e o deficit e mascararam o Estado Novo. E aguentaram-no por muitos (e maus) anos.

A substituição de impostos directos por indirectos levada a cabo nestes dois anos deu a aos portugueses a ideia de que lhes caía mais dinheiro nos bolsos, tanto mais que foram acabando as punções salariais introduzidas pelo ministro Gaspar. Como diz um excelente amigo meu, “entra-lhe mensalmente mais dinheiro no bolso”.  É verdade. Esquece, porém o meu amigo que, o que uma mão dá, outra leva. A subida dos impostos indirectos mais que compensou a generosidade governamental com a “ligeira” agravante  que decorre do facto destes impostos serem cegos. Acertam em ricos e pobres sem apelo nem agravo. Com uma outra “pequena” consequência: os pobres sentem mais, muito mais, o agravamento dos bens de primeira, segunda ou terceira necessidade do que os ricos para quem a variação para cima no preço do arroz, das batatas, da carne ou da fruta pouco lhes dói, se sequer dói.

O meu amigo aponta ainda outra “fatal maravilha" da nossa idade: a baixa do IVA nos restaurantes. É verdade mas ele deve esquecer-se de que o recurso ao restaurante é, não direi um luxo, mas algo de ligeiramente supérfluo. Os que pouco têm não vão a restaurantes. Bem que gostariam, imagino, mas o restaurante, mesmo barato, não entra nas contas (desta vez privadas) de uma boa parte da população portuguesa.

Os alegados defensores dos fracos e oprimidos, varrem para debaixo do tapete esta iniquidade. Provavelmente, pensarão que bastará isentar de IRS mais 10% da população. Ou aumentar em meia dúzia de euros o salário mínimo que é rapidamente comido pelo preço dos géneros, da água, da luz, do gás...

Finalmente a carga fiscal. Este ano cifrou-se em 34,7%. Um máximo absoluto, neste século ou no passado. O dr. Centeno desvaloriza (claro!) argumentando que a alegada melhoria dos salários, o aumento do emprego trazem por si sós mais impostos (desta feita directos) e isso faz pensar numa carga fiscal maior dado que a compara com o PIB...

Por um pouco ainda teremos que a carga fiscal é menor do que nos tempos ominosos de Coelho & Portas a quem, decididamente faltou esta arte da comunicação.  

Ou, por outras palavras: não é preciso ser engraçado. Basta cair em graça.

* a ilustração: Esta horrenda e faraónica mastaba é a sede da CGD. Além de medonha vai custar um balúrdio a implodir,  no dia que o bom gosto imperar, para fazer coisa melhor, menos horrenda e mais singela. 

 

d'Oliveira fecit 2 de Abril de 1918

31
Mar18

O leitor (im)penitente 207 (b)

d'oliveira

4)MARIA HELENA ALVES -uma casa de familia-.jpg

 

regressando a um tema mais antigo 

Um obrigado ao "leitor desconhecido" que me corrigiu a fotografia postada como da Casa Havaneza, maravilhosa livraria na Figueira da Foz. Devo ter clicado à toa e saiu-me uma farmácia! Desta feita a fotografia é boa. E até se vê a Maria Helena Alves, ultima proprietária da livraria.

Ah que belos tempos... 

31
Mar18

Au bonheur des dames 436

d'oliveira

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Páscoa feliz

mcr 31-3-2018

 

No momento em que escrevi este título para a crónica de hoje, lembrei-me de ter ouvido uma história de dois irmãos em que o homem se chamava Natal Querido e a irmã Páscoa Feliz. Trop beau pour être vrai!... Todavia, não descri inteiramente do amigo que me falava destes singulares nomes porquanto o meu pai contava que no seu tempo de moço atrevido havia duas irmãs que se chamavam República e Liberdade (a mocidade local à falta de melhor entretenimento fazia mas incursões à rua onde as duas manas moravam e berravam vivas à Liberdade e à República esperando que a polícia desse tempo (eram os ominosos anos trinta do século passado) os interpelasse para poderem galhofeiramente referir que nesses gritos nada havia de subversivo  mas tão só de louvor às duas moçoilas.

Eu próprio conheci um Lenine de Jesus e adorava cumprimenta-lo com grandes salamaleques tratando-o de camarada Lenine de Jesus ou até só camarada Jesus. A criatura era, se a memória sempre traiçoeira não me falha, militante no mesmo carnaval político que frequentei entre 74 e 75...

Mas não era de nomes que vinha falar mas tão somente deste estranho costume de celebrar a Páscoa com idas maciças para o Algarve, consumir a “semana santa” entre a praia, grandes comezainas e noites brancas nos locais de uso.

A Páscoa é a grande, a mais emblemática data da Cristandade. É quase ou absolutamente o cerne desta fé. Sem Páscoa não há cristianismo.

E que vemos nós neste torrãozinho de açúcar à beira mar plantado? Pois uma emigração em massa para umas curtas férias balneares nacionais ou mesmo internacionais. É verdade que aqui e ali, e sobretudo em Braga (a idolátrica como referia Pacheco) há umas procissões soleníssimas cheias de criaturas com capuzes fora de moda (farricicos?), muitas cruzes num desfilar de piedade pouco convincente e vagamente andaluz. Mas a coisa é mais folclore e turística do que realmente religiosidade entranhada e sentida.

(a este propósito não resisto a recordar uma história passada nos primórdios de setenta. Com mais um par de amigos e amigas fomos de longada para a Catalunha onde nos reuniríamos com outros amigos então exilados na Suiça. Numa cidade (cória?) do caminho, já ao lusco fusco caímos no meio de uma dessas tremendas procissões penitenciais da semana santa. Logo que a rua ficou vazia corremos para um restaurante recomendado por uns locais onde se comeria bem e a bom preço. Já estávamos instalados na grande sala a petiscar presunto e à espera de umas carnes – nesse tempo a malta não religiosa fazia questão de só comer carne na quaresma e sobretudo na semana da Páscoa- quando vemos entrar a multidão dos processionários ainda fardados com as vestes de ocasião. em alta grita foram, também eles!..., encomendando acepipes vários e doses quilométricas de tapas onde não faltavam o chouriço, o presunto e outras especialidades cárnicas (roubo a palavra a José Quitério, gastrónomo e e crítico de grande gabaritoque escrevia algum do melhor português que se usava no Expresso. Saravah, velho amigo e irmão, um abraço deste teu velho companheiro de fuga ao estudo, de noites varadas em conversatas saborosas numa Coimbra, ainda sem atropelos urbanísticos e com uma “baixa” cheia de livrarias e cafés). Fiquei esclarecido. A espanholagem que nos acompanhava nesse restaurante devia considerar que a procissão de que fizera parte permitia uma fuga ao preceito do jejum pascoal. Beberam e comeram e cantaram. E nós com eles, claro.)

E o mais curioso desta migração pascal é que ela ocorre sem lhar para o calendário, sequer para a meteorologia. Caiam as festas em fins de Março ou em Abril bem avançado e ala que se faz tarde. Praia com eles. Chova ou faça sol. “Ei-los que partem” com uma fé eventualmente pagã no milagre das rosas algarvio. Substituem a água benta pela do mar, a missa matutina por uma soneca que a noite foi de discoteca e até às tantas.

Decididamente, o país alegadamente católico, apostólico e romano, aposta numa ligeira intermitência da fé e dos deveres do crente. Portugal, à medida que se vai europeizando, transforma-se em terra de missão.

Não é que a coisa me incomode. Sou (ainda...) um agnóstico da velha guarda que só não se declara ateu porque isso tem um ar de militância desagradável. Aliás, escrevi acima “ainda” porque nada me garante que mais entrado em anos (e eu já estou quase na quarta idade) não me suceda o mesmo que a Jean Barois herói de um grande livro de Roger Martin du Gard, prémio Nobel e autor do magnífico “Les Thibault”, obra admirável que provavelmente ninguém lê. Porventura nem sequer existem actualmente versões em português. Barois é católico em jovem, passa a ateu durante a vida adulta mas quando já está no ocaso da vida retoma a fé antiga, depois de, durante anos, ter provado a desrazão da crença. Não me sinto fadado para Barois, não andei a pregar a evidência da ciência e da razão versus a religião mas tudo pode suceder-me amanhã. O mais certo é morrer de cancro ou perdido no Alzheimer ou outra doença medonha. Todavia, a velhice e o seu cortejo de misérias físicas podem predispor uma pessoa a subitamente acreditar numa vida outra e eterna. O medo da morte é como o sono da razão: cria monstros. E aterroriza o mais corajoso.

De todo o modo, desejo-vos, caros leitores e leitoras, uma boa Páscoa. que o cabrito, as amêndoas e demais mimos da época vos caiam bem. Também vos desejaria bom tempo, mar chão e quente mas isso vai contra todos os prognóstico do Instituto do Mar e da Atmosfera. E ao ex-camarada Lenine de Jesus, Salut e forza nel canut como se diz na Catalunha. Com a idade que terás é um voto mais simpático do que saúde e fraternidade...

* na gravura procissão em Braga

23
Mar18

Estes dias que passam 368

d'oliveira

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O regresso dos mortos mortos

 

 mcr  22/23 de Março de 2018

 

O jornal “Público” traz hoje (22/3) mais uma reportagem sobre a trasladação do cadáver de um militar morto na guerra colonial. Obviamente era o de um soldado de origem humilde. Daqueles cuja família nunca poderia pagar os custos do repatriamento do cadáver. Naqueles tempos ásperos e obscuros, a quantia exigida era quase um absurdo para mais de 80% da população portuguesa. Pior: os soldados e cabos que faziam o Serviço Militar Obrigatório vinhamde famílias numerosas, pobres e razoavelmente incultas. Os senhores oficiais (do quadro ou milicianos) eram provenientes das elites, de gente mais acomodada que mesmo com grande sacrifício poderia custar a trasladação. Ignoro se os oficiais do QP (Quadro Permanente) teriam o privilégio de ser repatriados gratuitamente quando morriam nos sertões africanos. De todo o modo, as baixas no corpo de oficiais foram diminutas, não só porque estes eram menos mas sobretudo porque o seu treino militar era superior. É verdade que alguns (muitos. E um único já seria demasiado)por lá morreram. Estou a lembrar-me do João Cabral de andrade, meu amigo, do Bação Leal que mal conhecia ou do José Manuel Pais que bateu com os costados em angla depois de denunciado por um miserável informador da PIDE, estudante como ele, e hoje médico na “outra banda” (Este canalha deve ter denunciado meio CITAC a que pertenceu e a sua sorte é apenas derivada da minha falta de memória. Não me lembro do seu nome infelizmente)

Voltando ao tema principal: os mortos na guerra de África, colonial ou do Ultramar, como lhe quiserem chamar.

Bem ou mal, estes jovens homens morreram ao serviço de Portugal. como antes, de 1916 a 1918 morreram milhares de outros na Flandres com o mesmíssimo pretexto de salvar o Império Colonial. Ou de tornar a 1ª República mais aceitável perante uma Europa que nos olhava de soslaio...

Conviria acrescentar, mesmo que isso perturbe algumas ignorâncias bem pensantes, que esta guerra de 13 longos, longuíssimos, anos com o seu cortejo de 9.000 mortos e de muitos mais feridos (sem falar em todos, e são multidão, os que se viram afectados – algumas vezes para toda a vida- com o stress de guerra) que a defesa das “colónias”, do “ultramar” ou , tout-court, de Portugal foi durante muito tempo uma causa popular em Portugal e entre os portugueses. É verdade que, nesses anos de chumbo, houve sempre “alguém que resistiu”, que não se conformou mas isso não quebrou o largo consenso que subsistiu quase até ao fim do Estado Novo. Aliás, este caiu por obra dos oficiais do QP que se fartaram da guerra e da falta de perspectivas que tal estado de coisas pressupunha. É verdade que difusa mas seguramente crescia na população (sobretudo a mais ilustrada) uma crítica à guerra. É verdade que a gigantesca emigração verificada nos anos 60 e 70 do século passado também teve uma pequena componente política de gente que fugia à guerra pelos mais variados motivos sendo que o principal era obviamente a vontade de não arriscar o coiro numa guerra que nada lhe dizia. É verdade que, mesmo cá dentro, houve sempre oponentes à guerra fosse por pacifismo, fosse por acreditar no direito dos povos a disporem deles próprios. Mas a verdade, a “áspera verdade” (Danton) é que desde a Situação até boa parte da Oposição, as colónias foram durante muito tempo indiscutíveis. E tão indiscutíveis foram que, de 1965 a praticamente 1974, a população branca colonial em Angola e Moçambique aumentou de forma quase exponencial. Foram dezenas de milhares ou, talvez, mais de cem mil, os portugueses da “metrópole” que resolveram fixar residência em África. Acreditavam na melhoria de vida, nas vantagens de lá viver, na continuação do Império mesmo na forma mitigada de federação de Estados de língua portuguesa. Poder-se-á dizer que este movimento se inscrevia no mais geral movimento migratório cujo centro foi Paris e região adjacente. Seja como for, este ocorreu e contribuiu em muito para o enorme surto de desenvolvimento que as duas principais colónias experimentaram. Estes novos migrantes para o “Ultramar” modificaram objectiva e subjectivamente as condições de vida da maioria negra. Tinham menos preconceitos raciais, já não vinham como grupo superior aos colonizados, acabara o Estatuto do Índígena, as escolas abriam-se de forma extraordinária   aos negros e via-se o impossível: acesso a cargos políticos municipais e regionais. Nada disto diminuiu o ímpeto independentista entre os novos “assimilados” (se me é permitido o uso de uma expressão repulsiva e negregada), bem pelo contrário. As novas e incipientes elites africanas alinhavam nas escolas secundárias e nas novíssimas universidades pelo diapasão nacionalista influenciando, mesmo que num número mínimo, jovens brancos.

Neste amplo movimento devem ainda contabilizar-se o aumento de casamentos e uniões de facto inter-raciais. Muitos soldados desmobilizados optaram por se fixar nos territórios onde tinham combatido e juntavam-se com nativas africanas.

Voltemos, porém, aos 1500 soldados metropolitanos mortos nos teatros de guerra e aí sepultados em cemitérios disseminados na Guiné, Angola e Moçambique. Terá passado por África cerca de um milhão de portugueses parecendo, por isso, diminuto o número de mortos total (9000) e mais ainda o de cadáveres que não voltaram à terra natal. Este é um argumento forte para, de uma vez por todas, se proceder ao repatriamento desses corpos. O Estado português não pode atirar para cima dos familiares sobrevivos o custo desta operação que, por ser isolada, tem sempre um preço elevado. Mal ou bem esta gente morreu pelo país exactamente como os morto da 1ª Grande Guerra cuja memória se perpetua em centenas de monumentos por todo o país, em talhões próprios nos cemitérios das principais cidades ou na simples existência de uma “Liga dos Combatentes” criada em 1923 em plena1ª República e destinada a perpetuar a memória dos mortos e em ajudar os sobreviventes em diversos domínios.

Esta instituição poderia e deveria ser ajudada no apoio que presta às famílias dos caídos em combate nas colónias. O Estado deveria assumir uma parte importante dos custos da trasladação dos cadáveres o que, numa operação conjunta, mitigaria, e muito, os custos dessa missão legítima, necessária e, porque não?, patriótica.

Para uma imensa maioria dos portugueses a lembrança cultual dos seus mortos faz parte da sua razão de ser. Digo portugueses mas poderia dizer seres humanos. Uma das características do actual homo sapiens é o culto dos mortos. Quase se poderia dizer que a civilização começou com o sepultamento (ou com fórmulas mortuárias de valor idêntico) dos membros da comunidade. A sepultura tem a mesma marca das gravuras rupestres e traça com bastante segurança a passagem para o que chamamos civilização humana.

É verdade que há países em que a norma é sepultar o seus mortos em combate nas regiões onde pereceram. O caso da Grã Bretanha é o mais conhecido. Há cemitérios de guerra britânicos disseminados por todos os continentes. Todavia, esses cemitérios são regra geral considerados “território britânico”, estão bem tratados e melhor documentados. Os americanos têm por principio não deixar nenhum dos seus soldados (morto ou vivo) para trás. Ainda hoje, rebuscam em zonas perdidas do Vietnam e do Laos cadáveres dos seus combatentes. Criaram para o efeito uma agência e celebraram acordos e protocolos com as autoridades nacionais desses países com que estiveram em guerra. Trasladaram para o cemitério nacional de Arlington cerca de meio milhão de cadáveres de soldados mortos em combate desde a guerra da Secessão até às mais recentes (Vietnam, Iraque).

Anda por aí meio mundo a encher o peito de bazófias sobre as maravilhas da pátria mormente as mais recentes, desde o festival eurovisão até ao “melhor do mundo” e a um obscuro campeonato de futebol de salão. Tudo isso e o sol, o sal e o sul tão turísticos aquece os ímpetos da portugalidade do século XXI. Será pedir muito uma sepultura junto dos seus para os soldados perdidos numa guerra travada, queiramo-lo ou não, em nome de todos nós  nos sertões esquecidos da Guiné, de Angola e Moçambique?

 

*O título do folhetim refere um filme de terror dos anos 80 (“O Regresso dos mortos vivos” de Dan O’Barron) que, com o passar do tempo se tornou um filme culto que teve direito a remake e continuações.

** este texto começou a se escrito ontem mas a habitual preguiça do autor só hoje permitiu concluí-lo. Mas não é um dia a mais que prejudica uma justiça que tarda já quase meio século.

07
Mar18

Estes dias que passam 367

d'oliveira

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28 anos já...

 

Ou: mais de 9000 exemplares lidos com alegria, com sofreguidão com interesse ou com indignação. Numa palavra: o “Público” o jornal que, sem falhas, leio desde o número 1.

Quando digo sem falhas, não refiro todos os dias porquanto as férias de muitos desses anos passeia-as fora de Portugal e, sempre que, pude estive fora do país, às vezes por períodos que duraram meses. Todavia, em estando cá, nunca deixei de comprar o jornal, hábito e vício diários.

Esta fidelidade ao mesmo periódico tem, em mim, antecedentes fortíssimos. Em pequeno, muito pequeno, fui um fã do “Mundo de Aventuras” em detrimento do posterior “Cavaleiro Andante”. Durante esses anos, felizes e inocentes, o meu irmão e eu, batíamo-nos à compita para, cada terça feira, ir à loja do senhor Bracourt comprar a “Modas e Bordados” que a minha Mãe, que lia tudo e mais alguma coisa, aplicadamente comprava. O nosso alvo era o suplemento infantil “Joaninha” que no regresso até casa íamos lendo impacientes. Oh que saudades de duas longuíssimas séries “Aninhas e Ró-ró” (uma menina e o seu cão) e “Sem Família” uma banda desenhada baseada no romance de Hector Mallot (1830-1907, escritor comprometido com causa da liberdade, amigo de Jules Vallés que ele ajudou financeiramente durante o exílio, defensor do divórcio e uma nova política de saúde psiquiátrica, autor de mais de cinquenta romances).

Nos poucos anos que passei em Moçambique (e sobretudo nas férias grandes) lia “A Tribuna” um dos grandes títulos moçambicanos e o mais livre da imprensa africana.

Logo que entrei para Universidade, tornei-me um devoto de “Le Monde” e de “L’Éxpress” uma notável revista semanal que foi uma das publicações que mais defendeu a causa dos argelinos . Anda hoje os leio, mesmo se diferentes. Da banda de Espanha, sou, desde o primeiro dia, leitor de El País e, no que toca à Itália, confesso que abandonei “Paese Sera” por “La Republica” logo que este apareceu.

Sou, portanto, um leitor (e comprador) de jornais e não consigo começar o dia sem eles. No fim de semana as coisas complicam-se por via do “Expresso” (sempre desde o primeiro dia) e das edições mais volumosas dos jornais estrangeiros.

Mas voltemos ao “Público” que hoje festeja o seu 28º aniversário. Que bela aventura. Que zangas tremendas tive ao longo destes anos por via de artigos, comentários, omissões. Que falta me faz no dia de Natal e no de Ano Novo!...

Com todos os seus imensos defeitos, o “Público” é, de longe, o melhor quotidiano português, o mais imparcial, o menos populista e, de certo modo, o mais eclético em colaboração de todos os quadrantes políticos.

Tem falhas? Claro que as tem, a começar pela frágil cobertura de notícias sobe livros e literatura. Nada que se compare com, por exemplo, “El País” (ou até o “ABC”, também espanhol, conservador e monárquico que tem uma revista semanal de cultural de alta qualidade). O suplemento “babélia” deste jornal com mais de uma dúzia de páginas e que já vai na edição 1371, é um acontecimento e supera largamente o “Monde des livres” que aparece às sextas e é mais pequeno e menos variado.

Porém, em Portugal (e isto desde a morte de “O jornal”) a causa cultural tem perdido espaço. Sobrevive, com dificuldade, o “Jornal de Letras” (outra obrigatória e quinzenal leitura) e há por aí, tentativas dispersas e irregulares de imprensa cultural que morrem às duas por três por falta de leitores e de anunciantes. Por todos refiro o extraordinário “& etc.” suplemento e depois edição autónoma do Jornal do Fundão. A colecção completa (25 números) vale hoje uma pequena fortuna e as escassas dezenas de colecções encadernadas pelo editor praticamente não tem preço. (se algum leitor tiver uma e ma queira vender avise-me)

 

Ora o Público, jornal generalista, pertence, por vocação e tradição, a esta espécie de meteoritos jornalísticos que não chamam as grandes massas mas estão indissoluvelmente ligados ao melhor e ao mais puro espírito da democracia. Nasceu na 3ª República, orientado pelo Vicente Jorge Silva, alma do “Comércio do Funchal”, o jornal cor de rosa onde deixei alguns poucos artigos embora tivesse enviado para a Redacção muitos mais. A Censura foi implacável comigo e durante um interrogatório durante a minha última prisão o inspector que me coube insistia muito no carácter “subversivo e trocista” das minhas tentativas cronísticas. Fiquei orgulhoso por ter um leitor tão atento... e desanimado porque a atenção dele e de mais um par de funcionários me cortasse as asas para a glória literária...

Voltemos, porém, ao Público e aos seus escassos trinta ou quarenta mil leitores (em papel): há naquelas páginas, que o dia a dia tritura, uma alegria, um profissionalismo, uma teimosia que merecem um olhar. E, ao mesmo tempo, todos os dias lá aparecem a crónica de Miguel Esteves Cardoso e os desenhos irónicos e certeiros de Luís Afonso. Todos os dias! É obra!

No que toca ao jornalismo dito de investigação destaquemos o seu cuidadoso carácter sóbrio, a recusa do sensacionalismo que contamina quando não destrói outros exemplos noutros jornais. Raras, muito raras vezes, vi o jornal ser desmentido.

Finalmente (e porque este texto comemorativo já vai aparecer com alguns dias de atraso) gostaria de destacar o que me parece ser uma característica quase única na débil imprensa diária portuguesa: a tenção à divulgação de notícias científicas (da arqueologia à biologia, da química à medicina) que conseguem entusiasmar o leitor mais preguiçoso.

Tudo isto pelo preço de duas bicas na esplanada do costume!

Que bom!

Que muitos anos se sucedam, iguais ou melhores. Se algum de nós há de morrer espero ir eu em primeiro lugar não só porque tenho mais do dobro da idade do jornal mas sobretudo porque amanhecer sem o jornal tornaria ainda mais tristonhos os dias. Ou mais vazios...

01
Mar18

Estes dias que passam 366

d'oliveira

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Viva o Esportingue!

mcr 1-3-18

 

Não tenho clube de futebol. Nunca tive, mesmo se confessasse uma certa ternura pela “Associação Naval 1º de Maio”, modesta equipa que andou décadas pela 2ª divisão, subiu surpreendentemente à 1ª onde se entreteve uns parcos anos e depois desapareceu do panorama futebolístico nacional. Acho que, actualmente, disputa alguma coisinha regional de somenos importância.

A minha ligação ao clube figueirense advém do facto de, entre meados de quarenta e de cinquenta, meu pai ter presidido aos destinos da Naval onde também exercia de médico gratuito e, se me lembro bem, uma que outra vez de chauffeur de um carro enorme e desengonçado onde se transportava toda a liderança do clube. Fora isso, só recordo ter penosamente assistido a uns jogos no “campo da Mata” levado, sem alegria nem prazer, pela pátria potestas. O mesmo, aliás, me sucedeu quando andava no 3º ano do liceu em Coimbra. De quinze em quinze dias era-me negado o prazer do fim de semana na Figueira porque a Académica jogava em Coimbra e o meu pai, sempre ele!, fervoroso adepto, vinha à bola e leva-me ao estádio. Um horror!

Feita esta necessária introdução, apenas com o fito de explicar o meu nulo apreço pelos clubes de futebol nacionais e internacionais, pela “bola” e por boa parte do que por aí corre disfarçado sob o nome de desporto, eis que me vejo perante o extraordinário (no pior sentido de eminentemente ordinário) caso do Sporting e da estrondosa carreira do seu presidente.

Comecemos pelo mais óbvio, a história. O Sporting (Clube de Portugal) é um produto lisboeta puro e duro e, mais do que isso, uma criação da chamada elite social e financeira da capital. Um clube de senhoritos, de meninos bem, chiques até dizer basta.

Ainda me lembro de ouvir um cavalheiro respeitável acusar um amigo de ser um “talassa” logo que soube que o segundo era sportinguista. Talassas eram a princípio os monárquicos mais conservadores e depois os ricos e os bem pensantes. “Poucos mas bons”, como se dizia, senhores do seu nariz e desprezando ostensivamente o “povo”, a “gentinha”, o “pé descalço” que, obviamente havia de engrossar os fãs do Benfica o outro clube de Lisboa (Não se referem o Belenenses, o Oriental ou o Atlético também lisboetas mas confinados a bairros e sem historial que mereça mais do que modestos titulares, mesmo se o Belenenses tivesse tido nos anos 50 e 60 honras de “grande”).

Durante as décadas da minha infância, adolescência e primeira juventude, o Sporting e o Benfica (ocasionalmente o Porto) eram quem todo lo mandava. Do primeiro ficou famoso o grupo dos “cinco violinos” (2ª metade dos anos 40: Jesus Correia, Peyroteu, Travassos, Vasques e Albano) prodigiosos jogadores. O Benfica é o que se sabe. Durante anos a fio, décadas mesmo, foi o clube do regime e a joia da coroa. Ganhava em todos os palcos desde Portugal até à Europa. Suponho que ainda é o clube com mais títulos e taças logo seguido pelo Porto que sempre foi sólido mas só começou a brilhar verdadeiramente depois dos anos 60.

Data dessa época o progressivo eclipse do Sporting. Não me vou dar ao trabalho de procurar mas aposto que desde os anos 60 até hoje não terá ganho mais de meia dúzia, o que em 58 épocas sabe a pouco. O resto distribuiu-se quase sempre entre o Benfica e o Porto com ligeira vantagem para o primeiro.

As direcções do clube foram sendo progressivamente ocupadas por uma nova classe social cada vez mais distante da conservadora e tradicional elite anterior. O que não tem nada de mal mas que, no caso em apreço, reveste uma peculiar característica. Os novos dirigentes tentam macaquear os antigos ou, pior ainda, os dos clubes líderes dos últimos cinquenta anos. Os associados, que sempre riscaram pouco, ficam deliciados quando os “chefes” farroncam, esbracejam, ameaçam, uivam e se desfazem em impropérios e acusações.

O delírio atingiu o auge (?) com o actual presidente do clube, um a criatura que dá por Bruno de Carvalho e se gaba de ser sobrinho neto de um antigo e fugaz primeiro ministro. Sempre me espantou esta necessidade de recorrer a eventuais antepassados que, de resto, nunca se identificam como “carnais” ou por afinidade, caso em que a reivindicação familiar além de obnóxia é parva.

A criatura Carvalho apareceu no universo televisivo mais vezes do que o decoro permitiria mas com sobrados motivos: o homenzinho excede-se em patacoadas violentas contra adversários internos e externos (mais, até, os primeiros) e numa última e triunfante alocução aconselhou os associados a não ler jornais (falo dos associados que serão alfabetizados e tenham algum escasso hábito de leitura) desportivos –todos inimigos do clube- a não ouvir os comentadores desportivos nos media (medida que até poderia ser salutar atenta a quantidade de horas que aquelas cabecinhas pensadoras ocupam os melhores horários televisivos, mas que no caso é apenas um protesto contra algumas observações “menos respeitosas” dos palestrantes sobre o Sporting) e mais quatro fatwas do mesmo teor. Em boa verdade, o cavalheiro Carvalho elaborou um programa informativo par os associados digno da Coreia do Norte: não vejam, não ouçam, não leiam, não comentem (e não pensem?) o que vai nas bocas do mundo. Fora de Alvalade (de um Alvalade expurgado de conspiradores, detratores, críticos ou meramente neutros) não há salvação. O sindicato dos Jornalistas ofendeu-se e protestou como se esta estúpida proposta valesse sequer um comentário. Como se uma boa parte do sportinguismo militante se fechasse ao mundo. Alguns benévolos comentadores gerais viram em Carvalho um novo fascismo como se ele soubesse o que isso é. Aquilo não é coisa alguma excepto arrogância de uma galinha pedrês que gostaria de ser águia um de uma lagartixa que se tomasse por um dragão. Mais do que irritar, Carvalho faz rir mesmo se a gargalhada seja penosa. Saber que num país pacato e civilizado ainda há destes abencerragens deixa muita gente perplexa e a perguntar onde é que a Educação Nacional falhou. Já se sabia que, no fim da escolaridade média, a escrita é um mistério, as contas um sacrifício sobre-humano e a capacidade de conhecer o mundo em que se vive algo de escasso e contingente.

É habito dizer-se que “no melhor pano cai a nódoa”. Convenhamos que aqui nem o pano é mais do que sofrível nem a nódoa assusta. Nada que lixívia e bom senso e alguma educação não limpe e desinfecte.

O Clube de Carvalho vai corajosamente na terceira e habitual posição. Nada prenuncia que possa, facilmente, ultrapassar os dois que o antecedem mesmo se, em futebol, haja horas que duram mais alguns minutos do que os usuais.

Todavia, numa coisa o Sporting é indubitavelmente já campeão: no terrorismo verbal, na tolice ameaçadora, na impotência acusatória. À falta de melhores razões, este título também serve.

(Em memória de João Taveira da Gama, sportinguista sofrido, amigo desde os sessenta que a Parca já arrebanhou. Felizmente não assistiu a isto. Para azar basta a morte, é inútil acrescentar-lhe a vergonha.)