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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Ago19

Au bonheur des dames 407

d'oliveira

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A silly season lá vai ao tropeções

mcr 14.Ago.19

 

E a greve, idem. Agora, S.ª Ex.ª o Ministro do Ambiente, resolveu fazer doutrina laboral e sindical, a criatura tem, pelos vistos, um largo cabedal de conhecimentos. E disse que, em certos casos, provavelmente neste, os camionistas não podem ater-se ao horário normal de oito horas mas levá-lo até às onze, ou seja fazer 60 horas semanais! Vê-se que S:ª Ex.ª sabe o que é sentar-se ao volante de um camião pesado. Porventura porque senta ela própria o dito cujo nos cadeirões do ministério...

Nisto, parece estar de acordo com o homenzinho da ANTRAM que é mais papista do que o Papa e censura o Governo por não ser ainda mais autoritário. O indivíduo ataca o dr. Pardal Henriques sem perceber que aquele é o seu exacto retrato no espelho. Com a diferença, pequena mas importante de que um é, até prova em contrário, representante de trabalhadores e outro de patrões. Por mais que as coisas estejam diluídas, a luta de classes ainda mexe. E com patrões que impõem a famosa cláusula das duas horas extra diárias (que são sempre mais ao fim de contas) logo se vê quem explora e quem é explorado.

Até o PC que só acha que os únicos grevistas que não são instrumentalizados são os dos “seus” sindicatos (o resto é lumpen enganado por falsos profetas, basta ler o comunicado ou o dr. Domingos Lopes) entende que as coisas foram longe demais. E faz bem, o PC que para a próxima greve da sua gente bem pode recear outra requisição civil agora que o dr. Costa se habiruou e que a sua gente perdeu a vergonha.

Quanto à Direita bem se pode perguntar se alguém a viu ou se anda perdida nas brumas de Agosto, escondida nas areias algarvias, férias são férias, que diabo e no Twiter o pobre RR bem que tenta gracejar. Mas Rio nunca teve piada, o humor não é com ele e a gramática (ou o estilo literário) não o ajuda.

Mudemos de agulha. Agora uma dúzia de senhoras cantoras de ópera, todas mais relativamente desconhecidas umas que as outras, vem queixar-se de Plácido Domingo, cavalheiro com setenta e oito anos feitos e perfeitos. Pelos vistos há quarenta anos, mais dia menos dia, o tenor negociava o seu apoio a troco de uns favores sexuais que elas teráo rejeitado o que teve como consequência a falta de contratos e carreiras no limbo. Demoraram algum tempo a pôr a boca no trombone, mesmo se alguma queixa ainda vá até 2001...

Dantes, contava-se que muitas aspirantes a estrela tentavam um caminho menos duro e mais horizontal, oferecendo-se para ir para a cama de alguém influente a troco de um momento de glória ou de um contrato vantajoso. E citavam-se nomes, muitos nomes. Agora, é a vez das que sem atingirem a fama, atiram as culpas não para alguma eventual falta de talento mas para o apetite insaciável de ogres como Domingo. Porquê agora e não há dez, vinte, trinta anos quando o homem tinha real poder e poderia ser atacado. Nesta altura do campeonato o espanhol já quase não risca, está com os pés para a cova, o nome dele já nada diz às novas gerações.

O “me too” assume muitas vezes um certo toque de requentado e não precisa de provas. Basta uma declaração de uma “vítima” e eis que a “bem-pensância”, os politicamente correctos, os influentes do pret-a-penser na moda, todos juntos num místico casamento entre a hipocrisia e a virtude, saltem para a rua. Eu desconfio, desconfiei sempre, destes ajustes de contas tardios, sobretudo quando as notícias vm de meios onde a promiscuidade é generalizada.

Entretanto, uma notícia consoladora, ainda não foi desta que aquele fulaninho grosseiro e parlapatão que dá por Salvini, levou a água ao seu moinho. O homem é apenas uma caricatura deslavada de Benito Mussolini. Espero que acabe como ele já que não se lhe pode augurar a poética justiça de o ver desaparecer no mar cor de vinho. Arre que este mundo está horrendo. Entre os Putin, os Kim, os Trump, os Maduro, os Boris Johnson, o cavalheiro chinês, os Assad, os Erdogan e mais um largo par de personagens (nas Filipinas, no Brasil na Nicarágua ou na Guiné Equatorial), o planeta bem que está em risco. E em risco bem maior do que a invasão do plástico, o carbono triunfante, e o clima que perdeu a cabeça. Ao pé disto que vale uma greve de 2000 motoristas (800 de um sindicato e 1200 do outro)? Ou a mobilização de 12.000 agentes da autoridade (seis polícias para cada grevista (no caso de todos fazerem greve!) É obra!

* na estampa: rio poluído nas Filipinas

10
Ago19

Estes dias que passam 331

d'oliveira

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Há aqui alguma coisa que não bate certo!

mcr 10.Ago.2019

 

Afinal quanto é que ganha um motorista que transporta matérias perigosas? Anda por aí uma informação que atira para os 1850 euros limpos o salário mensal desses profissionais. Será?

Ora vejamos como é que se chega a tal soma.

Salário base ........ € 600

diversos subsídios.... 400 (perigosidade -200; outros - 200)

ajudas de custo (contra factura ou recibo).... 850

Se assim é, e é assim, temos que para efeitos de subsídio de doença ou reforma o que conta é o salário base. O resto esvai-se com o fim da actividade.

Mas há mais: os miríficos 850 euros referentes a ajudas de custo (comidas e dormidas) são pagos contra recibo ou factura. É verdade que nisto anda genericamente muita marosca. Todos os que podem metem estas despesas para cálculo do IRS e similares. Vejo isso sempre que almoço ou janto com amigos que têm pequenas empresas. Mesmo se o encontro é a título meramente particular o meu almocinho junta-se ao deles para esse efeito nos impostos a pagar.

Mas há mais: essas ajudas de custos pagam-se a todos? E pagam-se dentro ou fora do país? É que uma coisa é almoçar num modesto restaurante cá e outra é fazer o mesmo em qualquer outro país. A mesma coisa ocorre com as dormidas.

E só a quem tem de comer ou dormir fora é que cabem estas abençoadas ajudas de custo ou há o hábito de as dar a todo e qualquer cavalheiro que pegue no volante do camião cisterna? Então para que servem s facturas ou os recibos exigidos?

O uso da soma de 1850 euros parece pois ser mais outra insidiosa arma de arremesso contra estes profissionais grevistas.

Em segundo lugar, sabe-se que para ser qualificado como motorista apto para este tipo de transportes há que fazer uma formação que dura no mínimo 150 horas (norma europeia) e que custa cerca de 700 euros. Quem paga esta formação? O condutor ou a empresa?

Mas, mais uma vez, ainda há mais: o Governo anuncia triunfante que deu uma formação a militares, polícias e guardas republicanos para substituir os eventuais grevistas. Pergunta ociosa: essa formação obedeceu às estrictas regras europeias?

O número de agentes da autoridade adiantado pelo Governo atinge as cinco centenas! Quinhentos? Quinhentos quando em todo o país ao longo de todos estes anos apenas há oitocentos detentores da tal formação?

Os sindicatos e a própria ANTRAM entendem que esta duvidosa e perigosa solução não deve ser utilizada. Sejam quais forem as razões, há a clara desconfiança e o evidente receio de que algo corra mal. Se assim for a quem atribuir as culpas? (a resposta mais óbvia será a de culpar os grevistas, claro mas parece duvidoso que alguém de bom senso a considere)

Uma terceira observação que atinge a argumentação do Governo, do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral e muita luminárias que a tem difundido:

Esta greve prejudica a população. Por isso deve ser limitada a quase nada através do reforço dos serviços mínimos, da requisição civil e da parafernália de argumentos que baseiam a declaração de cris energética

Peregrina opinião! Então as greves beneficiam alguém? Quais são as que não prejudicam ou os patrões (e essas quase só ocorrem no sector privado e são raras) ou a comunidade? Tomemos como exemplo as sempre louvadas greves dos transportes tão comuns que foram durante o anterior governo. Quando não há comboios, metropolitano e transporte rodoviários centenas de milhares de trabalhadores vem-se numa aflição: como chegar aos empregos à hora estipulada? O mesmo sucede com as greves dos transportes fluviais no que toca a Lisboa. Alguém viu os cavalheiros do PS, hoje governantes, a propor medidas eficazes para prevenir os efeitos de uma greve (capitaneada pela CGTP com a normal cumplicidade da UGT) que torna seus reféns os trabalhadores mais humildes e expulsos da cidade para os subúrbios cada vez mais distantes pela desenfreada corrida à especulação imobiliária que permite transformar bairros inteiros em hostels, quartos bnb e outras empresas de alojamento local ?

Então aqui já não há um claro ataque à comunidade, pelo menos a uma esmagadora parte dela, a mais pobre, a mais desfavorecida a mais dependente? Vi, ouvi, (ontem, sexta-feira) brevemente e enojado, um senhor professor de uma dessas múltiplas faculdades de Direito lisboetas a afirmar sem corar essa barbaridade. Uma coisa é a greve contra a comunidade (esta eventual dos motoristas) outra as boas e saudáveis greves que assolaram o país e trouxeram aos que as suportaram um rosário de dificuldades, aflição e sofrimento persistentes.

Eu não gosto do sr. dr. Pardal Henriques. Todavia, não culpo o sindicato por recorrer aos serviços dele. Ao fim e ao cabo, outros e mais poderosos sindicatos tem ao seu serviço poderosas organizações políticas e sindicais pejadas de juristas e com uma imprensa fiel às ordens.

Mas as organizações sindicais clássicas (e correias de transmissão de partidos políticos) são intocáveis. Pelo contrário, esta recente criação de dezenas de sindicatos que fogem a essa lógica político-sindical são olhadas com desconfiança e alvo de todo o género de ataques. Há que abatê-los depressa não vá o exemplo alastrar e mais e mais trabalhadores tomarem o seu destino nas suas mãos. É que em Portugal trabalhador só é aquele que tem o cartãozinho certo e que corresponde à “narrativa” cada vez menos hegemónica dum progressismo serôdio e cada vez mais desviado das suas reais e antigas e boas raízes.

Depois admiram-se de verem proliferar por todo o lado movimentos populistas. E por verem desaparecer os partidos tradicionais da Esquerda (veja-se apenas o que se passa em França onde o PC e o PS são meras pequeníssimas caricaturas do que ainda há uns anos foi um movimento que, com todos os seus defeitos, conseguia levar à Presidência da República o senhor François Mitterrand.

Hoje, e sempre no mesmo país, os antigos bastiões do PC são agora o viveiro farto e viçoso da extrema direita. Vejam onde é que a senhora Le Pen consegue os seus melhores resultados. Vejam e comparem com a geografia eleitoral de há 60, 50 ou 30 anos.

Onde é que andam o poderosíssimo PC italiano (o de Togliatti ou Berlinguer) ou o espanhol mesmo o de Carrillo). Que se passa com o SPD alemão, em queda livre e em risco de ser ultrapassado pela reaccionária “alternativa “ em número de votos?

Dir-se-á que, à falta destes partidos tradicionais, oriundos das IIª e IIIª Internacionais, isto é com mais de cem anos, apareceram os Siriza, os Podemos, o Bloco, ou o patético senhor Melenchon. Aparecer apareceram mas nada mais incerto do que o seu futuro. O Siriza naufragou dilacerado por dentro entre um programa maximalista e a horrenda realidade. Nos destroços ficou, entretanto, o PASOK, partido socialista grego hoje desaparecido em parte incerta, como ficaram também os dois irreconciliáveis inimigos que se disputavam o título PC. O Podemos prosperou onde antes existia o PCE e mantem-se (ainda que perdendo votos) numa Espanha onde os movimentos irredentistas retiram apoio aos partidos históricos. O PSOE é agora o primeiro partido muito graças à fractura que o VOX provocou na Direita clássica que já vinha sendo acossada pelo Ciudadanos. Por cá há muito que o PC estiola e defronta nas cidades grandes uma pequena minoria (sem base autárquica ou sindical) que ganha as simpatias de uma amálgama de movimentos provenientes de antigas dissidências e que, pelos vistos, parece atrair pela “novidade”. Curiosamente, é este partido o único que de forma elíptica e mais do que prudente não condenou os motoristas.

Finalmente, uma última nota: no momento em que escrevo (são dez da manhã) não se sabe se a greve é de manter ou se os plenários de trabalhadores a desconvocam. Seja qual for a decisão, a balança está desequilibrada. O Governo, a Justiça, a opinião pública, todo o patronato e as bos consciências onde se recrutam os famigerados comentadores televisivos já lançaram o seu anátema sobre esta acção. Que não é oportuna, diz-se porque é Verão, as férias no Algarve são sagradas, os emigrantes estão a chegar coitados e cheios de saudades, e há a peregrinação a Fátima (por acaso esta é a menor das três grandes que se realizam -Maio, Agosto e Outubro – Diga-se em boa verdade que Fátima, no que toca a deslocações de fieis, costuma ser notícia pelos milhares de católicos que fazem o caminho a pé. Desta feita devem vir de carro... E há o argumento final dos turistas que, enfeitiçados por Portugal, nos visitam. Lembro, porém, que esses se ficam sobretudo por Lisboa. Algarve, e Porto. Mas dá jeito vê-los a infestar todo o país e a espalhar pardaus por todas as terras de Basto...

*a ilustração: capa do grande (e perseguido) jornal A Batalha durante uma das muitas (e ferozmente reprimidas) greves durante a Iª República. Por essas e por outras razões nem um operário se levantou em armas contra o passeio militar (Braga-Lisboa) de Gomes da Costa a 28 de Maio

 

09
Ago19

diário político 221

d'oliveira

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Não há volta a dar-lhe!

d'Oliveira fecit 9/8/19

 

Mesmo antipatizando com a greve dos camionistas e com o senhor advogado que preside ao sindicato, não posso deixar de me surpreender e, sobretudo, de me indignar com as medidas “robustas” com que o Governo, dito de Esquerda, a pretende combater. Serviços mínimos que andam entre os 50 e os 100%, requisição civil mesmo antes da greve começar e toda uma série de medidas “amarelas” (a polícia e a guarda republicana a serem preparadas para conduzir camiões cisterna, além de estarem a ser psicologicamente preparadas para “malhar” forte e feio nos mais insurrectos) a tropa a ajudar à festa e a torrente de ameaças diariamente bolsadas pelos agentes governamentais e partidários, a começar pela tristíssima figura do ministro Siza Vieira que, qual lebre numa corrida de galgos, já lançou a ideia de revisitar a lei da greve...

A opinião pública foi preparada para o pior, o alarme redobra soprado pelos tenores do PS sob o silêncio (ou quase) constrangido dos outros parceiros da geringonça. E da Oposição!

Se dez por cento do que se prepara para atalhar a greve tivesse ocorrido com Cavaco, Durão Barroso, Santana ou Passos Coelho, antigos primeiros ministros pelo PPD/PSD, oh que vozearia tremenda, medonha se teria ouvido. Que de manifestações, que de barricadas, que de abaixo-assinados!...

Neste Verão invernoso que precede umas eleições próximas e excitantes, soltaram-se todas as vozes populistas saídas da boca de quem se jura anti-populista.

Eu que não passo de um pobre reformista, que fui advogado de sindicatos quando isso era difícil e arriscado que já apanhei com greves de transportes violentas e prejudiciais para a vida de todos quantos trabalham e estão forçados a viver nas periferias, olho para tudo isto com um misto de horror pois adivinho o que aí virá, o que aí vem, com passos de lã. E esse futuro que condicionará a vida de potenciais grevistas não é risonho, bem pelo contrário.

Uma última palavra sobre um parecer da Procuradoria Geral da República que, ao que os jornais referem faz qualquer um pensar que moral, ética e socialmente a coisa é aberrante. Mesmo quando se diz que a greve não tem fundamento actual e apenas diz respeito a anos vindouros. Aliás, alguns dos apoiantes mais entusiastas das medidas anunciadas, desde os patronato hoteleiro algarvio até aos congéneres de outras regiões, os grandes híper mercados, tudo mostra o gato escondido com o rabo de fora. Uma greve traz sempre transtornos, seja a deste punhado de camionistas seja dos funcionários judiciais ou dos registos e notariado.

E falo destas greves quase sempre do sector público e não nas raras que ocorrem no sector privado (e essas, sim, estragam primeiro a vida aos patrões e só depois ao público em geral) porque neste abençoado torrão de açúcar são as que mais amiúde ocorrem.

Nada disto prenuncia o regresso ao fascismo e esse nunca existiu claramente entre nós pese embora a extraordinária descrição ainda vigente em vários círculos da longa noite fascista. Tivemos um regime rural e autoritário, beato e conservador que se construiu à volta da lembrança de dezasseis desastrados e caóticos anos de república assanhada, do falhanço de quase cinquenta governos de curta duração, da ausência de uma classe média que a ter existido era apenas quase só constituída pelo funcionariato público, pela militaragem e por meia dúzia de pseudo industriais que viviam à mercê do regime. O regime de 26 manteve quase intactas as estruturas herdadas da monarquia e praticamente intocadas pela 1ª república que viveu sempre do apoio de uma minoria activista reduzida às duas grandes cidades. O resto, política e socialmente, era paisagem e como tal foi aproveitado pelo Estado Novo que nunca precisou de um partido forte, de um líder fanfarrão, de organizações que enquadrassem realmente a juventude, os trabalhadores. Bastou uma polícia que já vinha de antes, a bufaria que gangrenou boa parte da sociedade, o respeito instintivo quase religioso pela autoridade estabelecida e pela “ordem”, a censura contra os raros meios de informação (jornais e rádio). E os “famigerados safanões dados a tempo”...

Nunca houve milícias do regime a sério (a Legião tornou-se logo nos anos 40 uma anedota, a MP nunca teve qualquer importância).

Portanto, que fique claro: o que se passa, ou parece poder passar-se, é apenas um renovado tique autoritário governamental que apela ao mais descarado populismo. Com a cumplicidade contrita dos partidos à esquerda do PS e o assobiar para o lado da Oposição. E cai em terreno fértil: ai as férias no Algarve, ai o turismo, ai os emigrantes que vem passar duas semanas na aldeia, coitadinhos...

Em boa verdade, os sindicatos que promovem a greve também não perceberam que, depois de uma vitória há meses, deveriam não esticar demasiado a corda. A paciência da opinião pública tem limites e o esforço propagandístico contra esta futura greve ainda por cima de duração indeterminada deveria ter explicado ao inebriado dr. Pardal Henriques a celebre formula jurídica “non bis in idem”. Provavelmente o ensino do Direito é menos severo hoje e latim uma língua cada vez mais morta. Neste momento só me pergunto como é que ele vai descalçar esta bota. onde meteu não só o mimoso pé mas o corpo inteiro. E se, porventura, é verdade que será cabeça de lista no ajuntamento do dr. Marinho e Pinto, então está feito ao bife. Espera-o a curto ou médio prazo a irrelevância total.

Mas os críticos do sindicalismo, dos direitos dos trabalhadores esses podem esperar tempos fastos ou, pelo menos, prometedores. Bem avisava o dr. Siza Vieira que era tempo de repensar estas coisas...

08
Ago19

Au bonheur des dames 406

d'oliveira

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A falsa alternativa & outras observações

mcr 9.08.19

 

Pelos vistos, o Governo indicou a dr.ª Elisa Ferreira e o dr. Pedro Marques para o cargo de comissário na UE.

Eu confesso que ainda não percebi como é que uma criatura como Marques chegou onde chegou, mesmo descontando a fidelidade ao líder supremo. Vi e ouvi, vezes sem conta, demasiadas, aliás, o homenzinho a anunciar maravilhas e autênticos milagres. Tudo redutível à conhecida e contumaz expressão “uita parra e pouca uva”. Quando se tratou de discussão política a coisa ainda foi mais confrangedora. Marques, coitado, não marcava um mero golo. Mais: permitia “frangos” espantosos aos contraditores. Um desastre.

Mesmo assim foi alcandorado ao primeiro lugar nas listas europeias do PS. Para mim, só havia uma conclusão: costa queria livrar-se a todo o custo daquele fiel entre os fieis. Garantir que o via pelas costas durante um par de anos.

Todavia, esta suposição (amigável em relação a Costa) sofre um abalão quando este envia o nome de Marques à sr.ª Von der Leyen. É verdade que ia acompanhado do de Elisa Ferreira o que poderia indiciar que Costa poderia mandar uma mensagem tipo “queres um bombom ou umas gotas de cicuta?

Também, apesar de tudo, não deixa de ser estranho o Governo não avançar com o nome da dr.ª Maria Manuel Leitão Marques. Dir-se-á que não o avançou por ela estas no grupo parlamentar do PE para onde foi eleita imediatamente atrás de Marques. E para não embaraçar a Presidente da Comissão que teria de escolher entre o nº1 e a nº2, coisa sempre ingrata.

Daí o recurso à dr.ª Elisa Ferreira, obviamente uma pessoa infinitamente mais capaz do que Marques. E isto é dito por quem não aprecia demasiadamente a candidata depois da sua prestaçãoo como candidata à Câmara Municipal do Porto. De todo o modo, a doutora (por extenso) Elisa Ferreira tem um currículo impressionante, batendo em todas as áreas possíveis o candidato Marques e isso me chega.

E espero que também chegue para a Presidente da Comissão. A bem da mesma e, sobretudo, do bom nome de Portugal.

 

A propósito de Leonardo Padura e da sua devota leitora Mariana.

Pelos vistos a doutora Mortágua vai de férias carregada de livros. Não posso pronunciar-me sobre dois mas sempre lembrarei que a biografia de Trotsky por Deutscher apesar de ser um clássico está bastante ultrapassada. Trata-se um texto apaixonado, inteligente mas escrito há mais de cinquenta anos. E muita água já passou pelas pontes de Leningrado...

Quanto à outra escolha, “A transparência do Tempo” de Leonardo Padura, recentemente editado, é óbvio, pelo menos para um habitual leitor deste autor cubano, que é seguramente uma boa escolha e, nesta lista de quatro, o mais recente e o mais adequado ao tempo de veraneio. Padura tem uma obra muito interessante, mormente tudo quanto se relaciona com o detective Mario Conde, ou seja com cerca de 90% dos livros deste autor.

Se bem que vivendo em Cuba, Padura, com quem privei durante uns dias há um par de anos, não é exactamente um fiel daquele regime. E aproveitou (muito bem) a ficção policial para nos trazer um retrato pouco favorável daquilo em que se transformou a revolução cubana: uma caricatura amarga e funesta de tudo o que era prometido também há cerca de sessenta anos.

Convenhamos: eu não pediria à doutora Mortágua que lesse (caso já tivesse ouvido falar) Cabrera Infante, Herberto Padilla ou Reinaldo Arenas. Também não esperaria que lesse “cem garrafas numa parede “ da excelente Ena Lucia Portela (um monte de prémios e traduções em vinte líguas). E Ena Lucia também vive em Havana como Padura. E, como ele, retrata a Cuba actual desde dentro. Só que o romance acima referido cobre o período mais negro e cruel da história recente cubana. E vista do ponto de vista de uma mulher, uma dúzia de anos mais velha que Mariana, é verdade, mas uma mulher que vive por escolha própria lá, no meio da tristeza.

(passo de largo pelos enormes, magníficos escritores cubanos desde Lezama Lima a alejo Carpentier. Ninguém é obrigado a ler os melhores, mesmo se cubanos).

Aliás, o que me surpreendeu foi as breves frases de Mortágua sobre este livro. Das duas uma ou já o leu (e o livro é recentíssimo) ou limitou-se a transcrever uma qualquer notícia publicitária sobre a obra. Note-se, finalmente, que ao dispor-se a ler um dos três volumes da biografia escrita por Deutscher, a deputada terá esquecido ou não conhecerá um magnifico livro de Padura exactamente sobre Trotsky “O homem que gostava de cães” cuja publicação em Portugal nos trouxe Padura e a propósito do qual - mão só – tivemos duas longas conversas.

De todo o modo, repetindo, aliás, uma proposta já antiga aqui mesmo feita, vale a pena recomentar todos os livros de Padura. Estão traduzidos em português mesmo se a sua leitura no original espanhol de Cuba valesse (e muito) a pena.

O livro de Ena Lucia foi publicado, em Portugal, pela Ambar (2004) e mais tarde, novamente em português, com a mesma tradução, em Maputo (Moçambique) pela Kutsemba cartão (2010).

* na estampa: Ena Lucia Portela uma autora brilhante que (como Jesus del Campo, "as últimas vontades do cavaleiro Hawkins", Ambar, 2004)   me deu imenso gozo traduzir.  Aí vão dois apertados abraços para dois escritores cheios de imaginação 

08
Ago19

o leitor (im)penitente 211

d'oliveira

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O estado da burocracia e a burocracia do Estado

Ou

Como gastar dinheiro inutilmente

 

Este Agosto vai ser atípico. O calor é moderado, as eleições estão perto, as medidas governamentais atropelam-se umas às outras como se se quisesse mostrar em poucos meses trabalho que deveria ter sido feito em anos. E os fogos, mas isso é já uma triste e persistente tradição do Estio.

E os “casos”. Ah!, os “casos”, as burrices, as tontices e as desculpas de mau pagador. Felizmente, para o dr. Costa, existe um cavalheiro chamado Rui Rio que parece ter sido talhado para ser o anjo da guarda do primeiro ministro.

Vamos então aos “casos”. A ideia peregrina de caracterizar uma compra de lápis, bonés e esferográficas num assunto urgente e imperioso daria para rir não fora o caso de ser sobretudo para chorar.

É difícil não pensar que esta compra traz com ela o cheiro fétido do compadrio mesmo se não for esse o caso. Um comentarista do “Público” avança a hipóteses (que, à luz do que se conhece da funçanata pública, não é assim tão descabida) de a negociata se ter feito apenas para ultrapassar a omnipresente e paralisante burocracia que, neste domínio, rege as compras feitas pelo Estado.

Eu mesmo assisti a compras estapafúrdias feitas por uma instituição em que mais tarde trabalhei. Para não perder umas verbas do orçamento, em fim de ano fizeram-se rapidamente umas compras de estiradores, de uma guilhotina enorme e de mais um par de coisas que não recordo. Os estiradores foram arrumados na cave por absolutamente imprestáveis e desnecessários. A guilhotina (enorme) serviu meia dúzia de vezes, fins a que, pelo preço e tamanho e características, não estava especialmente destinada. Acabou por ser oferecida a uma cooperativa artística...

Tudo isto ocorreu porque, naquele tempo, havia (haverá ainda?) uma regra que estipulava que se as verbas atribuídas não fossem gastas nesse ano civil seriam perdidas a favor do Estado e o orçamento seguinte teria em conta essa menor despesa. Ou seja, se um dirigente poupasse dinheiro era premiado no ano seguinte com um orçamento menor! Mesmo que as necessidades fossem maiores e prementes.

Quando entrei na instituição, consegui que, no último mês do ano civil, se utilizasse o excedente em verbas de equipamento comprando alguns tapetes para as salas do palacete onde estávamos instalados e onde era hábito haver pequenos concertos, exposições e lançamento de livros ou conferencias e colóquios. Ao que sei, quarenta anos depois, os tapetes ainda lá estão, um pouco usados mas úteis e decorativos. Já algumas das obras de arte (nomeadamente pintura e pequena escultura) andam perdidas ou. na extraordinária expressão da senhora Ministra da Cultura, estão em local incerto, por encontrar.

Desconheço quais são, actualmente, as regras que presidem aos orçamentos das instituições públicas que gozam de autonomia financeira. Se foram as mesmas são paralisantes e potencialmente prejudiciais.

Note-se, de resto, que o Estado, o nosso Estado, tem uma notóriadificuldade em lidar com compras e com vendas. Neste cpítulo, boa parte da actividade empresarial do Estado adapta-se mal à concorrenci quando não invade pesadamente a esfera do privado. No capítulo da ediçãoo de livros já aqui descrevi a visão horrenda de pilhas e pilhas de livros sepultados em armazéns repletos, a encherem-se pó, a criarem bicho. Basta recordar as centenas de títulos editados durante as comemorações dos descobrimentos. Quando descobri alguns numa pequena espécie de livraria situada na Torre do Tombo, soube que aquilo era apenas a ponta do iceberg de um gigantesco acervo perdido num armazém (em S João da Talha?). Todavia, mesmo encomendando exemplares dessa abandonada montanha de livros, não se garantia satisfação do pedido. Faltava quem fosse ao armazém e nesse faltavam escadotes ou algo semelhante para alcançar as prateleiras mais altas tão cheias quanto vazias estavam as mais ao alcance da mão do eventual mas rao trabalhador que lá se deslocasse!

Vi, claramente visto, as garagens da SEC no tempo em que esta estava na Avenida de República, pejadas de incontáveis e instáveis pilhas de livros editados com apoio do Estado. O mais extraordinário é que, estando ali, ao alcance de qualquer mão, não eram alvo de pilhagem, roubo, ligeiro desvio. Nada! Estavam ali numa espécie de limbo, afastados de qualquer eventual livraria que os quisesse vender.

Durante anos, frequentei, interesseiro e interessado, uma instituição de inegável interesse científico e editorial, onde fui pescando a preços de saldo de saldos, títulos fundamentais para quem se interessasse pela história portuguesa e, especialmente, pela da expansão colonial. Nos alfarrabistas, os escassos exemplares que se encontravam andavam a preços fulgurantes! Nos leilões a coisa ainda fia mais fino. A CG que critica, com sobrada razão, a invasão desordenada de livros por todo o lado, observou-me que, pelo menos, eu deveria comprar esses títulos em dobro para revenda do segundo exemplar. Todavia, eu (se calhar a exemplo do Estado incapaz) não consigo dedicar-me a tal negócio.

Aliás a nenhum negocio! Culpa minha, claro.

* a estampa: exemplares da revista Oceanos que andam pelos alfarrabistas a preços que uivam. Comprei muitos dos exemplares que me faltavam na Torre do Tombo e ainda consegui várias caixas arquivadoras a preços baixíssimos. Quem, a meu conselho lá foi por mais, bateu com o nariz na porta. Havia mas estavam no fmigerado armazem! 

01
Ago19

Estes dias que passam 330

d'oliveira

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Trapalhadas, trapalhices e trapalhões

mcr 1/8/19

 

Comecemos pelo mimoso caso das golas anti incêndio. Primeiro, falou-se do perigo dessas protecções contra incêndios (melhor dito contra fumo) se incendiarem. O Governo, pela voz daquele cada vez mais surpreendente Ministro da Administração Interna, começou por desvalorizar. Perante a alarmada e desconfiada gritaria, Sª Exª deu um pinote de 180 graus e pediu um inquérito “urgente”. Esta famosa urgência sobretudo em Agosto põe a apresentação do mesmo lá para bem depois das eleições...

Depois, alguém veio afirmar que afinal as golas não se incendiavam. Apenas, e graças o calor, ficavam repletas de buracos. S.ª Ex.ª e apaniguados uivaram de alegria: Estão a ver? Não se incendeiam...

Pois não. Apenas permitem a entrada livre de fumos. Não se morre assado mas sufocado! É outro conforto...

E cmo é que apareceram estas máscaras milagreiras? Pois através de um assessor ministerial que depois de exercer ,supõe-se que meritoriamente, o ofício de padeiro se alçou a assessor. É o elevador social a funcionar a todo o vapor! O homem já foi, provavelmente para outra ocupação igualmente paga. E quem forneceu (sem concurso público!) as golas? Pois o marido de uma senhora autarca socialista. Depois de uma consulta a algumas empresas (duas delas juram a pés juntos que nunca ninguém as consultou...)

E o preço? Como foi uma grande quantidade, o fornecedor disse, sem corar, que isso aumentou o preço unitário!!! Que é superior a quaisquer outras golas não incendiáveis (grave defeito!) também no mercado.

 

2 Uma lei vinda do fundo dos tempos (quem se lembra do sr. Fernando Nogueira herdeiro de Cavaco na era pré Guterres, outro fantasma) proibia a familiares directos (cônjuges, pais, filhos ou irmãos) de membros do Governo fazer negócios com o Estado & assimilados. Pelos vistos, ninguém deu por ela durante estes sumptuosos trinta anos. Agora o Parlamento descobriu a coisa e emendou a mão. A nova lei aplicar-se-á dentro de poucos meses. Entretanto há uns tantos ou quantos familiares (um filho, um marido e não sei quem mais) de governantes que fizeram tais negócios. Se é verdade que uma demissão do governante tem pouco sentido não menos verdade é que o negocio é nulo. Um ilustre jurista, esposo amantíssimo de uma governante disse alto e bom som que se estava nas tintas e que continuaria a fazer os chorudos negócios. Ora toma! E é ele licenciado em Direito e permanente presença nos media sempre a arengar virtudes democráticas!

No meio disto tudo, o dr. Costa primeiríssimo ministro, pediu um parecer ao Conselho Superior de Magistratura. Quando o parecer aparecer já a nova lei estará em vigor. Alguém, por aí, falou em manobra dilatória?

 

O mesmíssimo e primeiríssimo dr. Costa perante o fogo de Mação veio lembrar que compete aos autarcas (aliás, ao autarca ppd de Mação) a primeira responsabilidade. Parece que essas criaturas são os responsáveis locais da protecção civil. Num momento de tragédia, S.ª Ex.ª sacode a água do capote e vira-se contra o único defensor daquela pequena e interiorizada vila. Ainda por cima, o plano de Mação andava pelas gavetas ministeriais à espera de aprovação. E mesmo que já estivesse aprovado, onde é que Mação tem meios, recursos e dinheiro para fazer mais do que faz?

As acções ficam com quem as pratica, sobretudo as feias. E esta nem feia é. É medonha e indecente. E, sobretudo, absoluta, e absurdamente, injustificada.

 

Há muitos, muitos, anos, um autarca chamado Rui Rio queixou-se da imprensa ao dr. Jorge Sampaio, na altura Presidente da República. Ainda hoje, ninguém percebe que é que um alto magistrado como este tem a ver com a Imprensa, os seus direitos e deveres, abusos incluídos. Rio queria uma nova censura?

A partir daí, tirei-lhe a bissectriz, escrevi um texto sobre o assunto (que deve andar publicado neste blog) e nunca mais me ocupei da criatura. Um escriba, mesmo este, tem o direito de não se incomodar nem incomodar os leitores com este tipo de mediocridades. Rio lá foi governando a cidade, um pouco à medida de Centeno. Tudo pelas finanças públicas, pouco pelo resto e quase nada pelo que pomposamente se chama “cultura”. Pelo caminho, zangou-se com Meneses (o tal que bramava contra os sulistas elitistas) e tapou-lhe o caminho para a Câmara do Porto. Às vezes as pequenas sacanices tem bons e inesperados resultados. Meneses perdeu fragorosamente as eleições autárquicas o que foi uma sorte paraos portuenses. Todavia, agora, estas duas luminárias reconciliaram-se numa escolha atabalhoada de candidatos às legislativas. Que pena Santana ter partido a loiça e saído. Com ele ficava completo um trio impossível de imaginar.

Costa pode dormir descansado. Com este adversário não precisa de mais nada. Estou cheio de pena da menina do Bloco e do dançarino de salão do PC. O verdadeiro parceiro de Costa é RR (Rui Rio não Rolls-Royce, claro). Nunca votei no PPD, nunca o apreciei mas custa ver um partido à deriva sem rei nem roque mas com Rui e com Rio. O que finalmte parece ser a mesma (e pouca) coisa.

18
Jul19

Estes dias que passam 329

d'oliveira

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Também se morre no Verão

Ontem foi um dia nefasto. De uma só penada foram dois os desaparecimentos: Andrea Camilleri e Johnny Clegg.

Do primeiro já aqui falei várias vezes. Fundamentalmente, referi os seu romances policiis (série Montalbano, cerca de trinta títulos) mesmo se, para além desses e igualmente com grande mérito tenha publicado mais outras quarenta obras. Curiosamente, Camilleri foi um autor tardio, sobretudo no que se refere à novela policial, começada já depois dos setenta anos. E foram sobretudo esses romances os que o tornaram extremamente conhecido não só em Itália mas também no resto do mudo com particular incidência para a Europa onde está publicado quase na totalidade. Em Itália chegou a ter seis ou sete títulos na lista dos dez livros mais vendidos. Está traduzido em Portugal (uma meia dúzia de títulos, pelo menos) e toda a sua produção policial foi alvo de filmes produzidos pela RAI. Ainda há poucos meses, a RTP 2 passou durante semanas a grande maioria deles.

Camilleri faz decorrer a acção do “seu” Comissário Montalbano na pequena cidade de Vigata , na Sicília, sua ilha natal. Não é, todavia,a Máfia o alvo principal mesmo se esteja sempre presente. Na maior parte dos casos, os casos do comissário são os típicos de uma pequena cidade italiana a que não falta, aliás, a presença de “extra-comunitários” quer oriundos do Leste europeu quer do Magrebe. Como qualquer outro escritor siciliano (e eles são tantos e tão excelentes) Camilleri insiste –mesmo não carregando nas tintas – na singularidade insular, coisa aliás mais presente ainda nos romances não policiais. Terá sido essa exemplaridade que o tornou conhecido, respeitado e muito lido em toda a Itália. E no resto do mundo, pelos vistos tal a quantidade de edições em línguas estrangeiras.

De todo o modo, eis um autor a não perder. E para os mais afortunados vale a pena recomendar os filmes (conheço duas edições: a italiana e a espanhola. Autenticas pequenas pérolas de cerca de hora e meia. Ao que sei há pelo menos 18 já realizados.

 

O zulu branco.

Com 66 anos, eis que se despede Johnny Clegg, músico importantíssimo da África do Sul cuja história recente – desde os tempos do apartheid – ilustrou como poucos.

Clegg, branco foi um profundo conhecedor da cultura e sociedade zulus, aliás concluiu mesmo uma licenciatura em Antropologia sobre esses grande grupo (o maior na maioria negra) sul africano. Falava a língua com desenvoltura e os seus amigos consideravam-no um autentico mestre da dança tradicional zulu. Contra todas as proibições, desde muito jovem, começou a interessar-se pelo povo zulu de onde era originária a grande maioria dos trabalhadores negros emigrados em Joanesburgo. Foi com eles que primeiro aprendeu os conceitos básicos da grande tradição zulu e com eles começou a fazer música, misturando o rock e o pop à música tradicional africana. Cedo constituiu uma (proibidíssima) banda e cedo começou a publicar (algumas vezes em co-autoria) canções onde perpassavam a temível realidade sul africana, os medos e as esperanças da comunidade negra e de alguns brancos não conformes com o regime. Tal actividade não lhe poupou a prisão, obviamente. E o exílio, aliás. Começou por isso uma carreira internacional, sempre com uma banda mista e é autor de um dos grandes hinos anti- apartheid, “Asimbonanga” dedicado a Nelson Mandela. Curiosamente, durante um concerto já na “nova” África do Sul , o Presidente Mandela apareceu de improviso no palco de um dos seus concertos a dançar aquele hino. E a abraçar o músico branco que desafiara tudo e todos, dentro do próprio país ao criar uma banda (Juluka) bi-racial e ao cantar para todos os sul africanos sem excepção.

Músico talentoso, grande dançarino, o zulu branco provou, quase só, que a resistência dos brancos era possível como era possível uma nação arco-íris. Só isso já faz um grande homem.

17
Jul19

Au bonheur des dames 490

d'oliveira

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Notas à margem

mcr 17.07.2019

 

Emídio, Raio, Edgar, Jesus Correia e Correia dos Santos!

Eu não sei se alguma das leitoras (e leitores) reconhece estes nomes. Provavelmente não! E, porém, eles foram celebres nos finais de 40 e nos 50 do século passado. Fizeram a grande equipa de hóquei em patins de Portugal durante anos e anos. Ganhavam tudo ou quase. Oe relatos radiofónicos eram seguidos por multidões em casa, nos cafés, por todo o lado. Nós miúdos, na escola e depois no liceu, durante quinze bons dias abandonávamos o futebol e disputávamos animadissímas partidas de hóquei (sem patins). Aliás sem nenhum artefacto da modalidade. Não havia, ou se acaso havia algum stick este era caro para uma grande maioria. Que os tempos eram outros, pobres, muito pobres, hoje ninguém se lembra ou, pior, ninguém sabe. Nem sequer a Escola o lembra. Portugal no post-guerra era pobre e maltrapilho. Os ricos escasseavam e muitos deles cuidavam de levar uma vida recatada e sem esbanjamentos. Deixavam isso para os “novos ricos”, para os arrivistas, para os que tinham feito fortunas, nas negociatas da guerra, sobretudo nas conservas e no volfrâmio, no contrabando de café para Espanha (que estava ainda pior do que nós). Uma jornalista chamou ao pais o “paraíso triste” e nunca um nome foi tão bem aplicado. No meio disto tudo, de uma quase geral resignação, o hóquei foi um bálsamo, um foguete luminoso, um arco íris. E os cinco acima citados, foram bafejados pela glória e pela admiração e carinho populares. De todo o modo não enriqueceram nem foram recebidos (que me lembre) pelo Presidente da República. Terão voltado para os seus mesteres habituais e porá lá continuaram. A grande excepção era Jesus Correia que além de exímio no hóquei foi um grande jogador de futebol, do Sporting, onde fez parte dos “cinco violinos”. Terá marcado cerca de mil golos (!!!) e ganhou pelo menos seis ou sete campeonatos. Tantos quantos os de hóquei.

Vale a pena lembrarmo-nos dessa equipa agora que voltámos, depois de um longo jejum, a ser campeões mundiais.

2 Tão pública que ela é (para o anedotário nacional) a CGD, o famigerado banco público, devotado ao alto interesse da pátria e à protecção dos cidadãos, entendeu, depois de outras tropelias tais como fechar balcões a esmo, deixar de pagar juros inferiores a um euro.

Parece uma ninharia mas na verdade, para além de ser um confisco (ou uma ladroeira, escolham o termo) aqueles muitos milhares de importâncias abaixo do euro ainda faziam jeito a muito boa gente. Vá lá que, desta vez, o Banco de Portugal rosnou. E a CGD recuou, pelo menos para já.

Do passado nem falemos: a CGD, o tal banco nosso, público, já nos custou muitos, muitíssimos milhões. E ainda não se sabe o que mais se irá encontrar. Por enquanto só há um ex-gestor na cadeia e não por via da CGD mas por um pequeno e merdoso delito. Por aí, à solta, vagueiam, felizes e contentes, vários cavalheiros. Inocentes, inocentíssimos, claro. E virtuosos... muito virtuosos.

 

3 mamarrachos

(ou eu hei de ir a Viana...)

 

O que se passa em Viana com o prédio Coutinho não é sequer um dramalhão de faca e alguidar. É apenas uma vergonha. E conviria deixar de chamar nomes aos moradores que ainda lá sobrevivem, melhor dizendo subvivem que mesmo que a razão estivesse toda do lado camarário (e não está) ou dessa caríssima vianapolis que já vai em duas décadas de pouco serviço.

Relembremos: o prédio foi construído com todas as licenças necessárias. Não houve atropelos à legalidade que se saiba e de nada serve arguir que a coisa começou ainda no antigo regime. Começou mas continuou pacificamente no actual. E se é verdade que o prédio não prima pela beleza, também não é menos verdade que, dentro de Viana com casas baixas há muito pior. Isto sem falar no mostrengo ao alto de Santa Luzia, imitação horrenda do horrendo Sacré Coeur monumento construído em pagamento de uma promessa : se a França se salvasse na guerra franco prussiana (que aliás perdeu sem apelo nem agravo) ergueriam “aquilo”.

Eu percebo que, em Viana, alguém desejoso de passar à imortalidade local começasse uma campanha contra o prédio. De todo o modo, os critérios estéticos são de per si sempre contestáveis, mesmo se numa cidade baixa um edifício com 13 andares parecesse (e fosse) excessivo.

Seria bom e útil, saber quanto custou até agora futura demolição e o realojamento dos quase trezentos habitantes. Mais os honorários da rapaziada da vianapolis, os custos com advogados e tudo o resto. A ideia é que a coisa deve dar uma maquia gorda, obesa, elefântica!

Do ponto de vista moral, simplesmente moral, a guerra desencadeada contra os habitantes, a pressão exercida durante estes vinte anos deve ter sido tremenda. Sobretudo numa pequena cidade como Viana. E foi tal a pressão que muitos, quase todos (mais de 90%) foram desistindo, foram-se rendendo, acossados pela tal sociedade, pela Câmara, pelos media, pelos poderes públicos e pelas boas consciências da cidade. E os habitantes que saíram foram ou realojados ou receberam as indemnizações mais ou menos impostas.

 

Nestas últimas semanas o zelo medonho dos anti-Coutinho atingiu o auge. Cortaram a água, a luz, o gás, proibiram a entrada de familiares e, preparavam-se para proibir o regresso a casa dos imprudentes que saíssem. Foi vergonhoso e digno do 4º mundo ver os desgraçados velhos que resistem a içar a comida e a água por cordas. É inacreditável que se corte a luz a quem a paga. Por muitas sentenças que se tenham na mão. Aliás não chegam como se viu com este último recurso dos moradores com a providência cautelar.

Agora uma pomposa criatura vagamente amparada pela Administração pública ameaça os moradores resistentes com acções de perdas e danos. Essa pessoa de maus fígados e pior moral deveria, por um breve momento, pensar na angústia de quem vive numa casa a que chama sua, que é sua, que foi legitimamente comprada e vivida durante dezenas de anos.

Isto a que se assiste é o Estado, ou este triste estado de coisas, a usar da sua força contra fracos. Melhor andariam os arautos da estética se começassem a olhar para as inumeráveis criaturas que defraudaram e continuam a defraudar o Estado, o Tesouro público e a rir-se dos cidadãos portugueses. A única diferença é que estes bandoleiros que fazem do país um imenso pinhal da Azambuja, tem poder e tem força.

Claro que isto vai acabar mal para as nove pessoas (todas idosas) que ainda aguentam todo este desacato. Mas a vitória dos vianapolistas é, será sempre, uma triste vitória.

(ainda mais à margem: tudo isto se passa enquanto no parlamento se vota uma lei da habitaçãoo!...

 

4

o sr. Carlos César abandona o parlamento. Boa viajem e que uma estrelinha o guie. Segundo ele, é “um incorrigível açoriano” e por isso vai à vida. Para os Açores?

As más línguas, que as há sempre, relacionam esta saída com o facto de se ter gorado a ideia de o alcandorar à presidência da Assembleia da República! César jura que não, que nunca pensou nessa possibilidade. Que jamais correria Ferro Rodrigues do lugar. Credo! Logo eles tão amigos! Eu não sei o que é ser incorrigivelmente açoriano. Será que um açoriano pode deixar de ser açoriano? Ou sê-lo temporada sim, temporada não? Que diabo, uma pessoa é da terra onde nasceu. Pode evidentemente, mudar de terra, ser expulso dela, adoptar outra por vários motivos, incluindo o facto de encontrar trabalho e futuro noutro lugar que não o natal. Mas nada lhe tira a naturalidade.

No caso do sr. César (Carlos, de seu nome) o facto de ser deputado pelos Açores já justificava a sua incorrigibilidade. Estava no Parlamento para lembrar ao mundo, a Portugal ou aos restantes companheiros de tribuna, que, no meio do Atlântico Norte, há um arquipélago mais ou menos vulcânico que merece atenção. Nada disto implica com o ser-se incorrigivelmente indígena da Terceira ou da Graciosa ou de qualquer outra ilha açoriana incluindo o ilhéu dos Capelinhos.

Claro que o sr César pode estar farto do parlamento. Até seria uma prova de bom gosto. Mas não. A criatura garante que continuará (para mal dos nossos pecados que, pelos vistos hão de ser muitos e medonhos) a fazer política. A, como outro fantasma, a “andar por aí”.

A menos que, à falta da presidência do parlamento, volte a pensar na da região dos Açores mas isso é com os eleitores de lá...

 

5 anda por aí muito machismo disfarçado Reza a lenda que Santa Úrsula prometida a um pagão foi morta por Átila (outro pagão) por se recusar a casar com ele. As suas onze (ou onze mil)companheiras todas virgens como ela foram igualmente mortas pelos hunos ou por outros bárbaros do mesmo género e espécie. Tanta mortandade faz pensar que naqueles ásperos tempos não era bom ser mulher. E nos de hoje?

A senhora Úrsula von der Leyen teve contra ela vários cavalheiros que insistiam em acusações antigas que se verificaram infundadas ou em apreciações pouco lisonjeiras sobre o seu último e difícil cargo ministerial (Ministra da Defesa! na Alemanha!!!) mesmo que geralmente se lhe reconheçam excelentes serviços nas anteriores pastas com especial destaque para o Trabalho,

Dentre os críticos, assume especial relevo, o SPD, partido social democrata alemão em acelerada queda junto dos eleitores. Melhor dizendo, e digo-o com profundo desgosto, está a caminho de se tornar uma insignificância na Alemanha. Um pouco como o que se passa em França onde o PS está nos cuidados intensivos. Ou na Grécia onde o PASOK já só é uma triste memória.

Nada tenho contra o anterior candidato, o sr Timmermans, mesmo se também o não achasse nenhum Hércules político. Aliás, a regra não escrita do PE é eleger para este cargo um representante do partido mais votado. E esse partido é, goste-se ou não, o PPE. Claro que das últimas eleições o PPE saiu menos robusto. Mas essa falta de força não se traduziu em ganho para os socialistas antes permitiu a entrada de mais pequenos grupos políticos no PE e algum crescimento dos ecologistas. Isto para não falar dos anti-europeístas que, ontem pela gritaria dos adeptos do sr Farage se mostraram tão educados quanto as antigas claques futebolísticas britânicas

Tenho por mim que a eleição agora assegurada de Von der Leyen tem para já uma imensa virtude: Finalmente uma mulher à frente da Europa. Já não era sem tempo. Do que fui lendo sobre ela e sobre as suas propostas não vi motivo de escândalo. Cumpre os mínimos à vontade e parece-me, por exemplo, bem mais interessante do que Durão Barroso. Aliás, o facto de ter uma sólida formação académica, ser médica e doutorada, aliada ao quase inacreditável facto de, numa Europa que envelhece sem natalidade que se veja, ter sete filhos, é um bom sinal. E ter sido ministra de áreas sensíveis (Trabalho, Segurança Social e Defesa) dá-lhe um bom background. E o discurso foi bom, francamente bom.

Mas, há sempre um mas, von der Leyen é mulher. Mulher num mundo de homens de barba rija. E, pelos vistos, não cedeu nem precisou de certos votos dúbios. Aliás, dúbia foi a inesperada aliança dos anti-europeístas, com a tropa inglesa e alguns ilustres deputados sans peur et sans reproche que votaram baseados unicamente no preconceito ideológico que disfarçava também, e talvez principalmente, muito marialvismo. Parece que, contra a srª Von der Leyen há a acusação de não ter sido eleita deputada ao PE.

Finalmente, aqui, muito entre nós, o cabeça de lista do PS local foi eleito não pelo seu mérito próprio que é inexistente mas porque sim. E à frente de uma mulher competente, Mª Manuel Leitão Marques, que provavelmente faria (fará?) boa figura na lista que a nova Presidente da Comissão vai apresentar numa composição enfim paritária.

11
Jul19

Estes dias que passam 328

d'oliveira

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O cronista desconfiado

mcr 11.7.19

 

 

Nem sempre fui desconfiado, bem pelo contrário. Na minha meninice tardia (já lia livros se bem que em voz alta) a avó Aldina (a “Velha Senhora”, visitante antiga desta página) explicou-me o Natal. Não, o menino Jesus não vinha ver a árvore (naquele tempo o Pai Natal todo de vermelho via Coca-cola, ainda não era o intruso tremendo de hoje), era a família que presenteava a criançada que mal conseguia dormir de 24 para 25 (lá em casa era no próprio dia que estremunhados e ansiosos íamos, o meu irmão e eu, quase de madrugada, enfim pelo raiar das 8 da manhã, ver o que se passava junto dos nossos sapatinhos, à sombra da árvore.

Mais tarde, depois de acreditar ferreamente no que contavam Júlio Verne, Emílio Salgari e Edgar Rice Burroughs (o cavalheiro do Tarzan que li integralmente na colecção “Terramarear “ de origem brasileira e presente na Biblioteca Pública Fernandes Tomaz, na Figueira da Foz, tive que me render à evidência. Tudo aquilo provinha da imaginação formidável dos autores e, no caso de Burroughs, a África é bastante fantasiosa pois o autor nunca lá pôs o pé.

Já Verne é um estudioso, um leitor de mapas e revistas científicas e um formidável explorador de futuros prováveis a que, entretanto, consegue juntar num cenário de viagens pelos mais recônditos cantos do mundo, aventuras e heróis que as vivem vitoriosamente graças ao seu conhecimento científico. Salgari, marinheiro e viajante parte de princípios semelhantes e sobretudo de um apertado conhecimento de geografia para, também ele levar os seus heróis por mundos ainda mal descobertos, A Asia, as Américas o Extremo Oriente que os seus leitores iam conhecendo através de jornais e revistas de notável qualidade e extensamente ilustradas.

Tudo isto, toda esta digressão sobre os livros que povoaram a minha infância e primeira juventude, para explicar que sempre tentei perceber o mundo desconhecido pela leitura. Quando cheguei a África, à África verdadeira e não apenas às grandes cidades mas muito ao “mato” onde um branco era quase uma (nem sempre recomendável) novidade o choque foi notável. Aos quinze anos, mesmo sem o saber, já tinha uma obscura consciência dos males do colonialismo, mesmo se não fosse ainda capaz de objectivar claramente o sistema. Mas já sentia como injusto o “contrato”, as culturas obrigatórias (sobretudo o algodão) a injustiça do imposto em moeda no caso de populações onde ela não existia e onde a economia era de subsistência, a brutalidade boçal de muito colono e a inexplicável ausência de negros no sistema de ensino secundário. E não gostava de missionários. E achava lindíssimos os “manipansos” ou seja alguns objectos de arte africana que, sei lá porquê me pareciam extremamente expressivos. Ao invés, a maioria dos nossos conhecidos, mesmo dos interessados em “arte indígena” (!!!) adorava encomendar aos escultores makonde Nossas Senhoras, caravelas e peças para jogos de xadrez, tudo muito “africano” como se vê. Também havia encomendas de máscaras que, de modo algum, correspondiam às máscaras correntes nas culturas locais! Porém, isto era apesar de tudo um vago sinal de interesse – não vou ao exagero de falar em respeito- pelo outro, pelo negro (em português colonial pelo “indígena”). Desse curto período da minha irrequieta mocidade ( acrescentado a três outros - longos, longos- períodos de férias grandes quando já estava na universidade. Nasceu aí e continua em crescendo uma paixão por África, pelas civilizações ditas “primeiras”. Na minha caótica biblioteca jazem milhares de livros sobre África (história, arte, geografia, etnologia, dicionários e línguas além de, obviamente, tudo o que tenho apanhado sobre a “expansão colonial portuguesa” , termo propositadamente ambíguo como é sabido mas que dá imenso jeito nesta época de anti-colonialistas ignorantes e de saudosos do império igualmente néscios.

Neste capítulo incluo aquele vereador patarata que descobriu o mal absoluto no Jardim   da Praça do Império frente aos Jerónimos. Havia por lá uns canteiros representando os brasões das colónias. O pobre diabo nem hesitou: acabem-se os canteiros e assim purifica-se a história pátria! Queira ou não esta criatura, a História fica para além dele e o seu gesto tolo só a torna mais ininteligível. E mais boçalmente ideológica...

Vem tudo isto a propósito de um texto da srª doutora Fátima Bonifácio a quem a passagem acelerada dos anos terá toldado a agudeza. O texto, pobre dele, é ml amanhado, confuso, parte de pressupostos racistas , esquece que em Portugal foram assimilados e se perderam na voragem dos séculos muitas dezenas de milhares de negros trazidos como escravos. Esquece igualmente o que devemos a inúmeros “mestiços” (e só vou citar Almada Negreiros) sem falar na pujante presença de negros na cultura americana mormente na música e nas letras ou em França (também só cito Alexandre Dumas) para não falar de países onde a presença de intelectuais de “cor” (incluindo prémios Nobel) é corriqueira. Tudo sem “quotas”, notem bem.

Li hoje que um professor universitário de origem moçambicana mas residente em Portugal onde, aliás, exerce, entende a obrigatoriedade de quotas como um último e perigoso sinal de paternalismo racista branco. Não direi tanto mas temo bem que não esteja totalmente longe de alguma verdade.

O texto da senhora Bonifácio merece ter o mesmo destino que Camilo augurava a uma carta recebida: passar ao ventre da mãe terra pelo esófago da latrina!

Porem, a notícia, também de hoje, de um grupo de personalidades entendeu apresentar queixa crime contra a referida senhora. A notícia curta não explicita com clareza a base jurídica da queixa e sobretudo mesmo que seja aceite, não destrói a argumentaçãoo da autora. Apenas a transporta para o eventual paraíso dos acusados de delito de opinião. A opinião da historiadora deve ser combatida pelas opiniões dos queixosos. E espera-se que escrevam com mais clareza o que querem. E também apareceram no mesmo jornal onde o artigo saiu apelos a que se proibisse qualquer outra publicação de textos da referida autora. Há até uma senhora que o faz em nome da sua “assinatura” do jornal. Eu, que leio e pago o Publico desde o primeiro dia não me sinto defraudado. Como não me sinto atacado por tantos outros textos em que algum “ódio de classe” de duvidosa origem e de mais que duvidosos antecedentes, lá publicados. Bastaram-me os anos de leitor de jornais entre 1958 e 1974 onde a verdade era só uma e a censura se cevava à vontade nos textos vagamente discordantes. Fui alvo desse lápis azul muitas vezes (na Vértice, no Comércio do Funchal entre outras publicações) para concordar agora com qualquer espécie de censura.

O meu amigo Joaquim Namorado, que viveu e morreu comunista puro e duro, afiançava que estava disposto a colaborar num pasquim dos anos sessenta (o “Agora”) desde que o deixassem dizer o que queria. E remetia para os leitores o julgamento crítico do que defendia. Vivemos numa repelente época do politicamente correcto. Ainda há poucos meses, um grande e excelente jornal americano pedia desculpas por ter publicado uma caricatura do excelente António em que Trump e Netaniahu apareciam um de kipá e o outro à trela. E acabava com a publicação de caricaturas, cedendo assim aos lobbys mais assanhados de Israel e dos EUA.

Somos nós, o público, os leitores, os inconformados, quem perde. E a vitória dos fanáticos torna-se perigosamente mais viável. À falta de contraditório... À falta de opinião....

 

 

 

10
Jul19

Diário político 220

d'oliveira

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Surpresas?

Nem por isso.

d'Oliveira, desenganado, viaja pela pátria em 10 de Julho do ano da graça de 2019

(Costa, amigos da Grécia, a saude periclitante, os monumento e Fátima Bonifácio) Espíritos sensíveis; não leiam!

 

1 Em fim de legislatura o dr. António Costa teve (tem e terá?) contra ele o dobro das greves que atormentaram o dr. Passos Coelho. O dobro! Algo como, cito de memória, 70.000 contra 32.000 (não garanto estes números e não tive oportunidade de os confirmar).

Trocando por miúdos, o dr. Costa, que chefia um governo progressista num momento de grande distensão económica e de recuperação do emprego, consegue apagar o dr. Coelho que era o “inimigo dos trabalhadores e do povo, o “serventuário da troika e dos interesses mais infamemente capitalistas”...

Dá para pensar. Então Costa apanha com greves obviamente comandadas pela Esquerda (PC e PS – aqui o Bloco não pinta para nada, ou muito pouco) mesmo governando com o apoio da ”geringonça”? ) E Passos, o reaccionário vê-se agora absolvido, senão beatificado, dada a “indulgência” de que terá sido alvo por parte das forças sindicais?

Será que a nova frente sindical tem como objectivo derrubar ou, no mínimo, desacreditar um governo “de esquerda”?

Ou, hipótese fascinante mas perversa, os sindicalistas disparam sobre Costa para forçar o regresso de Passos e, aí sim, reafirmarem a vontade popular e proletária de uma “verdadeira” revolução?

 

2 Mafra, o Bom Jesus e o Museu Machado de Castro, já fazem parte do património da humanidade. Nada mais justo nem mais inesperado. A propósito, uma das televisões entendeu entrevistar a senhora que faz de Ministra da Cultura. Sem propriamente se apoderar descaradamente do sucesso, e também sem o negar, a senhora em questão teceu um par de considerações irrelevantes esquecendo o enorme trabalho dos proponentes deste reconhecimento. Esqueceu, igualmente, o descaso que o ministério da alegada Cultura tem demonstrado no capítulo do Património Construído.

A propósito de Mafra esperava-se que, de uma vez por todas, alguém do Governo viesse anunciar que se punha fim ao “imbroglio” deste palácio (e dependências) ter uma administração (?) repartida por pelo menos três ministérios (Cultura, Defesa e Agricultura) e uma Câmara Municipal (que deve ter um papel idêntico ao de Durão Barroso no famoso encontro dos Açores onde se decidiu atacar o Iraque por este ter armas de extermínio maciço...) Não houve fumo branco. Nem preto! Nem fumo! Nem sequer “só fumaça”...

Sobre o candente problema da autonomia de museus e restantes sítios patrimoniais a senhora em questão fez vista grossa às objecções levantadas pelo ex-director do Museu de Arte Antiga e jurou que estamos no melhor dos mundos.

Finalmente sobre o “não aparecimento” de obras de arte pertencentes ao Estado (e há uma boa centena delas “não aparecidas”) a criatura entendeu explicar que a culpa –como de costume – começou no século passado. Desta vez, nem sequer aproveitou para cascar no governo anterior. Antes referiu os “tempos longos” tão caros a uma certa historiografia: tudo começou nos anos 90. Ou 80. Ou quarenta. Ou com as invasões francesas...

(mesmo sem retirar a carga ideológica e publicitária que, naturalmente, teve, seria interessante recordar a campanha do Estado Novo na reabilitação, preservação ou restauro dos monumentos nacionais, levada a cabo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e facilmente consultável por ainda estarem à venda – em alfarrabistas, claro – oa 132 +3 boletins da referida instituição)

3 O dr. Centeno (que, como o finado dr. Salazar, quando ministro das Finanças, manda nisto tudo) veio esclarecer o povo ignaro da excelência da sua acção quanto ao Serviço Nacional de Saúde. Afinal está tudo bem, houve um gigantesco reforço em meios técnicos e humanos e um invejável investimento. Qualquer notícia sobre o estado catatónico do SNS é uma fake new.

A dr. Temido, ministra da mesma pasta, abundou no mesmo sentido: “Tout va bien, madame la marquise...”

Entretanto um estudo académico, coordenado por Pais Mamede e Adão Silva, vem propor um seguro de saúde universal que daria ao SNS pés (e mãos) para andar. É um pouco o ovo de Colombo: uma espécie de ADSE geral e universal que, com pequeno dispêndio para os cidadãos, tornaria o SNS financeiramente forte a ponto de evitar as dramáticas rupturas actuais e de, no momento do pagamento de serviços médicos, reduzir este a valores mais ou menos simbólicos, É evidente que a teoria absurda e não funcional de um SNS absolutamente gratuito cairia por terra. Como, aliás, já caiu. Entre atrasos evidentes e escandalosos e falta de assistência em muitos pontos do país, o SNS é já uma miragem que só serve para dar votos ao seus defensores que, entretanto, levam a sua miopia política e social a extremos inacreditáveis e são incapazes de explicar de onde hão de vir as cada vez mais crescentes necessidades de financiamento.

De todo o modo, ninguém, muito menos eu, acredita que isto seja levado a sério. Os esforçados defensores da “albanização” do país acham que “fazer do passado tábua rasa” é a única solução. Não é, já não é, nunca foi e os exemplos medonhos do passado século deixam cruelmente à vista o que foi o reinado da utopia (soviética & similares).

 

4 Na Grécia, o sr. Tsipras foi estrondosamente derrotado. O fim do populismo de esquerda do Siriza estava há muito anunciado. E tudo começou no exacto momento em que, para governar, se aliou a um partido de extrema direita. Depois foi o qu e viu, entradas de leão e saídas de sendeiro no conflito com a Europa, a história de um referendo que vencedor foi imediatamente desrespeitado pela ansia de continuar no poder. O reforço da austeridade por incapacidade de criar reformas que viabilizassem a economia nacional, que quebrassem o poder imenso da Igreja ortodoxa e dos principais armadores (cuja fortuna continuou intocada) e outros elementos da elite económica e financeira grega.

Ironicamente, a cereja neste bolo desastrado tem origem no único gesto inteligente e ousado de Tsipras: o acordo com a República da Macedónia do Norte.

A este propósito, recordo que a Macedónia de Filipe e Alexandre não era exactamente a mesma Grécia de Atenas, Tebas ou Esparta. E Demóstenes, ateniense e orador ímpar, bem que tentou afastar os macedónios da “verdadeira” Grécia.

Todavia, o nome “macedónia” e o emblema solar tornaram-se matéria sagrada para a maioria dos gregos e isso, como a condenação do nº 666 (o número da “besta” ou do Anti Cristo).

Por cá, os antigos amigos de Tsipras (e sobretudo, as antigas amigas) calaram-se como ratos. Para elas e eles, a Grécia já não estava na moda. Tinha-se rendido ao monstro europeu que, “cínica e miseravelmente” recusava dar mais dinheiro para um 4º resgate... Durante umas semanas, eufóricas e exaltadas, a Grécia preencheu os sucessivos vazios deixados pelos naufrágios da URSS, da China, da Albânia ou do Vietnam. Agora tudo se reduz, melancolicamente à admiração resignada dos senhores Melenchon e Iglésias, meras caricaturas dos heróis progressistas. Ou, pior ainda, do sr. Jeremy Corbin...

 

5 Uma senhora que já não é propriamente nova, professora universitária, historiadora e autora de alguns livros meritórios sobre o século XIX português, entendeu parir um texto sobre negros e ciganos e sua congénita inadaptação ao mundo ocidental. A coisa nem sequer é imbecil. Vai bem além disso .E é ridícula, mesquinha, baseia-se em preconceitos sem qualquer fundamento, toma algumas mínimas partes pelo todo e está tão disparatadamente longe da realidade que, só me apetece pensar que há idades perigosas para a razão!

Anda por aí um alarido, nem sempre inteligente, nem sempre responsável, nem sempre sensato sobre o “racismo” (que existe) e que obviamente (basta ver o presente exemplo) é cretino e afrontoso. Depois, e a par, correm uma série de propostas porventura generosas mas de resultado improvável. A ideia de quotas deeria ser temperada antes e a montante por um claro, exigente esforço desde os bancos da pré primária, desde as condições de habitaçãoo. Desde o respeito pelas minorias, desde a educação da polícia e de outros agentes do Estado.

E desde uma outra e fundamental ideia. Portugal (e o Ocidente para onde foge gente de todo o mundo)deverá exigir aos que o procuram um claro respeito pelas leis e costumes. E um rápido conhecimento da língua e da cultura nacionais. Sem isso, as sociedades ghetizadas, não saem do seu casulo e da sua estranheza. Por exemplo: é inaceitável que a certos romenos se permita mendigar ou usar a mendicidade como único meio de ida. É inaceitável o uso de burkas, nikabs e outras formas de esconder o corpo e o rosto. É intolerável a ablação d o clítoris. E por aí fora.

Isto dito, convém relembrar estoutra verdade: somos um povo emigrante. Fomos, “depressa e em força” para o Oriente, para o Brasil ou para África. E depois para o resto do mundo desde a Venezuela até à França, dos Estados Unidos à Alemanha ou à Inglaterra. Só não emigrámos para o leste europeu onde os poucos portugueses que lá passaram nunca se fixaram: o frio e o primado da ideologia sustentado na contínua vigilância policial eram mais repulsivos que “os brandos costumes do regime reaccionário e clerical em vigor no jardim à beira mar plantado. E integrámo-nos com grande facilidade. Em Malaca a raiz portuguesa quase desapareceu, o mesmo se passou na Índia e em África criou-se o termo “cafrealizado” para designar colonos que viviam sem constrangimento como os povos da região. Nada disto nos iliba dos desastres da colonização que levámos a cabo e que nunca foi especialmente humanitária ou portadora das luzes da civilização. A senhora Bonifácio, que terá tido uma juventude vagamente esquerdista e é historiadora, deveria saber isto mas pelos vistos o avanço da senectude fê-la olvidar estes maus passos desta “cristandade” pouco observadora dos Evangelhos.

Desconheço se contra chineses, indianos (e outra gente de cor) também alimenta argumentos idênticos ao seu desinspirado artigo. E, no entanto, há claríssima diversidade cultural, espiritual e social entre a Índia milenar, (com as temíveis diferenças de casta) a China ou o Japão onde ainda reina uma espécie de Deus vivo. E já que se fala de “Cristandade”, relembraria o Islão e as suas versões mais radicais, o judaísmo que continuadamente se perseguiu (e se persegue) e que na sua versão estatal mais dura trata os seus palestinianos abaixo de cão. E continuando neste mimoso caminho, será que a senhora Bonifácio também tem sobre, por exemplo, as minorias sexuais e as seitas religiosas mais extravagantes, opinião?

Aqui para nós, se a tem, ha de ser fresca, fresquíssima...

Parece que alguns ofendidos entendem que ela devia ser privada de espaço nos jornais, mormente no “Público” onde vomitou o pobre texto de que se fala. Não alinho nessa cruzada: as opiniões mesmo as mais obviamente estúpidas (e é o caso) devem ser conhecidas. Para poderem ser combatidas por armas menos perigosas do que as que foram usadas nos séculos que nos precederam (desde os campos hitlerianos aos da Sibéria e ao Congo sem esquecer os primeiros de todos miseravelmente inventados pelos britânicos na África do Sul e contra os boers.

A história recente está cheia de exemplos de intelectuais que ao lado de verdadeiras obras primas (Céline: voyage au bout de la nuit; Ezra Pound “Cantos”) foram cúmplices políticos da abjecção fascista. Mas há, entre eles e Bonifácio, uma diferença abissal: eles eram geniais e as suas obras permanecem como autênticos faróis do século XX. A senhora Fátima não ultrapassa (antes fica aquém) o padre José Agostinho de Macedo, que aliás escreve bem melhor.

 

 

(As vinhetas representam ciganos em campos de concentração nazis e negros congoleses administrados pelo rei dos belgas. À compadecida atenção da senhora Bonifácio, arauto da Cristandade e da e dos valores ocidentais. Para que saiba, se é que, coisa de que seriamente duvido, esta chamada de atenção vale a pena.)