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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Jul18

Au bonheur des dames 456

d'oliveira

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Ninguém liga ao coronel

mcr 19.07.18

 

 

Como sabem os leitores (e mais anda as leitoras) este título é uma meia paráfrase do de uma novela de Garcia Marquez (el colonel no tiene quien le escriba, que em português terá dado, julgo, ninguém escreve ao coronel).

Não venho porém falar do mundo de GGM, menos ainda das suas histórias extraordinárias, mas tão só de um senhor coronel , portuguesinho da costa, que prestou alguns bons erviços ao país mas que nos últimos dez/quinze anos passeia a sua robusta rotundidade pelos corredores de acesso ao poder e não consegue deixar de opinar sobre tudo o que lhe vem a alcance de tiro.

Normalmente, o senhor coronel dá tiros de pólvora seca ou, então, não acerta no alvo por razões que não descortino. Desta feita, multiplicou-se: ontem uma referência e hoje, tem direito a uma página do Público. Comecemos, muito de raspão, pela de hoje onde a sua laboriosa e pouco inspirada pluma deixa uns considerandos sobre uma eventual promoção do senhor tenente coronel Marcelino da Mata a coronel.

Este cavalheiro tem no seu currículo 5 Cruzes de Guerra (três de 1ª classe, 1 de 2ª classe e outra de 3ª classe) e, facto quase único, a “Torre e Espada” a mais alta e a mais rara condecoração portuguesa.

Ferido várias vezes, participou em operações de grande risco (incluindo a invasão de Conakri) e a sua biografia menciona uma operação em que se distinguiu especialmente e que resultou na libertação de mais de cem militares portugueses na Guiné).

Resta dizer que MM é negro  e cidadão português desde sempre.

Do senhor coronel Vasco Lourenço não consegui saber as condecorações militares, mas a existirem são seguramente inferiores à do cavalheiro “preto”. Estas coisas doem...

E doem tanto que numa enxundiosa e desgarrada redacção, VL alinha umas banalidades e ataca a promoção possível do seu camarada de armas. E do alto da sua condição de pai da pátria avisa as autoridades militares e, já agora, amotina o escasso público que faz o sacrifício de o ler para este medonho acto.

Pessoalmente, estou-me nas tintas para qualquer destes cavalheiros. Sou civil e paisano até ao sabugo e penei em sítios muito desagradáveis a minha desconformidade com o Estado Novo. Nada devo a qualquer deles pois o meu 25 de Abril começou aos trancos e solavancos ainda em 1959 durante a campanha de Humberto Delgado. Levo ao profissional das armas VL 15 anos de avanço na oposição à ditadura. Ou seja toda a minha vida de adulto (como aliás a dele que é da minha idade).

O que me admira é que nunca vi o senhor coronel Vasco Lourenço, levantar a voz façanhuda contra o senhor tenente coronel Marcelino da Mata desde que este, segundo, VL, começou a fazer tropelias na Guiné.

Bizarrias...

Deixemos este patriótico e maçónico queixume de Vasco Lourenço e passemos ao segundo tema onde, de novo, e impudentemente, ele se manifesta. Desta feita, a propósito da tristíssima vergonha do caso das armas desaparecidas em Tancos, o senhor coronel, sempre segundo o Público resolveu afirmar que o assalto aos paióis de Tancos não passou de uma farsa para acentuar os ataques ao Governo devido aos fogos do passado ano. Numa surpreendente declaração VL afirma que quem montou a farsa “são alguns dos mesmos que agora mais gritam contra a falta de resultados nas investigações”. E pede “sejam honestos!” pois se “o ataque ao Governo é  normal, admissível e legítimo” não pode valer tudo”.

O senhor coronel , segundo o jornal que reproduz estas declarações, sublinha que não tem como provar a sua teoria que contudo ainda ninguém provou que está errada (sublinhado meu). Ninguém pede a um coronel na reserva que saiba Direito mas já parece ser-lhe exigível além de bom senso alguma lógica. S.ª Ex.ª tem uma teoria que confessa não poder provar. Porém a bondade da teoria reside no facto de ninguém ter até ao momento provado que está errada!

S.ª Ex.ª é um monumento à Educação Nacional, ou pelo menos, à que era fornecida na Academia Militar. Então uma teoria (sem que qualquer facto a prove) está certa apenas porque ninguém se deu ao inútil trabalho de a rebater? E ninguém a rebate porque a teoria assim descalça e despida não tem ponta por onde se lhe peque e nem o mais espesso manto de fantasia a pode tornar sequer crível.

Suponhamos que eu jurava que o senhor coronel era um extra-terrestre saído de um Ovni poisado no claustro dos Jerónimos (ou na mata de Mafra, sitio eminentemente militar pelo menos para os milicianos que eram os que mais morriam nas selvas africnas). Suponhamos que o senhor coronel se irritava com esta xenófoba e planetária afirmação. E que pedia provas do que eu dizia. E eu, pimpão e parolo, retorquia-lhe: Tem Vossa Redundância provas que não é assim? Portanto regresse ai ignoto planeta que o viu nascer ou vá jogar o voltarete com um par de Irmãos que o aturem. E, já agora, deixe a política para gente com mais tino e os paióis na sua negregada solidão de sentinelas e de explicações.

E não misture os fogos (de que agora aprecem dezoito arguidos, tudo pessoal menor, nenhum responsável político, claro) que deixaram um rasto de mortos e dezenas de milhares de prejudicados com a até agora mais que comprovada (por declarações, por suspensões de militares que até vão a generais, e pelo patético gaguejar de um ministro incapaz e incompetente, por um monte de armas e munições miraculosamente encontradas) com esta anedota miserável que envergonha qualquer um e indigna ou faz rir meio Portugal e alguma Europa, pelo menos a que sabe desta novela que se arrasta.

 

10
Jul18

Há dias & das 2

d'oliveira

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mais três a abater

mcr, 9-10; Jul;2018

 

Os meninos no seu labirinto

À hora em que escrevo, quatro rapazes já estão a salvo. É provável que outros já estejam a caminho. Assim o espero fervorosamente. Se pouco ou nada posso esperar da Síria (senão mais um massacre), da Nicarágua onde os mortos já passam dos trezentos, ou da Venezuela onde o triunfo dos seguidores de Maduro leva para o desastre total um país que já foi rico e onde a fome era a excepção e não a regra, ao menos que na longínqua Tailândia se salvem estas treze pessoas.

De todo o modo, há aqui algo que me escapa. Como, porquê, foi este grupo de crianças para o diabo de uma gruta a todos os títulos perigosa? Como é que venceram tantos obstáculos para chegar onde chegaram? A fazer fá nas descrições das televisões, há zonas de galeria onde quase não se cabe, outras com água permanentemente, uma escuridão total. O que me espanta é o facto de os garotos terem seguido em frente, pelos vistos sem receio evidente. Mais me surpreende o treinador que os acompanhava (ou apenas foi à procura deles? No primeiro caso, não teria este ex-monge budista dez gramas de bom senso para verificar que aquele percurso era extremamente perigoso em qualquer altura do ano e mais ainda na época das chuvas? )

De todo o modo, as crianças foram encontradas em estado satisfatório, calmas e inclusivamente escreveram cartas para os pais notáveis de coragem e calma. Parece ser o treinador quem está em pior condição porquanto cedeu a sua exígua parte de alimentos aos seus protegidos e também guardou toda a água que lhe caberia para as crianças.

Mais estupefacto fiquei ao saber que as famílias não o culpam antes lhe escreveram a animá-lo. Eu nada sei do antigo Sião apesar de ter lido alguma história antiga e nossa sobre os contactos que, logo no sec. XVI começámos a manter com aquele reino.

De todo o modo, há aqui matéria para refletir. Sobretudo isto: caso a coisa se passasse nos nossos lados ocidentais e europeus ou americanos, como é que estaria tudo? Seguramente pior, absolutamente histérico e, por isso mesmo, com menos hipóteses de sobrevivência. Algo se tem de aprender com aquela velha civilização.

 

Quem nos acode?

As abelhas estão em risco. Em grande risco. Ao que parece, não me atrevo a ser categórico pois nada sei do assunto, a coisa pode dever-se ao uso indiscriminado de produtos aplicados nos campos para proteger as plantações. As abelhas seriam as primeiras mas não as únicas (longe disso!) vítimas. Todos os restantes insectos, boa parte dos pássaros e até alguns pequenos mamíferos sofreriam, directa ou indirectamente, devido aos efeitos dos venenos que se espalham pelo campo. Por outras palavras, aqueles insecticidas matam tudo. Bichos maus, simplesmente inúteis e os restantes de que a flora depende para a polinização. Sem abelhas esta não ocorre. Sem abelhas não há mel, mas também não há fruta, legumes e tudo o resto.

De há anos a esta parte que todos notavam uma diminuição sensível na quantidade de aves quer autóctones quer migrantes, seja das nidificantes seja das invernantes.

Que a União Europeia não se entenda quanto aos desgraçados que lhe chegam em catadupa do resto do mundo, consigo perceber mesmo se isso me doa. Nós portugueses somos migrantes desde sempre ou quase. A fome, a sobre-população, a miséria atiraram-nos para as Índias, para os Brasis, menos para as Áfricas e mais recentemente para o resto da América e para a Europa. Alguns, mas de todo o modo uma pequena minoria, também saíram da pátria madrasta por perseguição política mas, nesse caso, conseguiram organizar-se melhor por mais cultos, mais capazes de encontrar solidariedade nos locais de destino. A grande, imensa maioria, comeu o pão que o diabo amassou, sobreviveu nas selvas das grandes cidades em bairros infames e construiu aí, a partir de quase nada, um futuro.

Todavia, as abelhas, as joaninhas, os pardais, os tordos, os coelhos, as lebres ou os abutres do Alto Douro não parecem estar representados em Estrasburgo ou Bruxelas. E, no entanto, o seu deles futuro implica, directa e dramaticamente, o nosso. Ou o dos nossos filhos. Ou o dos filhos dos filhos dos nossos filhos como rezava a belíssima canção dos Moody Blues...

 

Amigos: o sal da vida

Há uma dúzia de dias, almocei na “Adega da Tia Matilde” com o Francisco Belard e o José Quitério. Somos amigos desde há muito, quase desde sempre. O Zé foi meu colega numa Coimbra estúrdia e bem humorada. Poderia tê-lo conhecido na Figueira onde, em miúdo ele passava férias. Todavia eu brincava na praia a meio caminho de Buarcos e ele, ficava-se pela da Figueira a que hoje chamamos “do Relógio”. Nunca nos cruzámos, apesar de termos amigos comuns desde esse tempo. O Francisco já o conheci em meados de setenta nas sessões do Festival de Cinema da Figueira. Isto, esta velha e cúmplice amizade, já leva uns bons quarenta anos e foi fortalecida por várias sessões das “correntes d’escrita” da Póvoa do Varzim. Tanto que até há um cartaz do evento onde somos, o Bélard e eu, cabeças de cartaz.

O Zé está quase como sempre: inteligente, espirituoso, culto e excelente conversador. Porém, os olhos, os sacanas dos olhos, é que não o acompanham. Eu sempre o conheci munido de uns óculos fortíssimos atrás dos quais se escondiam dois olhos azuis e amigáveis. Olhos que viam, que sabiam, que perguntavam. E que, às vezes, respondiam. Depois uma doença malvada fez-lhe o mesmo que à minha Mãe. Também ela excelente leitora está reduzida a ver pouco mais do que manchas, vá lá as grandes eindecisas figuras de filhos, netos, bisnetos e amigas. Logo ela que lia tudo o que apanhava à mão com alguma última preferência pelas revistas do Público, do Expresso, do El País, da Visão. Artigos que tinham a vantagem de poder ser lidos com mais rapidez e menos esforço do que um livro compacto. Mas algo que a punha em contacto com o mundo a que ela dedicou desde sempre uma formidável atenção. Agora, resta-lhe o rádio que ela ouve pelas manhas bem cedo e à noite já deitada.

Ora o Zé tinha a mesma obsessiva atenção, a mesma ansiosa pesquisa das notícias, a mesma permanente indagação. Desde Coimbra que lhe conhecia a curiosidade, a cultura magnífica o amor pela leitura, como pela música e pelo cinema. Disso se ressentiam esplendidamente os seus textos no “Expresso”, textos que garantiam uma multidão de leitores fieis seduzidos por uma escrita limpa, saborosa e inteligente. O Zé Quitério aproveitava a boleia da gastronomia para fazer entender uma voz portuguesa mas cosmopolita. No que escrevia havia sempre diferentes níveis de leitura o que lhe trouxe leitores de todas as classes. Porque ele escrevia , e bem, muito bem, um português acessível onde se notava a pegada forte dos bons clássicos que ele conhecia na palma da mão. Fosse eu dos que mandam na televisãoo e o Zé Quitério teria uma coluna semanal ou quinzenal em que bem entrevistado poderíamos todos continuar a nossa alegre e substanciosa aprendizagem de um país e de uma cultura de que ele é um excelente representante. Foi isso, aliás, que o fez credor do prémio Universidade de Coimbra 2015. Por uma vez, a nossa velha escola mostrou que percebia bem o mundo em que se encontrava e premiava um estudante rebelde que frequentou de leve os Gerais e a Via Latina. E que teve a “sorte” de ser chamado para a guerra ainda a meio do curso que não o entusiasmava. No regresso já não voltou à Academia . Assim, em vez de um eventual jurista desanimado e desconfortável na sua pele, tornou-se num escritor e jornalista unanimemente respeitado. E saboreado...

 

*na gravura José Labaredas, mcr, Zé Quitério e Tó Aires Rodrigues em laboriosa sessão de estudo num café na Sé Velha que no meio da Alta povoada se chamaria (ó memória, não me atraiçoes!) Oásis!

09
Jul18

O leitor (im)penitente 207

d'oliveira

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Um regresso em grande

mcr 8.7.18

 

Regressa Maria Judite de Carvalho, a autora de (entre outros milagres) “Tanta gente, Mariana”. È pela mão de uma nova editora (Minotauro) que volta ao convívio dos leitores e logo com livro duplo (A “Tanta gente...” juntaram “As palavras poupadas”). Força amigos que já tem que ler em férias. Ler e surpreender-se; surpreender-se e maravilhar-se; maravilhar-se e perguntar como é que foi possível tanto e tão longo silêncio à volta desta mulher.

Quem esforçadamente me acompanha sabe que o feminismo não é o meu peditório, mesmo se, também talvez tenham reparado, abomine o “machismo” e outras singularidades que tornam o mundo mais triste e mais cruel. Melhor dizendo: irrita-me soberanamente algum feminismo estridente que entende que para dar à Mulher o seu justo no lugar há que rebaixar a macharia sem olhar a diferenças ou distinguos.

No entanto, e no capítulo literatura moderna portuguesa, o lugar das mulheres tem aparecido sempre em letra minúscula. É verdade que, em seu tempo, se falou das 3 Marias graças ao perfume de escândalo da “Novas Cartas Portuguesas”. Também é verdade que Agustina Bessa Luís e Sofia de Melo Breyner Andresen foram presenças importantes nos meios de comunicação social. O mesmo se passou, ainda que em períodos muito curtos, com Maria Velho da Costa. Porém, pouco ou nada resta da passagem de muitas outras –e, com a única excepção de Isabel da Nóbrega (“Viver com os outros”) só vou citar autores já desaparecidas: Irene Lisboa, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Fernanda Botelho, só para exemplo. Medem-se, sem favor, com os melhores escritores seus contemporâneos mas, mesmo num país onde a maioria dos leitores é feminina, a sua recepção crítica, o volume de vendas e o eco público foram sempre menores. Como se vê, não são só os homens os maus da fita aqui.

O fenómeno não é estrictamente nacional e, em todos os domínios, mormente no político, o ocultamento das mulheres foi regra. E nisto incluo alguns estandartes do movimento comunista internacional. À excepção de Rosa Luxemburgo, as mulheres russas, chinesas ou cubanas aparecem fugazmente, na sombra dos homens, mesmo os mais medíocres. Da revolução russa, conhecem-se de viés, Clara Zetkin ou Inessa Armand (esta última reduzida praticamente a amante de Lenin). De Cuba nada, o mesmo se pode dizer do Vietnam ou da China, onde, entretanto, Mao Ze Dong afirmava que “as mulheres eram metade do céu”. Até a anarquista (ou socialista revolucionaria?) Fanya Kaplan, autora do atentado contra Lenin foi, mais tarde, quase ilibada atribuindo a um tal Protopokov (não garanto o nome) a autoria do atentado.

Não irei cair no exagero (se é que o é...) de afirmar que MJC foi ofuscada pelo marido, o também escritor Urbano Tavares Rodrigues. Porém se quisermos saber deles, MJC aparece sempre como mulher daquele, enquanto Urbano tem direito a referencias sólidas sem o peso da companhia da escritora que, a meus olhos insensatos, lhe é claramente superior.

Assim vai o mundo.

 

03
Jul18

Há dias e dias 1

d'oliveira

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Há dias e dias 1

 

3.Jul.18 

 

mcr 

 

Éramos pouco mais de um quarteirão no enterro da Fernanda da Bernarda. Alguns não puderam vir por questões de saúde: nenhum de nós está a ir para novo. Muitos não souberam ou souberam tarde de mais para ir de longada até Setúbal. Todavia, lá estávamos, um punhado de relíquias ou de sobreviventes, como queiram descrever-nos. Mais cabelos brancos, ou nem isso que as calvas não eram poucas. Como de costume, as mulheres (as raparigas do nosso tempo...Ah! Como isso vai longe...) mostravam-se mais bem conservadas. Elas defendem-se melhor dos infortúnios da idade, sabem fintar o tempo e a solidão bem melhor do que os homens. No meio do desgosto, mesmo se isto era uma morte anunciada e, porque não dizê-lo, de certo modo desejada (uma esclerose múltipla rebenta com o melhor e o mais corajoso e não é boa de ver para as testemunhas compadecidas e impotentes), foi bom rever velhos, velhíssimos amigos e camaradas de outros tempos, quiçá de outro lugar tais as mudanças a que assistimos nestes bons cinquenta anos que nos separam da nossa “juventud, divino tesoro” (Ruben Dario, leiam-no por favor que ele é um dos maiores, dos melhores, dos mais modernos poetas latino americanos –que digo? – universais).

Há um par de semanas, encontrei uma velha conhecida (bem mais nova do que eu, aliás) que depois de um par de beijos repenicados, várias perguntas e outras tantas respostas, me disse “estamos vivos”. Lá estar estamos mas já aproximamo-nos do tempo de viver por empréstimo, já há quem nos olhe de soslaio, somos um peso no Orçamento da CGA ou da Segurança Social. As criaturas idosos são caras em termos de saúde, ocupam demasiado espaço nos hospitais quando não se tornam um custo insuportável por lá terem sido abandonadas.

 

O jornal de hoje menciona um livro de Steibeck (prémio Nobel nos inícios de 60) em que ele descreve uma viajem pela Rússia na companhia de Robert Capa, extraordinário fotografo. Comprei-o há dias mas ainda não o abri. Prometi a mim mesmo começar ainda este mês. Steinbeck venceu o Nobel depois do júri se ter dividido entre Lawrence Durrel (o autor do “Quarteto de Alexandria”, do “Quinteto de Avignon” e de mais uma série de belos livros onde não faltam dois ou três bem humorados sobre s suas aventuras como diplomata) e Graham Greene, o grande escritor “católico” (porque raio se apõe sempre a religião no caso dos católicos? Já Bernanos, outro grande, sofreu a mesma “capitis diminutio...) que deixou meia dúzia de grandes romances com destaque para “O terceiro Homem”, “O fim da Aventura, “O Poder e a Glória” ou “O nosso agente em Havana”.

Steinbeck foi, posteriormente, muito injustiçado pela crítica pretensiosa que achava que era preciso diminuí-lo para exaltar Hemingway ou Faulkner como se não bastassem a estes dois últimos a enorme qualidade que tinham. Eu, comecei Steinbeck muito cedo, era autor lá de casa e muito adolescente já tinha “aviado” “A leste do Paraíso” e “As vinhas da Ira”. Um pouco mais tarde foi a vez do emocionantes “Noite sem lua” e “Batalha duvidosa”. Mais tarde ainda li divertidíssimo “Tortilla Flat” e “Cannery Row” e o belo “Viagem com o Charley” e devo ter visto três ou quatro diferentes encenações de “Ratos e Homens”, uma peça que não pode falhar num repertório teatral digno desse nome.

Será que Steinbeck vai ressuscitar em Portugl como já acontece com Somerset Maugham, outro injustiçado?

 

À selecção nacional sucedeu o que há muito se previa. Arrastou-se, deprimente e deprimida, pelos relvados do Mundial, sem nunca ter dado um ar da sua graça. O eficiente Uruguai exectou-a sem piedade. Os jornais juram que no campo teve mais domínio de bola, mais isto e mais aquilo. Mas o Uruguai teve os dois golos. Por mero acaso, o treinador português, Fernando Santos, sempre disse que num jogo a única coisa que vale é vencer. Bonito ou feio, artístico ou peado, o que vale á a vitória. Bom seria que os órfãos da selecção do “melhor do mundo e mais dez” se lembrassem disso e do que isso significa em termos de espectáculo desportivo. Ter sido campão da Europa (aliás um bambúrrio...) tem tanta importância como “os sinos da velha Goa e os canhões de Diu” expressão muito em voga no tempo da glórias e desventuras coloniais.

 

O senhor Primeiro Ministro e mais alguns ajudantes foi prometer iniciar as obras de requalificação do IP 3 (Coimbra Viseu). A ver vamos.

Entretanto, o que se viu foi a imagem das bordas da via atafulhadas de mato. Perguntado por isso, por esse convite ao fogo, o senhor presidente das Estradas de Portugal, escafedeu-se sem vergonha sem dizer água vai. Não percebo como é que ao menos um jornalista não o tenha perseguido sem descanso até a criatura reagir. Fica-nos da televisão a sua postura patética e pateta. Este cavalheiro é pago com os nossos impostos. Tem obrigatoriamente de responder.

 

A Dívida Pública (com letra grande e tudo) aumentou. É a mais alta de sempre. Aumentou tanto ou mais do que os protestos dos senhores professores, dos corpos constituídos da funçanata pública, dos avisos do BE e do PCP que mesmo perante esta evidência teimam em exigir mais dinheiro e para já, ao mesmo tempo que, inconstitucionalmente (repito, inconstitucionalmente) votam sobre o imposto sobre combustíveis sem perceberem que isso, aliás as consequências disso, é ”diminuir a receita do Estado” consagrada no Orçamento. É para isto que aquela gentinha se reúne no Parlamento?

 

* a gravura: máscara Fang  tipo "jano" 

29
Jun18

au bonheur des dames 455

d'oliveira

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Morreu a Fernanda

mcr 28.06.18

 

Maria Fernanda Vieira da Bernarda, anos 60. Alta e desembaraçada, uma “moçoila que respira saúde”, na expressão do meu primo Mário Leão, num dia em que foi a Coimbra manifestar a sua solidariedade à malta já em greve.

Conhecia-a uns anos antes da “crise”, da nossa crise, como me lembraram vários amigos que me foram telefonando e enviando mensagens desde a manhã de quarta feira, vinha eu para Lisboa fazer a minha visita mensal à velha, velhíssima Mãe e aos restantes cada vez menos familiares.

Noutros tempos teria reagido com mais emoção à notícia mas sabia, com vergonha o confesso, que a “Bernarda” (era assim que a Isabel Pinto, eu e mais alguns a chamávamos) estava mal, muito mal. Uma esclerose múltipla contra a qual combateu com serenidade, coragem e teimosia, tinha-a atirado para uma cama há vários (dez?) anos já. Eu ainda a vi, já em cadeira de rodas mas toda sorriso e alegria pelo reencontro com velhos amigos. Terá sido na última vez em que participei nas comemorações do 17 de Abril. Depois, o peso dos entretanto mortos começou a minar-me a alegria do reencontro e decidi não mais participar no que se ia transformando num velório de gente prometida à morte.

Todavia, a Bernarda era outra história. Não só fomos colegas (ter-nos-emos formado no mesmo ano, julgo) na faculdade mas, durante muito tempo, convivemos fora da “Alta” especialmente nos cafés conspirativos da praça da República (a “praça vermelha” como dizia um comum amigo que depois chamava ao café Mandarim, o “kremlin”). Pois foi nesse “kremlin” que muitas vezes nos juntámos, um alegre grupo que ia preparando a reconquista da Associação Académica ocupada por uma infame “comissão administrativa”, durante três longos anos.

Não vou fazer a história desses dias de vinho e rosas, de chumbo e desgosto, que isso está feito e detesto as memórias de antigo combatente.

Logo nos inícios de 70 estávamos, muitos dessa fornada, no Porto e, juntamente com o António Lopes Dias, a Isabel Pinto, o José Afonso e a “Bernarda”, formámos uma espécie de sociedade de advogados partilhando um escritório de cujo aluguer me encarregaram. (Em boa hora o decidimos que a senhoria ao saber o meu nome me perguntou por um tio avô e perante a minha resposta positiva logo nos fez um desconto de 500$00 mensais. O velho tio Alfredo Corrêa Ribeiro morrera entretanto e deixara ao pai da senhora uma espingarda. Agradecida, fazia-nos aquele enorme desconto...)

No Porto, o grupo vindo de Coimbra, ou melhor, o grupo que já era de amigos em Coimbra prosseguiu uma louca continuação da “crise” de 69, com o apoio de mais outra gente que ficara em Coimbra. Reuníamo-nos gravemente, várias vezes na casa que eu e a Maria João partilhávamos, outras na casa da Bernarda e do Zé Ferraz e tentávamos pôr de pé uma teoria conspirativa e revolucionária fora dos esquemas do PC e do recém nascido PS. Éramos todos sócios da “Centelha”, editora nascida em Coimbra e divulgadora de todos os heterodoxos marxistas bem como de muita e da melhor poesia portuguesa do momento. Quando um dos nossos, o Zé Afonso, então na tropa, nos avisou da iminência do 25 de Abril, foi o delírio. Distribuiram-se tarefas de apoio à intentona que nem foram necessárias pois, como se sabe, tudo correu bem. A mais louca ideia, proposta pelo Zé Ferraz ou pela Bernarda, consistia, caso fosse necessário, em fornecer uma cela para o general comandante da região militar em casa deles pois uma das casas de banho era interior e tinha tudo o que fosse necessário a um preso!

Éramos aliás vizinhos, no bairro onde ainda hoje vivo e lembro-me que quando me instalei no meu primeiro apartamento, logo a Bernarda apareceu com prendas várias desde uns copos e chávenas desemparelhados até um cobertor (eu entretanto divorciara-me). Não tive coragem para lhe dizer que tinha um enxoval completo... No nosso comum escritório prosseguíamos a nossa actividade de advogados de sindicatos e do que mais viesse à rede pois estávamos todos no começo. O pouco dinheiro que ganhávamos era rigorosamente dividido por todos fosse qual fosse o apport de cada um. Ao mesmo tempo íamos dividindo uma peculiar espécie de clientes gratuitos: a estudantada em revolta e o resto da oposicrática que ia aparecendo à procura de um advogado para o caso da polícia se interessar pelas actividades de alguém.

Com o 25 de Abril, demorámos algum tempo a decidirmo-nos onde cair partidariamente mas praticamente todos acabámos no MES e quase todos saímos de lá ao fim de um ano. Mais tarde, muitos, reencontraram-se no PS mesmo se nem todos tenham ficado por lá. Entretanto a Centelha faleceu de morte macaca afogada pelas dívidas de distribuidores que faliam com singular rapidez. Alguns, mas já menos, ainda criámos um livraria no Porto, a “Erva Daninha” que não obstante o nome durou apenas um par de estações. Nada disso, porém, quebrou a boa disposição ou afectou a amizade. Vínhamos de tempos duros, não queríamos (pelo menos a maioria de nós) galões de evolucionário nem prebendas do novo regime. Se nos aguentámos à tona e, de certo modo, prosperámos foi à custa de muito trabalho. Hoje está tudo na reforma ou quase porque há ainda alguns que acham melhor entreter-se a trabalhar do que calçar as pantufas. A Bernarda, essa, cedo teve de as calçar que a esclerose múltipla não é para graças nem dá tréguas. Houve casamentos e divórcios, claro mas singularmente todos os ex-cônjuges de que consigo lembra-me mantem as boas relações e a cumplicidade de antanho.

Dizem-me que no facebook, instituição que não frequento se vão multiplicando notícias e quiçá comentários. Todavia, faltaria a uma amizade de quase sessenta anos se não a recordasse aqui, neste pequeno canto tanto mais que alguns dos meus sacrificados leitores vem desses tempos bárbaros. Como alguém dizia, hoje, no velório, já nos podemos considerar relíquias senão sobreviventes. Ao encontrar esse quarteirão de amigos e conhecidos dezenas de outros me vieram à memória. Não estavam lá, nem poderiam estar. Subsiste a memória terna e frágil deles, caras e sorrisos de rapazes e raparigas que num momento único e irrepetível, num país naufragado e silencioso gritaram sem raiva mas com alegria e desafio a sua vontade de estar vivos e de viver.

E foi disso que falámos hoje na sala ao lado daquela onde jazia o cadáver da Fernanda, digo da Bernarda, digo da nossa boa, especial e querida amiga.

E nessa sala soturna pareceu-me ver, se é que não vi mesmo, o Osvaldo (Vává) Sarmento e Castro, o António Mendes de Abreu , o Zé Salvador, os dois Alfredos (Soveral Martins e Fernandes Martins, o João Bilhau. E outros, muitos outros, nomes delidos pelo tempo, pela minha incúria ou, mais provavelmente pela memória que já me vai traindo. Riam-se dos vivos envelhecidos que, de todo o modo, pareciam estar contentes por se reverem ao fim de tantos anos, tanta oportunidade perdida, tanto mar, tanto mar...

Vai esta dedicada ao João da Bernarda, com um forte abraço. Ele, mais velho e sem ligação ao meio académico, esteve connosco sempre, valente e bem humorado. A ajudar em tudo o que fosse preciso. Vinha da mesma cepa, é o que é. 

* a gravura: esta imagem está mais que vista mas onde estou não tenho acesso a nenhuma fotografia e na internet esta imagem era a única que podia usar-se. O resto era de gente que não conheço. Para quem, por milagre não saiba, esta é a fotografia das escadas monumentais tirada logo a seguir à inauguração do edificio das Matemáticas e ao "sacrilégio" dos insultos ao "venerando" Presidente da República. O que nós nos divertimos. 

21
Jun18

Estes dias que passam 374

d'oliveira

Direitos humanos...

mcr 21 Jun 2018

 

Parece que a razão avançada pela administração Trump para abandonar a comissão de Direitos Humanos da ONU residiria na solidariedade com Israel. Ou seja, em vez de nesse fórum defender com clareza e denodo o Estado israelita, os americanos desistiram, reconheceram a derrota perante uma súcia de Estados párias que só querem fogar os judeus no Mediterrâneo...

Tudo isto no exacto momento em que o presidente americano aperta a mão do norte coreano inimigo (agora milagreiramente descrito como homem inteligente e de bom senso)! É obra!

Vejamos, então, com mais pormenor o imenso respeito da administração Trump pelos direitos humanos.

Deixemos de lado o discurso sobre o muro que Trump (à imagem dos soviéticos em Berlim) pretende construir na fronteira com o México. Por enquanto essa bizarra construção só existe na mente paradoxal (ia dizer paranoica) do Presidente que pretende obrigar o vizinho do Sul a pagá-la integralmente.

Deixemos, também, as descrições e, sobretudo, as reportagens televisivas da actual fronteira onde, à falta de muro, há milhares de polícias rurais, de voluntários (!!!) de sensores luminosos e de som e batidas diárias em profundidade para apanhar os desgraçados que conseguem passar a fronteira. Às vezes, penso que a tenebrosa caça à raposa em Inglaterra tem mais fair play do que esta perseguição, este acosso, esta volúpia dos energúmenos caçadores todos, sem excepção, descendentes de outros desgraçados emigrantes que, ao cabo de inumeráveis sacrifícios, aportaram ao Novo Mundo.

Fixemo-nos, tão só nas jaulas onde estão encerradas milhares de crianças de todas as idades, assustadas, sozinhas, longe de pais e mãe, sem saber falar a língua dos carcereiros. Como crescerão estes meninos e meninas? Que traumas os atormentarão vida fora? Que segurança terão nestas jaulas pouco, ou nada, diferentes daqueloutras no Iraque onde a soldadesca enfiava suspeitos que, depois, humilhava, maltratava, violava ou, simples mas misericordiosamente, assassinava?

Dir-me-ão que, agora, perante a onde fortíssima de protestos na América, a administração Trump promete rever o seu procedimento. Em boa verdade, até isso parece surpreendente: então as justificações entretanto avançadas, incluindo excertos descontextualizados da Bíblia, deixam de ser ditas? São renegadas? Foi tudo uma infeliz má interpretação do que realmente se diz? Serão, sabe-se lá, “fake news” ou, apenas, uma versão “alternativa” dos factos como aquela das fotografias das multidões que celebraram a tomada de posse de Trump e de Obama?

A mim, já com largos anos às costas, poucas coisas ainda conseguem surpreender-me. Nasci durante a grande guerra, soube do gulag, do “grande salto em frente, fui testemunha ocular do que era o muro de Berlin que, com dificuldade, passei muitas vezes perante o olhar desconfiado do “Vopos” que multiplicavam os processos de busca e detecção nos carros raros que demandavam Berlin Leste. Vi demasiadas coisas, vivi outras tantas (e entre elas a prisão neste jardim à beira mar plantado) e permaneci em permanente estado de indignaçãoo até esta se tornar tão rotineira e me impregnar de pessimismo em relação ao futuro. Perdi a fé, recuei na esperança e creio pouco na caridade mesmo se, à falta de melhor, de Estado, de solidariedade activa e constante, esta me pareça uma forma, quase a única de tentar combater a desigualdade e a infelicidade de outros.

Todavia, crianças em jaulas é uma imagem idêntica à do menino judeu de braços no ar e estrla de David na aba do casaquinho, do outro menino árabe, esse, morto pelos soldados israelitas (vítimas como se sabe da sanha persecutória da comissão de direitos humanos da ONU...), do pequenino refugiado afogado que jazia numa praia do Mediterrâneo oriental, das crianças rohingya, de meninos africanos uns mortos outros armados com armas maiores do que eles. E por aí fora...

Dirão que confundo planos, realidades, situações, que misturo alhos com bugalhos. É provável. Porém, seja que imagem for, isto é inaguentável, indigna-me, faz-me chorar e envergonha-me. Profundamente!

Começa hoje o Verão. Começa exactamente daqui a minutos quando acabar de publicar este post. Apetece citar Shakespeare: Now is winter of our discontent (Richard III.)

Na peça este inverno é transformado em verão glorioso graças ao filho (ou ao sol) de York. Não ha, todavia, nada de glorioso neste início de estação. Nada!

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13
Jun18

Au bonheur des dames 454

d'oliveira

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Lá se foi Bourdain...

mcr, 13, 6, 2018

A inesperada morte de Anthony Bourdain (aliás suicídio) causou uma certa comoçãoo por todo o lado. Estrela televisiva, enquanto crítico gastronómico, AB conseguia trazer para a ribalta do pequeno ecrã, as gentes simples, de todo o lado juntamente com grandes estrelas do Michein e análogas distinções.

Ao contrário de outros (e recordo uma série de franceses, sempre eles, que continuamente

Viajavam pela França em busca de uma receita, de um “chef” original, de agricultores conhecidos pelos seus produtos de excelência) AB privilegiava os encontros de acaso, aquilo que, agora (ai a moda...) se resolveu chamar “street food”, expressão que oculta realidades muito distintas desde a “petisqueira” até às habituais refeições rápidas que alimentam centenas de milhares de pessoas que por quase todo o lado trabalham arduamente sem tempo para ir a um restaurante, sequer a uma cantina.

A primeira vez que me deparei com esse tipo de alimentação foi (há quantos séculos?...) em Berlin (na altura Berlin Ocidental, com cheiro a revolução jovem, ecos de Rudy Dutschke e a sombra anunciada e paralela da imprensa “Springer” e da “Rote Armee Fraktion” (ou grupo Baader-Meinhof que mesmo sem qualquer verdadeiro entrosamento social, deixaram na Alemanha Federal um rasto sinistro): havia por todo o lado umas pequenas carrinhas que serviam uma salsicha com molho de caril (curry wurst) e batatas fritas. O nome dquelas pequenas geringonças era “schnell Imbiss”, na prática “comida rápida”. Mais tarde, deparei-me com coisas idênticas na Holanda onde o forte era o peixe ou na Itália onde , esquina sim, esquina não, se compravam fatias às vezes generosas de pizza.

No domínio da petisqueira, era a Espanha a campeã. Vezes sem conta em Madrid mas sobretudo em Salamanca (entre a plaza mayor e a do mercado) jantei ou almocei “tapas” variadas e maravilhosas por preço módico a que acrescia um copo de vinho ou uma cerveja bem tirada.

Claro que, em havendo tempo (e mais dinheiro) a minha preferência recaía num restaurante (como no?) coisa que nas terras espanholas há em abundância e a a todos os preços.

Talvez por isso, sempre fui bom espectador de programas culinários fosse em que língua fosse desde que eu, mesmo vagamente, a entendesse. A maior parte dos cozinheiros, curiosos, gastrónomos, que aparecia, conseguia criar empatia com os espectadores, ou então era eu que, comilão e guloso (bons tempos...) me satisfazia com pouco.

Todavia, e voltamos à “vaca fria”, o meu primeiro encontro com Bourdain não foi pela comida. De facto, o diabo do homem, tinha outros talentos escondidos, o menor dos quais não seria uma escrita desenvolta e imaginativa.

Realmente, ainda andarão por aí exemplares de dois romances policiais, curiosos, bem escritos e inteligentes, da autoria de AB. São eles “U osso na garganta” e “sarilhos nas Caraíbas” ambos de uma editora quase desaparecida, a “Ambar”. No primeiro ainda há um jovem cozinheiro, quase o herói da trama. Já no segundo, mesmo se o mesmo jovem ainda apareça, não é ele a principal personagem.

Bourdain escreveu também “memórias” e livros de cozinha, fruto da sua experiência como “chef” em alguns restaurantes de nomeada de Nova Iorque. Porém, quando tive a sorte de lá passar por essa fabulosa cidade, ainda não sabia dele. E, provavelmente, não teria dinheiro (e provavelmente oportunidade, dado o sistema de marcações complicado nos restaurantes de luxo ou simplesmente na moda) para provar algum dos seus cozinhados. De todo o modo, deixa um vazio, amargo e pouco explicado.

Não sei exactamente porquê, mas o acompanhamento dos seus programas permitiu-me conhecer um pouco melhor povos e culturas, cidades que nunca percorri. O homem tinha humor, elegância, saber, cultura e praguejava que nem um carroceiro. Mas até isso, nele, era simpático, pelo menos para um “pobre homem” de Buarcos, terra de pescadores, mar e bom peixe.

RIP

* na gravura "caldeirada à pescador" versão da Figueira da Foz

31
Mai18

Estes dias que passam 373

d'oliveira

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Valha-nos Nossa Senhora da Boa Morte

Coisas simples e evidentes

mcr 31.05.2018

 

Uma Manuel (Maria) e um Manuel, gente do mais estimável e inteligente que por aí anda, ofenderam-se muito comigo quando lhes resumi sucintamente (demasiadamente sucinto) o meu post sobre a votação da eutanásia.

O Manuel quase que me gritou que eu seria contra a “despenalização”, acusando-me de querer mandar para a prisão, para o cadafalso ou para Vorkuta qualquer criatura que ajudasse outra a morrer.

A Maria Manuel avançou com o tema do aborto, com a luta de dez anos (aliás até reconhecia que dois sucessivos referendos não tinham tido consequências por falta de votantes).

Eu, velho ou novo reaccionário empedernido, lá ia dizendo que a AR entendera pronunciar-se sobre uma questão que não fora discutida pelos partidos e pelos deputados nela integrados durante a última campanha eleitoral. Que isso, só isso, feria a votação de ilegitimidade ética e política; que a famigerada discussão ampla e generalizada nunca existira, que o chamado direito à morte nunca por nunca poderá ser paralelo ao direito à vida; que os cidadãos eleitores tem o direito de conhecer as opiniões dos que solicitam durante um escasso mês o voto popular; que o facto de a eleição dos deputados não se fazer uninominalmente como em qualquer país civilizado em que o cidadão sabe perfeitamente que vota em A ou B e não numa turbamulta; que, no caso das cidades mais importantes (Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Coimbra ou Setúbal), a votação e eleição aparecem absolutamente opacas perante os eleitores mostrando os candidatos como simples peões de brega, fungíveis, como se de coisas simples se tratasse, torna esta Assembleia numa espécie de tablado onde os partidos levam a “voz cantante” e os deputados apenas levantam e sentam o cu para votar como manda o chefe que, por sua vez, mais não é do que uma correia de transmissão do aparelho obscuro que governa de facto o Partido; que –e isto é o mais importante – não basta legislar sobre a eutanásia mas sim sobre como se morre em Portugal.

Morre-se mal ou muito mal por cá. Cuidados continuados são como qualquer pessoa minimamente séria sabe mais raros do que os milionários do totoloto. Cuidados paliativos, idem, aspas, aspas. Quem tem dinheiro, desanda para as escassas instituições privadas que existem e são obviamente caras. Quem não tem morre no hospital ou é rapidamente mandado para casa onde morre na mesma no meio do desamparo e da mágoa impotente dos familiares.

Isto queridos, Manuel e Manuel, perturba-me, ofende-me, indigna-me. È que, a esmagadora maioria dos moribundos não quer morrer. Agarra-se à vida como a lapa ao rochedo. E os seus familiares, honra lhes seja, também não o querem ver desaparecer. Centenas de milhares, para não falar em milhões de portugueses tentam tudo para acompanhar os seus na hora da verdade. E isso vê-se até na hora da morte ou no dia dos mortos altura em que os cemitérios florescem desmedidamente como se as pessoas quisessem lembrar aos seus mortos que eles estão, por um simples dia, vivos, pelo menos na memória dos mais próximos.

Pessoalmente, gostaria que me evitassem sofrimentos inúteis, tratamentos caros e também inúteis para já não falar no temendo sacrifício que uma pessoa em fim de vida, doente ,incapaz e sofredor, impõe aos seus familiares. Vi, como morreu o meu Avô Alcino, uma caricatura de velho doente e envergonhado ( o Parkinson afectara-lhe a fala, retira-lhe o controlo de várias funções excrescentes o que o envergonhava medonhamente. Estava à mercê do filho, da nora, deste neto inepto ou de alguma empregada doméstica que provavelmente pensava que “não era para aquilo que a pagavam”. Vi o meu tio Joaquim, vaguear pelo Alzheimer, balbuciando palavras desconexas, o olhar enlouquecido não reconhecendo amigos ou inimigos, mulher parentes ou filho. Anos a fio... sofria? Não sofria? Logo ele que adorava ler, conversar, passear que se ria e pensava!

Todavia em um nem outro são, penso, candidatos a uma morte piedosa. O “famoso” sofrimento irreprimível não ocorrerá nestas duas cada vez mais presentes doenças da velhice.

Mas eu gostaria de ser poupado à humilhação (claríssima e sentidíssima no caso do Avô) de acabar assim os meus dias. E para isto não há, ninguém prevê, uma solução que preserve a decência da vida e limite no possível a tremenda decadência da pessoa.

Ou há: cuidados continuados, cuidados paliativos residências medicalisadas para os cada vez mais numerosos anciãos que sobrevivem mas subvivem.

Alguém lembrou isto durante essa inexistente e absurda discussão, durante essa desoladora votação?

Mas há mais e pior: Foram votados quatro projectos: convenhamos que eram profundamente semelhantes e as diferenças poderiam, caso houvesse votação na especialidade, ser praticamente apagadas. Então não é que as votações foram sempre diferentes. Que houve deputados, mormente no PS e no PSD que só votaram os “seus” projectos e contariam os restantes? Isto pode ser chamado de “voto de consciência”? Isto foi de um “elevado nível”? As intervenções foram, e estou a ser simpático, de uma vulgar mediania, recheadas de narizes de cera que mais pareciam trombas de elefante. O Parlamento deu-se em espectáculo a si meso e merecia um Eça e uma “campanha alegre” para descrever o que se passou.

Mas deixemos isto que é triste e penoso e passemos a um argumento refalsadamente indecente: a comparação com o processo da despenalização do aborto. A campanha durou anos e anos e baseava-se numa incontornável realidade: a prática transversal e generalizada do aborto clandestino. Ao que, na altura, se afirmou, em Portugal realizar-se-iam ano bom, ano mau, quarenta mil abortos. Quarenta mil entre os praticados por médicos clandestinamente e regiamente pagos aos “selvagens” no recôndito das aldeias ou das casas por métodos bárbaros que causavam a morte a não poucas mulheres e que deixavam muitas mais profundamente marcadas ou incapacitadas em diferentes graus.

A prática do aborto clandestino fazia parte do modo de ser português como aliás do modo de ser de muitos povos e países. A urgência em lhe pôr cobro era sentida por uma larguíssima maioria dos portugueses. Só que, neste caso, havia uma fracção ruidosa e disciplinada que era contra. Que ainda é contra. Que em certos países é violentamente contra. Que, por isso, chega a matar, a pôr bombas.

E havia mais: havia o perigo das malformações dos fetos; o resultado insuportável de violações de mulheres indefesas; a ignorância de muitas raparigas que, só tarde e a más horas, percebia que no amor nem tudo são rosas, ou sendo-o também há espinhos. Entre os mais pobres havia o terror de não poder alimentar mais uma boca.

Ou, por outras palavras: havia uma profunda consciência dos males de uma política sanitária de interrupção da gravidez não desejada ou perigosa. E tanto era assim que o recurso desesperado ao aborto clandestino e perigoso era banal, tocava todas as classes, religiosos e não religiosos. Havia, digamo-lo, uma clara reprovação da ilicitude de tal prática. E o sentimento generalizado de que urgia acomodar a lei às espectativas reais das pessoas, mormente das mulheres principais interessadas e principais vítimas. Por isso, uma vez, finalmente, votada a “lei do aborto” não se verificou nenhum protesto digno de nota nem sequer por parte dos que à lei se opunham.

E no que toca à eutanásia? Aqui as questões são diferentes. Em primeiro lugar, há a percepção de que ajudar a morrer é, ainda, matar. Depois, convirá fazer uma simples pergunta: quantos dos leitores que, como eu, não querem morrer na indignidade, no sofrimento intolerável e também não desejam que o seu pesadelo seja extensivo aos seres mais queridos e mais próximos, já tiveram a precaução de registar o seu “testamento vital”? Não pergunto, para não embaraçar nenhum/a dos deputados/as favoráveis aos projectos chumbados, se algum/a sequer se lembrou dessa pequena, fácil formalidade?

Se não erro, ainda não há vinte mil portugueses registados. Vinte mil num universo de nove (mas que fossem só oito...) milhões de adultos! Ou seja: perante a hipóteses de serem atingidos por doença ou acidente com consequências mortais e intenso sofrimento (para não falar na hipóteses de uma agonia lenta e extremamente onerosa para o próprio e para os familiares), apenas uma pequeníssima, insignificante minoria decidiu dar um passo, fácil e gratuito. Dispor que, em caso de impossibilidade futura de manifestar a sua vontade, o cidadão recusa tratamentos inúteis e nomeia simultaneamente um ou mais procuradores que velarão pelo respeito da sua vontade livremente tomada em plena consciência. Vinte mil, ou um pouco menos!

Esta é, para já, a imagem de uma sociedade que mais de cem auto-proclamados políticos afirmaram compreender, defender e representar. Não vou perder tempo e palavras com muitos, a grande maioria dos que no Parlamento lhes fizeram frente. Nem sequer, piedosamente, desejar que algum dia estejam perante o dilema da morte piedosa, seja a deles ou dos seus entes queridos. Não vá suceder como aquando do aborto em que à janela o atacavam e no quarto dos fundos ou numa clínica cara, o praticavam. Como bem prega frei Tomás: Olhai para o que diz e nunca para o que faz.

Mas isso é já uma outra guerra...

(nb Também não queria recordar um pequeno pormenor que parece ter escapado a muitos, senão a todos: Na União Europeia apenas três países, Holanda, Bélgica e Luxemburgo legiferaram sobre o tema. Por outras palavras, apenas 10% dos europeus da UE... Mesmo sendo um principio (com já 15 anos), é pouco. E revelador do estado da discussão ou do receio de a iniciar. Convém avisar que, justamente, nestes países, iniciadores da UE, existe uma excelente taxa de cobertura médica e de cuidados paliativos e continuados. Nada que lembre Portugal...)

* Na imagem: Nª Srª da Boa Morte  (Igreja de S Roque?)

29
Mai18

Diário político 226

d'oliveira

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É com certeza uma casa espanhola (e modesta...) 

 

O senhor Pablo Iglésias é, como se sabe, secretário geral da organização “Podemos”, força política radicada na extrema Esquerda espanhola e herdeira, pelo menos em avultado número de militantes, da fantasmática IU e de diversas pequenas, e praticamente desaparecidas, formações de Esquerda. Também recebeu o apoio (e integrou) avultado número de antigos militantes do PSOE. Neste momento é a quarta força política de Espanha depois de durante algum tempo ter ameaçado os socialistas. Desde a fundação até hoje, o Podemos já misturou muita água no seu vinho o que, justamente, lhe terá conseguido uma melhoria na quantidade de votos que tem obtido.

De todo o modo, não é fácil definir com exactidão o programa do novel partido justamente porque, como se sabe, é a prova do poder que finalmente traça as verdadeiras fronteiras da ideologia e da real intervenção política.

Todavia, não é a isto que vimos.

Há uns tempos atrás, em 2012 , o anterior ministro da Economia de Espanha (hoje no BCE) entendeu comprar uma casa por 600.000 euros. Tal facto originou um violento ataque de Pablo Iglésias que não só achava que quem gasta tal soma numa casa é “milionário” e por isso indigno de ser ministro, sobretudo da Economia, mesmo s Guindos tivesse tido excelentes lugares regiamente pagos antes de entrar na política. Iglésias, aliás, também declarava que uma casa de tal preço era um lixo disparatado e ofensivo.

Nas últimas semanas, Iglésias e a sua companheira, entenderam comprar exactamente pelo mesmo preço (ó ironia das ironias!...) uma casa situada numa zona privilegiada para aí viverem e educarem os filhos que estão prestes a nascer.

Estalou o escândalo entre a opinião pública espanhola. Iglésias pecava tanto ou mais que Guindos. Ainda por cima, recorria a uma hipoteca que representa exactamente 90% do preço da futura casa pagável em prestações mensais durante trinta anos, o que atira o fim da dívida do casal para os setenta e poucos anos. Fora o ordenado de deputados que ambos recebem, desconhecem-se outros meios de subsistência, mesmo se Iglésias tivesse sido professor e colaborado nuns simpáticos mas quase desconhecidos programas de televisão.

A militância “podemos” que aplaudira freneticamente a denúncia contra Guindos ficou entalada. A s críticas vieram de todo o lado e especialmente do presidente da câmara de Cadiz, o senhor “Kichi” que, pelos vistos, fez voto de pobreza e vive num apartamento minúsculo de 40 m2, situado numa zona popular e alugado.

Perante o arruído ensurdecedor e a geral gargalhada da restante classe política, Iglésias, sempre hábil recorreu a um estratagema: um referendo interno entre os apoiantes de “Podemos”. Dois terços votaram (como no?) no líder e casal hipotecado até às orelhas já pode dormir descansado na sua nova mansão que, por ser de revolucionários já não é nem uma vergonha nem um luxo.

(lembremos para os ex-amigos íntimos do Siriza grego que já o senhor Varufakis se deixara fotografar numa belíssima mansão com vista sobre a Acrópole: a revolução é sobretudo óptima e aconselhável para os outros, para os paisanos e demais patas ao léu que, embevecidos votam nos exemplares e humildes profetas do futuro radioso e dos amanhãs que cantam ((pelo menos para eles, acrescento eu)).

* na gravura a "casinha" em que questão. Fonte: internet

23
Mai18

au bonheur des dames 453

d'oliveira

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Todos os dias alguém morre.

Todavia, há mortos e mortos.

mcr, 23.05.2018

 

Júlio Pomar, 92 anos, muito (e bem) vividos, é já uma imensa saudade. Eu, admirador confesso seu, passei anos, décadas, à espera de uma oportunidade para comprar uma peça que me agradasse e que estivesse ao alcance da minha minguada bolsa. Mesmo fazendo sacrifícios, claro, que foi o que fiz para quase todos os objectos de arte que me enchem a casa.

Porém, nunca lhe cheguei. Se fosse um desses colecionadores do costume, desses que só querem ter o artista lá em casa sem cuidarem do seu gosto pessoal mas apenas da perversa fama de amadores de pintura, poderia eventualmente ter comprado alguma peça, quanto mais não fosse um múltiplo. Mas nem isso. Devo ter gostos caros, pelo menos caros para os meus rendimentos. Vi muitos, óptimos quadros de Pomar mas, logo que os lobrigava, a dúvida instalava-se: será desta? Não era. Nunca foi.

Talvez por atávico horror a comprar a crédito, a prestações, nunca tive qualquer hipótese!

Certa vez, num regresso de Paris, tive como companheiro de viajem um “marchand” vagamente conhecido. A criatura trazia na mão um rolo enorme. Sabendo que eu, na época, trabalhava para o Secretaria de Estado da Cultura, confidenciou-me que vinha ali, cautelosamente enrolado um magote de “Pomares”. “E o preço?”, perguntei-lhe, prometendo com tal pergunta calar-me perante a alfândega que nos aguardava. “Ai vai ter de ser compatível com o risco que corro... mas a si, por consideração posso fazer um desconto...”

Não sei porquê, ou aliás sei, a coisa não me cheirou bem e nunca fui pelo negócio. Ou pela negociata. Trinta anos depois, não me arrependo. Ou arrependo-me durante cinco minutos e deixo de me arrepender por mais uma longa temporada. Trabalhar na SEC tinha, para mim, algumas limitações. Por exemplo, nunca comprei pintura no “atelier” do artista mas só na galeria que o expunha. Isso significava um acréscimo de preço na ordem dos 30% (Hoje é o dobro!!!). Custa muito manter a fama de honradez. Ou de estupidez, como várias vezes me disseram. Que querem? Burro velho não aprende línguas nem enriquece.

Com a morte, anunciada aliás, de Júlio Pomar fecha-se o último ciclo de alguma pintura aparentada, mesmo que só por um escasso período de tempo, com o neo-realismo. Pomar nunca se deixou aprisionar por escolas e menos ainda por ideologias. Reinventou-se constantemente mesmo se, com o tempo e com paciência, possamos descortinar um caminho claro na sua pintura. E uma enorme alegria, um amor pela vida e um conhecimento profundo pela história da pintura. Nunca envelheceu. Ou melhor: envelheceu como os bons vinhos.

 

* Na gravura: Pomar no "metro" de Lisboa. Ou a grande arte pública para todo o público.