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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

10
Out19

Au bonheur des dames 412

d'oliveira

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13 anos depois!

mcr 10.10.19

 

Mais precisamente, 13 anos, cinco meses menos um dia. Eu explico. Em 11 de Maio de 2006, neste espaço livre chamado “incursões” escrevi na edição 24 de “estes dias que passam”, umas linhas sobre uma sacanice mesquinha perpetrada pela “Comédie Française”. De facto, uma peça de Peter Handke que estava a ser preparada para levar à cena foi desprogramada pela direcção do teatro (um teatro nacional, note-se) porque o autor tinha estado presente no funeral de Milosevic, um antigo chefe de Estado da Sérvia e valente filho da puta.

Eu sempre entendi que uma coisa é a obra (literária, pictórica ou musical, etc) e outra é alguma eventual posição política, moral do respectivo autor. Caravaggio não era companhia recomendável, como também o não era Villon ou, neste século, Céline ou Pound. Todavia eram, são, serão exemplos ímpares de grandes criadores e a sua memória persistirá muito mais tempo do que os politicamente correctos que apontam o dedinho inquisidor e denunciam as ideias, os costumes, as atitudes ou ate o pensamento de um qualquer outro indivíduo.

E, sobretudo, sou contra qualquer espécie de censura artística que em vez de criticar o objeto critica o autor ou outras circunstâncias mais ou menos conexas.

Handke, dizia eu (e quem quiser pode ir até ao dia e data anunciados (11.5.2006, pag 11) e ler o que então entendi escrever.

Lembro-me, como se fosse hoje, que terei pensado que Handke nunca receberia o “Nobel” justamente porque a bem-pensância o identificaria com um tiranete. Por muito menos Borges, o admirável Jorge Luís Borges, foi proscrito das listas dos nobelizáveis. Borges, dizia-se, era a favor dos generais argentinos. Por junto, o escritor congratulara-se com a queda dos peronistas (aliás tão corruptos e tão anti-democráticos como os militares mesmo se matassem infinitamente menos), Isso bastara para o confundirem com os meliantes militares argentinos. Convirá notar que alguns dos que criticavam as Juntas militares babavam-se de admiração perante Fidel de Castro, os coreanos e outro autênticos democratas progressistas que “reeducavam” os opositores nos gulags do costume...

Afinal, treze longos anos depois, eis que o Nobel lhe cai no regaço. Valeu a pena não ter morrido, ao fim e ao cabo, Handke é da minha idade, uns meses mais novo e já poderia estar num pacífico cemitério a fazer tijolo. Mas o homem é resistente e a nova composição da Academia sueca lá terá entendido que não pode estar sempre a descobrir talentos desconhecidos de quase toda a gente.

Este prémio é merecidíssimo, Handke é um escritor notabilíssimo, tem inclusive alguns livros traduzidos em português (devem estar esgotados mas seguramente podem encontrar-se nos alfarrabistas) e, por outro lado, este gesto dos suecos é um bofetão de luva branca na gentinha da “Comédie...”

Aliás, provavelmente já nem sequer por lá andam os censores de 2006 que a lei da vida (e da morte) também se aplica em Paris.

 

....

um breve parágrafo para lembrar que Chico Buarque é o “prémio Camões ” deste ano. Prémio justo sobretudo se lembrarmos o autor de uns centos de canções de alta qualidade poética. Conheço pior os romances mas os textos das canções que me vem acompanhando há mais de quarenta anos bastam pra felicitar o júri.

Parece que o sr. Bolsonaro, cujas qualidades intelectuais são assaz conhecida,s está “aborrecido”. Chico não é criatura da sua privança (como alguém, um duque, parece-me, terá dito a Franco “es que hay clases...”) e terá amigos duvidosos. Mais uma vez aqui se lembra que ser amigo de Lula não estraga a qualidade do poema “Construção” e que a falta de assinatura de Bolsonaro no documento que concede o prémio torna este muito mais valioso. Há assinaturas que destroem uma reputação ou uma declaração.

Resta saber se Bolsonaro sabe escrever o seu nome todo e não se engana nalgumas letras...

Força, capitão Bolsonaro, não assine, por favor, não assine...

 

* na ilustação: a extraordinária "Descida da Cruz" do enorme Caravaggio

07
Out19

estes dias que passam 334

d'oliveira

 

 

Lisboa, sempre, o Porto de vez em quando

(e os arredores excepcionalmente)

mcr 7-10-19

 

As eleições acabaram, o país respira de alívio, os comentadores gargantearam a preceito e a confusão estabeleceu-se quanto a vitórias e derrotas.

Quem ganhou?

O PS teve mais deputados e mais votos (120.000, números redondos). Ganhou, portanto. Todavia ficou aquém da maioria absoluta por que lutou denodadamente. E agora? Vai “gerigonciar”? Com quem? O “Livre” e o “PAN” não chegam, o PC não arrisca e o BE, guloso, vai querer um dote condigno.

Assim sendo, esta vitória sabe, “a poucochinho”. E, no entanto, tudo parecia correr sobre rodas, a conjuntura externa e o milagreiro Banco Central Europeu, a cordura sindical nas ruas, a patuleia instalada no PPD/PSD, as hordas de turistas sobre o país indefeso a permanente paciência dos portugueses face ao descalabro do SNS e de mais uma boa meia dúzia de serviços públicos. A quatro, cinco semanas das eleições a maioria absoluta estava “no papo”. Ontem andou ausente e em parte incerta.

No BE, ao que se via nas televisões, o ambiente parecia festivo. Sorrisos e palminhas, muitas palminhas. Celebrava-se o quê? Os 50.000 votos desaparecidos mesmo se o número de deputados se manteve? E para onde foram esses votos? Quiçá para o Livre, jamais par o PC e eventualmente para o PS. A ouvir os comentários (ai os comentários!...) a grande vitória do BE está no facto da maioria absoluta não ter sido atingida pelo PS. Como quem diz “com o mal dos outros posso eu bem”.

Ontem, alguém afirmava que o “Iniciativa Liberal” fora buscar a sua base de apoio aos “bairros chiques”. E o BE foi onde? Às zonas de exclusão, aos bairros da lata, aos cintrões industriais? Não me façam rir que tenho cieiro...

O PAN quadruplicou o su número de deputados. É obra! Sobretudo porque depois da absoluta mediocridade das prestações do seu líder, convenceu quase mais noventa mil eleitores. D repente, um número apreciável de portugueses acordou “ecologista” ou algo do mesmo género. A pergunta que se impõe para este súbito entusiasmo pelo planeta (num país desenfreadamente “plástico”, beatas na rua, cocó do cãozinho em todas as esquinas e abandono galopante de animais domésticos) pode ter alguma resposta no facto de nestas últimas e decisivas semanas se ter realizado a grande e anual discussão sobre os efeitos nefastos da actuação humana sobre o clima. Que o perigo é evidente e diário já se sabe mas que a sua discussão neste momento ajudou não me restam dúvidas. Todavia, a pergunta permanece: que vai o PAN propor sobre praticamente todos os grandes temas a que não respondeu ou respondeu mal durante a campanha?

Dentre os vencedores estão obviamente os três recém chegados ao parlamento. Curiosamente, as reacções divergiram. A chegado do “Livre” e do “Iniciativa Liberal” não causaram um décimo do alvoroço da entrada em cena do “Chega”. O “comentariado” estabelecido e com tabuleta para a rua, encheu o peito e uivou condenações. Pelos vistos as dezenas de milhares de eleitores que (outra vez em Lisboa) levaram o senhor Ventura ao parlamento são uns réprobos ou, no mínimo, uns imbecis catatónicos. Tudo pelas declarações cuidadosamente escolhidas daquela gentinha. Pessoalmente, dou tempo ao tempo e espero para ver, como no poker. Em toda a europa há gente bem pior, representada nos parlamentos e as instituições lá vão funcionando, às vezes bem melhor do que cá. Que eles se anunciam populistas não há quaisquer dúvidas mas ainda os não vi apregoar o partido único o lager ou o gulag, a polícia política, a limitação das liberdades públicas ou a proibição dos outros partidos.

O Chega é segregado por minorias localizadas idênticas ás que deram origem ao “Livre” ou até à “Iniciativa Liberal”.  

E se quisermos levar com rigor esta pesquisa a cabo verificaremos que excepção feita aos chamados partidos do “arco da governação”, até o PCP carece de uma implantação nacional equilibrada... para não falar no BE e no PAN que não saem de parte do litoral entre Porto e Setúbal...

Neste grupo de pequenas formações o caso mais inesperado é o da “IL” que ao fim de poucos meses consegue atrair o número necessário de portugueses para (batendo o Livre) entrar no parlamento. Ontem acusaram este novíssimo partido de ter gasto uma fortuna. Só pelos cartazes imaginativos valeu a pena.

Aliás, ontem, embevecido pela vitória, o coordenador do Livre afirmou que, entre outras virtudes, o partido só tinha gasto 10.000 euros. Deve esquecer-se da sua tribuna trissemanal no “Público”, das vezes que é entrevistado nas televisões e dos anos que passou no Parlamento Europeu, à boleia do BE, primeiro e como “independente” depois.

Passemos aos vencidos.

Do dr. Santana Lopes, esse cavalheiro que “anda, há anos, por aí” não vale a pena falar. A criatura no seu ziguezagueante percurso político apenas conseguiu ferir com alguma gravidade o PSD/PPD. Ainda ninguém percebeu porque saiu e ao que vem. O resultado foi o que se viu, nem 40.000 votos, apenas um pouco mais do que os amigo do sr. Tino de Rans!

Os restantes (incluindo o inefável MRPP que já tinha idade para ter juízo e direito à reforma por inteiro) são meros ajuntamentos de amigos de que não vale a pena fazer a destrinça. Desta vez faltou-nos o POUSque também já não comparecera em 2015. Curiosamente estes doze grupos averbam muito menos votos que o somatório de brancos e nulos. Ou seja, houve dumais de 200.000 portugueses que se deram ao trabalho de ir testemunhar nas urnas que se não queriam os grandes também não queriam os pequenos!

O CDS deu à costa como o S Macaio. Todavia, ao contrário daquele quase ninguém se salvou. Naufrágio completo com perda de pessoas e bens (de 18 deputados passa para 5 o que também resulta do facto de os seus eleitores estarem estarem dispersos por quase todo o país Se sofressem da mesma concentração do PC ou do BE poderia ter elegido mais 3 ou 4). Quase se diria que por pouco não morria na mesma semana do passamento do seu fundador. Este que teve um percurso pelo menos bizarro (até ministro de Sócrates foi!!!) vingou-se além túmulo do partido que mandou, despeitado mas com alguma razão, a sua fotografia para o Largo de Rato. Assunção Cristas teve o bom senso de se demitir que o caso não é para menos. Regressa o fantasma do táxi e, pior do que isso, tornaram-se mais opacos o programa e a ideologia deste partido.

O CDS entrou em modo de espera.

O PCP perde um terço dos seus deputados (incluindo aquele senhora Apolónia, verde por fora e vermelha por dentro) e quase um terço dos seus eleitores. A lei natural da vida estará, um pouco, na base desta perda. O “partido” não atrai jovens em número suficiente para colmatar a morte dos velhos e dedicados militantes. Parafraseando Churchill, isto “não é o princípio do fim mas o fim do princípio”. Todavia, mantém a sua máquina sindical, a rígida disciplina interna qua abafará as acusações ao apoio à geringonça e, se acaso se puser fora desta, tornará a rua insegura par o PS.

E o PPD/PSD?

As más línguas afirmam que teria perdido 500.000 votos. É não contar com os que vinham do CDs com ele coligado na PAF. Mais líquido é o facto de ter perdido 22 deputados, mesmo se este resultado não tem em linha de conta as perdas derivadas de não existir coligação alguma.

Rio, ontem, era um derrotado calmo ou mesmo “aliviado”. De facto há um mês o PSD andava a arrastar-se pelos 20% e acaba ultrapassando os 27%. Também é verdade que, mesmo sem o beliscarem muito, a Aliança, o Chega e a Iniciativa Liberal podem ter-lhe arrebatado entre 80 e 100.000 votos. A oposição interna pode ter desviado para a abstenção mais uma boa fatia de votantes habituais, enquanto o efeito Costa/Centeno terá arrebatado um númeo grande dos chamados eleitores “móveis” que não obedecem a nenhuma disciplina de voto. Até o PAN lhe pode ter retirado vozes.

O estado de guerra civil larvar no PSD/PPD não é uma novidade mas, desta feita, a verdade é que Rio só agora controla a frente parlamentar e poderá eventualmente enfrentar os seus numerosos (e nem sempre conhecidos) adversários internos com alguma vantagem. No meio da derrota pungente obteve uma vitória pírrica: tirou a maioria absoluta que esteve à mão de Costa. Esse mérito só a ele cabe. Nem o PCP, nem o BE nem a dr.ª Ana Gomes, sempre desassossegada, se podem gabar do mesmo. Os dois partidos perderam cerca de 150.000 votos de 2015 para 2019 pelo que a campanha por eles desencadeada contra a maioria absoluta morreu na praia. Foi Rio quem, perdendo votos, não perdeu os suficientes – como há um mês alguém previa – para assegurar a Costa o tapete vermelho. Neste capítulo, rio, ao perder ganha qualquer coisinha e torna a constituição do futuro Governo mais insegura, mais difícil e menos estável.

Eu nunca votei no dr. Rio fosse pra que cargo fosse. Aliás, não o conheço nem me apetece conhecê-lo. Porém, estando na mesma cidade, interessando-me pela poítica local e pela nacional, cedo percebi que a criatura tem uma qualidade: é “resiliente”, teimosa e violentamente “resiliente”. A primeira vítima disto foi o dr. Fernando Gomes que, depois de uma disparatada e inútil incursão ministerial a convite de Guterres, tentou regressar à Câmara Municipal do Porto. Na altura, um parceiro meu de bridge e militante desapaixonado do PPD informou-me sobre Rio. “O gajo é um chato, só arranjou complicações enquanto Secretário Geral, indispôs os militantes ou os sindicatos de militantes que tinham a mesma direcção postal e só apareciam como homens de mão para votar nas eleições partidárias internas”. E acrescentou: “no partido anda tudo entusiasmado com a candidatura à Câmara. O Gomes vi esmaga-lo e o rio deixa de chatear o indígena. E chega de política que estamos aqui para um bridge sossegado!”

Fernando Gomes regressou ao Porto e ao saber quem tinha pela frente terá pensado que nem valia a pena dedicar demasiado tempo à campanha. A Câmara era PS, estava lá, mesmo que zangado, um testa de ferro dele e os portuenses, pensava Gomes, na sua inocência de nativo de Vila do Conde, são pessoas agradecidas. Talvez sejam, digo eu, mas também gozam de uma memória de elefante. E, na cidade, caíra mal o abandono da Câmara e consequente ida para um ministério ridículo em Lisboa. E Rio ganhou (42 contra 38%) tornando-se assim Presidente da Câmara e obtendo depois maiorias absolutas. Ao sair, conseguiu eliminar da corrida, Luís Filipe Meneses vindo da Câmara de Gaia, mesmo que isso tivesse como consequência entregar a cidade a Rui Moreira (que também é Rui, é tripeiro e tem a frieza suficiente para, de certo modo, continuar o legado de Rio, resumindo, contas à moda do Porto).

Este longa excursão sobre um homem do Norte, que na política sempre preferiu um par de princípios aos jogos malabares, teimoso e chato como a espada de D Afonso Henriques, tido por bom gestor, pouco dado a salamaleques, não explicam tudo, porventura até muito pouco, mas tentam provar que Rio, ao contrário de muitos outros, anda por ali sabendo bem o que faz. E a prova provada foi a sua campanha que deixa a de Costa a milhas. Ao ponto de um comentador, dos encartados, afirmar que com mais quinze dias o PPD reduziria bastante a diferença com o PS. Eu não iria tão longe que do nariz de Cleópatra não me ocupo, mas faço parte da pequena tribo dos macacos de rabo pelado e nunca achei que, mesmo não simpatizando, se devia subestimar Rui Rio. Se vai ou não levar de novo o PPD/PSD à terra onde corre o leite o mel não sei pois, como ele, prudente e avisadamente, afirmou, em cima da realidade portuguesa, há a conjuntura internacional, o Brexit, as guerras comerciais EUA- China, e tudo o resto.

E no rol dos perdedores poderia constar aquele PS que sonhou – e com razão!- com a maioria absoluta. Isso era (é) a única maneira de governar sem estar dependente dos “humores” ou da chantagem dos parceiros daquela vaga frente popular. Governar “a la carte” pode significar ter de fazer acordos com os vencidos de ontem, umas vezes, e com o BE (e eventualmente com o PCP) . As experiências passadas (e o auge foi atingido com a coligação do queijo Limiano! ) não são entusiasmantes. Se a geringonça paralisou o país no que toca a investimento público não será agora que, de súbito, a bolsa do Estado se poderá dedicar às necessárias (aliás urgentes) tarefas que se anteveem.

Não é o impacto da entrada de meia dúzia de deputados dos pequenos partidos que torna a situação mais melindrosa. É a falta de uma maioria estável e robusta (e ousada!) que vai condicionar a nossa vida nos próximos quatro anos (ou dois se tivermos em linha de conta a enigmática frase de Costa, cuja explicação é imperiosa.

A ver vamos, como dizia o cego...

 

 

 

 

 

04
Out19

estes dias que passam 333

d'oliveira

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Morte, onde está a tua vitória?*

 

mcr 4-X-19

As televisões, por um momento subitamente graves, o Governo a proclamar um dia de luto oficial, os comentadores, unânimes, a louvarem um político morto bem antes de morrer, o súbito reconhecimento de que havia menos um “pai da democracia de Abril”, enterram, pela segunda vez, Diogo Freitas do Amaral.

Sob um aparente aluvião de louvores, está (estava) alguém que alguma vez afirmou “ter vivido no ostracismo”. Um jornal, o Público fala num “homem só”. Surgem, em catadupa, amigos que, pelos vistos (é ele que o diz ao falar de ostracismo), andaram por í ligeiramente esquecidos. Até os adversários curvam respeitosamente a cabeça e endereçam à família do finado as suas mais sentidas condolências.

Sob o manto pesado dos elogios, resta a solitária nudez de alguém politicamente morto desde há muito.

Resta a este comentador ocasional recordar, da sua experiência pessoal e política um que outro facto de que foi testemunha.

Comecemos, como dizia um imortal professor de Direito, pelo princípio. Em 1972, frequentava eu o 3º ciclo da Faculté Internationale pour l’Einsegnement du Droit Comparé quando ouvi, pela primeira vez o nome de Freitas do Amaral. E pelas piores razões: Frequentavam a mesma faculdade, se bem que noutros ciclos dois ou três estudantes de Lisboa que, ao saberem que DFA poderia vir a reger um curso logo se insurgiram contra a sua presença argumentando que era um fiel servidor do regime opressivo da Faculdade de Direito de Lisboa e um fascista. A alma da FIEDC, madame de Solá y Canizares convocou-me, por já me conhecer, para lhe prestar qualquer informaçãoo sobre a criatura. Lealmente respondi que o não conhecia, que nada sabia dele e por isso mesmo não tinha qualquer posição sobre o assunto. E, de passagem, lembrei que o Professor Marcello Caetano, na altura Chefe do Governo, era presença assídua na FIEDC o que punha um problema difícil.

De todo o modo, se porventura Freitas fora convidado, a verdade é que não apareceu.

Logo a seguir ao 25 de Abril, surgiu, à frente do CDS um partido que se reclamava da Democracia Cristã e onde se refugiaram muitos dos antigos seguidores do Estado Novo.

Num país que durante alguns anos viveu crispado, o CDS era um inimigo a abater muito mais do que os pequenos e efémeros grupos que se criaram e desfizeram à Direita. A coisa culminou com as violentíssimas manifestações contra o Congresso do CDS no Palácio de Cristal (Porto) organizadas pela extrema Esquerda (e com o apoio tácito de muita gente incluindo dirigentes regionais do PC e do PS). Desse grupo, destacou-se o MES que numa reunião tremenda se recusou a apoiar o cerco, o que valeu ao seu porta voz críticas duríssimas.

O percurso seguinte do CDS, sob a batuta de Freitas e com um extraordinário Adelino Amaro da Costa como principal estratego, levou o partido ao Governo quer com o PPD (Aliança Democrática) quer com o PS. De todo o modo, muito europeu ou não, muito “democrata-cristão” ou ainda menos, o CDS nunca conseguiu (sobretudo depois da trágica morte de amaro da Costa) deixar de ter na opinião pública a imagem de um partido de Direita, conservador e com fortes laivos de ligação ao anterior regime.

A disputa eleitoral com Mário Soares pela Presidência da República exacerbou em muitos a ideia de um DFA reaccionário e profundamente conservador. Seria útil ler as reportagens, as notícias eas declarações dele na altura para se poder aquilatar do que estava em causa e do que o diferenciava de Soares, um candidato, esse sim, da Esquerda Moderada e do Centro (lembremos que Soares evidenciara a sua posição durante a corrida à candidatura quando se confrontou com Maria de Lurdes Pintasilgo e com Salgado Zenha sem esquecer a presença constante do candidato comunista.

Há actualmente a tentação de considerar como clara e insofismável a situação de oposicionista ao Estado Novo de muitos que, por razões variadas, não juravam uma lealdade a 200% ao regime. Em boa verdade, desde que surdiu das trevas do 28 de Maio, o Estado Novo, segregou, dentre o seu quadrado de fieis, muitos oposicionistas tardios desde Henrique Galvão a Humberto Delgado ou Rolão Preto. Até Craveiro Lopes (e Botelho Moniz) acabaram por ser afastados por Salazar que, com alguma razão, duvidou da sua fidelidade.

É, agora e tarde, voz corrente que DFA recusou vários lugares durante o antigo regime mesmo se Marcello Caetano seu professor e, de certo modo, seu “maître a penser” (pelo menos enquanto jurista...) o tivesse insistentemente convidado. Daqui, inferiu-se que o futuro líder do CDS era um democrata e, eventualmente, um resistente!

Em boa verdade, mesmo nos anos agónicos do fim do Estado Novo, fora o pequeno grupo de oposicionistas de sempre, engrossado pela ex ala liberal (Sá Carneiro, Balsemão & amigos) e pelos católicos que, pouco a pouco, e bem timidamente, se vinham afastando da tradição de colaboração activa com o Estado Novo, a multidão democrata era reduzida e, genericamente, perseguida. Não estava na bicha para a mesa do Orçamento, não conseguia entrar na Função Pública a simples menção pela PIDE/DGS de “politicamente suspeito”, relegava muita gente para a periferia social e económica. O exemplo mais marcante era dado pela tropa. Os oficiais milicianos iam ou não para os palcos de guerra consoante as suas opiniões políticas ou a mera suspeita delas. E até nas armas se notava isso. Por exemplo, para a Marinha iam apenas ou quase só os juristas bem comportados ou, pequeníssima excepção, os com altas classificações na Universidade. Os suspeitos apanhavam com o “mato” onde a guerrilha era mais perigosa...

Ainda na mesma linha de exaltação da oposição democrática patente em DFA avulta o já citada recusa de cargos políticos. Convenhamos: ele terá terminado a universidade em 64. Depois teve de frequentar o 6º ano de Direito e começar o percurso de preparação do doutoramento que naquele tempo não era longo mas longuíssimo. Para quem quer seguir uma carreira universitária (e DFA seguramente queria-o) todo aquele tempo foi pouco e curto para se permitir devaneios políticos que, ainda por cima, e a fazer fé nos seus admiradores actuais, não eram especialmente entusiasmantes. Daí até se vislumbrar uma forte fé democrática e pronta a qualquer sacrifício vai um passo de gigante.

Todavia, também não de põe em dúvida que, com o advento da liberdade, muitas vocações latentes terão florido e entre elas a de Freitas do Amaral, porque não? Pode mesmo ter decidido por, um pouco, entre parêntesis a sua indubitável veia académica e querer participar na refundação de Portugal, no caminho para a Europa e na democracia cristã. Porém, e a história da 2ª metade do século XX bem que o prova, a “democracia cristã”, à moda italiana ou alemã, não era, nunca se posicionou, ao Centro mas claramente à Direita. Direita democrática, crente nas instituição republicanas, no Estado laico, nos Direitos Humanos mas Direita sempre, mais ou menos conservadora consoante os tempos e as modas. E foi isso que DFA foi ou pareceu ser mesmo se, como também agora se disse, a sua inabalável fé no “centrismo”. Num centrismo neutro, a meio caminho entre as duas opções que marcaram a história dos regimes democráticos. Aliás, o “centrismo”, tal qual o descrevem era, é, uma pura abstracção mesmo se as abstracções deste teor encontrem entre os juristas um campo de eleição para florir.

Convirá, porém, salientar que, se não foi um revolucionário, um resistente, sequer um conspirador também não foi nem de perto nem de longe o ogre fascista dos anos de brasa. Nem o reaccionário que muitos (e entre eles haverá alguns dos que agora esquecidos do que então disseram) garantiam que ele era. Era apenas um conservador inteligente e culto devorado pela política a quem cedo faltou o grande companheiro que com ele fundou o CDS: Adelino Amaro da Costa. (eu atrever-me-ia a dizer que, depois da morte de AAC no trágico acidente que também vitimou Sá Carneiro, o CDS ficou órfão de um ideólogo capaz de encontrar a formula de sucesso para um partido democrata cristão em Portugal)

As eleições para a Presidência da República, onde foi batido, por uma unha negra, por Soares, marcam o fim da carreira política de Freitas do Amaral. A partir daí nem no CDS (antes de Paulo Portas) que se ia transformando paulatinamente em “partido popular”, com dirigentes prestigiados (Lucas Pires ou Adriano Moreira) em que, apesar de tudo, as “bases” não se reviam ou com alguns aventureiros (por todos: Manuel Monteiro, uma espécie de salta pocinhas desgovernado) que nem sequer podem ser tomados por chefes de facção, nem fora dele, DFA “riscava” politicamente. Não era o ostracismo (como ele proclamou) mas apenas uma morte política a que tardava a certidão de óbito.

É verdade que, de longe em longe, DFA aparecia. E apareceu algumas vezes até surpreendentemente longe do berço centrista e democrata cristão o que aliás provocou a mesquinha vingança do envio da sua fotografia de fundador do CDS para o PS! Como Monteiro ou como Basílio Horta, outro candidato da Direita à Presidência da República e igualmente derrotado por Soares, que neste momento é presidente de uma Câmara com apoio do PS com que se congraçou no tempo de Sócrates, Freitas do Amaral percorreu ou pareceu percorrer um longo caminho das pedras até desembocar como compagnon de route do PS. Não creio, no entanto, que isso tenha servido muito a causa socialista ou a Esquerda em geral. Freitas era um general sem tropas e não D Sebastião emergindo do nevoeiro.

No momento do seu passamento, resta a figura de um intelectual dilacerado pelas vicissitudes de um país obrigado a transformar-se (se é que de facto se transformou), de um professor de Direito Administrativo que os alunos recordam com respeito, de um melómano cultoe de um autor multifacetado que tentou sem especial relevo dar a sua versão de parte da história de Portugal (biografias de Afonso Henriques e Afonso !!!, bem como um escrito sobre a Lusitânia).

De certo modo, é bem mais interessante a sua obra autobiográfica que fica como um testemunho interessante deste tempo que muitos de nós (aliás cada vez menos) vivemos.

(*Corintios 1-15)

na gravura: diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa

 

 

19
Set19

Au bonheur des dames 411

d'oliveira

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As palavras também valem politicamente

mcr  19.09.19

 

Ando nisto há demasiados anos, e se o faço agora com passos mais curtos, paragens mais frequentes e percursos menos longos, nem por isso olho para o mundo com menor curiosidade e, ai de mim!, com menor indignação. Comovo-me e zango-me com a mesma antiga frequência mesmo se os motivos para tal se tenham alargado à medida que fui tendo mais mundo.

Ao mesmo tempo, outro sinal de afastamento da juventude, foi diminuindo o meu entusiasmo e arrefecendo a minha atracção pela novidade. Nem tudo o que reluz ao sol do meio dia tem luz própria e o oiro da surpresa é muitas vezes mera purpurina.

Vem tudo isto a propósito das próximas eleições legislativas e da desenfreada conversata de jornais e candidatos (qual deles o mais prolixo) sobre os benefícios do voto nas suas listas.

Pelos vistos estamos num combate onde vale tudo. Nalguns casos a coisa começou há mais de um ano. Quem não se lembra daquele ministro patusco que anunciou num espaço de escassas semanas uma catarata de investimentos do Estado em tudo o que mexia, com especial incidência para a ferrovia que está num estado catatónico? A criatura foi mandada para a Europa para eventualmente ocupar um lugarzinho de comissário. Não contavam os seus patrões que, apesar de tudo, na Comissão Europeia ainda há critérios e, finalmente, foi Elisa Ferreira a escolhida. (por acaso, ou talvez não, logo apareceram vozes alvissareiras a uivar que com Elisa no poder ia ser um regabofe para o país pedinchão. Esqueciam-se as criaturas que, justamente por lhe caber um pelouro de que Portugal é grande beneficiário, todos os cuidados serão poucos. Elisa terá de ponderar criteriosamente cada solicitação nacional. Os comissários não são embaixadores dos seus países mas membros de uma estrutura que representa todos).

Deixemos, porém, aquele político de via reduzida e passemos a algumas afirmações da campanha. O primeiro prémio vai sem dificuldade para Catarina Martins que afirmou, com a sua habitual candura, que o Bloco era social-democrata! Assim, a secas...

Eu não sei se a distinta senhora terá alguma vez manifestado qualquer espécie de curiosidade sobre a história pregressa do socialismo. Não sei sequer se, alguma vez, sobrecarregou a sua cabecinha com os chamados textos fundadores e diferenciadores dos socialismos que por aí vicejam, permanecem, murcham ou vegetam. Nem sequer a vou importunar com as querelas que atravessaram as duas primeiras Internacionais em que se agigantam os primeiros grandes revolucionários, depois elididos por Marx que os combateu asperamente, com o crescimento da social-democracia alemã (e aqui Bernstein e Kautsky, “o renegado” são imprescindíveis) com o corte brutal da 3ª Internacional, a de Lenin e amigos, que cindiu definitivamente o “movimento operário” e se cindiu a si própria dezenas de vezes quando não eliminou fisicamente e em atroz quantidade milhões de pessoas e dezenas de milhares dos seus mais devotados apóstolos e aqui mereceriam destaque os membros dos comités centrais do PCb (bolchevique) e posteriormente do PCUS bem como a esmagadora maioria dos elementos do Komintern, dos revolucionários profissionais despachados de Moscovo para a restante Europa e Ásia, que acabaram praticamente todos diante de pelotões de fuzilamento ou no gulag. A história do pai ou do avô do Bloco seja em que variante fundadora for (trotskista, maoísta ou dissidente do pcp) é a crónica de uma permanente, visceral, animosidade contra a social democracia.

É verdade que, nestas coisas, que à falta de melhor, chamaremos “os restos do marxismo-leninismo” todas as cambalhotas foram dadas, todas as palavras subvertidas e todos os princípios reinterpretados segundo as conveniências do momento.

O BE nasceu de uma aliança de pequenas formações que tiveram a clarividência de perceber que (excepção feita da UDP) sozinhas nunca sairiam da cepa torta e que o juntar-se numa proto-geringonça surpreendente por muito que isso fosse aberrante havia uma forte possibilidade de chegar ao Parlamento. O que aconteceu: a sua massa eleitoral, urbana, educada e órfã de partido poderá não ter importância sindical, não tocar senão ao de leve as estruturas autárquicas, não arrastar massas proletárias, mas, nos grandes meios urbanos, dá-lhe a força suficiente para eleger um grupo parlamentar. Para tal bastou acenar com causas fracturantes o que é sempre rentável e envolver o resto num discurso radical apelando à perdida unidade do campo revolucionário. A mítica unidade que nunca existiu (basta lembrar os ataques de Marx a Proudhon, a Bakunin e mais uns tantos na 1ª Internacional) e que foi esmagada com as famosas 21 condições de adesão à 3ª Internacional (Komintern). E os partidos comunistas também nunca foram exemplos de unidade ou, pelo menos, as exclusões, a condenação e a liquidação maciça de dirigentes e militantes (na URSS mas também em Espanha durante a guerra civil ou ainda na URSS entre as comunidades comunistas estrangeiras aí refugiadas e posteriormente nos países de leste satelizados por Moscovo) mostram à evidência que a luta ideológica (que também escondia luta pelo poder) ia “purificando” o partido libertando-o de inimigos verdadeiros ou imaginários e convertendo-o numa organização de funcionários cada vez menos criativos e, sobretudo menos eficientes na governação e direcção dos respectivos países. Os dramáticos anos 80 que viram o desaparecimento da URSS, de todas as “democracias populares” europeias, as mais das vezes de forma pacífica (excluem-se a Albânia e a Roménia curiosamente arredadas da esfera próxima do Kremlin bem como a posterior implosão da Jugoslávia, uma criação de Tito que não resistiu ao desaparecimento dele. E não se consideram o Afeganistão, uma aberração ou o Cambodja onde a revolução comunista se traduziu no genocídio.) mostraram como um sistema cai de podre perante a indiferença dos cidadãos ou o seu activo repúdio (DDR e Polónia).

Todavia, o sentimento de orfandade de alguma esquerda, sobretudo da que embarcara na “doença infantil”, foi suficientemente mobilizador para fazer nascer o BE. Ali estava, pensou-se, algo de novo, de diferente do PC enquistado no Alentejo e nas zonas industriais de Setúbal e Lisboa, afastado do poder pelo cordão sanitário dos partidos do arco da governação. E, além do mais, envelhecido e dogmático...

O BE ao apresentar-se à sociedade, trazia um ar de juventude e de ousadia e garantia a potenciais votantes que aquilo nunca seria como o PC. E não era, e não foi. Não penetrou nas tradicionais zonas de influencia comunista e não conseguiu criar raízes sindicais ou autárquicas. A geringonça foi uma bênção que lhe caiu no regaço mesmo se a ideia e a proposta tenham vindo do PC. O BE naquele pacto só trazia os seus deputados, necessários para formara maioria parlamentar e votar o Orçamento. Em boa verdade, cumpriram a parte deles e, pela primeira vez cheiraram o doce perfume do poder. E verificaram, porventura surpreendidos, que o PS, que deles dependeu durante estes quatro anos, pretende uma maioria absoluta que o liberte de parceiros que pouco ou nada tem a ver consigo. É este o sentido último da proclamação de amor pela social democracia. Só lhes falta revelar uma súbita paixão pelo euro e defenderem intransigentemente a pertença de Portugal na União Europeia. Esperei alguns dias por um eventual sobressalto nas hostes do Bloco onde, volta e meia, aparecem uns militantes desalinhados a acusar a direcção de abastardamento dos princípios. Surpresa: nada! Será que a ânsia de duas Secretarias de Estado levaram tudo de vencida? Ou, contra as sondagens (aliás sempre falíveis) o BE confia na alegada desconfiança do eleitorado que, juram alguns comentadores, detesta as maiorias absolutas. Em boa verdade já houve três e nada faz pensar que não possa haver mais...

Já gastei demasiada cera com tão ruim defunto. É hora de olhar para o último prodígio parlamentar, o PAN. Em boa verdade ainda não havia um partido ecologista no areópago. “Andam por lá, ao colo do PC, umas criaturas que se são verdes por fora, são vermelhinhas por dentro e votam sempre ao lado do padrinho que lhes abriu a porta de S Bento. Terá sido por isso que m punhado de animosas criaturas entendeu fundar o “Pessoas, Animais e Natureza”. Demasiada areia para uma só camioneta mas como dizia o Vadinho “impossíveis não há!”. Não sei se foi o efeito novidade ou se, de facto anda por aí uma multidão ansiosa por mudar o mundo (e eventualmente a vida, como em tempos presunçosos mas juvenilmente sinceros, alguns sonhámos). A verdade é que o partido chegou ao parlamento, à Europa e caracola nas sondagens . Há, todavia, um pequeno problema. O seu cabeça de cartaz em saindo do estreito campo da ecologia não acerta uma para a caixa. Além de impreparação, de per si grave, anda por ali muita ignorância. Política e não só. A economia, a cultura, a sociedade parecem ser (para não parecer indelicado) conhecidos vagos e de fresca data. E tirando os animais até as pessoas parecem uns vagos fantasmas. Chega-se a pensar que o tema pessoas incomoda como aliás do mesmo parece padecer a Natureza. Eu não sei onde está a base eleitoral deste jovem partido mas de tudo o que ouvi julguei entrever que a natureza por eles pintada é mais cenário do que realidade. Há anos que acompanho as peripécias dos verdes europeus, mormente franceses e alemães e depois do qu observei pemso que é urgente uma visita prolongada dessa malta ao nosso pequeno canto. Ou pelo menos mandem um treinador ao PAN e que seja mais feliz do que o senhor Keiser ao Sporting. Doutro modo, até a senhora Apolónia parece o prémio Nobel comparada com o esforçado senhor Silva. Mal comparado, o PAN é uma caricatura primitiva da conferencia de S Vicente de Paula da ecologia...convenhamos que por mais generosas que sejam as vontades, aquilo é pouco, muito pouco. Ganha votos porque é uma espécie de menor denominador comum da política. E não ofende ninguém, sequer os amigos das touradas ou os caçadores.. Estes, como os pássaros, já perceberam que o PAN é apenas um espantalho desengonçado no meio da seara.

(para ser “justo” eu deveria debruçar-me sobre alguns surpreendentes e novos partidos da Direita, a Aliança ou o Chega, por exemplo. Em boa verdade, do partido do dr. Santana Lopes basta lembrar este fantasmático cavalheiro que “anda sempre por aí” para logo se desvanecerem quaisquer dúvidas. Ninguém percebeu os motivos do abandono do PSD mesmo se toda a gente já estivesse habituada aos seus malabarismos circenses. Quanto ao outro ajuntamento, fora uns slogans radicais e racistas, nada indica que venha a fazer mossa nos resultados eleitorais. O mesmo, aliás, se augura para o grupo do dr. Marinho e Pinto. Aquilo, ideologicamente, é nada, faz nada, e não merece sequer mais que quatro palavras: estrelinha que o guie!...).

 

13
Set19

Estes dias que passam 332

d'oliveira

Salazar Rui Mello 6.jpg

Votos piedosos e medo de explicar o passado

 

mcr, sext feira, 13,  49 anos depois do óbito por mim mais desejado da segunda metade do sec- XX)

 

 

Parece que o Parlamento entendeu lavrar m voto contra o projecto do museu Salazar ou, mais exactamente, do Centro de Interpretação do Estado Novo. O voto terá sido aprovado por PS, PCP e BE & acólitos respectivos. O PPD e CDS ter-se-ão abstido. Segundo li no jornal trata-se de “impedir romarias ao local de (eventual) culto salazarista”

Claro que isto é o chamado fim de festa estival da AR, altura em que o Parlamento avia, a trouxe-mouche, dezenas de votos, moções e se desdobra em declarações para memória futura.

Pessoalmente, enquanto adversário do Estado Novo desde 1958, com largas dezenas de manifestações de permeio, duas crises académicas, quatro prisões e muita bordoada no lombo, para não falar em centenas de abaixo assinados, participação activa na única eleição em que a Oposição foi até às urnas (fui fiscal numa mesa eleitoral, um dos poucos, por sinal que se arriscaram), autor de dezenas de escritos, quase todos censurados em todo o tipo de publicações com destaque para a “Vértice” e para “O Comércio do Funchal”, o famoso e aguerrido “jornal cor de rosa”, lamento esta perdida oportunidade para verificar algo de que desconfio desde há muito: o dr. Salazar está “morto e apodrece” e poucos ainda sentirão o seu coraçãozinho e restantes vísceras vibrar ao ouvir o seu nome.

Vejamos. Salazar morreu há quarenta e nove anos mas estava afastado do poder há 51, graças a uma cadeira subversiva e bolchevista que, caindo, o arrastou na queda e lhe provocou danos irreparáveis na cabeça antiga e manhosa.

Assim sendo, os que ainda se lembram da criatura e, eventualmente, o veneram deverão andar pelos setenta anos, vá lá sessenta e cinco (para casos de grande precocidade política como depois de 74 já sucedeu, vejam-se os casos de Costa ou Louçã)

Convenhamos que não é especialmente crível que esta velharia a cair da tripeça se junte em ruidosa romaria e desande, todos os anos, ou todos os meses, para Santa Comba Dão para, comovida e “patrioticamente”, louvar o ex-Presidente do Conselho e ao mesmo tempo cantar o “Angola é nossa”, o Hino da Restauração ou o “... tronco em flor estende os ramos à mocidade que passa...”..

Seria aliás deliciosamente ridículo ver todas essas ruinas humanas com a velha farda de legionário ou, cereja no bolo, com a fardeta da Mocidade Portuguesa (que de resto, já não era obrigatória desde os primeiros anos 50) com o famoso cinto com S e tudo... E em rigoroso sentido, aos vivas ao velho ditador, à Pátria e ao Império que vai do Minho a Timor.

O salazarismo foi uma doença endémica misto de oportunismo, medo, sacanice e raras, raríssimas, fidelidades ideológicas. A partir da queda de Rolão Preto (1934) e das cisões verificadas no movimento nacional sindicalista, aquilo, a tentativa de génese de um verdadeiro movimento fascista em Portugal, desintegrou-se com meia dúzia de prisões por curto espaço de tempo mas com duradouras consequências. Rolão Preto, que, em 33, num famoso comício, se proclamara anti-salazarista acabou, muitos anos depois, por se juntar à Oposição Democrática, primeiro ao MUD, depois apoiando Quintão de Meireles e mais tarde Humberto Delgado. Esta trajectória comum a muitos outros servidores devotados do Estado Novo (lembremos, por todos Henrique Galvão ou Norton de Matos o putativo pai do “milagre de Tancos”) mostra bem como a política nacional andava naquela época.

Justamente por isso, para descortinar alguns fios condutores da moscambilha lusitana, talvez valesse a pena o tal Centro Interpretativo. De todo o modo, duvido que durasse muito que isto de estudar a história recente é pior do que “cavar em ruínas”, Camilo que me desculpe. Andamos desde há anos a celebrar bacocamente uma 1ª República sem fazer o mínimo esforço de separação do trigo e do joio. Andam por aí una livrinhos patuscos onde as glórias republicanas são exaltadas enquanto os atentados, a “formiga branca” a famosa “camionete dos assassinos” de Granjo e Machado dos Santos, o inacreditável número de governos mais de quarenta em dezasseis anos, os pronunciamentos, a “artilharia civil”, a perseguição encarniçada aos sindicatos e as centenas de mortos por violência política são silenciados, obliterados do mesmo modo que foi esquecida a diminuição para menos de metade dos insritos nos cadernos eleitorais vindos do fim da monarquia. Mas foi tudo isto, mais a dementada perseguição da Igreja e dos católicos em geral e o desastre económico que levou o país inteiro a assistir impávido ou cúmplice ao passeio militar de Gomes da Costa (um herói republicano que meteu Mendes Cabeçadas, outro que tal, na algibeira e lhe roubou o poder de que apressadamente se reclamava. Acabaram ambos na inexistência política, mesmo que o segundo tenha tentado sempre sem sucesso animar o “reviralho”)

Salazar governou todos aqueles anos por algum mérito próprio mas, sobretudo, por demérito profundo e absoluto de adversários. Foi a guerra nas colónias, uma longa guerra de usura e de baixa intensidade, que atirou o Estado Novo para as catacumbas. E foram os militares (os mesmos ou algo do mesmo género e substância dos de 1926) que, depois de terem trazido o cavalheiro de Santa Comba a S. Bento, retiraram o seu sucessor do quartel do Carmo. E, num ápice, entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, o país vestiu-se de vermelho e do nada surgiram multidões compactas de democratas

Não se sabe de onde surdiram tantos e tão devotados amigos da liberdade mas talvez valesse a pena tentar traçar-lhes o eventual rasto durante o último decénio de Estado Novo. Ora aí estaria uma excelente missão para o fantasmático “centro interpretativo”.

Quanto aos restantes argumentos da Câmara Municipal de Santa Comba Dão e especialmente o desejo de aumento de turismo graças ao Museu ou a algo do mesmo teor, estamos conversados. A documentação de Salazar está toda em Lisboa nos arquivos da Presidência do Conselho de Ministros, na Torre do Tombo. Bens pessoais, além de escassíssimos são absolutamente irrelevantes. Fotografias irrelevantes, um par de panelas alguns pratos duas camas desconjuntadas na velha e pobre casa do ditador. Eventualmente, o último par de botas com as solas em miserável estado. A criatura era pouco dada à acumulação de quaisquer bens e disso se fazem eco amigos e inimigos. Aquilo era um eremita cuja criada para todo o serviço criava galinhas no quintal de S. Bento. Está tudo dito.

O voto parlamentar é um tiro de pólvora seca, num jogo de batalha naval sem barcos. Uma só coisa me espanta: o voto do PPD e do CDS. Que significado político tem aquela abstenção? Haja quem me ilumine e me explique estes dias de “muito barulho para nada”.

(à margem: vários amigos que muito prezo enviaram-me mails com o convite para me abaixo-assinar contra o tal museu. Ser-me-ia fácil fazê-lo. Nada fiz por entender que aquilo não era guerra que valesse apena. Com dois deles vim à fala e, curiosamente, ambos me disseram que só tinham assinado por desfastio sem acharem que a ideia do museu valesse sequer a pena tanto mais que, desde sempre, se afirmara que nem um cêntimo dos dinheiros públicos iria para ali. Até por isso valia a pena ver o projecto tentar seguir em frente. Aposto dobado contra singelo que dos particulares também não viria dinheiro que se visse e muito menos o suficiente para criar sequer uma casa museu sobre as ruínas da actual casa que foi de Salazar. Em boa verdade, até aposto três contra um...)

* na gravura um fotografia de Rui de Melo sobre os despojos da casa de Salazar

 

12
Set19

o leitor (im)penitente 212

d'oliveira

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Aventuras com livros

mcr, 11,9,19

 

Já nem sei quando começou esta doença, pois que de doença se trata. Entre mim e a livralhada há uma paixão (correspondida ou não, pouco importa) assolapada que vem desde a mais tenra infância, ou melhor desde o momento em que sentava junto dos meus pobres pais e li em voz alta livrinhos. Não recordo os títulos mas estou ainda a vê-los, muito bem ilustrados, capas duras e histórias simples desde a de uma criadinha holandesa com tamancos e tudo que encerava as escadas com tal afinco que o seu rubicundo patão escorregava e se estatelava mais abaixo sem, contudo, se zangar até outra que metia o pássaro roc e me aterrorizava. Eram edições brasileiras, muito bem feitas e e já tinham servido ao meu pai. Onde pararão (se ainda tem forma) esses livros lindíssimos? E onde pararão dezenas de outros com que me cruzei ao longo de uma vida que já vai longa?

Tudo isto, e o que virá a seguir, me passou pela cabeça quando um velho e excelente amigo me veio devolver um dos dois tomos da “Prosa Completa” volume 1 de Jorge Luís Borges (Brughera, 1980, prémio nacional de literatura “Miguel de Cervantes, 1979). É uma excelente edição, apresentada em caixa própria e não lhe conheço sequência. De todo o modo convem começar por saudar a devoluçãoo de um livro que se emprestou. Digamos que não sendo um caso exactamente raro também não é tão frequente quanto deveria ser.

A minha biblioteca foi vítima de frequentes “esquecimentos” por parte de pessoas que dali levaram livros emprestados. E alguns desses esquecimentos foram terríveis. Assim perdi a “Electronicolírica” do Herberto Helder livro que nos alfarrabistas anda (quando aparece) por preços estratosféricos, duas obras de Eduardo Guerra Carneiro, entre elas o livro de estreia (fraquinho) “O perfil da estátua”, “Passage de l’homme” de Marius Grout, premio goncourt de 1943 e considerado o primeiro verdadeiro romance surrealista. Este livro desapareceu pelo menos duas vezes da estante e foi o cabo dos trabalhos encontrar outro exemplar. E por aí fora...

Na lista de livros desaparecidos cabe também referir os que a PIDE m foi levando ao longo dos anos. A cada prisão corresponde mais uma lista ou nem isso pois com o tempo as pessoas tendem a esquecer-se da rapina policial. Ou então, quando se voltava a casa, era tal o alívio que a última coisa em que se pensava era em ir ver os buracos na estante. O mais curioso é que na longa lista de livros que me confiscaram não entra nenhum dos chamados “clássicos” marxistas. Que sempre estiveram a bom recato. A polícia, aquela polícia, confiava as buscas a agentes de segunda ou terceira categoria que se fiavam apenas nos títulos, na língua (livros estrangeiros eram sempre um bom alvo) ou nos nomes dos autores. Autor que cheirasse a russo ia para o cesto.

O caso mais curioso que se passou com este vosso criado teve mesmo algo de extraordinário. Nos fins de sessenta, princípios de setenta, organizei para a editora “centelha” de Coimbra uma antologia sobre o movimento “Black Panther”. Com Maria João Delgado, na altura minha mulher escolhemos uma meia dúzia de pequenos ensaios e aí vai disto. Ainda o livro não estava sequer publicado e eis que a polícia começa a procura-lo. Sendo certo que aquela gentinha ainda não tinha o dom da adivinhação. Ficámos, os da centelha, perplexos. Soubemos, depois, que numa rusga a uma tipografia os agentes tinham encontrado já prontas umas dezenas de capas e isso bastou para lhes aguçar o apetite. Como havia a precaução de diversificar os pontos de produção não encontraram os textos. De todo o modo, a coisa foi logo proibida o que, julgo, foi uma novidade absoluta e um record.

Nesta história de pilhagens policiais, houve um pequeno episódio que merece ser lembrado. Da última vez que fui intimidado para ir prestar declarações à PIDE, os agentes que me visitaram em casa de meus sogros, olharam para a abundante biblioteca de Jorge Delgado, meu sogro e comentaram algo deste género: “agora não temos tempo a perder, mas de certeza que se fazia aqui uma bela colheita de livros proibidos”. E, em boa verdade, se tivessem sequer olhado cinco minutos para as estantes teriam verificado que aquilo iria tudo ,mas mesmo tudo. O Jorge Delgado não perdia tempo com outros livros que não fossem de política. E, obviamente, da que não agradava ao regime dos falecidos Salazar e Caetano... Nunca vi uma biblioteca tão subversiva como a dele, nunca!

Voltemos porem aos livros que desaparecem das estantes, no caso das minhas. Um dos meus melhores amigos era o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, leitor voraz, homem cultíssimo, mais distraído do que uma amêijoa melancólica e completamente desorganizado. Ia sempre jogar bridge em minha casa e, de cada vez trazia alguns livros que eu lhe emprestara e levava outros. Nem sempre trazia os mesmos que levara na vez anterior mas isso não o preocupava e também não me punha em cuidado. Com o Pedro valia tudo e eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele traria o livro entretanto perdido em sua casa. Todavia, o destino infame e brutal, irrompeu neste vai e vem livreiro e o Pedro morreu subitamente. Durante anos, a viúva ia-me encontrando e trazendo livros que ela ia descobrindo nas estantes caóticas do Pedro. Verdade e diga que a culpa não lhe só a ele. Parece que para combater a desordem do Pedro, uma empregada excelente mas analfabeta sempre que via um livro em cima de uma mesa ou de uma cadeira agarrava nele e enfiava-o no primeiro buraco de estante que encontrasse. E o pobre livro passava à mais obscura clandestinidade pois, só por acaso é que iriam por ele no sítio onde uma mão descuidada mas amante da ordem o pusera.

Uma vez em que referia alguns desaparecimentos de livros numa roda de amigos, alguém disse que os livros eram vagabundos que saiam de casa pelo seu pé.

Retorqui, irritado, que pelo pé deles nenhum viajara mas sim e só pela mão de alguém amiga do alheio.

*a estampa: capa do livro "Os Panteras Negras" que, mesmo proibido preventivamente, saiu, foi clandestinamente distribuído e, do mesmo modo  furtivo, vendido. Se não erro, este foi um dos 32 livros proibidos à Cntelha entre 1970 e 1974. A polícia não dava tréguas e nós também não! 

 

06
Set19

au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Sólido, líquido e gasoso

mcr 6/9/19

 

A dr.ª Catarina Martins é, ao que sei, licenciada em Letras e Línguas Modernas e terá sido actriz. Actualmente, aliás desde há vários, bastantes, anos, é política a tempo inteiro o que, provavelmente não lhe dará tempo para grandes e diferentes estudos especialmente os que dizem respeito à Pluviosidade nacional e ao regime meteorológico português mormente no “interior” do país.

Parece que, numa discussão sobre barragens, a líder do BE terá afirmado que nas barragens se perde muita água por evaporação. Até aqui nada de novo. No Verão qualquer superfície líquida perde água por evaporação.

Todavia, esta perda de água motivaria uma ojeriza às barragens e represas que na óptica de Martins seriam mais ou menos inúteis. Ou não justificariam os gastos na sua edificação e manutenção. Numa palavra haveria “barragens a mais”

Convenhamos que a tese é ousada mas não passa disso. Pessoalmente conhecendo-se o regime de chuvas neste país talvez valesse a pena ter ainda mais barragens que conseguissem reter mais água das chuvas abundantes no Inverno para a falta dela durante a longa estiagem.

Evaporar-se-ia mais água? É evidente. Mas haveria mais água para a agricultura, para beber, para combater os fogos.

Suponha-se que não há barragens. Qual o benefício que daí decorreria? Nenhum! A água das chuvas e dos rios correria mais livre para o mar sempre perto e perder-se-ia sem vantagem alguma para quem quer que fosse.

Eu sei, ou julgo saber, que a dr.ª Catarina Martins é do Porto, cidade que tem uma frente de mar e outra de rio que, durante séculos registou cheias catastróficas nas zonas da Ribeira e de Miragaia. Perderam-se bens inumeráveis, morreu gente e ainda são isíveis em certos locais ribeirinhos as marcas das cheias mais violentas.

Contudo, as barragens no Douro e afluentes e outro género de represamento permitiram regularizar o curso do rio, evitar quase todas as cheias e sobretudo as catástrofes a elas anunciadas para já não falar na melhor navegabilidade do Douro. E a água que a região bebe vem obviamente de captações no sistema fluvial. O mesmo sucedeu noutros rios, Mondego incluído. E há notícias de projectos para a bacia hidrográfica do Tejo. Nem se fala nos ganhos enormes registados com o Alqueva e nos ainda futuros na mesma zona.

................

(ia este texto neste ponto quando, li na edição do “Público de hoje, quinta feira uma excelente coluna de reparos judiciosos às declarações tonitruantes da dr.ª Martins. Em substância dizem o que acima fui escrevendo e acrescentam dois pontos fundamentais. A água que se evapora num determinado ponto há de gerar nuvens que se desfarão em chuva noutro. O que chove em Portugal provem, ou pode provir, de evaporação de massas de água em Espanha, na Suíça ou noutro sítio qualquer. O que evapora voltará ao estado líquido sob a forma de chuva ou sólido sob a de neve que na Primavera há de transformar-se em regatos, ribeiras e rios. A água do mar também se evapora e, perdendo o sal, nessa operação também se precipitará em algum local do planeta. O texto aliás indica a exacta percentagem de evaporação por metro cúbico de água.

O nosso país tem uma orografia difícil. O Norte é montanhoso mas rico em chuvas. Estas se bem aproveitadas poderiam formar grandes reservas de água não apenas para criação de barragens hidroeléctricas mas mesmo de reservas de água que poderiam ser canalizadas para o centro sul e para o sul onde a falta de água é habitual. Há, aliás, projectos para isso embora o investimento inicial tenha até à data assustado os nossos decisores que nunca pensam no longo prazo. Países mais secos e desfavorecidos que o nosso já mostraram que isso pode (e deve) ser feito e os resultados estão à vista.

Todavia, pelos vistos, a dr.ª Martins com a candura do desconhecimento destas realidades entende o contrário. Vistas curtas e vagamente literárias sobre o país que habita e que é bem maior do que o Porto ou, actualmente, Lisboa, lugares onde, com água canalizada, este problema não se põe. Para já!  

 

 

 

 

29
Ago19

Au bonheur des dames 409

d'oliveira

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Coincidências, demasiadas coincidências....

mcr 29.Ago.19

 

O Ministério Público terá anunciado que iria requerer a dissolução do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas por, na sua Assembleia Constituinte, ter participado uma pessoa que “não é trabalhador por conta de outrem”.

Vale a pena relembrar que o Sindicato está prestes a fazer um ano, que os seus Estatutos foram aprovados por todas as entidades competentes e que, até hoje, tem funcionado sem que a sua legitimidade tenha sido minimamente posta em causa.

Duas greves depois, várias violações governamentais e patronais da lei da greve depois, muito barulho, pouca razão e a brutal constatação de que de facto o salário real (o que conta para efeitos de subsídio de doença e de reforma) é uma vergonha e uma afronta, eis que agora, frente à ameaça de uma nova greve (desta feita ao trabalho extraordinário) marcada para daqui a um par de semanas, é tirada da cartola anti-sindical mais outra repolhuda lebre: o sindicato é ilegal, não está conforme às leis em vigor e padece de vício absoluto pelo que só a sua dissolução pode trazer ao país, ao patronato e ao Governo a tranquilidade necessária e a paz social.

(vá lá que ainda não foi desta que se cercaram os grevistas e se ameaçou liquidar essaescumalha a tiro de canhão ou se prendeu toda essa multidão indisciplinada e se conduziu o bando para os porões dos navios de guerra estacionados no Tejo como em tempos d saudosa e democrática 1ª República ocorreu. O dr Salazar e a sua gente levavam a coisa com mais cuidado: iam prendendo pela madrugada, à hora do leiteiro, os mal pensantes, arreavam-lhes forte e feio, extorquiam as normais condfissões de pertencerem ao partido bolchevista e punham-nos a bom recato numa cadeia por uns anos. Outros tempos, pelos vistos saudosos...)

Desconheço quantas pessoas estariam na Assembleia Constituinte do Sindicato mas, pelos relatos e pelos documentos fotográficos existentes, havia ali gente que chegasse para criar um, dois talvez mesmo três sindicatos. Estar lá ou não alguém exterior ao universo de trabalhadores por conta de outrem só tiraria sentido à reunião se esse ET ou  o seu voto, ou a sua assinatura. fossem essenciais para o acto constitutivo.

Questão mais complexa será a de saber se na Direcção do sindicato cabem membros que não pertençam à profissão protegida. Que isto não é líquido basta o facto de ninguém (Ministério Público incluído – que, aliás, já se tinha pronunciado sobre outras questões legais mormente as relacionadas com a absurda requisição civil preventiva) ter questionado durante todo este empo a presença subversiva e perturbante de um agente do anti sindicalismo e da Constituição da República Portuguesa. Todavia, a presença tão tardiamente constatada dessa alma penada saída do 9º círculo do Inferno de Dante adquire agora o estatuto de ameaça que se atribuía – em vida – ao senhor Bin Laden.

(nota à margem: o mesmo Ministério Público ou o seu Conselho Consultivo demorou um dia para decidir da bondade da aplicação da requisição civil preventiva e já leva um larguíssimo par de semanas para saber se os os negócios de familiares de ministros com o Estado estão ou não dentro da lei... Por este caminho se parecer houver ele só aparecerá depois das eleições. E, mesmo nesse caso, das duas uma: ou é homologado e produz algum efeito ou nem isso. A homologação depende do 1º Ministro de um Governo que, pela voz de vários dos ministros e apoiantes tem qualificado a lei de absurda...)

Sobre a momentosa questão de saber se na Direcção de um sindicato, ou de qualquer outra estrutura sindical, regional ou nacional, pode estar alguém que na prática esteja por completo desligado da actividade, lembraria que são às dúzias, aos quarteirões, os sindicatos representados por sindicalistas cujo único emprego conhecido nos últimos, cinco, dez, vinte anos é o de dirigente sindical. A burocracia sindical das duas grandes confederações existentes está cheia deles e nunca vi alguém questionar estes, de facto, ex-trabalhadores que algumas vezes tem mais anos de actividade sindical do que de trabalho por conta de outrem.

Mas este é um território minado. Quero com isto dizer que, nos tristes tempos que correm, há operários bons e sindicatos bons e operários perversos e sindicatos malignos que só querem o mal de Portugal e dos Portugueses. As organizações patronais acarinham os primeiros, celebram acordos com eles (magros acordos, está bem de ver, mas acordos) e arrepelam-se à simples ideia de se sentarem à mesa com os díscolos, sejam eles enfermeiros, estivadores ou camionistas que transportam matérias perigosas.

Claro que isto não ocorre só no “torrãozinho de açúcar” pastoreado por Costa. Em França a história sindical está pejada de “sindicats-maison” e, muito recentemente nos Estados Unidos, uma empresa de capitais chineses que reergueu das ruínas uma fábrica de componentes auto numa das antigas capitais do automóvel já avisou os seus trabalhadores americanos que não permitirá a “entrada do sindicato”. O senhor Trump, tão defensor da America great again e tão crítico da Chin, está, neste capítulo, mais calado que uma ostra melancólica...

Não me vou atrever a afirmar que no cerne disto tudo está a figura baça do dr. Pardal Henriques que se tornou o espantalho de toda a boa consciência nacional. A criatura não me suscita qualquer espécie de simpatia mas incomoda-me pouco. Todavia, para certos tenores pífios da comunicação social e do “Comentariado” político, o homem é o diabo reencarnado em advogado gordo e óculos. Até o dr. Marques Mendes o elegeu como o “pior da semana” num dos seus melífluos sermões dominicais. Eu bem sei que a opinião de Marques Mendes vale o que vale e influencia quem influencia e pesa o que pesa. (Não é “professor Marcelo” quem quer mas apenas quem pode e Mendes pode muito pouco. Nunca se deve comparar um açor com uma galinha pedrês com vontade de voar).

Eu, quando vejo tantos assanharem-se contra um simples mortal, mesmo gordinho, mesmo de óculos grossos, mesmo atrevidote, desconfio. Quando a sanha parece atingir as instituições que nos deviam proteger e defender, relembro a celebre frase “qui custodiet ipsos custodies?”, que, no caso, se poderia traduzir “quem nos guarda dos nossos guardas?” Estou à vontade neste capítulo porquanto, quando tudo e todos se atiravam ao Ministério Público, eu, por aqui, várias vezes, tomei a sua defesa. Lamento muito, mas agora, a coisa parece-me demasiado política, demasiado inquisitorial para aceitar sem mais este aviso de acção contra um sindicato. Como se isso pretendesse dizer que é na praça pública que estas questões se julgam e que deste princípio de acção já saiu, pelo menos para a opinião pública, a condenação de perverso sindicato e do seu advogado. Convenhamos que para calar 1800 motoristas num universo que engloba mais de 30.000 anda por aqui muito fogo à peça, muito obus, muita metralhadora e muita, mas muita, raiva...

Arre!

*a ilustração: o Inferno de Dante

26
Ago19

au bonheur des dames 408

d'oliveira

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Ai Zeca o que te querem fazer!

( ou: nem depois de morto os vampiros te largam!)

mcr 26.08.19

 

Conheci o Zeca Afonso logo que cheguei à faculdade, ou seja há quase sessenta anos. Na altura ele ainda andava no fado de Coimbra mesmo se já fosse fazendo incursões na balada. Recordo o meu pai, “coimbrinha” assanhado, antigo elemento da “república” Penúria Constante, ex-orfeonista ex-jogador de andebol na AAC, fadista ocasional e poeta oficial do seu curso, maravilhado com a Balada do Outono. Por altura de umas férias de Verão passadas em Moçambique, houve uma reunião dos “antigos estudantes de Coimbra” associação a que o meu pai, a par do bridge, devotava o seu tempo livre e o seu carinho, e eis que ele garganteou, com a sua bela voz de tenor do orfeão académico de Coimbra, a balada. Nesse momento, percebi que a geração mais antiga acolhia o Zeca entre os seus.

Todavia, a primeira vez em que falei a sério com o Zeca foi quando ele mostrou, muito em segredo, a um comum amigo, Jaime Magalhães Lima, e a mim as letras de “Os Vampiros” e (se não erro) “Menino do Bairro Negro”. Quando se é jovem, as amizades surdem com facilidade sobretudo se a admiração as sustenta. A partir dessa altura (1962) passei a encontra-lo com frequência e, depois do regresso dele de Moçambique, fui um dos privilegiados (com António Mendes de Abreu e João Nazaré) a quem ele entregava cópias de canções com receio de as perder ou de não se lembrar das letras quando cantava em Coimbra. (Uma das vezes em que isso sucedeu foi justamente nos jardins da AAC em plena crise de 69 em que ele com a generosidade infinita que o caracterizava apareceu para animar a malta. O António e o João cantaram-lhe o “coro da primavera” e eu murmurava as palavras pois desafino a qualquer velocidade, mesmo entre o dó e o ré. E o Zeca, entusiasmado ia-se recordando e dizia –juro – “ó pá isto não é nada mau!” ) Os seus discos eram por mim (e por muitos mais) comprados logo no dia em que chegavam à Casa Neves (em Coimbra) mercê de um acordo feito com um dos empregados da loja. Havia sempre o risco de serem proibidos e apreendidos. O último encontro importante que tivemos foi quando, em nome da delegação da SEC no Porto, o recebi no Auditório Nacional Carlos Alberto. Foi a primeira vez que um cantor de intervenção actuou num palco nacional (Logo se seguiram outros, obviamente). E lembro como se fosse hoje, uma ácida pergunta de um “progressista” da mesma Secretaria de Estado: “E além de comunistas quem é que vocês convidam mais?”. Na época, mesmo entre os socialistas, havia gente, intelectuais incluídos, que não iam à bola com o Zeca. Não só era um cantor de esquerda, mas, sobretudo, era “popular”.

Agora, que está morto e enterrado, chovem os ditirambos e as ameaças de homenagens. A primeira e mais ridícula é a ideia peregrina de o amortalhar em Santa Engrácia, no Panteão. A família, no caso boa intérprete do pensamento do Zeca, recusa. Quem o conheceu bem, adivinha facilmente primeiro a gargalhada, depois a indignação perante tão insólito sepulcro.

A segunda questão prende-se com o seu fabuloso legado musical e poético. Parece que os “masters” das canções andam perdidos no meio do naufrágio da Movieplay, agora falida mas proprietária deles. O antigo Secretário de Estado Barreto Xavier sustenta, muito acertadamente, que não é preciso encontrar o objecto físico para classificar como património imaterial nacional esse riquíssimo acervo, testemunho exemplar de um tempo obscuro (pela parte que me toca, considero a obra pré-abril 74 muito mais interessante, muito mais inventiva e mais significativa do cancioneiro afonsino. É uma mera opinião, claro.

Portanto, enquanto não aparecerem os negregados masters há que classificar preventivamente a obra. Depois, logo se vê. Quanto à edição, uma nova edição dos seus discos (e ainda há por aí muitos exemplares das anteriores edições), há que precaver o pagamento de direitos e, sobretudo, não dar oportunidade aos vampiros e aos urubus que só querem lucro fácil mesmo que seja “á pala” de um ícone de que não poucos se aproveitaram.

A ver vamos se os burocratas da Ajuda percebem estas coisas tão simples...

E se os embalsamadores profissionais de glórias defuntas largam a ideia de depositarem os humanos restos mortais do cidadão Zeca Afonso naquela mastaba sinistra de Stª Engrácia e os deixam honradamente converter-se em pó no cemitério humilde onde agora está.

 

(nota à margem: surgiu recentemente um disco –livro com duas gravações inéditas de J A . Fiz parte dos que desde o primeiro momento o subscreveram, não pela valia artística da coisa que é (e sou bondoso) medíocre mas porque faço parte dos seus amigos e dos que guardam uma memória fresca e alegre dele. A recolha é fraquinha, não traz nenhuma novidade e o texto que a acompanha também nõ descobre a pólvora. Longo, chato e sem novidade. Felizmente a edição parece ser limitada o que significa que não irá afectar demasiados ouvintes. Sempre é uma triste consolação...)

(2ª nota ainda mais à margem: correu por aí a ideia de medalharem postumamente José Afonso! Credo! Jesus, Maria José! )

 

*a ilustração: capa do disco que contém a "Balada do Outono" que, a meu ver, marca, pelo menos do ponto de vista musical,  o novo rumo da canção de José Afonso. 

 

 

 

14
Ago19

Au bonheur des dames 407

d'oliveira

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A silly season lá vai ao tropeções

mcr 14.Ago.19

 

E a greve, idem. Agora, S.ª Ex.ª o Ministro do Ambiente, resolveu fazer doutrina laboral e sindical, a criatura tem, pelos vistos, um largo cabedal de conhecimentos. E disse que, em certos casos, provavelmente neste, os camionistas não podem ater-se ao horário normal de oito horas mas levá-lo até às onze, ou seja fazer 60 horas semanais! Vê-se que S:ª Ex.ª sabe o que é sentar-se ao volante de um camião pesado. Porventura porque senta ela própria o dito cujo nos cadeirões do ministério...

Nisto, parece estar de acordo com o homenzinho da ANTRAM que é mais papista do que o Papa e censura o Governo por não ser ainda mais autoritário. O indivíduo ataca o dr. Pardal Henriques sem perceber que aquele é o seu exacto retrato no espelho. Com a diferença, pequena mas importante de que um é, até prova em contrário, representante de trabalhadores e outro de patrões. Por mais que as coisas estejam diluídas, a luta de classes ainda mexe. E com patrões que impõem a famosa cláusula das duas horas extra diárias (que são sempre mais ao fim de contas) logo se vê quem explora e quem é explorado.

Até o PC que só acha que os únicos grevistas que não são instrumentalizados são os dos “seus” sindicatos (o resto é lumpen enganado por falsos profetas, basta ler o comunicado ou o dr. Domingos Lopes) entende que as coisas foram longe demais. E faz bem, o PC que para a próxima greve da sua gente bem pode recear outra requisição civil agora que o dr. Costa se habiruou e que a sua gente perdeu a vergonha.

Quanto à Direita bem se pode perguntar se alguém a viu ou se anda perdida nas brumas de Agosto, escondida nas areias algarvias, férias são férias, que diabo e no Twiter o pobre RR bem que tenta gracejar. Mas Rio nunca teve piada, o humor não é com ele e a gramática (ou o estilo literário) não o ajuda.

Mudemos de agulha. Agora uma dúzia de senhoras cantoras de ópera, todas mais relativamente desconhecidas umas que as outras, vem queixar-se de Plácido Domingo, cavalheiro com setenta e oito anos feitos e perfeitos. Pelos vistos há quarenta anos, mais dia menos dia, o tenor negociava o seu apoio a troco de uns favores sexuais que elas teráo rejeitado o que teve como consequência a falta de contratos e carreiras no limbo. Demoraram algum tempo a pôr a boca no trombone, mesmo se alguma queixa ainda vá até 2001...

Dantes, contava-se que muitas aspirantes a estrela tentavam um caminho menos duro e mais horizontal, oferecendo-se para ir para a cama de alguém influente a troco de um momento de glória ou de um contrato vantajoso. E citavam-se nomes, muitos nomes. Agora, é a vez das que sem atingirem a fama, atiram as culpas não para alguma eventual falta de talento mas para o apetite insaciável de ogres como Domingo. Porquê agora e não há dez, vinte, trinta anos quando o homem tinha real poder e poderia ser atacado. Nesta altura do campeonato o espanhol já quase não risca, está com os pés para a cova, o nome dele já nada diz às novas gerações.

O “me too” assume muitas vezes um certo toque de requentado e não precisa de provas. Basta uma declaração de uma “vítima” e eis que a “bem-pensância”, os politicamente correctos, os influentes do pret-a-penser na moda, todos juntos num místico casamento entre a hipocrisia e a virtude, saltem para a rua. Eu desconfio, desconfiei sempre, destes ajustes de contas tardios, sobretudo quando as notícias vm de meios onde a promiscuidade é generalizada.

Entretanto, uma notícia consoladora, ainda não foi desta que aquele fulaninho grosseiro e parlapatão que dá por Salvini, levou a água ao seu moinho. O homem é apenas uma caricatura deslavada de Benito Mussolini. Espero que acabe como ele já que não se lhe pode augurar a poética justiça de o ver desaparecer no mar cor de vinho. Arre que este mundo está horrendo. Entre os Putin, os Kim, os Trump, os Maduro, os Boris Johnson, o cavalheiro chinês, os Assad, os Erdogan e mais um largo par de personagens (nas Filipinas, no Brasil na Nicarágua ou na Guiné Equatorial), o planeta bem que está em risco. E em risco bem maior do que a invasão do plástico, o carbono triunfante, e o clima que perdeu a cabeça. Ao pé disto que vale uma greve de 2000 motoristas (800 de um sindicato e 1200 do outro)? Ou a mobilização de 12.000 agentes da autoridade (seis polícias para cada grevista (no caso de todos fazerem greve!) É obra!

* na estampa: rio poluído nas Filipinas