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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 534

d'oliveira, 05.10.22

 

 

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De regresso aos “bons velhos tempos”

Mcr, 5-10-22

 

Uma senhora deputada do PS de quem eu (certamente por culpa minha e miopia política agravada) nunca tinha ouvido falar veio há uns dias propor, preto no branco, que se apagassem umas declarações de um deputado da IL que visavam a ministra Ana Abrunhosa.

Começando por aqui: as declarações feitas pelo deputado da IL eram do mais normal que se usa na AR, não continham nada de ofensivo ou descortês, como mais tarde o PS reconheceu quando apresentou desculpas pela intenção censória da sua deputada.

Esta senhora, pelos vistos nascida em 1964 e licenciada em Direito (!!!), não percebeu a enormidade da sua proposta.

Provavelmente, nunca percebeu o que era a Censura no país onde nasceu. De facto, a revolução apanhou-a com dez anos e por isso nunca viu a instituição censória em funcionamento. É crível que, também nunca se tenha debruçado pela história pregressa do país e, menos ainda, refletido sobre os efeitos da Censura.

Também é verdade que ninguém é obrigado a ter uma noção,  mesmo que vaga, da coisa. Também não sei se a deputada é estreante ou já andava pela AR, antes da catadupa de novos deputados saída desta última e miraculosa eleição.

Se é “maçarica” em S Bento, temo que a sua estreia tenha sido pouco recomendável mesmo que a burrice supina que a ameaça de apagamento envolve ser sobretudo digna de comiseração por ridícula e prejudicial ao partido que a trouxe até ao Parlamento e, pior, desservir violentamente a causa da Ministra Ana Abrunhosa.

Ao que sei, primeiro foi a estupefacção, depois alguma irritação e finalmente uma gargalhada geral.

Aquilo que poderia cair no esquecimento (a declaração da IL) ficou para a História graças à desastrada intervenção da srª dr.ª Isabel  Guerreiro.

Convém esclarecer que não se trata de uma jovem criatura, cheia de força e ambição mas de uma criatura que já anda pelos cinquenta e tais, idade mais que suficiente para ter tino, prudência e juízo, sobretudo juízo, muito.

Claro que o porta voz do PS, Pedro Delgado Alves, lá teve de vir aflito e a correr, deitar água na fervura declarando que “não nos parece  ter havido uma intenção censória(!!!?)... coisa que imediatamente a seguir corrige (para pior) afirmando que “o que foi declarado não acompanha a prática de décadas do PS na AR”

Como facilmente se percebe entre a primeira e a segunda parte da declaração de PDA há uma evidente divergência. Por um lado a prática de sempre por outro a não existência de intenção. Em que ficamos?

Isto, sem ir muito longe, é uma reprimenda à deputada que, ao que sei, não se deu por beliscada nem se lembrou de dar por finda a sua vida parlamentar. Para a qual é notório que não tem vocação e menos ainda preparação política. É de presumir que ainda ouviremos de novo afirmações desta senhora que (arrisco eu) porão em sobressalto PDA e restantes colegas.

Depois, o PS lá pediu desculpas (mesmo se estas seriam sobretudo devidas pela autora da tentativa de apagamento e não pelos seus colegas.

Às vezes, pergunto-me, ingenuamente, onde é que o PS (e os outro partidos...) vai buscar estas luminárias. Não haveria nada de melhor em todo o Algarve (parto do pressuposto que deputada foi eleita por Faro) para ter de se ir ao fundo da gaveta?

Tenho a vaga ideia de, no exacto ano do nascimento desta criatura ter sido alvo de várias tesouradas (ou do lápis azul) do militar (quase sempre um tarimbeiro, ignorante mas fiel à causa, de serviço.

Noventa por cento do que tentei publicar, morreu na praia. O defeito era meu, aliás: andei anos sem conseguir perceber como é que se fintava a Censura. Muitas vezes, poderia ter sido mais sibilino, menos afirmativo mas na verdade colecionei umas dezenas de textos estropiados quando não completamente cortados.

Guardei-os cuidadosamente mas um incêndio na minha casa levou as cópias sem piedade. O pior é que na rema de papéis incinerados foram também livros, cartas, dois múltiplos de Picasso que tinham custado muito mais do que, em verdade, eu poderia gastar . Um desastre!

É duvidoso, quase improvável, que nas redacções das publicações em que colaborei, haja vestígios desta quase clandestina actividade . Isto se é que há arquivos capazes do “Comércio do Funchal”, da “Vértice” e de ais um par de locais que me acolheram generosamente durante mais de uma década da minha tardia juventude contestaria e anti “situação” (era assim que chamávamos ao “Estado Novo” que, aliás, foi sempre velho.)

A ler, entre espantado e divertido,  as declarações da deputada Isabel Guerreiro, revivi por escassos instantes esse passado longínquo. Acho que lhe devo agradecer essa visita aos anos difíceis mas exaltantes que, cheia de sorte, ela não conheceu nem provavelmente teve o cuidado de estudar.

 

(ao terminar este folhetim, assaltou-me uma dúvida: haverá algum arquivo geral e completo da Censura ou tudo o que resta é uma placa na rua da Misericórdia a lembrar que num prédio de ar gasto e envelhecido aquela coisa funcionava?

estes dias que passam 743

d'oliveira, 04.10.22

A hora dos lobos

mcr, 4-10-22

 

“....Soit par issy, soit par Ivry

les loups ont envahi Paris...”

(R Vidalie/L Bessiéres interpr: Serge Reggiani)

 

 

Desconfio que uma parte dos meus leitores não tem ideia da belíssima canção de Regianni que serve de epígrafe para mais um par de linhas que nunca pensei escrever. 

Nem sequer sei se haverá assim tantos que se lembre do magnifico cantor (e actor) que foi Serge Reggiani.Todavia,sempre confiante na curiosidade humana que ainda é maior do que a dos gatos, atrevo-me a sugerir que usem desses meios modernos para ouvir um par de canções , muitas, de Reggiani. Ou comprem os cds bastam dois para se fazer ideia (e que bela ideia...) deste excepcional intérprete. As suas canções não ficam atrás de Brassens, Brel ou Ferré mesmo se Reggiani não fosse um autor cantor mas apenas um cantor Um belíssimo cantor!

E passemos às nossas encomendas que a tarde faz-se tardinha.

Éainda o Brasil, claro. E daí nem boas novas nem melhores mandados. O partido do actual presidente garantia para já a maioria no Congresso! E vai à frentena corrida a governadores estaduais nos mais importantes Estados. Um desastre, um cataclismo! Um naufrágio!

E começa a ser posta a hipótese de uma vitória nas presidenciais!... A maré está a encher e nada  nem ninguém se atreve a permitir um prognóstico seguro a favor de Lula.

Estão a cinco pontos de diferença quando tudo indicaria que seriam quinze ou mais!...

Há, claramente, uma dinâmica de vitória da Direita que pode causar profundos estragos. O “imbrochável” que a mim me cheira mais a ejaculador precoce, já ganhou no litoral que importa, nas câmaras, vai provavelmente averbar mais alguns governadores estaduais, só lhe falta o Palácio do Planalto. 

Lula vai ter dd dar (e muito!) à perna para quebrar este súbito e pestilencial vento da Direita mais reaccionária, dos Evangélicos, dos amantes da ordem e progresso, dos ressabiados que não esqueceram os anos “PT”.

E o PT que não se soube reformar, reestruturar, regressar a umas origens sãs e simples, tem, aqui, fortes culpas no cartório. 

A meu ver, Lula não era o candidato ideal, sobretudo pela idade, pelos problemas, pelas suspeitas que sobre ele, justa ou injustamente, pesam. A norma que prescreve não mais de dois mandatos (seguidos) tem várias e ponderosas razões de ser. E uma delas tem a ver com aidade do candidato e com o facto de durante bastante tempo ter ocupado o poder.

E notem que o caso brasileiro nem sequer é uma surpresa. A Suécia, noutra ponta do mundo, a Itáli ainda há dias, a forte escalada da Direita francesa há alguns meses podem enunciar que o tempo favorece os nacional-populismos e outros ismos ainda piores. O populismo mais dementado vem ocupando posições na América Latina. D Venezuela à Nicarágua sem esquecer a Colômbia, verifica-se que à Esquerda o populismo também vai ganhando terreno. 

Os desastres do socialismo mundial (sobretudo nas versões mais radicais) deixaram as Esquerdas moderadas desamparadas e o Centro inquieto e incpaz de se recentrar (passe o eufemismo que é mais verdadeiro do que se poderá pensar). 

A Esquerda brasileira e o centro-esquerda partiram para a batalha em ordem dispersa . Não é de agora tal desencontro mas os anos “pt”  e a própria intrusão desse novo partido no complexo xadrez político brasileiro  acabaram com um modelo mas não foram capazes de impor um novo e melhor. 

Agora, entrou em cena um rufião  e à falta de modelos mais credíveis, eis que o povo, democraticamente, em eleições que todos afirmam terem sido limpas, oferece na primeira volta um pancadão de votos à raposa que entrou ruidosamente na capoeira.

As parcas semanas que restam para o dia da 2ª volta serão suficientes para criar um clima de confiança e um novo e inspirador alento a um aclamado vencedor à primeira ou a onda, quase um tsunami, da Direita unida e esperançada vai conseguir reeleger um Presidente que, com um Congresso da mesma cor poderá fazer História. 

Mesmo sem ser crente, vou acender uma velinha Entre um candidto mau e outro pior, não há dúvidas: voto no primeiro, nem que isso signifique tomar um purgante durante uma inteira semana, aliás quatro!    

 

(o jornal Público de hoje, trás um mapa eleitoral a cores que merece ser visto e revisto. E estudado...) 

estes dias que passam 742

d'oliveira, 03.10.22

Continuando a conversa anterior...

Mcr, 3-10.22

Um velho amigo meu franco-brasileiro por vocação e amor desmesurado por brasileirinhas na flor da idade, pai de catorze filhos devido justamente a esse sentimento amoroso, afirmou-me que, no caso das eleições brasileiras havia mais uma prova de que “o povo  gosta de caciques fortes e ferrabrazes” (sic). “Todos os povos”, acrescentou. E vai de avançar com uma longa teoria de ditadores desde Mussolini, um fanfarrão com fortes leituras socialistas, até Mao  que, segundo ele, sempre se mostrou como mais um imperador sinuoso e cruel. No meio lá vinham Stalin, Hitler “outro fanfarrão audacioso” e uma série de africanos e latino americanos.

Então na América latina o “homem macho mesmo pega em todo o terreno. Nem precisa de ser militar! Mas sendo ainda é mais fácil!”

Bão me atrevi a perguntar-lhe como é que a família dele teria votado  mesmo sabendo que mais de metade dos filhos estão fora do país e tem, nunca é demais alguma prudência, a dupla nacionalidade. 

Não me admirei, depois destas confidências bem humoradas dos múmeros que Bolsonaro, um perfeito boçal que não conseguiu passar de capitão. 

Nunca acreditei numa vitória à primeira volta tanto mais que, de há anos a esta parte, tenho verificado que a Direita não vai muito em sondagens e assobia para o lado quando inquirida.

Que é inquientante o número de cinquenta e tal milhões de votos no actual manda-chuva. É. que isso era plausível, também. Quanto mais não fosse porque, Lula não é exactamente for que se cheire. Está velho, cansado e os anos de mensalão e actividades paralelas deixam rasto.  

Dir-me-ão que, apesar de tudo, é melhor que Bolsonaro. Não tenho a menor dúvida mas como (felizmente)  não sou brasileiro nunca me vi obrigado a escolher entre os dois. E depois, sempre na minha longínqua perspectiva, Lula tem um passado de luta, de irreverência de heroísmo que não se enxerga no capitãozeco e apagado deputao durante anos e anos. Dir-se-ia que Bolsonaro nasceu ontem e graças à confusão deixada pela governaçãoda “presidenta” Dilma  sobre cuja qualidade é preferível um misericordioso silêncio. 

Portanto, vamos andar sobressaltados mais um inteiro mês porquanto a diferença não é enorme entre os dois candidatos. 

Aliás, mesmo com uma vitória de Lula o sobressalto continuará pois também se elegeram governados estaduais e deputados  e, se os números dos dois presidenciáveis refletem alguma tendência, temos um Brasil dividido ao meio e, obviamente, ainda mais ingovernável.

Claro que a análise terá de passarpara um patamar mais fino pois os Estados não todos iguais em importância. Digamos que S Paulo, rio de Janeiro. Minas Gerais, Baía  e Rio Grande do Sul são eventualmente os mais importantes mas mesmo aí não stão ainda clarificadas as tendências de voto.

Depois, relendo as declarações dos candidatos não se vê com clareza uma ideia política simples e óbvia, uma linha de rumo perceptível nem mesmo, custa dizê-lo, distinções fortes e definitivas entre as políticas propostas. 

De todo o modo, as políticas do PT e presumíveis aliados são mais democráticas do que as do partido liberal e do indivíduo ignorante que se apresenta ao sufrágio. Isto, aliás, se com excessiva bondade, considerarmos que as posturas bolsonaristas ainda albergam ou aceitam tiques democráticos, coisa que está por provar.  

Há, porém, um aspecto positivo a realçar. Apesar da compra maciça de armas (entre 700.000 e 1.000.000) por parte da população (a que tem dinheiro para as comprar, note-se...) não há notícia de confrontos e as coisas terão decorrido ordeiramente. Convenhamos: isto não chega para nos pormos a saltar de alegrai mas é claramente um bom sinal de convivência. 

 No caso do Brasil, tudo o que não é mau, acaba por ser bom! 

au bonheur des dames 533

d'oliveira, 02.10.22

In a dubious battle

mcr, 2-10-22

 

Socorro-me de um título de Steinbeck, autor que merece ser mais recordado do que actualmente é e que nos deixou uma boa dúzia de excelentes romances, além de um livro de viagens (“viagens com o Charley” que era apenas um cão) por uma América que ele conhecia bem e um de crónicas de guerra sobe o tempo que passou como jornalista na URSS.

Neste momento há várias batalhas de resultado mais que incerto e desde logo a da Ucrânia que, contra ventos e marés e o inconfessado desejo de russistas, nostálgicos da URSS e aliados nacionais, “nossos”, vai empurrando a horda invasora e rapinante para o buraco de onde surdiu. (note-se, para evitar os habituais truques, que eu não nego que no Donbass e na Crimeia não houvesse importantes minorias rrussófonas e com uma impetuosa mas irracional de se juntar ao quebra-cabeças da federação russa. Todavia, todos os resultados eleitorais anteriores à invasão davam claro sinal que essas minorias eram só isso, minorias e não representavam a vontade global dos habitantes das regiões onde, agora, decorreu o referendo fantoche.

E, antes que me esqueça, convirá relembrar para as orelhinhas moucas que os êxitos ucranianos recentes não se devem apenas às armas recebidas que, no entanto, foram importantíssimas. 

As guerras também se perdem se um dos lados estiver desmoralizado. E mesmo num regime autocrático como o actal, na Rússia (e sobretudo nas repúblicas muçulmanas e limítrofes, todas pobres, paupérrimas) é pouca a vontade de morrer em nome do russo branco, eslavo, ortodoxo e colonizador. E isso vai-se vendo na desenfreada e precipitada fuga de russos para países vizinhos com o fito único de escapar à mobilização.

A segunda e preocupante batalha a que se assiste passa-se nos confins do Burkina Faso, república africana, pobre mas rica em militares ambiciosos que por dá cá aquela palha tentam o seu golpe de Estado. Não é que seja caso único mas, desde há uns tempos é um caso recorrente. Não vale a pena perder tempo em saber o nome do actual oficial golpista pois ele será em breve substituído por outro e assim sucessivamente. Estaria aqui um forte tema para as nossas cronistas anti-racistas e “afro-descendentes” que vivem no quentinho europeu long da balbúrdia, das eventuais origens, dos povos que precisam de elites e de professores, educadores, cientistas e tudo o resto. Nada feito: quem pode foge, deserta e vem pregar para a terra dos “racistas” dos colonialistas e dos imperialistas...

A terceira batalha diz-nos mais respeito porque é no Brasil. Relembremos que este país é independene há dois séculos o que torna qualquer acusação contra o antigo colonizador um tanto ou quanto disparatada. Sobretudo quando se conhece a real e escassa apreciação dos brasileiros por Portugal e pelos também cada vez menos portugueses que para lá emigram. 

No caso emm apreço, já aqui citei o único slogan razoável da campanha: “Vote num e livre-se de dpos”, era a palavra de ordem do terceiro candidato. Homem com programa e sem o peso tremendo de um passado. De todo o modo, os campos que estão em confronto mostram um Lula envelhecido e um Bolsonaro boçal até dizer basta, autoritário e com fama de ter usado a presidência para se favorecer a si mesmo, à família e a um círculo próximo de amigalhaços.

Também já aqui deixei dito, e não me arrependo, que a escolha está entre a sertã e o lume vivo. 

Mesmo aliviado de um par de acusações por falta de prova, Lula não foge a tudo o resto, ao mensalão e a uma desenfreada corrupção que envolveu, também ela, amigos, conhecidos e protegidos. Ou seja, o caso Lula é uma prova de que um passado militante, lutador e operário não previne um futuro duvidoso . É que os operários são feitos rigorosamente da mesm massa dos restantes membros da nação, militares, empresários, negociantes, canalhas ou povo ignorante e analfabeto. 

Só nos romances stalino-jdanovistas de saudosa memória é que uns são intrinsecamente bons, angélicos, perfeitos e justos e os outros uma seita de bandidos saídos das profundas do inferno e do (já cá faltava) imperialismo.

A eleição deve estar prestes a começar e há a indicação de que Lula ( candidato mau mas menos mau) pode ganhar à primeira volta. Depois, o que acontecerá depois é uma incerteza absoluta. Bolsonaro, os capangas armados, os evangélicos a tropa, os motards e muita gentinha da “alta” aceitarão placidamente o resultado ou virão para a rua? 

De certo modo esta hipótese tem pés para andar, dadas as ameaças claras feitas pelo capitãozeco que a loucura e os desastres de Dilma levaram ao palácio do Planalto.

Quem estas vai escrevendo ainda se lembra de Getúlio Vargas, de Kubitscheck, de João Goulart, de Jânio quadros, o “vassourinha” e dos generais que o correram não à vassourada mas apoiados em tanques e metralhadoras.  

Por pouco que o Brasil me diga, malgrado os familiares distantes que por lá tenho, malgrado os grandes enormes escritores que no Brrasil florescem mais depressa do que os capangas, malgrado os artistas, os arquitectos, muitos jornalistas e gente de bem, ainda há o factor de uma língua vagamente comum enlameada por um acordo imbecil que no Brasil não é respeitado (enquanto cá os deputados parecem acocorados diante de uma radiosa visão que só eles enxergam...), acaba (tudo isto) por me fazer alguma espécie. 

Uma tira de banda desenhada diária no Público adverte que esta eleição pode correr mal ou muito mal.  Dando-lhe o devido crédito não me conformo que apenas corra mal. Lamento muito mas, se fosse brasileiro, o meu voto ia para Ciro Gomes o terceiro candidato. 

Há derrotas decentes melhores do que vitória não recomendáveis.  

 

estes dias que passam 741

d'oliveira, 01.10.22

De  regresso à esplanada e aos temas de sempre  

mcr, 30-9-22

 

Não sei porquê mas ao escrever o título do folhetim veio-me à memória gasta um a canção dos “The Animals”, “before we were so rudely interrupted”.  De facto, durante anos eu marchava para os cafés da manhã, de computador a tiracolo. Lia o jornal e escrevia o folhetim admirando a paisagem do jardim, os cães à solta, de quando em quando a miudagem também solta, louvado seja Deus, correndo incansável, livre e feliz...

Histo de locais a que nos habituamos, sigo dois grandes escritores americanos que os leitores lucrariam em conhecer. O primeiro é o poeta Lagfston Hiughes (1901-1967) que, aliás se tornou também conhecido e célebre como ficcionista, dramaturgo e cronista. 

O segundo é Damon Runion (1880-1946) jornalista e contista de grande talento e cujos escritos deram argumentos para uma boa dúzia de filmes. DR. Escrevia sobre a malandragem nova-iorquina da época e era senhor de um humor e de uma inventiva invulgares. Há um livro dele traduzido e umum outro em que são também antologiados, Erskine Caldwell e William Soroyan, edição  dos anos cinquenta sob o título “modernos contistas americanos”,numa tradução excelentede Victor Palla, arquitecto, fotografo, escritor homem de cultura e de coragem. É dele o “Lisboa cidade triste e alegre” e na arquitectura deixou obras que se tornaram muito conhecidas, sobretudo os primeiros e mais bonitos snack-bares lisboetas do “picnique” ao “galeto”vque ainda hoje existem. 

Ora ambos os autores americanos que referi situam muitos dos seus personagens em pequenos bares no meio de Nova Iorque seja na Broadway, seja no Harlem. 

Runyon põe o seu narrador num bar chamado Mindy’s sitio onde passam quase todas as suas pitorescas personagens. Hughes. Utiliza outro bar, o “Paddy’s,” como centro de conversas de um seu fabuloso personagem, Simple que, em dezenas de textos, deixa uma vasta teoria de vida e de crítica social, impregnada de humor e, ao mesmo tempo, de combate ao racismo norte americano. 

Acontece que eu encontrei ambos os autores (lendo-os claro) no início dos anos sessenta e fiquei desde essa altura rendido aos seus últilos talentos. De certo modo, mesmo sendo verdade que tenho o meu porto seguro na esplanada (depois de outros que o antecederam e a que fui fiel), tenho a impressão que este é um lugar de ode posso mirar o mundo. E isto dura pelo menos desde o final dos anos noventa.  

Depois veio o raio da pandemia e foi o que se viu. Fechou tudo, parou tudo, e, no meio do caos que se seguiu, mudaram-se hábitos e costumes. E reelegemos o dr. Rebelo de Sousa. 

Reelegemos é um modo de dizer. Eu não o reelegi, não o elegi e felizmente, mas seguramente, nunca mais terei de fazer qualquer escolha que o envolva. 

Ora, foi na esplanada do costume, pela manhã que há dias debati com o Manuel Simas Santos o tema Rebelo de Sousa. Somos amigos e cúmplices de algumas aventuras no tempo da outra senhora e desde há uma boa década, vizinhos. De modo que sempre que coincidimos na hora do café e da primeira leitura do jornal vamos trocando opiniões nem sempre coincidentes mas nem por isso antagónicas. 

Desta feita ambos concordamos que o dr. Rebelo de Sousa é dose! E que, para além disso, que já é demasiado, não resiste a mirar-se num espelho (como a madrasta da pobre Branca de Neve) a perguntar se há alguém no mundo mais inteligente do que ele. E mais interventivo, por boas ou más razões. O Sr. Presidente da República, por muito constitucionalista de formação que tivesse sido, tem uma visão do alto cargo que ocupa que se confunde com a de árbitro, censor, crítico e opinante sobre todos os actos fdo Governo. É excessivo e muitas (demasiadas) vezes inconveniente. Em boa verdade, ao considera-lo ainda a 2ª eleiçãoo vinha longe, como candidato natural até do PS(!!!),  Costa fez a sua própria cama oelo que não choro por ele. O que me espanta é que as intervenções sobre tudo e mais alguma coisa que se devem ao Sr Presidente, sempre que no intervalo de duas selfies lhe apontam um microfone, são cada vez mais narizes de cera, declarações inodoras, insípidas mas não exactamente incolores. E, sobretudo, bem vistas as coisas, parece que por vezes fere a Constituição ou pelo menos parecem-lhe secantes. 

Os leitores terão reparado que Sª Exª é um activo e quase diário comentador da política nacional. Será que o antigo professor da faculdade de Direito ainda não perdeu a mania de dar notas aos políticos, particularmente, aos do Governo? 

Por aqui, já critiquei (e não me arrependo) por várias vezes algumas tiradas presidenciais mesmo se, por acaso, estivesse de acordo com elas. Só que o Presidente da República tem outro papel e nõ me parece saudável o excessivo empenho em indicar caminhos ao poder executivo. Mas infelizmente não há quem lhe diga serena e respeitosamente que o que é demais é demais, ponto, parágrafo. 

Foram anos a mais de comentador televisivo e, sobretudo, de dispensador de expressões ocas mas que pelos vistos agradavam a muitos espectadores. Ser uma estrela dos comentários de domingo não é exactamente o mesmo que ser presidente da república mas pelos vistos anda por aqui alguma confusão.

 

 

 

 

o leitor (im)penitente 249

d'oliveira, 29.09.22

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 Uma vida através de livros 8

RABELAIS  O riso demolidor

mcr, 28-09-22

 

ter-me-ei cruzado com o sr François Rabelais, autor de Gargantua et Pantagruel, ainda quase menino, na Bublioteca Pública Fernandes Tomás, na Figueira da Foz.

Até há pouco pensava que teria lido uma adaptação da obra devida  a Adolfo Simões Muller, um escritor de obras infantis e juvenis que adaptou varias obras maiores.

Todavia, depois de consultar a wukipédia não encontrei qualquer referência que abonasse esta falsa recordação pelo que terá sido outra a origem dessa leitura que nunca esqueci.

De ciência certa, tenho que nos anos de 62/63, comprei  pela primeira vez o original francês numa edição da extraordinária Marabout (editora belga) com as ilustrações devidas a Doré.

O antigo encantamento ressurgiu em força e nunca mais parei de adquirir as obras de Rabelais, ao ponto de, finalmente, a medo mas esperançado, ter comprao um exemplar na antiga e saborosíssima escrita original.

A coisa custou mas fui lendo sempre para a frente, teimoso e surpreendido com a plasticidade desse francês antigo, com a sonoridade da língua e com o que ia descobrindo.

Sei que há uma ediçãoo em português (ignoro se completa ou incompleta os famosos 5 livros que constituem a obra. Deve-se à falecida editora Europa América, uma casa de grande qualidade que durante trinta ou quarenta anos publicou muito do melhor que se editava na Europa. E que, obviamente, foi, vezes sem conta, alvo da censura. Aliás o seu editor, Francisco Lyon de Castro conheceu as masmorras s do regime  durante quatro anos, Militou no PCP no PCE (enquanto esteve exilado em Espanha) não aceitou o pacto germano-soviético e viveu sempre sob estreita vigilância policial. Como editor além da excelente Europa América publicou o jornal Ler uma das melhores (e mais perseguidas) publicações regulares portuguesas.

Não sei se ainda há exemplares da edição a que me referi (aliás vou procura-la não tanto para a ler mas porque o meu culto rabelaisiano me obriga).

Quem acompanha estes meus textos sobre livros sabe que não faço qualquer resumo, e resumir Gargantua seria coisa para muitas páginas!, mas apenas me proponho suscitar curiosidade e interesse.

È que a ansia da novidade (e então agora que se edita à mão cheia!) faz esquecer o grandes lássicos, as obras fundadoras do conhecimento científico, artístico e histórico e sobretudo os fundamentos dauilo a que chamamos cultura (europeia e universal).

Ora, Rabelais é um dos mais curiosos, vibrantes e inteligentes exemplos  deste género de cultura literária que herdamos. Isso, a efabulação luxuriante das histórias que conta e o avassalador humor  (para já não falar na crítica devastadora, impiedosa e satírica dos filisteus do seu tempo, de todos os tempos, aliás) merece uma paragem de alguns dias, vá lá de algumas semanas se o riso nos perturbar a digestão e nos engasgar.

 

Fichas:

“Gargantua et Pantagruel “(2 vol) Marabout, Verviers, “  ilustrações de Doré!

 

“Oeuvres completes” 850 pp (em francês corrente) contem um esboço da vidade Rabelais, numerosos ilustrações, enc. de editor, France Loisirs, 1987

“Oeuvres”, La Guilde du Livre, Lausanne, 1958, ex n´2656, enc de editor, 978 pp

“Oeuvres completes” Pleiade, Gallimard, 1942, texto estabelecido e anotado po Jacques Boulenger, 1045 pp, enc de editor

 (texto em francês original)

“Les cinq livres des faits et dits de Gargantua et Pantagruel (edição bilimgue).

Ed de Marie Madeleine Fragonard c/ a contribuição de Mathide Bernard e Nancy Oddo Col Quarto, Gallimard, 1657 pp

“Oeuvres de Rabelais” ill de Robida, Librairie Illustrée. 1855/6, 2 vol, 988 pp notas e glossário (190 pp) de Pierre Jauvet.

Uma curiosidade : “”Le docteur Rabelais et le vin” , . Paul de la Borie. Col Vacchus, Maurice Posot, Ed., 1948 com 13 extra-textos de Van Rompaey.

Uma biografia: “Rabelais par lui-même”, M Diegez, Seuil, 1960

* il de Robida

 

 

 

au bonheur des dames 532

d'oliveira, 27.09.22

Uns perderam-se no labirinto, 

outros aguardaram a sua vez 

à sombra do passado

ou a Direita tem memória e à 

Esquerda sonha com um futuro incerto

 

mcr, 27-09-22

 

Italia bella mostrati gentile

ed i figli tuoi non li abandonnare...

(canção tradicional utaliana)

Isto até poderia chamar-se “tanto se esganiçaram a berrar que aí vinha o lobo que, quando este apareceu, não o reconheceram.

Em se tratando de política italiana, terra com notáveis pensadores políticos e plena de experiências de toda a sorte durante séculos de repúblicas, reinos, ducados e grão-ducados, condottieri   sempre prontos, anarquistas e revolucionários, fica-se com a impressão de que no país que viu nascer a ópera tudo é possível. 

Provavelmente nem sequer é uma impressão mas a simples verdade. O resultado das últimas eleições  não é um acontecimento imprevisível mesmo se, desta vez, três distintas e irreconciliáveis Direitas apareçam momentaneamente unidas e prontas (?!) a governar. 

Com uma surpresa: desta vez há uma mulher pronta a comandar os destinos de um país onde, com raras excepções, as mulheres pouco ou nada tiveram a ver com a política. 

Sei que alguém, que alguma vez perdeu o seu tempo a ler-me, me apontará dois ou três textos em que referi, com amizade e admiração,  Rossana Rossanda e Luciana Castellina duas grandes senhoras da esquerda italiana no terceiro quartel do século passado. Ou mais efemeramente uma senhora Virginia Raggi que foi presidente da Camara de Roma ou as duas netas de Mussolini, Alessandra e Rachelle.

Todavia, em Itália, mesmo agora, há uma cultura anti feminil que atira com as mulheres para muitos lugares (o cinema, a escrita) mas raramente para a política. Que, num país em que vigora, mesmo que actualmente subterraneamente, a ideia de que só há duas mulheres a respeitar, la mamma e a irmã (e ocasionalmente a esposa), ideia que os italianos mais pruentes atribuem à mesmíssimas mães dos cavalheiros que põem e dispõem no pais, apareça uma mulher a reclamar o lugar de primeira ministra mais do que uma novidade é um prodígio, um milagre. Meloni,a conservadora, a senhora do “Deus Patria e Família, vive maritalmente com o pai d sua filha mas, espantem-se, não é casada com ele. Jura por Reagan e João Paulo II  oque não a coloca tão à direita como se pretende mas é contra toda uma série de “conquistas” sociais,  que ela considera imorais e “não italianas (no que talvez não esteja tão enganada como se poderia pensar). É verdade que nasceu para a política nas hostes das juventudes da extrema direita (MSI e vizinhanças) mas recusa quaisquer conotações anti semitas, está contra Putin econtra a invasão ao mesmo tempo que reclama para a Itália maior independência económica e financeira da UE.

Em suma, é claramente de Direita mas está por provar (e só a prática o demonstrará) que se posicione na Extrema Direita como Salvini. 

O grande problema italiano, para quem seguiu entusiasmado o percurso do país a desde os anos sessenta é que não parece ser a Direita que se levanta mas a Esquerda que se foi destroçando com uma rara eficácia e constancia. 

Em traço grosso os últimos anos cinquenta os sessenta e os setenta, os anos do “miracolo italiano”, da afirmação da Itália na Europa e no mundo,  os anos da lambreta e do fiat 500, da grande emigração do sul para o norte (e para a Europa), mostram um país governado por uma poderosa (e legitimada pela Resistencia) Democracia Cristã que sempre percebeu a vantagem de se apoiar nos pequenos partidos à sua Ddireita e à sua esquerda, combatendo com grande eficácia o poderoso Partido Comunista Italiano (também ele uma excepção no movimento comunista internacional graças à independência “possível mas real” dos seus líderes desde Togliatti a Berlinguer) e divertindo-se (é o termo justo) com as desventuras do movimento socialista italiano. Por alto e sem fazer o esforço de noticiar as tropelias tácticas, estratégicas, as luttas de personalidades, as alianças e as traições, as fusões e as (muito mais numerosas) cisões, o panorama do socialismo italiano apresentou no mínimo três partidos todos socialistas todos irreconciliáveis: o PSI, o PSDI e o PSIUP (2ª fase) que a primeira é que foi a antepassada do PSI que aliás também se chamou Partido Socialista dos Trabalhadores Italianos. Note-se que nestes diferentes partidos havia um conjunto de personalidades notabilíssimas desde Pietro Nenni a Saragat, desde Emilio Lussu a Ignazio Silone,  até Sandro Pertini o mais amado dos presidentes da república italianos. Homens com notável passado político, revolucionaio e resistente; políticos com ideias excelentes e inovadoras; democratas convictos e generosos. Mas incapazes de se juntar entre si, bem pelo contrário. 

Em boa verdade também os pequenos partidos italianos, o Radical, o Liberal e o Republicano viram sempre os seus percursos unterrompidos no exacto momento wm que os acasos d política e das eleições os beneficiavam. As vitórias sempre precárias davam origem a toda a espécie de cisões que tornam quase impensável fazer a história sucinta destes 30 anos que referi. 

Também é verdade que a omnipresente e quase omnipotente Democracia Cristã foi alvo de lutas intestinas graves mas, nisso a Direita sabe-a toda, sem pôr em causa o controlo do partido sobre o país. Mais, quando foi preciso, a DC pôs em prática políticas de aliança de centro esquerda como meio de conter alguma duvidosa aliança dos socialistas , fossem eles quais fossem, todos ou só um, com o influente PC. (que também tinha as suas correntes internas como é obrigatório em Itália. A começar pelos emilianos, de forte tradição católica. (Valeria a pena aqui, citar, Giovanni Guareschi o autor das aventuras de D Camilo e Pepone que, mesmo sendo um jocoso ataque aos comunistas tem um fundo de verdade notável. E mais: não é odioso para os comunistas antes os apresenta com bonomia).

O fim dos anos sessenta e sobretudo a primeira metade de setenta viu como este mundo ruia. O assassinato de  Aldo Moro, a morte de Berlinguer  a temível rede negra dos fascistas bombistas, a conspiração maçónica  (melhor dizendo de uma rede que usando a loja P2 como centro de direcção clandestina)  na DC a par com a violência policial repressiva deu “direito de nação” a diferentes grupúsculos de extrema esquerda  que, muito italianamente se criavam como cogumelos e multiplicavam como coelhos. Os índices de violência política, os atentados, os tiros na perna, os assassinatos  mergulharam todo o nore e centro da Itália num medonho ajuste de contas que não diferenciava os inimigos: morreram sindicalistas, militantes socialistas, demo-cristãos e comunistas sempre em nome de uma, aliás várias, linha revolucionaria a que as massas italianas e sobretudo os trabalhadores (em nome dos quais se combatia) assistiam horrorizados.

Ainda hoje, há processos pendentes, prisioneiros a cumprir pena, pedidos de extradição vindos desses anos violentos.

Junte-se a isto que não era pouco, bem pelo contrário, a lenta decomposição dso partidos tradicionais todos eles desaparecidos , desde os socialistas cujo último dirigente conhecido (Betino Craxi) acusado de corrupção optou por fugir e morreu no exílio, até à DC e ao PC  de onde alguns não demasiados militantes conseguiram sair e formar um novo partido (PD) que mesmo central na Esquerda nunca conseguiu obter a popularidade e a massa militante semelhantes ao antigo partido.  

Em números claros, a Esquerda italiana é hoje menos de metade do que era nos anos que referi. 

A direita (DC) caiu por esgotamento (entre outras problemas e sempre pela corrupção) mas a Esquerda soçobrou  por incapacidade estratégica e por uma desenfreada violência política que, mesmo marginal e em certo modo limitada horrorizou a sociedade. E claro, a corrupção...

Não é um caso singular. O mesmo se passa em França onde os partidos comunista e socialista quase se evaporaram enquanto a extrema Direita foi gradualmente conquistando terreno (na maior parte nas zonas ex-comunistas) provando que o cordão sanitário teve poucos anos de êxito. Em boa verdade, convirá lembrar que o afundamento do PC foi-se tornando evidente devido ao crescimento de um PS que Miterrand criou a partir de uma SFIO  que também ia desaparecendo. E o Centro-Direita francês também está em forte crise como se viu na última campanha eleitoral. 

Ora julgo, mas teremos tempo para voltar a este apaixonante tema, que as raízes desta crise que assume foros de escândalo com Giorgia Meloni, deve ser procurada na grande crise dos finais do século passado. Para além, evidentemente, dos novos dados e dos novos desafios a que se assiste. E de uma constatação simples: a Esquerda soube sempre dividir-se, mas foi igualmente incapaz de encontrar as pontes mínimas para criar uma política que suscitasse o entusiasmo dos eleitores. Não é por acaso que esta eleição italiana registou um número recorde de abstenção.

 

Em aparte:

Talvez conviesse, em Portugal, pensar nisto...

Eu não temo o Ventura mas apenas a desilusão e a indignação dos eleitores. Não é o “sistema” que está em causa. É que est

ão a fazer com o “sistema”!

Segundo aparte: mesmo sem ser italiano, eu perdi as eleições italianas. Começo a habituar-me pois também perdi as francesas e as suecas... Eis-me de volta aos velhos anos mas sem o viço da juventude. 

Arre!  

au bonheur des dames 531

d'oliveira, 26.09.22

 

 

 

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Saudando as mulheres russas

(e muitas outras...)

Mcr, 26-9-22

 

 

Não sairás daqui vivo,

não te erguerás da neve. 

De espingarda cinco feridas,

vinte oito de baioneta.

Pro amigo roupa nova 

e amarga já costuro.

Gosta do sangue, ele gosta 

do sangue, o solo russo

Ana Akhmatova (só o sangue  cheira a sangue " , Assírio & Alvim, 2000)

 

 

A televisão tem todos os defeitos que quiserem mas só ela, quase em tempo real, mostra os dramas do mundo. Ontem, em vários canais, viam-se as imagens possíveis dos protestos contra a mobilização de reservistas na Rússia.

E eram muitas, mas mesmo muitas, as mulheres presas e arrastadas pelos polícias do regime para carros celulares. Lutavam por pais, maridos, noivos e irmãos mais do que por elas mesmo se também elas se sentissem cidadãs encurraladas na mesma homicida e enlouquecida espiral de terror, violência e insanidade.

Claro que a mobilização de reservistas atinge sobretudo as regiões periféricas, pobres, abandonadas e etnicamente diversas das do povo colonizador, russo, branco e ortodoxo. Por cada morto oriundo de Moscovo há quinze vindos desses territórios longínquos onde o progresso nunca chegou. 

É assim a guerra de Putin e da clique que o apoia lá (e também cá...). De uma só vez manda para a frente da carnificina as minorias esperando não só que matem por eles, mas que morram também por eles e assim se deixem ir desaparecendo como ameaça sempre presente à etnia russa. 

O princípio é exactamente o mesmo  da mobilização nas cadeias e penitenciárias. Seja como for, mortos ou raramente sobreviventes este é um meio eficaz e económico de acabar com um problema. 

E nas zonas periféricas como nos grandes centros urbanos da Rússia, os protestos aumentam, a repressão endurece, as medidas legislativas tornam cada vez mais opressivas, quem pode foge, emigra, exila-se. Ou é preso, condenado e enviado para as frentes de guerra. 

E é por isso que as cidadãs russas, mesmo sabendo que, apesar de tudo e antes dos seus, outros marcharão e morrerão, saem para a rua e gritam. Haverá ainda quem se lembre de há meses uma muito velha senhora, provavelmente sobrevivente do cerco de Leningrado, erguer um cartaz de cartão pobre condenando a guerra. Ou daquela jornalista da televisão oficial que se atreveu a passar por trás da locutora com cartaz semelhante...

Eu que não sou russo, Deus seja louvado, que sou homem e demasiado velho e sem préstimo para qualquer guerra, desde sempre tive claro que a Humanidade  devia muito quase tudo a este tipo de mulheres que se defendiam, defendendo maridos e filhos, pais e irmãos. Porque, também elas, sabem que as guerras acabam por trazer às mulheres, a todas as mulheres, perda de direitos, sangue que cheira a sangue, maus tratos, violações, pobreza e morte.

As russas pagaram um duríssimo tributo durante a invasão alemã, já tinham tido a sua quota parte de desventura durante os anos terríveis da sovietização e dos expurgos, das deslocações maciças de populações para o Extremo Oriente. Foram elas (como as inglesas ou americanas, é bom sublinhar...) que foram mobilizadas para a fábricas e para os campos enquanto os homens combatiam. Foram elas em todos os territórios atingidos pela guerra que foram violadas aos milhares pela soldadesca invasora.

E foram elas que, uma vez terminadas as hostilidades mas não a fome, as privações e a humilhação deitaram, decididas e corajosas, mãos à obra de reconstrução. Por isso se iniciei este folhetim com um poema da admirável e perseguida Ana Akhmatova,  entendi ilustrá-lo com as mulheres de Berlin que, de mãos nuas, começaram a tentar reconstruir a sua cidade. Eram as Trummerfrauen, as mulheres  dos escombros, muitas delas condenadas por terem sido nazis mas outras, tantas ou mais, apenas mulheres vítimas da guerra, sem casa nem comida, sem marido ou noivo, viúvas antes do tempo mas valentes e decididas. 

 

E já agora, que estamos com a mão na massa, recordemos o belíssimo poema de Jacques Prévert, melhor dizendo um seu único verso: “oh Barbra quelle conerie la guerre!

 

(em tempo, uma colunista de um jornal de referência descobriu a pólvora e vem hoje afirmar que as mulheres iranianas não lutam apenas contra o hijab! Arre, que é preciso ser tonta: o hijab é, apenas e sobretudo, o sinal temível da situação a que a grande maioria da muçulmanas está sujeita pelas regras retrógradas e imbecis das autoridades religiosas, chiitas ou sunitas, acaba tudo por vir dar ao mesmo.

(Vai esta para a CG, a Ana, a Teresa, a Luísa, a Irene, a Maria João, a  Isabel  ou a Zé, e para outras que cabem aqui mas não lembro os nomes)

 

 

 

 

 

 

au bonheur des dames 530

d'oliveira, 25.09.22

 

 

 

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A “metade do céu”?...

mcr, 25-9-22

 

Vejo as armadilhas em cada canto

Em todos os cainhos

 Mas, além dos teus caracóis

não há para mim salvação alguma

(HAFIZ)

 

A expressão que dá título o folhetim pertence ao pouco venerável presidente Mao. ( a frase completa é as mulheres são metade do céu, se não estou em erro).

Claro que nem Mao acreditava nisso nem a prática do poder comunista chinês  alguma vez acreditou nela. Ainda hoje, e já lá vão largas dezenas de anos, o papel das mulheres chinesas na sua sociedade é francamente diminuto e fica a léguas do das congéneres europeias  e mesmo bem longe das cidadãs de Taiwan como se sabe.

De todo o modo, não é da China que hoje me quero ocupar mas do Irão onde a palavra de ordem parece ser  “a melhor mulher sem véu é a mulher morta, vá espancada e presa

De facto, a ayatolagem que continua no poder (absoluto) já veio afirmar solenemente que a ordem será mantida custe o que custar.

E vá de disparar contra as multidões que protestam, de matar (e já lá vão umas dúzias de cadáveres para provar que aquilo é a sério) de prender e espancar.  Conenhamos que estas duas últimas hipóteses são apesar de numerosas as menos incómodas para quem desafia o bafiento e imoral poder dos religiosos e s sua merdosa visão da religião.

Em boa verdade, e por muito que custe a alguns piedoso multiculturalistas, o Islão nunca foi uma doutrina de libertação  do homem (e menos, muito menos ainda da mulher).

Nós, ocidentais e, sobretudo, portugueses,  nunca dedicamos especial atenção a essa antiga Pérsia, pais de grandes poetas  (citemos apenas Hafiz ou Omar Khattam) e berço de uma antiga e prestigiosa civilização.

Ainda hoje, ou sobretudo hoje, o Irão é uma potencia regional importante em todo o médio Oriente e no mar Negro. Raptado pelo chiismo e pelos ayatolahs, guardado pelos pasdaran, pretorianos da revolução islâmica, boçais e violentos e por uma polícia da moralidade  que ultrapassa em muito a ficção mais grotesca e medonha, o Irão é hoje em dia uma anomalia perigosa e ameaçadora que recentemente se vai aliando à vizinha Rússia ao mesmo tempo que se vai armando nuclearmente.

É verdade que nunca foi uma democracia, sequer um país tolerante, basta relembrar a dinastia Pahlevi, usurpadora do poder e madrasta dos milhões de deserdados que levaram Khomeini ao poder.

Para cúmulo também alberga uma minoria curda, tão arredada do poder como as restantes minorias siria, iraquiana e turca.

E foi justamente, uma rapariga turca, turista acidental em Teherão que acabou por ser presa, eepancada e assassinada numa esquadra de polícia. Cometera, é verdade, o monstruoso crime de usar véu que esconde a cabeça de forma pouco ortodoxa, permitindo uma visão pecaminosa de parte do cabelo o que certamente inflamaria os homens que a avistassem. Inflamou pelo menos a polícia dos costumes com o resultado já descrito.

Saíram para rua (e continuam a sair) milhares de homens e mulheres, na maioria jovens que, obviamente, são vítimas de gazes lacrimogéneos, balas verdadeiras e tudo o que o arsenal repressivo conta de eficaz contra quem protesta.

Pra cúmulo, as mulheres em revolta queimam os hijabs, suprema afronta aos pais da revolução e defensores da fé!

A padralhada muçulmana e chiita, enquanto espreita com olhar obscenamente  guloso a cabeça nua das criminosas vai dando ordens para lhes tirar as teimas seja de que maneira for. E ameaça tudo e todos.

Eu faço parte da minoria que entende que a países deste teor, teocracias, autocracias e ditaduras de vária ordem e igual violência, não se vai seja como negociante, seja como turista. E sou homem pelo que lá ninguém me obriga a coisa alguma. Acho que esta é a única maneira de mostrar solidariedade com quem é perseguido, exilado, na sua própria pátria.  Disse isto mesmo, a duas outrês amigas (ainda por cima progressistas mas viajeiras, que entenderam ir até tais paragens. Ao aceitar andar por lá de cabelo tapado elas, mesmo não querendo, legitimam a natural e tradicional violência contra as mulheres, essa metade do inferno versão iraniana.

*na vinheta uma ilustração no “Le livre d’or du Divan” de Hafiz, (Pierre Seghers ed, Paris 1978). A tradução em epígrafe é minha e pobre mas pretende ser rigorosa... 

au bonheur des dames 529

d'oliveira, 24.09.22

Reflexões sobre os cordões sanitários

mcr, 24-9-22

 

Chega pra lá

Eu não quero mais te ver

Já cansei de te aturar

Maria Creuza, “chega pra lá”

 

 

Um texto do meu colega e amigo JCP aqui em baixo, sobre o PSD e o Chega,  dá-me oportunidade para revisitar algo que parece estar longe dos focos político-partidários. 

Antes de entrar  na questão, convirá explicar que nunca votei à direita do PS, e apenas uma única e solitária vez votei à esquerda deste partido, mais concretamente numa europeia e a favor do BE (por lá constar como candidato Miguel Portas, pessoa que eu sempre considerei culta, inteligente e eventualmente dialogante). Quando não encontrei razões para votar no PS, refugiei-me na abstenção mas, nunca por nunca, deixei de ir à messa de voto.  Andei demasiados anos a lutar pela democracia, pelo direito de votar, fui mesmo, em 1969, fiscal da oposição numa eleição  (e obviamente ganhei mais um processo na PIDE por esse feio acto). Por duas vezes arrastei-me até à assembleia eleitoral carregado de febre para exercer o que eu julgo ser mais do que um direito, um dever!

Acompanhei desde os alvores de sessenta todas as votações europeias e americanas com especial incidência nas europeias mais importantes  (França, Alemanha, Itália ou Reino Unido) nas americanas e no Brasil. Sempre pelos democratas e sociais democratas, claro que me davam a sensação de vingar a triste situação vivida até meados de 74. 

Tenho assistido com algum pesar à queda de votação na esquerda liberal e social democrática na Europa e à ascensão da diferentes direitas umas mais ou menos conservadoras, ouras retintamente populistas e/ou saudosistas se é que este termo explicita com mais rigor aquela velha e não demasiadamente inteligente (e menos ainda critica) acusação de fascista. 

A palavra fascismo serve para tudo e denota em quem a brande a torto e a direito um absoluto desconhecimento do que o fascismo foi. Na esmagadora maioria dos casos é mal aplicada, pior mesmo do que uma outra acusação que passa bem melhor na comunicação social, a de “comunismo”. 

Em tempos que já lá vão, todos nós, os “oposicráticos”, os que viveram o Estado Novo (ou seja gente com mais de sessenta anos pois não conto a infância nem a adolescência como idades em que se percebe a res política) eram acusados de comunismo!  Era fácil, permitia prisões a esmo, assustava muita gente e excitava outra tanta que via bolchevistas até na sacristia. 

 E agora vamos ao que interessa. HCP congratula-se por mais uma vez o Chega, 3º partido mais votado, não ter chegado à mesa da AR. 

É verdade que não há norma constitucional ou regulamentar expressa que mande distribuir os lugares pelos partidos mais votados e dando sempre a presidência ao que ficou em primeiro lugar.

Mas também é verdade que durante dezenas de anos a prática foi essa e, neste capitulo de costumes constitucionais a coisa tem (ou tinha...) significado. 

Pessoalmente,  preferia que houvesse um regulamento claro porquanto este “cordão sanitário” à volta desse vociferante agrupamento populista e de direita imbecil e radical,   me parece inadequado pouco legitimado pela tradiçãoo e pelos costumes constitucionais e pela prática pregressa da AR. 

Pior,  o boicote dá ao Chega uma arma: mostra-o como vítima do “sistema” (coisa que ele proclama a torto e a direito, como se sabe. 

Depois, um lugar naquela augusta mesa que hoje se nega aos amigos do senhor Ventura será para futuro um lugar que se poderá negar a qualquer outra agremiaçãoo partidária desde o BE ao PC  ou a qualquer outro mesmo os actualmente maioritários se, porventura e à semelhança do que se passa em França ou Itália se evaporarem  coisa que como se sabe ocorreu há já um largo par de anos em Itália onde nada sobra dos partidos socialistas com assento parlamentar, nem do PC (mesmo que uma pequena parte del, a melhor, ainda subsista na base do PD. A DC desapareceu igualmente e, convenhamos, os que tomaram o seu lugar são bem piores, bem menos democráticos e mais perigoos nas ligações à sub-sociedade civil que em Itália controla muito mais coisas do que em ualquer outro lugar. 

Em França o PS esvaiu-se, o que dele resta, é um cadáver à espera de certidãoo de óbito ou encantado por cair na garra adunca e pouco recomendável de um aventureiro político capaz de tudo e do seu contrário (refiro obviamente o sr Melenchon, uma criatura que de vermelho apenas terá a gravata e de progressista ainda menos). 

E entretanto, nestes dois países eis que a Direita pura e dura cresce, desabrocha, venceu os cordões sanitários e ameaça não só os respectivos equilíbrios nacionais mas também os internacionais. Vê-se que em matéria de cordão sanitário, a medida durou pouco e produziu, como o sono da razão, monstros! 

Não falo de outras latitudes onde esquerdismos infantis (citemos por uma vez Lenin que, mesmo não o seguindo, convinha, pelo menos, perceber). Ainda há escassos dias os “democratas suecos” defenestraram uma primeira ministra decente, eficaz e social democrata.  E como se sabe na Dinamarca sucede o mesmo, no reino Unido a parte mais cavernícola dos conservadores ganha terreno a todo o vapor. 

Pessoalmente entendo que o Chega tem de ser combatido e vencido não por truques contabilísticos de votação da assembleia mas por políticas que lhe retirem a indubit´vel base de apoio que conquistou. Não que me apeteça ver um façanhudo cheguista sentado à direita de Santos Silva como não me alegraria ver um “russista” (amador e proclamador de outra ditadura, dita do proletariado sentadinho nesse local privilegiado que eles, todavia, consideram um antro da burguesia ). 

Depois, e por mera necessidade de verificar cuidadosamente os factos, não vi, o actual líder do PPD  apoiar mesmo que indirectamente a ascensão do Chega à Mesa. Mas posso ter sido míope ou apenas, por razões que acima deixei, não estive especialmente atento a tudo o que realmente afirmou o senhor Montenegro, esse mesmo que ontem fez um mini pacto com o sr Costa com o mudo testemunho do ministro que odeia as perninhas dos banqueiros alemães e que quer um aeroposto na margem sul do tejo ( relembro que ainda há pouco Cravinho, um homem probo, competente, acima de toda a suspeita, afirmava que tal situação para o futuro aeroporto era uma “saloiice”!)

Eu percebo que o meu amigo e colega de blogue não aprecie o espectáculo delirante, esparvoado mas perigoso das contínuas palhaçadas de Ventura. Eu ainda menos por ter na minha já longa vida experimentado durante mais de trinta anos gente parecida ainda que, espantem-se mais educada, mais civilizada menos uivadora e menos populista. 

Porém, vivo em Portugal, sou democrata, creio no voto popular e nas suas virtudes  pelo que , sem estados de alma (que a política deveria sempre evitar) , discordo do cerco trapalhão ao Chega. Creio que esse partido é apenas um balão soprado por múltiplos descontentamentos, alimentado sobretudo por votos de gente menos culta, mais empobrecida  e em vias de se proletarizar. Basta ver a geografia eleitoral da ultima consulta para perceber onde o Chega progrediu e onde as promessas do Poder falharam. Do Poder e de certos contrapoderes como é o caso da alta de votos no Alentejo. Congratular-me-ei com uma eventual e inesperada derrota eleitoral do Chega, coisa para que, apesar de tudo, conto com o CDS libertado daquele rapazola pateta. Creio que ao PPD não interessa de modo algum um Chega como o que cá temos. Suponho que a Iniciativa Liberal não suporta aquele gestcular berrante dos venturas e venturinhas. 

Mas, e já agora, vejamos se o Chega ao dividir votos à direita não deu uma ajuda , e das boas, a quem está do outro lado. O PS ganhou o voto útil à esquerda mas beneficiou do roubo de votos naturais aos antigos parceiros durante a troika! 

Por umas contas de fraca qualidade que fiz o PPD perdeu à vontade oito lugares de deputado que não foram para o Chega ou não foram só para ele que beneficiou do naufrágio do CDS. É que nos círculos mais pequenos uns centos de votos roubados a um dos dois contendores mais fotes dão uma vitória ao outro... e aí o Chega fez, mesmo não o desejando(!!!???)  o frete ao vencedor. 

É por isso e só por isso que não entristecendo (bem pelo contário) com a derrota do Chega também não vejo motivos de tão expressa congratulação.  

Houve, neste momento, uma mudança de paradigma na eleição da mesa da AR  e isso pelos vistos apenas foi uma contabilidade de merceeiro. E, à luz do que vou vendo por esse mundo fora temo as consequências disso. Sobretudo porque esta votação é quase ad hoc e não perspectiva nenhum regulamento mais rigoroso quanto ao preenchimento dos lugares à mesa da AR.

 

Gostaria de acentuar que isto não é, nem será, um ponto de partida para uma qualquer polémica. O tema específico é menor. Apenas pretendo recordar que a luta contra o(s) populismo(s) e outros ismos se faz com políticas concretas que ajudem as pessoas a sair de situações sociais, económicas e financeiras deprimentes e vergonhosas para o século em que vivemos e para a dignidade cidadã que aspiramos para todos. 

E só a Democracia poderá, creio, resolver, sem violência, o actual estado de coisas. Todas as outras maneiras de governar levam a maus caminhos e a consequências que não recomendo a ninguém. E espero que concordem que eu pelos meus primeiros e aventurosos trinta e três anos de vida, sei bem do que falo. 

 

* Os leitores desculparão a citação de uma cantiga da Maria Creuza que eu conheci “mocinha” num espectáculo em Coimbra com Toquinho e o enorme Vinicius de Morais, Naqueles dias cinzentos, aqueles brasileiros, eram uma porta de salvação. Agora, e mais do que nunca, o Brasil precisa de algo do mesmo género mas as possibilidades parecem mais do que escassas...