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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

29
Mai20

estes dias que passam 407

d'oliveira

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Diário dos dias da peste

Jornada septuagésima segunda

Já ganhei o dia...

mcr, 29 de Maio

 

... Ou pelo menos não o perdi.

Eu explico: estes dias de sol e calor obrigam os clientes da esplanada, pelo menos este cliente, ao uso de óculos escuros (graduados). Assim, sob um guarda-sol generoso e amplo, leio comodamente os jornais e em breve voltarei a escrever o blogue aqui. Os óculos sem cor guardo-os no bolso da camisa.

Or, hoje, quando já regressava a casa, ajoujado de compras dei por falta dos óculos normais. Os outros, os escuros como os trazia preso a um fio mantinham-se honradamente pendurados ao pescoço.

“Que diabo!, pensei, logo uns óculos novos, melhor dizendo com lentes novas que me tinham ficado por uma nota preta”. E pus-me em campo à procura dos óculos desaparecidos.

Felizmente, tinha perfeitamente fresca a memória dos passos que tinha dado: papelaria para a jornalada, esplanada para os cafés da praxe, lavandaria nde fui entregar roupa para engomar (embirro com esta palavra mas os meus leitores do norte embirram com o “passar a ferro”, e hipermercado. Na papelaria não se tinha dado porv nada, na esplanada idem mas, já agora, aproveitei para mais uma bica e mais três páginas do Monde (selection hebdomadaire). Na lavandaria, a empregada lembrava-se dos óculos mas eu tinha-os no bolso quando me fora embora. Resta o híper, pensei sem grande esperança.

De todo o modo, só perdia tempo se os não encontrasse. Todavia, o anjo da guarda dos distraídos estava atento e era brioso. O “segurança” disse-me logo que sim senhor, alguém lhe tinha vindo entregar uns óculos. Eram os meus. Desfiz-me em agradecimentos, rezei uma avé Maria pela boa alma que os entregara e rumei a casa definitivamente, consolado com a ideia de ter poupado umas centenas de euros.

A CG achou que eu tivera muita sorte pois, informou-me pressurosa, há quem meta tais achados ao bolso para reutilizar as armações. “E logo você que tem manias caras!” –“Manias?”, protestei sem grande convicção. “Manias, sim, ou melhor, vícios!” retorquiu ela com ar habitual com que me censura as compras que faço, desde os livros às camisas.

Nestes casos, a melhor defesa é o silêncio ofendido. De resto fui salvo por um telefonema da Ana que pedia emprestado um carregador do mac Air pois o abencerragem tinha roído o fio do dela. Siderado com o apetite eléctrico dum menino de dois anos e meio, lá fui com dois carregadores para ela escolher o adequado. O pequeno roedor quando me viu armou o habitual banzé de boas vindas foi-me mostrar o armário novo do quarto dele. A mãe contou-me a aventura proto-alimentar da criaturinha que fingia que não nada com ele. E vim-me embora, com um negro pressentimento sobre o futuro do carregador que acabava de emprestar, pois é bem sabido que roedor que rói um carregador rói um cento.

Note-se que o Nuno Maria não é caso único mas apenas mais moderno, mais tecnológico. Um amigo meu dos tempos de Coimbra, contou-me que as sobrinhas, por acaso filhas de outro amigo do mesmo tempo e lugar, roíam os parapeitos das janelas. As roedoras em questão são agora mulheres, se calhar já com filhos. Será que estes também aprimoram a construção civil roendo partes do construído? Ou perderam essa funcionalidade?

Deixemos, porém, este grave assunto da degustação de material electrónico coisa perfeitamente adequada a estes tempos confinantes. Que há de fazer uma criaturinha senão tentar infernizar a vida a quem a mantém prisioneira do covid?

Sobre este estafado tema, agora a moda é, julgo, saber que nada se sabe. Ou seja voltamos ao princípio de Março, ou mesmo antes.

No meio desta atribulada confusão, o que me espanta é a vitalidade de dois cavalheiros pouco recomendáveis. Os senhores Trump e Bolsonaro. O primeiro afirma que anda a cloroquina há semanas. A Organização Mundial da Saúde avisa cada vez mais fortemente que aquilo faz mal. Das duas uma: Ou Trump toma o dito medicamento para a malária ou não. Neste último caso, mente, coisa que nele parece ser tão natural como respirar.

O palermóide do Brasil, esse também recomenda a cloroquina enquanto se vai desfazendo de ministros da Saúde com uma velocidade que não é pasmosa porque o Brasil é de si próprio um tanto ou quanto delirante. A verdade é que o espécime se passeia entre apoiantes igualmente mentecaptos e nada lhe sucede!

Pessoalmente, começo a suspeitar que o vírus protege os descerebrados. E tenho mais provas do que muitos dos especialistas que tem andado a pavonear-se pelas televisões que já disseram tudo e o seu contrário. Aceito que me contradigam, que me provem que a falta de dotes de inteligência e bom senso serve de vacina para o covid. Mas façam o favor de provar.

Algo que não precisa de prova é a situação dos cidadãos negros nos Estados Unidos. Morrem mais de doença, de violência inter-étnica, de violência dentro da sua própria comunidade e, sobretudo de violência policial.

As imagens que passaram na televisão são inacreditáveis. Um criminoso fardado com o joelho em cima da garganta de um homem algemado que previne que não consegue respirar. Pelos vistos o polícia não acreditou. Tomará cloroquina? Será de tal modo imbecil que não perceba que um joelho sobre a garganta de alguém, é uma violência inaudita?

E agora? Parece que o despediram. Ninguém o prende?

 

Obviamente, se há autor que eu aconselhe é Chester Himes. Descobri-o há muitos anos e fiquei absolutamente fascinado. Devo confessar que só o li em francês e depois em espanhol. Suponho que não há traduções portuguesas, coisa que me espanta. Ou melhor, pouca coisa me espanta no domínio da edição portuguesa, tanto mais que um outro autor que tem detectives pertencentes à minoria índia americana tem meia dúzia de livros publicados cá. Refiro-me a Tony Hillerman, leitura mais que recomendável. Hillerman é um especialista da história e cultura navajo, um dos povos que vive na zona fronteiriça dos quatro estados. Curiosamente, os navajos foram escolhidos para dentro do Exército Americano, servirem o sistema de transmissões. Os japoneses nunca conseguiram perceber que língua era aquela. A nota mais terrível desta história é que cada soldado navajo tinha um acompanhante com a missão de o matar caso houvesse hipótese dele ser feito prisioneiro!....

A nota mais pungente é esta: na nação navajo a média de mortes por covid é assustadora. É o país de Trump...* na vinheta :máscara kanaga, etnia Dogon, Mali 

 

28
Mai20

estes dias que passam 406

d'oliveira

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Diário dos dias da peste

Jornada septuagésima primeira

28 de Maio sempre? Depende de que ano se trata...

mcr, 28 de Maio

 

Leitores não se arrepelem. Maios há muitos e não é do de 1926 que falo mas de um outro mais próximo, mais significativo para a geração a que pertenço e que, como a fotografia indica, a mim diz muito.

Imaginem, primeiro o espaço visto. Estou a arengar para uma verdadeira multidão que enchia por completo o jardim da Associação Académica de Coimbra. E era um jardim grande podem crer quantos o não conhecem. Por cima da “mesa” da Assembleia Magna, cujo presidente, o Décio está ao meu lado, havia uma comprida varanda que ia de um lado ao outro das salas de convívio e do refeitório, Nós estávamos no piso do ginásio onde, por vezes se realizavam as “magnas” que é assim que se apelidam, oh tradição!, as assembleias gerais da Associação Académica de Coimbra.

Não vou atirar números que os não tenho e os que há são pouco fiáveis. Todavia, estavam ali, nessa manhã de 28 de Maio de 1969, cerca de três mil estudantes duma universidade que na altura teria entre sete e oito mil alunos, voluntários incluídos. Nunca uma “Magna” o fora tão exactamente.

O dia amanheceu soalheiro, uma ligeira brisa, como é que lembro disto? Pois porque enquanto falava havia um grupo de pessoas sentadas na relva com uma camisola vermelha suspensa dum ramo. E a camisola agitava-se docemente.

Eu estou a dizer que a assembleia decorreu de manhã mas admito que cinquenta e um anos depois possa estar equivocado. Mas se olharmos bem para a fotografia e se soubermos que a orientação daquelas varandas era mais ou menos noroeste parece plausível que isto acontecesse de manhã.

E porque é que o dia 28 de Maio de 69, quarenta e três anos depois do outro, do de Braga, do que marcou o “passeio” militar de Gomes da Costa, um antigo herói republicano, até Lisboa, foi importante, pelo menos para a geração dita de Coimbra 69?

Foi neste dia, já quase em cima da época de exames, que finalmente, uma assembleia decretou a greve geral aos exames.

Desde o dia 17 de Abril, data da inauguração do edifício das Matemáticas e da manifestação que o gesto imbecil de Américo Tomaz ao recusar dar a palavra ao Presidente da AAC, provocou, nada mais foi como dantes na velhíssima universidade.

Eu, mesmo hoje, não consigo entender um gesto tão torpe, tão burro, tão prenhe de consequências que facilmente se adivinhavam.

Vejamos: depois de três anos de “comissões administrativas” desacreditadas que, aliás, acabaram ( ou viram-se forçadas a) por propor um regresso à normalidade, uma fortíssima maioria de estudantes votou a favor de uma lista proposta pelo Conselho de Repúblicas e pelos “Organismos Autónomos” (Orfeon, TEUC, Tuna, CITAC, Coral de Letras, Coro Misto e GEFAC) que, de per si, agrupavam mais de mil estudantes. Mesmo outros organismos informais (Conselho de Veteranos ou Comissões da Queima das Fitas faziam parte dos apoiantes de um regresso imediato às liberdades académicas, a uma Associação independente e democrática.

Entre o corpo docente, contavam-se também umas dezenas de professores simpatizantes com a causa estudantil. Para só referir Direito, a faculdade eventualmente mais conservadora, Teixeira Ribeiro, Férrer Correia, Eduardo Correia, Mota Pinto e Orlando de Carvalho, para só citar catedráticos, eram conhecidos como apoiantes dos estudantes. As restantes faculdades, com relevo para Medicina, alinhavam pelo mesmo diapasão. A “Academia”, no seu sentido mais pleno, não acompanhava as “autoridades académicas” (Reitor, Senado e directores de faculdade esses sim redondamente, et pour cause, apoiantes do Governo e, em alguns casos, mais radicais do que as autoridades ministeriais).

Havia, nesta Universidade um forte e arreigado respeito pelas tradições (nem todas especialmente recomendáveis) e nisso incluía-se, desde sempre, o reconhecimento dos líderes estudantis, incluindo os informais. E desde que a Associação Académica apareceu em finais do século XIX os seus dirigentes foram sempre reconhecidos e convidados para todos os actos importantes da vida da Universidade.

Nada fazia prever desfecho diferente para a inauguração do edifício agora em causa. De todo o modo, para além dos muitos estudantes que se apinhavam na sala onde decorreria o acto solene, cá fora juntaram-se mais umas centenas de estudantes que empunhavam cartazes referentes à a criação de uma União Nacional de Estudantes, a um par de reformas pedagógicas e outras tantas de carácter académico-social (bolsas, etc). Nada de grave, nada que fosse novidade, nada que sequer pudesse chocar especialmente as autoridades. Todas as “reivindicações” constantes da dúzia de cartazes tinham feito parte do programa da lista vencedora das eleições vários meses antes.

No entanto, dentro da sala onde decorriam os habituais chatíssimos discursos próprios destas ocasiões, perante uma panóplia de ministros e professores, sob a presidência do Presidente da República, o ambiente era calmo. Quando depois de uma boa hora de discursos pareceu haver um pequeno intervalo, o Presidente da AAC levantou-se e, respeitosamente, pediu ao Presidente da República para usar da palavra. Este, um pouco confuso, como era seu timbre, diga-se, aquiesceu dizendo que antes falaria mais um ministro, no caso o das Obras Públicas. E o ronronar comemorativo continuou.

Quando o ministro acabou de soletrar o seu panegírico. Américo Tomás levantou-se e encerrou a cerimónia.

Foi um momento digno de uma comédia dos irmãos Marx: as figuras dos figurões a tentar escafeder-se e a rapaziada a levantar-se num sobressalto numa berraria infrene. A confusão armou-se. As autoridades a cavarem entre encontrões e insultos, uma desordem total. Cá fora a multidão arremeteu em direcção à porta e secundou a vaia monumental que saudava a saída indigna das autoridades. E eu consolado... não só por ter ficado a la fresca, cá fora, a fumar os meus cigarrinhos mas sobretudo por poder chamar uns quantos nomes aquela corja académico ministerial.

Saído o poder, instalou-se na sala o contra-poder. E Alberto Martins lá debitou o discurso. Palmas, muitas palmas e o povo “sereno” começou a debandar para o almoço. Ainda a noite era uma criança e soube-se que o presidente da AAC fora preso, provavelmente por uma brigada da pide. Em alguns locais, mormente na Sé Velha, houve pequenos motins, bastonadas, o costume.

E no dia seguinte, a “academia” indignada juntou-se no Pátio das Escolas numa improvisada Assembleia que, além de verberar a “repressão”, imediatamente exigiu numa dúzia de moções, a libertação de Martins e mais umas quantas coisas.

A polícia não se mostrou mas Martins também não. E a indignação cresceu. A direcção órfã de presidente pediu uma magna que reiterou tudo o que já fora dito na véspera e proclamou “luto académico” ou seja greve às aulas.

Martins entretanto foi restituído à liberdade, aureolado com as palmas do martírio. Mas as autoridades, desnorteadas, entenderam reabrir os confrontos desta feita ameaçando com processos disciplinares. Gasolina sobre as chamas! E o clima febril que já não era pequeno aumentou.

Meia dúzia de dias entre greves cruzadas, o tonto ministro da Educação resolveu vir à televisão em horário nobre para discorrer sobre o que ainda não era especialmente grave. Os cafés da cidade encheram-se. Os proprietários alugaram televisões para que a freguesia ouvisse S.ª Ex.ª e, ao mesmo tempo, consumisse. Vê-se que os comerciantes coimbrões conheciam os seus hóspedes melhor do que as autoridades conheciam os seus discentes.

O discurso de Hermano Saraiva, homem pequenino que provavelmente não tinha dotes de bilarino, foi uma obra prima de imbecilidade e teimosia. E de ameaças. A última com que terminou a sua pobre cena de faca e alguidar foi mais ou menos esta “ E amanhã espero que todos os estudantes de Coimbra estejam presentes nas aulas”. O silêncio estupefacto e irado com que as palavras do homenzinho foram ouvidas, no café Mandarim onde eu estava, foi sublinhado com um comentário rápido de alguém lá no fundo. “Esteja descansado, senhor Ministro!” uma gargalhada homérica, uma salva de palmas e encomendas de cervejas, muitas cervejas, barris, foi a resposta. Presumo que em todos os outros estancos da cidade, o clima e a sede fossem idênticos.

E Coimbra reamanheceu com uma greve total. E assim continuou pois o pobre Saraiva não percebia nada de nada e sobretudo era uma galinha pedrês vaidosa que presumia de pavão.

A Coimbra estudantil instalou-se na greve às aulas. A equipa de futebol trazia sinais brancos de luto nos equipamentos. As fitas e grelos recolhidos nas pastas, as batinas fechadas até cima, a capa a cair direita dos ombros sem se traçar, a praxe de rua suspensa com alegria e estupor dos caloiros, as reuniões de cursos, de faculdade, as assembleias, as discussões, algum êxodo de estudantes chamados pelas famílias mais temerosas, tudo contribuía para um desenlace previsível. A Queima das fitas (a exemplo de 1962) foi anulada. A população de Coimbra, prejudicada com isso, não protestou contra os estudantes mas contra quem os obrigara a anular a sua grande festa. Os jornais mandavam jornalistas que ficaram pela primeira vez a conhecer a fraternidade coimbrã, as repúblicas, a animaçãoo cultural dos organismos autónomos, as sessões culturais de toda a ordem que pretendiam preencher aquele dia a dia inquieto e nervoso que se vivia. E a grande pergunta começou a espalhar-se: isto vai até aos exames? Vão realizar-se exames?

Até à assembleia magna de 28 de Maio. Não sei em que lugar falei mas fiz parte dos primeiros seis ou sete oradores. Tenho por certo e seguro que terei sido o primeiro a dizer alto o que muitos já afirmavam baixo. Que era necessário ir até à greve aos exames. E disse-o, não por bravata, não por me querer antecipar, sabia que muitos dos se seguiriam carregariam na mesma tecla, mas porque estava também a responder a um, aliás corajoso, discursante de Direita (Carlos Ganho?) que justamente se lembrara de prevenir essa hipótese nefanda. Depois de mim, muitos mais falaram e recordo mesmo o Celso Cruzeiro que referiu o outro 28 de Maio dizendo que este era a adequada resposta ao do golpe militar. Em poucas palavras, quando foi posta à votação a proposta de greve, apenas umas escassas quatro ou cinco dezenas de estudantes foram contra. Se não estou em erro, eram os mais militantes, alguns antigos simpatizantes do Jovem Portugal, outros, monárquicos legitimistas que, honra lhes seja, estiveram ali, sabendo que a sua recusa poderia ter consequências. Não teve. Nada lhes aconteceu, nem sequer uma vaia. Mais tarde, muitos anos mais tarde, um deles disse-me, na minha esplanada favorita, que ao ir para a assembleia estava convicto que ninguém o insultaria ou agrediria e rematou, filosófico e nostálgico “Coimbra era mesmo assim”. Concordei com a mesma destemperada nostalgia. E pedi mais um café. E um copo de água se faz favor...

 

A fotografia é obra de um alucinado fotógrafo que, se não me falha a memória, se chamava (Carlos?) Fraga e era um segundanista de Direito. Acho que não nos conhecíamos mas, no Inverno desse ano ou um pouco mais tarde, apareceu-me com a fotografia.

Foi ele que me entusiasmou a frequentar o Curso Superior de Direito Privado, pois atrevidamente tinha tentado fazer o primeiro ciclo que só não completou por não estar ainda formado.

Soube dele, já juiz e posteriormente tive notícia de uma guerra dele com o Conselho Superior de Magistratura por ter, depois de avisado, publicado um livro sobre os podres da classe.

Ao que parece, o CSM não perdoou mas perdi-lhe por completo a pista. Alguém quererá ajudar-me?

A fotografia impressa é já uma cópia. Na verdade, numa altura em que o Expresso quis fazer um artigo sobre a crise de 69, apareceu-me cá por casa uma criatura jornalista que conseguiu transformar o meu depoimento em algo de completamente delirante (felizmente a minha mulher assistiu à nossa conversa e depois de ler a reportagem concluiu que a mulherzinha era absolutamente parva) Emprestei-lhe a fotografia verdadeira e até hoje.

 

Quando ia propor um livro, lembrei-me de ir ao meu ficheiro ver o que li nesse ano. Eis algumas dessas leituras: “l’homme sans qualités (dois volumes desemparelhados comprados em “promotion”) Musil; “Cosmos” e “Ferdidurke” de Gombrowicz; “Legendes et Poémes" de Bernard Dadié; “As Elegias de Duíno” de Rilke; “Longa noite de pedra”, em galego, de Celso Emílio Ferreiro; “Mémoires d’ Adrien”, Marguerite Yourcenar; ”Le monde de Ulysse” de Moses Finley; “Critique de la vie quotidienne” de René Lefebvre; “Rum” de Cendrars; “Liberté grande” de Gracq e “Na terra do crioulo doido” Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto. E farta dose de livros de teor marxista e até um de Stalin!!! Alguém nessa época ao ver a minha estante, afirmou que eu acabaria como o Quixote de tanto tresler.

Acho que os recomendo todos tanto mais que agora vários tem tradução portuguesa.

27
Mai20

estes dias que passam 405

d'oliveira

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Diário dos dias da peste

Jornada septuagésima

Já agora...

mcr, 27 de Maio

 

quando comecei este “diário” previa qualquer coisa entre quinze dias (o desejável) e um mês (a pior hipótese). Ah, incorrigível optimista! Já lá vão, redondos, setenta dias e a luz ao fundo do túnel continua trémula.

De todo o modo, já há luz (outra vez o optimismo) mas as notícias andam por aí desencontradas, aos baldões, ininteligíveis. Começo a pensar que há “notícias” a mais e factos a menos.

Continuamos a ver, sobretudo na televisão, carradas de criaturas em bicos de pés, cada uma com a sua pequeníssima verdade (por vezes ainda mais microscópica do que i vírus...), gargarejando para o espectador impotente conselhos, prevenções, avisos, ameaças que desorientam o mais paciente.

Agora, depois da teoria do “pico” e da profecia de uma segunda vaga lá mais para o outono, eis que um par de iluminados vem, taciturnamente, profetizar uma segunda vaga já.

Já, como nos slogans políticos de há quarenta anos em que o “Já!” soava ameaçadoramente a “ontem”. Depois o “já” militante esboroava-se em espuma na areia da praia que a realidade tem vícios insuperáveis e um deles este: corta cerce elucubrações tremendas e tremendistas que duram o tempo de um suspiro, de um grito ou de um rugido da multidão.

Eu usei agora mesmo a palavra tremendista que é um vocábulo inventado, penso, por Camilo José Cela para caracterizar um estilo e um discurso literários. Por cá, vi-a ser utilizada por Alberto Martins e aplicada a um certo vanguardismo político radical. Ainda pensei em preveni-lo mas, depois, deixei-me estar quieto. Aquilo tinha um significado político que, pelos vistos, era entendido por alguns ouvintes. É como a palavra surrealismo usada também por tenores parlamentares para caracterizar o extravagante e o bizarro. O senhor André Breton e os seus companheiros ficariam surpreendidos com o uso do termo em terras lusas. Há uma desculpa: já o surrealismo caminhava apressado paro o seu ocaso, já os surrealistas se tinham excomungado todos uns aos outros, já as antologias literárias os tinham aprisionado, já as edições dos primeiros livros atingiam preços etéreos nos leilões e nos alfarrabistas, quando por cá surgiram com as habituais e obrigatórias zangas e dissidências, os primeiros grupos surrealistas. Em boa verdade, apareciam muito contra o neo-realismo esgotado em poucos anos mas que teimava em persistir. Aliás, persistia porque os leitores (um minoria nacional e viciosa) abominavam a “situação” política e o encafuamento do país triste e submerso.

A guerra acabara e nada do que se esperava acontecera. A derrota dos fascismos parou nos Pirenéus. Entre nós e a Europa havia uma Espanha esponjosa que nos confinava à beira água.

E, já com vinte anos de Ditadura Nacional e Estado Novo, apanhámos com mais trinta de castigo. Ah quanto doía esta lonjura!...

Hoje, continuamos isolados da Europa que mexe. Enquanto a Espanha não abrir as fronteiras estamos reduzidos a um que outro avião que chegue ou que parta. A TAP é o que é, aliás é o que sempre foi, um fardo pesado para os portugueses que se aguenta porque é estratégica e fundamental para mantermos relações com a “diáspora”. Parece que há um senhor ministro, desses que se armam ao pingarelho e que ameaça com a nacionalização. Ou seja, doravante, se a coisa for para a frente, vai ser um forrobodó. A TAP foi privatizada porque já ninguém tinha mão naquele monstro adiposo que voava ao sabor das greves e a cada dia tinha mais e maiores prejuízos. Estes aliás mantiveram-se, mas pelo menos havia muito mais aviões e rotas. O covid cortou as asas À TAP e, notem bem, a todas mas todas as grandes companhias de bandeira desde a Air France À Lufthansa. Nem os famosos frugais se safaram. A Holanda vai entrar pela madeira dentro com a sua KLM, os escandinavos idem, que no reino dos céus ninguém se escapa. Ou escapam as ryanair & sucedâneos mesmo se a fama delas não é a melhor. Todavia o público prefere-as por serem baratas e contra isso os governos não tem argumentos.

Por aqui as vozes do norte erguem-se contra a TAP que restringiu quase completamente os voos de e para cá. Algum motivo existirá pois não creio que mesmo esta administração em queda livre queira perder dinheiro, E assim temos alguém que não explica e alguém que protesta não por falta de explicação mas por regionalismo.

Isto lembra outro costume muito próprio de quem não planeia seja o que for. É o “já agora”. Até aqui em casa. Já que estamos em semi-confinamento sem termos onde ir podíamos fazer isto. E ap fazê-lo já agora faz-se também aquilo. E mais aquilo... Já agora que estamos com a mão na massa...

Também é verdade que, no dia a dia dos tempos normais, adiamos pequenas coisas para melhor altura. Mas agora que está tudo a meio gás, vá de reparar esses atrasos, essas tarefas adiadas, são dois maples que as gatas usaram para afiar as garras que, já agora, vão para o estofador. É o sr Hugo que já agora foi convocado para vir arranjar uma persiana que se recusa a descer, é o sr Barbosa que vem fazer mais umas pequenas reparações. E uma vez feitas, já agora, toca de mudar a lâmpada da despensa. Onde tudo parecia escondido agora é o reino da luz.

O “já agorismo” fez com que umas obras importantes na casa se transformassem numa quase reconstrução da mesma. Ficaram-me pelos olhos da cara...

No parlamento, o já agora entrou em velocidade de cruzeiro. É um ver se te avias. Não há deputado, mesmo os que de costume se limitam a levantar e baixar o dito cujo consoante as ordens da direcção parlamentar, que não acrescente um ponto ao conto de fadas em curso. Quando se pergunta pelo dinheiro que isso vai custar as respostas são simples. A Europa que se chegue e abra os cordões à bolsa. Esta é a nova versão daquela máxima “os ricos que paguem a crise”. Claro que os ricos não se acham perus de natal e sobretudo não gostam de ser depenados. E o dinheiro é uma coisa quase imaterial. Ora está aqui, ora na Suíça, nas Maldivas, nas ilhas Caimão e noutros paraísos turístico-fiscais.

Mas, pensemos um pouco: onde estão os ricos? Ou, doutra maneira: que é um rico? A resposta costuma ser sempre a mesma. Os ricos são os outros. Para o sem abrigo um rico é o fulano que vive numa casa, eventualmente alugada. Para este é o cavalheiro com casa própria e ordenado meia dúzia de vezes superior ao mínimo. E por aí fora.

Claro que há uns ricos que se apanham logo: os novos, os impertinentes, os que se deixam fotografar nas suas casas, à beira de piscina ou nas festas do “jet set” parolo que temos. Mas mesmo nesses, há os que, à semelhança do comendador, não têm nada em seu nome. Podem viver num andar luxuoso mas o andar pertence a uma empresa que pertence a outra por sua vez controlada por uma terceira....

Ou aquele político que fazia um vidão mas era tudo fruto de empréstimos de um amigo. Só a mim é que me não calham amigos desse calibre. E dessa generosidade...

E, já agora: então esses processos judiciais que implicam umas poucas dezenas de figurões dos bancos, da política da “sociedade”? como está tudo isso?

Nem me apetece ouvir a resposta.

Já agora, fico-me por aqui.

* a vinheta: “El libro de los inventos”, editorial Fundamentos, Espanha  

 

26
Mai20

estes dias que passam 404

d'oliveira

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Diário dos dias da peste

Jornada sexagésima nona

Cenas da vida conjugal

mcr, 26 de Maio

 

Os títulos, seja do que for, são sempre um problema. Primeiro hão de ter algo a ver com o que se vai escrever a seguir, o que, comigo, já não é pera doce pois eu sento-me à frente do maquinismo e aí vai disto: tenho uma ideia vaga, ténue da crónica a aviar mas, fora as duas primeiras linhas, o resto só a Deus pertence. Sou um pouco, poucochinho, como uma vez o imprudente Costa disse, sobre um resultado eleitoral do seu antecessor, como aqueles criados do Infante D Henrique mandados para as costas de África. “Andem para diante e depois venham cá contar o que viram”.

Digamos que naquela altura a “costa de África" já era algo de sinistro. Os navegadores não eram exactamente uns degredados mas o encargo que lhes pesava em cima não pareci ser coisa fácil. O mar “tenebroso” era um foco de terrores, os navios em que iam, umas coisinhas frágeis, as tripulaçõex e eles próprios gente que, de certo modo, ia ganhando experiência à medida que avançavam.

E o escriba que estas vai traçando, à aventura, também não tem certo o percurso nem sabe se, pelo meio, ao favor de um capricho, de uma citação, de uma irrupção súbita da memória ou da imaginação (la loca de la casa) não dará com os burrinhos na água.

Lanço-me ao ecrã virgem e aí vai disto. O que for será.

Mas eu estava a tentar falar dos títulos (vem onde é que já ia?). Ai os títulos!... Se há coisa traiçoeira no que se escreve, o título é o pior. Um título é como uma montra de um loja de enchidos. Se o que o cliente vê lhe enche o olho, ele entra, Se não, passa à frente e o pobre caixeiro fica lá dentro sozinho a contar as moscas. Depois do título vem o remoinho da primeira frase. É que nem toda a gente é capaz de um “nel mezzo camin della mia vita mi trovai...” ou “en un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme”, ou, ainda, “beuveurs tresillustres et vous Verolez trésprecieux (car a vous non à aultres sont dediez mes escriptz)...”

E por aí fora, pois caso se acredite no que centos de autores escrevem, tudo é difícil, tudo é uma trabalheira, um parto (e aqui não resisto a citar o Joaquim Namorado que nos dizia, a nós, rapazolas tolos, que para imaginar as dores do parto, tínhamos que pensar no que seria mijar um melão!... E confundidos, aterrados, começávamos a olhar de outra maneira as mulheres.. ). Pode ser que seja assim, mas eu inconsciente e irresponsável deito-me à água e tento ir nadando, boiando, bebendo o seu pirolito de quando em quando, numa tentativa para alcançar a outra margem, essa mesmo onde algum(a) leitor(a) me espera curioso/a.

E voltando ao título: anda por aqui uma reminiscência de Bergman, mesmo se o filme com este título é um dos que menos me interessou e que, apesar de o ter, nunca mais  revi. Portanto, cenas da vida conjugal é um título usado por outrem, no caso por um grande outrem, é banal pode até haver outras obras com o mesmo título ou algo de semelhante. Porém, é o título adequado para o folhetim de hoje.

Não vou fazer queixinhas da CG, coitada, que me atura os humores, mas, às vezes, ela abusa. Vejam: a CG sofre de um síndroma chatíssimo que, de quando em quando, põe em causa o seu equilíbrio e ameaça fazê-la cair redonda no chão.

A primeira vez que isso aconteceu, foi o diabo, ou, como diria a minha mãe, autora de expressões de sentido duvidoso, “o diabo feito vaca”. Que coisa será o diabo feito vaca nunca consegui perceber mesmo se ela o dissesse com voz e ar severos. A expressão poderia ter um sentido tauromáquico (a srª ministra da cultura que me desculpe) mas nesse circuito todo de olé y olé, de fanfarronice e fatos imbecis de lantejoulas, o vilão é o touro e não a pobre vaca que só entra no redondel para levar um pobre animal castigado pelas farpas para fora, para os curros. Seja como seja, a CG caiu redonda e eu dei com ela desmaiada à porta do quarto.

Só quem nunca tentou levantar um corpo inerte pode entender como me senti. Incapaz de, com êxito e sem a estropiar, a levantar para a poisar na cama, pedi socorro à Ana e ao Nuno e depois entendemos levá-la para o hospital. Aliás, quem a levou foi a ambulância. No hospital (público) penou umas horas antes que a tentassem medicar. Ficou internada pois tinha um ferimento na cabeça. Por lá esteve alguns dias e digo-vos que era um tormento para ela e outro para mim. Primeiro, a falta de privacidade, depois, o ar tristonho, pobre da enfermaria. Quando começou a melhorar lá a arrastava para um passeio curto por uma larga varanda. Ela, por seu turno, estava doida por fumar. Conseguiu, com artes que não comento, convencer enfermeiras e enfermeiros a dar-lhe um cigarrinho e pimba, atirava-lhe forte e feio para o pulmão. Logo que pode, pediu-me para a ir buscar e veio para casa.

E começou a ter algum cuidado. Quando digo algum é mesmo só algum, pois no sábado, vá lá saber-se porquê, resolveu trepar para um parapeito de uma janela para tentar arranjar uma cortina, melhor dizendo prender o varão. Não só não conseguiu mas quando desistiu, olhou para baixo e mergulhou desamparada.

Sabendo que eu me zangaria, ocultou aquela aventura tanto quanto pode. Mas no domingo, as dores num pé e no tornozelo começaram a aumentar e à noite, chorava como uma Madalena.

E eu, compassivo mas enfurecido, perguntava porque é que não me tinha pedido para tratar do cortinado, porque é que não tinha usado um dos três (3!!!) escadotes que há cá em casa. Resposta zero, soluços muitos que aquilo devia doer. Ontem, segunda feira logo pela manhã resolvi ir comprar um par de muletas. Começou por recusar mas, desta vez armei-me em carapau de corrida e levei a minha avante.

Quando cheguei com as muletas, declarou que não sabia usá-las! Mas usou que eu continuava intratável. Usou é um modo de dizer. À tarde já manquejava sem elas. E hoje, então foi um festival. As muletas estão cuidadosamente encostadas à parede em frente da porta do nosso quarto. Desde ontem pelo inicio da tarde!

E hoje, S.ª Ex.ª deambulava pela casa a limpar, varrer, tentar aspirar, numa roda viva.

É preciso acrescentar que a CG lava o lavado que já lavou duas vezes. Aquilo é uma psicose perigosa. Se, em vez de gatas, tivéssemos um leopardo, o desinfeliz já estaria sem pintas de tanto ser escovado. Com ela aos comandos da pátria doente, não havia covid que aguentasse, os portugueses haviam de lavar as mãos de meia em meia hora e estou a ser generoso. E usar três máscaras sobrepostas. E viseira. Ou nem isso: os portugueses passariam a andar por aí vestidos de escafandristas (mas com máscara e viseira à mesma, não vá o diabo tecê-las).

O momento actual é difícil porque, entretanto, o médico convenceu-a, deu-lhe ordens terminantes, a deixar de fumar. E ela, honra lhe seja, tem cumprido sem falhas. Deixar de fumar em confinamento não é uma aventura sem risco como calcularão.

Mas eu, que deixai o cigarrinho aos cinquenta e tal depois de ter atingido a média olímpica de quatro maços diários, nem digo nada. E vou-a prevenindo que mesmo vinte e tal anos depois ainda sinto o apelo de um cigarro várias vezes por dia

(deixei de fumar por única e exclusiva vontade minha. Nunca senti aquele catarro, a tosse, do fumador, nada. Um dia, descobri que havia uns selos de nicotina que tinham algum êxito, fui ao médico, pedi para mos receitar e ao fim de mês e meio, a meio do tratamento, deixei os cigarros. Custou que se fartou. Andei quase um ano com um maço no bolso. Quando ficava com um ar meio podre, deitava-o fora e comprava outro. Comecei por ter sonhos maravilhosos em que voltava a fumar e depois tais sonhos passaram a pesadelos. Também de voltar a fumar. Até qu isso passou. Não me arrependo de ter fumado e muito menos de ter abandonado o tabaco. A vida vive-se e pronto. Chorar sobre leite derramado é de uma inutilidade gritante. E pouco inteligente...)

Há pouco, confidenciou que o pé está pisado. Claro, respondi. Antes não tivesse feito pois apanhei com um sermão e missa cantada sobre as dores que eu, um egoísta depravado, não sentia. Abstive-me de retorquir que não tendo trepado para um parapeito, não tendo caído, não tendo dado com a pata em sítio algum, difícil seria ter dores, mesmo por simpatia. Mas voltei a preferir o silêncio porque, de quando em quando, as mulheres, algumas mulheres, aquela mulher, pensam que a lógica é uma batata, um truque masculino, fálico, uma manifestação intolerável de machismo. E, zás!, mais uma meia hora sobre o catálogo gigantesco de vícios meus e dos meus congéneres, os homens em geral.

Fiquemo-nos por aqui, em companhia de uma grande senhora das letras portuguesas que tive o prazer e a honra de conhecer: Isabel da Nóbrega. Leiam “viver com os outros” e depois digam-me se não é um grande e inesperado livro, sobretudo tendo em conta a data em que apareceu.

Se não vos chegar, eis outra enorme escritora, agora final e felizmente reeditada: Maria Judite de Carvalho. “Tanta gente, Mariana”. Ou finalmente, e igualmente radiosa, Irene Lisboa, com meia dúzia de títulos a ombrear com o melhor que se escreveu na segunda metade do século XX. Bastaria este formidável título “Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma”.

Com algum critério, acho que poderia dizer que estas, com Agustina, Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Fernanda Botelho, a parte das mulheres na literatura portuguesa recente supera a dos homens. E só cito autoras desaparecidas e que escreveram no século passado.

* a vinheta: Suzuki Harunobu (1725-1770) um genial pintor de mulheres e com várias incursões no que se chamou arte “shunga” (ou erótica). Para conhecer melhor esse aspecto (lembram-se das histórias em que o galanteador lascivo convida a inocentinha para ir até casa dele ver a colecção de estampas japonesas?) cfr “Le Chant de l’Oreiller ( l’art d’aimer au Japon)”, Office du Livre, 1973, Fribourg; “Le printemps des délices (art erotique au japon)”, Philippe Rey, Kunsthall, Roterdam, 2005 e “Erotique du Japon” de Theo Lesoualc’h (da série Bibliotheque Internationalle d’Erotologie, nº 19) Jean Jacques Pauvert, Paris, 1968

A minha edição de Harunobu é editada por Artia, Praga, 1957 com o titulo “Harunobu und die Künstler seiner Zeit” com um estudo de Hajek Forman. Escolhi este artista para não estar sempre a usar a trilogia, Hokusai, Hiroshige e Utamaro.

25
Mai20

estes dias que passam 403

d'oliveira

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Diário dos dias de peste

Jornada sexagésima oitava

Nem tanto ao mar...

mcr, 25 de Maio

 

 

encontro a minha vizinha e amiga Irene e rumamos à esplanada para a bica da manhã e dois dedos de conversa. Ela pendurada na máscara que só tirou, et pour cause, para o café e, ai..., para um cigarrinho. E vai de analisarmos a reacção das pessoas, dos portugueses, aliás, ao flagelo que nos tem atormentado. A Irene tem sérias dúvidas, eventualmente legítimas, sobre o desconfinamento. Eu bem que lhe digo que, se é verdade que há que temer a doença, não podemos morrer da cura.

E corremos esse risco. As pessoas ouviram os apelos ao isolamento e às precauções em cascata e barricaram-se em casa de tal modo que sair de lá começa a parecer difícil.

E aqui, um primeiro ponto de ordem, como se dizia nas assembleias dos anos desassossegados e tumultuosos. Os portugueses portaram-se com um raro sentido de responsabilidade e disciplina que espanta o mais reservado dos comentadores.

Pode sempre dizer-se que o medo guarda a vinha e que foi o medo que fez as ruas ficarem desertas, os empregos em suspensão, as bichas ordeiras e distanciadas nos supermercados, nas farmácias e nos poucos pontos onde havia que ir. É verdade!

Pode dizer-se que o Governo promoveu uma campanha fortíssima, que também é verdade. Pode até acrescentar-se que as pessoas, a certa altura temeram sanções pesadas caso pisassem os famosos riscos vermelhos. Concede-se.

Mas, genericamente, os portugueses, que apanharam com um dilúvio de informação via tv, usaram de bom senso. Viram os vizinhos espanhóis com as barbas a arder e escanhoaram-se forte e feito para cortar caminho a essa bicheza infame do corona puta que o pariu.

Teriam procedido da mesma maneira sem as prevenções, avisos, proibições e ameaças com que foram bombardeados? A questão é, como a do nariz de Cleópatra, irrespondível.

Todavia, pareceu-me que a certa altura, e muito cedo, sucedeu algo que tornou a situação um tanto ou quanto paranoica. Em primeiro lugar, diria que a informação pecou “por excesso”. Não que as pessoas não devam ter um acesso absoluto e cabal a tudo o que lhes diz respeito mas, hão de ter notado, que durante semanas já não era um tsunami de notícias que se repetiam mas sim, também, uma cacafonia que roçava o histerismo.

Os desgraçados tele-espectadores, encafuados em casa, a maioria sem acesso aos jornais (cuja circulação baixou violentamente) sujeitos ao metralhar diário das conferências de imprensa da DGS e da srª Ministra que numa forte proporção dos casos não tinham nada para dizer de útil, sequer de necessário, aumentou – mesmo se involuntariamente – o pânico. Não vou sequer referir as “redes sociais”, bastaram-me as vezes que a CG se atreveu a bombardear-me com notícias e sobretudo com “opiniões”, para jurar a mim próprio que nunca por nunca havia de entrar no fcebookismo, no instragramismo e nas restantes teias de aranha que se alimentam de inocentes e aprisionam outros mais expeditos.

Um dos temas mais recorrentes foi o da notável resiliência do Serviço Nacional de Saúde. É verdade que o bunker erguido pelas autoridades foi suficiente para conter a peste em limites que nunca puseram em causa a frágil rede que existia. Porém, também é verdade que a mobilização maciça de meios, arrasou toda a restante estrutura hospitalar desde o serviço normal de consultas, até às cirurgias. Todos os serviços hospitalares ficaram em stand-by e, segundo o presidente da Associação dos administradores Hospitalares o rombo sofrido no dia a dia dos hospitais não será reabsorvido tão cedo (se é que o conseguirão fazer) e as consequências sobre a saúde pública vão ser graves para não dizer gravíssimas.

É claro que deste esforço (e já não falo dos médicos, enfermeiros, auxiliares de todo o género, especialistas de diagnóstico, enfim de toda a família hospitalar incluindo os serviços administrativos) algumas consequências positivas se tiram. Em primeiro lugar, houve a contratação de um número apreciável de médicos e enfermeiros, reivindicação antiga que até Março de 2020 o Ministério da Saúde tratou sobranceiramente quando não a ignorou totalmente.

De repente, o público viu que os profissionais da “linha da frente” com salários merdosos conseguiram autênticos milagres. Trabalharam um sem número de horas a mais, caíram doentes como tordos, tiveram que inventar modos de se proteger (e de proteger os doentes) quando a falta de meios era gritante.

Desta vez, o público terá percebido que um terço dos médicos (dez mil) do SNS estavam ainda em formação. Um terço! Estão a ver como é que rapazes e raparigas acabados de sair da universidade marcharam para as trincheiras apenas animados pelo juramento de Hipócrates. Dirão: mas havia médicos mais velhos ao lado. Havia, claro que havia, mas nunca tantos quanto os necessários, nem a todos os momentos.

Nós portugueses devemos muito a esses trinta mil profissionais e, entre eles, a esses dez mil recrutas. Ainda ontem uma televisão punha quatro miúdos em cena e foi admirável ouvi-los contar da violência do choque, do receio, do cansaço, da valentia e do que em poucas semanas que valem anos aprenderam, a começar, como dizia uma jovem médica, a aprendizagem da calma.

Os portugueses que ainda há pouco tempo assistiram a duas greves de enfermeiros e que foram matraqueados pela enxúndia governamental, pelo ataque despudorado à obtenção de meios para financiar a greve (oh quantos tenores no Parlamento blasfemaram contra isso! Oh quantos protetores do sindicalismo verdadeiro uivaram insultos, destilaram venenosas acusações de manipulação política!

E de repente, pela voz do Boris Johnson, veio um elogio à enfermagem portuguesa que, de resto, em Inglaterra está farta de obter distinções e reconhecimento. Ontem mesmo, tive oportunidade de ver e ouvir um casal de enfermeiros portugueses que tendo tido a possibilidade de regressar a Portugal, ficaram na ilha do Príncipe e tem feito a diferença entre o desastre a bonança sanitária que lã se goza. Dois enfermeiros para uma ilha inteira e dezenas de milhares de cidadãos sem recursos, com uma assistência que só por favor se pode considerar medíocre! Um milagre! Ou a prova provada da qualidade, da dedicação, da coragem.

Virá o tempo, está já a chegar, em que os louros serão, como é hábito, distribuídos não entre os que os merecem mas entre os que se pavoneiam.

Note-se que com isto não pretendo reduzir a importância de quem governa, da oposição que mostrou saber sê-lo, dos jornalistas que tentaram retratar o país e a crise.

Mas também não posso deixar de anotar que houve alguma impreparação (que se tentou reparar com alguma eficácia) que houve instituições que se atropelaram umas às outras, que a um mês e pouco dos fogos ainda há quatro distritos sem meios aéreos (e este ano tudo leva a crer que vai ser, já é, de seca), que os velhos reflexos centralistas condicionaram alguns dos esforços das autarquias.

E, agora, o mais grave: em que percentagem é que o PIB vai cair? Quantos postos de trabalho foram destruídos? Quantas empresas vão desaparecer?

A resposta de um habitual sector político começa a ser a do costume: intransigência, intransigência, estatização, nacionalização, os ricos que paguem a crise, abaixo os monopólios (mesmo se já se verificou que não é no sector das grandes empresas que houve as famosas malandrices, se é que houve assim tantas, um número expressivo.

A sr.ª Catarina Martins, o sr. Jerónimo de Sousa por uma vez com um aliado absurdo, o cavalheiro do Chega, já vieram clamar contra os despedimentos. É óbvio que não há ninguém que defenda os despedimentos. Mas também parece certo que os vai haver e que, muitas vezes, quase sempre, serão a única salvação de outros – muitos ou poucos –postos de trabalho. Clamar contra o lay off parece querer dizer que seria melhor que não o houvesse. Que os trabalhadores em vez de terem um terço do salário perdido poderiam perdê-lo todo.

Depois, temos o habitual recurso à Europa. A culpa de virem ou não viram os dinheiros europeus é da Europa. Eu gostaria de perguntar, como é que seria sem a Europa. Onde estaríamos neste preciso momento?

E relembraria as excomunhões tremendas que ainda há meia dúzia de anos caíam sobre a senhora Merkel que, em fim de carreira, passa de anjo exterminador a rainha Santa Isabel. E perguntaria, oh pesadelo!, que reacções esperam os admiradores do medíocre senhor Sanchez aqui ao lado depois de numa extraordinária aliança com o partido Bildu? Acham que os eventuais “doadores” “frugais” estarão de acordo em financiar a estrafalária política de distribuição de rendimentos de Sanchez & amigos? Acham que não seremos, nós, a Itália e a Grécia, vitimas desse “síndroma do sul” a que o Presidente Sanchez pode ser associado?

Ontem, os portugueses foram à praia. Pelo que vi, e li, o distanciamento social foi notório, com pequenas excepções nas zonas onde se acumularam pessoas a banhar-se. Mesmo aí não pareceu haver especiais abusos de proximidade. Ou seja, mesmo enlouquecidas pelo primeiro anúncio de Verão, pelo dia quente depois de semanas em casa, as pessoas portaram-se bem. Sem polícia, sem cabos de mar, sem nadadores salvadores, sem semáforos nas praias.

Eu não sei se vai ou não haver segunda vaga. Se a vacina (chinesa, de Oxford, da Moderna ou israelita) vai chegar a tempo. Se inventam, sempre a tempo, terapêuticas eficazes para combater a doença, para retardar, para abrandar o vírus. Bem queria que a minha carcaça já leva demasiados anos a vaguear por este mundo. Já apanhei a minha dose de sustos, incluindo uma pandemia (a da gripe asiática. Ou foi só uma epidemia?).

Espero é que desta provação tenhamos saído um pouco mais experientes, um pouco mais dotados de meios de prevenção e de combate, um pouco mais conscientes do que somos, do que fazemos. E com, já agora, um pouco mais de compaixão.

(por exemplo: os supermercados tem à venda vales do Banco alimentar. Agora ainda mais simples. As pessoas compram os que quiserem nas caixas e logo ali aquilo é registado e vai directo para a instituição. Há vales de produtos ou de cabazes. Estes custam menos de cinco euros. Vá lá, cheguem-se à frente. É caridade? Talvez. Mas, para quem tem fome, é um pequeno momento de alívio. E será que alguém recusa ver a fome por o seu gesto ser conotado com a caridadezinha? Ora porra!)

* a vinheta: vista da minha casa na praia durante alguns verões na Galiza. E este ano como é que vai ser?

24
Mai20

estes dias que passam 402

d'oliveira

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Diário dos tempos da peste

Jornada sexagésima sétima

Saudade burra

mcr, 24 de Maio

(vai o folhetim para o leitor atento, generoso e amável J Pereira que me deu a dica seguinte "Judeus errantes" de Joseph Roth, é editado por "sistema solar".

Não que seja importante mas mudei o título geral destes folhetins. De facto, diário das semanas não era brilhante mesmo se, no fundo eu apenas pretendia homenagear Daniel Defoe e o seu magnífico “diário do ano da peste”. Ora, escrevendo eu diariamente, a que vinham as “semanas”?

E já agora, para quem não teve a maçada de seguir isto desde o princípio, “jornada” é outra homenagem, desta feita ao senhor Giovanni Bocaccio que me foi apresentado há muito, muito tempo, antes seguramente do filme de Pasolini que também já tem barbas, barbas boas, seguras, que o Pier Paolo sabia da poda como poucos. Dele recordo todos os filmes, evidentemente, mas tenho uma ternura especial por Edipo rei (ai a Silvana Mangano que bem que vai, prova provada de que a beleza não desqualifica o talento), Evangelho segundo S Mateus.,  Passarinhos e passarões (Uccellaci e uccellini, com o gigantesco Tótó) e Medeia em que Maria Callas surpreende como actriz, ela que era uma diva de ópera (da Callas há que ouvir tudo pois é difícil apanhá-la em falso, aliás é impossível, e quando menos se espera, zás!, surge uma pérola negra...).

E lá me perdi eu, diabos me levem e ao entusiasmo que me transforma numa criatura logorreica, excessiva com um toque vagamente missionário, logo eu que não vi a luz, ou se a vi não era a que devia ser.

Portanto, tempos em vez de semanas. E ponto final, parágrafo.

Aviado o título geral, passemos ao do dia. A expressão é do Fernando Assis Pacheco, um poeta morto demasiado cedo, logo quando começava a publicar, ele sempre tão avaro, tão modesto quando se pensava, tão falto de generosidade consigo mesmo. Eu hei de ter escrito, sei lá onde, que “um coração daquele tamanho não poderia durar muito” que o raio da víscera rebentou-lhe à porta de uma livraria onde ele ia por novidades.

E novidades para o FAP eram pequenas plaquettes de poemas de gente nova que se intrometia no recreio dos grandes a gritar alto e desafiantemente “presente!”.

Tinham no Fernando um leitor paciente, atento, que logo dava notícia, se mereciam, numa secção de “O Jornal” (mais saudades burras!...) chamada “bookcionário” e que tarda em ser resgatada do limbo e publicada, anotada e divulgada. Este gosto pelos atrevidos que se chegavam à praça das letras era antigo confidenciou-mo ele, um fim de tarde em que saíamos da livraria Opinião (mais saudades, arre!) ali à Trindade, em Lisboa, onde agora é, ainda bem, a sede da editora e livraria Cotovia.

Nesse dia, o Al Berto apresentava o seu livro “á procura do vento num jardim d’Agosto” e um artista plástico Dodó expunha “lápis de amor e outras fantasias”. O FAP entusiasmou-se com os poemas do Al Berto , pegou-me o entusiasmo, também comprei a plaquette que depois, sei lá porquê, foi retirada do mercado (esta apanhei-a na bibliografia de “O Medo(trabalho poético 1974-1990) de Al Berto, Contexto-Círculo de Leitores, 1991

(ainda ontem referi depreciativamente o Círculo mas esta edição redime-o de muitos pecados)

Depois, fomos com mais quatro ou cinco amigos almoçar na “Trave”, um restaurante simpático de dois irmãos, o Jaime e o Santos (este último havia de abrir o “1º de Maio” duas ruas acima) e a conversa durou até às quinhentas. Neste grupo, quase de certeza que estava o Fernando António Almeida, nosso amigo desde Coimbra, desertor que voltei a encontrar em Liége e que ainda não tinha escrito senão três plaquettes de versos que, evidentemente andam por aí.

Como o FAA sucedeu, aliás algo de curioso. Deu-lhe para escrever um romance e o manuscrito, melhor dizendo, uma cópia dactilografada, andou uns tempos à solta na mão do Hipólito Clemente, na altura o livreiro da “Opinião” ( o Luís Pacheco - esse mesmo, o libertino que passeava por Braga etc...- dizia do Hipólito que ele era capaz de vender o catecismo ao diabo. Estão já a ver o grande livreiro que ele era).

Ora num sábado, o Hipólito mostrou-me aquilo, li de rajada meia dúzia de páginas proclamei que estava ali um grande romance e prontifiquei-me a subsidiar o número de fotocópias necessárias para começar a via crucis dos editores.

(também aqui se vê, como os tempos eram difíceis para quem queria estrear-se)

Já com a entrega das fotocópias aprazada, pagas de antemão por este aspirante a mecenas, eis que aparece o FAP. Falou-se do livrinho do outro Fernando (F AA) e dias depois no Jornal aparecia uma notazinha que dizia mais ou menos isto: “está a despertar grande curiosidade o livro de estreia de Fernando António Almeida em breve nas livrarias. Demorou mais de um ano, a “Esmirna, cidade azul”. Nesse parêntesis, ofereci cópias da fotocópia original a alguns amigos. Depois, publicado o livro, voltei a presenteá-los com o volume finalmente impresso.

Do Fernando Almeida tenho tudo, pelo menos assim o julgo. À uma porque somos amigos, depois porque ele vale a pena. Escreveu, mais tarde, outro romance “Marina noiva da vida” (Vega), “Contos cruzados” (teorema). Antes há ainda na Centelha, minha editora e de mais um largo punhado de alucinados, “Memória de Portugal”, poemas. Noutro domínio escreveu vários roteiros de Portugal e um excelente ensaio sobre Fernão Mendes Pinto, coisa séria editada pela Câmara de Almada.

Inconformista e independente, demasiado independente, FAA passou despercebido pela praça das letras e quem perde(u) são/foram os leitores.

O Hipólito, deixou uma plaquette “ por que não viajante sem carruagem quem sabe do caos e do seu fascínio” que, pela dedicatória, dato de 1983. Foi um curioso pintor naif mas quando tudo havia a esperar dele, morreu subitamente. A vinheta de hoje é de um quadrinho dele (acrílico sob tela, 25x16 cm) e tem o título “Adão e Eva no paraíso” . Quando lhe fiz notar que faltavam atributos sexuais aos dois personagens, o Hipólito, teólogo imaginativo, retorquiu que os dois ainda estavam no paraíso onde não havia sexo. Conformei-me com a explicação. Paguei o que me pediu e fomos, como de costume, jantar à Trave com a tribo completa dos Salomé, Vitorino, Janita, Manel e sei lá quem mais. Oh, que anos oitenta! “Saudade burra”, claro...  

23
Mai20

estes dias que passam 401

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada sexagésima sexta

Andando e vendo

mcr, 23 de Maio

 

Economicamente falando, há em Portugal um sector extremamente frágil, a roçar o desastre em tempos normais e atolado na miséria nos que correm. Refiro-me, está bom de ver à cultura, melhor dizendo aos trabalhadores culturais anónimos e invisíveis, sempre nos bastidores que contribuem, e de que maneira!, para o êxito da grande maioria das manifestações de palco. Músicos, contra-regras, costureiras, malta do som e da luz, costureiras e figurinistas, gente ligada à montagem, bilheteiros, eu sei quantos mais.

Depois há os outros: palhaços, actores, duplos, toda a parafernália do cinema. Em terceiro lugar temos os consagrados do teatro, do cinema também sem trabalho. A esses há que juntar, artistas plásticos, pintores e escultores de repente sem encomendas, gravadores, mestres serígrafos , fundidores de cobre, e mais uns tantos ou quantos.

No mundo da escrita, um mundo de solitários mas que vive do pessoal ligado à edição , dos livreiros, dos distribuidores e dos seus empregados, o panorama também não é animador mesmo quando sabemos que a quase totalidade dos escreventes tem na escrita uma segunda profissão e não a principal, a que lhe põe manteiga no pão. A proibição mais que justificada dos concertos, dos festivais de Verão traz mais uma pequena multidão a este angustiado grupo.

Com uma agravante: quase toda a gente ligada à cultura (boa ou má, ou assim –assim) é “precária”, trabalha sem rede, à peça. Há ramos de actividade que só subsistem, e nem sempre com especial folga, graças ao apoio estatal- O teatro dito “independente” é o exemplo mais flagrante. Há muito que quase não há teatro comercial, aquele que dependia da bilheteira e de um público interessado e fiel. Tal teatro demonizado estupidamente por gente que, ainda por cima, pouco ou nada (sobretudo nada!) sabe da história do teatro desapareceu praticamente. Ao que sei só há um encenador (Filipe La Féria) que ainda produz espectáculos que dependem do público. Fora isso, consta-me que no parque Mayer ainda há algum raro teatro de revista, também ele dependente do público que o procura. Em boa verdade, aquilo a que chamamos teatro “independente” é, em grande medida” dependente dos subsídios estatais. Aliás o mesmo se diga do cinema dito português. Não é caso único na Europa, embora em grande parte dos países seja obrigatória uma participação financeira externa ou o subsídio signifique, sobretudo um adiantamento sobre as receitas.

Também há um Teatro de S Carlos que alberga a ópera, mantém uma orquestra e um coro O Estado é o financiador e patrão distante.

A ideia que presidiu ao auxílio ao teatro “independente” tinha na base a hipóteses de, ao fim de um certo número de anos, as companhias subsidiadas teriam criado um público próprio e voariam com as suas próprias asas. Isso nunca ocorreu. Em quarenta e tal anos, as mesmas companhias (ou quase) continuam a recorrer através de concursos mais ou menos exotéricos aos mesmíssimos subsídios. Sem eles, morreriam em menos de um ano.

Tal situação não impediu a criação de muitas pequenas companhias que também tentam a sua sorte e sobrevivem ou mal-vivem sabe-se lá como.

Em suma, as artes de palco são as que, neste momento, atravessam a situação mais dramática. E não se vê, a curto prazo (seis meses / um ano) possibilidades de com o seu trabalho conseguirem resultados que lhes permitam funcionar, tanto mais que os espaços (quando eles existem) terão as lotações severamente cerceadas (mesmo se em tempo normal fossem raras as ocasiões de lotação esgotada ou sequer razoavelmente preenchida).

Isto dito, logo se conclui que todas as actividades profissionais que cieculam á volta do teatro são atingidas: luminotécnicos, sonoplastas, cenaristas, figurinistas, costureiras, pessoal de montagem, isto é os invisíveis, ficam ainda mais invisíveis.

Dessa mesma desgraça se podem queixar todos quantos trabalham no domínio da música. No caso, nem as cabeças de cartaz são poupadas mesmo se, por se tratar de interpretes (bastante ou razoavelmente) conhecidos, tenham outra base financeira, recebam cachets significativos e possam ter rendimentos provenientes de discos produzidos, além de terem “direitos de autor” a receber graças à televisão e à rádio. Porém, a anulação de concertos, o Verão sem trabalho, ou com muito pouco, pesa-lhes e pesa-lhes muito, sobretudo se tiverem trabalhadores permanentes (coisa de que duvido) com contrato de trabalho.

Nessa hecatombe, seguem-se os festivais de música que no Verão tem o seu auge. Este ano não há nada para ninguém. E não são só os promotores a sentir a crise mas todas as centenas de pessoas necessárias para se erguerem durante alguns dias o festival.

Todos os concertos, tournées de nomes sonantes nacionais e estrangeiros estão igualmente ameaçados, anulados ou pospostos para data a marcar. Desconhecendo-se a data do fim da pandemia, desconhecendo-se a adesão dos espectadores amedrontados depois, eis outro cenário de devastação.

Nas artes plásticas, vão reabrir as galerias. Dir-se-á que os artistas que nelas farão exposições têm uma ténue garantia de venda das suas obras. Ter têm mas de facto, no esta el horno para bolos como se diz aqui ao lado. O mercado das artes plásticas vi sofrer. Aliás já sofreu. Basta lembrar que as grandes feiras internacionais a realizar por estas alturas estão todas adiadas. Artistas e galerias suas representantes são atingidos, obviamente. Mais atingidos poderão vir a ser os escultores. Arte pública em tempo de pandemia não há. Nem as câmaras municipais estão a pensar em embelezar as suas rotundas, nem as finanças locais estão de boa saúde.

Depois, desculpem se incomodo, há todo um mundillo que gira à volta disto, gente que vive nos interstícios, que cria ou faz por isso. Se os consagrados estão a sentir faltar-lhes o pé, que dizer destes?

Alguém dirá que, pelo menos, a escrita e tudo o que lhe está associado, editoras, livrarias, distribuidores (e autores, claro) estaria a salvo. Ao fim e ao cabo, o que não faltou foi tempo para ler durante as longas horas de recolhimento obrigatório.

Nada menos verdadeiro. Já há livrarias que não reabrirão (o caso da Barata mesmo se porventura a crise já viesse de trás. As editoras atrasaram todos os lançamentos o que implicou para elas prejuízo evidente tanto mais que também neste capítulo muitas trabalhem no fio de arame. As vendas de livros baixaram exponencialmente, a feira do livro de Lisboa não foi, a do Porto é uma incógnita, os alfarrabistas queixam-se amargamente mesmo se o seu mercado é diferente do das livrarias que só vendem novidades ou edições recentes.

Falo por mim: frequentador assíduo de alfarrabistas, não pude fazê-lo durante quase três meses. É verdade que comprei uma dúzia de livros o que significa uma quebra de pelo menos 50%. Encomendei na livraria do meu bairro cinco ou seis novidades e na wook mais uma ou duas. Mas, mesmo com a garantia de venda, os livros demoram a chegar. Do “Inventário” de José Cutileiro já levo dez dias de espera. Mais ainda, do volume II das “Mil e uma noites” a primeira edição portuguesa directamente traduzida do árabe... Tenciono fazer uma sortida a algumas livrarias pequenas e eventualmente à FNAC, esta semana que vai entrar. Notem: eu sou um viciado, um libroadicto, um comprador incontinente que deveria, desde há muito, estar proibido de entrar numa livraria.

Também é verdade que tive tempo para ler vários livros em espera mas, sobretudo, deu-me para reler...

No meio desta catástrofe ainda são os autores quem melhor se safa, ou quem sofre menos. Raro é o autor que vive da escrita pelo que não são os pequenos réditos da actividade que o tornam mais rico.

Todavia, um escritor necessita de um editor. E este de distribuidores que cubram a rede de livreiros. E aqui começam os problemas. Um editor tem de vender os produtos que fabrica. Paga direitos de autor e no caso de obras estrangeiras paga a tradutores. O custo da tradução disse-me um editor para quem fiz várias seria o custo principal de um livro traduzido. Vendo esta pelo preço que a comprei. Pessoalmente, nunca fiz da tradução profissão, só traduzi para editores amigos e desisti quando verifiquei que me pagavam exactamente o mesmo do que a criaturas que nem português sabiam quanto mais a língua que era suposto traduzirem.

Em tempos que já lá vão fui, com muitos amigos, editor. Porém essa actividade era mais política e conspirativa do que outra coisa. Nós apenas não queríamos perder dinheiro.

Também, a convite do Arnaldo Fleming que mais tarde engrossou os quadros da “Afrontamento”, fiz parte do numeroso grupo de sócios da livraria “A erva daninha”. Fui provavelmente o melhor cliente mas aquilo acabou como eu prevenira o Fleming quando entrei com os cacaus requeridos: faliu.

Alguém de boa vontade, editou-me um livrinho de crónicas que vendeu o suficiente para não me envergonhar e até dar um superavit ao editor. Pelos vistos terei merecido a benevolência dos leitores. Ainda bem. Nunca mais pensei em editar-me nem nunca pedi a ninguém fosse o que fosse nesse sentido. Mas aceito ofertas...

As editoras portuguesas são pequeninas, mesmo os dois maiores grupos (Porto Editora e Leya) que tem no seu abito umas duas dúzias de editoras que mantem os nomes originais. Fora desse circuito há uma meia dúzia de editoras que merecem todo o respeito pelo portfólio que ostentam (só vou referir a Relógio de Água, mesmo se isso é injusto). Depois há um grupo de pequenos selos editoriais de que também só vou referir dois “Cavalo de Ferro” e “Cotovia”. Finalmente há umas dezenas (???) de pequeníssimas editoras com um acesso difícil ao mercado e às livrarias mas que tem a importantíssima e meritória função de revelarem os “novos” e neste campo os poetas, gente amaldiçoada por quase todos os editores (ao lado da RA cito outra bela excepção a Assírio e Alvim, agora no circuito dos dois grandes).

As edições portuguesas são pequenas, muito pequenas. Raras vezes se editam de um livro mais de 1000 exemplares!

Assim não se vai longe, não se pode ir longe. Junte-se a este problema a invisibilidade de grande número de autores que os livreiros nunca põem na montra ou nas melhores estantes à vista do público. Tentem encontrar o último livro do Jorge de Sousa Braga, poeta ainda por cima...

Há um único e medíocre clube do livro. 90% dos seus produtos rondam, no melhor dos casos, o sofrível. Há alturas em que o leitor mais aguerrido não encontra no catálogo nada em que meter o dente. Também é verdade que os clubes estrangeiros, por todos o “grand livre du mois”, francês padecem do mesmo mal.

Numa palavra: também neste campo, as coisas correm mal. Também nunca correram especialmente bem, convém dizê-lo.

À excepção do Jornal de Letras, quinzenal e apoiado pelo Estado para difusão no estrangeiro, não há imprensa cultural digna desse nome. O pouco que existe não chega aos calcanhares, por exemplo, do suplemento do “El País”, Babélia, caderno semanal com 12 páginas.

Tudo isto indicia um mercado do livro pobre, gasto, amorfo e triste. E neste capítulo, a salvação possível vem dos alfarrabistas, melhor dizendo de alguns alfarrabistas que muitos há que mais não vendem do que papel medíocre e velho. E nisto, a minha experiência diz-me que os preços altos nem sequer caracterizam os livreiros que tem à venda os melhores livros. Descobri num deles, eventualmente o melhor de Lisboa, livros que andam entre 20 e 30% mais baratos do que noutros. No Porto sucede exactamente o mesmo: o melhor e mais bem fornecido alfarrabista faz preços claramente abaixo de alguns concorrentes.

Mas os alfarrabistas são um segredo demasiadamente bem guardado para muitos leitores que nem deles sabem ou se lembram. Também é verdade que não é neste género de livrarias que se encontram os best-sellers do momento e as paupérrimas redacçõezinhas de alguns rapazes e raparigas que povoam as revistas cor de rosa.

Sobre tudo isto, sobre E nesse localesta “waste land” paira um ministério fantasma que bem poderia fechar portas que ninguém de juízo lamentaria. E esse local é percorrido não pelo amável fantasma de Canterville mas pela sr.ª Ministra que, sem ofensa, me parece não passar de um verbo de encher. E não sou eu que o digo mas essas centenas ou milhares de manifestantes que se sentem acossados.

Não tenho receitas para esta situação. Ou só uma: consumir na medida do possível “cultura”, pagar por isso com o nosso próprio dinheiro. E já agora pagar coisa que se veja e recomende. Estou farto de embustes culturais, de modas passageiras, de narizes de cera, de retórica esparvoada e provocadora. Para esse peditório, lamento muito, não dou. Tenho demasiado respeito por gerações e gerações de artistas que passaram dificuldades extraordinárias animados apenas pela sua crença no seu talento e no seu amor pela arte. E à vista dessas vidas não venho fazer a apologia da miséria criadora mas também não venho justificar um dever do Estado de apoiar seja quem for, apenas por se intitular artista.

Nem por acaso há pouco tempo referi aqui “Le temps des bohémiens” de Dan Franck, Grasset . Uma história da arte moderna e uma lição de vida artística.

*a vinheta: “Jeanne Hebuterne” por Amedeo Modigliani, seu marido. Quando Modigliani morreu, Jeanne suicidou-se, atirando-se da janela da casa dos seus pais: tinha 22 ou 23 anos

22
Mai20

estes dias que passam 400

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada sexagésima quinta

P’ra chatear o indígena

mcr, 22 de Maio

 

O meu quarto avô paterno, João Martins, saiu das suas pequenas terras da Cabração, Ponte de Lima para o Brasil, não quis ficar no Rio com a corte e foi para o rio Grande do Sul onde fundou um autêntico império que ia de Pelotas até Montevideu. O meu trisavô também paterno mas alemão, chegou a esse território já o sec. XIX ia avançado. Era médico, lá casou e um dos seus filhos o bisavô Manuel casou com Ubalda, uma descendente de João Martins. Dora, uma das filhas do casal casou com o meu avô Alcino que a exemplo do pai, fora ao Brasil para representar a firma exportadora de vinho do Porto e ganhar experiência nos negócios.

Do lado da minha mãe, um outro trisavô, José Costa Alemão, nascido em Minas Gerais, emigrou para Angola, a exemplo de muitos outros portugueses do Brasil que se recusaram a entrar numa das mais estúpidas guerras levadas a cabo pelo Império Brasileiro. Em Angola casou com Joana Faria, estabeleceu-se na Chibia, a meio caminho de Moçâmedes e Sá da Bandeira (Lubango) e construiu outro pequeno império louvado pelo Governador João de Almeida.

O meu avô Manuel Curado, fugiu do seminário (para onde fora enviado por ser filho segundo e não dever prejudicar a herança) e entrou no Exército Colonial, casou com uma neta de José Costa Alemão, fez toda a sua vida militar nas colónias onde lhe nasceram todos os filhos, Uma delas, a minha mãe casou com um filho de Alcino e Dora. Os meus pais foram para Moçambique em 1953, e muito a contragosto, só regressaram vinte anos depois. Por lá ficaram todas as suas economias.

Poderia prosseguir esta história com os relatos de familiares que saíram de suas terras, instalaram-se noutras e depois em mais outras ainda.

Portugal, é um país de emigrantes e de imigrantes. Desde sempre. O avoengo Martins vem, segundo uma crónica duvidosa de D Afonso Henriques, de um filho segundo do Languedoque que chegou à Península no séquito do conde D Henrique também filho segundo à procura de glória e, sobretudo, de terra e riqueza. A crónica refere-o como governador militar de Coimbra e testemunha do milagre de Ourique, coisa que dá um gozo enorme pois da batalha e do milagre não há nenhuma prova tangível, excepção feita do juramento do meu antepassado, de mais alguns cavaleiros e de dois ou três bispos. De todo o modo, a história de Ourique foi um dos grandes pretextos para o reassumir da independência em 1640.

A que vem tudo isto, esta história que terá seguramente vários episódios de violência contra mouros, índios e africanos, enfim contra todos quantos foram sendo metodicamente espoliados de terra e bens pelos que chegavam?

Pois, e tão só, para referir que aos olhos do presente tudo isto adquire um carácter de violência, de roubo, contra uns pobres diabos que não conseguiram defender-se.

Em boa verdade, eu deveria bater com a dextra no peito, vestir-me de burel escuro e descalço ir em busca do perdão das vítimas Não existindo estas, do perdão dos seus descendentes.

E é nisto, neste imbroglio tremendo que assentam muitas das teorias da culpa do mundo ocidental. Da culpa dos gregos que estabeleceram colónias por todo o Mediterrâneo, da culpa dos Romanos que construíram um império contra iberos, gauleses, bretões, germanos e não sei quantos mais, mesmo se uma vez conquistadas as regiões, rapidamente se assistia à romanização dos seus habitantes, à concessão da cidadania romana. E assim se tornaram imperadores Adriano ou Trajano, puros íncolas ibéricos.

Mais tarde, foram outros povos a entrar no Império, a pilhar as riquezas dos vencidos e a estabelecer-se. Isso ocorreu com is invasores húngaros, com os árabes e berberes no sul ocidental da Europa. Antes disso, judeus expulsos da Palestina, ou simplesmente emigrados daí instalaram-se em todas as zonas do Império e por aí refizeram as suas vidas, ergueram as suas sinagogas e viveram a sua fé. Não deixa de ser irónico que foi uma pequena heresia judaica que, mais tarde, conquistou o poder imperial e pouco a pouco começou a ajustar contas contra os representantes de uma fé que dera origem ao cristianismo. E por aí fora.

Em Portugal, seguindo uma moda duvidosa filha da má consciência ocidental, começou a defender-se que os cidadãos do sec. XXI tem de redimir-se dos pecados cometidos nos sec. XVI e XVII. A saber, a expulsão dos judeus, a Inquisição e a escravatura.

Ou seja, estes séculos dos quais nem sequer sabemos assim tanto, são vistos à luz da sensibilidade actual. O mesmo, aliás, se passa com a colonização, fenómeno que só é evidente a partir do sec XIX. Até lá, o Império Africano era uma tosca miragem que a crise do mapa cor de rosa evidenciou. Portugal no terceiro quartel do sec XIX controlava umas dezenas de postos nos litorais de Angola e Moçambique e pouco mais. A 50 quilómetros da costa era o sertão desconhecido onde só se atreviam negociantes, pombeiros, alguns missionários e pouco mais.

A famosa ocupação efectiva dos territórios fez-se entre o terceiro quartel do sec XIX e metade do segundo do sec XX. Eu vivi numa cidade, Nampula, que só começou a existir nos finais dos anos 30 do século passado. E mesmo assim, era apenas um posto essencialmente militar. Só passou a cidade em 1956.

Neste momento, a discussão centra-se à volta da obtenção de nacionalidade portuguesa por descendentes de sefarditas portugueses, saídos de Portugal no século XVI.

Saídos, significa expulsos ou fugidos, mesmo se em território português tenham permanecido alguns milhares de judeus. Uns porque se converteram (ou foram “convertidos”) ao catolicismo perante a ameaça de expulsão. Outro, mais ou menos escondidos em pequenas comunidades do interior (Trás os Montes e Beiras), também “convertidos”, continuaram a seguir secretamente a sua religião só reaparecendo à luz do dia nos séculos XIX e XX.

De todo o modo, os “cristãos novos” que permaneceram em Portugal nunca foram vistos com bons olhos e o Santo Ofício encarregou-se de os vigiar estreitamente, condenando todos os suspeitos a penas várias que incluíam a fogueira redentora.

A diáspora de judeus portugueses espalhou-se por Marrocos, e norte de África, Turquia, Veneza, por alguns países nórdicos, fundamentalmente a Holanda e também pelas colónias portuguesas de Cabo Verde e do Brasil. Daí terão irradiado para vários pontos das Caraíbas e para as colónias americanas.

(Neste último caso, há até um autor de policiais, Jerome Charyn que põe em cena judeus descendentes de portugueses em Nova Iorque. Resta saber se estes judeus saíram do Brasil ou da Holanda, visto Nova Iorque ter sido colónia holandesa.)

Não negando, bem pelo contrário, a violência exercida contra os judeus portugueses, há porém que tentar perceber se a lei que concedia a nacionalidade portuguesa a todo e qualquer cidadão de religião hebraica que provasse ser descendente de portugueses era, ou não, uma boa lei. Ao que parece, há agora restrições ao acesso à nacionalidade portuguesa por dois motivos: desconhecimento da língua e não residência efectiva em Portugal por um período nunca inferior a dois anos.

Quem está contra estas restrições invoca o generoso mas politicamente duvidoso principio da “reparação” pelas perseguições do século XVI. Aliás, é a mesma ideia de piedosa reparação que agora atravessa e inquina o debate sobre a escravatura.

Além disso, e ainda hoje, vi Rui Tavares no Público vir a terreiro brandindo a história da comunidade judaica portuguesa de Amsterdão que teria invocado perante o ocupante alemão, a sua pertença a Portugal.

Pelos vistos (e eu desconhecia o facto) o dr. Salazar, inquirido pelos alemães terá respondido que Portugal receberia todos os membros dessa comunidade que tivessem passaporte português. Não tinham, claro pelo que poucos terão escapado dos campos de morte.

Todavia, Rui Tavares passa por alto o facto simples de todos estes infelizes terem passaporte e nacionalidade holandeses. Não eram portugueses, mesmo se rezavam em ladino, eram holandeses. Ser holandês não é crime como ser judeu também não o é, evidentemente. A astúcia de Salazar revela uma indiferença absoluta e uma falta de piedade horrenda por parte de um católico que deveria saber qual o destino dos judeus sob a bota nazi.

E mesmo neste caso, conviria saber, e é duvidoso que alguma vez se saiba, qual o grau de conhecimento das chancelarias ocidentais sobre o Holocausto. Que houve denúncias, ninguém duvida. Vários resistentes polacos, incluindo um padre católico infiltraram-se nos campos da morte e conseguiram passar cá para fora notícias daquele inferno.

Todavia, e isso está mais que comprovado, ninguém, fora da Alemanha, sobretudo nos países aliados, tinha uma ideia segura do que, de facto, ali se passava. Ninguém. E isso foi mais que evidente com os relatos russos da descoberta de Auschwitz ou com idênticos relatórios dos exércitos americanos ue chegaram a Dachau.

Por muito que se suspeite dos cidadãos vulgares alemães que não podiam ignorar as campanhas contra os seus judeus, tanto mais que ou participaram activamente nelas, ou as aceitaram sem um protesto, também neste domínio é possível conceder que uma percentagem maior ou menor (menor, seguramente) de alemães não tivesse uma noção exacta do que acontecia na gigantesca rede de campos de concentração, mormente nos de extermínio cuidadosamente afastados quase todos senão todos, do solo alemão.

Há centenas de filmagens de multidões alemãs a desfilar pelos campos onde jaziam entre mortos, milhares de mortos-vivos. É possível ver que muitas dessas testemunhas forçadas pelos soldados americanos mostravam surpresa, espanto, vergonha.

Vivi por uns meses no sul da Baviera, e por várias vezes nas minhas conversas com nativos o tema veio à baila. Quarenta anos depois, em pessoas da minha idade ou mais velhas o sentimento de culpa era palpável. Aos da minha idade ou pouco mais velhos eu tentava dizer que não poderiam ser culpados não só por não terem contribuído para a ascensão do nazismo mas sobretudo por serem crianças ou jovens quando aquela orgia de horrores se desencadeou.

Nada disto melhora a imagem de Salazar mas também nada disto pode ser assacado à imagem de Portugal que recebeu e acarinhou, já aqui o disse, milhares de refugiados judeus que conseguiram chegar cá. Sem querer desmerecer a imagem do digno cônsul de Bordeus, devo também acrescentar que houve mais, bastantes mais portugueses, incluindo diplomatas (como no caso da Hungria) que conseguiram auxiliar judeus em fuga.

Antes da guerra, houve vários países que fecharam as suas fronteiras aos judeus que mais depressa perceberam o que aí vinha. Aos judeus e aos anti-fascistas alemães. A própria URSS entregou a Hitler refugiados judeus e anti-fascistas. E, mesmo depois da guerra, não foi nada fácil a muitos judeus sobreviventes alcançarem um porto de abrigo seguro, especialmente Israel (caso Exodus).

Faço parte, como acima assinalei de uma família rica em emigrantes e imigrantes. Sou absolutamente favorável a que se recebam todos quantos queiram viver e trabalhar em Portugal. Por todas as razões e por mais esta: precisamos de gente. E a prova está aí: há milhares de emigrantes recentes que são verdadeiros casos de sucesso por cá.

No entanto, apesar de considerar que qualquer descendente de emigrante pode adquirir a nacionalidade portuguesa, inclino-me para uma solução que permita a esse eventual futuro cidadão poder escolher a sua nacionalidade uma vez completados os 18 anos. Até essa altura deverá ser tratado como português. A partir daí deverá escolher definitivamente se quer ou não continuar português. Há por essa Europa fora, demasiados exemplos de cidadãos que não se reveem no país que acolheu os seus pais e os educou.

Ninguém devia ser obrigado a ser português, nem mesmo os portugueses filhos e netos de portugueses.

Isto traz outra implicação: quem quer a nacionalidade portuguesa deveria querer viver em Portugal e não apenas ter um passaporte que lhe dá entrada na União Europeia. Também não me repugna a ideia de, pelo menos, perceber português.

O domínio da língua é quase sempre exigido nos países que atraem emigrantes. E não só da língua mas também o conhecimento das instituições e sobretudo da Constituição.

Tavares brande um argumento pobre, mesmo se. À luz das actuais circunstâncias políticas tenha alguma consistência. Refere a Turquia, um dos lugares que os prófugos sefarditas escolheram. Tavares, que como eu –e nunca mais do que eu- não aprecia o regime turco actual, deixa subentendido que um judeu turco poderá pensar que a nacionalidade portuguesa pode ser um seguro de vida no caso da situação turca se tornar ainda mais ofensiva das liberdades e direitos civis e políticos. O argumento não colhe, dá uma ideia de calculismo político e hipócrita ao pedido de nacionalidade e, como ele Tavares sabe, o simples facto de ser refugiado tem sido suficiente para Portugal abrir as portas a quem nelas bate.

Um punhado de personalidades respeitáveis já veio a terreiro contestar as eventuais limitações a lei da nacionalidade para descendentes de judeus expulso há cinco séculos. Lá terão as suas razões e o seu sentimento ancestral de culpa mas em boa verdade, mesmo se não há uma multidão de requerentes judeus (serão na melhor das hipóteses entre vinte cinco e quarenta mil) alguma regra terá de existir para conceder a nacionalidade.

A mesma que foi mortalmente negada a um pobre cidadão ucraniano, pai de filhos menores, que queria trabalhar cá. Abateram-no depois de durante horas o terem brutalizado. As eminentes personalidades de que acima falei poderiam, já agora, ter-se pronunciado sobre isto. Aqui não se negou a nacionalidade, mas apenas a possibilidade de trabalhar, de sustentar os seus, de estar fora de um país onde a guerra larvar mata a cada dia. Negou-se a vida!, caros senhores. Assassinou-se cobardemente um pobre homem que não ameaçava ninguém, que raios!

(Escrito em Portugal onde vieram morrer em paz e na segurança possível vários combatentes independentistas das colónias portuguesas que se opuseram de armas na mão ao exército português durante a guerra colonial. Fugiram do país por que arriscaram a vida e morreram tranquilamente noutro que combateram.

Conheci vários, fui amigo de alguns, estive solidário com eles naqueles anos difíceis. Vi-os regressar desiludidos, humilhados, ameaçados. Pelos vistos, tiveram a sorte de além da do país por que tinham combatido conservavam a nacionalidade portuguesa. É nestes momentos de generoso olvido da história pregressa desses homens que me sinto mais português. E orgulhoso, raios me partam. Orgulhoso!

 

O drama dos judeus sob a bota nazi suscitou alguns grandes livros. É o momento de lembrar um de Joseph Roth, “crónica berlinesa” (não conheço edição portuguesa) em que o autor, judeu austríaco junta uma série de artigos sobre Berlin nos anos 20. Alguns retratam a chegada em força de judeus vindos do Leste e que querem continuar para longe da Europa. Algum do sentimento anti-judeu poderá ter origem no choque cultural entre estes pobres refugiados dos shetl da Europa central e os berlinenses habituados a judeus cultos.

Outro autor, desta feita, alemão e católico, Erich Maria Remarque, que se tornou famoso pelo grande livro “A oeste nada de novo”, e que fez parte dos escritores perseguidos pelo 3º Reich (que lhe queimou as obras) e que mais tarde escreveu sobre o drama dos judeus e os campos de concentração obras notáveis que ainda estão em venda (wook) “A Centelha da Vida”, o Arco do Triunfo”, ou “O Obelisco Negro”. Eram livros de casa dos meus pais que li espantado e comovido, que me marcaram para sempre e que obviamente tenho nas estantes.

De Roth, Joseph, é também imperdível “A Marcha Radetzky”.

A vinheta: Chaim Soutine, “casas em Ceret”, 1920. Soutine vinha de uma família de judeus ortodoxos da Lituânia. Morreu em 1943, durante uma operação a uma úlcera provocada quase certamente pelo medo de ser denunciado aos ocupantes alemães da França Sobre ele há páginas excelentes no livro de Dan Franck, Le Temps des bohémes, Grasset,2015

 

21
Mai20

estes dias que passam 399

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada sexagésima quarta-feira

Mijar fora do penico

mcr, 21 de Maio

 

 

Se algum(a) leitor(a) se sentir incomodado com o plebeísmo do título advirto que mijar e penico fazem parte de um português saudável que a correcção política em adiantado estado de progressão não conseguirá, se todos quisermos, ganhar esta “duvidosa batalha” em curso que tem outra vertente ainda mais salafrária: a do acordo ortográfico, uma invenção imbecil de meia dúzia de linguistas que se julgavam senhores da língua sem sequer a perceberem e muito menos anteciparem o repúdio quer de brasileiros e africanos (uns porque assinando não o respeitam, outros porque nem sequer assinaram) bem como dos portugueses que ainda escrevem.

A assembleia da república” também finge que não é com ela mesmo se esse assobiar para o lado esconda uma cobardia sem limites perante o que eles pensam poder ser alvo de retaliação do outro lado do mar. Em boa verdade 90% dos deputados nem sequer percebe o que está em jogo. Basta ouvi-los falar, já para não referir a paupérrima escrita que, de longe em longe, ousam.

Há dias houve um qualquer “dia da língua portuguesa” (agora há dias para tudo, de tal modo que já não chegam os 365 de cada ano) que deu pretexto a uma redacção de terceira classe da antiga escola primária assinada por quatro luminárias ministeriais.

Ler aquilo, aquela “coisa em forma de assim” (ai O’ Neil se tu te apanhasses com aquele naco de prosa quanto não te ririas!...), é um exercício de auto-flagelação apropriado para quem carrega farta dose de pecados e quer, por penitência, apagar aqueles estropícios.

Deixemos, porém, este tristonho espectáculo de malabarismo político de circo de províncias, para explicar que o título me foi sugerido pelo Nuno Maria que agora, alcançados os dois anos e meio, entendeu começar a celebrar o Verão que aí vem com sessões de strip tease. Depois, com as vergonhas à mostra, continua a brincar e esquece-se que já não traz fralda e, pimba!, mija fora do penico.

Esta façanha que não chega a ser escatológica foi-nos reportada pela D Cidália, empregada da Ana e um pouco nossa que tem pelo petiz uma afeição sem limites.

Mas o que se permite, a um menino que, aliás, apenas repetiu a famosa façanha da recepção que os habitantes de Prato fizeram a um pobre rei francês, Carlos VIII, virando-lhe as costas e desatando a urinar. O franciú teve, de todo o modo uma resposta de génio. Saltou do cavalo, juntou-se aos manifestantes hostis e mijou com eles. Contam que, na ocasião disse “le peuple de cette ville pissoit par necessité et non par politique”. Esta historieta é contada em “malditos toscanos” de Curzio Malaparte, um escritor extraordinário com uma vida ainda mais extraordinária (começou por apoiar os fascistas e acabou inimigo deles e proibido. Quando morreu legou a sua fabulosa casa em Capri à jovem república comunista chinesa!).

Todavia, nem sempre a mijinha fora do penico, significa sã rebeldia, audácia crítica, desconformidade com a rotina.

Entre nós, há políticos que não resistem a tal, por boas ou más razões. Por exemplo: António Costa que agora está de praticante esforçado de Maquiavel. Entendeu o Primeiro Ministro, colar-se a Marcello e propor com muito pouca subtileza o apoio do PS à recandidatura do 4º pastorinho (o dos afectos e das selfies) à Presidência da República.

Vejamos, Marcello que andou vinte anos a fazer campanha por si próprio, logo que chegou a Belém começou a campanha da reeleição. Astuto como poucos mais inteligente do que a maioria, percebeu à falta de pane et circenses poderia mais economicamente seduzir as massas com beijinhos, abraços e selfies. E muita e aparente humildade.

Também não poupou apoios ao Governo tanto mais que isso lhe daria, e deu!, base para criticar e ultrapassar o seu papel próprio e as competências do seu cargo.

Costa, que não nasceu ontem, que também usou, tanto quanto podia, a televisão, mormente enquanto interveniente na tertúlia da “quadratura do círculo”, percebeu que a colagem a Marcello (um ex-líder sem glória, nem obra, do PPD) poderia render.

Claro que isto causou “arruído”. Primeiro, embaraçou o dr. Rui Rio que estava justamente a colher os primeiros saborosos frutos da sua liderança actual. Rio, durante os últimos meses, não só ganhou e bem o partido, como reduziu a oposição interna à insignificância (alguém os viu, ouviu, deu por eles durante estes últimos meses? Algum jornalista se lembrou de os entrevistar, de registar para memória futura, uma proposta, uma simples frase fosse sobre o que fosse?) mas também fez jus ao elogio dos media que, por várias vezes, o alcandoraram a figura da semana. Pelo comedimento, pelo apoio aos esforços para combater a pandemia, enfim pela tentativa de se autonomizar quer à direita quer à esquerda.

É óbvio que, no caso mais que previsível de Marcello se recandidatar, só os mais ouados é que se lembrariam de concorrer contra ele. E nesse capítulo só há a vaga garantia de um candidato do PC que, aliás, apenas estará em liça para tentar travar a terrível erosão política do partido. Nem sequer há grandes apostas num candidato do BE. No PS alguém, pouco inspirado, lembrou Ana Gomes mas esta na altura adoptou uma pose defensiva e recatada que prenunciava uma não aceitação.

No entanto, com o apoio de Costa, a destempo e descarado, eis que no PS se erguem as vozes habituais por um candidato próprio. Não se vislumbra quem pelo que, com o apoio de alguns barões pode ser que a dr.ª Gomes se chegue à frente.

O candidato natural do PSD seria sempre Marcello. Não que os sociais-democratas gostem da criatura mas ela é incontornável. E militante do partido ao que se sabe. Eu que não dou nem nunca dei para esse peditório, diria que o “professor” é militante dele próprio mas sou suspeito Provavelmente, a direcção de Rio pensará o mesmo. Só que nunca poderá dizê-lo.

É aguentar e cara alegre.

A intrusão de Costa perturbou este casamento duvidoso. Apoiar o mesmo candidato? Fazer o “bloco central” tendo como “pedra formosa” o actul inquilino de Belém? E depois quem é que o controla. É que Marcello, desenganem-se os mais crédulos, tem fome e sede de poder. De influenciar. De se imiscuir.

A “aliança liberal” bem que o intuiu e já deita contas à vida. Diz-se que estará a preparar o lançamento de uma jovem ex-estrela do CDS, Adolfo Mesquita Nunes, um político brilhante, jovem que actualmente está de licença sabática no mundo dos negócios.

A pergunta é: estará AMN pelos ajustes? Terá a sua candidatura um apoio do seu partido? Conseguirá entrar no eleitorado do PSD? Ou, finalmente, mesmo tendo em linha de conta que não vencerá Rebelo de Sousa: conseguirá um “resultado honroso”?

Há uma teoria que não conheço que afirma que o bater de asas de uma borboleta lá nos confins do hemisfério sul poderá provocar um cataclismo nestas nossas paragens. É assim?

De todo o modo eis ao que me levou o xixi inocente do Nuno Maria que provavelmente estará farto do confinamento, logo ele que gostava do seu colégio e dos seus amiguinhos, a quem ele chamava os bebés.

O desconfinamento rastejante anda a puxar-me para a política. De certo modo é um sinal de que a vida, alguma vida, recomeça. Ainda por cima estamos em plena Primavera, estação muito adequada a isto.

Já se pode falar de outras coisas, como ontem percebi ouvindo uns energúmenos a gritar desalmadamente as suas verdades futeboleiras. Ei-los que voltam...

Mais acima, falei de Malaparte, Aí está um autor a ler com urgência. “Kaput”, “A Pele”, “Técnica do Golpe de Estado” (que a exemplo de outros regimes, o “nosso” Estado Novo proibiu) ou um curiosíssimo ensaio biográfico de Lenin de que só conheço a edição francesa (L bonhomme Lenine, Grasset). Se alguém conseguiu dar uma visão de primeira mão sobre a 2ª guerra, Malaparte é um deles e dos melhores.

* a vinheta : casa Malaparte, final dos anos trinta.

 

Nota: três leitores (Morais Diz, J Pereira e António), abençoados sejam, apanharam-me em flagrante delírio: Eu afirmei, e por duas vezes!, que a povoação de Gala (Figueira da Foz) estava na margem direita do rio. Burrice absoluta. 

Está, como muito bem repontam eles, na margem esquerda. Eu, ainda por cima, sou canhoto!...Obrigado, geógrafos amigos!

20
Mai20

estes dias que passam 397, adenda

d'oliveira

 

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conversa com um leitor amável e curioso

Um leitor atento perguntou-me se o desembarque de Wellington na Figueira não ocorreu na costa de Lavos. 

Pelos vistos, não. O desembarque ter-se-á dado na zona do Cabedelo, lugar de Gala, do  lado direito do rio. Depois a esquadra entrou no rio Mondego como se vê por esta gravura de época com o título "the landing of british army at Mondego bay". 

Na gravura (nesta muito pouco) vê-se à esquerda o forte de Santa Catarina e em frente o Paço com a su cúpula e mais atrás a torre da Igreja de S Julião, orago da freguesi urbana da Figueira da Foz. 

Eu bem que tentei aumentar a fotografia, coisa que saía muito bem nos meus ensaios e muito mal na transposição para o blog. 

De todo o modo, toda a costa sul da Figueira, margem direita do Mondego, tem o nome genérico de Costa de Lavos que, aliás, é uma freguesia (e chegou a ser concelho e vila) do concelho da Figueira. 

Por outro lado, a Figueira da Foz encontrava-se libertada da guarnição francesa desde 27 de Junho, data da rendição da guarnição do forte de Santa Catarina ao Académico Zagalo, comandante de um batalhão formado em Coimbra, a mando do Reitor da Universidade e que no caminho para o litoral foi engrossado por mais de 3.000 populares armados de tudo o que tinham.

Nada, pois, impedia a entrada da esquadra que chegou a 30 de Julho.

Terão desembarcado os primeiros batalhões na costa do cabedelo provavelmente por a maré não permitir a entrada na barra, sempre dificil. É até possível que alguns soldados tenham desembarcado mais perto de Lavos. Com mar chão toda a costa é acessível e, dado o ambiente popular na região até poderá ter acontecido que barcos de pescadores tenham chegado aos navios para transportar soldados para terra.

Mas depois os barcos entraram no rio como a gravura demonstra.  Porém, também é  verdade que, em Lavos, existe uma casa onde Wellington terá pernoitado e que a Junta de freguesia adquiriu ou pretende adquirir.

A gravura que cito tenho-a na versão fac-similada (65 x 50 cm) e é da autoria de H L'Eveque. 

É possível encontrá-la na internet, fiz a experiencia e não foi dificil dar com ela. 

Caro leitor, muito obrigado pela sua intervenção que me obrigou a pesquisar. Receba um abraço cordial e grato do escriba que se subscreve, mcr