Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

13
Nov18

au bonheur des dames 464

d'oliveira

images.jpeg

It’s a long way to Tipperary

(tu est seul le matin va venir Appollinaire, “Zone” in “Alcools”)

Até Tipperary foi muito o caminho como se sabe. Quatro anos pejados de mortos, de mortos inúteis sacrificados por generais incompetentes e por tácticas militares há muito controversas.

Verdun ou o Chemin des Dames, para não falar de Passchendaele (julho –Novembro de 1917) onde só morreram cerca de 300.000 soldados, são exemplos da cegueira homicida de irresponsáveis militares que, mesmo contra toda a evidência, continuavam a tentar romper uma frente perigosíssima mandando para um infame matadouro dezenas de milhares de homens. Estes sabiam que só um milagre os salvaria das metralhadoras inimigas e mesmo assim avançavam. E avançavam porque na retaguarda havia quem os obrigasse a tal e quem à mínima falha os levasse a tribunal de guerra e ao fuzilamento.

Ao lado destas tremendas batalhas, La Lys, o nossos desastre (400 ou 1400 mortos os números variam. Certo, ou quase, é o número de prisioneiros: 6000), passa despercebido mesmo se os seus efeitos no debilitado Corpo Expedicionário Português (CEP) fossem medonhos.

Em Portugal, ainda é quase proibido (ou impossível) falar da Guerra e da nossa participação nela. Os “guerristas” (e nunca esquecer João Chagas que logo no início se fez ardoroso defensor da participação portuguesa na hecatombe- vale a pena ler “É a guerra” de Aquilino Ribeiro que foi testemunha do confronto desde o primeiro dia visto estar em Paris) entrincheirados no Partido Democrático mas com cumplicidades nos dois restantes grupos republicanos, viram na participação portuguesa uma porta aberta ao reconhecimento do regime por uma Europa bem arredia.

Pouco lhes importou verificar que se algo havia que defender não era na Flandres mas no sul de Angola e no Norte de Moçambique onde se temiam os efeitos de uma combinata anglo-alemã que, ela própria, está sepultada em tantas e tão contraditórias versões que custa destrinçar quais eram exactamente os termos desse acordo feito à custa de um Portugal colonial que ainda não ocupara com efectividade e segurança todos estes territórios.

Mas, e mais grave, era a situação militar interna. Vejamos: o corpo de oficiais do Quadro Permanente era maioritariamente desafecto à República. Para contrariar essa situação, a República contava com os sargentos e com a influência da Maçonaria e congéneres nas praças. A isto juntava-se a sempre prestimosa colaboração de grupos civis que, quando convocados, tentavam invadir os quartéis ou impedir a tropa de “sair” graças à famosa “artilharia civil” (assim se chamavam os bombistas).

A situação nos quartéis era, para usar um termo brando, uma calamidade onde a indisciplina se aliava às péssimas condições de instrução, aquartelamento, alimentação e fardamento.

Não existia Marinha digna desse nome, pese embora a fanfarronada de uma votação no Congresso (1911) em que se votou a compra de uma formidável frota que incluía couraçados e cruzadores em profusão. Foi a anedota da década. Portugal não tinha sequer meios para sustentar um couraçado quanto mais para o comprar.

E quem diz navios puramente de guerra diz igualmente uma marinha mercante eficaz. Pura e simplesmente não havia um único navio de transporte de tropas. Os cinquenta e tal mil homens mandados para França foram embarcados em navios ingleses. Por isso mesmo também (falta de transportes disponíveis) nunca houve rotação de praças e sargentos mesmo se tal estava garantido pelo Governo. Apenas os oficiais, e quase sempre, à sua custa, puderam vir a Portugal nos seus períodos de licença.

Para as colónias, sobretudo para Moçambique, seguiram algumas dezenas de milhares de homens, igualmente impreparados. Uma vez chegados, deparavam-se com a quase impossibilidade de se deslocarem por falta de mapas, de guias, de caminhos para já não falar do transporte da “impedimenta” essencial para quem vai ocupar longas extensões de fronteira a muitos e muitos quilómetros do local de desembarque. Mesmo aí, e nos locais de concentração de tropas, faltava tudo a começar por hospitais de campanha.

A campanha moçambicana foi toda ela um desastre inenarrável a que acresceu o facto de o país estar a defrontar o melhor general de toda a guerra: Paul Emil von Lettow-Vorbeck

(que nunca teve às suas ordens mais de 3000 brancos e 10/12.000 ascáris) cujas memórias foram editadas em numerosas línguas incluindo o português. Von Lettow derrotou quase duas dezenas de generais e, pelo menos, um marechal sem nunca ter sido vencido. Entrou em Moçambique, por onde se passeou quase até Quelimane, mais para se abastecer de víveres do que para bater o inerme Exército Português mesmo quando este era coadjuvado por ingleses e sul africanos. A campanha de Moçambique foi um fiasco e um desastre medonhos que se saldaram em quase 10.000 baixas (num total de cerca de 20.000 expedicionários “metropolitanos” e dez vezes mais “indígenas” entre soldados, carregadores e civis muitas vezes vítimas do exército português. As famosas vitórias (Kionga onde só havia um cão para defender a praça e Nevala tomada desprovida de tropas e rapidamente reocupada pelos alemães) são ensombradas pela terrível derrota de Ngomano, um desastre de inépcia que forneceu aos alemães toneladas de mantimentos, munições, roupa e armamento. Pior, muito pior do que o “desastre” de Naulila no Sul de Angola onde as coisas, apesar de tudo, correndo mal, correram melhor para as forças portuguesas.

Sobre tudo isto, sobre esta apagada e vil tristeza da 1ª guerra em África continua tudo como no tempo da outra senhora: ou seja num opaco silêncio que evita a verdade incómoda e cruel de um país incapaz de defender os seus territórios e que desviou para a Flandres mais de cinquenta mil soldados ligeiramente menos impreparados que os das colónias e que se mostraram inúteis na frente de batalha onde estiveram sempre desacompanhados.

É bom lembrar que os Aliados não queriam, não pediram, sequer sugeriram uma intervenção portuguesa. Bem pelo contrário. A Inglaterra apenas sugeriu o confisco dos barcos alemães mas a ânsia de reconhecimento da “República” fez criar um Corpo Expedicionário que foi transportado para a Flandres em navios ingleses, que lá chegado foi de novo treinado, fardado, alimentado, armado e enquadrado por exércitos ingleses.

Vale a pena ler os diferentes testemunhos de militares portugueses, escritos directamente das trincheiras ou em posteriores memórias. Em relação a estes “cidadãos” treinados em Tancos (o famoso “milagre de Tancos”, uma mentirola para uso caseiro) o Estado Português tem uma dívida tremenda pela incapacidade em amparar, aliviar e tratar decentemente os homens que fez sair de Portugal. Por junto, seé que isso foi benefício, a República aceitou (foi obrigada a engolir) capelães militares para auxílio espiritual das tropas profundamente religiosas.

Não vale a pena falar das consequências políticas e, sobretudo, sociais, da guerra em Portugal. Mesmo tendo em linha de conta, a curta duração do estado de guerra em Portugal (1917-1918), o país assistiu a uma forte crise (o Sidonismo), ao aumento brutal do custo de vida, à crise dos abastecimentos vitais, e à da habitação. Acrescente-se o esfacelamento dos partidos republicanos, o crescimento da oposição e o definitivo divórcio dos sindicatos. Quanto a governos entre 1918 e 1926 houve pelo menos 30 uma média que superou a da primeira parte (1911-1917).

Há ainda uma outra herança da guerra que não tem sido trabalhada. Boa parte da oficialidade regressada aderiu à oposição ao regime e fortaleceu e participou no golpe do 28 de Maio (entre todos, só para exemplo Gomes da Costa).

As comemorações do centenário do fim da guerra (entre as quais a “maior parada militar post 25 de Abril”) não deixaram espaço para, ao menos, se fazer um balanço deste desastre. Se não erro, o Sr. Presidente da República terá mesmo falado em “100 anos de paz”! se efectivamente o disse, Sª Ex.ª sofre de desmemória. Mesmo depois do fim da guerra, continuaram as “campanhas de pacificação” coloniais, em Angola, Moçambique e Guiné. Deixando de lado as inúmeras intentonas antes e depois do 28 de Maio, temos que, durante a 2ª guerra mundial, em que Portugal se declarou neutral, houve, a partir de 1943, a necessidade de mobilizar mais de 20.000 homens para “defender” os Açores. Aliás, e no mesmo período Timor, colónia portuguesa, foi ocupado pelo exército japonês registando-se ásperos combates entre os poucos portugueses ali residentes (ajudados por deportados políticos) e os invasores. Não há um número exacto de vítimas portuguesas (e aí incluem-se milhares de nativos). Chegou a constituir-se um corpo expedicionário a Timor que, se lá chegou, só entrou na colónia após o fim das hostilidades. Em finais de 50 a União Indiana ocupou o Estado Português da Índia tendo havido baixas portuguesas e muitos prisioneiros. Desde 61 até 74 travou-se uma (ou três) guerra colonial com avultado número de baixas para não falar nas do campo adversário e mais ainda as registadas na população residente (branca e negra). Portanto, quanto a paz estamos falados...

(escrito por mcr cujo avô Manuel da Graça Patrício Curado, oficial do “Exército Colonial”, participou na 1ª Guerra e em muitas as campanhas anteriores e posteriores em Angola, cujo pai Marcelo Heinzelmann Corrêa Ribeiro foi expedicionário nos Açores (S Miguel) na qualidade de alferes médico no Batalhão de Metralhadoras nº 2, cujo tio José da Cruz Curado foi expedicionário para Timor na mesma época. Esta é uma singela homenagem ao esforço, ao sacrifício e ao patriotismo destes homens cuja simpatia pelo Estado Novo era, se existiu, extremamente reduzida ou praticamente nula).

* o título relembra a mais famosa canção adoptada pelas tropas britânicas. A citação de Guillaume Appollinaire (morto na consequência de grave ferimento sofrido nas trincheiras) é do poema “Zone” (de 1912) e publicado em “Alcools”, um dos grandes livros da 1ª metade do século XX (e de sempre, aliás).

09
Nov18

Diário Político 212

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Aventuras do IVA

d’Oliveira (pagador líquido de impostos) fecit ).11.2018

 

O benemérito Governo que nos apascenta rumo aos amanhãs que cantam entendeu na sua sábia generosidade baixar o IVA num par de actividades culturais desde que elas se processem em recinto fechado. Os aplausos choveram mesmo que minguadamente. Actividades culturais em recinto fechado serão o teatro, os concertos de música clássica, o bailado (e ousaria referir a tourada que, ao que sei se processo em praças de touros Isto caso se considere que a arte tauromáquica é uma actividade cultural, coisa questionável por muito e pela sr.ª Ministra da Cultura).

Ficam de fora os mega-concertos em estádios (que ao fim e ao cabo também me não parecem espaços especialmente abertos e os chamados festivais de música mesmo se, até nestes casos haja claramente uma definição de muro e de porta(s) de entrada. A bem dizer, em vez de espaços fechados ficaria melhor a expressão de espaços cobertos e aí fora os teatros e restantes salas de espectáculos mais nada se descortina.

Vejamos, porém, o porquê destes “espaços fechados” atendendo, fundamentalmente ao que lá se passa. Teatro, cinema (desconheço se aqui o IVA é reduzido, ou se o é só em relação so ciema português e por aí fora), música erudita em todas as suas variantes, recitais e ópera. E o fado, claro, a alegada “canção nacional” que cabe em casas exíguas.

O resto, os espectáculos multitudinários continuam, se não erro, a ser alvo de um IVA de 23%.

A única razão que descortino para este gravame fiscal é de uma simplicidade encantadora. Estes eventos atraem milhares, dezenas de milhares de criaturas. Assim sendo percebe-se que a redução do IVA causaria uma séria quebra de receita para o, aliás simpático, Estado.

Ao contrário, em espectáculos em que a freguesia é diminuta, mais rara do que andorinhas no inverno, baixar o IVA não tem qualquer expressão significativa. Mais: a música erudita, o teatro e o bailado são substancialmente alimentados pelos cofres públicos, podendo, sem receio, afirmar-se que este auxílio estatal representa a maior (quase a totalidade) do orçamento dessas pequenas empresas.

A ideia que se apregoou para justificar a descida do IVA foi a de que, assim, os preços cairiam e o número de espectadores aumentaria. Com perdão dos estimados artistas, tenho as mais fortes e pertinazes dúvidas de que, repercutindo a baixa do imposto no preço final do bilhete, daí haja qualquer efeito quanto a aumento de público. E se, porventura, isso se verificasse, tal aumento teria seguramente uma expressão mínima. Custa dizê-lo mas esta é uma verdade pela qual aposto cem contra um.

Lembraria que a bolsa dos cidadãos, sobretudo nesta época de falsas vacas gordinhas, se mostra aberta aos mais extravagantes gastos e pouco dada às coisas da “cultura”. A menos que englobemos nesta mais do que elástica expressão, a televisão com o seu cortejo de novelas mal amanhadas, os cinquenta programas sobre o futebol, o “casamento à primeira vista, os medonhos reality shows, as longas tardes (e manhãs) de programas onde a ninharia é, apesar de tudo, o menor dos males. Ver aquelas sessões diárias em que um(a) apresentador(a) espertalhaço/a dá à manivela perante uma plateia de criaturas que aplaudem quando lhes é indicado, é, creio-o sinceramente, penitência para muitos pecados mortais. Mas pelos vistos é cultura. Como o é também a edição (toda ela) sem curar de distinguir manuais, de romances, ensaios de propaganda, relatórios de obra de criação científica.

( e já agora, uma referencia à edição discográfica. Passem por uma feira e vejam quantos discos estão à venda sob títulos sugestivos e pornográficos. Não se espantam: vendem-se como bolinhos)

Faltaria falar da imprensa onde tudo o que corre desde o cor de rosa à cor do burro quando foge, tudo passa pelo mesmo canal. Com uma especial atenção à cada vez menor quantidade e qualidade da imprensa dita cultural que anda por aí meio evaporada. As poucas publicações que se reclamam desse labéu (eventualmente infamante) vivem à custa de compras institucionais (Estado, Câmaras, bibliotecas, Institutos de divulgação de Portugal no Estrangeiro, etc...  

Aí estaria um trabalho para essa estranha máquina chamada Ministério da Cultura mas temo que à vista do que sabe, a coisa pareça mais complicada do que os 12 “trabalhos de Hércules” a começar pela limpeza das estrebarias de Áugias. E para a sr.ª Ministra, já agora, se é que a deixam meter (-se) nessa “peregrinatio ad loca incerta"...

* na gravura: cultura, sempre cultura...

08
Nov18

Estes dias que passam 379

d'oliveira

20130529093017837758a.jpg

 

Toirada à portuguesa ou garraiada infantil?

mcr  8-11-2018

Nos meus já longínquos tempos de infância, o Casino Peninsular (vero nome do estabelecimento figueirense) dava de longe em longe umas garraiadas insignificantes onde criancinhas tontas toureavam uns pobres vitelos assustados. Eu nunca apreciei tais festividades e, muito menos, as touradas a sério, Aliás só assisti a uma e foi tal o meu berreiro que os meus pais nunca mais me levaram com eles. Nestas coisas, detesto tudo, desde os olés até às pegas, o toureio a cavalo ou os matadores (que em Portugal só matam lá para os confins do Alentejo) bandarilheiros sem esquecer o “inteligente”.

Não gosto e pronto, mesmo se por isso não me sinta mais civilizado do que, por exemplo, o Manuel Alegre. Também não gosto de caça seja ela da de cá ou da grossa. Nunca percebi porque é que se havia de matar um leão ou um elefante, mesmo se este último desse carne para uma aldeia inteira e esfomeada.

E já que estamos numa de desgostos, nunca percebi o boxe, a luta livre ou aquela macacada a fingir do mesmo. Por uma vez irrepetível vi um festival desses no Palácio de Cristal onde um temível “mMascarilha” arreava em toda a marabunta. O público estasiado e entusiasmado rompia em impropérios e o lutador fingindo-se zangado chegava-se às cordas e ameaçava saltar cá para fora. Havia gente que se punha de pé preparada para cavar rapidamente, guinchando de emoção e de susto. Um horror!...

Apetece-me, já agora, falar do futebol profissional onde se assiste a tudo menos a desporto e seriedade. Desde as direcções dos clubes às claques raivosas, aos jogadores batoteiros cujo amor à camisola é o que se sabe, aos treinadores que entram e saem consoante os resultados, até ao público (aliás relativamente escasso) que se apresenta trajado a rigor com cachecóis e demais adereços e quando interrogado bolsa as mais extraordinárias teorias sobre o jogo a que assistiu, tudo me deprime. Mais me deprime, o nacionalismo bacoco com que se olham as Selecções ou certos jogadores (e não cito nomes, seguindo o actual pundonoroso silêncio que recai sobre ele(s)).

Todavia, nenhum destes factos me obriga a estatuir desde o Poder (que aliás, e felizmente, não tenho) com bojardas sobre a civilização ou a cultura (com letra grande ou pequena).

Porém bastou um suelto da actual ministra da Cultura para a discussão do Orçamento estar subvertida. Agora, fala-se do gosto ou da medonha tirania do politicamente correcto ou da incivilidade do espectáculo taurino. Uma tourada!

Eu não conheço a senhora ministra de turno na cultura. Provavelmente está à mesmíssima altura dos seus antecessores e Deus sabe o quanto valiam (os leitores porventura recordados do que por aqui fui escrevendo também saberão do afectuoso respeito que dediquei a tais criaturas).

Desta Ministra nada sei, ou o que sei é algo estritamente pessoal com que nada tenho, nem acho que alguém deva ter, justamente por ser do foro íntimo dela e nada de útil me dizer sobre as capacidades da pessoa, pelo que é irrelevante.

Porém, começa mal ou, pelo menos, desastradamente. Também é bem verdade que, não tendo sido consultada sobre o orçamento da sua actual pasta, pouco poderá dizer a não ser generalidades. A senhora ainda nem aqueceu o lugar e tenho a convicção de que deve andar um pouco perdida naquele labirinto de institutos e direcções gerais e regionais que se atropelam e raramente (estou a ser generoso) cooperam. Justamente por isso, devia abster-se de declarações avulsas e bombásticas. Uma vez feitas, deveria, remeter-se a um salutar silêncio e não insistir, com tanta soberba como falta de senso, na defesa do seu ponto. Não gosta de touradas? Eu também não! Acha que a civilização as condena ao desaparecimento? Gostaria mas não estou assim tão certo. Farto-me de ver por aí alminhas gentis a reinventarem danças e modas tradicionais (as mais das vezes com pouca tradição), a tentarem salvaguardar património construído sem uma ideia clara de como o manter útil e vivo ou amaldiçoar os portugueses actuais pelos feios pecados dos descobridores ou pelas conquistas de Afonso Henriques. Ainda se há de descobrir que Aljubarrota foi uma tentativa de genocídio dos castelhanos...

 

Sª Ex.ª quer uma causa? Ei-la: De Portugal saem anual, mensal ou semanalmente livros antigos cá editados de que só restam exemplares únicos na Biblioteca Nacional. Com sorte, também haverá alguns nas bibliotecas do Porto e Coimbra. No que toca à nefanda expansão portuguesa e ocupação (obviamente medonha) de África talvez existam também na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa que parece atravessar sérias dificuldades –este ano o Boletim é apenas virtual!-

Essas obras são compradas, e por bom preço, pelas bibliotecas universitárias americanas que também não desdenhariam adquirir colecções de arte africana em mãos portuguesas. As bibliotecas municipais, que uma campanha da antiga SEC (Secretaria de Estado da Cultura) estendeu a todo o país, não aceitam doações por não terem espaço (fizeram-nas sem depósitos que se vissem) por não saberem, por burrice, por não terem pessoal especializado. E ainda bem: algumas têm, nas mesmas caixas onde foram acondicionadas por doadores generosos, os livros oferecidos. À espera que a bicharada se eve nas folhinhas velhas mas tenras da livralhada.

O Ministério da Cultura teve um programa de ajuda à edição de autores portugueses e, por isso, recebia uma ou duas centenas de exemplares de cada obra subsidiada. Vi-as, com estes com que morrerei, em pilhas numa espécie de garagem. Felizmente havia pessoas que lá iam roubar um que outro livrito para ler.

Uma edição inteira (“Retratos de Camilo”) andou anos sepultada numa cave da DRN e, que eu saiba, nunca viu a luz do dia.

O resto (substancial) das edições da Comissão dos Descobrimentos andou anos num armazém nos arredores de Lisboa. Por várias vezes fui por alguns deles à loja da Torre do Tombo onde se vendiam alguns em saldo. Os que lá não estavam só poderiam vir se houvesse (mas não havia!...) quem por eles fosse ao citado armazém. Nos alfarrabistas, os mesmos livros atingiam preços especulativos (nomeadamente alguns exemplares da revista “Oceanos”).

Dessa gesta editorial há pelo menos uma história ridícula: a comissão entendeu editar o Atlas de Fernão Vaz Dourado. Todavia nem um fac-símile decente conseguiu fazer. A versão apresentada vem com os mapas reduzidos, os mapas de dupla folha por não estarem encarcelados estão ilegíveis na parte central. Enfim uma tristeza apagada e vil. Dirão os ignorantes que mais valia assim que nada. Erro, erro crasso: em 1948, graças ao Visconde da Lagoa, o Instituto de Alta Cultura patrocinou e a Livraria Civilização Editora pagou a edição fac-simile.

Actualmente, é empresa espanhola Manuel Moleiro Editores que oferece uma edição (absolutamente idêntica à da Civilização) com tiragem única de 900 exemplares. O preço é salgado, salgadíssimo. Se não estou em erro, foi um exemplar desta edição que o Rei de Espanha ofereceu ao Presidente da República em Salamanca!

Com os actuais meios, a INCM poderia editar o mesmíssimo fac-simile bastando-lhe copiar a edição de 1948. Coisa idêntica poderia ocorrer com o Atlas de Lázaro Luís (Academia das Ciências 1990) ou com essa prodigiosa colecção do Visconde de Santarém (os “Atlas du vicomte de Santarém”) que foi também republicada em 1989 pela Administração do Porto de Lisboa, sob a direcção científica de Martim de Albuquerque.

Todas estas edições estão esgotadíssimas e correm nos alfarrabistas a preços que nem vos digo nem vos conto. Outros exemplos de atlas devidos a portugueses pura e simplesmente nunca foram alvo de edição nacional (menciono apenas o de Diogo Homem (Moleiro ed) ou o Atlas de Pedro Teixeira (Siloe), mandado fazer por Filipe III (IV de Espanha) e que descreve maravilhosamente toda a costa portuguesa (englobada na costa geral da península).

Porém, agora me lembro!, estúpido que sou!..., tudo isto soa a “descobertas” nefandíssimo acontecimento que um ramalhudo leque de personalidades entende ser uma abominação. Não sei se a Sr.ª Ministra é do mesmo parecer mas aqui está um tema sobre o qual muito gostaria de a ouvir.

Sobre os seus gostos pessoais e as suas opções de vida não tenho qualquer curiosidade. Isto sim é que é ser civilizado, estar no século XXI mesmo se no anterior onde permaneci largas décadas já pensasse rigorosamente a mesma coisa.

(quanto ao Orçamento, é o que se sabe: a discussão está encerrada pois sabe-se à partida, que está aprovado mesmo que os parceiros menores finjam que querem mais. Querem nada...

* a gravura vem d antiquíssima Creta, a do minotauro. De todo o modo parece uma tourada mais simpática do que as actuai. Mas uma tourada, de todo o modo. 

06
Nov18

Au bonheur des dames 463

d'oliveira

images.png

 

Terça feira de todos os perigos

(e de todas as esperanças)

mcr, terça feira, 12.50 em Portugal, 8 da manhã em N York.

 

Há hoje eleições intercalares nos Estados Unidos. Disputam-se lugares na Câmara dos Representantes e no Senado. Neste último renovam-se 26 lugares ocupados por Democratas e nove por Republicanos. Só um milagre (assim o queira Deus...) poderá dar uma vitória aos Democratas visto ser mais fácil defender uma posição do que arrebata-la ao adversário. Neste momento as representações são quase idênticas havendo uma ligeiríssima vantagem republicana. Os democratas teriam de manter todos os seus lugares e conquistar três aos adversários. É obra!

Na Câmara dos Representantes havia até há pouco uma forte esperança de os Democratas conquistarem a maioria (actualmente detida pelos Republicanos). Pareci desenhar-se uma vaga de fundo acrescida de uma tendencial subida do número de eleitores jovens a que acresceria um cada vez mais notório repúdio das políticas de Trump. Mesmo assim, será bom não esquecer que grupos potencialmente votantes nos Democratas (por exemplo os operários brancos pobres) transferiram-se em massa para o campo de Trump motivados pelo que acreditam ser a defesa intransigente dos seus mal pagos postos de trabalho e a condenação da globalização, fonte de todos os males (sicut propaganda republicana). De facto, nas eleições presidenciais anteriores, o partido Democrata descurou esta frente, porventura desprezou-a e o resultado viu-se: Estados tradicionalmente Democratas acordaram num pesadelo Republicano. Notória culpa das elites educadas que habilidosamente Trump colocou no alvo.

Para além disto, que é assaz conhecido, há – por muito que nos espante a nós europeus – a ideia de que a América é novamente grande (great again) por ter batido o pé ao acordo de Paris, por enfrentar a China ou ter posto fim ao acordo sobre o Irão. Os americanos não esquecem nem engoliram a desfeita da ocupação da embaixada americana em Teerão, detestam os “amarelos” sejam eles chineses, coreanos ou japoneses, temem-nos e acreditam piamente que os europeus são uns ingratos e querem ver a sua defesa feita pelas ogivas e pelos marines americanos. Esquecem ou nunca perceberam que o mundo da guerra fria lhes foi favorável e que, no caso dessa guerra aquecer seriam os países europeus a linha da frente e as primeiras vítimas da URSS.

Mas, eventualmente mais grave do que este conjunto de percepções que assusta o americano médio há desde há semanas a “marcha dos emigrantes sul americanos” em direcção à fronteira sul dos EUA.

Convenhamos que a ocasião foi pessimamente escolhida se é que na génese deste movimento de pobres fugidos ao terror e à miséria não andou mão de conspiradores pró-Trump. É que a “ameaça” deste grupo de desvalidos deslocou a discussão política para terrenos favoráveis a Trump. É a defesa sagrada das fronteiras, a clara “ilegalidade” dos objectivos da marcha (entrar nos EUA “a bem ou a mal” – como se um punhado mesmo numeroso de desgraçados, onde não faltam mulheres e crianças em número avultado, pudesse fazer perigar a tranquilidade e os empregos no mais poderoso país do mundo!). As televisões tem mostrado fartamente esta pobre gente que tenciona caminhar mil e muitos quilómetros para aceder ao “novo e melhor mundo americano”. As declarações recolhidas são claras e (parece) feitas num tom tão afirmativo que podem passar por ameaças(!!!?). “Nada nem ninguém nos deterá!” é o lema mais ouvido. Nada? Ninguém? Sequer uns tiros (que Trump já desmentiu depois de ter ameaçado)? A prisão dos adultos em campos que hão de ser medonhos, a separação dos menores (o que angustia qualquer pai), os maus tratos? Sirva, para o efeito o exemplo do Texas, Estado republicano por excelência, onde um jovem turco democrata ameaça pela primeira vez com alguma consistência o senador Ted Cruz. Até há pouco o Democrata estava razoavelmente cotado nas apostas mesmo se, eventualmente, tal não chegasse para destronar Cruz (um adversário infeliz de Trump na corrida republicana à nomeação), político gasto e de origem “latina” (ao contrário de “Beto” O’Rourke, de origem irlandesa, bilingue saudavelmente parecido com o mito Kennedy. “Beto” é claramente a favor dos emigrantes mesmo se não fossem especificamente os da “marcha”. Com a campanha actual é provável que diminua ou não cresça suficientemente a sua base de apoio.

Quem estas linhas vai escrevendo, mesmo se tem poucas ilusões, conserva, apesar de tudo uma débil esperança no êxito Democrata na Câmara dos Representantes. Vencer aí seria já um princípio do princípio do fim de Trump. A América de Faulkner, de Armstrong e Ellington, de Aretha e John Ford, de Luther King ou Tony Morisson merece mais do um parolo nova-iorquino arruaceiro e mitómano. Andou-se por aí a falar de Bolsonaro mas este seu par do Norte é pior, mais perigoso, mais ignorante e mais fanfarrão. Se cair, ou pelo menos tremer, as suas réplicas sul americanas ou europeias passarão um pouco pior.

O que já seria muito, muitíssimo!

31
Out18

Diário Político 211

d'oliveira

 

Brasil, Brasis...

d’ Oliveira fecit 29/30, Outubro, 2018

Não sou brasileiro, nunca fui ao Brasil (e bem pena tenho) mas, desde pequeno, o Brasil faz parte da minha casa. O meu pai é (era) um carioca de gema e todos os seus parentes do lado materno o eram. Em boa verdade, um longínquo trisavô, fidalgote empobrecido saiu demandou as terras de Santa Cruz, estabeleceu-se bem longe da corte, no Rio Grande do Sul e amassou uma fortuna gigantesca, com sorte, bom senso, muito trabalho e provavelmente alguma ajuda extra. Mais tarde, um médico alemão chegou aos mesmos sítios e casou com uma neta do terra-tenente. Vem daí uma longa teoria de famílias Heinzelmann e Martins que alastraram do estado do sul até ao Rio. Um desses Heinzelmann, militar de carreira ainda se correspondeu comigo via internet. (“Ué que é que você é a vôvô?”- Respondi-lhe que trineto e daí uns tempos de correspondência até ele desaparecer no éter. Em boa verdade, devo-lhe uma lista de Heinzelmann desde o século XVI que o pai, também militar coligira com dificuldade, várias falhas e muita paciência).

Depois, o Brasil foi para mim, as “Selecções do Reader’s Digest”, a revista “Cruzeiro” que chegava a Moçambique, bem como duas publicações de “quadrinhos” (Gibi e Guri) que eram óptimas.

Um pouco mais tarde irrompia, na minha mocidade, a literatura brasileira: graças e louvores se deem a todo o momento à editorial “Livros do Brasil” que nos trouxe, Amado, Veríssimo, Guimarães Rosa, Lins do Rego e mais outros tantos – nunca esquecer a abençoada Clarice Lispector, Deus a tenha o seu lado direito, senão ao colo sé que ela deixa e o Senhor se atreve. Através do Cruzeiro chegavam-nos ecos das tragédias brasileiras, ainda me recordo do fim de Getúlio Vargas, dos escritos de Lacerda, dos desenhos e piadas de Vão Gogo e de toda uma plêiade de jornalistas e cronistas que se deixavam ler com um profundo encantamento. Já perto da Universidade, chegaram os poetas. Primeiro o Manuel Bandeira e depois, em turbilhão, Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto com quem tive a honra e o imenso prazer de conversar um par de vezes. E outros, muitos outros (uma comovida homenagem ao grande Vinicius de Moraes “o branco mais negro do Brasil” que vi e ouvi no Teatro Avenida de Coimbra, em plenos anos sessenta acompanhado por dois estreantes (Toquinho e Maria Creuza). Dessa época são também os “Jograis de S Paulo”, um quarteto de recitadores extraordinário de quem consegui há pouco gravar para “cd” dois Lp de primeira água (“Poemas de Fernando Pessoa” e “Poemas Brasileiros”) que nunca foram reeditados nem passados a cd!!! Estes quatro actores tornaram-se célebres porque, mais tarde, interpretaram muitas personagens de telenovela (assim de repente só posso lembrar o Nacib, da “Gabriela cravo e canela”, a única telenovela que vi de cabo a rabo. A partir dessa, nunca mais consegui prestar atenção às que se seguiram. Defeito meu ou “Gabriela... era imbatível?

Nunca perdi de vista a política brasileira (Café filho, Kubitschek, Jânio Quadros, Goulart e uma série longa de generais que acaba com um Figueiredo que, por acaso, era irmão de um Guilherme autor de um manual/tratado sobre os chatos que é imperdível e emparelha com os notáveis escritos de Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto. A “ditadura” saía dali bem maltratada...

A “democratização” teve dois grandes protagonistas, Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardozo. O primeiro foi uma esperança e o segundo lançou –mesmo quando alguns finórios esquecem a sua imensa obra (e bom teria sido se tivessem lido um seu artigo saído no “El País” há duas escassas semanas) mas FHC não cabe nos estreitíssimos quadros mentais de alguma nomenclatura lusitana sobretudo num apaixonado “madurista” coimbrão que só vê maravilhas na Venezuela e medonhas profecias nessa indigência chamada Bolsonaro). O resto das presidências do Brasil, por muito que isso custe a uma certa inteligentsia esquerdizante, morreu com o mensalão. Nunca percebi como é que houve quem passasse por entre as gotas da chuva desse imenso escândalo e se fosse aproximando da beatificação democrática. É que, nesse momento, ainda havia hipóteses de inverter a triunfal marcha do populismo que se alimentava da corrupção avassaladoramente crescente de um regime exausto que fugia para a frente semeando medidas populares sempre segundo uma conhecida receita sul-americana que Perón e seus sucessores inventaram para anestesiar a Argentina e manter até hoje uma coorte popular saudosa desses tempo de desastre nacional anunciado (nem os anos dramáticos da Junta Militar conseguiram -no meio de um cortejo de horrores- vacinar duradouramente os “descamisados”).

Pelos vistos, só entredentes e em voz baixa, é que há quem lembre as responsabilidades da “Esquerda” neste vertiginoso caminho para o abismo. A “Direita” só não aproveitava este desastre ético, social e económico se fosse absolutamente imbecil. E nunca, por nunca, o é.

Ontem, na televisão, o pomposo dr. Louçã insistia na tola trivialidade: Bolsonaro é “fascista”. Eis uma qualificação fácil, encantatória, própria de um sacristão retardado que, pelos vistos, não aprendeu a história do século XX. Bolsonaro é claramente de Direita, odeia homossexuais, criminosos ( e no Brasil, no último ano, houve vários homicídios por dia, parece mesmo que por hora!), tem uma devota admiração pela generalagem da última ditadura que, aliás saiu pelo seu pé sem revolução das massas ou golpe de algum quartel menos autoritário. Nada disto absolve os militares golpistas mas também não eleva a nenhum altar especial os seus opositores (que, uma vez caído o regime, se multiplicaram como os pães e os peixes evangélicos. Como cá, aliás, como cá...).

A democracia brasileira teve de tudo e, sobretudo, abundaram os políticos medíocres, os Sarney, os Collor de Mello, os Itamar Franco... A ascensão do Partido dos Trabalhadores foi fartamente ajudada pela mediocridade desta gente e poderia ter produzido um estado regenerado não fora a fatal atracção pelo abismo. A corrupção aumentou e com ela aumentaram os corruptos, os corrompidos, a exasperação de quem assistia a este deboche.

Quando o cerco judicial a Lula se começou a apertar, Dilma Roussef, a “presidenta” (é dela o termo tão enganadoramente feminista) não soube, ou não pode, ou não a deixaram, distanciar-se do padrinho, bem pelo contrário. Caiu com ele, perante o protesto dos que subitamente entendiam a Justiça como demasiado politizada. A mesmíssima Justiça que já tinha atirado para a prisão dezenas de poderosos empresários e acusado outros tantos para não falar da multidão de políticos indiciados e arguidos por corrupção. Mas a “Justiça” só é boa quando varre os nossos inimigos...

O PT, entretanto, não percebeu que um candidato preso não é um candidato credível. E que insistir nele pode ter efeitos imprevisíveis. E assim começou a surdir um candidato improvável, um deputado discreto que percebeu (e para isso não era preciso especial clarividência) que o eleitorado brasileiro achava insuportável o partido no poder, o sistema, o desemprego que crescia exponencialmente, a criminalidade incontrolável o custo de vida, as tentativas canhestras (sentidas, aliás, como ilegais, imorais e injustas) de libertar Lula.

Haddad, que poderia ter sido um excelente candidato original e não – como a sociedade brasileira pressentiu – um “pau mandado” (que reunia semanalmente com Lula!!!), um homem de palha que, uma vez no poder, amnistiaria imediatamente o seu mentor, foi escolhido quando o furacão já vinha a caminho. A pergunta que poderia fazer-se é se o aparelho “pêtista” sequer o queria, se confiava nele se não esperava apenas o momento de o defenestrar, uma vez ele eleito e amnistiado Lula.

Percebe-se a desconfiança dos outros candidatos ditos democratas, o mais que tíbio apoio (sempre “crítico”) que deram a um homem que fora, todos concordam, um bom governador de S Paulo, mas que não tem qualquer mandato electivo para poder agir num futuro imediato. De que modo poderá Haddad intervir? Terá o apoio do partido a quem evitou uma derrota humilhante? É bom não esquecer que, da primeira para a segunda volta, o PT com Haddad registou uma subida quase vertiginosa (de 22 para 44% mesmo se nesse número se possam, e devam imperativamente, contar-se com as vozes de todos que repudiavam Bolsonaro mesmo que a simpatia para com o PT fosse inexistente ou diminuta.

Por outro lado, o PT tem a maior bancada no Congresso onde campeiam cerca de trinta partidos. Com esta pulverização partidária, Bolsonaro não terá a vida fácil. Não me custa pensar que terá de misturar alguma água ao seu vinho se é que não será obrigado a engolir sapos, e bem gordos. O mesmo sucedeu, aliás, a Trump que já viu medidas programáticas suas serem derrotadas e abandonadas. Julgo mesmo que a privatização de algumas grandes empresas públicas naufragará na antiquíssima tradição brasileira, reforçada nos tempos de Getúlio que, se não erro, foi quem estatizou a Petrobrás, entre outras.

No que diz respeito às medidas securitárias, é bom recordar que a polícia depende das autoridades estaduais (e os Estados do Nordeste são pêtistas) pelo que, mesmo neste ponto extremamente melindroso, muita água passará debaixo da ponte.

A liberalização do uso e porte de armas levanta um curioso problema: pelos vistos, no Brasil, os criminosos sempre tiveram um acesso franco e fácil à aquisição de armamento (de que fazem um uso generoso e imoderado: não são apenas os 36.000 homicídios contados anualmente mas a quantidade provavelmente muitíssimo maior de agressões, roubos, ameaças e assaltos diariamente perpetrados o que faz com que muitos particulares sintam essa promessa como justa, leal e necessária. Tudo isto terá de passar pelo crivo do parlamento onde os bolsonaristas, lato senso, não detém a maioria.

O “fascismo” na sua essência pressupunha uma visão pagã da vida, um partido único, militarizado, organizações militarizadas da juventude, dos sindicatos, submissão das igrejas ao Estado quando não o seu enfraquecimento. Por muitas homilias que Louçã pronuncie, nada disto, pelo menos nos curto e médio prazos, é ou parece ser exequível.

De todo o modo, o discurso do futuro presidente do Brasil é assustador, repelente e não augura nada de bom. A personagem é antipática, o seu passado é risível e são permitidas todas as dúvidas (até as menos razoáveis) sobre a sua capacidade para governar. De certo modo, isso acaba por minorar algum receio (minorar, repito, não apagar) que eu tenha. Bolsonaro terá de se apoiar em alguém como já é patente no que toca à Economia (onde, temivelmente, parece prosperar um ultra-liberal) e na Casa Civil.

O Brasil, não sendo uma “tenda de milagres”, não é também um país conformista, habitado por dóceis fantasmas. O famoso “jeitinho”, o desembaraço, a atitude lúdica e desafiante de boa parte da sua gente, se levaram à catástrofe da corrupção instituída e respeitada, também permite pensar num combate vitorioso a esse estado das coisas e numa eventual eventual salvação. Assim seja

 

18
Out18

Diário Político 2010

d'oliveira

Remodelar, verbo transitivo

D’Oliveira fecit 17-Out-1918

 

Se apenas nos detivéssemos a analisar os discursos, prima facie, seríamos surpreendidos por esta brusca dança de cadeiras no Governo. O Primeiro Ministro andou nos últimos meses a dizer que tudo estava bem, que não mexia nas suas criaturas. Em jornais e na televisão esta foi a pauta musical mais usada. Usada, diga-se, até à exaustão.

Afinal, havia uns ministros exaustos, usados, desgastados. Alguns saíram no domingo depois de terem aprovado um Orçamento que outros hão-se cumprir. É bizarro mas é assim. Cavalheiros com o pé no estribo aprovam o mais importante documento que não irão cumprir! Portugal is different! Allways...

Há quem diga, fiando-se apenas no habitual nariz de cera desta ocasiões, que estes responsáveis saíram por seu pé. Que, ao contrário dos comentadores mais maldosos, inimigos do Governo, pedreiros livres, bolchevistas e tudo o mais que alguém se lembre, estas agora desaparecidas criaturas chegaram-se mansamente ao dr. António Costa e pediram com varonil insistência que as deixasse ir para o sossego dos seus lares, para o conforto da família, agora que o Natal está próximo...

Este “suave milagre” não tem grande base. Primeiro porque, se alguém quer mesmo sair, sai nem que seja a bater com a porta. Depois porque, pelo menos no caso do ex-ministro da Defesa, a sua defenestração estava na ordem do dia há meses. Só por birra bizantina é que a criatura não percebia que estava a mais, que, eventualmente, sabia de mais. Quem o viu, nas últimas semanas, garboso e marcial, ao lado do Primeiro Ministro que o cumulava de amabilidades, percebe perfeitamente que o homem se agarrava ao lugar como lapa ao rochedo. Estava, parecia dizer, de pedra e cal.

O senhor Ministro da Cultura, depois de mandado para casa, afirmou que fora muito feliz no seu ministério. Ora quem diz isto não faz supor que andasse pelos cantos do palácio a remoer mágoas e queixumes e a pedir pelas alminhas que o soltassem daquela medonha prisão da Ajuda.

O senhor Ministro da Saúde, não só permaneceu impávido e sereno (e muitas vezes com razão, demasiada razão...) perante os ataques de médicos e de enfermeiros, perante os remoques sobre o SNS (de cuja quase falência de nenhum modo era responsável: é bom lembrar que ali, na falta de meios, andou sempre a mãozinha de Centeno) foi, também ele, alvo da defesa pertinaz do chefe do Governo.

O discreto ministro da Economia que nunca conquistou as simpatias dos media, do público, das empresas e do resto, desdobrou-se nas últimas semanas num frenético rol de actividades, aparecimentos, promessas e declarações que, também, não prenunciavam qualquer ímpeto de abandono. Bem pelo contrário.

E por aí fora (sem esquecer Seguro Sanches que sai para alegria de todos os que andam a ganhar a vidinha cobrando ao Estado, melhor dizendo a nós, balúrdios muito mal justificados se justificação cabe aqui).

A imprensa, falada e escrita, jura que esta mudança tem em vista fortalecer a componente política do Governo. Não consta que, por exemplo, a dr.ª Graça Fonseca conheça melhor o mundillo cultural do que qualquer dos seus antecessores. Sabe-se, isso sim, que é uma fiel entre os fieis de St. António Costa pai dos milagres sucessivos. Idem quanto ao jovem Galamba cujo conhecimento das políticas energéticas é desconhecido de todos. Mas, também ele, é um fiel mais seguro do que o embaraçador Sanches que de seguro só tinha o nome.

Diz quem sabe que a novel ministra da Saúde tem sobre o sector um olhar que não se diferencia especialmente do substituído ministro. Mas que este estaria desgastado pela violenta e persistente ofensiva das corporações da saúde e pela endémica falta de dinheiro. A ver vamos se, como no das rosas, haverá o milagre da multiplicação de verbas para a Saúde.

As remodelações ocorrem quando algo começa a falhar ou para, pelo menos, dar a imagem que há algo de novo no horizonte. A “novidade” é um produto que vende bem sobretudo em época pré-eleitoral. Todavia, lembremos que vinho velho em odres novos não demonstra nada, mesmo se o provérbio fale em vinho novo em invólucro bem antigo.

E finalmente, a pergunta ou a constatação: estes novos responsáveis vão governar dentro de umas balizas orçamentais para as quais em nada contribuíram. É verdade que o Orçamento só fecha depois da discussão no Parlamento. Mas alguém acredita que, depois de tanta discussão no interior da “geringonça”, mude algo de substancial? Que os recém chegados Ministros que terão de penar um par de semanas só para conhecer os corredores do seu ministério e alguns dos mais importantes dossiers, poderão ter na discussão uma intervenção realmente produtiva?

As remodelações são sempre uma aposta ou, no pior dos casos, um remedeio para situações controversas (ainda hoje, em França, se noticia uma e seguramente que na Alemanha estará na forja algo do mesmo género dada a nova situação criada na Baviera onde a CSU registou –mesmo vencendo – o seu pior resultado em cinquenta anos E o SPD quase despareceu: tem menos de 10% dos votos e e 2º partido passa a 5º).

As espectativas que geram ou pretendem gerar é que não são sempre as mesmas. Por cá, o mais interessante foi a reacção dos parceiros da coligação. Apanhados de surpresa, reagiram comedidamente para não dizer desconfiadamente. É que dois cenários se perfilam: Costa quer a maioria absoluta ou tão só pretende evitar a usura de mais um ano complicado. Convenhamos que este é o que mais conviria ao BE e ao PC, sobretudo ao primeiro. Só que, neste caso, há uma confissão de que nem tudo o que brilha é ouro de lei. E, nesse caso, os partidos que, fora do Governo, o apoiam também devem pagar parte do prejuízo.

Claro que nada disto, neste momento, permite que a Oposição se entusiasme. Os anos de governo de Passos (nem sempre justamente) são considerados os da crise. Sócrates está demasiado longe para que alguém se lembre da falência trágica que fez a Troika entrar em Portugal. E, para maior ironia, o tratamento de choque aplicado pela coligação de Direita está na base do ressurgimento que, anos depois, se verificou e ainda se verifica. Isso e a política do BCE, o imenso esforço de reconversão das indústrias exportadoras e a vaga de turismo sem precedentes propiciada pela insegurança na grande maioria dos destinos turísticos mediterrânicos.

Dir-se-á que o povo português pagou um alto preço nesses anos dramáticos, a começar pelo desemprego. Também aqui, convém separar as águas. Foi o sector privado quem, de facto, sofreu a vaga de falências, de despedimentos, de empresas encerradas. E a emigração. Os funcionários públicos mantiveram os seus postos de trabalho mesmo se, como com os professores viram algumas espectativas bloqueadas. Aliás, os famosos 9 anos, quatro meses e não sei quantos dias dos senhores professores não começaram com Passos mas sim, antes, com Sócrates. O mesmo Sócrates que na iminência das eleições de 2009, aumentou os vencimentos da Função Pública...

No entanto, na hora do voto, a memória não costuma mergulhar tão longe e é com isso que Costa conta.

Ainda é cedo para analisar as medidas propostas no projecto de OE. Algumas, porém, são apenas fachada. Assim, a proposta de diminuir em 50% o IRS dos emigrantes que regressem só terá impacto se de facto houver regressos. O que parece pouco provável pelo que até à data se conclui das declarações dos interessados. Não vejo um enfermeiro, por exemplo, a trabalhar na França ou na Inglaterra a resolver baixar fortemente o seu salário atual para vir ganhar o que os congéneres recebem em Portugal. A incidência de 50% no IRS não parece argumento suficiente.

Outro ponto, que aliás me surpreende, é a baixa generalizada de propinas universitárias. Tal facto aproveita a pobres, remediados e ricos. E embaraça as universidades que, a secas, perdem 50 milhões de euros que, eventualmente, serão repostos pelo Estado. Porém, como afirmava a Federação Académica do Porto, esses milhões permitiriam duplicar o número de residências universitárias. Ora o alojamento de estudantes nas maiores cidades (Lisboa, Porto, Coimbra ou Braga e Aveiro) está caríssimo e raro. Os duzentos euros que cada estudante pagará anualmente a menos são uma gota de água no preço de quartos que atingem e até superam os 500 euros mensais.

Esta medida foi apresentada pelo BE e aceite pelo PS. Percebe-se que o BE saído da burguesia urbana de Lisboa e Porto não sinta com a mesma urgência o problema dos jovens deslocados da província. Ou não se percebe, mas isso é outro contar...

Também não se vê um abrandamento na incidência dos impostos indirectos, os mais danosos porque atingem todos. Atingem desigualmente, ao fim e ao cabo, visto que o mesmo imposto no preço de um quilo de batatas tem significados diferentes consoante se ganhe o ordenado mínimo ou um salário de, p.e., 2000 euros.

O Orçamento é sempre um instrumento político o que não é grave. O problema dos orçamentos feitos no fio da navalha é outro: basta que os juros subam, ou subam mais do que o previsto e a dívida dispara e o deficit aumenta. Mesmo que não se espere nada de dramático, não deixa de ser preocupante o facto de todas as previsões indicarem uma atenuação do crescimento. É por isso que a OCDE e o FMI discordam da previsão optimista de Centeno. Por outro lado, a guerra comercial EE.UU. /China e o desenlace do Brexit, deixam pairar mais sombras do que luz sobre os anos mais próximos.

Há pois mais incertezas do que as que nos querem fazer crer. Claro que não é morte de ninguém um défice mais alto, ligeiramente mis alto do que o proposto. Há caminho feito e poderemos esperar mais um ou dois anos pelo equilíbrio orçamental. De resto, os orçamentos são sempre passíveis de medidas de correcção (“retficativos”), como se viu em anos precedentes. Não se pretende ser profeta da desgraça (nem ela é desejada, bem pelo contrário) mas convém gastar menos nos foguetes no caso de ter de apanhar as canas na cabeça. Cautela e caldos de galinha nunca são de mais.

 

(nota que tem pouco a ver: o Chefe de Estado Maior do Exército demitiu-se. Menos um trabalho para o Ministro Cravinho. Não poderia desejar melhor ao filho de um bom, velho e leal amigo).

 

 

16
Out18

au bonheur des dames 462

d'oliveira

d89e8c8e1528bc9e4d7591c7bb299a51.jpg

 

Evidências...

mcr 16.10.18 

O Sr. Professor Azeredo Lopes já era. Aqui, muito à puridade, há meses, desde o fatídico dia do roubo de Tancos, que o senhor deveria ter feito a trouxa e regressado a penates.

Todavia, S.ª Ex.ª nunca percebeu, apesar da fama de inteligência de que goza, o que é costume chamar-se “responsabilidade política”. Pior, mesmo inteligentíssimo, andou dias, semanas, meses, a bolsar tolices sobre o caso, a fugir com o dito cujo à seringa, tornando-se uma figura anedótica no Governo. Parece que nunca o percebeu e que o Sr. Primeiro Ministro também não. Bizarrias!...

Quem parece também não ter percebido nada disto foi o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros: o Sr. Professor Santos Silva acha que esta demissão, quando já tudo estava perdido, “enobrece” o seu amigo e colega. Das duas uma: ou o Sr. Ministro Silva não sabe o que significa a palavra nobre e o verbo dela derivado “enobrecer” ou anda a “chuchar com a maralha”. Será que pensa que somos uma caterva de idiotas, só úteis no momento do voto, ou julgará, do alto de uma incomensurável e deslocada prosápia, que nos atira areia para os olhos?

A esfarrapada desculpa do doutor Azeredo Lopes ( a defesa da dignidade das forças armadas) roça o insultuoso. Ainda por cima foram elementos das FA que traficaram a verdade, que esconderam a verdade (as altas chefias do Estado Maior, cujo actual vice-chefe foi chefe de gabinete, recebeu um memorando e o guardou até há dias quando foi obrigado a entrega-lo!...; os dirigentes da PJM que, mesmo sob a alçada do Ministro, não deixam de ser oficiais superiores, um coronel e um major...) Tudo isto é patético, pateta, supinamente estúpido. Basta este leque de ramalhudas personalidades para deitar abaixo qualquer prestígio que existisse. Vão ser precisos anos para se extinguir o riso (e a vergonha) que um caso ridículo como este suscita. Leiam, senhores leitores, o que a imprensa internacional relatou. Leiam e meditem. Não peço aos senhores generais, aos senhores que foram condecorados, aos senhores que esconderam este lixo debaixo do tapete, que leiam eles também. É que ponho em dúvida que saibam ler, ou sabendo-o, que saibam perceber a enormidade deste episódio de faca e alguidar.

A demissão nada teve de nobre, sequer de convincente, tratou-se de um naufrágio numa banheira de água doce sem qualquer laivo de história trágico-marítima. E veio com um atraso maior do que os actuais comboios da CP (isto quando circulam o que quase só é a excepção e não a regra).

 

O mundo cultural entrou em polvorosa com o “estranho caso de Serralves” (título que respigo hoje do jornal). Ninguém percebe como é que o sr. Ribas, curador da exposição Maplethorpe se demite. Eu ouvi o presidente da sociedade Maplethorpe, um cavalheiro inglês ou americano, dizer impavidamente que tudo se passara sem atritos nem censuras. Que haver uma sala “reservada” era já um hábito, que o programa de Ribas fora totalmente executado, que a Administração de Serralves agira correctamente sem impor o que quer que fosse. Ouvi os senhores representantes do Estado na Administração dizerem o mesmo. E note-se que os representantes do Estado são independentes do poder financeiro local que vai dando a os lugares a quem entende. Ainda não ouvi o sr. Ribas que mantém o seu surpreendente silêncio já lá vão quase duas semanas.

Isto não pode ser uma novela de Agatha Christie, sequer de Ross Pynn (que afinal era o portuguesíssimo Roussado Pinto, cavalheiro inteligente que percebera que só com nome anglo-saxónico – ainda não estavam na moda os autores do Norte europeu- é que os leitores compravam os livros). A sr.ª dr.ª Ana Pinho, que não conheço de lado nenhum, que porventura jamais conhecerei, já disse que em nada pressionara o sr. Ribas. Porém, alguns alegados “amigos da verdade” insistem em tornar pública a sua incredulidade e, indirectamente, em defender o sr. Ribas do qual, infelizmente, não temos novas nem mandados.

No rescaldo desta novela luso-portuense ficou a saber-se que Serralves recebeu dos cofres públicos no último ano, mais de quatro milhões de euros! E que isso é o normal!! O normal todos os anos!!!

Se nos lembrarmos que Serralves foi comprado pelo Estado, que as obras foram pagas pelo Estado, que grande parte da colecção residente pertence(u) ao Estado, Mirós incluídos, percebe-se porque é que o Estado nomeia dois administradores e, aliás, conviria perguntar qual é a percentagem das entregas do Estado nas receitas globais da Fundação. Eu tenho o maior dos apreços pelo esquema do mecenato privado, conheço inúmeros casos mormente americanos, ingleses e franceses, contribuo regularmente nas campanhas lançadas por museus estrangeiros e nacionais para a compra de peças importante e caras para as quais não há recursos públicos. Já tentei, até agora sem êxito, oferecer a minha biblioteca (mais de vinte mil livros, centenas de primeiras edições, algumas raridades, mais de mil títulos sobre “expansão portuguesa”) a uma Biblioteca. Nem sequer pedia que citassem o meu pobre nome, era o que faltava!, ou que não vendessem os títulos mais comuns e sobrantes para com isso fazer face às despesas de instalação dos restantes. Propus-me mesmo legar, do mesmo modo, cerca de 10.000 discos (LP e CD), uma dúzia de esculturas, quase um cento de pinturas, gravuras e múltiplos, para já não falar de uma colecção de máscaras africanas (e não há assim tantas no domínio público português). Nada! Muito entusiasmo mas nada. Não há espaço. As bibliotecas públicas estão atulhadas, tem pequeníssimos depósitos e, pelos vistos, cada vez menos leitores. De resto conheço várias, que tendo recebido belíssimas colecções as mantem nos caixotes originais sem sequer as classificarem. Bem me dizem os meus amigos alfarrabistas que o melhor será os meus herdeiros dispersarem uma biblioteca amorosamente reunida durante mais de cinquenta anos em leilão. O mesmo me diz o sr. .Keita, um cavalheiro do Mali, dono de uma galeria de arte africana e que está o organizar as colecções dos seus clientes num site e, posteriormente, caso estes queiram, colocá-las em mercados americanos e/ou mundiais. De resto, os americanos compram mensalmente dezenas de livros editados em Portugal desde que toquem expansão africana, colónias, mapas e atlas portugueses e por aí fora. O indigenato local e quem o representa não vê este êxodo de boas publicações só se lembra de obras de arte que muitas vezes nem na segunda divisão mundial alinham. Aí é um alarido de críticos, curadores, conservadores e outros falsos tenores que apontam os dedinhos acusadores ao Governo.

 

Em boa verdade, O Governo é , como sempre, quem tem todas as culpas. Ainda há uma semana umas centenas de artistas (ou de criaturas que se apresentam como tal...) apresentou ao sr. Primeiro Ministro um abaixo-assinado denunciando o facto nefando de o Estado, os Museus, as autarquias e o resto das entidades públicas, dependentes dos dinheiros públicos (que todos nós pagamos convém lembrar), não comprar ou não adquirir, na quantidade suficiente, os fulgurantes frutos do seu trabalho.

Note-se que nem sequer se dignaram passar pelo “Ministério” da Cultura onde pontificava até domingo um senhor embaixador e poeta (ou vice-versa) que – como a sua produção literária – obrava com a máxima discrição.

Eu não sei se o sr. ministro em causa se demitiu ou se o demitiram. Por mim, bastaria essa desatenção das massas supostamente artísticas e o seu recebimento por qualquer criatura da presidência do Conselho de Ministros para imediatamente fazer as malas e, sem olhar para traz, rumar aos antípodas. S.ª Excelência, porventura movido por um exagerado sentido de Estado calou, consentiu e esperou patrioticamente que o corressem do palácio da Ajuda. E jura que foi “muito feliz", naquele ministério ninho de víboras, desencontros, conspiratas e clãs inimigos que se degladiam.

Espero, sem especial fé, que não tenha sido a desfeita levada a cabo pelos vociferantes artistas pedinchões, que fizeram cair o ministro. Que ele não tinha vocação para tal cargo é um facto indesmentível mas isso notou-se logo no primeiro dia. Se culpado há, não é ele mas quem o escolheu. Bem sei que era para substituir um valentão de feira que queria esbofetear meio mundo (é certo de que da ameaça aos factos iria sempre um passo que era difícil de dar. Daí a incredulidade tranquila dos ameaçados e a inveja de muita gente que gostaria de dourar -mesmo vagamente- os seus pergaminhos com uma tão tonitruante como incongruente declaração de guerra).

Voltando à multidão de solicitantes do favor público (que pretenderiam juntar-se a outros ajuntamentos mormente os dos teatro e do cinema) seria bom recordar que a sorte ou o êxito dos artistas plásticos depende essencialmente do público privado, das galerias que os expõem e dos prémios com que brindam os melhores. Estou à vontade para o afirmar pois sempre (ou até me fartar) fui “habitué” de galerias e exposições e, durante anos, comprei arte nesses mesmos sítios. As paredes foram-se enchendo e os preços subiram graças a uma desenfreada especulação alimentada pelos anos de vacas gordas e pela gentinha que à falta de gosto queria comprar para depois vender. Muitas e importantes galerias dedicaram-se a solicitar essa fauna e o resultado viu-se: subiu artificialmente cotação de vários artistas (sem que estes protestassem ou sequer se dessem por achados) e quando a crise –ainda nos anos 90 – chegou tinham desaparecido os pequenos colecionadores enquanto os especuladores iam em busca de outros espólios. Disso ficou um rasto de galerias fechadas, de criadores desamparados, de cotações artísticas esvaziadas. E amargura, muita amargura.

Conviria dizer aos actuais protestários que quem deve ser convencido da sua excelência, do seu génio, da sua implacável novidade, somos nós, o público que durante séculos, aliás sempre, foi quem comprou pintura, fotografia, pequena escultura, livros, foi ao teatro, ópera ao bailado e ao cinema. Por muito que isto possa parecer filisteu...

O Estado e boa parte das instituições estabelecidas jamais apostam na aventura, na novidade, na iconoclastia. Bem pelo contrário: dão a primazia ao académico e ao consagrado. E por vezes ao mau gosto ou, na melhor hipótese, ao gosto requentado. Bater à porta dessa instituição é um exercício fútil. Ou uma íntima convicção de que a nossa obra (a deles...) é cediça. A menos que se pense que, em pré-época eleitoral, o partido no poder compre arte em troca de votos. Cruel engano: os governos querem grandes massas e não umas escassas centenas de “artistas”. Querem nomes consagrados e não génios em botão. Querem artilharia e não tiros de pólvora mais ou menos seca.

 

A semana que passou e que terminou ontem com uma tomada de posse foi, do ponto de vista político, isto. Com um furacão à mistura e a passagem do primeiro aniversário dos fogos de Outubro de 17. Ao que ouvi, não houve ainda uma verdadeira limpeza dos matos e, muito menos, dos rebentos infestantes de eucalipto. Irá haver enquanto é fácil e se vai a tempo? Quanto às empresas arruinadas está ainda muito por fazer ou refazer. E isso significa muitos postos de trabalho no interior. Também os criadores de gado, os donos de colmeias esperam por ajuda. Infelizmente são poucos milhares divididos por cinco distritos com poucos deputados, ou seja que não valem uma aposta. E não se juntam às portas de S Bento nem são notícia nos jornais.

* na gravura: máscara kanaga (povo dogon. Mali)

 

12
Out18

Au bonheur des dames 461

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

No Chiado, pelo fim da manhã

(indignado...)

mcr 8-10-18

 

Venho da rua do Alecrim, melhor dizendo da livraria Trindade. A livreira gentil que me atendeu estava desolada. Acabara de receber uma notificação do senhorio: tem um ano (oh generosidade, e isto não é ironia, normalmente dão umas semanas, dois ou três meses para arrumar a trouxa e desandar) para procurar outro canto para viver.

Estava na casa que inda é dela há muitos anos. E pagava uma renda actualizada recentemente. Todavia, a pressão turística, a miragem de lucros “à- Robles” (esse mesmo, o defensor do direito à habitação, o cavalheiro que na ânsia de servir melhor os interesses dos munícipes comprara um prédio velho e o dividira em onze apartamentos T/0 para poder seguramente beneficiar onze famílias. Como não terão aparecido decidiu vender o imóvel por uns milhõezitos de euros, coisa pouca, para quem arriscara quase 300.000 euros...).

É verdade que o senhor Robles já não é vereador, eventualmente já não tem cargos dirigentes no grupo justiceiro de onde surdira, quiçá nem militante já é... , entretanto, o mesmíssimo grupo que assobiara para o lado durante as aventuras de compra e venda e restauro do imóvel, apareceu de novo com mais um projecto de taxar senhorios, vendedores e compradores (ou vice versa) para salvar a cidade do capitalismo turístico e invasor. Nisto de taxas, o BE não é peco. Digamos que leva a sério a herança do slogan “os ricos que paguem a crise”, o que só lhe fica bem: os bons filhos aos pais se assemelham.

 

No entanto, não posso deixar de me indignar com as tropelias que alguns (muitos, talvez, mas sempre uma minoria) senhorios actualmente cometem. E com a aparente bonomia de responsáveis, de autoridades que vêm o centro das cidades desertificar-se, perder as suas pequenas lojas tradicionais (exactamente na zona do Chiado já fecharam cinco livrarias, há mais três ameaçadas, isto sem contar com outros modestos negócios que davam carácter e verdade à zona.

Sei perfeitamente (também sou senhorio) que durante décadas, mais de meio século, os arrendamentos urbanos estiveram submetidos a regras rígidas que em boa verdade desgraçaram muitos proprietários e nem sempre ajudaram inquilinos necessitados. Nos anos setenta, era comum ver rendas inferiores ao que o inquilino gastava em telefone. Isso conduziu a distorções dramáticas que, em muitos casos tiveram um resultado péssimo. Uma vez desocupado o andar ou prédio, o senhorio não o voltava a alugar ou então pedia preços inacreditáveis. Paralelamente, o parque urbano habitacional degradou-se anormalmente e ainda hoje se verificam tais efeitos.

Com a rarefacção do mercado de arrendamento, verificou-se, em Portugal, uma corrida à compra de 1ª habitação e ao extraordinário endividamento das famílias (que ainda continua). Os inquilinos remanescentes perante o novo e alvoroçado afluxo de turistas e de alugueres de curta duração, estão sem defesa (ou com escassa defesa) contra os atropelos de proprietários.

Mesmo as regras que protegem inquilinoss idosos (mas que não protegem imuitos com vinte, trinta anos de aluguer caso não tenham 65 ou mais anos) atiram para os senhorios e não para o Estado (através de subsidiação das rendas aos cidadãos de baixos recursos) o ónus gravoso da propriedade sem (ou com escasso) rendimento.

Os “robles” & assimilados se na verdade quisessem proteger os cidadãos mais frágeis e o direito à habitação proporiam uma medida que de facto os protegesse e (pela concorrência) atenuasse a cupidez de senhorios. Os altos preços só são pedidos por o mercado do arrendamento estar rarefeito. Compete ao Estado criar habitação a preços controlados ou, na sua eventual falta, subsídios de habitação.

Tentar transferir para todos os senhorios (ricos ou pobres, individuais ou fundos de investimento) a responsabilidade social é um atropelo e nunca resolverá os problemas de quem é pobre e ignora os seus mais elementares direitos ou é frágil e não consegue defender-se das mil e uma formas de o desalojar.

Os auto-proclamados salvadores do povo não propõem soluções mas remendos. E estes, como é sabido, cedem pelas costuras...

 

Milhares de estudantes nas (provavelmente em todas) maiores cidades universitárias não conseguem alojamento digno, sequer sofrível, a preços justos ou, pelo menos não demasiado caros. Faltam residências universitárias e as promessas que vão sendo feitas atiram para daqui a três ou mais anos uma oferta de todos os modos escassa.

As Associações de Estudantes protestam, os senhores Reitores queixam-se, as famílias pagam e muitos estudantes desistem.

É evidente que a Universidade tem outros problemas igualmente importantes mas este atinge, como de costume, o elo mais fraco da cadeia de ensino.

Custa, pois, ver que numa gritante e estúpida maioria, se veja ruidosos cortejos de “estudantes” mascarados de capa e batina mal enjorcada, a passearem grupos de caloiros confusos, assustados, envergonhados ou desprotegidos que mais parecem rebanhos conduzidos por pastores brutos e imbecis (e brutos e imbecis são palavras meigas para aplicar aos cretinos e cretinas que por estarem na universidade há mais anos se arrogam o direito de dar este triste espectáculo).

A pontos de se poder dizer, quase sem receio de nos enganarmos, que qualquer estudante, macho ou fêmea de capa e batina, a ladrar ordens estúpidas ou insultos grosseiros a miúdos que acabam de chegar à universidade, que estamos perante uma demonstração de alarvidades, de canalhice e de proto-fascismo. Proto-fascismo, disse e repito. Mas isso incomoda pouco ou apenas ao de leve os profissionais da indignação que olham para o lado ou condenam com um leve sorriso. Ninguém quer pôr-se contra “ a Academia” nem ouvir as vaias de um grupo de raparigotas e rapazolas mal educados, mal formados mas perigosos.

Já não bastavam os tristíssimos cortejos das “queimas das fitas” que mal começam já trazem todos os festejantes bêbados como cachos, como se a regra de entrada na sociedade dos licenciados fosse a bebedeira, o alarido, o vómito avinhado e a graçola anormal.

O mais extraordinário é que tudo isto tenta imitar Coimbra sem sequer perceber que essa Coimbra, anulou em 1969, por “decretum” do Conselho de Veteranos todas as praxes de rua mormente as violentas (rapanço, unhas, etc...). Depois, e depois do 25 A, sublinhe-se, voltou a aparecer o imoderado uso da praxe mesmo se grande parte da violência física tenha definitivamente (e bem, muito bem) morrido. A igualdade de sexos trouxe as raparigas à praxe o que diz muito e mal da igualdade a custo conseguida. Agora “doutoras” e “caloiras” entram na roda da imbecilidade e do vexame sem perceberem o que isso tem de degradante.

Vi, há dias, nesse Chiado que evoco no título deste folhetim, uma matilha de estudantes “capa-abatinados” a conduzir um pobre grupo de caloiros e caloiras que cantavam uma qualquer burrice perante turistas espantados e portugueses eventualmente envergonhados.

Ora, em Lisboa e as restantes velhas e novas universidades, a capa e batina não se usava ou era motivo de espanto. Mesmo em Coimbra, a partir dos anos sessenta o uso do traje estudantil foi estiolando e só reaparecia com algum vigor durante a época da Queima ou das “latadas”. A própria batina (uma espécie de sobre-casaca) já era uma adaptação do antigo traje académico muito mais talar. O barrete caira em completo desuso e em toda a minha vida de estudante terei visto um, máxime dois. Quando me formei já era minoritário o costume de ir para o último exame de capa e batina. O “rasganço” era quase só uma vaga recordação. Mesmo na Faculdade de Direito bastião conservador e ninho de estudantes conservadores.

Agora, a capa e batina, o tal antigo “trajo democrático” que elidia as eventuais diferenças de berço e de fortuna do pequeno grupo que frequentava a Universidade (ideia ridícula pois todos vinham da elite...) é algo de caro enquanto os jeans e uma camisa ou camisola são, por excelência, elementos unificadores e muito mais baratos.

Ao alojamento caro, junta-se essa despesa quase sumptuária da capa e batina que, hoje só diferencia quem vai à Universidade de quem não vai (a elite, sempre ela...). E que, só se usa no início do ano escolar para chatear os caloiros e nas festas da queima. Como respeito pela inexistente tradição da esmagadora maioria das universidades é tão risível como a garraiada que pouco a pouco vai desaparecendo do programa da Queima.

Foi no Chiado, num dia de sol e calor, de turistas que nem sabem que contribuem para a rarefacção da habitação numa cidade barata para eles mas cara para estudantes e habitantes.

 

 * na gravura: estudante de Coimbra (sec XIX)

02
Out18

O leitor (im)penitente 208

d'oliveira

Nem todos os mortos são iguais

(lembrança de Fernando Fernandes, livreiro e homem de bem)

mcr 2.10.18

Conheci o Fernando Fernandes em 1959/60. A livraria “Divulgação” mais tarde “Leitura” ficava mesmo no meu caminho do colégio para a “baixa” do Porto (como aliás a “Académica” onde ainda pontifica o Sr.  Nuno Canavês, um alfarrabista de primeira água, o melhor do Porto e um dos três ou quatro grandes alfarrabistas que conheci ou conheço).

 Recordo o Fernando eventualmente porque a livraria que também era galeria organizou uma exposição de Ângelo de Sousa. Também isso lhe devo e à restante malta da “divulgação”.

A partir de meados dos anos 60, comecei a frequentar a livraria com assiduidade, tanta quanto me permitia a magra bolsa de estudante. E comprava livros, claro. Um pouco mais tarde, já casado e com muito maiores permanências na cidade, em casa dos meus excelentes e muito lembrados sogros, a Leitura (a Divulgação, fora-se num suspiro e reapareceracom o novo nome, já com a ajuda de Carvalho Branco). A partir de 1971, comecei a advogar e tinha o meu local de trabalho a duzentos ou trezentos metros. Razão mais que suficiente para me tornar presença diária na pequena tertúlia do fim da manhã. E assim continuei por muitos anos, mesmo depois de FF se ter reformado.

O Fernando Fernandes era, além de homem culto e interessado, um livreiro de mão cheia. Conhecia bem a clientela, mimava-a, percebia que se fornecesse a alguns clientes catálogos e publicações periódicas sobre a produção livreira internacional, mormente a francesa e a inglesa, isso teria como fruto mais e mais encomendas de livros estrangeiros. Recordo-me que mal recebia o “bulletin du livre” (sempre em três ou quatro exemplares) avisava um grupo de eleitos a quem emprestava por horas, ou um, dois dias a publicaçãoo. Recolhia em seguida um bom punhado de encomendas que pagavam largamente o seu investimento. Anualmente requisitava outros repositórios de edição que eram disputados e consultados pelo mesmo grupo de fieis que não se coibiam de assinalar com iniciais ou sublinhados os livros que lhes suscitavam o interesse. Desta forma também descobriu grupos de clientes com tendências semelhantes de tal modo que, quando um deles pedia um livro, logo ele telefonava aos restantes do grupo, avisando que ia encomendar tantos exemplares quantos fossem solicitados rapidamente. Eu, e seguramente outros, informávamos sobre recensões literárias em revistas e jornais igualmente estrangeiros e mais uma vez FF replicava a informação e suscitava o apetite nunca satisfeito dos leitores viciados.

À minha conta, comprei-lhe três ou quatro mil livros, se calhar mais.

Quando se anunciava ou pressentia uma edição mais surpreendente, cobiçada ou politicamente suspeita, o mesmo método de antecipação era usado e com êxito. A “Leitura” era, seguramente, uma das livrarias campeãs na venda de livros proibidos ou passíveis de o serem. Autores havia para os quais se usava um critério idêntico. Assim, o Herberto Hélder. Em suspeitando de uma nova obra, o Fernando fazia uma grossa encomenda e prevenia os eventuais interessados que não se faziam rogados. E era vê-los dia após dia, babando-se de prazer pelo livrinho que a volta do correio traria...

A livraria, ela própria, editava também um boletim mensal criteriosamente elaborado com centenas de referências. Quem tivesse tido paciência e inteligência teria hoje uma belíssima paisagem dp país literário e leitor. Mas ninguém pensava nisso, claro. E assim se perdeu (?) uma curiosa história da edição portuguesa da segunda metade do século XX (acrescentada, evidentemente, de uma boa informação sobre as edições em línguas mais próximas).

Os leitores compulsivos, entre os quais me incluo, sabem bem que não há nada como a visita constante às livrarias. E também nisso, a “Leitura” mostrava os seus galões. As montras, sobretudo, eram expositores não do autor da moda ou dos best-sellers (não quero dizer que fossem absolutamente ignorados) mas de muito jovem poesta ou novelista, de muito ensaio desconhecido que o generoso livreiro por si, ou a conselho de alguém, expunha.

Publiquei in illo tempore, um livrinho de crónicas. Em duas ou três semanas, o Fernando persuadiu, aliciou, quase uma centena de generosos e amáveis leitores que deram conta de quase 10% da edição.

(o mesmo,aliás, devo à Maria Helena Alves, na Havaneza da Figueira da Foz e ao Joaquim Machado fundador do império “Almedina”. A propósito, o Joaquim, que abrira uma sumptuosa livraria na baixa de Coimbra, era ainda mais atrevido que o Fernando. Volta e meia, em chegando à “Brasileira” (café saudoso e vagamente ressuscitado, recentemente) descobria um volumoso embrulho que me estava endereçado. Eram livros que o raposão do Joaquim achava que eu quereria. Duma vez, apareceram-me, além dos “Écrits Intimes” de Vaillant mais duas ou três obras de grande porte e preço s condizentes. Em francos a coisa ia muito para além dos cem o que eram mais do que eu tinha por mês para todas as despesas. –“Ó senhor Machado isto é muita areia para a minha camioneta, não lhe posso pagar...” – “Paga, paga, que eu espero” retorquiu-me o maganão. E paguei, claro, a duras penas, num sem número de prestações.

(Cabe aqui uma referencia a mais alguns enormes livreiros com que me cruzei: além dos já citados, honremos a memória de Domingos Lima (na Lello, Porto), José Vicente (Olissipo, Lisboa), Hipólito Clemente (Opinião. Lisboa) e a dinastia Perdigão, avô, filho e neto (Latina, Porto). E François Maspero (La joie de lire, Paris) Gente que sabia de livros, amava os livros, divulgava-os e respeitava os leitores. Morreram e ninguém os substituiu...)

Fernando Fernandes fez vida de livreiro, durante aproximadamente cinquenta anos. Creio que nesse quase meio século influiu mais, despertou mais gente, promoveu mais a cultura do que uma esmagadora maioria de agentes culturais que por aí pululam. Ainda recentemente, um farfalhudo grupo de criaturas entendeu dizer o que pensava de um futuro museu Com um outro que a propósito de uma exposição também entendeu mostrar-se à sociedade, perfaz mais de uma centena de criaturinhas de Deus. Todas juntas dão menos e mais rala sombra do que Fernando Fernandes, um homem discreto e sabedor que domingo morreu. Num último gesto, deixou o corpo a um instituto de anatomia patológica, furtando-se ao enterro. De certo modo, morreu muito pouco tempo depois da sua livraria que, em boa verdade, estava há anos entregue à bicharada. E os bichos, sabemo-lo todos os que amam os livros, são inimigos das bibliotecas.  

 

 

Unknown.jpeg

 

29
Set18

diário político 209

d'oliveira

images.jpeg

 

O Infarmed, uma comédia de enredos sem grande substância

d’oliveira fecit (27.Set.2018)

 

Este folhetim deveria chamar-se “Portugal no seu melhor” mas, mesmo que seja verdade, custa meter o nome do desgraçado país num caso que tem muito de farsa e pouco de graça.

Vejamos por partes.

Quando a Grã Bretanha entendeu sair da  U.E., começou a pensar-se para onde iriam as agências europeias lá sediadas. De entre elas, assumia especial relevância a do “Medicamento”. Muitos funcionários, muitos visitantes, muito dinheiro.

O Governo de Portugal, apesar de já cá ter duas agências, entendeu que poderia abichar alguma coisinha e candidatou Lisboa. De imediato, começou a chinfrineira do costume: que era tudo para a capital (o que é verdade...) que assim nunca mais se regionalizava (opção aliás já chumbada há uns anos), enfim o habitual.

O Governo, rapidamente fez uma pirueta e propôs o Porto.

O Norte profundo, melhor dizendo o norte litoral, melhor ainda o Porto, ronronou de felicidade. Nem pensou nas dificuldades previsíveis, na sua situação relativamente periférica, na falta clara e gritante de infra-estruturas disponíveis ou de outras comezinhas condições tais como estabelecimentos de ensino em número e qualidade (em língua inglesa, preferentemente), hotéis com capacidade para absorver os milhares de interlocutores da nova agência.

Até o prudente dr. Rui Moreira (que tem experiência de vida no estrangeiro) embandeirou em arco (ou fingiu...)

Como era previsível a candidatura morreu na praia. Amesterdão ganhou limpamente. Eu que lá demorei uns gloriosos três meses, em nada me espantei. A cidade é agradabilíssima, está no centro da Europa, perto de tudo e só perde para o Porto em horas de sol e calor. No resto, desde museus a escolas, parques a hotelaria, ou acessibilidade, ganha em todos os tabuleiros.

O Governo vestiu-se de rigoroso luto e, sem que nada o solicitasse sequer  sugerisse, lembrou-se de transferir para o Porto o Infarmed!

Logo nessa altura me perguntei como, porquê e quando. Em primeiro lugar as centenas de trabalhadores (de que uma forte percentagem é altamente qualificada) teriam de mudar de residência o que, com família, significava um esforço quase impensável. As escolas das crianças, os familiares na cidade, os amigos, a casa comprada (e eventualmente ainda não totalmente paga), as comodidades, os hábitos, enfim a vida, mudariam de alto a baixo. Para muitos –os mais qualificados – abria-se a possibilidade de sair para outros empregos disponíveis nos campos da saúde e farmacêutico. E isso significaria desguarnecer a instituição das suas mais valias. E um largo par de anos para a recompor.

Tenho a experiência suficiente e vivida de como uma súbita mudança de sede de uma instituição a enfraquece e destrói. Há vinte e tal anos, uma luminária da Cultura, o dr. Santana Lopes entendeu transferir a Delegação Regional do Norte para Vila Real. Pensando nas duas dezenas de funcionários desprotegidos, entendi (mesmo sabendo que me dariam um lugar tão bom ou melhor do que o de Delegado Regional) que teria de tornar claro o meu desacordo, demitindo-me.

A coisa processou-se aos trancos e solavancos, todos os funcionários recusaram Vila Real e foram amontoar-se em várias instituições locais. Três ou quatro técnicos superiores recusaram transferir-se e ficaram anos e anos em casa a receber o ordenado por inteiro. A delegação em Vila Real, mísera e mesquinha, acomodou-se numa cave qualquer e foi fenecendo. Dez aos depois até os Delegados começaram a funcionar no Porto, indo à província escassamente. A coisa está nesse pé: em Vila Real continua a “existir” uma coisa com dois ou três funcionários residentes e tudo o resto se trata no Porto. Com uma diferença: o capital de conhecimentos, relações institucionais, parcerias e confiança foi pelo cano e, com muito vagar, vai-se tentando recuperar. Um desastre cultural, institucional e, sobretudo, caríssimo.

O dr. Santana continuou nas suas tropelias, foi efémero 1º Ministro, caiu redondo ao fim de escassos meses de péssima governação, andou por aí e agora, como de costume, partiu a loiça e parece que fundou “uma coisa em forma de assim” (no estilo “concertos de violinos de Chopin”, por ele imortalizados para não dizer inventados).

Baseado neste minha experiência, nunca acreditei no Infarmed tripeiro. A deslocalização de uma instituição pública, recheada de funcionários públicos estava condenada ao fracasso. Ou melhor: nem sequer se punha a sua hipótese.

Parece que, perante o Parlamento, o Sr. Primeiro Ministro cinco vezes (cinco!) afirmou que o Infarmed estava de malas aviadas para o Porto. Em que se basearia S.ª Ex.ª para tantas e tão repetidas profissões de fé?

A pergunta é legítima porquanto, agora, à crua luz da realidade, o mesmíssimo e excelentíssimo chefe do Governo, veio (pasmem gentes!) dizer que se ele tivesse tendências autocráticas o infa-qualquer coisa já estaria a encher-se de tripas e francesinhas. Seriam as cinco (pelos vistos infrutíferas) anteriores declarações um grito de alma, uma confissão de um impetuoso desejo de governar como o antigo czar de todas as Rússias (aliás imitado, e mesmo ultrapassado, pelos restantes cavalheiros que lhe sucederam na governação daquelas imensas terras). Que terá, entretanto sucedido para agora confessar a sua decaída queda para a autocracia?

O dr. Rui Moreira, presidente da edilidade portuense apareceu nas televisões acusador e definitivo: que “ palavra dada – e nunca solicitada – deveria ser honrada”. Mas que, afinal, “tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou, corrigiu ainda o autarca, “tudo em Lisboa”.

Finalmente, os órfãos da “regionalização” apareceram em chusma bramindo que a única solução passaria por de novo fragmentar a pátria dos egrégios avós em regiões. Valeria a pena perguntar como é que num país de escassos dez milhões de criaturas se dividem, estes também escassos 89.000 quilómetros quadrados. Sobretudo quando nas duas grandes áreas metropolitanas, que apenas cobrem 6% do território, se acumula mais de metade dos portugueses

Eu sei que em Espanha, na Alemanha ou na Itália há regiões. Mesmo se com diferente sucesso. Em boa verdade só a Alemanha se pode gabar dos seus Länder. Na Itália, as regiões do Sul estão entregues às camorras, máfias, ndranghetta & similares enquanto no Norte prospera o nacional-populismo de resultados cada vez mais visíveis. Em Espanha inventaram-se tantas autonomias quanto possível para afogar as tendências irredentistas de algumas “nacionalidades” mais ou menos (menos que mais, é bom reconhecer) históricas. Os custos da divisão tem sido financeiramente medonhos e os êxitos escassos. Em França, depois da criação presunçosa de uma miríade de regiões diminui para menos de metade o seu número por se verificar que os gastos eram muitos e os benefícios para a população raros enquanto o velho centralismo napoleónico e republicano não permitia um grande desenvolvimento regional. De todo o modo, houve instituições (académicas, militares, p.ex,)   que abandonaram Paris e se estabeleceram alhures na "província".

Por cá, por exemplo, os três tribunais superiores que os respectivos juízes frequentam apenas para a sessão semanal poderiam há muito estar distribuídos por Coimbra, Évora, Viseu ou Aveiro. No primeiro caso, há, de pé, edifícios históricos, os colégios da Rª da Sofia onde qualquer destas instituições caberia com largueza. E talvez isso impulsionasse a reocupação pública e nobre dos restantes... Por outro lado, criam-se com facilidade exagerada “altas autoridades” para isto e aquilo ou quase nada. Porque deverão sediar-se em Lisboa? Por exemplo essa nóvel comissão para os fogos de floresta. E por aí fora...

Agora, agarrar numa estrutura pesada, consolidada, com centenas de trabalhadores (ainda por cima da função pública ou algo do mesmo teor e dificuldade em movimentar) não lembra ao careca. Lembrou ao dr. Costa que, aliás, ainda tem bastante cabelo. Antes o tivesse perdido estudando com mais cuidado os dossiers e as promessas. Agora cai-lhe tudo em cima.

E é bem feito!