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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 7

d'oliveira, 20.04.21

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Liberdade condicional 15

Ai Jesus! Vem aí o dinheiro da bola

mcr, 20 de Abril

 

Quinze clubes de futebol, com tendência para aumentar até vinte, querem criar uma supertaça europeia onde, em princípio só eles jogarão.

Uma série de criaturas que deve viver num outro mundo , esganiçou-se em protestos a que se seguiram ameaças políticas nacionais ou internacionais (União Europeia, UEFA, FIFA).

Subitamente, descobriram-se todas as virtudes do Desporto, a sã competição, a democracia, a igualdade de oportunidades, num mundo sonhado por uma vaga caricatura de Rousseau do século XXI.

Permitam que um escriba que não gosta especialmente de futebol, que ignora as subtilezas da vida clubística, seja ela do Manchester, do Juventus, do Real Madrid ou, mais modestamente do FC Porto (pelos vistos abordado, segundo o sr Pinto da Costa que, aliás, não me parece uma testemunha demasiadamente fiável), que há muito eixou de se escandalizar com as somas inacreditáveis pagas aos jogadores mais dotados (e o caso do herói nacional Cristiano Ronaldo é paradigmático...) aos treinadores (o sr. Mourinho foi corrido do Tottenham embolsando uns largos milhões por quebra do contrato) e aos agentes, diga duas palavrinhas sobe este magno problema que, pelo volume de queixas estará a ameaçar a paz mundial.

O desporto, dito rei, há muito que navega entre dezenas, centenas ou milhares de milhões de euros que, numa percentagem gigantesca acabam numa algibeira  partilhado por uma, duas dúzias de clubes.

Os rios correm para o mar mas este, no caso em apreço não comunica com os oceanos livremente mas apenas gota a gota. Até em Portugal onde, desde que me lembro há dois, três, episodicamente quatro clubes que distribuem entre si todos s troféus. De quando em quando lá aparece um cometa, melhor dizendo uma estrela cadente que ganha uma taça ou até, escândalo dos escândalos, um campeonato. Todavia, isso, essa irrelevante entrada fortuita no recreio dos grandes, é apenas, e tão só, a excepção que confirma a regra.

O dinheiro, o grande capital, os fundos, algum príncipe árabe, um par de multimilionários russos, governam esta constelação e vão, com toda a probabilidade, continuar a mandar nesse restrito território vedado aos restantes.

Parece que algumas instituições ameaçam os clubes em questão de expulsão das ligas nacionais, de não autorizar os seus jogadores, pagos a peso de ouro, de entrarem nas seleções nacionais, entre outras coisas medonhas e tremendas.

À uma, parece que tais ameaças poderão não ter claro suporte legal (cfr.  o Publico de hoje). Depois será que alguém, por exemplo do Benfica ou do Porto, se incomodará muito se não puder ver a sua equipa jogar contra o Nacional da Madeira ou o Tondela? Claro que, seguramente, aparecerão alguns leitores e leitoras sinceramente interessados na beleza do jogo, na justiça desportiva, ou até na bondade do futebol como grande educador da classe operária, para me infirmarem esta vaga convicção vinda e alguém que pela última e não chorada vez entrou num estádio de futebol em 1969, numa final de Taça entre a Académica e o Benfica. Tinha eu vinte e tal anos e fui com um cartaz escondido para me manifestar caso o Presidente Tomaz aparecesse. Claro que não apareceu, escaldado que estava com os acontecimentos de Coimbra onde fora inaugurar uma faculdade. Triste com a falha do “mira carpetes” saí descoroçoado do Jamor e voltei para Cimbra no mesmo autocarro que me trouxera. “Um dia perdido, terei pensado mesmo se a manifestação se fizera, se os benfiquistas tivessem sido simpáticos (tanto mais que tinham ganho o jogo!...) e se a polícia não se tivesse dado ao trabalho de nos espancar como em Coimbra.

 

Tudo o que é meio de comunicação social anda num reboliço, sempre andaram, com o tal “oligopólio do futebol” imaginado por um jornalista (sempre do Público) que introduziu na palavra alguma duvidosa variante de sentido. Ou melhor se há oligopólio, ou seja mercado dominado absolutamente por alguns, poucos, agentes, ele existe há décadas, foi-se lentamente construindo com a cumplicidade de muitos, a benevolência de outros tantos, e a admiração basbaque de multidões eufóricas que se podem queixar de tudo, incluindo a carestia da vida, mas jamais das somas que os seus ídolos recebem. Somas que ajudam a realizar, comprando toda a espécie de bugigangas vendidas pelos clubes a começar por camisolas horrendas, com as cores do clube e o número e o nome do ídolo do momento.

Os meios de comunicação , e nisso as televisões são exemplares, gastam rios de tinta ou horas de emissão, com comentários, discussões, mesas redondas, noticiários solenes sobre os jogos, os jogadores, os responsáveis dos clubes (uma classe que mesmo à distância cheira a esturro, a corrupção, a conspiração, a lobying político (e sobre isso até cá temos as jantaradas parlamentares de adeptos clubísticos, as recepções dos dirigentes na AR ou nas Câmaras, os convites a políticos para integrarem listas societárias, de apoio ou mesmo órgãos sociais secundários do planeta futebolístico).

Este passo dos clubes europeus, copiado aliás da estrutura desportiva americana, era previsível, lógico e, diga o sr Macron o que disser (e não dirá muito porque em França o poder dos clubes não tem semelhança com o que se passa em Espanha, Itália ou Reino Unido).

Há ainda um pormenor que , de tão grande parece ter escapado aos adeptos da “pureza” do futebol hoje praticado. Será que um clube médio, ou um grande português,  alguma vez poderá sonhar em contratar Cristiano Ronaldo ou Messi como se as leis do mercado nõ existissem, como se os jogadores de grande talento se descobrissem milagrosamente  um dom para beneméritos dos pobres, dos remediados ou dos apenas ricos?

Alguém sairá à estacada para me dizer que tudo isto é fruto do capitalismo, selvagem ou civilizado, tanto dá. Lembrarei que, em tempos idos, quer na URSS, quer nos países socialistas (ou de leste, ou satélites, é só escolher) havia o mesmo clubismo, o mesmo fanatismo e a mesma negociata. E os mesmos privilégios de jogadores, treinadores e restante máquina desportiva.

Aliás nesses países, e nomeadamente na Alemanha “democrática” havia até para o desporto olímpico meios de treino e preparação que se revelaram para além da fraude e da manipulação dos corpos. Valia tudo excepto tirar olhos e o escândalo foi imenso como, provavelmente, os mesmos puristas já terão convenientemente esquecido.  

É claro que poderão retorquir-me  que aquilo, naquelas sombrias paisagens, não era socialismo mas apenas uma corruptela vil e cruel desse modelo. Não direi que não mas, caricatura ou verdade, milhões de pessoas no mundo e até por cá, acreditaram piamente no “sol da terra” e na restante parafernália ideológica. Digamos que o capitalismo apenas torna mais profissional, mais competitivo, mais atraente, o panorama dos grandes do futebol. Só.

E, já agora, as competições actuais europeias de há muito que fazem rolar milhões (sempre, ou quase para os mesmos). Mais uma competição apenas atiçaria o mercado das apostas e a sofreguidão dos adeptos. Quanto ao acesso universal de todos ao desporto, à sua fruição como atleta ou como espectador, esse permanecerá exactamente como até agora. Com mercado onde este se mostre viável ou com algum entusiasmo nos desportos ditos pobres.

Era disso que vivia o modesto clube que eu vagamente, muito vagamente, apoiava, a Associação Naval 1º de Maio, campeã, in illo tempore, de remo. Agora nem sequer isso. O futebol, e a gentinha que gravita à sua volta, incluindo um empreiteiro ganancioso, atiraram o clube para os confins exteriores da galáxia futebolística. O incêndio da sede e o desaparecimento de um honroso espólio, acabou praticamente com o resto. Nem o retrato do meu Pai, médico do clube e presidente durante anos, escapou...   

DE todo o modo isto vai dar uns dias, talvez semanas de discussão. Preparem-se para as mesas redondas futebolísticas diárias e longas. E chatas! E grosseiras...

É fartar vilanagem!...

Homem ao mar 6

d'oliveira, 19.04.21

 

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Liberdade condicional 14

Demasiada cera para tão ruim defunto

mcr, 19 de Abril

 

 

Eu queria falar do censo. Hoje, na caixa do correio, recebi o diabo do papelucho todo muito secreto, uma dificuldade para o abrir sem estragar.

Qual não foi a minha surpresa quando verifiquei que primacialmente aquilo está pensado pra uma resposta via internet!  Se a pessoa não tem computador (e creio que mais de metade dos portugueses não tem) deverá “solicitar a ajuda de amigos ou familiares; se o não puder fazer, deverá ir à Junta de Freguesia; ou então aguarda pela visita do recenseador provavelmente telefonando para uma linha de apoio. Este número que deveria vir junto às instrucções, vem na capa do papelinho sigiloso!

E previnem as pessoas que na lei X, no decreto Y e em mais outro K, é obrigatório responder! Tudo isto na redacção analfabeta comum de muitos serviços públicos .

 

Sobre os efeitos da citada obrigatoriedade, estamos conversados. Presumo que caso o agente recenseador não apareça ou apareça não estando o morador, a coisa morre logo ali. Duvido que o Estado, de espada em riste, perc o seu tempo a perseguir os faltosos que, aliás, tem mil maneiras de se escapulir.

Tudo isto poderia ser atalhado se com mais meia página se fizessem as perguntas com um quadradinho para responder, caso não se soubesse, não houvesse ou não se quisesse usar a internet.

Mas como novos ricos, deslumbrados, as criaturas do censo nem curaram de perceber que vivem aqui, em Portugal, no ano de 2021, o mesmo em que centenas de milhares de alunos se queixaram de não ter meios para seguir à distância as aulas. Por falta de material, por falta de rede, por mera pobreza.

E é bom lembrar que um estudo recentíssimo avisa que pelo menos um quinto dos portugueses ( só?) vive abaixo do limiar da pobreza. E aí até se incluem pessoas com emprego fixo.

O desdém pelas classes pobres é sistémico e transversal. A ajuda a quem sofre de privações é algo que horroriza o mais pintado. Não chega, o que não chega, chega a desoras, mantém a pessoa em vida mas não lhe dá meios para sair da armadilha que apanhou pais e avós até Adão. Com a merda da pandemia, as coisas hão de ter piorado e muito. A Cáritas,  o Banco Alimentar e outras instituições  privadas (e só menciono estas porque são elas que estão no terreno constantemente, como são também aquelas a quem os deserdados mais recorrem. E são também as que mais depressa respondem, sem burocracias inacreditáveis que só quem as conhece é que pode dizer a selva que aquilo é. Uma corrida de obstáculos que parece obedecer à ideia que os pobres são culpados por serem pobres.

Portanto, o censo. Uma oportunidade falhada para chegar a resultados úteis e rápidos. Uma ameaça vã e desnecessária. Uma previsível falta de informação total, cabal e fidedigna.

 

O título deste folhetim tem a ver com a figura, a triste figura, a desprezível figura de um acusado de graves crimes, mais graves até por terem sido exercidos quando o acusado tinha altas responsabilidades públicas e deveria ser o garante das chamadas “virtudes republicanas”.

Uma pessoa, tenta safar-se do mundanal ruído deste processo mas não tem safa. Melhor, safa tem, basta mudar-se para os antípodes pois pode ser que na Nova Zelândia ninguém, fale de um fait divers português, uma coisa abjecta de faca e alguidar.

É que, por cá, ´impossível escapar incólume. Até a senhora mãe do Primeiro Ministro resolveu sair a terreiro para denunciar uma “perseguição” medieval e tremenda.  Todos tem direito a uma opinião livre mas, neste caso, a opinião sofre de vários achaques. À uma é a mãe do Primeiro Ministro, o que talvez implicasse uma certa reserva. Depois, o artigo é pobre, muito pobre em argumentação. Finalmente, e por isso mesmo, defende mal, ou acusa, apesar de tudo, quem pretende defender.

Depois, ja as televisões que já se aperceberam que uma entrevista ao “animal feroz” e encurralado é algo que dá share (s é assim que se escreve). O dito “animal feroz” escoicinha por todos os lados, o que é lógico, e consegue enredar-se mais e mais na trama que o envolve. A entrevista mais parece uma tourada com pegas de caras e de cernelha por dá cá aquela palha. Mesmo o público não resistiu (quando nada o obrigava, e sobretudo a defesa de um português escorreito) a publicar um artigo de auto-defesa que é dramaticamente risível.

Entretanto, alguns políticos, poucos, do PS tentam sacudir a água do capote. São os que sempre, ou quase sempre, se opuseram ao dito “animal feroz”. A maioria, porém, está nas encolhas, mesmo se eixa cair algumas pérolas de veneno, como quem não quer a oisa. A drª Gomes está nas suas sete quintas que este escândalo permite-lhe continuar a sua cruzada favorita. Até parece que há quem lhe queira dar lugar e espaço...

Deixmos este tema deletério cujos miasmas são insuportáveis. E recordemos a uma verdadeira multidãoo de portugueses que fervem à temperatura do ângulo recto que o sr. juiz Ivo Rosa não é removível assim por peditório publica mesmo de cem mil criaturas que não percebem que o seu gesto de indignação permite mais uma vez temer pela sorte da democracia tanto ou mais do que a teorias da conspiração. E muto mais do que o Chega que ontem respondeu com um milhar de criaturas uivantes a cinquenta outras tristes criaturas que o querem fazer desaparecer. A estupidez destes democratas de algibeira alimenta o reacionarismo mais puro e duro. Arre!

 

O articulista da última página do Público, Rui Tavares, atira-se com unhas e dentes ao PPD por causa de uma advogada candidata à Câmara da Amadora. Parece que a criatura diz coisas insuportáveis. Se sim, Tavares pegava na pena e desfazia-lhe a argumentação, sem meter ao barulho um partido que não suporta. Depois, noutro artigo analisava as opcções autárquicas desse partido e cantava.lhe a missa toda com sermão de pregador de fora. Agora misturar alhos com bugalhos é que me parece insensato. Eu creio que esta Câmara é desde sempre ganha por gente de esquerda pelo que esta corrida vi ser curta e grossa. Mas Tavares, ao ouvir chiar no corredor, as botas do moço da tipografia, resolveu descascar no bey de Tunes, se é que a minha lembrança do imortal enterrado em Tormes está certa. Tavares acrescenta algo que o devia envergonhar. Fala do eventual apoio a um “corrupto” candidato a outra autarquia onde gnhará de certeza. Era bom lembrar que essa pessoa foi condenada por branqueamento de capitais e não por corrupção. Que cumpriu pena e está com todos os direitos cívicos restabelecidos. Que, portanto já pagou a sua dívida à sociedade.

Eu que nada tenho a ver com toda essa “boa gente” lembraria que em questão de apoios Tavares andou de lira ao alto a entoar loas a uma deputada que logo que se viu eleita o mandou a ele, e ao partido que a candidatou, às malvas ou qualquer outra coisa começada por M. Recordaria também, que ele, Tavares depois de eleito por um partido para o PE se demarcou dele e continuou como se nada fosse no Parlamento num lugar que o modo de votação existente em Portugal prova à evidencia que não era dele mas do partido. Foi feio, muito feio.

Quem tem telhados de vidro...

* na vinheta: arte maori (já que referi a Nova Zelandia...)

homem ao mar 5

d'oliveira, 18.04.21

Liberdade condicional 13

ninguém escapa à História

mcr, 18 de Abril

 

Parece que no próximo dia 20passará o 41º aniversário das FP25, uma organização terrorista que deixou um lastro de 17 ou 18 mortes, por inúmeros feridos, assaltos a bancos e outras malfeitorias .

As FP25 eram uma caricatura torpe e infame das organizações armadas que floresceram venenosamente na europa Ocidental entro fim dos anos 60 e o início dos 80. O paroxismo poderá ter sido atingido pela “Rote Armee Fraktion” que numa Alemanha Ocidental próspera foi buscar à contestação estudantil (nomeadamente à berlinense – ocidental, claro que, no outro lado do muro, a justiça “popular, socialista e revolucionaria” matava no ovo qualquer protesto mesmo o mais pacífico) as alegadas razões para combater o Estado burguês e “neo-fascista”. Durou pouco esta organização por evidentes razões: impreparação teórica, incapacidade de se “ligar às massas” e incapacidade de determinar objectivos evidentes. Aquilo era, como depois com os aberrantes kmeres vermelhos de Pol Pot, uma conjura de intelectuais ultra-radicalizados, desconfortáveis com a sua situação de classe, mais ainda com os privilégios de que disfrutavam e embriagados com uma ideia ultra-romântica de Revolução a que os novos tempos de crescimento económico não deixavam espaço ou razão. 

O mesmo, de resto sucedeu na Itália de finais de 60. No norte (no Norte, não no sul pobre sujeito a tudo è à máfia) rico e industrializado, controlado pelos sindicatos comunistas e com centenas de localidades governadas pelos comunistas, um pequeno grupo de estudantes, acreditou que o aburguesamento do Estado e do PCI deveria ser sacudido por acções de guerrilha de rua, citadina, para despertar a “classe operária” que não percebia que estava a ser oprimida. 

A classe operária não despertou e o saldo das acções que começaram por tiro nas pernas de alvos escolhidos e terminaram com assassínios de personalidades da Direita, entre as quais Alfo Moro, dirigente democrata cristão que tentava uma espécie de aliança com o PCI, prova provada da maldade intrínseca da DC e do abandono dos ideais revolucionários do PCI!

Em Portugal, como de costume, a coisa demorou a chegar. Aliás, praticamente só chegou depois do fim do Estado Novo e do estabelecimento da Democracia.  Dois grupos destacaram-se um continuando o combate das Brigadas Revolucionárias, mesmo depois do “5 de Abril. Assaltos a bancos, qualificados como “recuperação de fundos” (como se vê, a “nov-língua” já na altura fazia milagres) 

Desaparece como organizaçãoo autónoma embora alguns militantes tenham integrado as FP25 que durante quase dez anos permaneceu em actividade. 

Tentar, 40 anos depois, perceber o porquê de uma organização violenta  num país pacificado, democrático, com um parlamento onde inclusivamente, e para além de uma forte presença comunista, havia um deputado da extrema-esquerda, é algo que, ou não tem explicação lógica, ou remete para o domínio do delírio revolucionário tardio. E criminoso porquanto há na contabilidade sinistra desta associação de malfeitores 17 (ou 18) mortes. 

Na verdade, como com as anteriores e já referidas organizações em outros países, nunca se verificou um apoio popular, proletário às acções das FP25. Nunca, repete-se. Em segundo lugar, são vagos e desconexos os motivos ideológicos apresentados por militantes entretanto presos. Limitavam-se a uma confusa verborreia proto-marxista traduzida em calão. Não vale a pena, ou melhor vale a pena, recordar os textos patéticos e o julgamento em Monsanto. As declarações dos arguidos constituem uma peça aterradora do analfabetismo político. E aqui incluem-se as sucessivas declarações do responsável máximo que, já antes, em pleno PREC se contradizia veementemente. Bastava apontar-lhe um microfone e a criatura soltava pérolas de tolice. 

À boa moda portuguesa (os recentes episódios jurídico-processuais que alarmam a sociedade não são sequer novos ou surpreendentes à vista do aborto jurídico que acabou numa amnistia às três pancadas que mandou em paz, ladrões de bancos e assassinos indiscriminadamente. O alegado cérebro, ou mais justamente o títere transformado em líder da coisa passeia-se por aí  com direito a faladura anual (estamos próximos de o voltar a ouvir) como se nada fosse. 

Desconheço se o livro agora publicado (“Preso por um fio, Portugal e as FP25”, Casa das Letras, 2021) vale a pena. Na verdade mereceu uma chamada de atenção de página inteira do “Expresso”. Suponho que, para alguns, só isso fará fugir algum eventual leitor para quem o semanário é um agente de tudo o que é mau, desde o capitalismo ao imperialismo, da Direita ao fascismo, da burguesia ao patronato. 

Pelo sim, pelo não, irei lê-lo. Com o confinamento há tempo para tudo.  E ainda não é demasiadamente tarde para perceber... 

Finalmente, e antes que algum leitor, me salte ao caminho acusando-me de atacar as forças “progressistas” & assimiladas, há que lembrar que uma defesa  de método abre a porta a todas as tentações da uma ultra-direita igualmente descrente do valor da vida humana e dos direitos de cada um. O terrorismo é uma arma “política” que serve todos os interesses mais divergentes brutais e expeditivos. Matar o adversário com um tiro na nuca ou com uma bomba (mais eficaz porque pode atingir mais gente) é semp um crime, uma cobardia e, a l alongue, uma inutilidade. Matar homens não é o mesmo que matar ideias, ideologias, governos ou partidos. É um mero assassínio. 

E foi isso o que as FP25 fizeram. Nada mais, só isso.

Vinheta? Não há, mesmo se abundem fotografias sobretudo do julgamento. Caras tão determinadas e sorridentes como sócrates. Um nojo. A essa gente nem um milimetro de publicidade. quando me cruzo com um deles, nem o vejo.

 

homem ao mar 4

d'oliveira, 17.04.21

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Liberdade condicional 12

 52 anos! Já?...a nossa juventude

mcr, 17 de Abril

 

maio foi antes de abril mês de Portugal

mas isso foi antes

das guerras das dores

do saber e das lutas

de Coimbra...

 

Acabo de sair de uma esplanada onde estive com o António Lopes Dias já várias vezes aqui (blog) referido. Aliás fez parte, há muitos anos, da equipa deste blog sob o pseudónimo de Anto, um pseudónimo muito coimbrão e muito poético mas, de facto, o Didi, assim o chamamos carinhosamente, é poeta, esteve em todas e só falhou 69 porque... já estava formado e a estagiar. 

Mas tinha feito Caxias em 62, caso fazer caxias vos cheire a “estar dentro” pela malfeitoria de ser um homem livre e um lutador pela liberdade. Tropeçou na PIDE, ou esta nele, devido a ter participado na crise de 62 e ter ocupado a sede da AAC encerrada pela polícia e pelas autoridades académicas sempre, sempre, mancomunadas com o poder.

Somos amigos desde 61, desde o CITAC (onde ele fazia, no “Grande Teatro do Mundo “ de Calderon um rei inesquecível), tivemos escritório de advogados juntos, participámos na redenção das Caixas de Previdência em 75,  voltamos a reencontrarmo-nos profissionalmente sete anos depois na Segurança Social. Enfim, partilhamos tudo ou quase.

Desta feita fui pelo último livro dele  “Arquitectura  dos sonhos” (Chiado ed, 2021) sem saber que viria a encontrar a nossa comum juventude, num poema de 69, datado de Coimbra onde ele vinha amiúde porque a Lena ainda por la andava. Ainda por cima falámos da data de hoje! Eu nem sei se o Didi ao falar de Maio, estaria também a recordar a nossa primeira prisão, justamente em Maio de 62, a ida para Caxias em autocarros flanqueados de polícia de choque armada até aos dentes. E ele, poeta, franzino, e com sono adormeceu encostado ao ombro do polícia que o guardava e que permanecia mudo e quedo como um rochedo! A noite já ia longa e o malandrim com sono nem olhou para o lado: ferrou-se a dormir cabeça apoiada no braço matulão do policia de choque! É preciso coragem, inconsciência e muito sono. E eu perdido de riso sem me lembrar que não íamos para bom sítio, nem por quanto tempo...Outro inconsciente mas acordado.

A bem dizer, não esperava muito do dia 17 de Abril de 69. “Isto pode dar merda!”,  disse a um camarada que encontrei logo pela manhã muito antes da hora marcada para a concentração de estudantes diante do novíssimo edifício das Matemáticas que iria ser inaugurado pelo Presidente da República. E com esse companheiro fizemos um pequeno giro pela zona para determinarmos por onde fugir se as coisas dessem, como costumavam, para o torto. Consoante a polícia viesse de um ou de outros lados tínhamos a opção de nos escafedermos pela zona do Instituto Botânico, pelo Hospital Velho até às Químicas, por umas escadinhas em desuso junto das Monumentais numa corrida até à república de “Ay –ó-Linda”, ou em direcção à Porta Férrea onde poderíamos obliquar para a esquerda até ao Colégio da Trindade ou à direita, passando pela faculdade de Farmácia e atingir a Sé vlha por cima. E daí para o mundo.

Enquanto discutíamos esta grave questão, foram chegando colegas, amigos e malta desconhecida mas estudante. “”Chiça que há mais gente do que esperava!” disse o meu conspirativo parceiro. E era verdade. Um di sem aulas era pretexto para noitadas e para dormir aé ao fim da manhã. Mas não, ali iam chegando, fresquinhos ou com fartas olheiras de pouco dormir, mais e mais colegas. E a cena compôs-se, como se costuma dizer, “um bom quadro humanos” a aguardar autoridades políticas e académicas. Depois chegou uma companhia de soldados para prestar as honras militares. “Porra, mcr, isto está mau!” avisou o meu camarada de outras e mais clandestinas lutas. “Isto são maçaricos, retorqui, carne para canhangulo. Daqui a dois meses estão em África bem lixados” E expliquei que as espingardas nem balas deveriam ter. E acrescentei, “quem vier por mal, vem à civil. Se houver porrada é a polícia ou a GNR, não estes rapazolas a desmamar na tropa”.

Não sei se veio polícia que se visse e não me dei ao trabalho de me pôr a identificar a bufaria, os pides do costume. O dia estava bom e nem por sombras imaginava que as “autoridades”, um bando de cretinos envelhecidos, iriam dar-nos um pretexto para acender uma bernarda que durou meses.

Vê-se que, por muito “revolucionário” que me considerasse eu não contava com todas as alternativas (excepto a dos pontos de fuga!...). É que sempre tinha considerado que os nossos inimigos eram suficientemente cabrões e inteligentes para não darem passos em falso.  Éramos nos, rapazolas ingénuos, que deveríamos ser pouco prudentes, irreflectidos, não eles com dezenas de anos de treino contra o “reviralho”.

Enganei-me. Aquilo que sucedeu, a promessa e falta de cumprimento dela (permissão para o Presidente da AAC discursar) foi obra de Thomaz e dos restantes imbecis que o acompanhavam. Só deles.

As crises começam sempre, ou quase, por incidentes menores é, desde esse dia, uma verdade quase absoluta para mim.

Contar o que já foi contado dezenas de vezes não tem interesse. Deixo isso para quem se considerar “velho combatente”

Não fui um herói. Fiz o que tinha a fazer. Fi-lo com paixão, com determinação, com frieza e... (desculpem lá esta) com prazer. Ainda hoje me rio com algumas das coisas que sucederam. Depois...

Depois, o riso esmorece, apaga-se. E recordo os que já cá não estão, o António Mendes de Abreu, a Fernanda da Bernarda, o João Bilhau, os Alfredos (Fernandes Martins e Soveral Martins). E mais um batalhão de outros que os anos passam com o seu cortejo de lutos. E choro-os, hoje, como chorei quando morreram.

E agora, cinquenta e dois anos depois, recordo-os vivos, risonhos e carregados de futuro.

*as vinhetas: 17 de abril de 1969, de manhã.

A citação é obviamente de um poema de António Manuel Lopes Dias, tirada do livro que me ofereceu hoje. “Já vou a meio, Didi já tenho pena de acabar!..”

(não referi, nem referirei o nome do camarada cospirativo. Acabávamos de sair sem querer de ua célula pró-chinoca. O meu controleiro desandara para o exílio e a malta ficou sem ligações. E começaram a circular notícias da famosa granderevolução cultural proletária que eram de arrepiar desde a imbecilidade total do culto a Mao até à depuração gigantesca e mortal que se ia levando a cabo. "O Oriente é vermelho" era verdade mas de sangue não de liberdade.

 

homem ao mar 3

d'oliveira, 16.04.21

 

 

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Liberdade condicional 11

outro cinema?

mcr, 16 de Abril

 

O “Público” de hoje traz no seu suplemento Ypsilon um longo artigo sobre joseph Losey, um cineasta americano que se exilou na europa devido à perseguição mac-cartista.

Atribui-se ao mac-cartismo grande parte dos males do ciema americano (e das artes em geral, convém lembrar) mas neste específico domínio já as grandes produtoras tinham começado a cercear a liberdade criativa, através de acordos de defesa da moralidade e outros do mesmo jaez. O cinema tornado grande indústria do espectáculo, impunha-se limites, fronteiras, barreiras, policiava actores, argumentistas e realizadores bem antes do delírio do senador Mc Carthy lançar a sua cruzada. A América consegue produzir cruzadas moralizantes e políticas em quantidade impressionante. Da Direita até à Esquerda com um à vontade estarrecedor para nos europeus  “blasés”. As melhores causas embarcam com facilidade surpreendente no expresso do radicalismo sejam elas o #me too# ou o anti-racismo. E arranjam com alguma facilidade imitadores na Europa, há que dizê-lo. Os Pilgrim fathers venceram os libertários e há na América profunda, fora de uma dúzia de cidades cosmopolitas, uma contínua fermentação de aventureiros religiosos, de seitas políticas, que, quando apanham um Trump a favor mostram o lado mais horrendo de tudo desde o capitalismo, a religiosidade bacoca, à perseguição da originalidade, da liberdade da aventura.

Claro que o território que propiciou o senador Mc Carthy, um político ambicioso, intolerante, arrogante e ignorante teve muito a ver com o início da guerra fria, a competição com a URSS, a descoberta de um partido comunista com redes subterrâneas de apoio à espionagem soviética.

O cinema, o principal meio de diversão americano, foi provavelmente a maior vítima: já inquinado pela moralidade provinciana e pelas famosas regras de conduta, foi fácil juntar aos exemplos de imoralidade de um par de actores conhecidos características políticas que faziam perigar a essência do americanismo. Dashiel Hammett ou Dalton Trumbo (um escritor de um argumentista) juntam-se a Joseph Losey um realizador que depôs na comissão de actividades anti-americanas com alguma coragem. Ao contrário de Elia Kazan (“Há lodo no cais”) que para continuar a fazer filmes denunciou amigos e colegas. Tudo em directo pela rádio, pelas actualidades cinematográficas, um srip tease, um espectáculo de  “burlesque” que encheu de pavor e de prazer as noites plácidas da América profunda.

É bom lembrar que muitos sindicatos ajudaram, que cidadãos pacíficos e democratas se assustaram, indignaram e pediram a cabeça dos inimigos da América.

Losey fugiu para a Europa e realizou aí um largo número de filmes que deixaram marca. Nos anos sessenta era idolatrado pelos cineclubistas e pela crítica. E alguma razão havia pois é autor de uma boa meia dúzia de filmes que não envelhecem. Ou envelhecem bem, pelo menos para mim que os vi em primeira mão.

De todos destaco “Eva” com a sublime Jeanne Moreau (vinheta) num papel de “má” extraordinário,  delicioso, que conseguia apagar a belíssima Virna Lisi, vítima do vilão Stanley Baker um actor que nunca passou da mediania.

Provavelmente, recordarei sempre o filme porque foi, ou disso estou convencido, aí que ouvi pela primeira vez “Strange fruit” por Billie Holiday, uma das obras primas da Lady Day, um tema fortíssimo, uma arma contra a segregação.

Não deixando de celebrar “O Criado”, “Acidente”, “O Mensageiro”, há outro “Losey” que recordo (e tenho) com alegria “Modesty Blaise”, uma comédia com a Monica Vitti que iguala os seus melhores momentos em filmes (de Antonioni) completamente diferentes.

Há realizadores muito mais interessantes (incluindo Kazan) na América ou na Europa do seu tempo. Todavia, Losey, conseguiu talvez pela história da perseguição que lhe moveram, do exílio a que foi forçado, tocar-me de uma maneira que, tantos anos depois (50, provavelmente) ainda me faz olhar para trás com alegria, mesmo se, um dos filmes que, na mesma época, também me encheu as medidas se chamasse exactamente “Look back in anger “ (film de Tony Richardson, com Richard Burton e Claire Bloom, uma senhora actriz.) versão da peça homónima de John Osborne.

Era no tempo em que da Inglaterra (e da Alemanha, da França e da Suécia ou da Itália...)  vinham filmes excelentes que passavam com êxito nas salas de cinema portuguesas. Agora essas salas desapareceram e os filmes que enchem as pequenas salas são todos americanos. Isto num país que enche a boca com a União Europeia!  Pelos vistos esta só é boa para dar esmolas...  

*na vinheta: “Eva” de Losey. E a imensa Jeanne Moreau! Ai meu Deus, que maus pensamentos me acodem nesta idade ...

    

 

 

Homem ao mar 2

d'oliveira, 15.04.21

Relação_da_muy_notavel_perda_do_Galeão_Grande_S

Liberdade condicional 10

It’s allright Ma (I’m only dying)

mcr, 16 de Abril

 

 

Se há um prémio Nobel justo, e há muitos, felizmente, esse seria o de Bob Dylan, autor de uma obra imensa, de centenas de poemas, verdadeira testemunha do nosso tempo.

O título leva-nos ao álbum “bringing it all back home” onde consta a canção que dá título ao folhetim. Em boa verdade na parte entre parêntesis é “I’m only bleeding” que no filme “Easy Rider” se converte em “...dying

Eu faço parte, até por questões de geração, dos fãs deste filme. Aliás, recordo-me bem da sua estreai  (em Coimbra)  já em 1970 se não me engano. Atrever-me-ia a dizer que o vi pouco depois, escassos dias, de sair da prisão onde permaneci algum (demasiado) tempo ainda na sequência da crise académica de 69.  Talvez, também isso, tivesse influenciado a percepção do filme que, aliás, é bastante estimado e considerado até, na América, o “retrato de uma geração”

Todavia, não é para falar de Dylan, da minha “oisive jeunesse”, das pequenas aventuras que foram ocorrendo, que fui buscar o verso de Dylan. Acontece que, os ásperos tempos que estamos a viver, e não me refiro, desta vez, à pandemia, cheiram a decomposiçãoo lenta mas crescente de um regime que permitiu, e permitirá provavelmente, o triste estado da justiça a que assistimos.

Não esqueço, obviamente, que uma instrucção é só isso. Que não só há existe a possibilidade de recurso (w já foram anunciados pelo menos dois) mas ainda haverá uma fase de julgamento, dos poucos crimes que o meritíssimo entendeu existirem e ainda vivos. Também não esqueço que mesmo entre os “enterrados” violentamente pelo mesmíssimo juiz, poderá sempre haver a ressurreição de alguns  mormente de natureza fiscal onde parece ue S.ª Ex.ª meteu água.

Também não vou discutir a questão da corrupção e, sobretudo, os extraordinários, bizarros, limites temporais do citado crime.  Por pouco não temos um crime inexistente e quase legal, mas isso tem outros pais, outros padrinhos que não o juiz. O legislador terá feito ouvidos de mercador à indignação pública que há um ror de anos se faz ouvir. Nem sequer vou pronunciar-me sobre as razões que levam tantos deputados, tantos especialistas, tantos “garantistas” a rodear os pressupostos da corrupção de tais exigências que, em boa verdade, começa-se a desconfiar de tanta defesa dos direitos... No caso concreto da corrupção, esta é uma das causas da pobreza em Portugal. O Estado vê-se incapacitado de agir,  paga mais do que seria normal, quem concorre a uma obra só a ganhará se untar a não, o antebraço, o cotovelo inclusive o ombro de quem devia mediar, garantir as regras da justiça e da equidade.

A “cunha” é uma instituição nacional que só quatro gatos pingados acham anormal. Dirigi uma instituição onde, o meu antecessor, homem do antigo regime mas duma honestidade exemplar, mandou elaborar um “livro das cunhas”. Aí se dava entrada dos pedidos, recomendações, ordens veladas e quejandos, que iam aparecendo subscritas por todo o ripo de personalidades civis, militares ou religiosas, por personalidades do mundo civil, por colegas de faculdade pelo dono do café ao lado, bilhetes, cartas, cartões de visita.

Tudo anotado com data de entrada e... com uma nota conclusiva a dar conta do êxito do requerimento. Tratava-se fundamentalmente de pedidos de emprego apadrinhados. Os próprios funcionários pediam para filhos e familiares e as suas pretensões transitavam da mesma maneira, livro, registo e conclusão!

Quando cheguei a essa instituição, modelar de resto, com pessoal competente, tinha a sorte de vir representando o novo poder democrático e de, oh insondável mistério!, não pertencer a nenhum partido com influência suficiente para impor fosse quem fosse. Mais tarde, alguém apresentou uma tentativa de explicação: num universo de mais de cinquenta lugares a preencher neste tipo de instituições, houvera o cuidado de agarrar em 10, 15%  dos lugares e atribuí-los a uns desconhecidos, o resto, obviamente foi para “os do costume” que ainda não eram os do costume, claro. O PC não precisou de lugares destes nem os obteve porque, através e outra via, a sindical, conseguiu impor um forte e aguerrido grupo de simpatizantes. Mesmo um partido conservador, o CDS teve direito a uma fatia porquanto as comissões administrativas em causa tinham um eleito pelos trabalhadores da casa. “Tout est bien qui finit bien”.

Quando fui confrontado com a existência do famoso livro, mandei conservá-lo e durante o meu mandato acrescentei-lhe uma dúzia de pedidos que, infelizmente para os peticionários não tiveram conclusão satisfatória. Ou melhor, um teve, o pedido chegou quando um concurso já terminara e o ganhador, mesmo assim, e à cautela, muniu-se de um padrinho inútil. Juntei a acta do júri à nota conclusiva com uma menção das datas do pedido e do concurso, para memória futura.

Mais tarde, noutras funções, fui com uma conservadora de museus ver uma peça enorme de prata e esmalte, que figurava a torre de Belém e tinha dentro um pequeno escrínio com terá portuguesa (ou de Goa, já nem sei). A referida peça estava numa loja de antiguidades e o dono e o intermediário pretendiam impingi-la ao Estado. Por alguns momentos, afastei-me da senhora com quem vinha e fui discretamente abordado pelo antiquário que me informou , muito à puridade que  se o Estado comprasse a peça (tenho a ideia que o preço rondava os dois mil contos, antigos e sólidos, dez por cento contemplariam o feliz funcionário proponente da compra.  Fiquei sem voz e sem saber o que dizer. Desandei para junto da colega mais corado que um tomate coração, pretextei afazeres urgentes e fomos embora, não sem a senhora dizer alto e bom som que a peça era horrenda e sem valor histórico.

Contei isto ao meu superior hierárquico que se divertiu como um cabinda com a minha situação e confusão. Ao meu pedido de inquérito perguntou-me “tens alguma testemunha?” e continuou É que se não tens é tua palavra contra a do sevandija!”

Claro que não tinha! E andei amargurado meia dúzia de dias por ter sido confundido, ainda que por breves instantes, com alguém capaz de meter ao bolso uma gorjeta.  

Hoje mesmo, corre nos jornais e televisões uma (mais uma!....) acção da PJ que envolve uma câmara municipal, um candidato a outra mais não sei quantas criaturas, três das quais presas preventivamente....

Durante uns dias, semanas, um mês quiçá, as notícias incidirão neste caso de venda de terrenos municipais. Depois, pouco s pouco, o ruído abrandará se é que se não transforma em música de fundo.  E a vida continurá...

Ora, o verso de Dylan, o fim violento do filme “Easy Rider” servem para ilustrar um certo estado de espírito que grassa por aí.

O descrédito das instituições, os ziguezagues rocambolescos do caso fétido de Sócrates, uma voz clamando no deserto da conspiração e da injustiça, uns largos milhões de euros que circulam sem se ver para onde e por quê, a demora que um mega-processo acarreta, as fragilidades a que isso está sujeuto (quanto maior a nau maior a tormenta), o ego de alguns interventores no processo, a transformção de um pobre diabo em mauzão da fita, tudo isto, graças ao comentariado (e eu incluo-me aí, mesmo se a partir de um modesto blog e a título gratuito) , o esbracejar de um dos actores principais, enquanto outros mais inteligentes, mais argutos se calam e se escafedem silenciosamente para trás do cenário, tudo isto com a estridência que se impõe, faz o retrato de um mal profundo, de um mal português de um país à deriva.

Está tudo bem ,malta estamos só a afundarmo-nos na merda!

 

(Já que citei Dylan, aqui vai um par de sugestões. De discos nem vale a pena falar. Eles são tantos que o difícil é escolher (Blonde on blonde, Highway 61, Blood on the tracks,a que junto um disco delicioso com The Band, um dos meus grupos favoritos)). Gostaria de citar o primeiro livro aparecido com poemas  e editado pela “Centelha” uma editora de que fui, com mais cem malucos, proprietário. O livro tem o título de Poemas 1. De todo o modo agora corre por aí uma edição monumental da Relógio de Água, uma senhora editora de altíssima qualidade: Dylan “Poemas e Canções”, 2 volumes.

Para acompanhar: Leonard Cohen (50 canções de amor e ódio, da Fenda, saudosa e corajosa) e, claro “Poemas e Canções”. (a inevitável Relógio de Água) A estes, por escolha de que só eu me responsabilizo, dois livros da Assírio e Alvim: “Estradas de fogo” de Bruce Springsteen e “Nocturnos”  de Tom Waits. Estou à espera de edições maiores e mais completas mas isso é com os editores... e com o público.

(de Bowie aos Stones, dos Beatles a Zappa, há versões em português a maior parte das quais já só em alfarrabistas. Mas vale a pena procurar pois aqui, há sempre pepitas em quantidade. Mais do que uma arma, a poesia das canções é um enorme prazer.

*na vinheta: uma ilustração do naufrágio de Sepúlveda (História Trágico Maítima, um dos maiors e mais notáveis livros, a par da Peregrinação. sobre a expansão portuguesa. Imprescindíveis em qualquer biblioteca portuguesa, pública ou particular)

homem ao mar 1

d'oliveira, 14.04.21

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Liberdade condicional 10

Lembrando Pierre van Passen

(Homem ao mar 1)

mcr, 14 de Abril

 

A série “estes dias que passam” chegou ao respeitável número 600. Vai ficar por aí mesmo se eu desconfie que pode ser maior ou menor. Não seria a primeira vez que eu descobriria numeração dupla ou em falta por razões de pura distração. D isto fosse algo para futura publicação forte trabalho teria não só em eliminar textos demasiadamente de circunstância (se é que não o são todos), rever erros de sintaxe, de ortografia (isto de agora haver uma tolice chamada novo acordo ortográfico. Acho que é o quinto e inútil acordo nunca respeitado pelo Brasil e actualmente não ratificado nem por Angola nem por Moçambique (pelo menos!...), enfim uma perda de tempo, uma perda de memória histórica da língua, da ortografia e uma mão cheia de dislates amplamente publicitados por estudiosos, vozes clamando no deserto da ignorância da Assembleia da República que elva esta escolha duvidosa muito mais a sério do que o combate contra a corrupção ou contra o enriquecimento sem causa. O parlamento português tem uma tendência suicidaria para se enredar em discussões bizantinas, para se entusiasmar com as grandes “fracturas” do memento mas no que toca a tratar de coisas mais sérias é o que se sabe, assobia para o lado. Então quando a coisa atinge o campo da cultura, é um ver se te avias. Naquele areópago de luminárias tristes a “cultura” é chão que nunca deu uvas.

Deixemos, porém, esta excursão inútil e passemos ao nome da série que ontem findou. Tratava-se de uma homenagem a um grande livro dos anos trinta ou quarenta: “Estes dias tumultuosos” de um famoso jornalista e escritor, Pierre van Passen. Nascido na Holanda, educado no Canadá, foi missionário antes e se tornar jornalista. Combateu na primeira guerra mundial  e depois enveredou pelo jornalismo. Escreveu uma quinzena de livros sobre “os dias tumultuosos” entre as duas guerras e especializou-se em conflitos internacionais e coloniais. O livro já citado é uma extraordinária peregrinação sobre um mundo inclemente, sobre a barbárie que alcançou larga fama e foi traduzido em todo o mundo. Cheguei a ele graças a Jorge Delgado, meu primeiro sogro, um homem culto, empenhado, combativo que conheceu a prisão e as perseguições do Estado Novo enquanto militante e responsável comunista (aquando da sua prisão era o controleiro do sector intelectual no Norte do país ou apenas na zona do Porto, já não sei exactamente.

Dotado de uma extrema afabilidade, tecnicamente muito competente, era um sábio quando se tratava de tudo o que se relacionasse com o mundo comunista. Ex-militante do PC, desde fins de quarenta, sempre auxiliou (sobretudo economicamente) quer o partido quer militantes avulsos. A sua generosidade não tinha limites e em casa dele conheci militantes e ex-militantes todos irmanados no mesmo respeito e camaradagem para com Jorge Delgado. A sua biblioteca era curiosa: consistia praticamente em livros relacionados com o movimento comunista, com a história do comunismo e incluía todos os grandes textos dos “pais fundadores”. A partir da crise de Praga começou a ter tudo quanto se publicava entre os dissidentes internos e externos da URSS e do bloco de leste.

Foi com ele que conheci as inúmeras livrarias parisienses desde as do PC e arredores até à extraordinária “Joie de Lire” verdadeira caverna de Ali Bábá esquerdista. Ah, os nossos passeios por Paris!... quando entrvamos em livrarias mais clássicas, menos militantes, ele prevenia-me “atenção esta é uma livraria “geral...”, o que o não impedia de perder horas entre as estantes da “PUF” ou da “Gibert Joseph” que tinha e tem vários andares carregados de tudo o que há para ler.

(a denominação Gibert corre sérios riscos. Gibert Jeune teve de encerrar porque o prédio onde se encontrava foi vendido. E a outra, a casa mãe na esquina Bd de Saint Michel com as ruas Racine e de l’école de Medecine.

Durante anos, desconfiei que ele e a Alcinda se hospedavam no “Saint Pierre” porque este pequeno hotel ficava a menos de 50 metros da Gibert!

Anos mais tarde, comecei a hospedar-me ali, também eu, não exactamente por isso mas porque o pequeno hotel da rua de S Sulpice onde ficava foi vendido e hoje, no mesmo local há um “cinco estrela” a que o meu bolso não chega.  A CG que é uma maníaca da limpeza e do lavar o lavado, inspecionou atentamente o hotel, gabou-lhe o silêncio da rua à noite, e deu-lhe um certificado de higiene. E já se desenvencilha sozinha para chegar às lojas que prefere!  (Chegou a ir sozinha ao Museu de Orsay, agora “M.O. “Giscard d’Estaing” –merecidamente!- o que é uma aventura!).

Toda esta deriva para lembrar van Passen e Jorge Delgado, alguém que me influenciou, me marcou, de quem fui, espero, um amigo certo até ao fim.

Começo pois, ou começarei amanhã, este “Homem ao mar”, para relembrar a terra que (não) me viu nascer mas que é a minha verdadeira terra, a de toda a infância, de parte da juventude, onde fiz amigos. Homem ao mar, é uma antiga expressão marinheira e é, de certo modo, entremeada com leituras de Verne e Salgari, um assumir dos mesmos riscos de quem escreve num blog, como simples marujo. Arriscar dizer o que pensa, ao correr dos dias, tentar sobreviver aos perigos do “mar cor e vinho” que, no caso, é apenas esverdeado, contar, de quando em quando uma história breve, não ter Deus nem amo, mas amar a vida, as gentes, na generalidade e os desconhecidos leitores que fazem o favor de me ler e aturam estas bruscas deambulações, saltos imprevistos, reviravoltas que apenas provam que vou escrevendo “em carreirinha” sem plano fixo nem outra ambição que não seja a aventura de viver, de honrar “a verdade, a áspera verdade” (Danton) e de deixar um testemunho que não é o de Robinson Crusoé nem tão pouco de Long John Silver, o pirata mas tão só o de um “pobre homem de Buarcos” se é que me permitem citar obliquamente o genial “pobre homem da Póvoa do Varzim”

Deitem a boia da vossa atenção a este Homem ao mar que se irá debater nestas águas duvidosas que nos esperam.

 

estes dias que passam 600

d'oliveira, 13.04.21

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Liberdade condicional 9

Ruído de botas ao longe

mcr, 13 de Abril

 

 

Na Birmânia morre-se com facilidade. E não apenas agora, com a renovada Junta Militar que, aliás, nunca deixou de estar presente. Digamos que, actualmente, está mais presente, mais duramente, com mais mortes do que o habitual. 

Mas, mesmo no breve intervalo “democrático” vigiado houve sempre uma minoria a pagar as favas e a ser perseguida: os Karen, ou Kaiyn para ser mais rigoroso. O principal pecado desta minoria é ser não budista. Também é verdade que houve durante bastante tempo uma forte propensão à secessão  e uma guerrilha que durou muitos anos.

Como estes, mas sobretudo por motivos religiosos, o estado birmanês perseguiu e persegue os muçulmanos, a minoria dita “rohingya”. Nos estados vizinhos, especialmente no paupérrimo Bangladesh, há centenas de milhares de refugiados que subsistem miseravelmente. São os budistas, religião maioritária  quem os persegue com mais afinco. De todo o modo há outras minorias que também não se sentem confortáveis neste bizarro Myanmar apadrinhado e protegido pela China e pela Rússia o que, até à data, tem impedido a ONU de agir.

O regresso em força dos militares aumentou os níveis já significativos de repressão de um Estado que nunca foi meigo para a população. Agora, são os democratas quem morre diariamente em manifestações. Lembro, apenas, que as duas anteriores minorias não tiveram a vida fácil quando estes alegados democratas (que agora são perseguidos) governavam sob a tutela nunca definitivamente abandonada dos militares.

A China aproveita para acertar o passo aos uigures, outra minoria de religião muçulmana, para manter o Tibete sobre um férreo (e esquecido) controlo e, já agora para acabar com as aspirações “libertárias” de Hong-Kong ou de Macau.

Desta última parcela do extinto império, cada vez se sabe menos, a nível oficial. Ou está tudo na melhor das harmonia ou o Ministério dos Negócios Estrangeiros está ainda mais cego do que eu. E sem cura que se veja. Aliás sem sequer se esperar que a actual miopia fique por aqui. Vai aumentar. Bem se vê que não querem levar as injecções mensais nos olhos. E têm razão que cada tratamento vai para os 350 euros....

 

 

Notícia respigada no Público de hoje. Já se encontrou uma tradutora para o poema da investidura de Joe Biden. Quem aposta numa mulher e negra, acerta plenamente. O jornal acrescenta que a senhora Carla Fernandes é jornalista e tradutora. Acredito piamente e espero que ela só traduza outras mulheres negras. Ou então a campanha contra a tradutora branca holandesa é apenas uma parvoíce de mau gosto...

Como diria o Manel Sousa Pereira: “É ptó que estamos...!”

E é mesmo....

PS procura-se tradutor negro, urbano, homem ( mulher não serve!) para os portugueses terem direito a ler os magníficos poemas de Langston Hughes, americano, negro e brilhante. Mas, até hoje, só traduzido por brancos ignorantes e presumidos... 

 

 

 

estes dias que passam 599

d'oliveira, 12.04.21

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Liberdade condicional 8

Sócrates, o José, evidentemente

mcr, 12 de Abril

Esta é, infelizmente, mais uma “história portuguesa”, daqueles de que ninguém gosta mas que, com fatal periodicidade, nos caem em cima. Bem que uma pessoa se pergunta “que mal fiz eu a Deus?” mas nem a divindade responde nem nós aprendemos que isto, este tipo de aleijões da História pátria, tem perseguido este desgraçado país desde há séculos. E isso ocorre porque há entre este povo, a que pertenço, uma espécie de conformismo, mesclado de bonomia, de desatenção que constitui um caldo de cultura destrutivo.

O caso Sócrates nem sequer é especialmente original mesmo se, dizem que pela primeira vez, haja na personagem um crime inédito: a corrupção que, notem bem, um juiz que o acusado, ele próprio, considerava do melhor que há, o envia a julgamento por isso! Convenhamos que para juiz de quem alguém gosta é um duro golpe.

Toda esta história de faca e alguidar começa com um artigo de Cavaco Silva onde o antigo Primeiro Ministro e futuro Presidente da República afirma que “a má moeda estraga a boa” referindo-se à confusa governação de outra rocambolesca criatura, de seu nome Santana Lopes.

(declaração de interesses: o referido político foi Secretário de Estado da Cultura e, nessa veste, entendeu nomear para o cargo vago de Delegado Regional do Norte, o segundo responsável da Delegação: eu próprio que, por duas vezes já desempenhara a título de substituição essas funções. Ao aceitar a nomeação tive o cuidado (relatado por todos os jornais por informação do Secretário de Estado que assim se gabava da sua exemplar  boa vontade política.) de informar que estava vagamente ligado ao PS de que durante pouco tempo fui militante. Assim a minha pobre pessoa foi bandeira da não politização dos cargos dirigentes da SEC.)

Claro que a coabitação durou o tempo de um suspiro, um ano, nem tanto tendo eu pedido a demissão do cargo por escrito, alegando que se os responsáveis políticos poderiam perder a confiança nos nomeados, estes também poderiam recorrer à mesma justificação para saírem por seu pé dos cargos em que teriam sido empossados. A graça custou-me mais de seis meses de espera da resposta ao meu  pedido de exoneração).

Como eu, muitos anos antes previra, a governação de Santana foi o desastre que se esperava. E foi-o a tal ponto que Cavaco Silva escrevendo o tal artigo assassino, se tornou uma espécie de padrinho de Sócrates. De facto, só a defenestração de Lopes permitiu a eleição de Sócrates. As pessoas, entre Cila e Caríbdis (mesmo se Caríbdis ainda não parecesse ser o que depois rapidamente se descobriu) precipitaram-se a favor de Sócrates na altura líder d o PS.

Eu mesmo, votei Sócrates (a eleição foi profundamente fulanizada, como porventura alguém ainda se recordará). Não o conhecia mas se me propusessem a Santinha da Ladeira, o Capitão Morgan ou o Xico Fininho, qualquer destes teria sempre o meu voto. (aliás, Santana mostrou depois de que farinha era feito e nem a triste Aliança que fundou o quer; sic transit gloria mundi...)

Em poucos meses, Sócrates mostrou o que valia e valia pouco, quase nada. Autocrático, rancoroso, tentou imiscuir-se em várias batalhas, das quais a da TVI é uma perfeita amostra. A tentativa de controlar a informação não é o menor dos seus pecados e basta recorrer a uma qualquer hemeroteca para ver que a deriva autoritária aliada a uma grosseira ignorância política, económica e financeira, teria de dar no que deu. Com ou sem crise económica, o resultado estava, e desde há muito, escrito nos astros. Não era apenas a historieta ridícula dos exames ao domingo, do currículo académico esfarrapado, era o que lhe estava subjacente. Só não viu quem não queria ver.

Sócrates trouxe a troika que este género de coisas nao aparece com a chuva . A troika chegou quando já nem havia dinheiro para pagar os ordenados da função pública (ordenados aumentados para efeitos eleitorais, pouco antes).  Finalmente houve um ministro das Finanças qe teve a coragem de pedir socorro, um socorro de última hora, desesperado que, agora, algumas pessoas fingem não ter sido oportuno...

E Sócrates saiu, de rabinho entre as pernas, pela porta dos fundos. “Até nunca mais. Estrelinha que o guie!”

Era de esperar algum bom senso e sentido de Estado na criatura. Coisa que, evidentemente, não existia, nunca existira. Os anos passaram e, certo dia, o país foi acordado com a notícia da prisão. Antes, já se soubera da vidinha em Paris, de uns nebulosos estudos, de um apartamento no XVI ou XVII, bairros da elite parisiense, da gente com dinheiro, com muito dinheiro.

Tudo isso, a casa, os restaurantes a vida faustosa, os extraordinários estudos, cheirava a esturro. Corriam histórias e boatos. “esta gentinha governa-se sempre!”, era comum ouvir-se dizer. Todavia a prisão foi uma surpresa. Não pela criatura, um “parvenu” de pequena dimensão, mas pelo facto simples e higiénico de alguém o prender. Houve quem acreditasse num país novo, mais limpo, menos passa-culpas.

O romance que se seguiu, a cadeia de Évora, a contínua peregrinação de fieis em visita, houve até ajuntamentos que foram em autocarro, aquilo parecia uma Fátima de fancaria, uma ida ao circo Barnum ou mais modestamente ao Entroncamento para ver mais um “fenómeno”.

Antes houvera o livro, a obra prínceps, uma coisa mal mastigada, insípida, medíocre mas que, mesmo assim, espantava. Não assentava o pé naquela chinela. E as vendas! O livrinho vendia-se como pãezinhos! Num país que não lê, ou lê a revista Maria e outras do mesmo jaez, ficava-se perplexo. Claro que havia sempre a ideia de que os “fieis” faziam como outros fieis, compravam e guardavam para pôr numa mesinha da sala “de visitas”, ao lado de uma cópia da Ultima Ceia e de dois recuerdos de Badajoz  ou Marbella. Fica sempre bem.

Claro que, no decurso do processo lá apareceram os compradores misteriosos, os literatos reduzidos a dois ou três mas comprando às centenas de exemplares. Que é que terão feito aos pacotes de livros é outro mistério de que esta “instrucção” bizarra não fala. E com que dinheiro compraram os livros?

Eu não sou, até por (de)formação jurídica um fã do Ministério Público. Ou dos senhores juízes. Conheço o que a casa gasta. E como no resto, nestas duas categorias profissionais há de tudo, como na botica. Nunca percebi, e vou morrer sem entender, a vantagem dos mega-processos.

Mais, acredito, até, que um juiz, no meio desta “selva oscura”, se perca. (E não deixo de pensar que também isso ocorreu...)

Faz-me porém espécie o tremendo arrazoado que ouvi intermitentemente, as conclusões surpreendentes, a desvalorização das provas da acusação, a híper-valorização das vindas das defesas.

Eu não acredito que os sisudos magistrados do MP tenham assim tanta imaginação para porem a rodar milhões sobre milhões de euros, em ziguezague, em estranhos labirintos, percorrendo quilómetros de bancos, banquinhos e banquetas para depois como numa novela de Sherlock Holmes irem poisando delicadamente na conta de um pobre diabo com ar de testa de ferro que se vê, por breves momentos (assim espero) promovido a corruptor geral!

Este “imbróglio” judicial de milhares de páginas teve momentos delirantes a começar por um advogado que sentia a delicada narina ofendida pelo “fedor” de uma jornalista e a acabar mais gravemente numa catadupa de recursos sobre decisões avulsas do juiz de instrucção para a Relação sempre ganhos pelos recorrentes. Se a justiça funcionasse como o mercado este senhor juiz já estaria despedido.

Mas não esqueçamos o principal: a personagem central que agora canta vitória mesmo se a vitória é de Pirro e faz pensar naquela expressão “de vitória em vitória até à derrota final”. Eu não vou obrigar o sr J. Sócrates a ir por uma enciclopédia para saber de Pirro mesmo se um pouco de História nunca faça mal a ninguém.

Será que a criatura ainda não percebeu que está à beira de um julgamento cuja condenação a pode meter entre grades durante uma dúzia de anos? Será que, num artigo para a “folha de S Paulo” o facto de atravessar o Atlântico (tanta água) lavou a acusação, com todas as letras, de corrupção?

E agora vem aí outro livro pelos vistos sobre a medonha conspiração de alguns dirigentes do PS. A primeira pergunta, e óbvia, é saber quem o escreveu mesmo se a assinatura seja a do costume. “Cesteiro que faz um cesto...”

A segunda vai ser se vale a pena ler a “estória”  ou se o argumento é tão flácido como o da obra anterior. Não prometo comprar mas vou espreitar na livraria algumas páginas. Com estes olhos que a terra há de comer se não forem comidos antes por um mal fdp que me atormenta.

Resumindo: um político que nunca foi mais do que sofrível – se a tanto chegou-; um engenheiro cujo título não é reconhecido pela respectiva Ordem; um descalabro financeiro que atirou dezenas de milhares de portugueses para o inferno do desemprego durante anos; uma atitude autocrática que ofendia a democracia; um intervencionismo em campos (OPAs, liberdade de imprensa, investimentos privados) que nada, excepto obscuros interesses, justificava; um espantosa concepção de moral e de ética que prova à saciedade que estas duas palavras pertenciam a outra língua e a outra concepção do mundo que a dele.  No século XIX isto dava um romance. Não de Stendhal, valha-me Deus!, mas de um escriba menor e discípulo medíocre do autor de “Vermelho e Negro”. Agora já ninguém está para romances com moral agregada. Que pena!

Na vinheta: um rio poluído nas Filipinas

 

 

 

estes dias que passam 598

d'oliveira, 11.04.21

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Liberdade condicional 7

Mtendere! Kudika! Kugula! Witchala, Mnetale!e! Kulitawala (ou) amani!

mcr, 11 de Abril

 

Não se arrepelem com o título, caros leitores. Trata-se de palavras de diferentes vernáculos moçambicanos que dizem todas o mesmo: paz. Por ordem, ci-nyanja, chope xi-ronga macua (as duas penúltimas) e makonde (as finais(.

Todas estas expressões poderão eventualmente ser entendidas numa região, o país makonde, que terá mais de 40.000 km2 para uma população que não atinge o milhão.  E isso porque, neste momento, já se verifica a presença de tropa governamental que infelizmente falhou na protecção doa autóctones e até dos estrangeiros ligados à exploração do gás natural.

 

Há dias escrevi, aqui, um texto que referia as dificuldades que um exército mesmo treinado verifica na repressão de guerrilhas. E quando falo em guerrilhas, refiro-me a combatentes que conseguem movimentar-se entre as populações sem ser pressentidos ou até sendo protegidos. Ou impondo-se pelo terror mas isso fragiliza qualquer força guerrilheira.

As populações fogem, há possibilidades acrescidas de denúncia de movimentos de grupos armados.

Ora o ataque a Palma, depois de outros (Mocímboa, Macomia...) comprovou o que já se suspeitava. Há uma força guerrilheira, disseminada, composta por pequenos grupos, rápidos e mortíferos, com direcção centralizada mas leve, que subsiste no hinterland com algum apoio. Isto não é uma marcha rápida de comandos vindos d’além Rovuma e retirando-se do mesmo modo. Montepuez por exemplo, está bem longe  da fronteira o que faz pensar que a  proto-insrreição Chabab tem focos locais, origens locais (neste  caso a exploração dos rubis) mesmo se os eventuais mentores e dirigentes venham das madrassas do golfo ou da Somália.

Ontem, ou anteontem, um militar graduado, em Palma, dizia que o inimigo se movimentava com facilidade e qe se disseminava no meio da população que não coloborava com a tropa por medo de represálias ou por simpatia com os islamnistas radicais.

Ora, aqui, há um pequeno começo de discussão. O norte islamizado de Moçambique é muito mais amplo do que os planaltos makondes abrange quase toda a zona makua e para o interior atinge o logo Niassa e outra etnias ( Nianjas, Ajauas etc...)

Portanto, há aqui um forte problema para o poder uns milhares de quilómetros a sul. E esse é o da sub-representação política de todo o Norte (e não só) a incapacidade da FRELIMO em se enraizar em extensas zonas do país, coisa que, aliás, já era visível desde a guerra civil.

Nenhum país sobrevive, pacifica e democraticamente, num território onde há grandes e diversos grupos populacionais permanentemente afastados do poder, da riqueza, ou como parece ser o caso de um mínimo vital de subsistência.

Ora, para não ir mais longe, Cabo Delgado foi uma região menosprezada durante demasiado tempo mesmo se, subitamente com a descoberta do gás natural  (cuja exploração ainda não começou...), começou a atrair as atenções de muitas e desvairadas gentes.

Os efeitos, os primeiros efeitos disto, foram catastróficos: a chegada de estrangeiros e de moçambicanos técnicos e administrativos desencadeou uma subida gigantesca de preços, criou novos pobres (e vale a pena recordar as palavras de um sobrevivente em Palma que à pergunta porque não fugiu respondeu que era pobre e que os pobres como ele não tinham possibilidades de pagar o barco ou outro qualquer meio de transporte para alcançar terra segura).

A isto tudo, soma-se o costume: ninguém deu importância à movimentações islamistas radicais que tem pelo menos dez amos de existência mesmo se não houvesse cenas de violência como as que se documentam.

E também, neste capítulo, há que notar as declarações do mesmo oficial do exército moçambicano que afirmou que muitos corpos sem cabeça poderiam ser de “rebeldes”. Que os guerrilheiros na retirada levavam as cabeças não só para não serem identificados os mortos mas, eventualmente, para recberem qualquer espécie de honras fúnebres (algo de absolutamente novo e contraditório com o que se conhece da cultura makonde e das restantes etnias que povoam o mesmo espaço).

Consta, oficiosamnente, que Portugal enviará umas dezenas de “formadores” militares para ajudar a tropa moçambicana. Suponho que serão especialistas em contra-guerrilha coisa que, desde o fim da guerra colonial desapareceu por cá. Os combatentes portugueses no norte de Moçambique estão todos, os que sobrevivem, acima dos setenta e muitos anos pelo que não virá daí qualquer ajuda. O exército moçambicano, com a ajuda interessada (espera-se) dos países vizinhos terá de formar os seus combatentes, de “makondizar” a contra-guerrilha (retiro a expressão da táctica portuguesa de “africanização” da guerra colonial que hoje tanto som e tanta fúria desperta em criaturas que nasceram já a guerra estava terminada.)

De todo o modo, há bastante documentação da ocupação  (e das dificuldades dela) dessa extensa região que vai desde a linha Moçambique-Nampula até ao Lago e ao Rovuma).Mas não há, ao contário de tantas outra etnias, um dicionário prático da língua makonde, mesmo se ela se subdivida em meia dúzia de quase dialectos. Talvez as missões católicas (daí vieram quase todos os dicionários de línguas moçambicanas, pelo menos os seis ou sete que possuo) possam fornecer vocabulários mesmo rudimentares pois não é na população das concentrações urbanas da costa que é necessário actuar mas no “mato”, junto das pequenas aldeias disseminadas pelo interior. E aí a "lingua oficial" é mal falada e pior compreendida.

Depois, a crer pelo que dizem meios de informação mais competentes que os de Moçambique, será preciso fechar a fronteira norte. A terrestre e a marítima pois há notícia de uma navegação costeira de contrabando que poderá estar associada à guerrilha. E aí também se vê que nem o Quénia, nem a Tanzânia exercem suficiente controlo sobre as suas águas territoriais. De resto, o norte do Quénia é um dos territórios favoritos dos islamistas radicais.   

Uma das coisas que mais incomoda o espectador de televisão que vê as reportagens sobre Palma, é verificar que vários dias depois, da “libertação”/reocupação da vila ainda há cadáveres nas ruas e no interior de casas esventradas. Também nisto parece haver um certo desprezo pelas vítimas, moçambicanos de 2ª ou de 3ª pelos vistos. Ou alguma falta de humanidade. Cuide-se dos vivos, claro, mas enterrem-se os mortos.

Se algum leitor estiver interessado em conhecer um pouco melhor esta região devastada e este povo de escultores de madeira, há uma obra notável que, apesar das rugas do tempo, merece ser lida com atenção, proveito e prazer: “Os Macondes de Moçambique” (4 volumes, respectivamente: 1 aspectos históricos e económicos, Jorge Dias; 2 cultura material e 3 vida social e actual, Jorge dias e Margot Dias; 4 sabedoria, língua, literatura e jogos, Manuel Viegas Guerreiro), Junta das Investigações do Ultramar, 1966 a 1970

Ao ir por ele, descobri que comprei isto em 1973, na extinta (?) Unicepe. Trata-se de volumes de 30x20  com 192, 180, 424 e 350 pp, enc. de editor, sobrecapa, numerosos quadros, mapas, ilustrações e fotografias a cor e preto e branco. Uma edição notoriamente luxuosa provavelmente em homenagem a Jorge Dias, Margot Dias e Manuel Viegas Guerreiro que, de facto, deixaram uma obra que, pese uma crítica pobre e desconexa de um tal Pereira, ombreia com as melhores. Mesmo se servia, e servia, claro,  o colonialismo português. Livingstone, Stanley, ou Capelo e Ivens serviram também em seu tempo os interesses dos imperialismos inglês, belga e português o que não retira às suas obras o valor intrínseco que tem.

Encontra-se ocasionalmente em alfarrabistas. 

Na vinheta: a obra aludida na parte final do folhetim