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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Abr19

Au bonheur des dames 481

d'oliveira

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50 anos depois

mcr 16-Abril-2019

 

Cinquenta anos é muito, muito,  tempo. Noutras épocas implicava, quase de certeza, um longo cortejo de mortos piedosamente recordados ou nem isso.

Agora, que a esperança de vida aumentou, com o seu cortejo de ameaças (o ahlzeimer e tudo o resto, o trágico resto) cinquenta anos foi ontem, há sobreviventes em quantidade apreciável o que não diminui ausências dolorosas e injustas (o António Mendes de Abreu, o Fred Fernandes Martins, o João Bilhau, a Fernanda da Bernarda, o “Vává” Sarmento e Castro, o Alfredo Soveral Martins entre muitos mais, por exemplo o Zé Gomes Bandeira...).

Amanhã, no edifício das Matemáticas, acorrerão alguns e num mágico par de horas serão de novo jovens, ardentes, com um feroz e animoso sentido de justiça e uma intensa vontade de ser livres.

Já, aqui, o disse, e repito: a crise académica de 1969 foi a única grande movimentação estudantil que teve no imediato (ou quase) ganho de causa: o ministro da Educação caiu, caiu o Reitor da Universidade, foram arquivados mais de cem processos abertos contra estudantes detidos entre Junho e Novembro de 1969, foram arquivados todos os processos disciplinares contra estudantes grevistas, regressaram de Mafra todos quantos pela sua participação tinham sido sumariamente incorporados na tropa, a AAC não foi encerrada e houve épocas speciais de exames para quem tinha cumprido a greve.

O regime político não caiu, antes arrastou-se penosamente durante mais quase cinco anos. Também não era esse o objectivo dos estudantes de Coimbra que enfrentaram, praticamente sozinhos, durante meses, a repressão académica, política, militar e policial. Também é verdade que a “agitação” estudantil não desapareceu, bem pelo contrário: As prisões de dezenas de estudantes, em Janeiro de 1971 são prova vidente da existência de “réplicas” ao grande terramoto de 1969.

 (sou disso, sem alegria mas sem arrependimento, testemunha: fui preso em Fins de Setembro de 69, penei um par de meses nos cárceres privativos da Polícia Judiciária – creio que bati o recorde de tempo de prisão  aplicada aos que foram detidos, partilhando com o João Bilhau e o Orlando Leonardo a duvidosa glória de sermos os últimos presos. De facto andámos fugidos durante dois ou três meses. Em 71, voltei a ser caçado desta feita pela PIDE que me hospedou em Caxias por uns meses numa cela com vista para o rio e para um trecho de auto-estrada ou algo semelhante onde me divertia a contar os carros fazendo um campeonato ente os que desciam e os que subiam. Na cadeia vale tudo!)

Todavia, amanhã, não estarei com os meus antigos amigos, colegas e companheiros e devo-lhes, por isso, uma explicação. Ei-la:

Depois de formado, rumei à terra onde vivo, estabelecendo-me como advogado. Nesses anos de brasa, pré 25 A ganhei uma clientela extensa de rapaziada que “mijava fora do penico” e que, por isso, estava sempre com o coração aos saltos que a polícia (política) não fazia greve sequer de zelo.

Quando o novo poder democrático se instalou, foi-me pedido que desempenhasse por tempo limitado o cargo de Presidente de uma Instituição Pública. Aquilo que deveria durar alguns meses, arrastou-se por sete (muito felizes) anos. Como sou canhoto de pata, de coração e torto de teimosia. Rapidamente tive alguns poucos conflitos com a gentinha ministerial. Durante o primeiro desses “encontrões” uma dúzia de altos funcionários meus subordinados, entendeu solidarizar-se e aproveitaram o dia do meu aniversário para me convidarem. Desde essa altura que, todos os anos (e já lá vão quarenta e cinco) há um almoço pago por eles e u queijo da Serra como prenda.

Há já uns anos, resolvi corresponder a tal gentileza, e comecei a convidar o grupo para uma sessão de lampreia. Com o decurso dos anos o grupo de bons, excelentes amigos, tem começado a encolher significativamente. Há umas semanas lá se foi mais um justamente nas vésperas da lampreia que foi adiada. Adiada para (são os meus convidados que escolhem a data) para justamente amanhã. Entre dois deveres de amizade não poderia deixar de dar prioridade aos mais velhos que tanto me ajudaram com a sua competência, saber e diligência.

Partilhei com os meus amigos de juventude valores únicos de liberdade e solidariedade de que me orgulho e não esqueço. Com estes mais recentes, (enfim com estes, encontrados nos anos setenta e cinco e seguintes, descobri o prazer de fazer bem as coisas, de trabalhar para a comunidade, de chegar ao fim do dia com a sensação de ter ganho um ordenado e o respeito dos utentes dos serviços que dirigia.

Acho que isto define, razoavelmente, uma longa carreira cívica e política. A todos eles estou grato. De todos recordo o empenhamento e a amizade.

Eis pois a razão de, mesmo ausente, me sentir presente amanhã quando a malta se começar a juntar nas Matemáticas, ao alto das “escadas monumentais”

Ao Rui Namorado e ao Luís Januário, amigos certos e antigos que me convocaram, um abraço. Está justificada a falta?

E a uma leitora e amiga desde o princípio dos anos sessenta que esteve presente e corajosa na crise de 62, um beijo: há um Xenofonte à tua espera Maria A...   

*a gravura: correndo o risco de parecer imodesto, entendi publicar esta fotografia datada de 28 de Maio de 1969, dia em que uma gigantesca Assembleia Magna votou por incalculável maioria a greve aos exames. Fui dos primeiros oradores dessa assembleiae, eventualmente, terei sido o primeiro a defender a ideia de greve. Repito: eventualmente. Na mesa, algo caótica, estão o Gil, eu, o Décio de Sousa e o Silva Pinto. Saravah, companheiros! 

Aproveito este momento para recordar mais dois grandes amigos, entretanto, mortos: o João Amaral e o Zé Barros Moura.  Como não podia deixar de ser, estavam lá, activos, corajosos e entusiastas.

Creio que esta fotografia esteve durante estes 50 anos inédita. Acho que o seu autor se chamava Fraga, estudante de Direito e mais tarde juiz que se envolveu em conflitos vários com o CSM. Onde quer que esteja, um abraço e a minha total solidariedade. 

 

 

16
Abr19

estes dias que passam 392

d'oliveira

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Esmeralda e Quasimodo choram a sua catedral coberta de cinzas.

E eu, leitor de Hugo (e de tantos outros), parisiense de Buarcos choro com eles.

Esta igreja já ardeu uma vez. Foi alvo de tratos de polé durante as revoluções. Foi reconstruída com acrescentos (a flecha) e assiste desde há oitocentos anos ao grande teatro do mundo.

Se todos quisermos, regressará outra vez mais tão bela e tão nossa como sempre.

13
Abr19

Diário Político 215

d'oliveira

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O gato escondido com o rabo de fora

d'Oliveira fecit (12/13 de Abril)

 

O dr Centeno, excelso Ministro das Finanças, resolveu dizer ao Financial Times o que não diz aos jornais portugueses. Presumo que ele é mais fluente em inglês do que na pátria língua, coisa que, aliás, já me tinha ocorrido pois, sempre que o ouvia. Notava-lhe alguma dificuldade de expressão.

Em poucas palavras, afirmou que entre a política económica e financeira do anterior Governo e a do actual não houve mudanças dramáticas. Deu-se com uma mão o que se retirou com outra (impostos indirectos, por exemplo).

A riqueza líquida do indigenato local apenas aumentou na medida (e nem sequer na exacta medida) em que aumentou a do resto da Europa.

Nem podia ser de outra maneira, mesmo se o país contou com um Banco Europeu complacente e generoso, com o incremento (importante) das exportações e com o maná turístico.

(e não se refere a baixa do investimento público e a pouca atractividade denotada pelo investimento estrangeiro e, muito menos, a política de cativações que redundou num espinhoso problema no capítulo da saúde, por exemplo).

As razões desta súbita “autocrítica” de Centeno prendem-se com algum “arrefecimento” generalizado da economia europeia e nacional, com a impossibilidade de resolver os problemas salariais de certos, bastantes, corpos da função pública (professores, militares, médicos e enfermeiros etc.) como parecia deduzir-se do programa de governo e, sobretudo, do que a “geringonça” poderia pressupor. Por isso, num último momento, viu-se o pobre diabo do Planeamento e Infra-estruturas avançar com salvas de pólvora seca sobre faraónicos projectos públicos que tinham a vantagem de ser sempre futuros, muito futuros. De todo o modo, as promessas estavam feitas e o Governo que depois viesse teria de se entender com os portugueses. Isto se não se apostasse na proverbial memória curta dos eleitores cuja utilidade (escassa) é servirem de carne para canhão em épocas eleiçoeiras. Quando as coisas acalmarem, na hipótese provável de um novo Governo capitaneado pelo PS, o sr. Pedro Marques estará longe, em Bruxelas.

Não se nega a Centeno as qualidades que tem e não serão poucas. E são elas, justamente, o que fundamenta a sua cautelosa navegação sempre à vista da costa. Pessoalmente, acho que teve uma cedência infeliz: permitiu que o IVA sobre a restauração fosse revertido. Conviria lembrar duas coisas (e ambas previsíveis no momento em que a medida foi levada a cabo): as empresas não baixaram os preços mesmo quando o IVA baixou (recorde-se que quando ele foi instaurado, praticamente todos os restauradores aumentaram consequentemente os preços); depois, é bom lembrar que num país onde o turismo externo crescia exponencialmente a medida foi apenas (ou sobretudo) boa para os visitantes estrangeiros. É duvidoso que a plebe nacional tenha sofrido especialmente com o agravamento e mais duvidoso ainda que do alegado e inexistente desagravamento, tivesse obtido algum benefício.

Sei que o sr. professor doutor Cavaco Silva se referiu a este ponto mas isso não me impede de o usar. De resto, não sei se o dinheiro que se perdeu absorveria parte do desastre na Saúde. De todo o modo, quem ganhou com esta medida foram de certeza os turistas e todos os que sempre puderam dar-se ao luxo de frequentar restaurantes. A minha diligente empregada doméstica (que aliás ganha bem mais do que o salário mínimo) seguramente que não foi a correr empanturrar-se nalgum mesmo pequeno restaurante.

A Oposição bem que bramia, do poço fundo para onde foi atirada, que a austeridade continuava. Mas, em Portugal, já o disse repetidas vezes, as oposições nunca são ouvidas seja qual for o Governo em funções. Por cá as oposições são sempre más, malignas, moscovitas ou serventuárias do mais infrene capitalismo, fascistas até. Ser da oposição não é uma sina mas tão só um traço de carácter. Eu ainda sou do tempo da “Outra Senhora”, dita a “oposicrática”, e recordo com desprazer não só as bastonadas que recebi nos magros e juvenis ombros mas sobretudo o desprezo a que eram votadas todas as opiniões que não respeitavam o Estado Novo.

O 25 de Abril não mudou uma vírgula neste capítulo, basta ver e ouvir o que os partidos dizem dos adversários, o uso imoderado de expressões como ética republicana, povo, democracia e reacção. A reacção é como a Hidra de Lerna, mas como já não aparece nenhum Hércules, continua a pavonear-se por aí como sustenta o PC que mantem, sem originalidade mas convictamente, que existe na pátria uma conspiração sem fim contra as políticas “patrióticas e de esquerda” e contra o povo que o PC entende representar sozinho (mesmo se esse povo, eventualmente ingrato, só lhe conceda 10% dos votos). A Direita (bicho de que todos fogem e ninguém assume) acaba nas franjas pouco edificantes de um par de grupúsculos que detestam imigrantes, sobretudo os mais escuros, homossexuais (de todos os tipos) e democratas. Além disso, juntamente com alguma alegada Esquerda, não gostam da Europa, do euro e são férreos defensores da “soberania nacional”, esdrúxula ideia que o PC (esquecido da célebre “soberania limitada” propagandeada por Brejnev e respeitada pelo dr Cunhal, que reduzia os países “socialistas” e os seus partidos únicos e dirigentes a uma extensão desinteressante da URSS).  

O dr. Centeno fez que sim com uma mão enquanto com a outra ia cortando eito e forte e feio. Agora, perto da hora da verdade, incapaz de pagar todas as promessas de bacalhau a pataco, veio friamente lembrar que o dinheiro não é elástico e que a mais elementar prudência obriga a dizer não. A entrevista no jornal estrangeiro serviu para avisar os mercados internacionais que isto por cá não anda sem rei nem roque. E que podem, apesar de tudo, confiar no actual Governo que poderia parecer vermelho por fora mas que é verde, verdinho, por dentro. Os protestos dos aliados na Geringonça serão sempre tomados por mera campanha eleitoral. Aliás, diga Costa o que disser, se necessário fosse, havia sempre a hipótese de “geringonciar” à direita. O “centrão”, ou o que lhe quiserem chamar, está ali para as curvas, sobretudo depois de quatro anos de amargo jejum e abstinência.

O dr Centeno foi saudado por Schauble o temível ministro das finanças alemão que o apelidou de Cristiano Ronaldo. O elogio não era fingido, como se vê. Nem fingidos foram os votos para a presidência do Euro-Grupo, mesmo sabendo-se que a grande maioria dos eleitores vinha do campo conservador. Estes cavalheiros (como o dr Cavaco Silva em seu tempo) nunca se enganam. E promover um ministro de um pequeno e periférico país (como também já ocorrera com a eleição de Durão Barroso...) evita problemas entre os restantes. Centeno era, é, um excelente menor denominador comum e mínimo divisor também comum. Com a obrigatoriedade de ter, como Janus, duas caras: a europeia e a nacional, nossa.

As boas almas do costume rejubilaram com a eleição de Centeno. Que bom, que agora sim, que já nos respeitam por esse mundo fora que voltaram os heróis do mar e outras banalidades do mesmo teor .

Houve mesmo quem adivinhasse um futuro brilhante para a pátria tristonha e benefícios a granel para Portugal. A iliteracia política, entre nós, não tem limites ou, se os tem, alguém se encarrega cuidadosamente de os obliterar.

 

Apêndice que não tem nada a ver com o antecedente: os líderes europeus deram à sr.ª May alguns meses para ele sair do beco sem saída em que se meteu. Ela e o parlamento inglês, diga-se... Há porém alguns pequenos escolhos. O primeiro diz respeito à data das eleições europeias. Nessa altura ou os britânicos vão a votos ou saem de todo. Se forem a votos, os deputados que elegerem poderão causar vasto sarilho no Parlamento Europeu. Por outro lado, os “brexiters” uivarão à simples menção de votar para um aboinávl parlamento que não querem. Finalmente, alguém credita que emOutubro (já com votos e tudo) alguma coisa diferente poderá suceder?

A pobre sr.ª May aguentou estoicamente e sozinha seis longas horas numa sala enquanto os 27 estatuíam sobre o seu pedido. Pior do que isto só o blitzkrieg!

Por cá há comentadores que enchem a boca com a “mais velha aliança europeia ou do mundo”. Temos pago essa aliança bem duramente e sempre al contado. E estamos a pagar, todos, este folhetim desde há meses. Estão em jogo a permanência e o empregos de 400.000 emigrantes portugueses lá e de 40.000 reformados ingleses cá e, por muitos planos de contingência que se desenhem ninguém garante quer para uns quer para outros uma solução razoável e digna.  

 

Nota: este texto está pronto desde ontem mas razões fúteis ealguma preguiça só o trazem à dvidosa luz destedia mais que cinzento hoje. Entretanto, um comentador do Público produz algo com algumas semelhanças neste sábado. Não me copiou, claro e muito menos eu o copiei. Coincidimos, apesar de claras divergências ideológicas, numa mesma conclusão. Centeno tem a língua bífida!

11
Abr19

Au bonheur des dames 480

d'oliveira

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As políticas familiares e as famílias políticas

mcr,  11-4-19

 

Alguém que, simpaticamente, me vai aturando e lendo, espantou-se com uma referencia ao dr. Mário Soares a propósito das ligações familiares no Governo.

Sem querer censurar tão excelente como exigente leitora, aclaro melhor a minha nota antiga.

O dr. Mário Soares teve, no seu 9º Governo constitucional, como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, o dr Alfredo Barroso seu sobrinho (por parte de sua mulher, Maria(de Jesus) Barroso.

E não se ficou por aqui. Mais tarde já Presidente da República, nomeou o mesmíssimo dr. Barroso Chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Não me dei ao trabalho de escrutinar mais os governos e as presidências soaristas. Para o meu ponto, bastavam estes dois flagrantes (pela importância dos cargos e pela proximidade) exemplos.

Conviria, porém, relembrar que os anos 70, 80 e 90 do século passado, não são exactamente os anos 10-20 deste.

Na época, era comum, cá e lá fora, nos parlamentos, nos governos e nas instituições europeias (sobretudo no parlamento) associar familiares quer como adjuntos, consultores ou chefes de gabinete. .

O mundo muda, as regras (felizmente) também mudam, precisam-se, tornam-se menos permissivas e o que era normal numa época passa a ser bizarro depois e acaba por se tornar inaceitável.

Não são precisos expedientes jurídicos, mesmo se, no caso francês, se tenha chegado, já com Macron, a uma lei que proíbe e pune (com multa e até prisão) as nomeações de familiares.

Lembraria, para os profanos, que as leis são, muitas vezes, a expressão das ideias tornadas comuns entre a opinião pública. Legisla-se, menos para prevenir, mas apenas para tornar firme uma prática já aceite pela maioria da sociedade.

Por outras palavras: o que nos tempos dos drs Soares e Cavaco não causava espanto nem especial condenação, passou, decorridos que foram vinte/trinta anos, em algo que perturba a opinião pública, desacredita as instituições e pode pôr em causa a actual noção de transparência.

Por exemplo: mesmo no caso dos Estados Unidos, a pouco recomendável figura de Donald Trump usou o expediente de nomear filha e genro mas “pro bono”, isto é, sem os remunerar. Subjacente a este truque está a ideia de que estes parentes próximos do Presidente não sobrecarregam os contribuintes.

É claro que na teoria isso é verdade, todavia o circulo de conhecimentos que qualquer deles ganha com a sua situação gerará, no futuro próximo, lucros políticos e, eventualmente económicos, dignos de nota.

Talvez já ninguém recorde o caso dos irmãos Kennedy, um Presidente e outro procurador geral (attorney general) na mesma Administração.

Na Europa tivemos o caso de dois gémeos polacos (Lech e Jroslav Kackzinsky, respectivamente Presidente da República e Primeiro Ministro) e em certos países da América Latina marido e mulher (caso da Nicarágua) desempenham cargos políticos próximos. Isto para não referir as situações em que um dos cônjuges sucede ao outro (A Argentina, por exemplo) ou há famílias que se perpetuam no poder (a Índia dos Nehru ou o Paquistão). O caso extremo é o da Coreia do Norte mas há antecedentes (na China Mao teve uma mulher, Jiang Ching com imenso poder político, na Roménia o casal Ceausescu partilhou o poder (e a morte) como também na Albânia com os esposos Hodja. (Enver e Nexmidje). Em Cuba, os irmãos Castro ocuparam os principais lugares de responsabilidade política tendo Raul sucedido a Fidel. (O que significa que a “esquerda” ou quem se pinta como tal não está de nenhum modo inocente nesta história. Com a agravante de enunciar constantemente exactamente o contrário do espírito dinástico e familiar que caracterizou uma boa parte das direcções políticas e dos comités centrais dos países “socialistas”.

A lista acima citada não é exaustiva, longe disso e apenas se menciona par provar que a confusão entre família e poder político não acontece apenas nas democracias liberais e capitalistas. Aliás há uma diferença: no Ocidente a crítica ainda é possível. Nos regimes ditos “socialistas” isso pagava-se e paga-se ( no que resta) duramente.

Uma segunda questão que se prende com a actual é que deriva da esfarrapada tentativa de desculpar o que actualmente se passa com casos anteriores (no caso bastante anteriores). Os erros de hoje não se apagam com os de ontem ou anteontem sobretudo se ontem (ou anteontem) não havia uma consciência tão sensível como a que agora condena este conúbio de interesses familiares e políticos.

Todavia, nesta história das relações familiares, cheia de som e de fúria, convém observar que uma coisa é a nomeação discricionária de alguém e outra a eleição de familiares para cargos públicos. Mesmo num sistema tão imperfeito quanto o português em que os deputados são eleitos aos molhos, há algum escrutínio popular. Pouco, quase irrelevante, mas existe.

Daí não deverem ser considerados, por medíocres e tolos, alguns argumentos brandidos por segundas linhas do PS quando referem pessoas eleitas de outros partidos que teriam relações familiares com membros do Governo.

Outro argumento usado foi o da qualidade das pessoas nomeadas para gabinetes, instituições públicas dependentes do Governo e outras semelhantes. No limite, o que se pretendia dizer era que o escrutínio público severo afastaria gente competente e premiaria eventuais nulidades! Apenas porque as primeiras eram familiares!... Teoria estapafúrdia e intelectualmente desonesta sobretudo porque se baseia na eventual falta de gente qualificada fora do estreito círculo familiar e político. E, finalmente!, a cereja no bolo: o sr. Carlos César sustenta sem corar que “há famílias tradicionalmente vocacionadas para a política” onde o sentido de Estado está especialmente aguerrido e alerta! Depois das pobres elites aristocráticas temos as elite partidárias...

É para o que estamos...

 

 

05
Abr19

au bonheur des dames 479

d'oliveira

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Pequeno lembrete ao dr Costa

(e aos seus epígonos...)

mcr 5/4/19

 

O Sr. Primeiro Ministro entendeu criticar o ex- Presidente Cavaco por este sair do recato a que soem submeter-se os ex-presidentes da República. Desconfio que S.ª Ex.ª não recorda o dr Mário Soares que nunca deixou ( várias vezes com acerto e sempre com pleno direito) de intervir na “res publica”.

Mais: não o fez com punhos de renda ou pezinhos de lã. Alturas houve em que foi truculento, para não usar palavra mais forte.

É verdade que o sr. general Eanes ou o sr. dr. Jorge Sampaio foram mais discretos (poderia dizer-se que estavam nos antípodas do sr. doutor Marcelo Rebelo de Sousa que consegue ainda ser mais interventivo do que no seu longo e conturbado passado de jornalista, dirigente partidário e comentador.

A minha simpatia pelo sr. professor doutor Cavaco Silva é nula e isto desde sempre, melhor dizendo, desde que ele foi ministro das Finanças. Disso há neste blog farta constância numa boa dúzia de textos.

Todavia, não posso nem quero, nem devo impedir que qualquer português – e especialmente quem tem clara influência na opinião pública – de a todo o momento dizer alto e claramente o que pensa sobre a vida política. Diria, até, que os senadores da república tem o estricto dever de não se calarem.

....

Uma segunda questão se me permitem: parece que o sr. dr. Carlos Martins usou, quando era deputado, uma direcção algarvia para receber mais uns miseráveis euros do erário público. Foi apanhado e terá devolvido toda ou parte da soma assim obtida. Conviria dizer que isto, esta bizarra interpretação da “ética republicana” o impediria de chegar a Secretário de Estado. Pelos vistos, nem o Ministro da Pasta nem o Primeiro Ministro pensaram desta maneira. Arriscaram apostar nele e o resultado está à vista...

....

voltando aos recados ao sr. Primeiro Ministro.

Se é verdade que o expediente de pôr o Parlamento a legislar sobre a questão agora em aberto terá algum escasso mérito, não menos verdade é que o próprio Governo poderia estabelecer para si mesmo uma grelha de incompatibilidades familiares. Deixar a discussãoopara a AR significa, por outro lado, adiar para as calendas gregas a resolução do problema. E até lá, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

E finalmente

Da banda do acossado PS, houve a referencia ao caso das sete amantíssimas esposas de ministros ppd que, há quase trinta anos, infestaram os gabinetes dos colegas dos maridos (umas vezes como adjuntas, outras com chefes de gabinete). Na altura, o “Independente” pôs a boca no trombone e muito boa, ou má, gente (eu incluído) explorou o tema. Nessa época, até no Parlamento Europeu havia o arraigado hábito de levar familiares para os respectivos gabinetes de apoio. E não era apenas o caso português. Com o decurso do tempo foram-se afinando as regras (escritas ou meramente implícitas) e o festim foi acabando. A prática, aquela prática, não era saudável mas poucos, raros, a criticavam. Trazer à colação o caso, trinta anos depois, poderá fazer lembrar casos idênticos passados por exemplo com o Dr Mário Soares e alguma parentela. Ou será que ninguém se lembra?

Ou a prescrição só funciona em 50% dos casos?

...

 

04
Abr19

Au bonheur des dames 478

d'oliveira

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Quanto mais primo

Maior será o arrimo

mcr, 4.04.19

 

Não pensava voltar a este pouco inspirador tema do nepotismo, colheita de 2018. Todavia a triste história de um cavalheiro de seu nome Armindo Alves obrigado a pedir a demissão depois de ser conhecida o seu parentesco próximo com o sr. Carlos Martins, Secretário de Estado do Ambiente. O primeiro cavalheiro era, desde 2016, adjunto do seu importante primo.

Em tempos que já lá vão havia um provérbio meio acanalhado que dizia “quanto mais prima mais se lhe arrima”, referência a relações familiares quase incestuosas.

Agora, graças –eventualmente- ao “me too”, as primas são substituídos pelos primos e as relações passam a ser banalmente laborais.

Antes que algum(a) leitor(a) me saia ao caminho com a torpe acusação de inventar palavras, aviso que “arrimo” significa, entre outras coisas, peça ou lugar em que alguém se encosta” e, mais precisamente arrimo de família usa-se para significar pessoa que fornece a uma família os meios de subsistência (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa) .

Parece que os dois primos já se tinham cruzado numa autarquia da grande Lisboa, onde o agora ex-adjunto era “técnico municipal”, lugar sem dúvida ideal para daí transitar para adjunto de qualquer Secretário de Estado. Segundo li, a criatura tinha obtido uma licenciatura em Geografia, coisa de extrema utilidade para qualquer política ambiental. De facto, os adjuntos servem, entre outras coisas, para fornecer aos governantes, algumas elementares noções sobre a geografia do local onde, desgraçadamente, ocorrem coisas desagradáveis. Assim a latitude, a longitude, a orografia dão preciosas indicações ao governante para poder afirmar que qualquer catástrofe ocorrida em qualquer ponto do território tem causas naturais que extravasam a competência do responsável ministerial. É a natureza a funcionar. Do mesmo modo, a natureza familiar propende a recrutar a parentela para cargos onde a nomeação não carece de CRESAP ou outras minúcias do mesmo teor. Sobretudo se não houver coincidência de nomes de família como parece ser o caso de Alves e Martins.

O que mais surpreende nesta historieta de faca e alguidar é isto só agora aparecer à crua luz do dia. Anda-se há semanas a discorrer sobre o labirinto de relações familiares de governantes e familiares e, só ontem se verificou esta demissão. E sobre demissões, importa lembrar que o adjunto foi-se mas o “adjuntador” ficou. Como se nada fosse com ele. Como se o desagradável da questão ficasse resolvido com a saída do primo querido mas agora, véspera de eleições, indesejado.

E o senhor Ministro da pasta de nada sabia! E o senhor Primeiro Ministro, idem. Abençoada ignorância que permite que algo mude para que tudo continue na mesma. Dir-me-ão que neste campo, não há ignorância da lei mas apenas da famosa “ética republicana” com que todos os dias algumas luminárias nos bombardeiam.

Eu, “um pobre homem” de Buarcos, sempre pensei que só há uma ética e que esta não se caracteriza por um entusiástico republicanismo ou um adocicado monarquismo. A nossa história pregressa regista casos de ética e, sobretudo de falta dela, em todos os regimes que Portugal teve ou sofreu.

 

APENDICE

O sr. Carlos Martins ter-se-á demitido hoje, segundo se anuncia. A questão que se põe é a seguinte: demitiu-se de livre vontade ou foi devidamente defenestrado.

É que a pergunta não é ociosa. Se a livre vontade imperasse já demorou tempo demais. Ao primeiro sinal, deveria tê-lo feito, porventura antes do primo. Tudo faz suspeitar que foi empurrado sem suavidade para a demissão.

Dir-se-á, no caso de demissão espontânea e voluntária que antes tarde do que nunca. Mas sempre tarde e a más horas.

Provvelmente, uma boa dúzia de crocodilos, impantes de ética e de receio pelo resultado do escândalo, virão bramir que a atitude (tardia, repete-se) do ex-Secretário de Estado revela um “grande sentido de Estado”, fórmula tão oca quanto usada. O sentido de Estado imporia que nunca, em tempo algum, nomeasse um parente. Mas nomeou. E manteve-o mais de dois anos, longe da vista do público. Se isto tem algum sentido não é seguramente de Estado. Convenhamos que a partida de Martins pouco ou nada mexe com a estrutura do Governo. Não definia políticas e, aqui muito entre nós, não é o ambiente que excita especialmente os portugueses na generalidade nem sequer a opinião pública mais activa, se é que a há. Todavia, esta demissão tem, eventualmente, consequências eleitorais. Aumenta a desconfiança dos eleitores mais voláteis do PS e dá oportunidade a uma série de filisteus que virão ao palco chorar baba e ranho e prometer que, com eles, nem primos em quinto grau, pisarão os degraus poluídos de qualquer ministério.

E, já agora: e os outros os nomeados que inçam em vários graus os ministérios? Ficam ou desandam para a toca de onde nunca deveriam ter saído? E os seus “padrinhos” e “madrinhas”? Assobiam para o ar e esperam que o mau tempo amaine?

Ai Portugal

se fosses só três sílabas...

...sul, sol e sal ...

 

29
Mar19

Au bonheur des dames 477

d'oliveira

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Lemos e não acreditamos ou

No desconversar está o ganho

 

mcr 29.3.19

 

Temos um país todo sal, sol e sul (O’Neil) que, ao que dizem é a inveja dos estrangeiros que nos visitam. Vê-se que eles apenas passam, “leve, levemente” (Augusto Gil) e pouco se demoram. Ou quando se demoram refugiam-se no Algarve mais profundo, um pouco na zona de Cascais e, agora, alguns no Alentejo. Gozam uma velhice tranquila como os alemães em Maiorca, num terra onde as suas reformas valem bem mais do que na pátria longínqua e fria.

Eu que, por breves períodos, habitei noutras latitudes europeias, bem os percebo. O sol, o peixe do Atlântico, a natural gentileza das gentes, os baixos preços desculpam muitas coisas e entre elas o analfabetismo político sobretudo quando este se mistura com a espertalhice saloia.

Vem tudo isto a propósito de uma algazarra defensiva soltada por segundas e terceiras figuras do PS (Carlos César, Ascenso Simões ou Pedro Marques.

Supondo que ninguém desconhece estas estes abencerragens, basta-me recordar a questão que, sem qualquer gosto ou prazer, me faz citar estas criaturas é a famosa endogamia governamental e o desenfreado clientelismo que parece vigorar em nomeações longe do escrutínio público de familiares para cargos ditos de “confiança” (chefes de gabinete, assessores, adjuntos, consultores e o que mais vier).

O primeiro a intervir foi Carlos César, cavalheiro sem chama e menos qualidade oratória que desempenhou o cargo de presidente do governo regional dos Açores (e sempre que recordo isto vem-me à memória um famoso texto de Eça sobre o arquipélago e a política da metrópole em relação a ele que vivamente recomendo aos leitores. Estará na Campanha Alegre e, como de costume é um mimo) e é actualmente deputado, chefe da bancada socialista e “presidente do partido”.

. Li algures que vários familiares seus, eventualmente uma boa meia dúzia, desempenham cargos relevantes sempre na velha base da nomeação.

Este César (não confundir com o Borgia ou o Júlio) acha naturalíssima a presença de familiares no mesmo Governo e, já agora, as nomeações de familiares de responsáveis governativos para cargos de “confiança política” para os gabinetes. Tem até uma bizarra teoria para esta surpreendente acumulação de políticos todos eles familiares. Parece que há famílias em que a res política vive com grande intensidade e contagia todos rebentos da mesma gens. Desconheço se César atribui isso a um especial ADN, à Providência Divina, ao “grande arquitecto ou ao mero acaso. A verdade é que ele parece acreditar piamente nesta coincidência porventura científica que faz de uma série de desconhecidos ligados pelo sangue uma espécie especializada no cursos honorum político, seja ele local, regional ou nacional.

No meio da defesa das peripécias governamentais, terá (no que depois foi exemplarmente seguido) citado o caso de deputados que são parentes. César, ou esquece que um deputado é, mesmo no actual sistema de “tudo ao molho”, eleito pelos cidadãos 8e não empossado num cargo político por “confiança”, ou propositadamente chama à colação os eleitos para confundir a opinião pública. No primeiro caso é mera ignorância – indesculpável no seu caso) e no segundo é manifestamente uma tentativa pouco hábil e mainda menos inteligente de deitar areia para os nossos olhos.

Pedro Marques, que de ministro sem obra foi alcandorado a cabeça de lista para as europeias, descobriu fortes doses de misoginia nos comentários: de facto, muitos dos reparos aparecidos tinham como alvo uma extremosa filha de ministro e duas “belas, inteligentes e mais não sei quê” esposas de responsáveis por pastas. Não se no lote também incluía a mulher do ministro Cabrita. Se sim, faz mal. No caso vertente é ele que, muito naturalmente está na sombra da mulher que já tinha um sólido percurso. Fora esta originalidade, Marques fica-se dentro do modestíssimo perfil que se lhe reconhece. Não descobriu a pólvora, nunca a descobrirá mas se atendermos ao que fanfarrona, já vai na energia a hidrogénio... A Europa que se ponha a pau.

E finalmente, cereja no bolo, Ascenso Simões. Ao que sei, ainda antes dos trinta aninhos, esta luminária já emprestava todo o seu charme à vida política. E pelos vistos nunca mais de lá saiu. Um exemplo típico de político lusitano!

Indo pelo seu currículo, verifica-se que além de múltiplas outras coisas há uma forte produção literária (14 títulos, sendo um provavelmente poético e outros – eventualmente- pequenos folhetos). Todavia, não é este o aspecto mais impressionante. Contas feitas, para alguém nascido em 1963, temos que aos vinte anos já era membro da Assembleia Municipal. E com 24 já exercia de vereador. Tudo antes de terminar a sua briosa carreira académica (presidente de uma AE em 1991). A deputação só veio em 2005 mas antes já se tinha passeado por S Bento (adjunto do presidente da AR entre 1995 e 2002). Ao Governo chegou em 2005 e por lá perdurou até 2009, percorrendo, se não erro, três Secretarias de Estado.

É bonito! E exaltante!...

E passemos à sua intervenção na polémica cavilosa que espíritos mal formados lançaram contra o Governo actual. O “Público” (não sei de má fé ou apenas por chalaça) deu-lhe uma inteira página na passada quinta feira, 28 de Março. E aqui Ascenso ascende ao Olimpo não direi das belas letras mas pelo menos da inenarrável confusão. O texto chamado “Manifesto anti-Rangel” pretenderia citar o manifesto anti-Dantas de Almada. Só que...só que não é Almada quem quer mesmo que saiba escrever a onomatopeia “Pim!”Para isso seria necessária uma prosa interessante, uma ironia cortante e algum contexto. Nenhuma destas três modestas condições concorrem num arrazoado que se lê mais espantado que contristado tanto e tal é o disparate. Para Simões, a tese rangeliana (e só quem leu Rangel é que percebe que isto é uma diatribe contra ele...)significaria que da sua condenação do ensimesmamento familiar governamental se pode deduzir uma condenação geral de todo e qualquer laço familiar na sociedade portuguesa.

Comecemos pela singela constatação de que Simões confunde o facto de duas pessoas com laços familiares serem deputados, ao mesmo tempo ou em épocas diferentes, com a existência no mesmo governo e num determinado momento de vários familiares (marido e mulher, pai e filha) E já nem refiro os assessores, chefes de gabinete & assimilados que são parentes e pululam por lá ou lá perto. Ascenso ainda não percebeu que o simples facto de alguém ser eleito significa que passou pelo crivo do escrutínio popular, cidadão e republicano. Em teoria, os eleitores sabem quem é quem que lhes pede o voto. Por isso terão votado duas irmãs (Mortágua) pelo mesmo partido ou dois irmãos Portas por partidos diferentes e convenhamos claramente antagónicos (CDS e BE). No mesmo registo temos (e cito sempre as pessoas que a criatura trouxe à baila) os irmãos Horta. Ou ainda, pasme-se os irmãos Moreira da Silva (um ministro e um vereador!). Tambem na temível lista de Simões aparece um casal igualmente eleitos (Amandio Azevedo e cônjuge) e mais extraordinariamente ainda um ex-casal (os Roseta, ele ministro PPD ela deputada PS!!!). Mota Pinto aparece na lista mesmo se Ascenso pareça não entender que o filho que foi deputado só o foi mais de dez anos da morte do pai.

Ascenso, num desatino onde falece o mais elementar bom senso, vem depois trazer à baila dois prestigiados médicos e irmãos (os Gentil Martins). E nessa onda insana acrescenta mais três pares de irmãos, desta feita militares (os Cabral Couto, os Espírito Santo e os Reis e Fonseca) que no que Ascenso atribui a Rangel nunca deveriam ter chegado a generais !!!

E no capítulo irmãos lá conseguiu ainda mobilizar os irmãos Lopes que ele identifica como quadros do PC.

Finalmente revela que um jornalista Sebastião Bugalho é filho de uma jornalista Patrícia Reis. Também neste registo filial há uma menção a Rui Machete que foi ministro de vários governos até 2014 e Pedro Machete actual juiz do Tribunal Constitucional onde chegou após cooptação de todos os restantes membros desse alto tribunal.

Ascenso pretende dizer que a “doutrina” Rangel nunca permitiria nenhum destes casos mesmo se as situações nada tem a ver com nomeações. Em boa verdade, Ascenso deve achar que Rangel é uma amiba ortorrômbica!

Vai longa a parlenga mas convém realçar aqui que citação de Almada (um texto aliás divertidíssimo) não encobre o facto do manifesto ter tido origem numa crítica de Júlio Dantas (médico e político republicano - da 1ª República) ao então jovem futurista que anos mais tarde será um talentoso pintor e escritor apesar de, a partir do 28 de Maio ter sido um entusiasta do Estado Novo com que colaborou desde logo com o primeiro cartaz a favor da Constituição de 1933. E se é verdade que, muito mais tarde, Salazar terá torcido o nariz a algumas das suas propostas pictóricas não menos verdadeiro é que foi um claro artista do regime por muitos e bons anos. Não foi caso único, antes pelo contrário, mas é conveniente que se dê o seu a seu dono. E o futurismo não foi sempre, nem principalmente, um movimento democratizante como algum néscio poderia pensar ao babar-se com o “manifesto”. Mas ninguém, eu muito menos, exige de Ascenso qualquer luz de conhecimento histórico ou estético.

Pim, Pam, Pum!

Cada bola mata um

Prá galinha e pró peru

Quem se livra és tu!

 

(declaração de interesses: não conheço o dr Rangel. Identicamente não conheço nenhum dos senhores políticos citados pelos media. Também não me apetece conhecê-los. Já basta uma pessoa ter os achaques da idade e ler resignadamente os políticos que se metem a articulistas. Credo!

Fui duas vezes nomeado para cargos de certa monta por pessoas que eram minhas adversárias políticas e que, por mim, foram prevenidas disso. Recusei três nomeações honrosas e financeiramente vantajosas com que amigos meus quiseram brindar-me. Suponho que eles perceberam as minhas razões. Pelo menos, continuam a cumprimentar-me amavelmente. Provavelmente sofro de orgulho a mais (feio pecado, e mortal) e de escrúpulos que estarão fora de moda. Tenho de viver com isso e igualmente de morrer com isso que já é (muito) tarde para mudar. Nunca aceitei cunhas ou as meti. Pelas mesmas razões. O espectáculo a que assistimos é doloroso e pouco edificante.

 

Ai Portugal se fosses só três sílabas...

...meu remorso

meu remorso de todos nós...

(Alexandre O’ Neil)

 

23
Mar19

estes dias que passam 391

d'oliveira

 

 

Nós gostamos de viver

(anónima moçambicana)

 

mcr,  21/3/19

Não há palavras que consigam descrever com um mínimo de fiabilidade a tragédia que se abateu sobre o território de Sofala, desde a Beira até à fronteira com o Zimbabué. As imagens medonhas que a televisão nos oferece ficam sempre aquém da realidade.

De facto, o solo está empapado, quando não está completamente submerso. As chuvas violentas, as cheias dos rios (os casos do Pungué e do Búzi) a iminência de novas e fortes descargas nas barragens do outro lado da fronteira, ameaçam a sobrevivência dos sobreviventes (passe a expressão: é que quem ainda não morreu está em forte risco como se verá adiante).

E ameaçam por várias razões que se multiplicam umas às outras: as estradas estão cortadas; há pontes destruídas; o mar continua tempestuoso e as condições climatéricas desde o vento, às chuvas tornam ainda mais difícil a já de si penosa e escassa chegada de socorros.

Não há água! Ou melhor, não há água potável. Pior a água parada é um vector crítica da malária que, ninguém duvide, vem aí e em força.

Não há casas, ou quase: na Beira mais de dois terços do edificado está em ruínas. Mesmo a cidade do cimento, notem bem. Nem me atrevo a pensar nos imensos bairros periféricos, o “caniço” que acolhiam mais de 80% da população.

O ciclone levou tudo incluindo boa parte da resignada esperança: móveis, alfaias agrícolas, celeiros, excedentes – parcos, paupérrimos – agrícolas, economias, roupa, tudo. Dói ver a imagem de um homem carregando uma pobre cadeira de plástico (dessas que cá, à mínima esfoladela, ninguém quer e deita ao lixo. O nosso lixo é uma cornucópia de abundância naquelas terras devastadas.)

Seria fácil e tentador criticar os poderes públicos, a má governação, pela falta de meios, de manutenção, de cuidados de que a Beira sofre desde há décadas. Tudo isso é verdade mas nada disso importa agora. Sobretudo, porque as vítimas, e estamos a falar de centenas de milhares, de mais de um milhão, quiçá de vários, não são responsáveis pela desatenção, pela inépcia ou pelo desgoverno dos governantes. São, numa esmagadora maioria camponeses pobres, trabalhadores humildes na cidade que sempre tiveram pouco se é que alguma vez tiveram algo.

A urgência agora é enterrar os mortos e cuidar dos vivos, como diria o tirânico mas enérgico marquês. E até isso é difícil: ainda não foi possível encontrar todos os que morreram debaixo das casas, das árvores das ruínas, da água.

Os vivos, e nisso incluo os “ainda” vivos, aparecem nos noticiários em cima de telhados abatidos, de árvores, na bancada de um pequeno campo de futebol, errando por rios de lama e destroços, sem outro rumo do que uma possível   -mas longínqua (inalcançável?) – salvação.

Como essa mulher moçambicana que confidenciava à reportagem: “Precisamos de tudo, de uma manta, de comida que só comemos uma vez e não há nada para a noite. É que nós gostamos de viver... “

Mesmo no meio da mais profunda miséria, esta mulher, estas crianças, estes homens, este povo, gostam de viver. Mesmo se, aqui, essa vida pareça um longo e dramático caminho das pedras...

Eles não conhecem nada melhor e o pouquíssimo que tinham, mesmo se insuficiente, se injusto, era melhor do que nada. Vejam bem: a Beira e a sua região interior sobreviveram à guerra civil, às dezenas de milhares de minas terrestres que ainda há pouco matavam quase diariamente homens e bichos. Como a Gorongosa (que já foi um dos maiores e melhores parques de África e que, graças a um americano maluco e amante da África estava a renascer) onde o desastre ia cicatrizando...

Vivi em Moçambique entre o terceiro e o fim do quinto ano do liceu. Voltei lá por três vezes em férias longas de Verão. Aprendi alguns rudimentos (escassíssimos) das línguas vernáculas das zonas onde vivi. Na medida do possível tentei saber mais da história dessa sequência de terras que agora se chamam Moçambique. Tenho em casa alguns, muitos, centos de livros e revistas sobre a região. Em tempos longínquos, que não renego nem esqueço, tentei perceber melhor a situação colonial. Assinei, levantando as suspeições do costume, nas polícias do costume, algumas publicações legais (entre outras “O Brado Africano”) ou nem isso. Já aqui descrevi (testemunhando na medida do possível) a iniquidade dos sistemas de “contrato”, de culturas obrigatórias (sisal, copra, tabaco, algodão, sobretudo), da obrigatoriedade de identificação especial para se circular na cidade e de muitas outras que nem é preciso citar. Li com paixão (que mantenho) o Zé Craveirinha, a Noémia de Sousa ou o Rui Knopfi, sem esquecer o meu querido colega do liceu Salazar, Manuel Fernando Magalhães, autor de uma surpreendente novela “três vezes nove vinte e um”, sátira contra a militaragem em Moçambique (claro que foi preso).

 

A talho de foice, refiro outros dois autores moçambicanos: Luís Bernardo Honwana, autor de um exemplar conjunto de contos, “Nós matámos o cão tinhoso” (1964) e Luís Carlos Patraquim que, além de poeta, é jornalista e escreveu o que foi, para mim, a grande revelação da nova e arriscada ficção moçambicana: “A canção de Zeferias Sforza”, um retrato desconsolado de um país independente, de um partido na realidade único e uma concentração do poder (a todos os níveis) nos militantes mais obtusos mas mais obedientes.

 

Deixemos, porém, o domínio da escrita a que, em havendo tempo, voltarei, para nos concentrarmos no essencial: como ajudar? Como ajudar, já?

 

Basta ir ao multibanco em pagamentos, entidade 20999 e depois marcar 999 999 999 (nove noves, atenção) e doar o que puder. Claro que há muitas outras instituições (Cruz Vermelha, Caritas, Câmaras Municipais, corporações de bombeiros, o que se queira mas esta é simples e rápida. Por pouco que se dê, é muito para quem nada tem mas que “gosta de viver”.

Não estamos a ajudar um Estado ou um país mas tão ó um povo que não merece ser tão desventurado.

Não os deixemos morrer por incúria, indiferença, egoísmo ou preconceito que eles gostam de viver.

Kanimambu!, leitoras eleitores, kanimambu!, obrigado, kotchapela! Zikomo!, Kani! Bongile!, Eja! Assante!

*estas expressões tiradas de diferentes vernáculos moçambicanos querem todas dizer o mesmo : obrigado que é também moçambicano na medida em que o português é a língua oficial.

20
Mar19

Au bonheur des dames 476

d'oliveira

No século passado

mcr 19.3.19

 

 

O dr Pedro Nuno Santos já se tinha distinguido em 2011 quando, sem pestanejar e, muito menos sorrir, assegurou que, no que tocava à dívida pública indígena, Portugal possuía a bomba atómica. Bastava dizer que não se pagava e as pernas dos banqueiros alemães começariam a tremer.

Era um delírio, provavelmente devido à mocidade da criatura e, sobretudo à sua falta de experiência de vida, de vida vivida, de vida a sério. PNS foi sempre político desde a sua filiação na Jota socialista até aos dias de hoje. Vê o mundo pelos óculos bem escurecidos, dos cargos políticos e duvida-se que saiba, mesmo vagamente, o que é trabalhar no duro para um qualquer patrão ou o que é andar na profissão liberal a começar a tentar obter nome e clientes.

Depois, também se viu que não sabia o que era a Alemanha, os alemães, banqueiros ou não (por favor mandem-no para lá três mesitos que ele talvez comece a perceber. Aliás, poderá mesmo ir para qualquer outro destino europeu para ver como as coisas acontecem. Poupo-o a uma ida a África pois aí seria bem mais penosa a aprendizagem do mundo.

Agora, volta à ribalta noticiosa por via de um fait-divers. A sua mulher foi nomeada chefe de gabinete de um senhor Secretário de Estado. Parece que ambos, a senhora e o secretariante cavalheiro se conheciam desde a Câmara Municipal de Lisboa e, provavelmente, dos labirínticos corredores do aparelho partidário.

Reinava nessa pouco longínqua época a confiança política e pessoal de um na outra e por isso, só por isso, o primeiro logo que se viu membro do Governo entendeu a que devia entregar a chefia do seu gabinete à senhora em questão.

 

A justificar a decisão estava o facto de a senhora em questão ser eficiente e de merecer toda a confiança do nomeante.

PNS veio a terreiro afirmar que a sua cônjuge merece ser tratada como qualquer outro cidadão/ã e não pode ser menorizada por ser casada com ele.

É comovente este apelo aos direitos humanos, mormente da mulher mas esbarra num escolho difícil de ignorar e que desde a antiguidade tem assombrado os políticos. A famosa frase À mulher de César não basta ser honesta, tem de parece-lo” atribuída a César para justificar o divórcio de Pompeia. De facto, diz a história que Pompeia organizara uma festa exclusivamente reservada a mulheres mas que um seu suposto apaixonado tentara itrodir-se no ágape disfarçado de tocadora de lira. Não conseguiu sequer aproximar-se da anfitriã pois foi rapidamente descoberto e expulso da casa de César. Todavia, este, quis o divórcio e justificando-o com a famosa frase.

A senhora Gamboa pode ser um génio, uma criatura leal, e uma trabalhadora incansável. Merece ter umacarreira política autónoma do marido. Porém, estando ele no Governo, poderá, com ou sem razão, ficar na opinião pública a ideia que só vai para “chefe de gabinete” (de outro membro do Governo) por ser cada com é.

A este propósito relembro uma história antiga muito glosada por um PS também antigo. Num governo PPD houve duas cônjuges de responsáveis ministeriais que também foram para “chefe de gabinete”. Uma das senhoras em causa foi para a Secretaria de Estado da Cultura e era casada com um ministro importante (eventualmente Dias Loureiro). Da outra perdi-lhe o rasto que isto ocorreu no século passado lá pelos anos 80/90. Durante um par de meses foi uma festa de ditos, de piadas, de acusações, enfim o costume.

Mais recentemente, e num exemplo “a contrario” temos que um cavalheiro de seu nome Jorge Simões, presidente do Conselho Nacional de Saúde, se demitiu logo que a mulher, Marta Temido foi indicada para Ministra da tutela.

Relembra-se que Jorge Simões já estava no cargo, que anteriormente passara, como presidente, pela entidade Reguladora da Saúde. Ou seja este professor prestigiado de Higiene e Medicina Tropical há muito que andava nestes domínios (inclusivamente durante o anterior Governo) e era reconhecido como uma autoridade na matéria.

Todavia, entendeu que mesmo estando há tempos no cargo não devia continuar porque sua mulher ia ser Ministra. Bem sei que no mesmo ramo mas o simples facto de já lá estar não poderia ser usado contra ele ou contra a Ministra.

Não vou afirmar que o Professor Doutor Jorge Simões merecia “não ser menorizado por ser casado com é” mas o pudor e o bom senso e uma certa ideia de sentido de Estado levaram aquele profissional reputado a optar por se retirar, reafirmando assim que é honesto e que parece ser honesto.

Este pequeno exemplo deveria servir para o senhor dr Pedro Nuno Santos estar caladinho e não vir para cá para fora a justificar algo que mesmo legal é dificilmente entendido pela opinião.

Ma ao cavalheiro que não percebe os alemães este género de argumentos não convence, se é que sequer os percebe.

Asim Deus (ou o diabo, a escolha é dele) o ajude, se bem que para isso tem ele, primeiro, que se ajudar.

(em tempos que já lá vão, fui convidado - e aceitei - para ser presidente de uma instituição pública. Tive, imediatamente, o cuidado de solicitar à Ordem dos Advogados a suspensão do meu mandato para não poder ser acusado de servir a dois senhores ou de confundir os interesses da instituiçõ com os do meu ofício de advogado. Já nessa altura, uma estadual e secretariante criatura me mostrou o seu espanto porque "nada me obrigava a tal decisão. Tive de lhe explicar com fria cortezia que uma coisa era a lei outra a ética e a vontade de estar em paz com a consciência. Claro que perdi dinheiro que me fartei. Mas dormi sempre bem...)

15
Mar19

Au bonheur des dames 475

d'oliveira

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Instantâneo na cafetaria

mcr (nos idos de Março)

 

Odeio a apalavra “cafetaria”: trata-se de um espanholismo mais do que dispensável mas que se impôs devido ao desuso de “café”. Hoje, os estabelecimentos do género foram desaparecendo ou transformaram-se em pastelarias-padarias, com um vago serviço de refeições que, elas mesmas, não são exactamente almoços e, muito menos, jantares, mas apenas um desafogo da fome que nos dá por volta do meio-dia, uma hora.

Eu, que já não me posso considerar uma novidade (eis outra palavra decaída: dantes novidade era bem mais do que uma notícia acabada de chegar. Significava também alimentos frescos, da estação, entre muitas outras coisas. Novidade era frescura, algo que, no capítulo da alimentação também já vai carecendo de sentido) ainda recordo os grandes cafés de antigamente, aqueles a que se era fiel toda uma vida, onde se podia até receber o correio e recados variados.

Havia cafés que além dos salões de jogo e dos bilhares ainda ofereciam outros serviços. O “Montecarlo” em Lisboa até tinha barbeiro, vejam lá. Para já não falar dos engraxadores, oficiais de ofício humilde mas útil que nos davam um ar novo e resplendente ao sapato. Hoje, também, os sapatos de couro vão desaparecendo, melhor dizendo, vão-se reduzindo a uma clientela rica, a única que pode dar-se ao luxo de comprar sapatos portugueses de grande qualidade e preço compatível.

Mas os cafés lá vão acabando, tornando-se mais pequenos, mais cafetarias, já quase não há bilhares e os que há são de snooker, ou melhor de uma variante do snooker que é bem distinta e mais fácil do que aquela modalidade que o Eurosport oferece amiúde e me põe doente só de ver como aqueles jogadores dominam a arte. Eu tenho cá por casa uma mesa de bilhar, bilhar francês , versão normal, nada daquelas grandes mesas onde se jogavam partidas “às três tabelas”. Mesmo assim, já não tenho parceiros e contento-me em jogar sozinho contra mim próprio o que, convenhamos, é pouco interessante.

 

Mas, como escrevia, estou na “cafetaria”. Contra o costume é agradável, o serviço é eficiente, há algumas ofertas originais para petiscar e, no inverno, há uma lareira enquanto que, no verão há ar condicionado. E fica mesmo em frente da porta da garagem...

 

Ao meu lado, uma senhora escreve com a mão esquerda. Canhota, portanto. Que inveja lhe tenho. Sou canhoto, canhotíssimo faço tudo com a esquerda, menos escrever. Naquele tempo, a escola primária (que alguém dizia que era “risonha e franca”) não estava preparada para meninos canhotos. Fui obrigado a aprender a escrever com a mão direita. Nem sequer me passou pela cabeça queixar-me em casa. Quando, muito mais tarde, falei disso, o meu pai perguntou-me porque é que eu calara aquela horrenda violência. Tarde piei...

Durante anos a minha caligrafia era mais indecifrável que o linear b. Tive de aprender a desenhar a letra. E tão bem o fiz que toda a gente ma gabava. Só eu me queixava de tantos anos de tentativas e de não ter aprendido a escrever com a mão que faz tudo.

Nem imaginam quanto me custa ver outros a usar a esquerda para escrever. E parece que se multiplicam esses canhotos felizes, raios os levem.

É verdade que (com grande dificuldade, há que dizê-lo) consigo escrever com a esquerda mas o que sai é uma caligrafia miseravelmente infantil, sinal indelével de um tempo outro em que, sob outro nome, já havia um politicamente correcto provavelmente menos perigoso e imbecil que o actual.

Vivemos, como afirmava o poeta, tempos realmente extraordinários, em que tudo parece possível e, ao mesmo tempo, extremamente perturbantes: há por aí alguém que seja capaz de me explicar o que se passa com os ingleses, melhor dizendo, os britânicos? Que é que aquela gente quer? Se é verdade que irlandeses e escoceses (e boa parte das classes mais educadas e jovens) votaram contra o Brexit, se como tudo parece indicar, a vida tornar-se-á mais complicada ecara para todos, como é que houve tanta gente a preferir sair da Europa?

O caso mais extraordinário é o do País de Gales grande beneficiário dos fundos europeus e maioritariamente contra a mão que trazia uma cornucópia de euros. Também não deixa de parecer extravagante que seja um pequeno partido do Ulster p principal apoio da senhora May uma fraca cópia de Margareth Tatcher, a dama de ferro. Uma fronteira a sério nessa ilha poderá trazer (ou trará inexoravelmente) a guerra civil larvar que ausou milhares de mortos e consequente miséria mesmo à minoria protestante irlandesa. Sobretudo, quando se vê actualmente uma República da Irlanda próspera e liberta da férula católica que a asfixiava. A Grécia, há pouco tão incensada, por alguns radicais portugueses (que entretanto já não podem ver o senhor Tsipras, herói decaído das senhoras mais representativas do BE (será que o substituíram pelo grande burguês Varufakis ou mais tolamente ainda pelo venezuelano Maduro ou pelos resquícios autoritários do sandinismo que atormentam a Nicarágua?)

E já que se mencionou a Venezuela, então o famoso apagão da semana passada é obra dos americanos? Isto quando se sabe que a principal central eléctrica (Guri) esta sem manutenção há mais de dez anos e reduzida a um terço ds suas possibilidades, como desde há dez anos já se afirmava. Se não foi o traiçoeiro Trump foi o senhor Guaidó... espantalho conveniente num país one há anos falta tudo excetpo a fome, as prisões políticas e os mortos em manifestações pacíficas.

Eu, que já não sou uma novidade, ainda me lembro de um famoso apagão em Nova Iorque que teve consequências tremendas. Olha se os americanos se tivessem lembrado dos mais recentes inimigos vietnamitas (a guerra durou até 1975) ou do “inimigo interno” (estudantes protestatários, black panthers ou outros grupos negros de direitos civis) o que não se teria então dito. Pelos vistos, agora, a versão de Maduro obtém o assentimento beatífico de meia dúzia de cidadãos portugueses, alguns dos quais piedosamente calados durante o Estado Novo. Naquela época o silêncio destes agora buliçosos indignados e venezuelófilos (o neologismo é da minha responsabilidade) permitia conservar os empregos na função pública e escapar ao serviço militar nas colónias, nas frentes de guerra activas e perigosas.

Raios me partam, canhoto que sou, não percebi que estar calado poderia ter-me evitado tantos dissabores e, ao mesmo tempo, permitiria apresentar-me, hoje, de cara lavada e impecável (mas imaginativa) folha de serviços anti-fascistas, anti-imperialistas e anti mais qualquer outra coisa que me viesse à ideia ou estivesse na moda.

Dia seguinte:

Entretanto, mudei de poiso matinal. Na esplanada de sempre com vista desafogada para o jardim. O sol (primavera antecipada que iremos pagar com uma valente seca lá mais para o verão) entra pela vidraça do teto e acerta-me em cheio na cabecinha pensadora. O sr. Luís, dono do pequeno local jura que já encomendou uns panejamentos de lona para proteger a clientela mais sensível a estes excessos luminosos. Só que... ”o sr. dr. Já sabe. Neste país tudo é para se ir fazendo e nada para se fazer já. A encomenda foi feita no ano passado e já vamos em Março...”, lamenta-se.

É bem verdade. Vivemos de projectos, de promessas, de antecipar o futuro para melhor prolongar o passado pegajoso, lento e ineficaz que trazemos no ADN.

Veja-se, para não ir mais longe, o triunfo daquela triste criatura que comanda a lista do PS às europeias. No seu mandato, as promessas acumularam-se. No que toca à ferrovia foi o que se viu. A realidade, sempre essa miserável que só faz desfeitas aos políticos, é menos buliçosa: faltam comboios, falta pessoal de manutenção, as linhas do Oeste (Figueira da Foz –Lisboa), do Algarve e do Sueste funcionam ao pé coxinho, melhor dizendo com os dois pés coxinhos. Em todas as circulações eliminaram-se comboios e, mesmo assim, o atraso é a regra. As linhas de Sintra e de Cascais que carreiam para Lisboa, centenas de milhares de trabalhadores, tem horários rarefeitos tem menos composições, e as que ainda circulam já deveriam estar retiradas por terem ultrapassado há anos o prazo de validade. Um dia destes há uma desgraça e vai-se a ver nunca aparecerão responsáveis. Ou aparecem os do costume, uns desgraçados que não mandam nada, que ganham uma miséria e que são obrigados a conduzir aquilo, aquelas latas de sardinha sobrecarregadas sob pena de, se o não fizerem, se reclamarem, se denunciarem o previsível naufrágio, serem despedidos.

Os polícias manifestaram-se: parece que no que toca a aos de serviço perdidos ainda estão pior que os professores. Parece também que não há subsídio de risco, que não lhes é reconhecido o estatuto de profissão de desgaste rápido, que as esquadras (ou uma significativa parte delas continuam a ter deploráveis condições, para já não falar na falta de viaturas e de outros meios. Felizmente que os criminosos indígenas são mansos e, muito portuguesmente, pouco activos. A apregoada segurança dos cidadãos deve-se não à capacidade policial mas apenas à frouxidão endémica do crime local de baixa produtividade o que, aliás, está de acordo com as mais recentes estatísticas sobre o trabalho nacional. Há males que vem por bem!

* a ilustração: acidente de comboios em Alfarelos.