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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

04
Dez19

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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O que é demais é demais!

mcr 5-XII-2019

 

Escrevi pouco sobre Tancos. Aquilo, aquele roubo de meia dúzia de armas mostrou apenas algumas evidências de que o “manto diáfano da fantasia” esconde. A “trágica nudez da realidade” é, de facto, esta: o país de sucesso é quanto muito um destino barato para turistas apressados à procura de sol, sal e sul. E de segurança nas ruas, interlocutores nacionais simpáticos (quando não quase servis) a arranhar as línguas da estranja que não faz o mínimo esforço para perceber uma velha nação e um povo sofrido e provinciano que agradece a esmolinha de uma visita apressada a baixo preço.

Sob o manto inconsútil referido está um país adiado, sem ferrovia que se aguente, com uma produtividade das mais baixas da Europa, sempre à espreita de uns dinheirinhos da União Europeia e da ajuda sem desfalecimentos do Banco Central Europeu. Um país que, se os cálculos eleitorais se confirmarem, continuará a aguardar as reformas imprescindíveis, escondendo-se atrás de uma mais que ilusória proto-regionalização (que aliás já foi duramente derrotada mas que insiste em regressar à superfície sob o aplauso de uma pequena elite regional que já se vê sentada à mesa do orçamento das regiões prometidas.

Tancos, melhor dizendo a tropa está como o SNS ou a Educação. Em estado quase comatoso, vivendo um dia a dia incerto, remendando hoje, cortando amanhã, prometendo sempre.

As forças armadas tem menos efectivos do que deveriam, muito menos dinheiro do que precisam, uma estrutura antiga de que os paióis são a vera imagem. Fechaduras obsoletas, alarmes antigos e desactivados, patrulhas incertas e vedações podres.

No meio deste cenário de catástrofe apenas surpreende o facto de haver uma criatura com o título de “Ministro da Defesa (Nacional)”. Para quê? Fora o facto incontestável que isso serve para gastar dinheiro e dar um tacho a um boy, para nada mais tem serventia que se veja. O que aliás se comprova quando nos lembramos que o cargo recaiu no sr. doutor. Azeredo Lopes ex comissário político para a imprensa e afins onde tão bons serviços prestou a Sócrates & Cia.

Esta estranha personagem poderá ser um professor razoável mas olhando para o seu percurso tem-se a extravagante sensação que sofre de “cataventismo”. Pouco antes de ter lugar à mesa do Orçamento e do Conselho de Ministros, a criatura, corrijam-se se estiver errado, estava de alma e coração com o sr. Presidente da Câmara do Porto como Chefe de Gabinete.

 

 

Diria que se trata de uma pessoa para todas as estações não fosse isto dizer precisamente o contrário do que o título do filme do grande Zinemann tem por objecto. Que me conste o dr. Rui Moreira encabeçou vitoriosamente um movimento de cidadãos liberal-conservadores de bom tom que nada tem a ver com a alegada “esquerda” representada pelo PS. Enfim, feitios!

E feitios que estão a acabar num processo torpe de armas roubadas e miraculosamente encontradas pela pj militar. Do que se lê nos jornais ou se ouve na televisão, o Ministro sabia de tudo, cobriu tudo e, por isso terá mentido com todos os dentes. O processo o dirá quando (oh quando?...) tiver lugar.

É óbvio que nada disto retira responsabilidades a essa coisa chamada Estado Maior e ao punhado de criaturas fardadas e carregadas de condecorações e títulos pomposos. Também nada disso retira o tom afrontoso que presidiu à suspensão de três oficiais superiores encarreirados para o tirocínio ao generalato e que tinham a difícil missão de comandar as unidades estacionadas em Tancos. É verdade que as suspensões foram levantadas mas a vergonha, essa, permanece. E a ver vamos se isso, este percalço na carreira não vai afectar a vida futura e a promoção desses oficiais...

Todavia, para além do que se vai sabendo, cresce, incontidamente, a desconfiança sobre o modo de agir dentro da tropa. Num sistema fortemente hierarquizado concebe-se mal que alguém, mesmo um major ou um coronel aja sem conhecimento dos seus superiores.

Há, a latere, uma história de recusa de um juiz a um pedido de intercepção telefónica de presumíveis criminosos mas isso é para outro post dedicado apenas aos senhores magistrados que, actualmente, servem para tudo desde homem de futebol até secretário de Estado. A gente vê, ouve (e pasma) juízes a opinarem sobre tudo com um à vontade que ultrapassa as suas claras funções e permite duvidar do bem fundado de opiniões e, pior!, decisões.

Perguntará alguma leitora (ou algum leitor) por que raios estou eu a escrever sobre um tema que o ruído do futuro orçamento, dos novos mini-partidos, da senhora Katar, do cavalheiro de saia plissada ou da chegada da jovem sueca atiram para o limbo noticioso. Pois é precisamente por isso. Para que não se diga que as pessoas atordoadas pelo dia a dia frenético, pela black friday pelo Natal à porta ou pela história mal contada do lítio e subsequente fuga rápida de um secretário de Estado incapaz de enfrentar os cidadãos que protestavam, se calaram.

Não, não se calaram nem se calam.

29
Nov19

au bonheur des dames 418

d'oliveira

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Aventuras da Desrazão

 

mcr 29-XI-19

 

Depois da surpreendente teoria do salário mínimo nacional dever ser definido à base do amor (e amor caro, amor a 900 euros mensais...) eis que a deputada Joacine Katar Moreira “contrariando uma das marcas genéticas do LIVRE” se absteve num voto sobre Israel. Notem que a criatura até estava de acordo em condenar. Mas não o fez por ter havido um problema “de comunicação” entre ela e o famigerado grupo de contacto (parece ser este o nome da direcção do partido). Ou seja, além da gaguez física há estoutra gaguez intelectual. Vejamos: se o LIVRE dá (como afirma Rui Tavares) uma grande liberdade aos seus eleitos, se os eleitos são a favor da condenação de Israel (e neste caso da ocupação de territórios árabes exteriores às fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente) por que bulas a conhecida senhora se abstém?

Eu, desde o primeiro dia, entendi que JKM funcionava em roda livre e que se considerava uma diva e pensava ser (mal, mas já lá iremos) a única responsável pelo seu lugar no Parlamento. E da cenografia que marca cada passo que dá nos “passos perdidos”, incluindo os de polícia ao lado para afastar os maldosos jornalistas. Nos meus tempos de menino e moço, falava-se muito da “sociedade do espectáculo” numa adaptação demasiado livre das teses “situacionistas”. “Mal comparado” eis-nos na dita situaçãoo! Credo!

Conviria lembrar à Sr.ª Moreira que ela só senta o dito cujo na AR porque um partido chamado LIVRE a candidatou. Sem ele, ela continuaria feliz e desconhecida do povo português. Passo por alto o curioso sistema interno que alavancou a sua ida para deputada mas, tendo em conta a pequena e divertida história do LIVRE, tudo ali parece possível incluindo até o fazer política.

Também recordaria, se é que a coisa tem alguma importância que, ao contrário do que Joacine afirma, a sua eleição teve os seus pontos mais fortes nos bairros ricos de Lisboa (Belém, por exemplo) e não naqueles onde as minorias “perseguidas” pelo racismo existem e, eventualmente, votam. Os bairros “pobres e problemáticos” deram o lugar ao Sr. Ventura, esse representante (segundo o falecido camarada Dimitrov) da “ditadura terrorista do capital”. (os leitores mais avessos à história do comunismo em geral e do Komintern em particular perdoarão esta minha mania de referir uma história que até o PCP - et pour cause - já esqueceu convenientemente).

Perguntarão as leitoras e leitores (se posso usar imodestamente este plural) que interesse terão a média e alta burguesias lisboetas em catapultar uma “esquerdista” em vez de darem o seu aval às tradicionais forças que as representam (PS, PPD ou CDS). Em poucas palavras diria que para uns o PS se esquerdizou demasiadamente graças à “geringonça”, que o PPD já não sabe a quantas anda com um dirigente vinda da província nortenha e com sotaque tripeiro (oh que horrorrrr!!!) e que o CDS se perdeu num optimismo “crístico” depois de ter obtido um bom resultado nas autárquicas. Num palavra, o CDS parece querer imitar o sapo que inchou demasiadamente sem perceber que lá dentro só havia ar e vento. O LIVRE era pois uma escapatória simpática depois desse lugar já ter sido ocupado pelo BE que, também ele, vai buscar os seus votos à “gente educada” e bem posicionada na vida, na Academia, nas artes e nos costumes.

Tenho por mim, que ninguém esperava uma eleição do LIVRE que, na realidade é mais um epifenómeno a juntar a outros. Dir-me-ão que poderiam ter optado pelos liberais (e também isso ocorreu, aliás). É até provável que para a próxima vez estes aumentem o seu score (como inevitavelmente ocorrerá com a gentinha de Ventura). Basta apenas que mantenham uma posição clara, de bom senso na AR. São os eleitores que pagam os impostos (e que impostos!) que aderirão com mais facilidade às teses da Iniciativa Liberal, como serão os eleitores de menos posses que se sentem ameaçados por comunidades imigrantes e ciganas que aumentarão o espólio do CHEGA. A Direita Extrema (não vou ainda usar a fácil terminologia de “fascista”) existe, sempre existiu mas só agora, como em várias outras geografias europeias, sente um desejo de segurança e um medo, muitas vezes, irracional. O “mainstream” político europeu (social democrata e conservador) não tem sabido ou podido responder às angústias, inquietações ou medos de uma parte da população que começa a descrer da “Europa” e muito mais do multiculturalismo emergente que põe em causa uma herança cultural que não se resume à “igualdade, fraternidade e liberdade” herdadas da Revolução Francesa. O século XX, com o seu tremendo e trágico cortejo de regimes fascistas e comunistas, com o abrandamento económico actual com a decrescente natalidade, com a difícil reintegração das sociedades de leste, parece propício a este fenómeno de abandono de uma certa democracia ocidental, de algum liberalismo temperado por políticas sociais avançadas desenvolvidas pela social democracia (e por alguma democracia cristã com fortes preocupações sociais).

Com a queda da União Soviética minada pelo desastre económico e financeiro, pela escassez de bens de consumo, pelo descrédito em que a sua “nomenclatura” tinha caído, o comunismo deixou de ser uma força actuante na Europa Ocidental (particularmente na França e na Itália onde os pc locais tinham uma fortíssima posição no parlamento, nos sindicatos e nas elites intelectuais ).

Os últimos anos 60 e toda a década seguinte marcaram claramente o fim da influência de Moscovo mesmo se isso tivesse sido mascarado pela irrupção do Maio de 68, pela guerrilha ideológica “pró-chinesa” ou pelos movimentos “anti-autoritários”. A URSS foi substituída no imaginário intelectual de alguma juventude mais aguerrida por Cuba, pela China e pelo Vietnam. Infelizmente nenhum destes modelos durou mais do que um suspiro. Cuba ruiu depois de andar ao colo dos russos durante duas décadas, a China foi sepultada pelos milhões de vítimas da revolução cultural (que acresceu aos desastres das “cem flores” e do “grande salto em frente” e o Vietnam mostrou depois da vitória a sua face menos agradável na relação com o resto dos países da Indochina mas também pela tragédia inominável dos “boat people”.

É deste desabar ideológico que se foi agravando até ao fim do século XX que começam a despontar as variadas novas formulas esquerdistas que, aliás, foram paralelamente acompanhadas pelo renascer mesmo se diferenciado das direitas derrotadas durante a 2ª Grande Guerra.

Portugal não escapou (como escaparia?) a esta nova desordem política. Houve sempre um núcleo de Esquerda radical (inclusive no Parlamento não só com a UDP mas também com pequenas correntes dentro do PS que foram sendo pouco a pouco varridas para o exterior (os sequazes de Manuel Serra ou o POUS) e para a inoperância. A isso, conviria acrescentar as depurações dentro do PC (de onde saíram para o PS e para o BE grupos mais ou menos organizados que no caso do último foram mesmo fundamentais para o crescimento e êxito eleitorais registados nas últimas décadas. O PS devorou mais de meio MES, arregimentou toda uma série de ex-comunistas notórios deixando para o PPD e para o BE a pesca à linha de ex-maoístas, ex- trotskistas e antigos militantes católicos” em ruptura.

Não deixa, aliás, de ser curioso, e sobretudo irónico, que Joacine, imite (ou esteja perto de imitar), talvez sem querer, Rui Tavares que, eleito pelo BE, cedo se desprendeu mas manteve o seu lugar no Parlamento Europeu. Isto ao arrepio daquele mínimo ético que mandaria o eleito em ruptura a abandonar o grupo que o elegeu e o cargo que a ele deve.

Não admira pois que num artigo confuso (no Público) Tavares se embrulhe ao tentar explicar o que se passa entre a estrela que ele ajudou a criar e o partido em que ambos eventualmente militam. Todas as restantes e notórias notícias que vem do pequeno partido são espadeiradas na água e entram ousadamente no ridículo e na crónica bem humorada do “fait divers” Quando não é assim e recorrem a um agente da autoridade para proteger o sacro descanso político e a vacuidade ideológica da deputada fazem prever uns “amanhãs que cantam” demasiado sinistros. Enquanto o deputado Ventura fala aos polícias a senhora deputada já os vai usando para repelir jornalistas curiosos...

Les beaux esprits se rencontrent.

* na estampa:colonato invasor da terra palestiniana cercado por um muro que lembra outros não tão recentes.

 

 

20
Nov19

Diário político 224

d'oliveira

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Foge cão que te fazem barão.

Mas para onde se me fazem visconde?

d'Oliveira, Nov19

 

Este texto havia de chamar-se “e ele a dar-lhe e a mula a fugir”, ou seja perdi uma oportunidade de ouro para dar nome a uma croniqueta, dure ela o que durar na memória de algum leitor.

O caso é o seguinte

Julgo lembrar-me de uma declaração de Sª. Ex.ª , o Senhor Presidente da República onde, ainda em princípio de mandato, afirmava que neste país havia condecorações mais. E por tudo e por nada!

E, em consequência a nova Presidência seria muito mais cuidadosae atenta a essa chuva de benesses honoríficas.

Um jornal pegou-lhe nas palavras e descobriu que Soares teria sido o mais pródigo, logo seguido de Sampaio. Eanes e Cavaco tinham sido menos generosos ou até, no caso do segundo, forretas.

Contudo, passados estes aos de presidência, beijinhos e “selfies” a esmo (a pontos de o meu amigo K dizer que, mais dia menos dia, seria o único português que não se retratara mão na mão com o Presidente. E isso, essa desconcertante ausência, dar-lhe-ia, vejam bem!, uma infinita notoriedade, quiçá um lugar na história das primeiras décadas deste século.)as condecorações dispararam a um ritmo jamais visto. Pelos vistos aquela prometida acalmia nas comendas foi esquecida, obnubilada pela pertinácia dos portugueses que se terão excedido em acções meritórias obrigando o seu lídimo representante a dar o dito por não dito. 

Agora, na hora da morte do José Mário Branco, eis que S.ª Ex.ª acolhe a ideia de uma condecoração póstuma, caso a família do finado não se oponha. E mais: S.ª Ex.ª recordou que já teria, e por várias vezes, proposto uma comenda ao cantor mas que este, como se esperava, sempre recusara.

Quem conheceu o Zé Mário, desde os seus tempos aventurosos de Coimbra sabe que isto era nele algo de inato. Para o Zé, as honrarias protocolares eram detestáveis.

Agora que o apanham morto e desprevenido, eis que a comenda ameaçadora espreita. Basta a família não se opor!

Ontem, mcr, num post aqui mesmo, já se arreceava de uma panteonização do cantor e compositor. Ainda as suas curtas linhas não se tinham (metaforicamente) secado e lá vinha a palavra do Chefe do Estado que, aliás, e sem se rir, abundava num discurso elogioso sobre um adversário político de sempre. Eu desconhecia que nos idos de 60/70, o jovem estudante de Direito Marcello Rebelo de Sousa pertencia já ao pequeno mas combativo núcleo dos admiradores do autor de FMI e, mais na época, da “ronda do soldadinho”. É sempre bom saber que, nesses tempos de combate incerto, um jovem que tudo empurrava para a Direita, se revelasse um resistente, porventura silencioso mas sempre resistente.

Não fui votante de MRS em nenhuma ocasião. Não fui seu entusiasta enquanto frenético dirigente do PPD/PSD. Ouvi-o, as mais das vezes enfastiado, na sua posição de professor Marcello comentador. E, nessa altura, apostei com um par de amigos que aquele homem, inteligente, astuto, frio e bom explicador dos assuntos que pecsava no seu comentário semanal, tinha a ambição de ser Presidente da República. Os meus amigos acharam-me “exageradote” (sic) e aceitaram todas as apostas que propus. E pagaram, sem amuos mas recusando dar-me o estatuto de pitonisa, os almoços em questão. Já renovei o dsafio mas eles, mais precavidos, ainda não se decidiram. E com o elogio ao JMB duvido que arrisquem.

Nada tenho contra o facto de o Doutor (por extenso) Rebelo de Sousa gostar de ser Presidente tanto quanto gostará de nadar. Não tenho qualquer dúvida que, no caso de se recandidatar, ganhará (sem precisar do meu solitário voto) e por larga maioria. Por um lado isso tornou-se já uma tradição: todos os Presidentes da Democracia bisaram e com inegável êxito. É mesmo provável que o PS (como outrora o PPD na 2ª eleição de Soares) apoie ou, no pior dos casos, recuse dar o aval a uma candidatura hostil a MRS. Lá terá as suas razões.

Portanto, essa futura campanha será um passeio (ainda maior e mais fácil do que o anterior) para o actual inquilino de Belém. Aparecerão, claro, uns aventureiros a disputar-lhe a eleição. Não porque pensem ganhar mas sempre é uma ocasião de se tornarem falados. Na melhor das hipóteses essa corrida ganha à partida será uma espécie de Branca de Neve contra os Sete Anões, sem rainha má, sem maçã envenenada e sem príncipe beijoqueiro e salvador. Não é a melhor história mas é a história possível.

O hino de campanha do actual Presidente poderia muito bem ser “a cantiga é uma arma” mesmo se “FMI” fosse mais promissor. Não serve por ser longo de mais e conter palavrões.

 

(Vai a crónica oferecida a Maria Assis por muitas razões e com um beijo)  

19
Nov19

au bonheur des dames 424

d'oliveira

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Zé Mário

mcr, 19.XI.2019

(52 anos, quase dia por dia, de um concerto entre amigos em Paris. Ai, amigos meus, tão livres que nós éramos...) 

 

Chega-se a uma idade em que as más notícias são a regra e as mortes se acumulam até perderem sentido. Agora, foi o Zé Mário Branco, uma amizade de quase 60 anos, forjada durante a sua curta estadia em Coimbra. Em determinada altura, hospedou-se no meu quarto, já não sei por que motivos. Provavelmente entendia que o seu dinheiro seria mais bem aplicado do que num aluguer. A D Laura, minha (e de muitos outros) generosa hospedeira facilitou um colchãozinho e ele foi meu “cabide” durante umas semanas.

Depois desapareceu, melhor dizendo, fugiu à tropa e à guerra. Sabíamos que a Isabel (Alves Costa) mãe de dois dos seus filhos fora ter com ele a Paris. Em Novembro de 1967, o CITAC, um grupo de teatro estudantil de Coimbra, no qual eu estava integrado, rumou a Paris para,  no âmbito da 5ª Bienal de Paris, apresentar” o “Grande Teatro do Mundo” encenado por Victor Garcia. Foi nessa semana fantástica, a poucos meses do “11 de Março”, que reencontrei o Zé Mário que principiava uma auspiciosa carreira de cantor e músico. Num pequeno bar da margem esquerda ouvimos, em primeira mão, canções como “ronda do soldadinho”. Mais tarde um disco, com o mesmo nome, contrabandeado chegar-nos-ia a Coimbra.  Quando o Zé regressou, logo depois do 25 de Abril, voltámos a encontrar-nos em espectáculos ou simplesmente em Lisboa.

Quando comecei a trabalhar na Delegação Regional de Cultura, no Porto, idealizou-se uma série de concertos de música popular que começaria, nem podia ser de outra maneira, com o Zeca Afonso, outro velho amigo de Coimbra. E com ele, depois dele, vieram o Zé, o Vitorino, o Sérgio e viria, se não morresse abruptamente, o Adriano. Fiz parte da pequeníssima equipa (onde destaco a acção extraordinária e perfeita de Luísa Feijó) que trabalhou arduamente para apresentar estes espectáculos no “Auditório Nacional de Carlos Alberto”. Escusado será dizer que registámos enchente sobre enchente. Foi a DRN quem, primeiro que quaisquer outros, deu uma sala  do Estado à música de intervenção e a uma série impar de cantores de mpp que ainda hoje são escutados e aplaudidos.

Depois, o resto é história, uma que outra vez lá nos encontrávamos e retomávamos uma antiga e quase ininterrupta conversa começada nos anos sessenta em Coimbra à luz fraterna do associativismo estudantil e das lutas que íamos travando com maior ou menos sucesso.

Com a Isabel a relação foi mais continuada pois além dela se instalar no Porto, foi na DRN, e com a DRN, que lançou o Festival Internacional de Marionetas do Porto que dirigiu até, subitamente, morrer. Desses anos de trabalho também já foram, entre outros, o Rui Feijó (primeiro e insubstituível Delegado Regional do Norte) e o Manuel Matos Fernandes, um animador cultural  cultíssimo e com uma invulgar capacidade de trabalho.

Da qualidade musical do Zé, para além do seu enorme talento poético, outros falarão. Da sua generosidade e do seu intenso labor em aproximar músicos, estilos e gerações diferentes haverá seguramente melhores e mais avisados testemunhos. Mas do amigo que trocava sonhos naqueles dias sombrios de Coimbra em que fintávamos a adversidade, a polícia, e o embiocamento provincial e provinciano do país, posso falar sem rebuço. Como uma das suas criações, o Zé era um “Ser Solidário”. E isso vai fazer falta, muita falta.

(Nota à parte: foi noticiado que se estava a preparar uma edição completa e, espero, “raisonée”, da sua obra musical. Esperemos que isso se torne realidade tão depressa quanto possível. E, já agora, por favor não o queiram emparedar no Panteão como vai sendo moda... Isso seria uma segunda morte para ele. E para mortes basta uma e a definitiva

14
Nov19

diário político 223

d'oliveira

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eu comovido a oeste”

d’Oliveira, 14.XI.19

 

Não, não é para recordar esse formidável escritor que foi Vitorino Nemésio (o homem de “mau tempo no canal”, quiçá o melhor romance português do passado século) mas apenas para, roubando-lhe o título de um livro, referir-me à primeira intervenção da senhora deputada Joacine Moreira.

E vou só referir-me ao conteúdo e não ao resto. Disse a senhora deputada que um salário mínimo de 900 euros (a sua proposta) seria um “acto de amor” !(sic).

Vejamos mrlhor. O PS propões, lá para o fim do mandato, 750 euros. O PC (como não podia deixar de ser) contrapõe 850 e o “Livre” atira com 900 euros. Porque não 1000, pergunto eu, já que é um número redondo e mágico?

Mas, para além deste disparatado leilão, há a justificação apresentada: seria um acto de amor! Saímos do campo da política, mais ainda do da economia, e caímos numa novela sentimental do século XIX ou numa imitação pueril e pobre de uma aula de catequese nos anos 40 (altura em que gramei uma senhora bondosa que, a par do “acto de contrição” e do “salve Rainha”. É bem verdade que conseguia escapulir-me para a mata de Soto Maior sempre que a bondosa criatura se distraía mas mesmo assim tive 13 valores –em Buarcos e nessa altura, a catequese tinha valores para podermos aceder à comunhão solene.

Ora, com algumas diferenças de idade, de locução de cor e de alegada ideologia, as duas mulheres assemelham-se num ponto importante: transbordam de amor pelos necessitados, pelos pobrezinhos mesmo se entre a época de uma e hoje haja uns bons setenta anos.

Em teoria, ninguém discute a necessidade de os trabalhadores deverem ter um salário decente que os ponha (a eles e à família) o abrigo das necessidades mais elementares. O problema que, entretanto se põe, é saber qual é a capacidade dos empregadores para pagar seja o que seja. E, já agora (algo de que raramente se fala), da produtividade.

Também é verdade que, em alguns países europeus, o salário mínimo é mais elevado (basta a Espanha aqui ao lado) se bem que noutros (todo o leste) chega a ser metade do que o que cá se paga.

E, mesmo em Portugal, temos patrões a pagar acima do estipulado (permitam-me o meu exemplo: tendo em conta o número de horas pago quase o dobro do futuro SMN e, quando ele chegar, continuarei, suponho, com a mesma distância, respeitando e pagando feriados, férias e subsídios de férias e Natal. Não o faço por amor, era o que faltava, mas por simples ética por respeito com um passado meu e com convicções por que me bato. E porque posso pagar isso sem cair na ruína iminente, convém acrescentar.)

A proposta da senhora deputada é pois, no actual quadro económico e financeiro nacional, um absurdo no qual nem ela provavelmente acredita.

Ou acredita num outro plano que não o político, por exemplo numa óptica do discurso amoroso, em que a paixão obnubila tudo e tudo permite. A senhora deputada ama os desprotegidos tanto ou mais que a finada madre Teresa de Calcutá, ou, mais perto, como a santinha da Ladeira. É uma espécie de missionaria laica o que para uma senhora nascida na Guiné e com dupla nacionalidade é quase um programa de vida.

Não sei se os trabalhadores portugueses, sobretudo os que nem ao salário mínimo actual chegam, apreciaram devidamente esta declaração fervorosa e ternurenta da deputada. De todo o modo, há que reconhecer que estamos no

“...Incrível pais da minha tia

trémulo de bondade e aletria...”

como Alexandre O’ Neil diria se conhecesse a senhora Moreira. Não me atrevo (ou melhor, atrevo-me mesmo) a citar Nemésio que, no livro que dá título à crónica de hoje, diz

“...fechei as pálpebras pesadas

de contradição e poesia...”

Sei que estas citações de dois eminentes poetas que muito estimo são salvas de pólvora seca contra o delírio parlamentar desta original deputada. Que dirão os do “Livre” destas prestações delico-doces da sua representante no areópago parlamentar?

Sorrirão felizes e enlevados com estas tiradas melosas m um tanto ou quanto nefelibatas da sua vistosa deputada?

Cá em casa, a coisa foi saudada com uma saudável mas impertinente gargalhada sobretudo por parte da minha mulher que, recordada da sua juventude perigosamente militante e pró-africana, a secundou com uns resmungos que até o neto do alto dos seus dois anos acabados de fazer, entendeu como reprimenda injusta por estar a tentar destruir o telemóvel da avó complacente.

Eu, limitei-me a comover-me, como em Coimbra quando ouvia os discursos do Teixeira e as tiradas do Tatonas. Ao fim e ao cabo na sua inocência e longe do nosso mundo, também eles mereciam amor. Com algum “pão e fantasia” como recomendava o excelente Comencini, um dos realizadores que marcou a minha juventude cinéfila.

* a estampa: fotograma de "pão amor e fantasia "de Luigi Comencini . E com a espampanante (ai, jesus!) Lolobrigida!

 

 

 

12
Nov19

au bonheur des dames 416

d'oliveira

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À Lagardere

 

mcr 11.11.19

 

Duvido bem que a maioria dos meus leitores tenha algum vez lido Paul Féval, um cavalheiro francês (sec XIX) que, com Ponson du Terrail (outro da mesma nacionalidade e da mesma matriz literária), escreveu romances de capa e espada na senda de Alexandre Dumas. Féval tinha um herói, o jovem Lagardere, espadachim emérito que aliava a coragem, a virtude ee o encanto a um bote secreto com que vencia duelos tremendos.

Depois, sei lá porque razões começou a usar-se a expressão “à Lagardere” para referir ousadia (num primeiro tempo) e excesso de qualquer qualidade, finalmente.

Ora, eu, ainda que sem especial vontade, vou voltar a referir-me uma vez mais à sr.ª dr.ª Joacine Moreira deputada do Livre (ou será o Livre que é o grupo de Moreira?) que tem ocupado excessivamente as páginas dos jornais. E não pelos melhores motivos, convenhamos. A polémica instalou-se pelas más razões, desde a gaguez da personagem até à cor de pele brandida como arma de arremesso pelos seus partidários (a começar pelo sr. dr. Rui Tavares) que carregou nessa tecla juntamente com a da condição de mulher como se isso fosse uma panaceia para o parlamento. Não é o facto de ser mulher, mesmo negra (como ele insistiu e ela se conformou com inegável à vontade ), que faz um bom deputado/a. E nem sequer como símbolo isso parece valioso num país que, com todos os seus defeitos (e são muitos) já elegeu gente de “cor” (pudica expressão para dizer preto que, pelos vistos é muito pior do que negro) e até tem no seu Governo uma mulher negra (ou preta) e um 1º Ministro com sangue indiano.

Portugal mesmo sem recorrermos ao estafado luso-tropicalismo, encheu-se de negros (escravos) desde o século XVI, de mulatos e governou colónias onde estes foram, em quase todos os casos, os executantes subalternos da política colonial e imperial. No Alto Alentejo subsistiram durante centenas de anos grupos fortemente mestiçados para ali levados para os trabalhos agrícolas e se, agora, são menos visíveis foi porque abandonaram a zona e se cruzaram com “brancos” nas zonas de imigração interna para onde se deslocaram.

E onde é que entra a sr.ª deputada Joacine? Entra, precisamente, com uma versão modificada da espadeirada à Lagardere. Ou seja, ganhará sempre todas as discussões recorrendo ao argumento “atacam-me porque sou negra, mulher e gaga”. Perguntam-lhe alhos e ela responde que é negra. Perguntam-lhe bugalhos e retorque que é gaga (“de fala mas não de cabeça”, sic). À questão dos negalhos dirá que só lhe falam disso porque é mulher. E assim, sucessivamente.

Todavia, as questões que se puseram em relação a esta senhora não são assim tão inconvenientes. A gaguez é mesmo um senão, uma barreira à discussão no parlamento. Darem-lhe mais tempo, benefício que não discuto e a que, muito menos, me oponho, pode ser uma prova desagradável de condescendência e não o reconhecimento de um direito. De todo o modo, sozinha como está e com a limitação de direitos que também recai nos outros dois deputados igualmente sós, temos que mais minuto menos minuto em pouco modificará a discussão na AR.

E, já agora, o problema da gaguez não perpassou sequer ao de leve, pelas cabecinhas iluminadas dos dirigentes do Livre? Não acharam (e muito menos entenderam) que, mesmo sem assessor espampanante de saia de pregas e meia verde bandeira, era complicada a sua acção no parlamento?

É que, para um espectador distraído, poderá surgir a tentação de pensar que a cor d pele é apenas um truque para mostrar a “diferença” mesmo se isso não tem cobertura política e/ou ideológica! E se for assim, e bem que o pode ser, impõe-se uma grave conclusão: a cidadã Joacine chega ao parlamento não por ela própria mas pelo sexo, pela cor de pele e, eventualmente, pelo seu problema de locução. Um truque, um expediente uma vigarice (para usar uma expressão posta em moda politicamente pelo sr. deputado Rui Rio).  

Não sei se nisto tudo ela é actriz ou meramente vítima. Seja como for, ha aqui algo que cheira a expediente eleitoral e a uso e abuso de diferenças de sexo, e de cor.

E é pena porquanto uma voz (mais uma) feminina pode sempre tornar o parlamento mais abrangente, mais curioso mais interventivo.

 

 

10
Nov19

au bonheur des dames 415

d'oliveira

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“Lonely Woman”

mcr, 10.11.19

 

Permito-me recordar um belíssimo tema do grande grupo Modern Jazz Quartet (John Lewis, Connie Kay, Percy Heath e Milt Jackson –piano, bateria, contrabaixo e vibrafone). A música, porem deve-se a Ornette Colleman, um saxofonista rebelde mas genial. E tanto ou tão pouco que o álbum do MJQ que contem esta composição intitula-se justamente “lonely woman” e tem uma capa lindíssima que adorna a gravura deste folhetim.

De todo o modo, não é do MJQ que pretendo escrever mas, roubar o título ,para apenas falar da jovem mulher de 22 anos, cabo-verdiana e imigrante, provavelmente pouco alfabetizada que vivia nas ruas de Lisboa como sem abrigo. Junte-se a isso uma gravidez provavelmente indesejada e o abandono do alegado pai da criança.

Não pretendo dizer que a tentativa de homicídio tenha justificação, sou infelizmente um vago jurista não praticante, imbuído todavia dos preceitos inculcados pela Faculdade e pela ética que bebi desde menino.

De todo o modo, se a mulher jovem e ignorante tivesse ido a uma abortadeira (que ainda as há) ou, caso mais difícil, tivesse abortado legalmente num hospital (pressupondo que encontraria um médico que não levantasse a famosa objecção de consciência) onde estava o crime?

Alguém, aí desse lado das leitoras e leitores que, com infinita paciência, me aturam poderá explicar-me?

Eu sei que andam por aí subtis distinções entre feto e recém nascido (que reconheço do alto da minha idade, meio social, classe, cultura e educação mas que não funcionam da mesma maneira para uma jovem, pobre, miserável mesmo, só e abandonada numa terra estrangeira e não tão afável como a propaganda tenta fazer-nos acreditar) mas que quer isso dizer perante o caso concreto?

Temendo irritar-me mais do que me apetece, não li, não ouvi os comentadores jornalísticos e televisivos que, pelos vistos não largam a notícia. Sei, tão só que a rapariga está preventivamente presa o que, dado o seu passado próximo, até pode ser um alívio. Tem um teto e três refeições quente por dia o que, para um sem abrigo em fins de Outono numa Lisboa onde chove que Deus a dá, pode ser um “upgrade” (estamos em época boquiaberta por uma coisa chamada web summit que pelos vistos nos vai pôr no cume do progresso tecnológico e na vanguarda da ciência) de certa importância.

Todavia, apesar da minha pouca atenção aos oráculos que pululam pela tv e um pouco pelos jornais, não tive eco de um pouco de dó, de compreensão, de caridade no caso em apreço. Pelos vistos, todos acham que a pobre criatura é uma homicida fria e desapiedada.

Entretanto, um recém nascido, mesmo mulato parece despertar o interesse de demasiada gente, incluindo (e é melhor aspecto) adoptantes. Um bebé de dias é um must mesmo se andam por aí, e mal, centenas de crianças que hão de crescer em instituições frias longe dos focos da comoção pública. Fosse eu mais novo, mais experiente da coisa jurídica e vivesse em Lisboa, já me teria oferecido para defender essa mulher só, terrivelmente só.

(em tempo: estou obviamente disposto a contribuir com algum dinheiro para ajudar a acusada. Assim eu saiba como e a quem o entregar.

 

 

08
Nov19

o leitor (im)penitente 214

d'oliveira

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Raduan Nassar

 

mcr 8.11.19

 

Correndo o risco de me repetir, pois já, aqui, escrevi duas ou três vezes, sobre Raduan Nassar, volto a insistir.

E faço-o porque para minha grande e grata (oh quão grata!) surpresa, o Público de hoje, no seu suplemento “ípsilon” (pp 18 a 24, inc.) dedica sete (/!!!) página sao autor de três pequenas mas extraordinárias obras primas da literatura escrita em português. Sáo elas “Lavoura Arcaica”, “Um copo de cólera” e “Menina a caminho, todas escritas e publicadas no século passado.

Foram alvo de edição portuguesa mas, se bem recordo, passaram despercebidas a leitores e a “críticos”. Andaram perdidas por feiras de ocasião a preços vis e eu aproveitei para comprar alguns exemplares para oferecer a um par de amigos.

Depois, RN ganhou o “Camões” e isso trouxe-lhe alguma visibilidade por cá. Moderada visibilidade mas que terá servido para o reeditar ou escoar os exemplares já publicados.

Agora, esta sumptuosa recensão do punho de Isabel Lucas (num suplemento onde o literário costuma andar por duas páginas esconsas) talvez desperte mais atenções, curiosidade e leitura. Felizes serão (e bem aventurados) os que se resolverem desbravar esta obra mínima de um autor que “abandonou” a literatura pela criação de coelhos e que nunca se promoveu, bem pelo contrário.

Curiosamente, ou talvez não (decididamente: não!) Chico Buarque, ao ter notícia do seu justíssimo “Camões” (2019) logo referiu com grande nobreza e dignidade aquele seu antecessor no prémio. Nassar, sempre reservado e tímido, não escondeu a satisfação tanto mais que acha Chico Buarque, sic, “um génio”. Por mim, que admiro ambos e que tenho por CB uma forte admiração desde “Morte e Vida Severina” texto de João Cabral de Melo Neto, um dos nomes maiores da poesia brasileira, portuguesa e universal, este texto jornalístico merece destaque. Por várias razões: está bem escrito, fornece pistas bem interessantes sobre o autor e pode servir de convite à leitura dele.

Leitoras e leitores, ao trabalho, melhor dizendo (e citando obliquamente Paul Lafargue) ao prazer!

07
Nov19

O leitor (im)penitente 213

d'oliveira

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Prendas para amigos leitores

(recordando uma leitura que dura há cinquenta anos, quase dia por dia)

mcr 7-11-19

Deveria dizer: prendas para leitores comprovados. Poderão avisar-me que já não há disso. Retorquirei que, se bem que raros e em vias de extinção, ainda andam por aí como aquele cavalheiro que ameaça continuamente retirar-se da política mas que não resiste e volta a chatear o indígena, uma e outra vez.

Os leitores persistentes não mereceriam esta comparação mas, na verdade, tirante a personagem, as coisas passam-se mesmo assim. O verdadeiro leitor nunca desiste. Agarra num livro, lê três linhas, brilha-lhe o olho e, zás!, aí vão duas páginas sem parar. E sai com o livro, mais leve de algibeira mas com o coração alanceado desejando estar já em casa, quentinho, num cadeirão pronto a ler e, por isso, a escrever uma nova história que não exactamente a do autor. Se o não consegue, das duas uma: persiste, teimoso e arrasta-se pela leitura até ao último ponto final; ou então irrita-se, agarra no livro, e mete-o na estante dos desistidos (é o meu caso: à página 20 cai a sentença. Sim e vamos até à última página desejando que outras tantas a continuem ou deixamos aquilo no sítio em que ficamos enfartados. Até já me aconteceu acabar um livro e, sem intervalo, recomeça-lo. Não foram muitas as vezes, é verdade mas ainda recordo a primeira vez que li Camilo José Cela, um galego apanhado pelo Nobel. O romance chamava-se “mazurca para dos muertos”. Comecei-o pouco depois do jantar e, no dia seguinte pelas seis da manhã acabei-o. Cinco minutos depois, constatando que já não valia a pena dormir, reabri-o na página e e aí vai disto...

Cela tinha mau feitio mas escrevia muito bem e devem-se-lhe duas boas dúzias de excelentes obras entre romances e livros de viagens (a viagem a Alcarria está aí para o mostrar). Foi também o director de uma belíssima revista “Papeles de son armadans” que deu guarida a muitos jovens escritores furando o bloqueio franquista, coisa que, depois do prémio, a inveja de alguns zelotas, quiseram esquecer, obliterar ou negar.

Isto vem a propósito de uma antiquíssima descoberta. Corriam os anos cinquenta, aliás, estvamos em 59 e eu, ainda liceal, fazia anos dali a dias, e uma namoradinha ofereceu-me (melhor dizendo: permitiu-me escolher) “A retirada dos 10.000” de Xenofonte na saborosíssima tradução de Aquilino Ribeiro. Depois da primeira leitura, achei que devia gastar uma dinheirama valente e mandei encadernar o livro. E em boa hora o fiz que pois foram muitas as vezes em que voltei a essa alucinante aventura de uns milhares de mercenários gregos, contratados por um pretendente ao trono, vivida numa retirada de milhares de quilómetros, entre povos desconhecidos e pouco amistosos. Tudo isto na desordem das assembleias a cada passo, por alguma coisa a democracia fora inventada na Grécia, pelos truques, pelos discursos, pelas manifestações de heroísmo, pela descrição de paisagens e geografias diversas até ao momento entre todos desejado do avistamento do mar (Thalassa, thalassa!, eis a expressão que se tornou imorredoira).

Entretanto, já neste século, encontrei num alfarrabista, um exemplar da Retirada. Resolvi oferecê-lo a um amigo. Encadernado em meia francesa, salvo do ar cansado, graças a uma aparadela ligeira, entreguei-o ao destinatário. Dias depois, este, telefonou-me maravilhado. Estava a terminar o livro e já tinha saudades dele. Assim começou um hábito que tenho mantido. Sempre que encontro um exemplar da obras, compro-o, mando-o encadernar e escolho o “freguês”. Já lá vão 11 e até ao fim do ano serão treze os escolhidos. Não sei o que me dá mais prazer: se os agradecimentos se o acto simples de dar.

Hoje, visitei um velho amigo hospitalizado. Já estava na lista há tempos mas a ocasião ainda não se proporcionara. De uma vezada matei dois coelhos com a mesma cajadada. Cumpri um mandamento da Igreja (visitar os enfermos) e oferecer a “Retirada...”

Pensando bem: foram três coelhos. Já me tinha esquecido do meu prazer em oferecer...

 

 

* A Retirada tem por verdadeiro nome Anabase termo grego que, segundo Aquilino, no prefácio, significa “marcha para o interior”.

 

** Creio que a ilustração é da autoria de Júlio Gil que é o responsável pela minha edição e datada de 1957 na tiragem especial de 300 ex em papel especial Alfa, exemplar nº 298 assinado pelo tradutor .

 

 

 

07
Nov19

diário político 222

d'oliveira

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Estes dias bizarros

d'Oliveira fecit 7/XI/ 2019

 

! Nunca fui adepto de dar o nome de pessoas vivas a ruas, prédios ou instituições. As razões são muitas se bem que a mais óbvia seja esta: depois da homenagem, o homenageado pode perder a cabeça e desatar a fazer tropelias de todo o género ou, pelo menos, tornar-se uma criatura odiosamente vaidosa e insuportável.

Recordo, entre parêntesis, que, na minha meninice, vivi anos a fio na rua ou avenida Almirante Tenreiro, um homem forte do Estado Novo e manda-chuva do sector das pescas. Com o 25 de Abril a toponímia mudou porventura por iniciativa dos primitivos homenageantes. Aconteceu algo de semelhante à ponte Salazar rebaptizada “25 de Abril”.

Ora, para evitar estas desastradas reviravoltas toponímicas, bem avisado andará quem só queira o seu nome glorificado depois de morto.

Tal não sucedeu com Rosa Mota. A cidade do Porto entendeu que se Lisboa dera o nome de Carlos Lopes (outro campeão olímpico da maratona, para quem porventura já não saiba quem é) a um pavilhão desportivo no parque Eduardo VII, bem que se poderia dar novo nome ao pavilhão do Palácio de Cristal e de uma penada homenagear a atleta.

Convenhamos que a homenagem era fraca porquanto o “palácio” estava já num estado deplorável a pedir obras urgentes.

Apareceu uma cervejeira disposta a pagar caro a publicidade e enterrou uma boa dezena de milhões no edifício, restituindo-o à sua primitiva dignidade e melhorando muito o seu interior. Percebe-se, assim, que a tanto milhão gasto corresponda uma enfática vontade de perpetuar grandiloquentemente o nome da marca e eis que temos o “superbock arena em letra grrafal (como compete a uma marca de cerveja!...) e mais em baixo e um pouco menos apelativo “pavilhão Rosa Mota”.

Rosa não gostou mesmo se, em seu tempo de atleta, tenha provavelmente usado dorsais com marcas de produtos que amparavam e subsidiavam a sua carreira. Desconheço se, nessa época, criticou o estado calamitoso do pavilhão que tinha o seu nome.

Agora, recusou-se a assistir à inauguração do renovado espaço. Estava no seu direito e não serei eu quem a critique. Porém, além de faltar à cerimónia, que, de todo o modo se realizou com a habitual pompa e circunstância, Rosa Mota resolveu alertar a pinião pública para a “desconsideração” sofrida. Pelos vistos, desconhece a força do dinheiro e a penúria das instituições públicas que se viram obrigadas a recorrer ao mecenato da “superbock”.

Parece que, apesar de convidado, o senhor Presidente da República não esteve presente. Agenda sobrecarregada, preparativos para a recentíssima e feliz intervenção cirúrgica ou mera solidariedade com a atleta que S.ª Ex.ª há pouquíssimos dias exaltara como valendo mais que muitos, todos, os presidentes da república. Eis que o Professor de Direito se revela um conhecedor da Grécia clássica e da admiração sem limites ali professada pelos atletas vitoriosos.

A Câmara do Porto apanha por tabela mesmo se parece evidente que, no caso, pouco ou nada poderia fazer. Alguém acha que o senhor Presidente da Câmara, deveria comparecer de corda ao pescoço ou de luto carregado apelando aos “homens bons” da cidade dita invicta ou à plebe que se está nas tintas para substituir a superbock por uma “sagres”?

Quem sou eu para aconselhar Rosa Mota, sobretudo depois do caldo entornado. De todo o modo bastava-lhe faltar à cerimónia, envolvida num digno mas loquaz silêncio para se perceber o seu desagrado. Ao proclamá-lo tão ruidosamente (acompanhada ou não pela indignação de uns, pelo calculismo de outros e pelo populismo de eminentes figuras públicas) a coisa adquire um risível tom que diz muito sobre o “torrãozinho de açúcar”....

 

2 O novo Governo da pátria imortal nação valente averba 69 responsáveis! É obra! Eu não vou pela facilidade da acusação mesquinha quanto ao custo de tantas luminárias a que se irão somar infindáveis hostes de assessores e demais afilhados.

Também não vou, à semelhança de um Ministro remanescente, chorar sobre a perda de uma senhora Ministra por acaso, mero acaso, esposa amantíssima do mesmo cavalheiro. Aqui, à puridade, sempre direi que ela me parecia valer por três dele mas isso é porque talvez eu seja um feminista que se desconhece.

Eu, sobre relações familiares no Governo não digo sim ou não. Também não digo “nim”. Como se ensinava na imortal faculdade de Direito que me amargou a juventude, cada caso é um caso. E naquele, nunca me dei conta que os negócios do mar andassem com o mesmo lento e frágil vagar que o senhor Eduardo Cabrita imprime ao seu pelouro. O ar pesado e cansado do ministro parece ser o retrato do estado do seu ministério. Mas isso é outro contar.

O único mas formidável problema que veja em tanto ministro e secretário de Estado é o raio da sobreposição. Eu, ave de mau agoiro e piores fígados, temo conflitos em série nas áreas secantes ( e, muito provavelmente das tangentes) de cada senhor Secretário de Estado pois as próprias atribuições já conhecidas não estabelecem fronteiras fáceis, sequer seguras entre cada pelouro. Depois, os Secretários de Estado, sobretudo os caloiros vão fazer o possível e o impossível para mostrar de que madeira são feitos (e nisto não vai qualquer comparação com o imortal Pinóquio, tanto mais que Costa é demasiado espesso e encorpado para fazer de Gepeto).

A juventude (que é uma doença que passa com a idade) é assim. Muito afirmativa, muito senhora do seu nariz (e volto a dizer que nada de Pinóquio aqui, mesmo se alguns governantes mentirem mais do que o ousado boneco e sem o perigo de lhes crescer o nariz...). Mas mesmo sem o sangue a ferver-lhes nas guelras o simples estado dos problemas que vão enfrentar e a bandalheira em que está o desgraçado interior vão dar água pela barba a muitos destes jovens cavalheiros.

Este governo gigantesco tem no seu gigantismo (perdão pela estilo pleonástico) a ameaça maior para o sucesso. Por muito hábil que seja o Primeiro Ministro, coordenar 19 (+ 50 por interpostas pessoas) criaturas não vai ser pera doce.

Depois, nunca fui, não sou, e já não me deve restar tempo para ser, adepto desta moda de desmultiplicar ministérios (agora vamos ter o da função pública, Jesus Maria, José!...,) como se isso fosse a poção mágica do sucesso. Não é. Os detalhes por muitos que sejam, não implicam que não deva haver uma visão de conjunto que o desregramento de ministérios pode ferir.

 

 

3 Parece que a senhora Ministra da Função Pública vai premiar os funcionários que faltarem pouco. Eu aceito que se premeie o funcionário que não falte e mais ainda o que produza trabalho que se veja que inove, que proponha, que cumpra. A falta (não falo de doença, claro) é sempre uma anomalia e, por definição, acarreta custos quanto mais não seja pela descoordenação que pode provocar num serviço. E, na generalidade. não deve ser tolerada, 

Eu teria estimado que S.ª Ex.ª tivesse referido o escândalo da nomeação de chefias, o favoritismo político a falta de respeito pela CRESAP, a situação inacreditável de centenas de responsáveis em funções a título de substituição e por períodos que são até contra a lei.

Dir-se-á que isto é óbvio. Será, mas nunca é demais insistir, reconhecer uma realidade que corrói as instituições e afecta o bom nome da função pública no seu todo.

É verdade que o mal vem de longe mas justamente por isso é que é urgente extirpá-lo.

E já que se fala de função pública seria bom que, de uma vez por todas, se permitisse aos mais de dez mil novos contratados para o exercício dessas funções o acesso à ADSE, como é desde há muito pedido pelo Conselho Geral da instituição (lembremos que o silêncio da administração e do Governo sobre isto que parece justíssimo e, aliás, necessário para a boa saúde financeira da ADSE, é ensurdecedor.). Além de ser um indiscutível direito desses trabalhadores, é, seguramente, uma boa ajuda para as finanças da instituição. Parece que a senhora presidente da ADSE ainda não percebeu isto.

Nós não percebemos como é que a criatura lá foi parar mas esse é um mistério facilmente resolúvel...